Manejo das principais doenças do milho

Download Manejo das principais doenças do milho

Post on 11-Feb-2017

1.707 views

Category:

Science

4 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Manejo das Principais Doenas do Milho

    Sete Lagoas, MGDezembro, 2007

    92

    ISSN 1679-1150

    Autores

    Nicsio F. J. A. Pinto

    Eng.-Agr, D. S., Embrapa

    Milho e Sorgo. Caixa Postal

    151 CEP 35701-970 Sete

    Lagoas, MG

    e-mail:

    nicesio@cnpms.embrapa.br

    Elizabeth de Oliveira

    Eng- Agr., D. S., Embrapa

    Milho e Sorgo. Caixa Postal

    151 CEP 35701-970 Sete

    Lagoas, MG

    beth@cnpms.embrapa.br

    Fernando T. Fernandes

    Eng.-Agr., M.Sc.

    Introduo

    A cultura do milho, no Brasil, tem sido atacada por vrias doenas, que causam perdas

    na produo (Balmer, 1980; Pinto et al., 1997; Fernandes & Oliveira, 1997; Reis et al.,

    2004; Oliveira et al., 2004; Oliveira & Oliveira, 2004; Oliveira et al., 2005). A incidncia e

    a severidade dessas doenas tm sido atribudas, principalmente, realizao de

    plantios de milho na palhada, sem a rotao de culturas e, nas regies de clima quente,

    ao plantio do milho em vrios meses do ano, proporcionando sobreposies de ciclos

    da cultura. Contudo, existem vrias alternativas para o manejo e o controle das doenas

    na cultura do milho.

    A incidncia e a severidade dessas doenas dependem de fatores predisponentes da

    planta, da presena de inculo, da raa ou da agressividade do patgeno e de

    condies favorveis do ambiente, proporcionadas pelo clima, pelo solo, pelo sistema

    de cultivo ou pelo manejo da cultura. Sob condies favorveis, diferentes doenas

    podem ocorrer em alta severidade.

    Para o controle dessas doenas, podem ser adotadas medidas de manejo da cultura;

    alm do uso de cultivares resistentes e medidas de controle qumico.

    Para considerar a efetividade de medidas para o manejo das doenas do milho, e

    principalmente, para a realizao da rotao de culturas, essas doenas podem ser

    agrupadas em: doenas causadas por patgenos que sobrevivem nos restos de cultura

    ou no solo e doenas causadas por patgenos que sobrevivem apenas nas plantas

    vivas.

    Recomendaes para o Manejo de Doenas do Milho

    Os seguintes aspectos devem ser considerados no planejamento para evitar danos por

    doenas na cultura do milho:

    1) Anlise do histrico das doenas na regio

    Para adotar medidas de controle de doenas, necessrio, primeiro, conhecer as

    doenas que ocorrem comumente e que causam danos na produo de milho na regio

    em que se pretende instalar a lavoura. Essas doenas representam risco de ocorrer em

    alta severidade e, por isso, preciso adotar medidas especficas para minimizar

    possveis danos causados por elas. Essas medidas incluem desde a escolha das

    cultivares at a adoo de prticas como poca de plantio e a realizao de rotao de

    cultura, entre outras.

    2) Realizao de diagnsticos precisos

    A identificao correta das doenas que ocorrem no milho, seja na regio ou na lavoura

    instalada, essencial para buscar informaes sobre medidas especficas de controle

    para cada doena em questo.

  • 2 Manejo das Principais Doenas do Milho

    3) Conhecimento das condies que

    favorecem a severidade das doenas

    As doenas do milho so favorecidas, de forma

    diferenciada, pelas condies climticas,

    principalmente pela umidade e a temperatura, pela ao

    do vento, pela presena de inculo nos restos da

    cultura anterior ou pela presena de inculo em plantas

    de milho vivas, dentre outros. O conhecimento das

    condies que favorecem cada doena importante

    para escolher medidas de controle que possam reduzir

    sua severidade.

    4) Adoo de medidas preventivas

    Em geral, as medidas recomendadas para o controle

    das doenas do milho so preventivas. Deve-se utilizar

    cultivares resistentes e diversificar, plantando

    simultaneamente mais de uma cultivar na mesma rea.

    Deve-se rotacionar essas cultivares em cada plantio,

    realizar a rotao de culturas e conduzir a cultura de

    acordo com recomendaes tcnicas.

    5) Controle qumico

    Algumas doenas foliares podem ser controladas pela

    aplicao de fungicidas registrados no MAPA para esse

    fim. Contudo, a eficincia desse controle diretamente

    dependente da eficincia de aplicao do produto, que

    pode ser parcialmente limitada pela arquitetura da

    planta e pelo mtodo de aplicao.

    importante considerar o perodo de carncia do

    fungicida, quando se trata de milho para consumo in

    natura.

    6) Eficincia de medidas de controle para as

    principais doenas do milho

    Na Tabela 1, so relacionadas as medidas de controle

    para as principais doenas do milho, considerando-se o

    nvel de eficincia para cada doena.

    A efetividade dessas medidas foi definida considerando-

    se: doenas causadas por patgenos que sobrevivem

    nos restos de cultura ou no solo e doenas causadas

    por patgenos que sobrevivem apenas nas plantas

    vivas.

    Manejo da Cultura

    As prticas adotadas para o cultivo do milho, como

    realizao ou no de rotao de culturas, plantio em

    determinadas pocas do ano, irrigao e observao ou

    no de recomendaes para a densidade de plantio e a

    fertilizao, associadas qualidade das sementes

    utilizadas, podem contribuir tanto para reduzir como

    para aumentar a severidade de doenas. O manejo

    correto dessa cultura, com base em recomendaes

    tcnicas, imprescindvel para reduzir os riscos de

    prejuzos por doenas, mesmo quando so utilizadas

    cultivares de milho resistentes.

    Rotao de Culturas

    A rotao de culturas uma tcnica essencial para o

    controle das doenas do milho que so causadas por

    agentes que sobrevivem nos restos de cultura ou no

    solo (Reis et al., 2004). A realizao do plantio do milho

    sobre a palhada, sem a rotao de culturas, permite a

    sobrevivncia de agentes causais de doenas e, em

    funo do tempo, o acmulo de seu inculo, o que pode

    contribuir para a incidncia de doenas em alta

    severidade. A rotao de culturas reduz a incidncia e a

    severidade das doenas foliares: mancha por

    Cercospora, mancha por turcicum, mancha por

    Stenocarpella, mancha por Bipolaris, mancha por

    Phaeosphaeria. Reduz tambm a incidncia e a

    severidade das doenas da espiga e das podrides do

    colmo do milho. Porm, as estruturas de propagao

    dos patgenos que sobrevivem nos restos de cultura,

    somente so eliminadas totalmente aps a completa

    mineralizao da palhada. Assim, o tempo necessrio

    de rotao com outras culturas depende diretamente do

    tempo necessrio para a mineralizao dos restos

    culturais do milho. A efetividade do controle

    proporcionado pela rotao de culturas depende

    tambm das caractersticas dos propgulos dos

    agentes causais, das partes atacadas na planta (folhas,

    colmo, espigas) e da eficcia de mecanismos de

    disseminao desses patgenos. Por exemplo, o fungo

    Cercospora zea-maydis pode ser eficientemente

    disseminado pelo vento, junto com fragmentos de folhas

    secas, e no sobrevive por mais de um ano nos restos

    de cultura, porque as folhas so mais rapidamente

    mineralizadas do que outras partes da planta, desde

    que as condies para a mineralizao sejam

    favorveis. Por outro lado, para reduo significativa do

    inculo de Stenocarpella macrospora, h necessidade

  • 3Manejo das Principais Doenas do Milho

    Tabela 1 Eficincia das medidas para o controle das principais doenas do milho

    (+) medida de controle eficiente (nmero de + indica o nvel de eficincia); (-) no se aplica , (?) sem informaes

    de rotao de cultura por pelo menos dois anos, sob

    condies favorveis para a mineralizao, uma vez que

    esse fungo infecta, alm das folhas, o colmo, as palhas

    da espiga e os gros. O fungo Colletotrichum

    graminicola infecta os tecidos do colmo e, assim, o

    tempo de rotao de cultura necessrio para sua

    eliminao, na rea, o tempo necessrio para a

    mineralizao desses colmos.

    poca de Plantio

    A poca de plantio pode ser um fator determinante para

    a alta incidncia e a alta severidade de vrias doenas

    no milho. Por exemplo, plantios tardios e plantios de

    safrinha favorecem maior incidncia dos enfezamentos

    causados por molicutes e da virose mosaico comum

    (Sugarcane mosaic virus - SCMV) (Almeida et al., 2001;

    Oliveira et al., 2002; Oliveira et al., 2003). As condies

    climticas, nesses plantios tardios e plantios de

    safrinha, favorecem o aumento de populaes dos

    insetos-vetores dos agentes causais dessas doenas. A

    brotao de gramneas infectadas por SCMV tambm

    favorecida nas condies desses plantios.

    Em determinadas regies, plantios tardios (em

    novembro e dezembro) favorecem a alta severidade da

    mancha por Phaeosphaeria, por expor as plantas em

    fase de maior susceptibilidade (por ocasio do

    florescimento) s condies favorveis a essa doena,

    ou seja, umidade relativa acima de 60%, temperaturas

    noturnas entre 14 e 20 0C e ocorrncia de chuvas

    (Fernandes & Sans, 1994; Fernandes, 2004).

    Os plantios de safrinha, alm de exporem o milho a

    condies climticas que podem favorecer

    determinadas doenas, permitem a sobreposio de

    ciclos dessa cultura, contribuindo para a perpetuao,

    particularmente, daquelas doenas cujos agentes

    causais dependem de plantas vivas para sua

    sobrevivncia.

    Densidade de Plantio

    O plantio de uma cultivar de milho na densidade

    recomendada muito importante para garantir o

    desenvolvimento adequado das plantas, a sanidade e a

    alta produtividade. Aumentos na densidade de plantio

    alm daquela recomendada podem resultar em alta

    severidade de doenas foliares, de doenas da espiga e

    de podrides do colmo, por propiciarem condies de

    microclima favorveis proliferao dos agentes

    causais dessas doenas. Por exemplo, sob condies

    de altas temperaturas, plantios em alta densidade

    favorecem o aumento na incidncia e severidade da

  • 4 Manejo das Principais Doenas do Milho

    antracnose no colmo (Dod, 1980; Fernandes, 2006

    (comunicao pessoal). A alta densidade de plantio

    pode aumentar a umidade relativa entre as plantas,

    reduzir a circulao de ar e, em decorrncia da

    competio, prejudicar a nutrio das plantas, o que

    pode favorecer de forma diferenciada os vrios agentes

    causais de doenas.

    Irrigao

    A irrigao do milho, em excesso, pode favorecer,

    principalmente, as podrides das razes e do colmo,

    causadas por fungos e bactrias, a podrido do

    cartucho por Erwinia chrysantemi e as podrides da

    espiga (Shurtleff, 1986).

    Sementes

    A implantao de lavouras de milho com estande

    adequado e a garantia de bom desenvolvimento das

    plantas depende, essencialmente, do uso de sementes

    com boa qualidade fsica, fisiolgica e sanitria. O

    mercado de sementes de milho, no Brasil, em geral,

    oferece sementes fiscalizadas que atendem aos

    padres de qualidade estabelecidos pelo MAPA. Essas

    sementes so comercializadas tratadas com

    fungicidas, visando proteo contra patgenos

    presentes nas sementes e no solo.

    Adubao

    A realizao da correo e a adubao do solo, com

    base em anlises de fertilidade desse solo e nas

    recomendaes para o plantio do milho, contribui para

    garantir a boa qualidade sanitria da cultura. Plantas

    com desequilbrios nutricionais, por falta ou por excesso

    de nutrientes, esto sempre mais sujeitas alta

    severidade de doenas. Por exemplo, o excesso de

    nitrognio aumenta a severidade da mancha por

    Phaeosphaeria no milho.

    Eliminao de Hospedeiros

    As plantas de milho voluntrias no campo, que

    emergem de gros da colheita anterior (tigera), podem

    constituir fonte de inculo de agentes causais de

    doenas, principalmente daqueles que dependem da

    planta viva para sua sobrevivncia. Por isso, a

    dessecao dessa tigera, com herbicida, pode

    contribuir para reduzir a severidade de doenas na rea.

    Muitas espcies de gramneas selvagens e cultivadas

    so hospedeiras dos potyvirus que causam o mosaico

    comum no milho (Shukla, 1994; Almeida, 2001). No

    Brasil, o capim marmelada ou papu (Brachiaria

    plantaginea) destaca-se entre as espcies de plantas

    invasoras que freqentemente tm sido observadas

    apresentando sintomas da virose mosaico comum. Sob

    condies controladas, j foi confirmada a transmisso

    do vrus dessa gramnea para o milho (Almeida et al.,

    2001). Ressalta-se que, na safra 2005/2006, na regio

    oeste do Estado de Santa Catarina e em alguns locais

    ao norte do Estado do Rio Grande do Sul, foi observada

    alta incidncia do mosaico comum em lavouras de

    milho, causando danos, sempre associado presena,

    na rea, da B. plantaginea apresentado sintomas dessa

    virose (Oliveira, comunicao pessoal). A eliminao de

    gramneas infectadas (com sintomas de mosaico), que

    constituem fonte de inculo, em reas de plantio de

    milho, pode contribuir para o controle dessa virose.

    A eliminao do sorgo selvagem (Sorghum halepense;

    Sorghum verticiliflorum) ou mesmo de sorgo cultivado,

    com sintomas de mldio, em reas de plantio de milho,

    reduz a principal fonte de inculo do agente causal

    dessa doena.

    Resistncia Gentica

    A utilizao de cultivares resistentes uma medida de

    alta eficincia para o controle de doenas do milho.

    Contudo, em geral, difcil acumular em uma nica

    cultivar genes de resistncia para todas as doenas do

    milho. Assim, esto disponveis no mercado mais de

    200 cultivares de milho, com diferentes nveis de

    resistncia s principais doenas dessa cultura. A

    escolha de cultivares para plantio em determinada

    regio requer conhecimento sobre a ocorrncia, a

    severidade e a importncia relativa das doenas nessa

    regio e sobre o nvel de resistncia das cultivares

    disponveis no mercado.

    Para o desenvolvimento de cultivares de milho

    resistentes a doenas, necessrio o conhecimento

    bsico sobre aspectos da manifestao dessa

    resistncia, como a expresso de sintomas, o tipo de

  • 5Manejo das Principais Doenas do Milho

    resistncia, se vertical ou horizontal, e a variabilidade do

    patgeno. A caracterizao da resistncia de gentipos

    de milho pode ser feita sob condies controladas ou

    sob condies de campo (Fernandes, 1975; Correa,

    1978; Silva et al., 2001; Silva et al. 2002; Oliveira et al.,

    2005). Em anos recentes, tem sido grande a

    necessidade do desenvolvimento de cultivares de milho

    resistentes aos enfezamentos causados por molicutes,

    em face dos prejuzos que essas doenas podem

    causar e das limitaes encontradas para seu controle.

    A irregularidade da ocorrncia dessas doenas e as

    limitaes para a identificao precisa dos dois tipos de

    enfezamento, com base nos sintomas, em campo,

    dificultam a seleo para a resistncia. Experimentos

    conduzidos sob condies controladas tm evidenciado

    efeito aditivo e efeito da heterose na resistncia do

    milho ao espiroplasma (Silva et al., 2002; Castanheira

    et al., 2004) e, dependendo do gentipo, efeito de

    dominncia (Oliveira et al., 2005). Aparentemente, a

    variabilidade entre isolados geogrficos de espiroplasma

    no grande, porm grande a variabilidade dentro da

    populao de um mesmo isolado (Castanheira et al.,

    2006). A avaliao da incidncia de plantas com

    sintomas de enfezamentos, em campo, discrimina

    melhor os nveis de resistncia entre gentipos de milho

    do que a atribuio de notas para a severidade da

    doena (Silva et al., 2001).

    importante ressaltar que a exposio contnua de

    uma cultivar resistente a altas presses da doena

    exerce tambm alta presso de seleo sobre a

    populao do patgeno, podendo resultar na seleo de

    variantes genticas desse patgeno e, em

    conseqncia, na quebra da resistncia da cultivar. Por

    isso, importante associar o uso de cultivares

    resistentes a medidas de manejo cultural das doenas,

    para obter maior efetividade de controle e garantir a

    durabilidade da resistncia. Recomenda-se semear

    mais de uma cultivar na mesma rea. Essa uma

    prtica importante para reduzir a presso sobre a

    populao do patgeno e minimizar eventuais prejuzos

    causados pela doena....