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    Licenciamento ambiental unificado e empreendimentos de macrodrenagemUnified licensing and developments of macrodraining venture

    Georges Louis Hage HumbertDoutor em direito e Professor de Direito da UNIJORGE. Advogado, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2648120711699923 Email:georges@humbert.com.br

    Marcelo Timb NiloMestre em Direito UFBA. Professor de Direito UNIJORGE. Advogado Lattes: http://lattes.cnpq.br/0187439782573859 Email: marcelotimbo@hotmail.com

    Recebido: 20.10.2017 | Aprovado: 18.11.2017

    RESUMO: O presente estudo tem por objetivo demonstrar que o licenciamento unificado no deve ser utilizado para atividades e empreendimentos de significativo potencial poluidor, como no caso das macrodrenagens. Pensar de modo contrrio admitir que o licenciamento simplificado se torne instrumento violador da Constituio da Repblica Federativa do Brasil, notadamente aos princpios da proteo-preservao, sustentabilidade, devido pro-cesso legal substantivo e legalidade, pois todo arranjo normativo infraconstitucional que, direta ou indiretamente, dispensar o devi-do licenciamento e o estudo prvio de impacto ambiental para ins-talao de obra ou atividade de significativo potencial degradante estar em rota de coliso frontal com os seus arts. 225, caput, 1, IV e Art. 5, especificamente quanto a razoabilidade e proporciona-lidade nsitas ao devido processo.

    PALAVRAS-CHAVE: Licenciamento ambiental. Licena Unifi-cada. Empreendimentos de Macrodrenagens. Potencial poluidor.

    ABSTRACT: The present study aims to demonstrate that unified licensing should not be used for activities and ventures of signifi-cant potential polluter, as in the case of macrodrains. To unders-tand otherwise is to admit that simplified licensing is capable of violating the Brazilian Constitution (CF), notably to the principles of protection-preservation, sustainability, due process of law and legality, cause any infraconstitutional normative arrangement that,

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    direct or indirectly, exempt the proper licensing and the prior stu-dy of environmental impact for the installation of work or activity of significant degrading potential will be in direct collision course with arts. 225, caput, 1, IV and 5, CF, specifically as to the reaso-nableness and proportionality of the due process.

    KEY WORDS. Environmental licensing. Unified License. Macro-draining venture. Pollution potential.

    SUMRIO: 1. Introduo 2. Do regime jurdico de direito am-biental: noes fundamentais 3. Do Licenciamento Ambiental - 4.Do licenciamento ambiental simples ou unificado e a catego-rizao de empreendimentos com base no seu porte e potencial impacto ambiental: o caso da macrodrenagem de rios urbanos- 5. Concluses 6. Referncias

    1. IntroduoO presente estudo pretende aferir se o licenciamento ambien-

    tal simplificado deve ou no servir como procedimento autori-zador de empreendimentos de significativo potencial poluidor, como so, por exemplo, os empreendimentos de macrodrenagem de rios urbanos, a partir de uma anlise da legislao brasileira em vigor, notadamente da Constituio, da Poltica Nacional do Meio Ambiente e de atos infralegais regulamentares.

    Para tanto, primeiramente necessrio se faz investigar os pres-supostos legais que condicionam todo e qualquer ato que incida sobre o interesse ambiental juridicamente protegido, necessaria-mente a partir dos princpios regentes e da delimitao do consti-tucionalmente denominado meio ambiente ecologicamente equi-librado.

    Em sequncia, se faz necessrio compreender o regime jurdi-co do licenciamento ambiental, sua natureza, espcies, finalidades e procedimentos, bem como a noo de avaliao e significativo impacto ambiental.

    Neste passo, poder-se- identificar se o procedimento simpli-ficado ou unificado de licenciamento incide ou no para as hip-teses de intervenes complexas no meio ambiente ou, consoante

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    predisposio normativa, assim consideradas de significativo im-pacto ambiental, tratando, detidamente, em estudo de caso espe-cfico, da hiptese das obras de macrodrenagem de rios urbanos, assim como quais as possveis medidas de controle caso a atuao do administrador pblico ofenda o quanto positivado no sistema jurdico brasileiro.

    Finalmente, sero apresentadas, de forma sinttica e sistema-tizada, as concluses extraveis desta pesquisa.

    2. Do regime jurdico de direito ambiental: noes fun-damentais

    O meio ambiente tema dos mais relevantes nos dias atuais, em todo o mundo. No Brasil, desde 1988, ganhou status de bem jurdico protegido constitucionalmente, estando objetado em captulo especfico, a partir do art. 225, bem como plasmado em diversos dispositivos, como o 5, LXXIII, 23, V a VII, 24, VI a VIII,129, III, 170, VI, 174, 3, 186, II, 200, VIII, 218, pargrafo nico, e 220, II, alm de outras passagens de disciplina de bens ambientais especficos, como recursos hdricos, minrios, cultura, comunidades tradicionais, cidades e outras questes inerentes ao meio ambiente.

    Esta realidade se potencializa quando se vislumbra a regulao da matria no plano infraconstitucional e, infelizmente, tambm no infralegal por via de decretos, permitidos pelo art. 84, IV, da Constituio, de competncia privativa do Executivo e para fiel execuo da lei ou debaixo da lei, como ensinava Geraldo Ataliba, mas tambm pelas famigeradas resolues, instrues, portarias, atos interna corporis, os quais no podem limitar e condicionar direitos de terceiros, do cidado, ao menos sem violar o direito fundamental segurana jurdica e a respectiva garantia da legalidade, segundo a qual ningum ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo seno em virtude de lei isto, na forma da Constituio, da Lei Maior, significa, em virtude de lei em sentido estrito (ato do Poder Legislativo) ou Decreto (ato legislativo atpico expedido somente pelo chefe do Executivo e para fiel execuo de lei).

    Contudo, no se olvida essa realidade e, pragmaticamente,

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    alm da Constituio, impende-se uma abordagem tambm de atos infralegais, a fim de contemplar o estudioso do Direito com um rico manancial de informaes em torno de todo o regime ju-rdico ambiental brasileiro, proporcionando conhecimento geral, essencial e tambm especializado dos mais variados temas relacio-nados ao Direito Ambiental brasileiro.

    Segundo o art. 225 da CF: Todos tm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial sadia qualidade de vida.

    O que se entende por bem de uso comum do povo? Ao determinar que o meio ambiente de uso comum de todos, significa dizer que estaria disponvel para todos, inaproprivel e elevado categoria de bem pblico?

    O que a Constituio quis determinar no foi a converso de todo bem ambiental em bem pblico. Quando a Constituio quis determinar bens do meio ambiente como bens pblicos, o fez em seu art. 20, constando da mesma forma no Cdigo Civil, por exemplo. Isso no quer dizer, portanto, que a expresso bem de uso comum do povo atribua todo aspecto do meio ambiente como sendo de titularidade do Poder Pblico, muito menos que seja insusceptvel de apropriao pelo particular.

    O contedo dessa determinao ratificar o que o incio do artigo j afirmava: o bem ambiental dever ter a proteo na condio de bem difuso e coletivo, de interesse pblico, por norma de ordem pblica, inderrogvel, que submete os titulares de direitos relacionados ao meio ambiente a limitaes, tanto negativas quanto positivas.

    Ademais, importante a expresso essencial sadia qualidade de vida. Aqui a Constituio aproxima o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado a um direito fundamental, como o direito vida.

    Ao potencializ-lo como essencial sadia condio de vida, o constituinte o aproximou no s do direito fundamental vida, mas tambm vida digna. Se o meio ambiente ecologicamente equilibrado o mnimo para se ter uma qualidade de vida, ele integra o contedo do princpio da dignidade da pessoa humana.

    Da, extraem-se duas consequncias jurdicas relevantes: a) a proteo ao meio ambiente ecologicamente equilibrado clusula

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    ptrea; b) na operao das normas de Direito Ambiental, incide o princpio da dignidade da pessoa humana, uma vez que a proteo ao meio ambiente permeia a dignidade da pessoa humana. Isso quer dizer que, em uma possvel coliso de normas/princpios, aquelas atinentes tutela do meio ambiente estaro em uma condio hierrquica superior. Alm de direito fundamental, as normas de proteo ao meio ambiente tm a qualidade de normas fundadas no maior grau hierrquico do nosso sistema normativo. Isso relevante para efeito de soluo de aparentes conflitos entre normas jurdicas.

    Para finalizar, o art. 225 prescreve: impondo-se ao poder pblico e coletividade o dever de defend-lo e preserv-lo para as presentes e futuras geraes. O Poder Pblico tem o dever de guarda do bem ambiental por ser direito coletivo , mas o particular tambm tem. Esta disposio fundamenta toda a teoria de responsabilidade especial em matria ambiental.

    A proteo do meio ambiente para a presente e futuras geraes, sendo obrigao do Poder Pblico e do particular, sempre que versar sobre a proteo do meio ambiente, faz-lo com base no princpio do planejamento. Nada pode ser decidido em matria ambiental, seja na produo ou na execuo das normas de proteo ao meio ambiente, de modo a apenas vislumbrar o estado atual do meio ambiental, mas sempre como ficar aps as sucessivas relaes humanas com ele.

    Assim, revela-se o contedo mnimo do que meio ambiente do ponto de vista jurdico: no qualquer um, mas o ecologicamente equilibrado, qualificado como difuso e coletivo, que objeto de obrigaes, permisses, faculdades de