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articulo lit. br. s. XXI

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  • Viva a vanguarda:literatura brasileira contempornea

    luz da ruptura

    Dau Bastos*

    Ao olharmos para trs para avistar as Vanguardas europeias

    e os primeiros passos de nosso Modernismo, frequentemente

    somos tomados por um pensamento desalentador: um sculo

    depois de se inaugurar uma verdadeira avalanche de manifestos

    sobre os quais se pautaram guinadas cruciais, vivemos um tempo

    carente de ideias arrebatadoras. Do tom exclamativo dos anos

    de rompimento restou, na melhor das hipteses, uma postura

    molemente indagativa: que fazemos se j se experimentou tudo?

    Caso alarguemos a visada para mirar a incontornvel esfera

    poltica, encontramos ainda mais desnimo: chegamos ao sculo

    XX livres de engodos metafsicos e decididos a realizar o paraso na

    Terra, todavia adentramos o novo milnio bombardeados de provas

    de nosso pendor para a vileza. Alm de memorveis revolues

    internacionais terem resultado em ditaduras, o Brasil talvez

    ltimo celeiro da esperana viu o idealismo tingido de conivncia

    ou venda to logo a esquerda chegou ao poder.

    A falta de perspectivas sequer encontra resistncia na

    outrora prestigiosa intelligentsia, igualmente colocada em xeque.

    A figura do intelectual erigida por Zola ao publicar o destemido

    * Escritor e professor de Literatura Brasileira (UFRJ).

  • Ensaios 34

    libelo antimilitar Acuso! (1898) chegou ao pice paladnico

    com Sartre e seu decidido engajamento. Entretanto, depois de

    tanto desatino individual e coletivo, quem se arvoraria a apon-

    tar caminho para a niilista consumada que a humanidade aca-

    bou se tornando?

    De toda maneira, Nietzsche pensou o niilismo como fora

    destrutiva, nascida da amargura e da decepo, mas tambm

    energia motriz, capaz de resultar em criao (Biaggi, V.: 1998, 28).

    Para limpar tal ambivalncia do aspecto de clich de auto-ajuda

    ou de mxima oriental, resta o cerrado crivo que a realidade se

    configura sempre que lhe damos a devida ateno.

    Assim, talvez nos seja facultado afirmar que parece re-

    mota a possibilidade de recuperarmos o el poltico, porm o

    tal pensamento nico no consegue conter o processo de popu-

    larizao de alguns conceitos-chave desenvolvidos por Marx e

    outros revolucionrios. Isso ganha ainda mais importncia em

    nosso perverso pas, onde manifestar descontentamento no

    mais exclusividade daqueles poucos antigamente chamados de

    conscientes.

    Retornando esttica, sabemos que buscar o novo um

    verdadeiro anacronismo. Da mesma forma, a romntica noo de

    gnio foi enterrada de vez por fatores como a desauratizao da

    obra de arte, a imensa variedade de veredas abertas produo e

    o adensamento demogrfico, com a consequente multiplicao

    do nmero de criadores em atividade. Contudo, resta a busca de

    originalidade, sem a qual reeditaramos a camisa-de-fora classicista.

    Podemos afirmar, por conseguinte, que continuamos habilitados a

    produzir o belo no sentido que Kant lhe empresta na Crtica do juzo

    (1790), enquanto correlato humano do sublime divino.

  • 35Viva a vanguarda...

    Finalmente, como estamos numa universidade pbli-

    ca, produzir reflexo no se afigura veleidade ou exorbitncia, e

    sim dever nosso, enquanto pesquisadores financiados pelo povo.

    Decididamente no podemos tomar o vazio tico, o fim dos ismos e o pudor de propor rumo como embaraos especulao. Ao con-trrio: mais que nunca urge abrir o campus, socializar intuies e achados, tomar parte nos debates em curso na sociedade. Se nos faltam respostas, sobram-nos perguntas e questionamentos. Dei-xar de formul-los por conta do universalismo que desacreditou os intelectuais menos modstia do que corpo mole ou covardia.

    nesse esprito que refarei o percurso da Belle poque francesa at os primrdios do Modernismo brasileiro, em esforo de triar uma herana extremamente fecunda, de modo a diferenar os arroubos e experincias que apenas iluminaram limites daquelas propostas que continuam nutrindo as prticas literrias em territrio nacional.

    Perenizao da pluralidade

    Costuma-se situar temporalmente a Belle poque de maneira equilibrada, datando-se seu incio em 1886 e estendendo sua vigncia at 1914.1 Encontramos o pico da euforia associado sempre simblica virada do calendrio, quando zerar o passado implica apostar no porvir. Na passagem para o sculo XX, em especial, a articulao dos trabalhadores prometia profundos avanos sociais, a valorizao do inconsciente e do subconsciente ampliava as chances de conhecimento

    1 o que encontramos nas mais variadas fontes, a exemplo da obra de referncia Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro, de Gilberto Mendona Teles (1987).

  • Ensaios 36

    do ser humano, a inveno do aeroplano parecia confirmar nossa

    vitria contra essa fora aterradora que a gravidade e o advento do

    cinematgrafo estendia o encanto da fico aos iletrados.

    A ento capital cultural do Ocidente experimentava toda

    essa excitao de maneira particularmente intensa, potencializada

    pela alegria de poder brindar paz com os histricos inimigos

    das cercanias. Nos charmosos terraos dos cafs parisienses,

    as bomias artsticas celebravam o sonho democrtico e o fim

    definitivo das escolas. De l para c, a utopia foi desbancada pelo

    desencanto, mas a diversidade de pensamento e produo artstica

    se firmou como perene. Sobreviveu ao assalto dos regimes de

    fora e, se continua sofrendo as injunes do mercado, prevalece

    como vivncia e horizonte.

    A literatura brasileira contempornea de qualidade no

    tem sequer trao do otimismo da Belle poque, com a qual porm

    partilha a pluralidade. Ao lado de escrevinhadores e poetastros li-

    mitados repetio de frmulas, encontram-se ficcionistas e poe-

    tas que produzem com conscincia, ocupam espaos prprios, pu-

    blicam textos que nada devem ao que se faz l fora e, em conjunto,

    constituem um vasto leque de estilos.

    Acresce-se que o aumento da populao alfabetizada e,

    por extenso, do nmero de pessoas que escrevem permite fa-

    lar em efervescncia. S no podemos esquecer que tal ebulio se

    deve principalmente misria secular em que continuamos mergu-

    lhados. A leitura e a escrita sempre foram to minguadas entre ns

    que parecem se destacar agora por contraste com um passado de

    densidade demogrfica menor.

    Por fim, se hoje h mais compatriotas produzindo textos

    que a redao se tornou prioridade na comunicao humana,

  • 37Viva a vanguarda...

    por conta dessa potente tecnologia que a informtica. Mesmo

    em domnios mais dados aos nmeros do que s letras, impe-se

    a necessidade de se redigir bem. No tocante rea literria, os sites

    e blogs aumentaram sobremaneira o espao de criao e circulao,

    facilitando inclusive a explorao das vias abertas pelas vanguardas.

    Herana depurada

    O termo vanguarda se vincula a frente e enfrentamento,

    pioneirismo e ruptura binmios de difcil ou impossvel cultivo

    na atualidade. Igualmente discrepante de nossa poca a aposta

    no amanh, o enaltecimento da velocidade, o aplauso aos smbolos

    do progresso, o mpeto de demolir bibliotecas, o af de acabar com

    os museus e a nefasta crena de que a guerra a nica higiene do

    mundo, conforme se l no primeiro manifesto futurista, publica-

    do no jornal francs Le Figaro de 20 de fevereiro de 1909.2 Essas e

    ou tras palavras de ordem indicam o deslumbre pelos avanos tec-

    nolgicos e o pendor ultradireitista da turma de Marinetti, a qual

    em 1919 se transformou em porta-voz do Partido Fascista Italiano.

    Como brotou ainda em 1905, o Futurismo a primeira van-

    guarda de uma lista organizada cronologicamente. O carter parado-

    xal de suas bandeiras gera um desconcerto salutar, na medida em que

    nos estimula a ser bastante crticos quando se trata de absorver esses

    movimentos fundamentais. separando tica e esttica que ficamos

    vontade para apreciar as reivindicaes futuristas que realmente

    importam: verso livre, imaginao sem fio e palavras em liberdade.

    2 Cf. Teles, op. cit., p. 85.

  • Ensaios 38

    O verso sem limitaes de mtrica e rima vinha sendo

    praticado, mas ao virar divisa ampliou as chances de se firmar.

    Uma de suas primeiras e mais eloquentes defesas verde-amarelas

    encontra-se no Prefcio interessantssimo a Pauliceia desvairada,

    onde Mrio de Andrade diz no achar mais graa nenhuma nisso

    da gente submeter comoes a um leito de Procusto (1922, 20).

    A imagem do mitolgico salteador que mutilava as vtimas

    suficientemente forte para revelar a importncia de se criar sem

    regras a priori, sob pena de no se satisfazerem as exigncias

    expressivas do sculo XX e continuar se confundindo frma

    e forma, conforme se l no poema-plataforma Os sapos, de

    Manuel Bandeira (1919).

    Quanto imaginao, sempre foi fiscalizada e contida,

    conforme se constata no alentado estudo empreendido por Luiz

    Costa Lima (1984, 1986 e 1988) sobre o empenho da Igreja, do

    Estado e de outras instncias em mant-la sob rdeas fortes e

    instrumentalizar seu uso. Mesmo em Kant, que na terceira Crtica

    demonstra que a arte resulta de um jogo capitaneado pela faculdade

    humana de que tratamos aqui, esta parece irresponsavelmente

    serelepe

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