Manifestações do sagrado na Pré-História do Ocidente ... ?· Pré-História do Ocidente ... que…

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  • 165REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183

    R E S U M O Nesta srie, onde se tem tratado maioritariamente de placas de xisto gravadas, e antes

    ainda de dois estudos sobre as placas CTT e as placas com Olhos de Sol, aborda-se um tema

    importante para a discusso em torno ao significado das placas, que algumas leituras fun-

    damentalistas pretendem centrar na no-humanidade das representaes. Mas tal como

    temas do complexo judaico-cristo, cujas representaes nem sempre se fazem na ntegra,

    as representaes da divindade feminina presente nas placas de xisto gravadas (e nas de

    grs) apresentam uma grande diversidade de componentes grficos. E em todas as com-

    posies, e nos diversos grafismos, a imagem antropomrfica ou divina, que no tem de

    ser sempre necessariamente antropomrfica, constitui uma constante. Diversificada, mas

    presente, e por vezes de forma bem explcita.

    O argumento principal do autor reside em no se ver razo para, considerada a relativa

    homogeneidade de concepo das placas, reconhecer em umas a presena da divindade e

    em outras no.

    Entre os exemplos escolhidos contam-se placas provenientes da Anta Grande do Zambu-

    jeiro, das Antas da Mitra e do tholos do Escoural, todas inditas e objecto de um projecto de

    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular5. O explcito e o implcito. Breve dissertao,invocando os limites fluidos do figurativo,a propsito do significado das placas de xistogravadas do terceiro milnio a.n.e.

    VICTOR S. GONALVES1

    Tudo deve ser discutido, at mesmo o que nos parece absurdo

    Mxima muito em voga nos anos 80 na UNIARQ

    Mas convm no exagerar!

    Correco mxima anterior, em incios do sculo seguinte

    Para a Ana Constana, que ao meu colo foi

    lendo este texto, medida que ia sendo escrito

  • investigao em curso pelo Grupo para o estudo das nossas antigas sociedades camponesas, um vec-

    tor de investigao da UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa).

    A B S T R A C T The schist engraved plaques of the third millennium have been the subject

    of some recent studies. Two papers are in print, one about the CTT plaques, and another

    about the representations of the Goddess with Sun eyes. This one presents the arguments

    about the anthropomorphic meaning of the plaques, discussing the explicit and the implicit

    in the key motifs. All of them concerning a Goddess, sometimes in the later days presented

    with eyes with a solar shape.

    The plaques presented here have never been published before in a scientific way and now

    they have been drawn directly from the originals by a team that studies the ancient peas-

    ant societies of central and southern Portugal and their relationships with the West of the

    Iberian Peninsula.

    Limiar

    Os anteriores artigos de esta srie, Gonalves, 1989b, 1997, 1993, 2003a, visavam uma tran-quila, e no necessariamente regular, sequncia de comentrios em relao ao ttulo comum. Temapouco tratado em Portugal, com a devida vnia aos antigos textos de Jos Leite de Vasconcellos eoutra, bem menos pronunciada, ao de Manuel Heleno, a ideia era ir expondo e discutindo situa-es em que a presena do sagrado fosse evidente ou, no o sendo, tivesse gerado comentrios ina-dequados natureza dos dados do segmento arqueolgico do mundo real que actualmente pos-sumos.

    Se algum dia reunir esta srie em livro, ser lgico que o dedique a Andr Leroi-Gourhan,que marcou os meus primeiros anos de ensino universitrio. A conversa que tive com ele em Paris,no Vero de 1972, ou a leitura de As Religies da Pr-Histria (que prefaciei na edio portuguesa),muito contriburam para sucessivas referncias ao pragmatismo na interpretao do subsistemamgico religioso das diversas sociedades, e ao apelo ao bom gosto e ao bom senso, que por vezesfao em passagens porventura mais polmicas do que escrevo.

    Independentemente das experincias ou alucinaes colectivas, o acto religioso tem obvia-mente que ver com a experincia individual e com a relao do indivduo com o mundo. O sagradotambm e, para algum to estruturalmente laico como eu, traduz respeito, sentimento e sm-bolo, associados.

    As relaes dos Hopi ou dos Navajo com o espao ou a paisagem, dos Achilpa com o seuaxis mundi, de Conan o Brbaro com a sua espada ou de Lucky Luke com o seu cavalo (sem dvidamais inteligente que ele) no podem ler-se num esquema completamente concreto ou absolu-tamente abstracto. Integram-se em mundos perdidos, quer sejam reais ou ficcionais. E mau que alguns arquelogos que se supem teorizadores da Arqueologia nacional s leiam ensaiose no romances. H mais vida num texto de Proust, Ambrose Bierce, Boris Vian ou VzquezMontalbn (ou no inspector Hieronymus Bosch, de Connelly) do que certamente conseguiriamsuportar

    assim, como sempre, com numerosas reservas partida, que esta srie comeou, foi inter-rompida e recomeou. Era um projecto antigo, sempre adiado, quando saiu o texto do Almansor,em 1987, e mesmo depois dele as questes foram-se acumulando e acabaram por ter vida prpria,

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

  • em outros contextos, como os ritos de intermutao da pedra polida (Gonalves, 1999) ou a revi-so das estruturas morfolgicas e da prpria cronologia absoluta do megalitismo com placas dexisto gravadas (Gonalves, 2003c, no prelo e em curso). Os artefactos votivos de calcrio e os ritosdo ocre vermelho so objectos antigos presentes em lista de espera, mas os ritos de magia negrada Sala n. 1 (Pedrgo do Alentejo) esto apenas dependentes de oportunidade e as placas dexisto gravadas voltaro com situaes envolvendo, para alm das Placas CTT e das Placas comOlhos de Sol, conjuntos inditos que o Vector 3 do Grupo para o estudo das nossas antigas sociedadescamponesas tem vindo a estudar.

    A questo das cronologias e a da prpria perdurao do uso dos monumentos ortostticosesto tambm associadas (Gonalves, 1989, 2003a).

    Agradeo aos directores e conservadores dos Museus Nacional de Arqueologia (Lus Raposoe Ana Isabel Santos) e de vora (Joaquim Caetano e Manuel Alegria) o encorajamento e incondi-cional apoio, no caso do primeiro, e as facilidades de estudo e a compreenso, no caso do segundo. Fundao Calouste Gulbenkian (Servio de Belas Artes) e Cmara Municipal de vora, o apoiofinanceiro indispensvel para o arranque, j em 2003, do estudo das placas de xisto gravadas dalinha vora-Montemor. E a Andr Pereira e a Marco Andrade a eficcia dos seus desenhos e a pro-verbial disponibilidade com que tm vindo a colaborar neste e noutros projectos, partilhando aadopo emblemtica de um dos princpios fundadores do esprito da UNIARQ (O que h parafazer, faz-se. O resto logo se v, mas tambm no demora).

    Contrariamente ao que seu hbito, o Autor adverte que, dada a natureza dos projectos em curso, e queenvolvem as placas desenhadas e comentadas, se invoca a legislao europeia e portuguesa de copyright,sendo interdita a reproduo de estas imagens at sua publicao final.

    1. O que est explcito nas placas de xisto gravadas

    1.1. O contorno de uma figura antropomrfica

    Digamos que as placas de xisto gravadas apresentam componentes grficos explcitos e deinterpretao quase indiscutvel (como sabemos, nada o , em absoluto). Uns mais que outros, certo, mas todos ligados por referncias imagticas claras.

    As placas recortadas, com indicao explcita da Cabea e Ombros, representam uma dasmais claras indicaes da configurao antropomrfica de este grupo de artefactos ideotcnicos.Independentemente da natureza dos motivos dominantes no corpo da placa tringulos pre-enchidos ou no, ziguezagues... o simples recorte da placa no seu topo, a marcao mais oumenos pronunciada dos Ombros, e a consequente diferenciao da Cabea, tornam estas placasde uma interpretao indiscutvel e unvoca. Tive muito recentemente oportunidade de observarque O recorte das placas funciona assim, evidentemente, como um potencializador da carga antropomrficasubtilmente escondida nos motivos geomtricos. uma situao rara, mas no por isso que pode serevocada como uma situao diferente. O facto de ser estatisticamente minoritria no implicaque estas placas representem efectivamente a Divindade e as outras no, o que seria completa-mente absurdo, se tomarmos em conta todos os partilhados componentes da simblica (Gon-alves, 2003c, p. 260).

    As variantes, numerosas, das placas recortadas referem-se s diversas formas de representara Cabea, e todas elas esto conectadas com a definio dos Ombros.

    Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

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  • 1.2. Os Ombros

    Algumas placas apresentam um recorte prprio, obtido ou atravs de curtos entalhes ou derecortes, definindo uma figura com ombros direitos ou oblquos. Nas figuras dos dolos alme-rienses esculpidos em osso ou xisto, os ombros so sempre oblquos, s vezes mesmo muito obl-quos. Nas figuras dos dolos almerienses incisas nas placas de xisto gravadas, pelo contrrio, osombros so sempre direitos.

    No h nenhuma explicao mstica para este facto. As regras da composio dos compo-nentes geomtricos das placas de xisto gravadas determinam que a figura do dolo almerienseseja representada pela juno pelos vrtices de dois tringulos preenchidos, que formam um corpo.A cabea, um tringulo de vrtice para baixo, colocada naturalmente sobre o corpo.

    Para um observador cptico, a juno de dois tringulos pelo vrtice que representa o corpode um dolo almeriense, no significaria absolutamente nada. Para um calcoltico bastariapara um imediato reconhecimento. No por ser particularmente inteligente, mas porque conhe-cia o contexto a que a imagem truncada o reenviava. O facto de ela estar truncada no o inco-modava, uma vez que a completava mentalmente por estar imerso na sua contextualidade.

    Nada de estranho nisto: a representao integral de um Cristo no necessria a um cristo.Basta-lhe dois traos cruzados: o suporte para os ps, a legenda INRI, as cordas, os pregos e o pr-prio Cristo so dispensveis. Esto implcitos para um crente. O que no naturalmente verdadepara um habitante de Alfa do Centauro ou de Tau Ceti, nem mesmo para um budista, um taostaou um muulmano sem contactos visuais com o universo dos smbolos do cristianismo.

    1.3. As perfuraes-Olhos

    As perfuraes so obviamente funcionais: destinam-se a permitir a passagem de um fio desuspenso que penduraria a placa do pescoo do morto (ou do vivo, como no caso quase nico daplaca da sepultura do feiticeiro, na Cova das Lapas, Alcobaa). Como propus em 1992, a ausn-cia de perfuraes, que no incomum, poderia traduzir deposies secundrias (ou selectivas).

    Mas em certos casos as perfuraes surgem muito prximas e a sua execuo muito cuidadapoderia sugerir tratar-se efectivamente, tambm, de representaes de olhos. A sua coordenaocom a Cabea, no que por vezes pode ser considerado como uma verdadeira paginao simblica, outro ponto que no deve ser deixado em branco.

    1.4. Os falsos Olhos

    Em algumas placas, tanto da Pennsula de Lisboa como do Alentejo, surgem, na rea cor-respondente Cabea, duas depresses cupuliformes, os falsos olhos.

    Parece evidente o que significam, pela sua localizao especfica, mas o que sobressai a suaabsoluta no funcionalidade. No serviriam assim rigorosamente para nada, a no ser, obvia-mente, para sugerir os Olhos da Deusa

    O exemplar de Alapraia 2 (Gonalves, 2003d, p. 131, Fig. 4.6 (2) e Ests. 20 e 21) uma evi-dncia tambm dos acrescentos que so, por vezes, a verdadeira natureza dos falsos Olhos.

    Com efeito, e tal como algumas, mas no todas, das representaes explcitas de Olhos soacrescentos a placas pr-existentes, acrescentando-lhe os novos atributos da Deusa (um pouco

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

  • maneira dos reaproveitamentos de placas, em que muitas vezes se procura manter uma refern-cia precisa do original, e em outras no) este o caso dos falsos Olhos, com possibilidades ml-tiplas. No caso da placa de Alapraia 2, uma gruta artificial, so evidentes aplicaes sobre umaplaca anterior (quanto anterior , naturalmente, impossvel saber).

    1.5. Os Olhos de Sol

    As figuraes explcitas dos Olhos tm, ainda assim, sendo-o, duas Variantes principais, aprimeira a dos Olhos simples e a segunda a dos Olhos de Sol.

    Trata-se de uma ou de duas divindades?No sei se alguma vez poderemos responder tranquilamente a esta questo. Basicamente,

    diramos que h Olhos simples e Olhos de Sol, estes ltimos com diversos processos grficos deindicar a radiao.

    Como veremos em texto prximo (o j anunciado Reflexos nuns Olhos de Sol), a formaainda hoje usada para representar um olhar penetrante, como o do mocho ou o da coruja, divergemuito, de acordo com a concepo do pintor, desenhador ou escultor. Os grandes olhos no pre-cisam de radiao, talvez por a sua dimenso a substituir. Os pequenos possuem raios simples oude traos quebrados ou ondulantes, particularizando o efeito radiante. No caso da radiao par-cial, a representao poderia ser confundida com uma representao das pestanas, o que pareceapesar de tudo pouco provvel.

    Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

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    Fig. 1 Falsos-Olhos na placa de Alapraia 2. Aparentemente tanto a perfurao central como as perfuraes intencionalmenteinacabadas, os falsos Olhos, foram feitas depois da gravao da placa. Mais uma vez, impossvel saber quanto tempo depois,se logo a seguir, e de forma integrada na sequncia operativa, se num reaproveitamento funcional da placa.

  • Associei por diversas vezes a representao dos Olhos de Sol metalurgia do cobre, ao papelinspiracional do fogo (Gonalves, 1980) e falei dos novos atributos da Deusa, perguntando-mese seria a mesma ou uma Outra. Na verdade, no existem outros elementos que justifiquem reto-mar uma discusso por agora ainda de resultados duvidosos.

    1.6. O colar

    Uma das situaes mais claramente explcitas emalgumas poucas placas (tal como, alis, em algumasestelas do sul de Frana) a representao de um colar.

    bvia na placa de Alcobaa (Gonalves, 1978),ou na placa de Vega del Guadancil, essa representa-o est presente nas duas faces da placa de Cabaci-nhitos (vora), de forma tambm difcil de interpre-tar de outro modo.

    O colar da Deusa, que significativamente a Deusasumria Inanna v ser-lhe retirado em ltimo lugar(e devolvido em primeiro), na sua descida aos Infer-nos, surge como uma representao especfica depoder e a sua presena figurada (e no apenas suge-rida) refora o conjunto simblico.

    1.7. O sexo e a rea inferior das placas

    A representao explcita do sexo uma ques-to controversa, uma vez que, numa anlise bsica, otringulo simblico, correspondendo zona pbica,tanto poder ser masculino como feminino. Mas sendoa representao masculina habitualmente indicadapor um outro componente anatmico, bem maisexplcito, a representao de um tringulo com o vr-tice para baixo surge na imagtica do terceiro mil-nio de diversas formas, uma delas inconfundvel:

    1. preenchido por linhas convergentes, horizontais, oblquas, intersecantes;2. preenchido por pontos (que na cermica simblica so muitas vezes incrustados por pastabranca, de forma a reforar o contraste);3. marcado por um trao vertical, indicando os grandes lbios.Esta ltima escolha dispensa comentrio, sendo difcil encontrar mais explcito simbolismofeminino.

    Nas placas de xisto gravadas detectaram-se, por vezes, representaes bizarras no lugar teo-ricamente correspondente ao sexo. Uma delas levou mesmo um conhecido paleontlogo e arque-logo a confundi-la com a representao de um sexo masculino em ereco, o que j referi ser

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

    Fig. 2 Placa de Vega del Guadancil (Leisner e Leisner,1959, Est. 55 #2). Nesta placa, gravada nas duas faces,so visveis Ombros quase direitos e a fina moldurada Cabea trapezoidal constitui, direita, a voltainterior do Colar da Deusa.

  • absurdo, mas o caso da placa da Anta Grande da Comenda da Igreja diferente, uma vez que acomplexidade dos motivos e a sua associao a linhas estruturantes do grafismo exige outra an-lise, desta vez exaustiva. E para os seguidores fiis e incondicionais dos desenhos dos Leisner,invoca-se naturalmente aqui a diferena entre o desenho que eles divulgaram (Leisner e Leisner,1959) e a verdadeira representao que a placa apresenta. E antes de publicarmos o nosso prpriodesenho, ilustramos fotograficamente essa realidade, com comentrio em legenda.

    Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

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    Fig. 3 1: Imagem da parte inferior da placa da Anta Grande daComenda da Igreja, com inverso em Photoshop 7. 2: Destaque para as trs figuras escutiformes do centro da base da placa. 3: Desenho damesma placa em Leisner e Leisner, 1959, Estampa 27 #61.

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  • 1.8. O jovem Deus

    A figurao do jovem Deus, que surge em placas como a do Bugio de forma explcita (Gon-alves, 1970; Cardoso, 1992), ou de forma estilizada nas placas da Pennsula de Lisboa ou da Anta2 da Mitra (vora, figuraes inditas em estudo por Jorge de Oliveira) s pode naturalmente ler--se se escolhermos a interaco de todos os componentes da simblica, para mim bvia no com-plexo mgico religioso onde as placas de xisto gravadas emergem. Isolada (como nas figurinhasde osso ou xisto do Alentejo ou da Pennsula de Lisboa) tem naturalmente um significado, refor-ado na sua associao explicativa pela presena da Deusa, de onde deriva. Repare-se que as figu-rinhas a que fao referncia, o dolo chato ou almeriense dos Leisner, no se devem confun-dir, numa anlise fina, com as placas recortadas, ainda que algumas se lhe assemelhem. Masindiscutivelmente que existe uma relao conceptual que permite o reconhecimento imediato dasduas realidades. De onde a opo assumida na monografia de STAM-3 (Fig. 103, p. 258).

    2. O que est implcito nas placas de xisto gravadas

    Se uma coisa no se v, h boas explicaes para isso. Primeira delas: no existe. Em alternativa: somos ns que a no vemos.Mas no vermos uma coisa no quer necessariamente dizer que ela no existe. Podemos ape-

    nas no a ver por ela estar escondida por outras, tal como uma nota pode ser abafada por umapassagem mais complexa da partitura. Ou simplesmente no ser audvel por insuficincia da apa-relhagem com que a escutamos. Ou por defeito do disco. Ou por sermos surdos a certas fre-quncias, demasiado agudas ou graves para os nossos parmetros auditivos.

    Podemos ainda ver uma coisa sem a vermos realmente (isto : sem a entendermos), quandonos falta o contexto indispensvel sua explicao ou entendimento. E esta talvez a situaomais frequente em Arqueologia.

    O problema que dois paus cruzados podem ser apenas dois paus cruzados, ou um smbolonuclear do cristianismo, que est longe de ser um complexo mgico religioso simples.

    Um homem crivado de setas pode ser a representao de uma execuo ou de um heri mticoabatido. Os catlicos vem-no amarrado a um tronco e chamam-lhe S. Sebastio e tem uma outrahistria. Os protestantes e os muulmanos tm dificuldade em entend-la e sobretudo no com-preendem a fora das imagens que o catolicismo absorveu de um passado mediterrnico que lhe muito anterior.

    O implcito exige um contexto para ser entendvel. Em Arqueologia, os contextos s soconhecveis, e ainda assim nem sempre, nas sociedades com escrita.

    2.1. A Cabea e o Corpo (nas placas no recortadas)

    As placas de xisto gravadas apresentam-se com uma considervel diversidade de gesto dosuporte bem como da organizao e interaco dos componentes da gravao.

    Como escrevi recentemente (Gonalves, no prelo), numa dada perspectiva, a da organizaodo espao gravado, vrios tipos de construo imagtica de este espao, o da face (ou faces, quandoambas so gravadas) so possveis de reconhecer imediatamente (outras perspectivas podem pro-duzir, naturalmente, outras ordenaes por categoria).

    Victor S. Gonalves

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  • A primeira grande categoria a da face da placa tratada como um todo nico, sem qual-quer compartimentao funcional a nvel de interpretao como campo de significado pr-prio. O suporte preenchido por bandas com tringulos, por faixas ziguezagueantes, por moti-vos de classificao problemtica, ou segundo o processo, raro, mas bem documentado, dasimetria radiante, em que os motivos partem de um ponto mais ou menos central da placa.

    A segunda grande categoria a das placas que apresentam duas reas bem definidas eseparadas por indicadores mais ou menos complexo, as que designamos por Cabea e Corpo.A Cabea habitualmente indicada numa rea de cerca de 1/3 da altura total da placa (aindaque esta medida varie muito), coincide com as perfuraes para suspenso e geralmente com-posta por um motivo central, maioritariamente triangular ou trapezoidal, com o vrtice parabaixo no primeiro caso, ou com o lado menor para baixo, no caso do segundo.

    Uma simples linha, uma, duas, trs, muitas faixas, geralmente preenchidas, definem a sepa-rao. significativamente nesta rea (como no poderia deixar de ser) que so gravados osOlhos Solares, radiantes ou no, coincidindo s vezes, mas nem sempre, com as perfuraes

    O Corpo da placa, nesta categoria, exactamente onde se localiza o que designei pormotivo dominante: geralmente tringulos (de diversas tipologias), linhas ou faixas zigue-zagueantes.

    O fim da placa marcado apenas s vezes por uma ou mais faixas com preenchimentosdiversos, mas as sequncias de tringulos, por vezes articulando-se com o motivo dominanteso tambm bem conhecidas.

    Em alguns casos, o Corpo da placa apresenta ainda, para alm do motivo dominante,smbolos complementares. Est em estudo essa situao, at agora nunca tratada na biblio-grafia especfica das placas.

    2.2. Pinturas ou tatuagens faciais

    A rea da Cabea das placas frequentemente tratada em trs campos, com preenchimen-tos mltiplos e definies diversas. A mais simples das compartimentaes a das placas quedesignei por CTT (Placas de Cabea Tripartida, Gonalves, 2003b), em que a rea dividida pordois traos finos, definindo trs tringulos, vazio o central (de vrtice para baixo) e preenchidosos dois que o ladeiam. Os mesmos trs campos apresentam, porm, na maioria dos casos conhe-cidos, outra organizao e o campo central muitas vezes um trapzio alongado. Nos camposlaterais aparecem ento, frequentemente, faixas preenchidas que vo do horizontal ao muito obl-quo. No parece muito arriscado associ-las aos motivos tpicos da face das figuraes da Deusacom Olhos de Sol, quer sendo o seu suporte a cermica, o calcrio ou o osso. Essas linhas ondu-lantes ou ziguezagueantes, que sistematicamente designo por pinturas ou tatuagens faciais (impossvel escolher), tm a mesma arrumao espacial que as das placas de xisto gravadas, masaqui trata-se de uma simples proposta, no da interpretao firme que aquelas representaespermitem no contexto especfico da Deusa dos Olhos de Sol.

    2.3. A simbologia do sexo: tringulos de vrtice para baixo

    Os tringulos de vrtice para baixo contrastam, nas placas, com a grande maioria, os trin-gulos preenchidos com o vrtice para cima. De onde, e pela localizao que lhes dada intencio-

    Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

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  • nalmente, se poder atribuir-lhes um significado conexo simbologia feminina. esse certamenteo seu sentido em alguns casos, ainda que talvez existam situaes em que esta interpretao parecemais discutvel.

    3. Alguns comentrios sobre placas com antropomorfismo explcito ou implcito

    Nota sobre as referncias: MEV Museu de vora; MNA: Museu Nacional de Arqueologia. As placas de xisto gravadas do Museu de vora provm ou de escavaes clandestinas (Coleco do Grupodo Hospital) ou, no caso das placas da Anta Grande do Zambujeiro, das escavaes de Henrique LeonorPina e, posteriormente, de Carlos Tavares da Silva. A maior parte das placas do Museu de vora temindicao de origem fivel (s vezes mesmo notaes sobre a sua localizao no monumento), mas asprovenientes das duas antas da Mitra no esto registadas com indicao especfica, havendo forte pos-sibilidade de as no assinaladas corresponderem ao monumento Mitra 2. As placas do MNA aqui refe-ridas provm das escavaes de Manuel Farinha dos Santos no tholos do Escoural e esto tambm, pre-sentemente, em estudo. A placa da Anta Grande da Comenda da Igreja est igualmente integrada noacervo do MNA.

    3.1. As placas de xisto gravadas com motivos geomtricos, mas com simulaes de face (Anta Grande do Zambujeiro MEV-Z-4777 e Tholos do Escoural MNAE 1. T. E. 1.79.34)

    As duas placas objecto de esta nota so exemplares de dimenso grande, com alturas res-pectivamente de 19,7 e 17,2 cm, ambas com a morfologia trapezoidal comum em muitas pla-cas, a primeira com cantos nitidamente arredondados, a segunda com ngulos mais pronun-ciados.

    A razo por onde comear pode buscar-se numa perspectiva natural em Histria de Arte:num artista, as caractersticas de uma das suas fases podem encontrar-se sob forma gestaci-onal nas anteriores. Ou: uma forma, um motivo ou um tema tem evoluo interna a partir domomento em que surge no imaginrio, raramente permanecendo bloqueados nas suas formasde partida (ou, se tal acontece, por a sua durao ter sido curta). Apenas para citar um casode arte contempornea, Jlio Pomar geometriza componentes das suas telas, antes de os vir aintegrar nelas, numa fase subsequente, como componentes colados, o que facilitado pela tran-sio do discurso entre o geometrizado e o recortvel. um caso a quase 5000 anos das placas,mas que ilustra o que quero dizer.

    Nas duas situaes, a estrutura clssica da Cabea das placas deliberadamente alteradano que se refere ao seu componente central.

    O tringulo (ou o trapzio) que marca o centro da composio substitudo, no caso daplaca da Anta Grande do Zambujeiro, por um pequeno tringulo enquadrado no topo e noslados. Mas a reduo de tamanho no afecta a sua posio central e as duas perfuraes-Olhosdescem igualmente. Poderiam ter sido feitas nos espaos disponveis no topo da placa, mas ao tringulo perdia a sua referncia antropomrfica e o talhador da placa no quis correr esserisco: colocou-os exactamente onde eles poderiam ainda ser funcionais para suspenso, masmantendo a sua funcionalidade na interpretao. uma situao cristalina.

    No caso da placa do tholos do Escoural, o pequeno tringulo-face substitudo por umcampo de forma subquadrangular, ele tambm enquadrado, agora dos lados, no topo e na base.

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

  • Mas as duas perfuraes assentam nos ngulos superiores de este campo e mantm o aspectode perfuraes-Olhos. O aspecto antropomrfico est garantido por um aparentemente des-necessrio acessrio, as perfuraes duplas, mas cuja funo activa na interpretao do con-junto importante.

    Estas duas placas, pertencentes a um grupo que, em termos interpretativos, poderamosdesignar como de faces retradas, so dois exemplos, entre outros possveis. Estando at agorainditos, so novos elementos para uma eventual discusso inteligente (e nem todas infelizmenteo podem ser, considerados alguns dos possveis intervenientes) em torno s sempre polmicasquestes relacionadas com a interpretao de smbolos de contextos perdidos.

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    Z-4777

    Fig. 4 Placa da Anta Grande do Zambujeiro. Sobre um Corpo cujo motivo dominante so as faixas ziguezagueantescompartimentadas por guide lines, a pequena face triangular enquadrada e com as perfuraes indicando os Olhos.

  • 3.2. Comentrio a duas placas com gravao geomtrica e Olhos de Sol (Antas da Mitra, MEV-MTR-55/244 e Tholos do Escoural MNAE 1. T. E. 1.79.140a)

    As placas com Olhos de Sol distribuem-se por tipologias muito diversificadas quanto aosmotivos dominantes, mas, compreensivelmente, neste contexto, s a forma de desenhar a repre-sentao dos Olhos, solares ou no, nos interessa. E o que evidente a extensa distribuio geo-grfica de formas de representao idnticas. Poderamos escolher vrias, mas o tema ser exaus-tivamente tratado no stimo texto de esta mesma srie (Reflexos nuns Olhos de Sol). Aqui eagora veremos apenas como, a alguma distncia (vora Montemor-o-Novo) se repete uma formaabsolutamente idntica de representar o mesmo smbolo.

    Uma das formas de representar os Olhos Solares a gravao de um pequeno crculo comraios curtos partindo dele. As placas da anta da Mitra e do tholos do Escoural so de dimensogrande, a da Mitra com uma altura de 21 cm e a do Escoural presumivelmente no muito menor.

    Na placa da Mitra, o Corpo apresenta-se compartimentado e organizado em duas reassequenciais, ambas com linhas verticais auxiliares de paginao. O que alis serviu de pouco ao

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    1 T.E.1.79.34

    Fig. 5 Placa do tholos do Escoural. Nesta rara placa, a representao da face assume uma formulao muito pouco comum e asperfuraes-Olhos marcam os dois topos da figura central.

  • gravador, que ocupou ambas reas com faixas ziguezagueantes preenchidas que no se articulamentre si. No entanto, a notvel rea superior do corpo de esta placa apresenta dois escutiformessimtricos, com campo aberto a separ-los. Esta representao ser reconstituda no desenho defi-nitivo da placa, que uma alternativa complementar ao que aqui se avana desde j.

    A placa do tholos do Escoural parece ter comeado a ser gravada quase como se de uma placaCTT se tratasse, mas a gravao no continua para baixo e bandas com tringulos preenchidoscom o vrtice para cima sucedem-se-lhe aps uma banda vazia. Apesar de parte das placas de xistogravadas do tholos ter sido publicada (Santos e Ferreira, 1969), no se conhece referncia a estefragmento, sabendo-se apenas que ele integra o vasto conjunto recolhido no monumento e queest agora a ser revisto.

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    MTR 55/244

    Fig. 6 Placa com Olhos de Sol das antas da Mitra. O Olho solar numa das suas representaes tpicas e inconfundveis. Chamoa ateno para os dois escutiformes do topo do Corpo da placa, outra figurao rara. No desenho integral reconstitudo de estaplaca, a publicar na monografia, tentou-se a reconstituio integral do motivo.

  • As placas de xisto gravadas com motivos solares presumidos de origem (isto : concebidoscomo parte integrante de uma gravao inicial da placa) so, no geral, objecto de uma gravaomenos ordenada que as simplesmente geomtricas, facto que tambm se verifica em algumas pla-cas recortadas. Mas, para no suscitar erros de leitura, seria com dificuldade que falaramos deplacas menos cuidadas. Parece-me antes que a nova fora simblica no reside aqui nos padresabstractos, mas nos prprios Olhos de Sol, sendo assim negligenciado o acabamento global, umavez perfeitamente dominante o significado dos Olhos solares.

    3.2. A placa recortada das antas da Mitra (MEV-MTR/110/110-C.H.ME-5229 (NP)

    Uma entre muitas placas recortadas j divulgadas, e recordo a muito recentemente publi-cada placa proveniente da anta 3 da Herdade de Santa Margarida (STAM-3, J.8-667, Gonalves,2003c, nomeadamente p. 176 a 195, Figs. 87 e 88, 125 e 126), a placa proveniente da Herdade daMitra tem ombros bem definidos, obtidos por cortes oblquos, a Cabea trapezoidal decorrentede este tipo de recorte e uma nica perfurao, centrada.

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    ZP-401 T.E.1.79.140.a

    Fig. 7 Placa com Olhos de Sol da Anta Grande doZambujeiro. Outro tipo de figurao dos Olhos Solares,desta forma usando componentes concntricos e umponto central. Para que a radiao se no confundissecom as sobrancelhas e as pestanas, tambmrepresentadas sobre cermica e osso, os lados do campodisponvel foram igualmente gravados.

    Fig. 8 Placa com Olhos de Sol do tholos do Escoural. O mesmotipo de representao da placa das antas da Mitra.

  • O Corpo da placa est parcialmente danificado, mas reconhecem-se com nitidez trs sriesde tringulos preenchidos diferenciadamente, as duas primeiras com vrtices par a cima e terceiracom vrtice par baixo.

    Nos tringulos visveis, apenas um foi preenchido com quadrcula (Banda 2, # 2), tendo osrestantes linhas convergentes para o vrtice, um processo tambm usado na placa de STAM-3.

    Tal como em outras placas recortadas, a sugesto da imagem bvia, os motivos do Corpoacessrios.

    3.3. A placa recortada, moldurada e com Colar, da anta de Cabacinhitos (MEV-CBC/12/26-C.H.ME-5138 (NP)

    Ainda que a matria-prima de esta placa no seja exactamente o xisto, trata-se de uma formacom particularidades notveis, que surge associada, no monumento, a outras tambm notveisplacas de xisto gravadas, uma das quais igualmente uma placa recortada.

    Ambas faces foram gravadas, sendo praticamente impossvel escolher qual delas a princi-pal. A altura, 21,7 cm, grupa esta placa na categoria das maiores, mas o que particularmenteinteressante o jogo da altura com a largura mxima, relativamente reduzida, que produz umaforma geral esbelta.

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    MTR/110/110C.H.ME-5229 (NP)

    Fig. 9 Placa recortada das antas da Mitra. Corpo com gravao irregular, mas o recorte basta para esclarecer o seu significado.

  • Nesta imagem, a placa tem a integralidade do seu interior moldurada por uma nica bandaligeiramente preenchida por VVV ou tringulos inacabados e vazios, com os vrtices irregularmentedispostos: na base, para baixo; no bordo esquerdo, para o exterior; no topo, para baixo; no bordodireito, para o exterior. O efeito , genericamente, o de uma linha ziguezagueante irregular.

    As perfuraes-Olhos esto bem centradas.O Corpo organiza-se sem separao da Cabea, em duas reas. A de baixo est preenchida

    com tringulos vazios, organizados em cinco bandas. A de cima, vazia, marcada por um Colarem V, desenhado por quatro linhas que se quebram em vrtice, formando a imagem de um qu-druplo V, partindo dos Ombros e com os vrtices para baixo. O V exterior ultrapassou a divisriaentre as duas reas e o tringulo que se encontra na primeira banda sua direita foi preenchidocom um outro, tambm vazio, mais pequeno.

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

    CBC/12/26C.H. ME-5138 (NP)

    Fig. 10 Placa Recortada com Colar, de Cabacinhitos. Esta notvel placa, gravada nas duas faces, , na realidade, muito prximana concepo da de Vega del Guadancil, mas o seu acabamento e execuo so quase irrepreensveis.

  • Pela observao da placa, ainda em curso e com registo macrofotogrfico agendado, parece--me que o Colar foi o primeiro a ser gravado e s depois as bandas, mas esta convico no ainda firme.

    Como se v, esta placa s no tem motivos antropomrficos explcitos para um observadordesatento. Na realidade, ela soma o recorte (com a definio de uma Cabea e de uns Ombros),s perfuraes-Olhos e ao Colar, atributo da Deusa.

    4. Resumindo, provisoriamente

    Muitas vezes, ao chegar ao fim de um texto, tenho a sensao de ter voltado ao princpio,sem que se trate de um erro de redundncia cclica, como diria qualquer computador de boasfamlias, pressionado por um software sensvel.

    A busca de significados precisos e indiscutveis para realidades perdidas, o santo graal dealguns epi-positivistas, ou de cientologistas envergonhados, , em si s, um objectivo intil,uma vez que nada fundamentar de forma indiscutvel, pela prpria ausncia de contextos, asproposies avanadas. Tal como a Histria, a Arqueologia no uma Cincia, mais uma Arte,ainda que das cincias exactas dependa para aproximaes mais rigorosas aos seus prpriosobjectivos.

    Mas claro que no parece difcil separar o puro disparate interpretativo da proposta sim-plesmente arriscada ou de outra que se apresente melhor fundamentada.

    No actual contexto, penso que podemos escrever sem erro:1. algumas placas apresentam indiscutveis smbolos antropomrficos;2. algumas placas apresentam referncias implcitas a uma imagtica antropomrfica;3. algumas placas so recortadas, de forma a sugerirem de forma explcita um contornoantropomrfico, ainda que os seus componentes gravados sejam exclusivamente geomtri-cos e quase sempre no figurativos;4. muitas placas apresentam uma segmentao da superfcie gravada, que aponta para umaseparao em reas concretas, a Cabea e o Corpo, mantendo assim, apesar da exclusi-vidade do seu geometrismo, uma sugesto antropomrfica. Tambm em muitos casos, sur-gem separadores de campo que identificam a separao da Cabea e do Corpo e assinalama base, o fim da placa;5. os muito diversos Olhos de Sol correspondem a uma nica representao, sendo as suasvariantes resultantes de tratamentos estilsticos diversos, mas no forosamente significantesde distintas realidades. A fora de esta representao tal que a sua prpria localizao notodo da placa pode no afectar o seu significado (ver o caso da placa da Anta da Grande daComenda da Igreja);6. a sndrome das placas loucas traduz no apenas a morte dos deuses, mas o enfraqueci-mento dos cnones que garantiram a estandardizao das representaes;7. as placas de grs, onde so muito mais frequentes as representaes antropomrficas expl-citas (incluindo nos seus componentes o nariz, os braos e a prpria sugesto do ventre),representam exactamente o mesmo que as placas de xisto gravadas, traduzindo a existnciade um Corredor de circulao de produtos intercambiveis (e, naturalmente, de ideias a elesassociadas) entre o Alto Alentejo e as Pennsulas de Lisboa e Setbal (passando pela rea-nde Montemor).

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  • Como na conhecida anedota alentejana das ovelhas pretas (e das brancas tambm), tudo nosremete assim, o explcito, naturalmente, mas o implcito da mesma forma, para que placas de xistogravadas sejam representaes de uma divindade feminina, acompanhante e protectora dos vivosno desconhecido caminho da morte.

    Lisboa, Outono de 2003

    Victor S. Gonalves

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    Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e

    Fig. 11 Placa de xisto gravada da Anta Grande da Comenda da Igreja (Montemor o Novo), inicialmente publicada em Leisner e Leisner, 1959, Estampa 27 # 72 e aqui redesenhada no mbito do projecto PLACA NOSTRA. Os dois Olhos, no radiantes,foram gravados na parte inferior do Corpo da placa. Independentemente da sua bizarra localizao, marcam definitivamente a presena da Deusa. Foram gravados exactamente no mesmo estilo que os restantes motivos da placa, pelo que no parecemser qualquer acrescentamento posterior. Repetimo-los, colocando-os no topo exterior, mais perto do local que seria normal-mente o seu.

  • NOTAS

    1 Centro de Arqueologia (UNIARQ) Desenhos das Fig. 4 a 11: equipa do projecto PLACA NOSTRAFaculdade de Letras (Andr Pereira, Marco Andrade). Foto V. S. G.P-1600-214 LisboaPortugalvsg@fl.ul.pt

    REFERNCIAS

    CARDOSO, J. L. (1992) - A Lapa do Bugio. Setbal Arqueolgica. Setbal. 9-10, p. 89-225.

    GONALVES, V. S. (1970) - Sobre o Neoltico na Pennsula de Setbal. In Actas das I Jornadas Arqueolgicas. Lisboa: Associao dos Arquelogos

    Portugueses, p. 407-421.

    GONALVES, V. S. (1978) - A neolitizao e o megalitismo da regio de Alcobaa. Lisboa: Secretaria de Estado da Cultura.

    GONALVES, V. S. (1980) - Dois novos dolos tipo Moncarapacho. Setbal Arqueolgica. Setbal. 4, p. 47-58.

    GONALVES, V. S. (1989a) - Megalitismo e metalurgia no Alto Algarve Oriental. Uma aproximao integrada. Lisboa: UNIARQ/INIC. 2 vols.

    GONALVES, V. S. (1989b) - Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente Peninsular. 1. Deusa(s)-Me, placas de xisto e cronologias:

    uma nota preambular. Almansor. Montemor-o-Novo. 7. p. 289-302.

    GONALVES, V. S. (1993) - Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente Peninsular. 3. A Deusa dos olhos de sol. Um primeiro olhar.

    Revista da Faculdade de Letras de Lisboa. Lisboa. 5 Srie. 15, p. 41-47.

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    GONALVES, V. S. (1999) - Reguengos de Monsaraz, territrios megalticos. Reguengos de Monsaraz: Cmara Municipal.

    GONALVES, V. S. (2003a) - A Anta 2 da Herdade dos Cebolinhos (Reguengos de Monsaraz, vora). As intervenes de 1996 e 1997 e duas datas

    de radiocarbono para a ltima utilizao da Cmara ortosttica. Revista Portuguesa de Arqueologia. Lisboa. 6:2, p. 143-166.

    GONALVES, V. S. (2003b) - Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente Peninsular. 4. A sndrome das placas loucas. Revista

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    GONALVES, V. S. (2003c) - STAM-3, a anta 3 da Herdade de Santa Margarida (Reguengos de Monsaraz). Lisboa: Instituto Portugus de

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    GONALVES, V. S. (2003d) - Stios, Horizontes e Artefactos, estudos sobre o 3. milnio no Centro e Sul de Portugal. Cascais. Cmara Municipal.

    2. edio revista e aumentada com dois novos ensaios.

    GONALVES, V. S. (no prelo) - As Deusas da Noite. Primeiras notas sobre as placas de xisto gravadas da regio de vora.

    LEISNER, G.; LEISNER, V. (1959) - Die Megalithgrber der Iberischen Halbinsel: Der Westen. Berlin: Walter de Gruyter.

    SANTOS, M. F.; FERREIRA, O. V. (1969) - O monumento eneoltico de Santiago do Escoural. O Arquelogo Portugus. Lisboa. Srie 3. 3, p. 37-62.

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