Manifestações do sagrado na Pré-História do Ocidente ... ?· Pré-História do Ocidente ... que…

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<ul><li><p>165REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>R E S U M O Nesta srie, onde se tem tratado maioritariamente de placas de xisto gravadas, e antes</p><p>ainda de dois estudos sobre as placas CTT e as placas com Olhos de Sol, aborda-se um tema</p><p>importante para a discusso em torno ao significado das placas, que algumas leituras fun-</p><p>damentalistas pretendem centrar na no-humanidade das representaes. Mas tal como</p><p>temas do complexo judaico-cristo, cujas representaes nem sempre se fazem na ntegra,</p><p>as representaes da divindade feminina presente nas placas de xisto gravadas (e nas de</p><p>grs) apresentam uma grande diversidade de componentes grficos. E em todas as com-</p><p>posies, e nos diversos grafismos, a imagem antropomrfica ou divina, que no tem de</p><p>ser sempre necessariamente antropomrfica, constitui uma constante. Diversificada, mas</p><p>presente, e por vezes de forma bem explcita. </p><p>O argumento principal do autor reside em no se ver razo para, considerada a relativa</p><p>homogeneidade de concepo das placas, reconhecer em umas a presena da divindade e</p><p>em outras no. </p><p>Entre os exemplos escolhidos contam-se placas provenientes da Anta Grande do Zambu-</p><p>jeiro, das Antas da Mitra e do tholos do Escoural, todas inditas e objecto de um projecto de</p><p>Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular5. O explcito e o implcito. Breve dissertao,invocando os limites fluidos do figurativo,a propsito do significado das placas de xistogravadas do terceiro milnio a.n.e.</p><p>VICTOR S. GONALVES1</p><p>Tudo deve ser discutido, at mesmo o que nos parece absurdo</p><p>Mxima muito em voga nos anos 80 na UNIARQ</p><p>Mas convm no exagerar!</p><p>Correco mxima anterior, em incios do sculo seguinte</p><p>Para a Ana Constana, que ao meu colo foi </p><p>lendo este texto, medida que ia sendo escrito</p></li><li><p>investigao em curso pelo Grupo para o estudo das nossas antigas sociedades camponesas, um vec-</p><p>tor de investigao da UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa).</p><p>A B S T R A C T The schist engraved plaques of the third millennium have been the subject</p><p>of some recent studies. Two papers are in print, one about the CTT plaques, and another</p><p>about the representations of the Goddess with Sun eyes. This one presents the arguments</p><p>about the anthropomorphic meaning of the plaques, discussing the explicit and the implicit</p><p>in the key motifs. All of them concerning a Goddess, sometimes in the later days presented</p><p>with eyes with a solar shape.</p><p>The plaques presented here have never been published before in a scientific way and now</p><p>they have been drawn directly from the originals by a team that studies the ancient peas-</p><p>ant societies of central and southern Portugal and their relationships with the West of the</p><p>Iberian Peninsula.</p><p>Limiar</p><p>Os anteriores artigos de esta srie, Gonalves, 1989b, 1997, 1993, 2003a, visavam uma tran-quila, e no necessariamente regular, sequncia de comentrios em relao ao ttulo comum. Temapouco tratado em Portugal, com a devida vnia aos antigos textos de Jos Leite de Vasconcellos eoutra, bem menos pronunciada, ao de Manuel Heleno, a ideia era ir expondo e discutindo situa-es em que a presena do sagrado fosse evidente ou, no o sendo, tivesse gerado comentrios ina-dequados natureza dos dados do segmento arqueolgico do mundo real que actualmente pos-sumos.</p><p>Se algum dia reunir esta srie em livro, ser lgico que o dedique a Andr Leroi-Gourhan,que marcou os meus primeiros anos de ensino universitrio. A conversa que tive com ele em Paris,no Vero de 1972, ou a leitura de As Religies da Pr-Histria (que prefaciei na edio portuguesa),muito contriburam para sucessivas referncias ao pragmatismo na interpretao do subsistemamgico religioso das diversas sociedades, e ao apelo ao bom gosto e ao bom senso, que por vezesfao em passagens porventura mais polmicas do que escrevo.</p><p>Independentemente das experincias ou alucinaes colectivas, o acto religioso tem obvia-mente que ver com a experincia individual e com a relao do indivduo com o mundo. O sagradotambm e, para algum to estruturalmente laico como eu, traduz respeito, sentimento e sm-bolo, associados. </p><p>As relaes dos Hopi ou dos Navajo com o espao ou a paisagem, dos Achilpa com o seuaxis mundi, de Conan o Brbaro com a sua espada ou de Lucky Luke com o seu cavalo (sem dvidamais inteligente que ele) no podem ler-se num esquema completamente concreto ou absolu-tamente abstracto. Integram-se em mundos perdidos, quer sejam reais ou ficcionais. E mau que alguns arquelogos que se supem teorizadores da Arqueologia nacional s leiam ensaiose no romances. H mais vida num texto de Proust, Ambrose Bierce, Boris Vian ou VzquezMontalbn (ou no inspector Hieronymus Bosch, de Connelly) do que certamente conseguiriamsuportar</p><p> assim, como sempre, com numerosas reservas partida, que esta srie comeou, foi inter-rompida e recomeou. Era um projecto antigo, sempre adiado, quando saiu o texto do Almansor,em 1987, e mesmo depois dele as questes foram-se acumulando e acabaram por ter vida prpria,</p><p>Victor S. Gonalves</p><p>166 REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p></li><li><p>em outros contextos, como os ritos de intermutao da pedra polida (Gonalves, 1999) ou a revi-so das estruturas morfolgicas e da prpria cronologia absoluta do megalitismo com placas dexisto gravadas (Gonalves, 2003c, no prelo e em curso). Os artefactos votivos de calcrio e os ritosdo ocre vermelho so objectos antigos presentes em lista de espera, mas os ritos de magia negrada Sala n. 1 (Pedrgo do Alentejo) esto apenas dependentes de oportunidade e as placas dexisto gravadas voltaro com situaes envolvendo, para alm das Placas CTT e das Placas comOlhos de Sol, conjuntos inditos que o Vector 3 do Grupo para o estudo das nossas antigas sociedadescamponesas tem vindo a estudar.</p><p>A questo das cronologias e a da prpria perdurao do uso dos monumentos ortostticosesto tambm associadas (Gonalves, 1989, 2003a).</p><p>Agradeo aos directores e conservadores dos Museus Nacional de Arqueologia (Lus Raposoe Ana Isabel Santos) e de vora (Joaquim Caetano e Manuel Alegria) o encorajamento e incondi-cional apoio, no caso do primeiro, e as facilidades de estudo e a compreenso, no caso do segundo. Fundao Calouste Gulbenkian (Servio de Belas Artes) e Cmara Municipal de vora, o apoiofinanceiro indispensvel para o arranque, j em 2003, do estudo das placas de xisto gravadas dalinha vora-Montemor. E a Andr Pereira e a Marco Andrade a eficcia dos seus desenhos e a pro-verbial disponibilidade com que tm vindo a colaborar neste e noutros projectos, partilhando aadopo emblemtica de um dos princpios fundadores do esprito da UNIARQ (O que h parafazer, faz-se. O resto logo se v, mas tambm no demora).</p><p>Contrariamente ao que seu hbito, o Autor adverte que, dada a natureza dos projectos em curso, e queenvolvem as placas desenhadas e comentadas, se invoca a legislao europeia e portuguesa de copyright,sendo interdita a reproduo de estas imagens at sua publicao final.</p><p>1. O que est explcito nas placas de xisto gravadas</p><p>1.1. O contorno de uma figura antropomrfica</p><p>Digamos que as placas de xisto gravadas apresentam componentes grficos explcitos e deinterpretao quase indiscutvel (como sabemos, nada o , em absoluto). Uns mais que outros, certo, mas todos ligados por referncias imagticas claras.</p><p>As placas recortadas, com indicao explcita da Cabea e Ombros, representam uma dasmais claras indicaes da configurao antropomrfica de este grupo de artefactos ideotcnicos.Independentemente da natureza dos motivos dominantes no corpo da placa tringulos pre-enchidos ou no, ziguezagues... o simples recorte da placa no seu topo, a marcao mais oumenos pronunciada dos Ombros, e a consequente diferenciao da Cabea, tornam estas placasde uma interpretao indiscutvel e unvoca. Tive muito recentemente oportunidade de observarque O recorte das placas funciona assim, evidentemente, como um potencializador da carga antropomrficasubtilmente escondida nos motivos geomtricos. uma situao rara, mas no por isso que pode serevocada como uma situao diferente. O facto de ser estatisticamente minoritria no implicaque estas placas representem efectivamente a Divindade e as outras no, o que seria completa-mente absurdo, se tomarmos em conta todos os partilhados componentes da simblica (Gon-alves, 2003c, p. 260).</p><p>As variantes, numerosas, das placas recortadas referem-se s diversas formas de representara Cabea, e todas elas esto conectadas com a definio dos Ombros.</p><p>Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p><p>167REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p></li><li><p>1.2. Os Ombros</p><p>Algumas placas apresentam um recorte prprio, obtido ou atravs de curtos entalhes ou derecortes, definindo uma figura com ombros direitos ou oblquos. Nas figuras dos dolos alme-rienses esculpidos em osso ou xisto, os ombros so sempre oblquos, s vezes mesmo muito obl-quos. Nas figuras dos dolos almerienses incisas nas placas de xisto gravadas, pelo contrrio, osombros so sempre direitos. </p><p>No h nenhuma explicao mstica para este facto. As regras da composio dos compo-nentes geomtricos das placas de xisto gravadas determinam que a figura do dolo almerienseseja representada pela juno pelos vrtices de dois tringulos preenchidos, que formam um corpo.A cabea, um tringulo de vrtice para baixo, colocada naturalmente sobre o corpo.</p><p>Para um observador cptico, a juno de dois tringulos pelo vrtice que representa o corpode um dolo almeriense, no significaria absolutamente nada. Para um calcoltico bastariapara um imediato reconhecimento. No por ser particularmente inteligente, mas porque conhe-cia o contexto a que a imagem truncada o reenviava. O facto de ela estar truncada no o inco-modava, uma vez que a completava mentalmente por estar imerso na sua contextualidade.</p><p>Nada de estranho nisto: a representao integral de um Cristo no necessria a um cristo.Basta-lhe dois traos cruzados: o suporte para os ps, a legenda INRI, as cordas, os pregos e o pr-prio Cristo so dispensveis. Esto implcitos para um crente. O que no naturalmente verdadepara um habitante de Alfa do Centauro ou de Tau Ceti, nem mesmo para um budista, um taostaou um muulmano sem contactos visuais com o universo dos smbolos do cristianismo.</p><p>1.3. As perfuraes-Olhos</p><p>As perfuraes so obviamente funcionais: destinam-se a permitir a passagem de um fio desuspenso que penduraria a placa do pescoo do morto (ou do vivo, como no caso quase nico daplaca da sepultura do feiticeiro, na Cova das Lapas, Alcobaa). Como propus em 1992, a ausn-cia de perfuraes, que no incomum, poderia traduzir deposies secundrias (ou selectivas).</p><p>Mas em certos casos as perfuraes surgem muito prximas e a sua execuo muito cuidadapoderia sugerir tratar-se efectivamente, tambm, de representaes de olhos. A sua coordenaocom a Cabea, no que por vezes pode ser considerado como uma verdadeira paginao simblica, outro ponto que no deve ser deixado em branco.</p><p>1.4. Os falsos Olhos</p><p>Em algumas placas, tanto da Pennsula de Lisboa como do Alentejo, surgem, na rea cor-respondente Cabea, duas depresses cupuliformes, os falsos olhos.</p><p>Parece evidente o que significam, pela sua localizao especfica, mas o que sobressai a suaabsoluta no funcionalidade. No serviriam assim rigorosamente para nada, a no ser, obvia-mente, para sugerir os Olhos da Deusa</p><p>O exemplar de Alapraia 2 (Gonalves, 2003d, p. 131, Fig. 4.6 (2) e Ests. 20 e 21) uma evi-dncia tambm dos acrescentos que so, por vezes, a verdadeira natureza dos falsos Olhos. </p><p>Com efeito, e tal como algumas, mas no todas, das representaes explcitas de Olhos soacrescentos a placas pr-existentes, acrescentando-lhe os novos atributos da Deusa (um pouco </p><p>Victor S. Gonalves</p><p>168 REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p></li><li><p>maneira dos reaproveitamentos de placas, em que muitas vezes se procura manter uma refern-cia precisa do original, e em outras no) este o caso dos falsos Olhos, com possibilidades ml-tiplas. No caso da placa de Alapraia 2, uma gruta artificial, so evidentes aplicaes sobre umaplaca anterior (quanto anterior , naturalmente, impossvel saber).</p><p>1.5. Os Olhos de Sol</p><p>As figuraes explcitas dos Olhos tm, ainda assim, sendo-o, duas Variantes principais, aprimeira a dos Olhos simples e a segunda a dos Olhos de Sol.</p><p>Trata-se de uma ou de duas divindades?No sei se alguma vez poderemos responder tranquilamente a esta questo. Basicamente,</p><p>diramos que h Olhos simples e Olhos de Sol, estes ltimos com diversos processos grficos deindicar a radiao.</p><p>Como veremos em texto prximo (o j anunciado Reflexos nuns Olhos de Sol), a formaainda hoje usada para representar um olhar penetrante, como o do mocho ou o da coruja, divergemuito, de acordo com a concepo do pintor, desenhador ou escultor. Os grandes olhos no pre-cisam de radiao, talvez por a sua dimenso a substituir. Os pequenos possuem raios simples oude traos quebrados ou ondulantes, particularizando o efeito radiante. No caso da radiao par-cial, a representao poderia ser confundida com uma representao das pestanas, o que pareceapesar de tudo pouco provvel.</p><p>Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p><p>169REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>Fig. 1 Falsos-Olhos na placa de Alapraia 2. Aparentemente tanto a perfurao central como as perfuraes intencionalmenteinacabadas, os falsos Olhos, foram feitas depois da gravao da placa. Mais uma vez, impossvel saber quanto tempo depois,se logo a seguir, e de forma integrada na sequncia operativa, se num reaproveitamento funcional da placa.</p></li><li><p>Associei por diversas vezes a representao dos Olhos de Sol metalurgia do cobre, ao papelinspiracional do fogo (Gonalves, 1980) e falei dos novos atributos da Deusa, perguntando-mese seria a mesma ou uma Outra. Na verdade, no existem outros elementos que justifiquem reto-mar uma discusso por agora ainda de resultados duvidosos.</p><p>1.6. O colar</p><p>Uma das situaes mais claramente explcitas emalgumas poucas placas (tal como, alis, em algumasestelas do sul de Frana) a representao de um colar.</p><p>bvia na placa de Alcobaa (Gonalves, 1978),ou na placa de Vega del Guadancil, essa representa-o est presente nas duas faces da placa de Cabaci-nhitos (vora), de forma tambm difcil de interpre-tar de outro modo.</p><p>O colar da Deusa, que significativamente a Deusasumria Inanna v ser-lhe retirado em ltimo lugar(e devolvido em primeiro), na sua descida aos Infer-nos, surge como uma representao especfica depoder e a sua presena figurada (e no apenas suge-rida) refora o conjunto simblico.</p><p>1.7. O sexo e a rea inferior das placas</p><p>A representao explcita do sexo uma ques-to controversa, uma vez que, numa anlise bsica, otringulo simblico, correspondendo zona pbica,tanto poder ser masculino como feminino. Mas sendoa representao masculina habitualmente indicadapor um outro componente anatmico, bem maisexplcito, a representao de um tringulo com o vr-tice para baixo surge na imagtica do terceiro mil-nio de diversas formas, uma delas inconfundvel:</p><p>1. preenchido por linhas convergentes, horizontais, oblquas, intersecantes;2. preenchido por pontos (que na cermica simblica so muitas vezes incrustados por pastabranca, de forma a reforar o contraste);3. marcado por um trao vertical, indicando os grandes lbios.Esta ltima escolha dispensa comentrio, sendo difcil encontrar mais explcito simbolismofeminino.</p><p>Nas placas de xisto gravadas detectaram-se, por vezes, representaes bizarras no lugar teo-ricamente correspondente ao sexo. Uma delas levou mesmo um conhecido paleontlogo e arque-logo a confundi-la com a representao de um sexo masculino em ereco, o que j referi ser</p><p>Victor S. Gonalves</p><p>170 REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>Manifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p><p>Fig. 2 Placa de Vega del Guadancil (Leisner e Leisner,1959, Est. 55 #2). Nesta placa, gravada nas duas faces,so visveis Ombros quase direitos e a fina moldurada Cabea trapezoidal constitui, direita, a voltainterior do Colar da Deusa.</p></li><li><p>absurdo, mas o caso da placa da Anta Grande da Comenda da Igreja diferente, uma vez que acomplexidade dos motivos e a sua associao a linhas estruturantes do grafismo exige outra an-lise, desta vez exaustiva. E para os seguidores fiis e incondicionais dos desenhos dos Leisner,invoca-se naturalmente aqui a diferena entre o desenho que eles divulgaram (Leisner e Leisner,1959) e a verdadeira representao que a placa apresenta. E antes de publicarmos o nosso prpriodesenho, ilustramos fotograficamente essa realidade, com comentrio em legenda.</p><p>Victor S. GonalvesManifestaes do sagrado na Pr-Histria do Ocidente peninsular. 5. O explcito e o implcito. Breve dissertao, invocandoos limites fluidos do figurativo, a propsito do significado das placas de xisto gravadas do terceiro milnio a.n.e</p><p>171REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia. volume 7. nmero 1. 2004, p. 165-183</p><p>Fig. 3 1: Imagem da parte inferior da placa da Anta Grande daComenda da Igreja, com inverso em Photoshop 7. 2: Destaque para as trs figuras escutiformes do centro da base da placa. 3: Desenho damesma placa em Leisner e Leisner, 1959, Estampa 27 #61.</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p></li><li><p>1.8. O jovem Deus</p><p>A figurao do jovem Deus, que surge em placas como a do Bugio de forma explcita (Gon-alves, 1970; Cardoso, 1992), ou de forma estilizada nas placas da Pennsula de Lisboa ou da Anta2 da Mitra (vora, figuraes inditas em estudo por Jorge de Oliveira) s pode naturalmente ler--se se escolhermos a interaco de todos os componentes da simblica, para mim bvia no com-plexo mgico religioso onde as placas de xisto gravadas emergem. Isolada (como nas figurinhasde osso ou xisto do Alentejo ou da Pennsula de Lisboa) tem naturalmente um significado, refor-ado na sua associao explicativa pela presena da Deusa, de onde deriva. Repare-se que as figu-rinhas a que fao referncia, o dolo chato ou almeriense dos Leisner, no se devem confun-dir, numa anlise fina, com as placas recortadas, ainda que algumas se lhe assemelhem. Masindiscutivelmente que existe uma relao conceptual que permite o reconhecimento imediato dasduas realidades. De onde a opo assumida na monografia de STAM-3 (Fig. 103, p. 258).</p><p>2. O que est implcito nas placas de xisto gravadas</p><p>Se uma coisa no se v, h boas explicaes para isso. Primeira delas: no existe. Em alternativa: somos ns que a no vemos.Mas no vermos uma coisa no quer necessariamente dizer que ela no existe. Podemos ape-</p><p>nas no a ver por ela