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IX SAPPGFIL

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2237-2539

Junho

2012

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Alegre

LIBERDADE, VALOR E DEVER EM KANT1

Prof. Dr. Adriano Naves de Brito2

A defesa do compatibilismo est muito frequentemente vinculada ao argumento de

que sem o pressuposto da liberdade para realizar uma ao a imputao consequente de

responsabilidade fica comprometida. filosofia moral de Kant, para a qual a liberdade

conceito fundamental, recorrem muitos dos que seguem essa linha argumentativa com a

esperana de nela encontrar recursos que a apoiem. Neste texto, proponho-me, primeiro, a

defender que, a despeito do papel que desempenha a liberdade na filosofia kantiana, sua teoria

moral, no tocante responsabilidade, no d azo a esse expediente de apoio ao

compatibilismo. Em Kant, e este ser o segundo ponto que almejo defender, a centralidade

que tem a liberdade no sistema da moralidade deve-se concepo de valor moral que subjaz

sua filosofia prtica. Em suma, defenderei que a imputao de responsabilidade em Kant

prescinde da pressuposio de liberdade, mas que a suas teorias do valor e do dever no.

Autonomia e experincia: o n Compatibilista

O n grdio do compatibilismo a harmonia entre causalidade natural e liberdade de

ao. Desde uma perspectiva estritamente emprica, o motivo correspondente no plano

prtico do que causas so no plano terico um evento e como tal tem de ter atrs de si

outro evento como causa. A experincia, nos termos que nos apresenta Kant na KrV, implica

a subsuno dos fenmenos s regras de apreenso da sensibilidade, espao e tempo, e s

unidades de sntese nos juzos, dentre elas a causalidade. Vista ento pelo prisma terico, a

ao est, como qualquer outro fenmeno, inserida na corrente causal dos eventos.

A distino kantiana entre fenmeno e coisa em si abre para a moralidade um

1 Publicado originalmente em: BRITO, A. Naves de. Freedom and Value in Kant's Practical Philosophy. In:

Stephen, R., Palmquist. (Org.). Cultivating Personhood: Kant and Asian Philosophy. 1 ed. New York: De

Gruyter, 2010, v. 1, p. 265-272. 2 Com o apoio do CNPq.

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importante espao de indeterminao. Com efeito, que uma ao esteja empiricamente

inserida no fluxo das causas, de sorte que o evento que causar um dado motivo esteja ab ovo

pr-determinado in re considerando a coisa apenas como fenmeno, que assim seja, digo,

no significa que a inteligibilidade desta ao, se procurada pela razo em seu uso prtico e,

portanto, noumenal corresponda soma dos eventos da natureza. Significa apenas que

essencial ao esquema de apreenso do real que haja uma determinao para esse motivo. A

inteligibilidade da ao, por sua vez, pertence, na arquitetnica kantiana, a outro mbito.

Ensina a KrV:

Denomino inteligvel aquilo que num objeto dos sentidos no propriamente

fenmeno. Consequentemente, se aquilo que no mundo dos sentidos tem que

ser encarado como fenmeno tambm possui, em si mesmo, um poder que

no objeto da intuio sensvel, mas que mediante esta, no obstante, pode

ser a causa de fenmenos, ento a causalidade deste ente pode ser

considerada sob dois aspectos: no caso de ela se referir a uma coisa em si

mesma, ser inteligvel segundo a sua ao, ao passo que se se referir a um

fenmeno no mundo dos sentidos, ser sensvel segundo os seus efeitos. Por

conseguinte, formar-nos-amos tanto um conceito emprico quanto um

conceito intelectual da causalidade da faculdade de um tal sujeito, sendo que

ambos ocorreriam juntamente num e no mesmo efeito. (KrV, A538, B566)

O giro transcendental, tpico da filosofia terica de Kant, cria as condies para que se

resolva a questo do determinismo, fatal para a sobrevivncia do arbtrio. No abre,

entretanto, campo para a liberdade em sentido objetivo. Afinal, toda ao ser ainda a

resultante de um motivo uma causa na cadeia temporal e ocorre no mbito da natureza.

Por conseguinte, uma ao ser to livre quanto casual a ocorrncia de um evento A

qualquer. Uma vez descoberta a causa desse e o motivo daquela, desaparecero neles

casualidade e liberdade, respectivamente (Cf. KrV, B577). A limitao do uso das categorias

ao mbito da apreenso do mundo mediante a experincia, no resolve, portanto, o problema

da atribuio de responsabilidade, se a fizermos depender da liberdade. Apenas cria o da

incerteza. Tudo est causalmente determinado, mas as causas especficas tm de ser

descobertas experimentalmente e sobre a relao entre elas e seus efeitos no h certezas.

Nesse contexto, e pensando nas aes humanas, possvel dar ao conceito liberdade algum

contedo, mas ele ser negativo e bem ao gosto do empirismo humeano: a ignorncia, e

incerteza, acerca das causas de um fenmeno prtico.

No sentido estrito dos compatibilistas (mas tambm no de um incompatibilista radical,

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do tipo que propugna uma separao completa entre os mundos natural e moral), o que se

exige para a atribuio de responsabilidade que as aes do agente possam ser motivadas

por determinaes exclusivamente intrnsecas sua vontade. Nessa perspectiva, a

responsabilidade um corolrio da autonomia. E uma ao somente ser livre se a vontade do

agente, ao realiz-la, inaugurar cadeias causais. Se, em um caso dado, a vontade no se

autodetermina, ento, embora ela tenha a possibilidade de ser livre, a ao que, nessas

condies, dela resulta no o ser. Tal ao ser to-somente mais um elo na cadeia causal

dos eventos.

Responsabilidade e Liberdade

A atribuio de responsabilidade exige sempre a identificao de uma ao particular

sobre a qual ela pese. No muito esclarecedor falar da responsabilidade em geral da vontade.

Quando se trata de julgar o carter moral, imprescindvel especificar o ato particular pelo

qual uma dada vontade seria a responsvel. Na atribuio de responsabilidade, o caso mais

fcil ocorre quando a ao particular considerada livre. Ai, por definio, o agente

responsvel por ela. E num outro caso particular dado em que a ao no resulte de um ato de

liberdade da vontade, quando, pois, ela no obra da vontade, mas ocorreu porque a vontade

no interveio; a atribuio de responsabilidade fica comprometida neste caso?

O problema como responsabilizar o agente por aes que no so, stricto sensu, obra

sua, por aes que realizou sem sobre isso deliberar livremente. A resposta a essa dificuldade

que o agente deveria ter deliberado, j que poderia t-lo feito. Sim, poderia, mas no o fez; e

o resultado do argumento que o agente responsvel tambm por aes que no realiza

livremente, por aes que ocorrem segundo o fluxo causal da natureza, por aes, em fim, de

uma vontade que, dada uma circunstncia, no atua autonomamente.

A posio de nosso interlocutor compatibilista estaria, pelo menos no que tange s

aes realizadas no gozo da autonomia da vontade, segura, ou nem isso? De fato, nem isso.

Como que se pode saber se um agente moral qualquer atua ou no mediante uma vontade

autnoma? Ora, poder-se-ia responder, mediante a avaliao da ao. Mas essa s pode ser

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investigada se puder ser o objeto de uma experincia possvel. No mbito da experincia

possvel, entretanto, no h como determinar quando e se uma ao livre, j que a

causalidade envolvida no ato no se deixa apreender empiricamente. Pelo menos para seres

finitos como so os humanos, no possvel distinguir numa ao o seu carter autnomo,

pelo menos no pela observao de sua ocorrncia no plano da natureza.

De onde, ento, pode tirar o compatibilista a ideia de que a autonomia condio da

responsabilidade? No da liberdade da vontade, coisa de resto incognoscvel. Ademais,

concordaria Kant, mesmo que nenhum agente racional jamais tenha agido livremente, eles,

ainda assim, seriam responsveis por suas aes, porque poderiam, em cada caso, ter agido

assim. E como se sabe que poderiam? Certamente no em virtude da liberdade dos agentes,

pois um argumento assim redundaria numa petitio principii. Portanto, se a condio para a

atribuio de responsabilidade for a conhecida possibilidade da liberdade da vontade, ela no

poderia ser satisfeita para o agente finito e somente um agente omnisciente poderia fazer essas

atribuies. V-se, assim, que a condio exageradamente forte e Kant no estaria disposto a

aceitar todas as suas consequncias. Em especial, ele no aceitaria a consequncia de

interditar todas as atribuies de responsabilidade que deveras fazemos, e pior, de colocar em

suspenso a validade de todos os nossos juzos morais, em nome de um conhecimento que o

humano entendimento no pode alcanar.

A via negativa da moralidade, o mal, til para adicionar discusso um outro

argumento contrrio tese da imputabilidade de responsabilidades salvo pressuposio da

liberdade da ao. No que tange aos homens, Kant define o mal como um mal negativo de

defeito (malum defectus) e no como um mal positivo de privao (malum privationis). Em

outros termos, define o mal como a escolha da mxima que satisfaz os apetites e no como

um incentivo positivo para preferir uma mxima do mal. Se assim, ento, o mal o

resultado da no interveno da vontade e, por suposto, da vontade livre j que qualquer

escolha exige alguma vontade. No h, por conseguinte, com respeito criatura humana, ao

autnoma que tenha como determinao positiva o mal. Ora, a valer que a atribuio de

responsabilidade implica a assuno de que a vontade livre inaugura cadeias causais, o que,

de acordo com a filosofia kantiana, s pode ocorrer pelo respeito lei moral, ento o agente

humano s seria responsvel por suas aes boas. Aes motivadas por inclinaes teriam

nelas, as inclinaes, um incentivo positivo para a escolha de mximas interessadas, logo,

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ms. Aes cuja fonte de determinao no fossem o respeito lei, seriam aes heternomas

e pelas quais no se responsabilizaria o agente, j que causadas por motivos sensveis.

O resultado dessa argumentao obsceno para a moral. Sobre as aes boas,

motivadas pelo respeito lei moral, pesa a responsabilidade, pelas ms, motivadas pela lei

natural, no. Alm de obsceno, o resultado tambm kantianamente inaceitvel. claro que

Kant nos quer responsabilizar por no optarmos pela conservao da autonomia da vontade. E

claro que nos quer responsabilizar pela ms escolhas que fazemos.

A anlise kantiana da mentira confirma essa interpretao. O agente que mente, a

despeito das influncias empricas que sofre, culpado pela escolha que fez.

Apesar de se crer que a ao [de mentir] esteja determinada mediante tal [a

srie de causas que determinam um efeito natural dado], nem por isso

admoesta-se menos o agente, nem por sua ndole infeliz nem pelas

circunstncias que sobre ele influram, e muito menos devido ao modo como

anteriormente conduziu a sua vida; pois pressupe-se que possvel pr

totalmente de lado a natureza de sua conduta anterior, bem como encarar, de

um lado, a srie decorrida de condies como no-ocorrida e, de outro, este

ato como totalmente incondicionado, considerando o estado anterior, como

se o agente com isso iniciasse, de todo espontaneamente, uma srie de

conseqncias. Esta ltima como uma causa que, sem levar em conta todas

as condies empricas mencionadas, poderia e deveria determinar

diversamente o comportamento do homem. E se v a causalidade da razo

no como simplesmente concorrendo para aquela conduta, mas sim em si

mesma como completa, apesar de que as motivaes sensveis antes se lhe

oponham do que a favoream. A ao atribuda ao carter inteligvel do

homem, e agora, no momento em que mente, ele totalmente culpado;

portanto, desconsiderando todas as condies empricas do ato, a razo era

integralmente livre, e a mentira de todo imputvel sua omisso. (KrV,

A554-5, B582-3, grifo meu)

A admoestao do agente feita ainda que sobre ele pesem circunstncias naturais que

poderiam explicar, do ponto de vista da causalidade natural, a ao. Como se pode ver, a

liberdade , de fato, pressuposta por Kant, mas no devido ao argumento de que sem ela a

responsabilidade se esvaneceria. Ora, se no desse modo, ento a troco de que a liberdade

entra no sistema? Se a liberdade , do ponto de vista emprico, uma fata morgana, em que se

apoia o entendimento para supor a eficcia desta ideia?

Teoria do Valor

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A concluso derivada da argumentao acima obriga-nos a perguntar pela origem da

ideia kantiana, sem dvida de que os agentes racionais podem ser livres e autnomos. A

pedra de toque para responder a esta questo est, a meu ver, na teoria do valor moral em

Kant, a qual se vincula estritamente com sua teoria do dever. Ensina ele na Fundamentao:

Neste mundo, e at tambm fora dele, nada possvel pensar que possa ser considerado

como bom sem limitao a no ser uma s coisa: uma boa vontade (GMZ. BA, 1). O valor,

por sua vez, s comea com o dever e aumenta na medida em que seja ele o dever o

motivo de nossa ao.

no poderia ele [o filantropo] encontrar ainda dentro de si um manancial

que lhe pudesse dar um valor muito mais elevado do que o dum

temperamento bondoso? Sem dvida! e exatamente a que comea o

valor do carter, que moralmente sem qualquer comparao o mais alto, e

que consiste em fazer o bem no por inclinao, mas por dever. (GMZ. BA,

11)

Que seja assim, no decorre de alguma reflexo especiosa, mas evidente nos juzos

morais que j o vulgo profere. Ainda com Kant, o conceito de uma boa vontade reside j no

bom senso natural e () mais precisa de ser esclarecido do que ensinado. (GMZ. BA, 8).

Na ordem do argumento, as coisas se passam ao contrrio do que prevem os que

fazem a responsabilidade depender da liberdade. Na verdade, a atribuio de

responsabilidade que nos indica que tem de haver outra dimenso de causalidade. Uma

dimenso na qual se pode supor o arbtrio do sujeito agente porque ele deveria agir de um

modo e no o fez. E de onde vem a ideia de que ele tem o dever de agir de um certo modo?

Novamente, no da ideia de que ele livre, pois de seu arbtrio nada se pode saber mediante a

prpria ao, mas to-somente mediante a imputao que se lhe faz todo aquele que procura

nela inteligibilidade. o juzo de valor que denuncia a suposta existncia de um arbt...