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LEVANTAMENTO ARQUITETNICO DAS PRIMEIRAS EDIFICAES

URBANAS DE IPENA, SP.

CARVALHO, MARA LGIA S. E FERREIRA, MONICA C. B. F.

Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) Universidade de So Paulo (USP) Escola Superior de Tecnologia e Educao de Rio Claro ASSER/RC

ligiascotton@uol.com.br monicafrandiferreira@hotmail.com

RESUMO Este artigo analisa o processo de formao do primeiro ncleo urbano da cidade de Ipena, municpio de pequeno porte do interior do Estado de So Paulo, verificando o aspecto fundirio, o parcelamento e a ocupao da terra, a partir da investigao bibliogrfica em fontes originais. Objetiva elucidar o processo de constituio do patrimnio religioso local, a partir de meados do sculo XIX, no regime de aforamento, apontando a sua consequncia fsico-espacial, entendida com o parcelamento original e o incio da ocupao deste traado com as primeiras edificaes urbanas. Assim como outros povoados do Estado de So Paulo, Ipena comeou a se formar em torno de uma capela, numa regio que foi rota de tropeiros e mascates que cruzavam a extensa regio do Morro Azul, tomando a direo para os sertes de Araraquara, para onde partiam em busca de outro nos sertes de Gois. Num processo que encontra ressonncia na histria da urbanizao paulista, fazendeiros locais fizeram doaes de parte de suas terras para a constituio do patrimnio religioso, o que deu incio efetiva ocupao do povoado, constitudo por caboclos e, mais tarde, por imigrantes europeus. O contato entre esses povos resultou em uma troca cultural dinmica, com adaptaes e inovaes que podem ser verificadas nos novos materiais e mtodos construtivos das edificaes urbanas, alm de sugestivas transformaes no modo de vida local. Foi feito o levantamento das primeiras construes localizadas no patrimnio religioso, com pesquisa iconogrfica das edificaes residenciais, comerciais e institucionais, na inteno de elaborar registro indito dos imveis, apontando suas caractersticas arquitetnicas e o atual estado de conservao, informaes estas que sero complementadas por meio de entrevistas com antigos moradores, de forma a registrar usos e costumes tradicionais. Importante destacar que no existe qualquer tipo de registro arquitetnico e urbanstico at ento elaborado para Ipena. Verificou-se que as edificaes eram trreas, estavam implantadas em lotes tradicionais (estreitos e profundos), foram construdas no alinhamento da via pblica e encostadas nas suas divisas laterais. Os terrenos receberam plantas arquitetnicas elaboradas em esquemas simples, constitudas de dois ou trs cmodos multifuncionais, o que resultou em pouca variao formal. A grande maioria foi edificada em taipa, e posteriormente em tijolos, com alicerces de pedras possivelmente retiradas dos rios da regio. As poucas construes de maiores dimenses apresentavam maior separao entre as atividades de estar, ntima e de servios, a maioria possua cho de terra batida e poucas possuam poro alto, havendo similaridade das tcnicas construtivas, dos materiais de construo e de acabamento, como as cimalhas sobre janelas e portas. Pela inexistncia do sistema de gua e de esgotos, implantado por volta de 1962, a maioria das casas possua latrina em seus quintais e a gua era de poo artesiano. Infere-se que Ipena seguia as determinaes dos Cdigos de Posturas e das leis sobre construes de So Joo do Rio Claro, municpio a qual ela pertenceu at 1964, ano de sua emancipao. Em virtude das dificuldades de fiscalizao, fruta da distncia da cidade-sede, as edificaes foram construdas em sua maioria sem plantas aprovadas pelo poder pblico municipal, foram concebidas e executadas por construtores locais, sem a obedincia efetiva aos princpios

mailto:ligiascotton@uol.com.brmailto:monicafrandiferreira@hotmail.com

4 Seminrio Ibero-Americano Arquitetura e Documentao Belo Horizonte, de 25 a 27 de novembro

contidos na legislao sobre edificaes, primeiramente de embelezamento e posteriormente, relativos higiene. Desta forma, sob o ponto de vista de Marx, Dean, Lemos e Reis Filho e tomando como referncias os estudos sobre Rio Claro e Ipena, Garcia, Diniz, Cachioni, Ferreira, Machado, Martins e Sakaguti, para citar alguns dos autores cujos textos constituram referncia para a pesquisa nas fontes originais, este artigo deve contribuir para ampliar e documentar a compreenso do processo inicial de urbanizao da localidade. Deve permitir entender como seu povoado comeou a se formar a partir de um estudo detalhado das primeiras moradias, verificando seu estilo arquitetnico, os materiais e mtodos construtivos, com o intuito de auxiliar no registro, divulgao e compreenso de sua histria, intencionando-se, por fim despertar o interesse da comunidade local para a recuperao e a conservao das edificaes remanescentes. Palavras-chave: Histria da urbanizao paulista; Patrimnio religioso paulista; Moradias urbanas.

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INCIO DA OCUPAO TERRITORIAL DE IPENA

Em consequncia da descoberta do ouro na Provncia do Mato Grosso, desde o ano de

1718, desbravadores criaram rotas em toda a provncia de So Paulo. Nesse momento

existiam duas principais rotas, o roteiro do Anhembi (Tiet) e o caminho pelo serto. Os

paulistas preferiram as rotas por terra do Tatuibi-Limoeiro (Tatu-Limeira Morro Azul), e

partiam com tropas de burros de So Paulo, por intermdio da Depresso Perifrica.

(DEAN, 1977, p. 21)

O impulso definitivo para o desenvolvimento desta regio foi desencadeado pela doao de

sesmarias, feita no final do sculo XVIII e incio do XIX, garantindo a posse do territrio

ocupado e o cultivo efetivo das terras. De acordo com Diniz (1973, p.32), entre os anos de

1817 e 1821 observou-se intenso processo de concesso de sesmarias, configurando a fase

mais representativa do povoamento dos sertes do Morro Azul.

Os sertes1 do Morro Azul constituram fronteira natural, abrangendo a borda interna de

uma grande depresso geogrfica que durante muito tempo foi considerado o limite distante

e conhecido dos moradores da Capitania de So Paulo.

O processo geral de desmembramento das sesmarias paulistas, que influenciou de modo

definitivo a formao territorial do povoado de Ipena, garantiu a continuidade da ocupao

dos sertes do Morro Azul, como tambm definiu a estrutura fundiria da regio, uma vez

que as grandes fazendas monocultoras e escravistas formaram-se a partir da diviso dessas

sesmarias.

Uma das propriedades que deu origem a cidade foi o Stio Invernada, que de acordo com a

descrio contida em sua escritura do ano de 1856, pode-se inferir que suas terras teriam

sido desmembradas de uma sesmaria provavelmente localizada na regio de Piracicaba,

como pode ser verificado na figura a seguir. (Figura 01)

Segundo Garcia (2001, p. 32), a partir de 1817, as doaes configuraram a diviso das

terras. Neste ano, proveniente de Itu2, a famlia Galvo Frana foi a primeira a receber uma

sesmaria, iniciando a ocupao da regio e dando origem ao povoado de So Joo Batista

do Rio Claro, com a doao de terras aos irmos Pereira, vindos da Freguesia de Moji-

Mirim. Estes obtiveram uma lgua e meia de terras, de norte a sul, por duas de leste a

oeste, no local denominado Ribeiro Claro, situado no serto devoluto entre a vila de Moji-

Mirim e o rio Piracicaba, comeando assim a formao de um pequeno ncleo, considerado

1 A palavra sertes aqui tinha o significado de terras ainda no desbravadas.

2 Registra-se a data de fundao das comarcas de Itu (1654), Porto Feliz (1797), e So Carlos (1797).

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como marco inicial da formao deste povoado, atual cidade de Rio Claro, ao qual Ipena

fez parte de seu territrio at 1964, configurando-se como distrito.

Figura 01 - Mapa das Sesmarias doadas - 1739/42-1821.Destaque para a poro de terras doadas em 29/09/1816, que originou a regio denominada "Stio Invernada", atual Ipena. Este mapa mostra a distribuio das sesmarias que compunham a extensa rea de terras das regies do Morro Azul que deram origem s primeiras grandes propriedades na regio.(Fonte: Garcia, 2001, p.32)

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A regio estudada encontra-se primeiramente denominada Bairro Passa Cinco, segundo

Machado (2004, p.37), o mais antigo documento relacionado a Ipena, que nomeia a regio

como Bairro Passa Cinco, uma certido de casamento de escravos, da propriedade do

Capito Mor Estevam Cardoso de Negreiros, transcrita abaixo:

Aos desaseis de Fevereiro de Mil Oitocentos e Trinta e Trs Nesta Matriz de So Joo

Batista do Ribeiro Claro pelas oito horas da manhan em minha presena e das

testemunhas Roque Gomes de Moraes e Alexandre Jose feitas as diligencias necessrias,

sem impedimento algun precedendo exame de Doutrina e o Sacramento da Penitencia se

recebero por marido e mulher por palavras de presente Marco e Ana gentios da Guin,

escravos do Capito Mor Estevam de Negreiros morador no Passa Cinco e logo lhe confiri

a benao Nupcial pelo Missal Romano do que para constar fis este Termo que com as

testemunhas assigno. O Vigario Delfim da Silva Barbosa. (MACHADO, 2004, p. 37). (grifo

nosso)

Em pesquisas nas Atas da Cmara Municipal de So Joo Batista do Rio Claro, encontrou-

se a descrio na Ata do dia 15 de agosto de 1847, com a seguinte informao:

[...]Foi lido huma represt, digo, representao do povo do Belem do