lpv 506 a01 - amendoim apostila agronegocio

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  • INTRODUO AO AGRONEGCIO AMENDOIM1

    Gil Miguel de Sousa Cmara2

    1. INTRODUO

    A cultura do amendoim feita visando a obteno de gros, destinados

    principalmente alimentao humana. Os gros podem ser consumidos na forma

    in natura, torrados ou empregados na arte culinria da confeco de doces.

    Industrialmente, o gro processado para a extrao do leo, sendo este de

    qualidade nobre e rico em cido olico, tambm utilizado na indstria de conservas

    (alimentos enlatados) e de produtos medicinais. Presta-se ainda, para fins

    carburantes, tendo sido includo em proposta de um programa de leos vegetais

    para fins energticos no Pas (Pr-Diesel), no incio dos anos oitenta.

    Na nutrio animal, as ramas das plantas (hastes + folhas) em culturas bem

    conduzidas, representa excelente alimento para ser usado como forragem na forma

    de feno. A torta ou farelo, subproduto da extrao do leo, possui elevado valor

    comercial. Devido a sua riqueza em protena indicada para a alimentao animal,

    principalmente bovinos de corte, sob a forma de farelo. Entretanto, devido ao

    problema da aflatoxina, tem sido mais comum a sua utilizao como adubo

    orgnico em culturas perenes, principalmente em caf e citros.

    De 1996 a 2005 a cultura do amendoim passou por uma nova fase de

    evoluo tecnolgica, efetivando a transio de uma tecnologia de produo

    semimecanizada para totalmente mecanizada. Essa transio tecnolgica surgiu da

    necessidade de adaptao da cultura aos atuais moldes de gerenciamento tcnico e

    empresarial da produo vegetal, voltada conquista de novos mercados, tanto

    internos como externos. Mercados estes, cada vez mais exigentes em qualidade do

    produto obtido.

    1.1. Origem e Difuso Geogrfica

    O amendoim cultivado planta originria do continente sul americano.

    Justifica-se esta origem pelo fato de no mundo, espcies selvagens serem

    encontradas em abundncia, apenas na regio compreendida entre o sul do estado

    1 Texto bsico da disciplina optativa LPV 506: Plantas Oleaginosas, do curso de graduao em Engenharia Agronmica da USP/ESALQ.

    2 Professor Associado do Departamento de Produo Vegetal da USP/ESALQ e Professor Responsvel pela disciplina LPV 506: Plantas Oleaginosas.

  • INTRODUO AO AGRONEGCIO AMENDOIM 2

    do Amazonas, no Brasil, e o norte da Argentina, aproximadamente entre as

    latitudes de 10 e 30 Sul. Atualmente, admite-se que o local referente regio dos

    vales dos rios Paran e Paraguai (antigo lago do Gran Chaco), seja o principal

    centro de origem gentica do amendoim (Gillier & Silvestre, 1970).

    Os indgenas foram os responsveis pela difuso inicial do amendoim s

    diversas regies da Amrica do Sul, sendo levado s ilhas do mar das Antilhas e,

    possivelmente, Amrica Central e Mxico. Sua introduo na Europa ocorreu no

    sculo XVIII, sendo cultivado inicialmente no Jardim Botnico de Montpellier e, ao

    final deste sculo, proveniente da Amrica, foi introduzido em Valena na Espanha,

    onde sua cultura se propagou (Peixoto, 1972).

    A primeira referncia escrita sobre o amendoim data de 1578 e foi registrada

    por Jean De Lery, a partir de relatos de viagens de franceses pelo Nordeste do

    Brasil, compilados no texto Voyage au Brsio.

    Existiram duas rotas de distribuio da cultura do amendoim pelo mundo. No

    incio do sculo XIX, os portugueses levaram o amendoim do Brasil para a costa

    ocidental da frica. Ao mesmo tempo, os espanhis o disseminaram do Peru para

    as costas do Oceano Pacfico, chegando posteriormente s Filipinas, de onde foi

    transportado para a China, Japo e ndia. A sua entrada nos Estados Unidos

    corresponde ao perodo de escravatura, quando do comrcio de escravos negros a

    partir da costa ocidental africana.

    1.2. Importncia da Cultura

    O gro de amendoim, seja in natura, seja semi ou totalmente processado

    industrialmente, proporciona uma srie de produtos e subprodutos que atendem a

    mercados especficos, gerando empregos e rentabilidade econmica, desde os

    pequenos grupos familiares, que manufaturam os gros nas chamadas fabriquetas

    de fundo de quintal, at as grandes agroindstrias nacionais e multinacionais.

    A importncia scio-econmica da cultura reside na comercializao e

    utilizao dos produtos e subprodutos descritos a seguir.

    1.2.1. Produtos derivados dos gros de amendoim

    O gro de amendoim pode ser consumido in natura (cru) ou,

    preferencialmente, torrado. Inicialmente de produo caseira, cada vez mais tem

    sido industrializado, devido ao seu largo consumo como aperitivo. So

    comercializados em diferentes embalagens por vrias empresas, na forma de gros

    despeliculados e salgados, amendoim japons, pralins e outros. Os gros devem

  • USP/ESALQ - Departamento de Produo Vegetal - LPV 0506: Plantas Oleaginosas (2014)

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    sofrer uma torrao parcial para liberar a pelcula que os recobre, sendo destinados

    a amendoim torrado sem pelcula. Tambm podem ser utilizados no recheio de

    bolos, bombons, chocolates, sorvetes e em inmeras outras formas.

    A utilizao do gro em confeitos rotineira no Brasil, principalmente para a

    confeco das paocas e ps-de-moleque, tradicionais doces brasileiros de paladar

    e aroma agradveis. Estes produtos so obtidos tanto em grandes empresas do

    ramo alimentcio, como em micro empresas caseiras, gerando renda para

    considervel segmento da economia informal. As diferenas entre os produtos

    residem nos padres de qualidade que cada estrutura capaz de estabelecer e

    manter. Alm do amendoim torrado e modo, os seguintes ingredientes entram na

    composio das paocas: sal, acar, mel, xarope de glicose, gua e aditivos

    conservadores.

    Pastas e cremes de amendoim so produtos derivados dos gros

    desintegrados e finamente divididos, de textura suave, podendo ou no ser

    adicionados de outros ingredientes como: sal, acar, mel, gordura e aditivos. Os

    cremes so elaborados para consumo direto no po, por exemplo, ou para uso em

    confeitarias. As pastas so mais usadas em bolos, biscoitos, sorvetes, bolachas,

    produtos de confeitaria e em batidas de aguardente.

    O uso mais tradicional dos gros tem sido a extrao do leo, originando,

    como subproduto, o farelo ou torta de amendoim. Entretanto, o maior destino

    comercial dos gros de amendoim tem sido a agroindstria alimentcia,

    especificamente a de confeitaria, seja na linha doce ou salgada. Atualmente, a

    produo de leo est condicionada ao que exceder para uso como alimento, ou

    sobra de gros inapropriados para consumo humano.

    1.2.2. Produtos derivados do leo de amendoim

    O leo de amendoim refinado possui as propriedades exigidas pelo

    consumidor, sendo utilizado tanto para alimentao, quanto para usos

    farmacuticos e medicinais. um leo de belo aspecto, sabor agradvel, aroma

    suave, fluido, pouco solvel em lcool e pouco suscetvel ao rano. Do leo podem-

    se obter os seguintes produtos derivados:

    Maionese: emulso cremosa obtida com ovos e leo vegetal, adicionada de

    condimentos e outras substncias comestveis. No pode ser adicionada de

    corantes e deve ter, no mnimo, duas gemas de ovo por litro de leo e 65% de leo

    vegetal comestvel em sua composio. No mximo, pode ter 0,5% de amido e

    conter alguns aditivos das classes dos acidulantes, conservadores e acidificantes,

  • INTRODUO AO AGRONEGCIO AMENDOIM 4

    de acordo com a legislao brasileira.

    Gordura hidrogenada: elaborada a partir da hidrogenao parcial do leo,

    sob condies controladas e especficas, para originar um produto com plasticidade

    desejada que atenda as mais variadas necessidades da indstria de panificao,

    confeitaria e para frituras.

    Margarina: emulso de gua em leo, onde a fase gordurosa uma mistura de

    leos e gorduras vegetais, s vezes, animais, em quantidade e proporo suficientes

    para assegurar sua solidificao em temperaturas ambientes normais. A fase

    aquosa constituda por leite magro, ou gua, ou uma mistura de ambos.

    Como todo leo vegetal, o leo de amendoim possui elevado valor energtico

    para fins carburantes, visando a substituio total ou parcial do leo diesel. Foi o

    prprio Rudolph Diesel, na Alemanha, quem props o uso de leos vegetais como

    combustveis de motores, ao usar leo de amendoim in natura para funcionar, com

    sucesso, um motor Elko. Entretanto, ainda existem alguns obstculos a serem

    considerados, como: alta viscosidade, ausncia de volatilidade nas temperaturas

    normais de trabalho dos motores e tendncia deposio de gomas e vernizes.

    Atualmente, poucas agroindstrias processam amendoim visando a extrao e

    exportao de leo bruto, cujos principais compradores so os Estados Unidos e a

    Unio Europeia. Alm dos usos apresentados, o leo de amendoim pode,

    potencialmente, ser utilizado como substituto do silicone em prteses mamrias.

    1.2.3. Produtos derivados do farelo de amendoim

    Aps a extrao do leo, sobra uma massa parcialmente desengordurada

    denominada de torta (leo residual > 1%) ou farelo (leo residual < 1%) de

    amendoim. O farelo de amendoim foi muito utilizado at 1961/62, quando se

    constatou o problema da presena da aflatoxina em raes para animais. Nessa

    poca, houve significativa mortalidade de perus ingleses, cujo fato foi atribudo

    rao elaborada a partir de farelo de amendoim importado do Brasil. Desde ento, o

    farelo de amendoim brasileiro sofre com esse estigma e foi, gradativamente,

    substitudo p