Luciano Vasapollo

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<p>POR UMA POLTICA DE CLASSE UMA INTERPRETAO MARXISTA DO MUNDO GLOBALIZADO</p> <p>LUCIANO VASAPOLLO1</p> <p>POR UMA POLTICA DE CLASSE UMA INTERPRETAO MARXISTA DO MUNDO GLOBALIZADO</p> <p>1 Edio EDITORA E X P R ES S O P O P U LA R So Paulo - 2007</p> <p>1</p> <p>Professor da Universidade La Sapienza de Roma e da Universidade Hermano Saz Montes de Oca, de Pinar del Rio (Cuba). membro distinto da Anec (Associacin Nacional de Economistas y Contadores de Cuba). Foi vencedor, em 2006, do Concurso Internacional de Ensaio Pensar a Contracorriente. diretor do Cestes (Centro de Estudos das Transformaes Econmico-Sociais) e da revista Proteo. autor e co-autor de mais de 30 livros (diversas publicaes com a Editoriale Jaca Book), alguns dos quais traduzidos tambm na Europa e na Amrica Latina.</p> <p>Copyright 2007, by Editora Expresso Popular Reviso: Miguel Cavalcanti Yoshida e Geraldo Martins de Azevedo Filho Projeto grfico, capa e diagramao: ZAP Design - Mariana Vieira de Andrade Traduo: Juliana Coli Impresso e acabamento: Cromosete</p> <p>Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora. 1a edio:maro de 2007 EDITORA EXPRESSO POPULAR Rua Abolio, 266 - Bela Vista CEP 01319-010 So Paulo-SP Fone/Fax: (11) 3112-0941 vendas@expressaopopular.com.br www.expressaopopular.com.br</p> <p>SUM RIO</p> <p>1. INTRODUO .................................................................. 7</p> <p>INTRODUO: PARADOXOS DO PRESENTE E LIES DE MARX</p> <p>1. Marx e a atualidade da explorao capitalista Em primeiro lugar, vejamos alguns conceitos-chave da anlise de Marx. Peo desculpas aos especialistas do trabalho e leitores e leitoras que, por profisso, querem se demonstrar sofisticados, porque toda a minha exposio prima pela sntese e, de certa forma, pela aproximao. Nestas pginas, procuramos demonstrar, de maneira simples, a atualidade, a coerncia lgica nas anlises de Marx e a sua grande capacidade de continuar sendo, nos dias de hoje, um pensamento-guia para a superao do capitalismo. Ainda que a economia poltica clssica, a partir de Smith e Ricardo, por um lado, considerasse, de modo revolucionrio, o trabalho como base do progresso humano, identificou contudo o sistema capitalista, fundado sobre a propriedade privada dos meios de produo e sobre o trabalho assalariado, como o nico sistema econmico racional e, por isso, natural.</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>|</p> <p>7</p> <p>A partir desses pressupostos tericos e ideolgicos, colocam-se o estudo e o desenvolvimento do pensamento de Marx. A primeira e fundamental mistificao da economia poltica est, segundo Marx, em tomar um certo tipo de economia, uma formao social particular da reproduo humana, isto , a produo capitalista, como expresso da economia e da sociedade. Desse modo, a economia poltica anterior a Marx no entende o capitalismo como uma relao histrica, como um acontecimento que teve um princpio e que tender certamente a um fim. Para evidenciar essa contradio, Marx, nos seus Manuscritos Econmico-Filosficos, usa os resultados da dura anlise a que a prpria economia poltica aplica sociedade industrial moderna. Marx prova, com bases rigorosamente cientficas, partindo das conseqncias da sua anlise sobre a teoria do valor, que, diferentemente de todas as outras mercadorias, o valor da fora de trabalho composto por dois elementos, incorporando em si a mais-valia. Depois de ter desenvolvido, assim, a teoria da mais-valia, Marx revela, pela primeira vez na histria da cincia econmica, o mecanismo da explorao capitalista de maneira rigorosamente cientfica, partindo da anlise do capital como trabalho apropriado, no pago classe operria. Mas Marx vai alm, mostrando que a apropriao do trabalho no pago aos operrios, pelos proprietrios capitalistas, estava de acordo com as leis internas do capitalismo.</p> <p>8</p> <p>|</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>Isso se torna ainda mais verdadeiro hoje, no momento em que o chamado modelo ps-fordista, tpico da rea central dos pases capitalistas avanados, convive com um tpico modelo ainda fordista da periferia e com modelos de trabalho escravo nos pases de extrema periferia (por extrema periferia entendem-se tambm algumas reas marginais do centro). Tudo isso porque hoje coexistem as diversas faces de um mesmo modo de produo capitalista, baseadas sempre na extrao de mais-valia, que d fundamento explorao capitalista. Nesse sentido, ainda hoje se deve falar em proletariado, classe e movimento operrio. O conceito clssico de trabalho entrou em crise com a chamada economia do capital informao,2 que representa o fundamento do capitalismo ps-fordista. De fato, a criao de valor no se fundamenta mais exclusivamente sobre a explorao do operrio da fbrica fordista, mas ocorre atravs de cada atividade na fbrica social generalizada, sempre atravs da apropriao de mais-valia, de mais-trabalho. A economia da informao controla e desenvolve as possibilidades da acumulao flexvel, submetendo a subjetividade social s regras das tecnologias de informao e de comunicao que hoje em dia dominam no s o tempo de trabalho direto, mas tambm o tempo de vida social em sua totalidade. Por essa mesma razo, assim, na atual fase da competio global, se refora,2</p> <p>Capital informao aqui entendido como a introduo da comunicao e da informao no mundo da produo, que as converte em mercadoria e valor (nota da edio).</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>|</p> <p>9</p> <p>com todo seu potencial de transformao, a contradio capital-trabalho. Se tudo isso verdade, ento a sociedade capitalista no absolutamente um mundo de relaes harmnicas, mas, sim, o lugar de uma guerra geral, econmica, social, comercial, financeira, militar; e nos dias de hoje tudo ainda mais evidente no mbito de uma desenfreada competio global entre plos imperialistas. Mesmo que os tericos da economia poltica tenham reconhecido algumas vezes esses conflitos, todavia, segundo Marx, no compreenderam que o elemento conflitante a essncia mesma do sistema capitalista; e que todas as fortes divergncias que opem os grupos sociais componentes da sociedade civil encontram sua motivao real e central no conflito fundamental entre capital e trabalho assalariado. De fato, mesmo na fase atual, o modelo de acumulao flexvel tem necessidade da reestruturao e da motivao capitalista, centrado ainda sobre a explorao do trabalho assalariado, com formas diversificadas em escala internacional, que explicam a competio global como conflito aberto entre plos geoeconmicos. justamente na articulao de tais dinmicas econmico-sociais, na possibilidade de superar a sociedade da explorao, que se fazem dominantes as contradies de classe. Isso acontece a partir de algumas caracterizaes que as modalidades da dinmica do desenvolvimento tm assumido, relacionadas ao mbito de uma relao capital-trabalho cujo objetivo final sempre o controle social interno, em cada pas capitalista, e o combate</p> <p>10</p> <p>|</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>externo pela determinao do domnio global atravs do alargamento das reas de influncia geoeconmicas dos trs grandes blocos: Estados Unidos da Amrica (EUA), Unio Europia (UE) e Japo componente asitico. Est, pois, em marcha, um pleno processo de internacionalizao da economia, explicvel no somente pelos fenmenos de reestruturao e reconverso que afetam a indstria, mas tambm pelo modo mesmo de como se apresenta o modelo de desenvolvimento capitalista. Est se consolidando uma lgica econmico-produtiva diferente, baseada em uma nova acumulao generalizada, que inclui mais e diversos modelos de produo e organizao do trabalho que os processos produtivos precedentes, mas que convive com os modelos de tipo industrial, tendo em seu centro o trabalho dependente, assalariado, com lgicas cada vez mais desenfreadas de explorao, com extrao macia da mais-valia absoluta e relativa. Segundo a dialtica hegeliana, essa a nica contradio que leva sua prpria superao. Dado que o capital aumenta e se acumula com a condio de criar um novo trabalho assalariado, pois na subjetividade poltico-social do movimento dos trabalhadores, empregados e desempregados subjetividade que se origina e cresce no conflito capital-trabalho que se conquista a conscientizao de superao do capitalismo.2. A anlise de Marx para a centralidade do conflito capital-trabalho Neste ponto, pode parecer que exista uma ampla convergncia e homogeneidade de vises por parte dos marxis-</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>|</p> <p>11</p> <p>tas, por se tratar de conceitos e elementos conhecidos por qualquer um que j tenha enfrentado o estudo desses temas. Mas no assim! grande a confuso sob o cu da anlise do ps-fordismo e a situao est longe de ser ideal. Os prprios marxistas duvidam no somente da possibilidade mas tambm da necessidade de uma leitura que conceba a maturidade das condies nas quais o capital tem grandes dificuldades de mediar e gerir o desenvolvimento, omitindo, como conseqncia disso, a tarefa irrenuncivel dos trabalhadores que mobilizar-se a favor da transformao das relaes sociais como as de propriedade, para construir outras relaes que tenham como referncia a extino do prprio capitalismo. Desde a apario do livro III de O Capital, surgiu uma srie de contradies e de crticas evidenciando o problema sobre o que seria o valor e de como este se mede, passando pela discusso sobre o valor cientfico da anlise de Marx acerca da explorao, at a crtica da chamada circularidade. Tais argumentos foram por mim acompanhados na jornada internacional de estudos do Laboratrio de Crtica Social, junto Universidade La Sapienza de Roma, por ocasio da apresentao do livro Um vecchio falso problema: la transformazione dei valori in prezzi nel Capitale di Marx (organizado por mim e com ensaios de Carchedi, Freeman, Klimax, Giussani e Ramos. Roma, Editora Mediaprint, 2002). Sem dvida, a partida terica em torno da possibilidade de transformao poltica, econmica e social e da supera-</p> <p>12</p> <p>|</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>o do capitalismo ocorre no terreno da teoria do valor, no suposto problema da transformao dos valores em preos e na anlise atual da forma de trabalho assalariado e de sua consistncia e rigor; em suma, no terreno da anlise cientfica da teoria da explorao. 2.1. Ps-fordismo e modelos de flexibilizao do trabalho e da vida social Para compreender a atual fase da competio global, determinante, como sempre, relacion-la anlise da organizao do ciclo produtivo, das caractersticas do tecido produtivo e social, do papel do Estado, das relaes entre as reas internacionais e da sua estrutura econmica, dos respectivos interesses de domnio e expanso que determinam o conflito interimperialista. Todas elas so problemticas relacionadas entre si e comumente dependentes pela passagem da era fordista chamada ps-fordista. A teoria econmica de Marx, bem como o resto da doutrina marxista no seu conjunto, se caracteriza por uma clara natureza social, por uma tendncia ao, prtica, por uma ntima ligao entre a teoria e a prtica. Conhecer o mundo significa para os marxistas transform-lo. As leis econmicas objetivas da sociedade capitalista se manifestam no curso da luta de classes para a extino do capitalismo. Coube a Engels e a Marx a descoberta de uma teoria econmica e poltica que colocasse por terra os velhos esquemas; uma teoria capaz de se adaptar de forma dialtica em cada momento com a realidade de classe. E isso nos reporta para a</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>|</p> <p>13</p> <p>atualidade de Marx na anlise do atual conflito capital-trabalho, a partir da presente constituio das classes. Percorrendo de modo esquemtico as ltimas fases poltico-econmicas, ocorre, a partir do incio dos anos de 1970, um enfraquecimento entre o sistema produtivo fordista e os modelos keynesianos, pelos quais o Estado realizava uma complexa mediao, regulao, cooptao e compresso dos conflitos sociais. O intenso processo de industrializao fordista se deslocou, assim, para novos mercados, especialmente os do Sudeste asitico e da Europa centro-oriental, aumentando a competio internacional e colocando em questo a liderana estadunidense. Nos ltimos 25 anos, o modelo consolidado de democracia capitalista, nascido nos EUA com o fordismo, em todos os seus diversos modos de se apresentar, dissolveu-se, anulando o conceito de sociedade civil e de civilidade que havia inaugurado o incio da modernidade capitalista, causando o desmembramento de toda a estrutura produtiva pr-existente e destruindo as mesmas formas de convivncia civil determinadas pelo modo de regulao e mediao social keynesiana. Formas de convivncia civil, social e sobretudo econmica que eram internas lgica constitutiva do modo de produo capitalista, de relaes de classe que, no essencial, condicionavam a existncia dos trabalhadores, do mesmo modo como ocorrera algumas dcadas antes da fase atual que denominamos, com ressalvas, de ps-fordista. O esgotamento do modelo fordista originou novos modelos de acumulao flexvel. O princpio que guia esses</p> <p>14</p> <p>|</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>modelos est baseado no fato de que a demanda que determina a produo em relao aos modelos de conflitos globais e de desenfreada concorrncia, mesmo que geralmente imperfeita. Ocorre que, hoje, a competio est baseada mais sobre a qualidade do produto e sobre a qualidade do trabalho. Essa estruturao do capital acompanhada pelo trabalho manual mal pago, descentralizado e cada vez mais no regulamentado, e por servios externalizados com um escasso contedo de garantias, permitindo-lhe um uso no mais baseado nas conexes entre quantidade produzida e preo (elementos tpicos do fordismo). A crise do sistema, devido ao processo de transformao do trabalho na sociedade ps-fordista, pode tambm ser explicada por esse contexto de desenvolvimento do trabalho de prevalente contedo imaterial. De fato, esse tipo de trabalho caracteriza-se, por um lado, de modo extensivo, pela forma de cooptao social que vai alm da fbrica e do trabalho produtivo; por outro lado, de modo intensivo, atravs da comunicao e da informao, recursos do capital abstrato ou intangvel. O trabalho imaterial aqui entendido como um trabalho que produz o contedo informativo e cultural da mercadoria, o qual modifica o trabalho operrio na indstria e no tercirio, subordinando suas tarefas capacidade de tratamento da informao, da comunicao, horizontal e vertical. Mas se trata sempre de trabalho assalariado! Est se configurando um novo ciclo produtivo ligado produo imaterial, que mostra como a empresa e a economia ps-industrial e ps-fordista esto fundamentadas pelo</p> <p>POR</p> <p>UMA</p> <p>POLTICA</p> <p>DE</p> <p>CLASSE</p> <p>|</p> <p>15</p> <p>capital informacional. Isso provoca uma profunda modificao nas empresas, antes estruturadas nas estratgias de venda e na relao com o consumidor, o que leva a considerar primeiro as questes da venda do produto, deixando para depois as da produo. Tais estratgias se baseiam na produo e no consumo de capital informacional, utilizando a comunicao confusa e o marketing social para recolher...</p>