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srie

rincpios

Anglica SoaresPs doutora pela Universidade Nova de Lisboa. Doutora em Teoria literria e professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Gneros literrios

editora tica

Anglica SoaresDiretor editorial Editor Editora assistente Coordenadora de reviso ARTE Editor Diagramador Capa e projeto grfico Editorao eletrnica EDIO ORIGINAL Diretores Benjamin Abdala Jnior e Samira Youssef Campedelli Preparadora de texto Ivany Picasso Batista Antnio Paulos Claudemir Camargo Homem de Mello & Tria Design Moacir K. Matsusaki Fernando Paixo Carlos S. Mendes Rosa Tatiana Corra Pimenta Ivany Picasso Batista

CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.S652g 7.ed. Soares, Anglica Gneros literrios / Anglica Soares. 7.ed. 85p. - (Princpios ; 166) Inclui bibliografia comentada ISBN 978-85-08-10783-4 1. Gneros literrios. I. Ttulo. II. Srie. 06-4130. So Paulo

CDD 801 9 CDU 821 9

ISBN 978 85 08 10783-4 (aluno) ISBN 978 85 08 10784-1 (professor) 2007 T. edio 1a. impressoIMPRESSO E ACABAMENTO Yangraf Grfica e Editora Ltda.

Todos os direitos reservados pela Editora tica, 2007

Av. Otaviano Alves de Lima, 4400 - So Paulo, SP CEP 02909 900 Tel.: (II) 3990-2100 Fax: (11) 3990-1784 Internet: www.atica.com.br - www.aticaeducacional.com.br

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Para Fernanda, a minha mais recente universitria

Sumrio

1. Os gneros, antigos como as obras 2. A questo retorna sempre Plato x Aristteles Horcio: um tom para cada gnero Idade Mdia, sem destaque para os gneros A rigidez das normas renascentistas O racionalismo de Boileau Pr-Romantismo e Romantismo: liberdade ainda que tardia Viso substancialista de Brunetire e reao de Croce Os gneros em algumas teorias literrias do sculo XX Procurando situar-nos 3.O texto, a teoria Traos e formas lricas Um poema acentuadamente lrico O lrico, o social, o humano Uma noo imprescindvel Algumas formas lricas fixas Traos e formas narrativas A epopia O romance e seus elementos bsicos O conto

7 9 9 11 11 12 13 13 14 16 21 23 23 23 26 29 30 37 37 42 54

A novela Traos e formas dramticas A tragdia A comdia O drama Duas formas especiais A crnica O ensaio Um texto: vrios gneros 4.Ruptura dos paradigmas Carnavalizao Dialogismo ou intertextualidade Pardia Um exemplo oswaldiano 5.Finalizando sem concluir 6.Vocabulrio crtico 7.Bibliografia comentada

55 57 60 62 63 64 64 65 66 71 71 72 72 74 77 79 81

A paginao deste ndice corresponde edio original em papel. A numerao foi inserida entre colchetes no decorrer do texto, indicado sempre o final de cada pgina.

1 Os gneros, antigos como as obras

A tendncia para reunir, em uma classificao, as obras literrias onde a realidade aparece de um determina do modo, atravs de mecanismos de estruturao semelhantes, surge com as manifestaes poticas mais remotas. As sim, pode-se contar a histria da teoria dos gneros literrios no Ocidente, a partir da Antigidade greco-romana. A denominao de gneros literrios, para os diferentes grupamentos das obras literrias, fica mais clara se lembrarmos que gnero (do latim genus-eris) significa tempo de nascimento, origem, classe, espcie, gerao. E o que se vem fazendo, atravs dos tempos, filiar cada obra literria a uma classe ou espcie; ou ainda mostrar como certo tempo de nascimento e certa origem geram uma nova modalidade literria. A caracterizao dos gneros, tomando por vezes feies normativas, ou apenas descritivas, apresentando se como regras inflexveis ou apenas como um conjunto de traos, os quais a obra pode apresentar em sua totalidade ou predominantemente,

vem diferenando-se a cada poca. Em defesa de uma universalidade da literatura, muitos tericos chegam mesmo a considerar o gnero como categoria [ pgina 7 ] imutvel e a valorizar a obra pela sua obedincia a leis fixas de estruturao, pela sua "pureza". Enquanto outros, em nome da liberdade criadora de que deve resultar o trabalho artstico, defendem a mistura dos gneros, procurando mostrar que cada obra apresenta diferentes combinaes de caractersticas dos diversos gneros. Outra questo a do nmero de gneros existentes. Haveria, com o aparecimento de obras que no apresentassem elementos j previstos pelas teorias existentes, o nascimento de novo gnero ou a diviso tripartida (gnero lrico, pico e dramtico) daria conta de todos os textos literrios? Como procurar entender e melhor nos posicionarmos diante de tal problemtica? O primeiro passo, creio que seja acompanharmos os momentos mais significativos do percurso historiogrfico da teoria dos gneros. [pgina 8]

2 A questo retorna sempre

Plato x Aristteles Plato (cerca de 428 a.C. - cerca de 347 a.C), no livro III da Repblica (394 a.C), nos deixou a primeira referncia, no pensamento ocidental, aos gneros literrios: a comdia e a tragdia se constrem inteiramente por imitao, os ditirambos apenas pela exposio do poeta e a epopia pela combinao dos dois processos. Como Plato atribusse s artes uma funo moralizante, a classificao das obras literrias atravs de seu conceito de imitao (o poeta, como o pintor, era autor da terceira espcie, comeando a contar pela natural. No segundo lugar da srie estaria a obra do arteso. O poeta seria apenas um imitador daquilo que o arteso fabricava) serviria de base condenao que faz aos poetas que, ao concederem autonomia voz das personagens, em nada contribuam para o projeto poltico de edificao de uma plis ideal.

Ao guiar-se por preocupaes de ordem esttica, Aristteles (384 a.C. - 322 a.C.) recusa a hierarquia platnica, apresentando na Potica uma nova percepo do processo [pgina 9] da mmesis artstica. E, embora o conceito de mmesis no tenha sido por ele claramente formulado, ao marcar a diferena no modo de recepo da realidade e da arte, lembrando que "ns contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnncia, por exemplo, as representaes de animais ferozes e de cadveres",1 remete-nos para o fato de que o prazer decorrente da mmesis no se explica pelo que se sente em relao ao mundo emprico. A nfase na diferena entre o mundo emprico e a realidade da arte leva o filsofo a valorizar o trabalho potico e a se voltar para o estudo de seus modos de constituio, a fim de detectar as diferentes modalidades ou gneros de poesia: a) Segundo o meio com que se realiza a mmesis, distinguindo-se a poesia ditirmbica por um lado e a tragdia e a comdia por outro, pois, se todas elas usam o ritmo, a melodia e o verso, utilizam-nos de forma diferente: a poesia ditirmbica emprega todos eles simultaneamente, enquanto a tragdia e a comdia os empregam alternadamente. b) Segundo o objeto da mmesis, distinguindo-se, por exemplo, a tragdia que apresentava homens melhores do que ns (de mais elevada psique, portadores de possibilidades de transformao do mundo) e a comdia, ocupandose de homens "piores" do que ns (de menos elevada psique, portadores de vcios, isto , de limitaes). c) Segundo o modo da mmesis, distinguindo-se o processo narrativo, caracterstico do poema pico, e o processo dramtico, caracterstico, por exemplo, da tragdia e da comdia. No primeiro caso, o poeta narra em seu nome ou assumindo diferentes personalidades; no segundo caso, os atores agem como se fossem independentes do Autor. Convm lembrar que, em Aristteles, a diferenciao formal dos gneros est intimamente ligada preocupao conteudstica. Por exemplo, o hexmetro dactlico, sendo

o verso mais afastado da fala comum, melhor se coaduna[pgina 10]____________________________________________________________ 1 (nota de rodap)

Porto Alegre, Globo, 1966. p. 71.

grandeza dos caracteres e das aes hericas e solenidade da pica e, por isso, a caracteriza. Faltando-nos o segundo livro da Potica, cuja perda c indicada por aluses a futuros escritos, feitas na parte da obra que chegou at ns, no temos o pensamento aristotlico sobre o lrico.

Horcio: um tom para cada gnero O pragmatismo romano leva Horcio (65 a.C. - 8 a.C.) a impor literatura uma funo moral e didtica, devendo nela juntar-se o prazer e a educao. Na arte potica horaciana, a Epistul ad Pisones (Carta aos Pises), incluem-se algumas reflexes sobre os gneros literrios e ressalta-se a questo da adequao entre o assunto escolhido pelo poeta e o ritmo, o tom e o metro, considerando-se que s pode ser tido como poeta aquele que sabe respeitar o domnio e o tom de cada gnero literrio. Pela unidade de tom no era admissvel que se exprimisse, por exemplo, um tema cmico no metro prprio da tragdia. Dessa forma, eliminava-se a possibilidade de hibridismos, eliminao que viria a ser amplamente defendida pelo classicismo do sculo XVI. Idade Mdia, sem destaque para os gneros

No perodo medieval, pelo rompimento com a tradio clssica, recebem os gneros novos contedos. Sistematizaes rigorosas se voltam para a poesia trovadoresca, mas uma referncia importante aos gneros feita por Dante [pgina 11] Alighieri (clebre entre ns, pela sua Divina comdia) que, na Epstola a Can Grande Della Scala,2 classifica o estilo em nobre, mdio e humilde, situando-se no primeiro a epopia e a tragdia, no segundo a comdia (tambm diferenciada da tragdia pelo seu final feliz) e no ltimo a elegia. A rigidez das normas renascentistas Trazendo cena os postulados tericos da Antigidade greco-latina, caracteriza-se a crtica renascentista pela leitura da mmesis aristotlica como imitao da natureza e no como um processo de recriao. Conseqentemente, a teoria dos gneros passa a constituir-se como normas e preceitos a serem seguidos rigidamente, para que mais perfeita fosse a imitao e mais valorizada fosse a obra. Considerando que os antigos teriam realizado a arte de forma inigualvel, o sculo XVI os toma como modelos ideais. Desse modo, o que se tem uma concepo imutvel dos gneros, em perfeito acordo com a defesa da universalidade da arte, da sua ess