LEI ROUANET - 23 ANOS DE INCENTIVO À ?· Vicente Finageiv Filho LEI ROUANET – 23 ANOS DE INCENTIVO…

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  • LEI ROUANET - 23 ANOS DE INCENTIVO CULTURA

    Trabalho de Concluso de Curso apresentado

    como parte dos requisitos para obteno do

    grau de Especialista em Gesto Pblica.

    Aluno: Vicente Finageiv Filho

    Orientador: Prof. Dr. Frederico Augusto

    Barbosa da Silva

    Braslia DF Novembro/2014

  • Vicente Finageiv Filho

    LEI ROUANET 23 ANOS DE INCENTIVO CULTURA

    Vicente Finageiv Filho

    Ministrio da Cultura

    Desconcentrao, participao e mediao.

    Em 26 de dezembro de 2014, a Lei Rouanet completa 23 anos de existncia.

    Nesse perodo, a Lei operou transformaes no mercado cultural e na sociedade. Ficou

    conhecida pelo mecanismo que obteve mais recursos para a produo artstica: o Incentivo

    Fiscal. Perna de um trip concebido para apoio cultura, obviamente no supriu as

    deficincias dos outros dois o financiamento reembolsvel - Ficart e o Fundo Nacional da

    Cultura FNC.

    Superestimado, o Incentivo concentrou recursos e aes nas regies mais

    desenvolvidas economicamente e dispensou as crticas e a participao popular para a

    conduo da poltica. Seguiu impassvel esses anos como bastio da defesa do liberalismo

    contra o dirigismo. Eis que essa maioridade impe um amadurecimento desse

    posicionamento. justo seguir concentrando recursos e deixar ao sabor do mercado a

    orientao da poltica cultural?

    Uma grande mediao se faz necessria. Mediao entre novos patrocinadores e novos

    artistas e produtores. Mediao entre os artistas e o seu pblico e as novas plateias. E a

    participao da sociedade dividindo as responsabilidades para com a governana poltica.

  • Vicente Finageiv Filho

    1

    INTRODUO

    A Lei Federal de Incentivo Cultura (Lei n. 8.313, de 26/12/1991), conhecida como

    Lei Rouanet, embora vigente h 23 anos, no teve avaliada a efetividade de sua poltica de

    incentivos fiscais cultura. O texto da Lei estabeleceu os princpios e objetivos desse

    instrumento, mas no definiu os indicadores de aferio e as respectivas metas para a

    renncia. Resulta que esse mecanismo de incentivo fiscal disponibilizou recursos produo

    cultural ao longo de todos esses anos sem conhecer a variao dos cenrios tanto em termos

    de volume (quantitativo gerado) quanto de alcance da poltica (qualitativo).

    O presente estudo levanta alguns aspectos do mecanismo de incentivo fiscal, baseados

    em informaes disponveis no Sistema de Apoio s Leis de Incentivo Cultura Salic, que

    acessa a base de dados dos projetos encaminhados ao Programa Nacional de Apoio Cultura

    PRONAC, institudo pela Lei Rouanet.

    Nesse contexto, verificaremos a distribuio espacial dos recursos, dos proponentes,

    dos projetos realizados e tambm a distribuio pelas diversas linguagens artsticas e

    segmentos. A inteno montar um quadro, baseado exclusivamente em dados confiveis do

    Salic, do qual se possa vislumbrar a viso atual dos resultados obtidos pelo mecanismo de

    incentivo fiscal, baseado no advento da Lei de Incentivo Cultura.

    As polticas de incentivos fiscais em grande parte so originrias da vontade poltica e

    de situaes singulares de necessidade de estmulo a determinado setor econmico. O

    Tribunal de Contras da Unio - TCU, em recente estudo acerca da Renncia Fiscal

    Relatrio de Levantamento de Auditoria TC 018.259/2013-8 concluiu que (...) impende

    instituir mecanismos de avaliao das aes governamentais realizadas com base em

    renncias tributrias com o fim de estimar em que medida tais polticas esto atingindo o

    objetivo a que se destinam e se os resultados obtidos justificam a permanncia de tais

    polticas. Destaca que (...) o MinC afirmou no possuir nenhum estudo especfico que

    contenha avaliao dos resultados alcanados pelo Programa Nacional de Apoio Cultura

    (Lei Rouanet), que um instrumento da poltica pblica no setor cultural em vigor desde

    1991.

    Do referido relatrio resultou o Acrdo n 1205/2014-TCU-Plenrio que, entre outras

    recomendaes, indicou: Casa Civil da Presidncia da Repblica, (...), que: (...) 9.1.2

    quando da anlise de propostas de atos normativos instituidores de renncias tributrias,

  • Vicente Finageiv Filho

    2

    verifique se h prazo de vigncia previsto, de forma a garantir revises peridicas dos

    benefcios tributrios; Tambm Casa Civil e ao MPOG e MF 9.2.2 orientar os

    ministrios setoriais responsveis pela gesto de aes governamentais financiadas por

    renncias tributrias quanto elaborao de metodologia de avaliao da eficincia, eficcia e

    efetividade dos programas ou projetos que utilizam recursos renunciados em decorrncia de

    benefcios tributrios, incluindo o cronograma e a periodicidade das avaliaes;

    Dessa forma, o presente artigo vem ao encontro das preocupaes mais recentes dos

    rgos de controle federais e do processo de implantao da Lei do ProCultura a nova base

    legal do Apoio Cultura, que conter mecanismos renovados, ensejando a reviso de todos os

    procedimentos regulatrios atualmente em vigor.

  • Vicente Finageiv Filho

    3

    A Lei Federal de Incentivo Cultura - LEI ROUANET

    O estudo partiu inicialmente da ideia de se comparar o volume e desempenho da cena

    cultural e artstica - sobretudo nas reas ligadas produo de eventos, espetculos, atividades

    continuadas, ensino, criao e manuteno de instituies, produo literria, audiovisual,

    alm da proteo ao patrimnio verificados antes da Lei Rouanet e aps sua implantao, o

    que seria uma medida do alcance da poltica. A variao da oferta de bens culturais

    consumveis seria ento medida e comparada com o volume de recursos oramentrios

    despendidos e tributrios renunciados. Haveria que se conhecer o PIB da Cultura

    previamente ao advento da Lei do Mecenato e sua variao posterior. Essa medio atenderia

    a avaliao da eficincia do mecanismo. J a medida de sua eficcia estaria prejudicada em

    funo do no estabelecimento prvio de metas. A efetividade seria avaliada pelos benefcios

    gerados populao em funo do diferencial de acesso cultura propiciado pelo Programa,

    que poderia ser medido por indicadores que traduzissem: o aumento do repertrio de

    referncias; o incremento na formao de plateias; a elevao do nvel de criticidade e de

    discusso do contexto; o crescimento da cidadania; da autoestima; do pertencimento; da

    valorizao da arte e da cultura; da conscincia; do autoconhecimento; da sensibilidade ao

    intangvel; da capacidade de reflexo; da alteridade e, sintetizando, sobretudo, o

    desenvolvimento do processo de construo identitria cultural, base edificadora de uma

    sociedade consciente que se quer mais justa, humana e sustentavelmente desenvolvida.

    Jos Carlos Durand, em seu livro Poltica Cultural e Economia da Culturai aponta

    que Em nenhum pais desenvolvido, a anlise do desempenho da gesto cultural pblica

    prescinde da construo de paisagens feita com rigor estatstico. E complementa: Em

    pases onde o controle popular sobre o oramento de governo se firma no princpio da

    responsabilizao (accountability) como os Estados Unidos , o financiamento de todo e

    qualquer programa ou projeto deve considerar suas consequncias sobre a melhoria do acesso

    (access), entendida a a ampliao de pblico, ou modificao em sua composio social para

    estratos menos favorecidos, ou melhoria de repertrios de gosto. Naquele pas, tal cuidado

    no se aplica apenas a verbas de governo, mas tambm critrio cada vez mais determinante

    nas decises das fundaes e das corporaes empresariais.

    Contudo, a matria reveste-se de dificuldades inerentes ao objeto de estudo, tendo em

    vista que os resultados a serem alcanados exigem laboriosa e extensa pesquisa e

  • Vicente Finageiv Filho

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    quantificao, alm de demandarem o levantamento de componentes subjetivos como gosto,

    preferncias e motivaes. Ademais, o que se produz so estudos isolados. Dados,

    indicadores, estatsticas, definies, levantamentos e a metodologia para esse trabalho, bem

    como a instituio da conta-satlite da Cultura, que aportar a contribuio da cultura para o

    PIB Brasileiro, ainda no se tornaram realidade. Tambm no se pode comparar a avaliao

    de uma poltica cultural com outras polticas, tais como o saneamento, a segurana ou o

    transporte, cujos reflexos mais circunscritos a suas reas de abrangncia delimitam com maior

    preciso seus alcances. Ademais, h que se considerar o montante dos oramentos familiares

    destinados ao lazer e cultura, responsveis pelo desembolso direto e consequente

    sustentao da parcela da economia da cultura que no se ampara ou no depende das

    polticas pblicas.

    Apesar de no se terem definido previamente as metas a serem atingidas pela poltica

    em estudo, possvel fazer alguns levantamentos e tecer algumas consideraes acerca de seu

    alcance a partir das finalidades, objetivos e principais caractersticas definidas na Lei

    8.313/91, numa espcie de autoavaliao do mecanismo do Incentivo Fiscal ao cabo de sua

    existncia. Ressalto que o citado mecanismo, por fora da visibilidade que alcana, em razo

    dos expressivos volumes de recursos que movimenta, tem sido chamado a dar conta de toda a

    poltica cultural federal seara que no lhe prpria, obviamente, por sua vocao,

    finalidades e limitaes.

    Na sequncia deste trabalho, a partir do texto da lei, registraremos nossas

    consideraes estritamente acerca do mecanismo do Incentivo Fiscal.

    Art. 1 Fica institudo o Programa Nacional de Apoio Cultura (Pronac), com a

    finalidade de captar e canalizar recursos para o setor de modo a:

    I - contribuir para facilitar, a todos, os meios para o livre acesso s fontes da

    cultura e o pleno exerccio dos direitos culturais;

    CONSIDERAES DO AUTOR - O principal direito cultural na acepo da lei o direito

    de participao na vida cultural e, em segundo lugar, o direito de autoria. Quanto a este

    ltimo, est previsto na regulamentao que todos os projetos aprovados o devero respeitar,

    responsabilizando-se seu proponente, civil e criminalmente, por qualquer violao de direitos

    de imagem, de autor e conexos. De sorte que, no alcance que o mecanismo prope, sua

    observao fica assegurada por lei. Quanto participao na vida cultural, h que se

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    respeitar o direito no-participao em alguma medida fundamento basilar da cidadania,

    aspecto pouco estudado e quantificado. Havendo interesse em participar, a questo do acesso

    se interpe, subdividida em acessibilidade e democratizao, conforme estabelecido no art.

    27 do Decreto n 5.761, de 27 de abril de 2006. Ressalve-se que antes da publicao desse

    normativo no havia a previso legal dessa observncia no arcabouo regulatrio do

    PRONAC:

    Art. 27. Dos programas, projetos e aes realizados com recursos incentivados,

    total ou parcialmente, dever constar formas para a democratizao do acesso aos

    bens e servios resultantes, com vistas a:

    I - tornar os preos de comercializao de obras ou de ingressos mais acessveis

    populao em geral;

    II - proporcionar condies de acessibilidade a pessoas idosas, nos termos do art.

    23 da Lei no 10.741, de 1 de outubro de 2003, e portadoras de deficincia,

    conforme o disposto no art. 46 do Decreto no 3.298, de 20 de dezembro de 1999;

    III - promover distribuio gratuita de obras ou de ingressos a beneficirios

    previamente identificados que atendam s condies estabelecidas pelo Ministrio

    da Cultura; e

    IV - desenvolver estratgias de difuso que ampliem o acesso.

    Pargrafo nico. O Ministrio da Cultura poder autorizar outras formas de

    ampliao do acesso para atender a finalidades no previstas nos incisos I a IV,

    desde que devidamente justificadas pelo proponente nos programas, projetos e

    aes culturais apresentados.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Note-se que o dispositivo no prev a acessibilidade

    intelectual nem a mediao informadora e formadora de plateias. A partir do normativo

    citado foi incorporada a figura do Plano de Distribuio de Produtos Culturais nas

    propostas encaminhadas com o fito de discriminar os quantitativos, a precificao e a

    distribuio dos produtos para os diversos pblicos previstos:

    Art. 44. Os programas, projetos e aes culturais financiados com recursos do

    PRONAC devero apresentar, obrigatoriamente, planos de distribuio de

    produtos deles decorrentes, obedecidos os seguintes critrios:

  • Vicente Finageiv Filho

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    I - at dez por cento dos produtos com a finalidade de distribuio

    gratuita promocional pelo patrocinador; e

    II - at dez por cento dos produtos, a critrio do Ministrio da Cultura,

    para distribuio gratuita pelo beneficirio.

    Art. 45. Sero destinadas ao Ministrio da Cultura, obrigatoriamente, para

    composio do seu acervo e de suas entidades vinculadas, pelo menos seis cpias

    do produto cultural ou do registro da ao realizada, resultantes de programas e

    projetos e aes culturais financiados pelo PRONAC.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Dessa forma torna-se escassa a probabilidade de que

    algum projeto anterior normativa tenha, com esses critrios, atendido s normas de

    acessibilidade previstas no inciso I do art. 1 da Lei Rouanet. No sitio

    http://sistemas.cultura.gov.br/salicnetii encontra-se o quantitativo de projetos com captao

    para o mecenato a partir de 2006 quando a exigncia obrigatria passou a constar e ser

    cobrada na anlise das propostas. Podemos afirmar ento que de 41.372 projetos captados

    pela Lei Rouanet em toda sua vigncia desde 1993, 28.518 (68,9%) contiveram a previso de

    medidas de acessibilidade preconizadas no referido normativo.

    II - promover e estimular a regionalizao da produo cultural e artstica brasileira,

    com valorizao de recursos humanos e contedos locais;

    CONSIDERAES DO AUTOR - No stio citado anteriormente encontra-se o quadro

    reproduzido abaixo que exibe o quantitativo dos projetos apoiados por Regio desde 1993:

    Resumo Total C. Oeste 1.804 Nordeste 3.073 Norte 445

    Sudeste 27.518

    Sul 8.473

    Total

    41.313 Pode-se constatar que o quantitativo de projetos apoiados na Regio Sudeste 61 vezes

    maior que o quantitativo de projetos apoiados na Regio Norte; 15 vezes maior que na

    Regio Centro-Oeste; nove vezes maior que na Regio Nordeste e trs vezes maior que na

    Regio Sul no curso dos 18 anos da pesquisa. Ressalve-se que a Regio Sudeste tem,

    respectivamente s populaes das Regies brasileiras, seis vezes a populao da Regio

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    Norte; seis vezes a populao do Centro-Oeste; 3 vezes a populao da Regio Sul e uma vez

    e meia a populao da Regio Nordeste segundo dados do Censo Demogrfico de 2010,

    realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE). Dessa forma, apenas no

    que concerne Regio Sul em relao Regio Sudeste, o quantitativo de projetos estaria

    distribudo proporcionalmente. Considerando-se que a Regio SE tomou s demais Regies

    espao e recursos, tambm o quantitativo da Regio S estaria superdimensionado em relao

    s outras regies, comprometendo o comando de promover a regionalizao da produo

    cultural brasileira. Se verdadeiro que as desigualdades estruturais reproduzem-se nas

    polticas papel do Estado manter uma atitude intencionada e ativa com relao reduo

    dessas desigualdadesiii. O pargrafo 8 do artigo 19 da Lei Rouanet, includo a partir de

    1999, determina que se observe algumas possibilidades de concentrao:

    Art. 19. Os projetos culturais previstos nesta Lei sero apresentados ao

    Ministrio da Cultura, ou a quem este delegar atribuio, acompanhados do

    oramento analtico, para aprovao de seu enquadramento nos objetivos do

    PRONAC.

    (...)

    8 Para a aprovao dos projetos ser observado o princpio da no-

    concentrao por segmento e por beneficirio, a ser aferido pelo montante de

    recursos, pela quantidade de projetos, pela respectiva capacidade executiva e pela

    disponibilidade do valor absoluto anual de renncia fiscal. (Includo pela Lei n

    9.874, 1999)

    CONSIDERAES DO AUTOR - Note-se que a lei foi silente com relao concentrao

    regional de projetos e consequentemente de recursos. Ademais porque no h instrumentos

    legais que obriguem o encaminhamento de propostas oriundas e/ou endereadas quelas

    reas ou determinem o apoio e o aporte de recursos onde quer que seja. Todavia possvel

    criar estmulos desconcentrao do apoio, bem como promover o encontro entre potenciais

    patrocinadores, proponentes e seus projetos culturais. Os recursos da renncia fiscal,

    segundo o SalicNet, foram assim distribudos na vigncia da Lei, em milhes de reais:

    Regio Centro-Oeste: 360,0 Regio Sudeste: 10.264,7

    Regio Nordeste: 739,8 Regio Sul: 1.414,5

    Regio Norte: 112,9 Total: 12.892,1

  • Vicente Finageiv Filho

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    Verifica-se que, pelo critrio dos recursos destinados ao incentivo fiscal, a concentrao

    regional se intensificou mais ainda tendo em vista que a Regio Sudeste recebeu 114 vezes

    mais recursos que a Regio Norte; 35 vezes mais recursos que a Regio Centro-Oeste; 17

    vezes mais recursos que a Regio Nordeste e 9 vezes mais recursos que a Regio Sul tendo

    em vista uma concentrao demogrfica flagrantemente menos acentuada.

    III - apoiar, valorizar e difundir o conjunto das manifestaes culturais e seus

    respectivos criadores;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Tal finalidade obviamente encontrou acolhida no

    mecanismo no obstante o foco na atrao de pblico e na promoo dos patrocinadores que

    o incentivo induz e a concentrao de aes verificada na Regio Sudeste. Adiciona-se o

    papel pouco reflexivo e tmido que, durante muito tempo, a Comisso Nacional de Incentivo

    Cultura CNIC assumiu, restringindo-se apreciao de Pareceres Tcnicos, no

    preenchendo portanto seu espao de discusso e construo de referncias da poltica em

    estudo. Ainda relevamos o fenmeno da espetacularizao da produo artstica que por

    conta do marketing cultural demanda cada vez mais recursos produo, promoo,

    divulgao, cenografia, tecnologia, aos efeitos especiais empanando o brilho do criador e

    sua obra num processo que homogeneza a diversidade.

    IV - proteger as expresses culturais dos grupos formadores da sociedade brasileira e

    responsveis pelo pluralismo da cultura nacional;

    CONSIDERAES DO AUTOR - O cumprimento da finalidade novamente esbarra na

    aguerrida concentrao regional de projetos amparados pelo mecanismo. Ademais, no Salic

    no h a possibilidade de identificar projetos que digam respeito a populaes afro

    descendentes, indgenas, de ascendncia europeia ou oriental, ribeirinhas ou quaisquer

    outros grupos uma vez que a tipologia dos projetos se organizou por linguagens artsticas

    suas reas e segmentos o que dificulta a formulao e a aferio de aes nesse sentido.

    Em recente levantamento realizado pela Secretaria de Polticas Culturais SPC, do MinC

    realizado com a finalidade de amparar a reviso de metas do Plano Nacional da Cultura -

    PNC constatou-se, pelo artifcio do uso da palavra-chave comunidadeem pesquisa de

    ttulos de projetos apoiados, que dos 8460 projetos captados e executados de 2010 a 2013

    apenas 216 referiram-se temtica do apoio s comunidades tradicionais o que representa

  • Vicente Finageiv Filho

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    2,5% do total executado. Um nmero baixo se levarmos em conta a importncia do desgnio

    formulado.

    V - salvaguardar a sobrevivncia e o florescimento dos modos de criar, fazer e viver

    da sociedade brasileira;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Novamente certo que o mecanismo atendeu em alguma

    medida finalidade descrita, porm repete-se a dificuldade de mensurao em funo das

    limitaes de um Sistema Operacional concebido com o intuito de informatizar o processo

    administrativo necessrio ao estudo, acompanhamento e prestao de contas do projeto

    cultural submetido Lei Rouanet. escassa a possibilidade de se obter resultados tambm

    nesse quesito pois pouco o ttulo de um projeto pode apontar essa matria. Haveramos que

    listar os registros do patrimnio imaterial bem como os fazeres ainda no registrados e

    considerados de relevncia cultural. A partir da consultar empiricamente a lista de ttulos

    para o cotejo. Obviamente escapa ao rigor cientfico. Pesquisando junto ao SalicNet os

    projetos apoiados na rea do Patrimnio segmento do Patrimnio Imaterial, temos o

    quantitativo de 18 projetos apoiados de 2010 a 2013, bem menos que um por cento do

    quantitativo total. Tal resultado nos parece impreciso vez que no computa as iniciativas de

    salvaguarda do patrimnio no registrado. De qualquer forma, qualquer projeto que trate

    das artes e/ou cultura brasileiras ir consultar salvaguarda em alguma medida. Tambm

    no possvel identificar na base de dados os projetos com essas caractersticas.

    VI - preservar os bens materiais e imateriais do patrimnio cultural e histrico

    brasileiro;

    CONSIDERAES DO AUTOR - A pesquisa nesse campo pode apontar nmeros mais

    consistentes, tais como: 845 projetos referentes ao patrimnio tombado ou registrado em

    qualquer nvel (federal, estadual ou municipal) ou museolgico apoiados no quadrinio

    2010/2013 representando 10% do total de projetos apoiados. O Brasil possui a nvel federal

    1.249 bens tombados. O estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, possui aproximadamente

    150 bens tombados a nvel estadual e a municipalidade de Porto Alegre possui 81 em nvel

    local. No estado de So Paulo so 460 bens tombados nessa esfera e na municipalidade da

    capital correram 2.700 processos de desenvolvimento de projetos e acompanhamento de

    obras em imveis de valor histrico, em 2013. No h dados condensados a esse respeito de

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    todos os estados muito menos dos municpios. A prpria municipalidade de So Paulo no

    apresenta a lista de seus imveis tombados, no entanto infere-se que haja, nas esferas

    estaduais e municipais, somente desses estados levantados, um quantitativo muito superior ao

    total tombado a nvel federal no pas. Em 18 anos de levantamentos da Lei Rouanet foram

    apoiados 3371 projetos da rea do Patrimnio, correspondendo a 8,1% do total, o que d

    uma mdia de 187 projetos por ano. Trata-se de um quantitativo no desprezvel e

    certamente concorreu para a preservao do patrimnio cultural e histrico brasileiro.

    VII - desenvolver a conscincia internacional e o respeito aos valores culturais de

    outros povos ou naes;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Certamente as Bienais, como as Internacionais de So

    Paulo e do Mercosul e as Bienais Internacionais do Livro promovidas em diversos estados

    brasileiros, para citar as mais vultosas apoiadas pela Lei do Incentivo, concorrem para a

    finalidade descrita. Adiciona-se as demais iniciativas de todas as linguagens artsticas que

    contemplam a vinda de obras e/ou artistas estrangeiros para se apresentar no Brasil e vice-

    versa. Ressalve-se que a partir do apoio do mecanismo aos grandes centros culturais

    brasileiros, em especial ao Centro Cultural Banco do Brasil-CCBB, houveram grandes

    esforos em prospeco junto a consagradas entidades e instituies estrangeiras com vistas

    exibio de seus acervos no Brasil. Quebrou-se, pelo nvel de excelncia que atingimos em

    termos de segurana, climatizao, transporte, respaldo institucional e capacidade de atrair

    pblico (bem como muita insistncia), o paradigma que para o Brasil (fora as Bienais de arte

    citadas) s se liberavam para exibio obras de grandes mestres cujo suporte fosse o papel

    (gravuras, desenhos ou aquarelas) telas ou esculturas, de forma alguma! notria a

    presena de orquestras sinfnicas estrangeiras, conjuntos de cmara, companhias de bal e

    teatro, autores e escritores de outros pases a promover essa conscincia. Praticamente tudo

    o que se faz no pas referente matria (exceto o show-business) financiado no todo ou em

    parte com recursos do incentivo fiscal.

    VIII - estimular a produo e difuso de bens culturais de valor universal, formadores

    e informadores de conhecimento, cultura e memria;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Esse quesito trata do alcance, do desdobramento para a

    coletividade, de todo o conjunto de aes deflagrado pelo PRONAC, com foco no benefcio

  • Vicente Finageiv Filho

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    fiscal cultura, objeto deste estudo. Tomar toda a ao em sua massa e avaliar seu impacto

    na formao do conhecimento, da memria e da conscincia identitria matria a ser

    perseguida, pois trata-se de medir o alcance de uma poltica de estado, porm que transcende

    qualquer possibilidade constituda a curto prazo. So expectativas legtimas dessa poltica o

    incremento do processo identitrio da populao, convergido justamente para valores

    universais porm continentes da cultura e memria nacionais. Ressalve-se que essa avaliao

    jamais consulte ao dirigismo de qualquer espcie, sendo nosso processo mesmo

    antropofgico, onde sempre se fundiram todas as vertentes e foram digeridas e mais ainda,

    sem freio, na atualidade das mdias eletrnicas e comunicao ilimitadas.

    IX - priorizar o produto cultural originrio do Pas.

    CONSIDERAES DO AUTOR - No h no mecanismo de incentivo a projetos culturais

    dispositivo que induza a essa priorizao. Seu artigo 22 determina que:

    Artigo 22 Os projetos enquadrados nos objetivos desta lei no podero ser objeto de

    apreciao subjetiva quanto ao seu valor artstico ou cultural.

    Esse comando sempre foi tomado pelo seu sentido mais amplo o de evitar qualquer

    cerceamento da liberdade de proposio e criao em arte e na cultura. Eis porque as

    crticas que a lei recebeu nesses 23 anos sempre foram em sentido oposto, por no haver

    qualquer tutela ou orientao por parte do poder pblico na conduo de seus rumos, que foi

    delegada sociedade leia-se empresrios. Apesar desse nono inciso se constituir em uma

    finalidade culminante, a lei no forneceu instrumentos para a sua consecuo, nem em seus

    posteriores acrscimos e regulamentaes houve vontade poltica de se esclarecer a

    determinao ou prover os dispositivos legais de instrumentos de discricionariedade.

    Quanto aos objetivos, a lei discorre da seguinte forma:

    Art. 3 Para cumprimento das finalidades expressas no art. 1 desta lei, os

    projetos culturais em cujo favor sero captados e canalizados os recursos do

    Pronac atendero, pelo menos, um dos seguintes objetivos:

    CONSIDERAES DO AUTOR - Eis que o disposto no hierarquiza os objetivos. Em

    sentido contrrio, faculta que a eleio recaia em apenas (ao menos) um deles.

  • Vicente Finageiv Filho

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    I - incentivo formao artstica e cultural, mediante:

    a) concesso de bolsas de estudo, pesquisa e trabalho, no Brasil ou no exterior, a

    autores, artistas e tcnicos brasileiros ou estrangeiros residentes no Brasil;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Este segmento no foi contemplado pelos incentivos

    fiscais. Tocou ao Fundo Nacional da Cultura - FNC financi-lo merc do disposto no art. 10

    do Decreto 5.761/06, conforme abaixo:

    Art. 10. Os recursos do Fundo Nacional da Cultura podero ser utilizados, observado o

    disposto no plano anual do PRONAC, da seguinte forma:

    ()

    III - concesso de bolsas de estudo, de pesquisa e de trabalho - para realizao

    de cursos ou desenvolvimento de projetos, no Brasil ou no exterior;

    IV - concesso de prmios;

    V - custeio de passagens e ajuda de custos para intercmbio cultural, no Brasil

    ou no exterior;

    b) concesso de prmios a criadores, autores, artistas, tcnicos e suas obras, filmes,

    espetculos musicais e de artes cnicas em concursos e festivais realizados no Brasil;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Da mesma forma que no item anterior, com a ressalva de

    que muitos proponentes e instituies e seus patrocinadores elegem essa modalidade como

    forma de reconhecimento a uma determinada rea artstica ou culminncia de uma atividade

    ou festival. A FUNARTE, por intermdio de sua Associao Cultural, promove com recursos

    da renncia edies anuais dos Prmios Klauss Vianna de Dana, Carequinha de Estmulo

    ao Circo e Myriam Muniz de Teatro. Tambm o MASP; o Instituto Cultural BDMG; o

    Instituto Cultural Srgio Magnani, a Academia Brasileira de Cinema; a Articulao dos

    Povos Indgenas da Regio Sul ARPINSUL; o Instituto Telemar, entre muitos outros

    proponentes privados. Foram 26 projetos captados no binio 2012/2013, levantados por

    contagem de ttulos no Sistema NovoSalic, correspondendo a 0,37% do total de projetos com

    captao no perodo.

    c) instalao e manuteno de cursos de carter cultural ou artstico, destinados

    formao, especializao e aperfeioamento de pessoal da rea da cultura, em

    estabelecimentos de ensino sem fins lucrativos;

  • Vicente Finageiv Filho

    13

    CONSIDERAES DO AUTOR - Trata-se de segmento muito difuso que pode comportar o

    ensino em todas as reas das linguagens artsticas e/ou contempladas na Lei Rouanet.

    Pesquisa nesse sentido teria que ser efetuada tambm a partir dos ttulos dos projetos

    culturais. Note-se que o segmento Aes de Formao e Capacitao na rea de

    Humanidades, tpico do segmento, exibiu somente 25 projetos nos anos de 2012 e 2013.

    Igualmente o segmento Aes de Capacitao e Treinamento de Pessoal das Artes Cnicas

    apresentou um total de 63 projetos no binio. O segmento Formao Tcnica e Artstica de

    Profissionais das Artes Plsticas no apresentou nenhum projeto. Houve 19 projetos de

    Formao Audiovisual e aproximadamente 125 projetos somados os segmentos de Msica

    Instrumental e Erudita (pesquisa por ttulos) e nenhum encontrado para a Msica Popular.

    Completa a lista com 5 projetos o segmento Aes de Capacitao em Patrimnio. So 237

    projetos relativamente aos 7.025 captados no perodo, correspondendo ao percentual de

    3,3%. Ressalve-se que os segmentos de msica erudita e instrumental e a rea de artes

    cnicas foram as mais contempladas merc do disposto no art. 18 da lei 8.313/91 que

    autoriza a deduo de 100% do valor patrocinado, conforme veremos adiante.

    II - fomento produo cultural e artstica, mediante:

    a) produo de discos, vdeos, obras cinematogrficas de curta e mdia metragem e

    filmes documentais, preservao do acervo cinematogrfico bem assim de outras obras de

    reproduo videofonogrfica de carter cultural; (Redao dada pela Medida Provisria n

    2.228-1, de 2001)

    CONSIDERAES DO AUTOR - Tomando-se o binio em estudo 2012/13, tendo em vista

    sua disponibilidade no banco de dados do Salicnet e a proximidade com o momento presente,

    encontra-se um total de 163 projetos de curta e mdias metragens nos suportes

    cinematogrfico e videofonogrfico, representando 2,3% do total (segmento contemplado

    pelo art. 18).

    b) edio de obras relativas s cincias humanas, s letras e s artes;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Totalizam 551 projetos captados nos segmentos de livros

    de valor artstico, literrio ou humanstico e obras de referncia no binio estudado.

    Corresponde a 7,8% do total (segmento contemplado no art. 18).

  • Vicente Finageiv Filho

    14

    c) realizao de exposies, festivais de arte, espetculos de artes cnicas, de msica e

    de folclore;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Houve, no perodo em tela, 367 projetos de exposies

    (5% do total); aproximadamente 100 festivais artsticos (1% do total pela contagem por

    ttulos); 1.976 projetos de espetculos de artes cnicas (28% do total); 1.542 espetculos de

    msica (21% do todo), combinando 500 projetos de erudita, 702 projetos de msica

    instrumental e 340 de msica popular alm de 15 projetos visando a preservao do

    Patrimnio Imaterial (0,2%). Os segmentos e reas exclusivamente contemplados pelo art. 18

    so: Exposio de Artes; Artes Cnicas; Msica Erudita e Instrumental e Patrimnio

    Imaterial.

    d) cobertura de despesas com transporte e seguro de objetos de valor cultural

    destinados a exposies pblicas no Pas e no exterior;

    CONSIDERAES DO AUTOR - No houve projeto especfico com essa finalidade.

    e) realizao de exposies, festivais de arte e espetculos de artes cnicas ou

    congneres;

    CONSIDERAES DO AUTOR - J abordado anteriormente.

    III - preservao e difuso do patrimnio artstico, cultural e histrico, mediante:

    a) construo, formao, organizao, manuteno, ampliao e equipamento de

    museus, bibliotecas, arquivos e outras organizaes culturais, bem como de suas colees e

    acervos;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Foram computados 115 projetos dos segmentos

    relacionados com captao no perodo correspondendo a 1,6% dos projetos captados.

    b) conservao e restaurao de prdios, monumentos, logradouros, stios e demais

    espaos, inclusive naturais, tombados pelos Poderes Pblicos;

  • Vicente Finageiv Filho

    15

    CONSIDERAES DO AUTOR - 36 projetos captados no perodo correspondendo a 0,5% do total.

    c) restaurao de obras de artes e bens mveis e imveis de reconhecido valor

    cultural;

    CONSIDERAES DO AUTOR - 2 projetos verificados no perodo.

    d) proteo do folclore, do artesanato e das tradies populares nacionais;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Referenciando alnea c do inciso II (15 projetos lidando com o Patrimnio Imaterial).

    IV - estmulo ao conhecimento dos bens e valores culturais, mediante:

    a) distribuio gratuita e pblica de ingressos para espetculos culturais e artsticos;

    CONSIDERAES DO AUTOR - No observado.

    b) levantamentos, estudos e pesquisas na rea da cultura e da arte e de seus vrios

    segmentos;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Foram observados quatro projetos com captao no

    segmento de formao, pesquisa e informao audiovisual.

    c) fornecimento de recursos para o FNC e para fundaes culturais com fins

    especficos ou para museus, bibliotecas, arquivos ou outras entidades de carter cultural;

    CONSIDERAES DO AUTOR - No observado para o FNC. Foram observados 685

    projetos de Planos Anuais e de Manuteno de entidades captados nos 23 anos da Lei de um

    total de 41.369 projetos apresentados representando 1,6% do todo.

    V - apoio a outras atividades culturais e artsticas, mediante:

  • Vicente Finageiv Filho

    16

    a) realizao de misses culturais no pas e no exterior, inclusive atravs do

    fornecimento de passagens;

    CONSIDERAES DO AUTOR - rea afeta ao FNC como j visto.

    b) contratao de servios para elaborao de projetos culturais;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Componente oramentrio de muitos projetos, no se

    constituindo projeto para essa finalidade.

    c) aes no previstas nos incisos anteriores e consideradas relevantes pelo Ministro

    de Estado da Cultura, consultada a Comisso Nacional de Apoio Cultura. (Redao dada

    pela Lei n 9.874, de 1999)

    CONSIDERAES DO AUTOR - Situao no identificvel pelo banco de dados. E, finalizando, quanto aos incentivos a lei discorre na forma abaixo:

    Art. 18. Com o objetivo de incentivar as atividades culturais, a Unio facultar

    s pessoas fsicas ou jurdicas a opo pela aplicao de parcelas do Imposto

    sobre a Renda, a ttulo de doaes ou patrocnios, tanto no apoio direto a projetos

    culturais apresentados por pessoas fsicas ou por pessoas jurdicas de natureza

    cultural, como atravs de contribuies ao FNC, nos termos do art. 5o, inciso II,

    desta Lei, desde que os projetos atendam aos critrios estabelecidos no art. 1o

    desta Lei.

    1 Os contribuintes podero deduzir do imposto de renda devido as quantias

    efetivamente despendidas nos projetos elencados no 3o, previamente aprovados

    pelo Ministrio da Cultura, nos limites e nas condies estabelecidos na legislao

    do imposto de renda vigente, na forma de:

    CONSIDERAES DO AUTOR - Esses limites se constituem em at 6% do imposto a pagar

    para Pessoas Fsicas e at 4% do imposto a pagar para Pessoas Jurdicas. No caso do art.

    18 a devoluo ao contribuinte doador ou patrocinador de 100% do valor despendido,

    limitado aos percentuais assinalados. Para auferir os benefcios fiscais a Pessoa Jurdica

    deve efetuar declarao com base no lucro real.

  • Vicente Finageiv Filho

    17

    a) doaes; e

    b) patrocnios.

    2 As pessoas jurdicas tributadas com base no lucro real no podero deduzir o

    valor da doao ou do patrocnio referido no pargrafo anterior como despesa operacional.

    3 As doaes e os patrocnios na produo cultural, a que se refere o 1o,

    atendero exclusivamente aos seguintes segmentos:

    a) artes cnicas;

    CONSIDERAES DO AUTOR - As Artes Cnicas se constituem na nica rea da

    linguagem artstica a ser beneficiada pelo PRONAC com a possibilidade de deduo de

    100% do valor invertido pelo incentivador, independentemente do segmento a que o projeto

    atender. Eis porque, historicamente, a rea que mais recursos incentivados tem atrado dos

    patrocinadores. Dessa forma, percebe-se que o art. 18 veio a produzir uma hierarquizao

    no contida no art. 3 do texto da Lei que colocou no mesmo plano todos os seus objetivos

    precpuos.

    b) livros de valor artstico, literrio ou humanstico;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Este segmento responde por 61% de toda a captao na

    rea de Humanidades nos ltimos quatro anos. Acrescente-se a porcentagem de 24%

    correspondente aos segmentos de acervos e eventos literrios. Este ltimo segmento foi

    beneficiado com 100% de deduo via as Smulas Administrativas da CNIC, posteriormente

    convertidas em Portaria Ministerial.

    c) msica erudita ou instrumental;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Estes segmentos respondem por 74% dos aportes no

    quadrinio 2010/2013 para a Msica.

    d) exposies de artes visuais;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Corresponde a 82% da rea de artes visuais, no

    quadrinio.

  • Vicente Finageiv Filho

    18

    e) doaes de acervos para bibliotecas pblicas, museus, arquivos pblicos e

    cinematecas, bem como treinamento de pessoal e aquisio de equipamentos para a

    manuteno desses acervos;

    CONSIDERAES DO AUTOR - Segmentos j abordados quando da apreciao dos

    objetivos listados no art. 3 da Lei. Foram computados 115 projetos no perodo de 2012 a

    2013, dos segmentos relacionados correspondendo a 1,6% dos projetos captados.

    f) produo de obras cinematogrficas e videofonogrficas de curta e mdia metragem

    e preservao e difuso do acervo audiovisual; e

    CONSIDERAES DO AUTOR - Idem. Encontra-se no binio 2012/13 um total de 163

    projetos de curta e mdias metragens nos suportes cinematogrfico e videofonogrfico,

    representando 2,3% do total.

    g) preservao do patrimnio cultural material e imaterial.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Identificados 393 projetos captados pela rea constituindo

    5,5% do total no binio.iv

    h) construo e manuteno de salas de cinema e teatro, que podero funcionar

    tambm como centros culturais comunitrios, em Municpios com menos de 100.000 (cem

    mil) habitantes.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Equivalente a 0,33% do total aportado para a rea do

    Patrimnio nos ltimos dois anos.

    (...) Art. 26. O doador ou patrocinador poder deduzir do imposto devido na declarao do

    Imposto sobre a Renda os valores efetivamente contribudos em favor de projetos culturais

    aprovados de acordo com os dispositivos desta Lei, tendo como base os seguintes percentuais:

    I - no caso das pessoas fsicas, oitenta por cento das doaes e sessenta por cento dos

    patrocnios;

  • Vicente Finageiv Filho

    19

    CONSIDERAES DO AUTOR - Interessante notar que nos Estados Unidosv 80% dos

    valores referentes filantropia nas artes (includa a renncia fiscal) vem dos contribuintes

    individuais. No Brasil, embora esse dado relativo filantropia no esteja disponvel, somente

    20% dos projetos so apoiados por Pessoas Fsicas certamente num montante

    proporcionalmente ainda menor.

    II - no caso das pessoas jurdicas tributadas com base no lucro real, quarenta por cento

    das doaes e trinta por cento dos patrocnios.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Tambm nos Estados Unidos, 40% das empresas pequenas

    e mdias so responsveis por 2/3 de todas as contribuies. Apenas 6% das empresas no

    pas as maiores podem se valer do incentivo pois so as que declaram pela modalidade

    do lucro real.

    1 A pessoa jurdica tributada com base no lucro real poder abater as doaes e

    patrocnios como despesa operacional.

    CONSIDERAES DO AUTOR - Essa possibilidade acrescenta ao desconto do imposto a

    pagar mais aproximadamente 35%, totalizando por volta de 65% de deduo.

    2 O valor mximo das dedues de que trata o caput deste artigo ser fixado

    anualmente pelo Presidente da Repblica, com base em um percentual da renda tributvel das

    pessoas fsicas e do imposto devido por pessoas jurdicas tributadas com base no lucro real.

    ()

    CONSIDERAES DO AUTOR - Apesar de os valores autorizados serem crescentes,

    chegando este ano casa de R$ 1,9 bilho, a captao permanece em nvel praticamente

    constante h quatro anos, conforme registro a seguir (fonte SalicNet), aparentemente

    acompanhando a curva de crescimento do PIB:

    Ano 2010 2011 2012 2013

    Valor Captado 1,16 1.32 1.27 1.26

    (bilho de reais)

  • Vicente Finageiv Filho

    20

    CONSIDERAES FINAIS

    Quando sopesamos o conjunto dos resultados oferecidos pelo mecanismo de incentivo

    em seus 23 anos de existncia, apesar das contradies que ele carreia, inegvel que

    produziu-se extraordinria massa de estmulos para a populao, certamente influenciando em

    alguma medida os processos de transformaes sociais e econmicas que o Brasil

    experimenta nos ltimos anos. Prova disso que todas as principais instituies culturais

    brasileiras mantm-se parcial ou totalmente apoiadas em recursos do benefcio fiscal do

    PRONAC. Tambm toda a conjuntura das artes cnicas e de exposies de artes, festas

    literrias, desfiles carnavalescos, festivais de inverno, concertos de msica erudita e

    instrumental, edio de livros de arte, festejos tradicionais para citar os mais notrios

    segmentos so basicamente dependentes da renncia fiscal.

    Outros aspectos da cena cultural no foram assim contemplados: a preservao do

    patrimnio material e imaterial (compreendendo aes de promoo e salvaguarda da

    diversidade cultural e dos povos e culturas tradicionais), a formao na rea da cultura em

    todos os nveis, a formao de plateias; o fazer artstico; aes de sustentabilidade da

    produo cultural; construo de espaos culturais; modernizao de bibliotecas; pesquisas e

    levantamentos, alm de outros segmentos j mencionados de baixa atratividade para o

    marketing, em funo da linguagem, localizao, protagonistas, gosto do pblico, etc.

    Eis porque, ao nosso ver, a poltica foi construda no trip de sustentao que

    compreende o apoio via oramento, o financiamento e o incentivo fiscal. Fora dessa estrutura,

    a avaliao individualizada de qualquer dos mecanismos perde o sentido, na medida em que

    foram concebidos para formarem um corpo, a estrutura da poltica de apoio cultura. As

    polticas pblicas de apoio a outros setores da economia operam com os mesmos

    mecanismos: subsdios; financiamento; incentivos; fomento; pesquisa e provimento de

    infraestrutura. Nenhuma dessas aes funciona sozinha e no se pode descarregar o peso do

    cumprimento das finalidades da poltica em uma delas.

    Como vimos anteriormente, o mecanismo do benefcio fiscal j d sinais de

    esgotamento. H muito o que fazer no campo de uma distribuio mais republicana desses

    recursos, criando-se estmulos e regras que favoream uma repartio mais equitativa com

    relao distribuio da populao pelas regies brasileiras. A Lei do ProCultura j contm

    dispositivos que visam esse equilbrio. Poderia tambm ser criado na Internet um portal

  • Vicente Finageiv Filho

    21

    oficial do incentivo fiscal cultura, o qual, alm de conter a apresentao e estatsticas do

    mecanismo, englobaria toda a legislao pertinente e os manuais destinados aos produtores

    (com informaes acerca da propositura dos projetos e seu acompanhamento) e aos

    incentivadores e/ou contadores (com informaes e demonstraes da contabilidade e da

    declarao do imposto de renda das empresas, simulando a utilizao do benefcio fiscal). E

    mais, conteria uma bolsa de projetos aprovados por municpio/unidade da federao/regio,

    atravs da qual os potenciais investidores pudessem entrar em contato com os respectivos

    produtores e iniciar entendimentos. O MinC, na qualidade de moderador do portal, tambm

    poderia esclarecer dvidas das partes e prover entendimentos. Isso talvez inclusse um

    mailing s 180 mil empresas do pas que se enquadram no regime de tributao do lucro real.

    Haveria, portanto, uma referncia oficial ao Programa de forma direta, na Internet, na qual os

    proponentes e captadores pudessem apoiar o seu trabalho e dar segurana ao investidor. Trata-

    se aqui de conquistar novos investidores e mais recursos para os projetos aprovados de outras

    regies que no o Sul e o Sudeste, uma vez que, presume-se, tais regies j se encontrem com

    seu potencial de recursos razoavelmente explorado.

    Por outro lado, o gradiente de estmulos e regras a uma melhor distribuio de projetos

    e recursos tem suas limitaes. Devem ser facilitadores do acesso ao recurso, afinal o

    dficit de captao do ano de 2013, em relao renncia autorizada, foi da ordem de R$

    500 milhes! Medidas restritivas no so adequadas porque a liberdade de escolha do

    investidor o componente fundamental do mecanismo. Sendo uma forma de adiantamento

    dos impostos que seriam recolhidos no prximo exerccio fiscal, no h como o governo

    acess-los sem que ao menos a deciso final de seu uso passe pelo contribuinte-patrocinador.

    A utilizao dos recursos da renncia fiscal funciona como lanar mo de um cheque especial.

    Tem um custo. trazer para resolver os problemas de hoje dinheiro do futuro. E o mecanismo

    pede dinheiro ao contribuinte para aplicar em cultura e devolver no prximo exerccio fiscal

    sem juros e com algum risco.

    certo que a segmentao dos mercados trouxe a necessidade de agregao de valor

    s marcas e s empresas como forma de promoo e distino de umas em relao s outras.

    E que o patrocnio direto produo artstica e cultural por demais oneroso e poucas vezes

    vantajoso, se comparado a uma campanha de mesmo custo. Torna-se interessante

    (economicamente) se ocorre o apoio por meio do incentivo fiscal. Eis porque a parceria com o

    poder pblico necessria, porm tem o poder de somente acudir uma perna do trip da

    poltica pblica.

  • Vicente Finageiv Filho

    22

    O incentivo atende majoritariamente uma poltica de eventos que tem sua razo de

    ser na ao estimuladora das artes, da cultura e da economia, numa traduo aproximada das

    tendncias e transformaes da contemporaneidade ps-moderna. O incentivo somente parte

    de um Sistema. E essa parte est funcionando bem, segundo as leis do mercado cultural, que

    ditam quanto se quer gastar (aparentemente menos do que oferecido), em que, onde e

    quando. Cabe ao poder pblico e sociedade, minimamente, equilibrar as aes e atuar nas

    reas no alcanadas pelo mecanismo, ao menos com igual vigor e competncia, por

    intermdio de financiamentos, fundos, oramento, emprstimos, filantropia e mercado

    cultural. H, da parte do poder pblico, um descompasso entre o valor da renncia fiscal e as

    dotaes oramentrias, estas ltimas infra dimensionadas. Essa situao que parece bem

    encaminhada com o projeto de Lei n 1.139, 2007 do ProCultura que, em seu Art. 55

    nico, estabelece a equivalncia entre os valores da renncia e do FNC: garantido ao

    Fundo Nacional de Cultura valor nunca inferior ao montante da renncia fiscal

    disponibilizado para o incentivo de que trata o Captulo IV desta lei.(CAPTULO IV DO

    INCENTIVO FISCAL A PROJETOS CULTURAIS).

    Em verdade, no vemos distoro na aplicao dos recursos da renncia fiscal. O que

    existe um montante de recursos disposio do mercado, via incentivos fiscais, que so

    usados parcialmente em atividades culturais com certa tipicidade paralelamente a outras

    fontes de financiamento destinadas a todas as reas culturais. De modo que no h que se falar

    em efetividade da poltica de incentivo pois todas as reas artstico-culturais so carentes e

    necessitam de apoio para sua manuteno. As reas culturais atendidas pelo incentivo geram

    em mdia 5.500 projetos publicados para acederem ao benefcio fiscal por ano, no entanto,

    apenas 1.200 projetos logram captao, numa relao mdia de 4 para 1. H possibilidade de

    se melhorar a distribuio regional dos projetos incrementando o nmero de projetos

    captados, conforme sugerido anteriormente, o que tambm contribuiria para a diminuio da

    relao apontada.

    H que se falar em justia social e igualdade de oportunidades para os diversos setores

    da cultura, de acordo com as necessidades e a realidade do pas. E para tanto, imprescindvel

    que haja discusso entre os atores, os partcipes da poltica, a fim de legitimar a atuao do

    poder pblico na rea da cultura.

    A poltica cultural deve emanar da sociedade e no o contrrio. Interessante notar o

    caso norte-americano em que a maior parte do custeio das artes vem do municpio (67%),

    seguido dos estados (24%) e do governo federal (9%). L, o municpio considerado a

  • Vicente Finageiv Filho

    23

    instncia mais sensvel s artes comunitrias e das minorias. O financiamento ocorre por

    intermdio das Local Arts Agency, que obtm seus recursos do governo municipal (50%

    entre apoio, custeio, subsdio e incentivos); de renda prpria (31% feiras, mercados, galerias,

    vendas, artesanato, etc.) e da filantropia (19% cidados e empresas). Ressalve-se que o total

    do investimento privado em artes nos EUA em 1997, includa a renncia fiscal, foi de 10

    bilhes de dlares; destes, 80% vieram de contribuintes individuais preocupados com sua

    comunidade e no de empresas. Essas caractersticas favorecem a transparncia dos gastos

    pblicos; a cobrana do retorno dos recursos investidos; a discusso de propostas de ocupao

    cultural e o apoio e desenvolvimento s iniciativas locais em arte e cultura. Trata-se de um

    exemplo de como a participao social efetiva, a seu modo, numa realidade distinta.

    No Brasil, a migrao para uma poltica orgnica, articulada com os diversos setores

    da sociedade, sobretudo o ensino, com vistas formao do indivduo e estruturao de uma

    demanda (formao de platias) que alavancar a economia da cultura, num processo

    contnuo de retroalimentao e virtuosidade. De nada adiantar a quantidade de oferta cultural

    disponvel se no tivermos qualidade na escolha.

  • Vicente Finageiv Filho

    24

    CONCLUSO

    Ao longo de sua existncia, o mecanismo do incentivo fiscal da Lei Rouanet mostrou a que

    veio, imprimindo forte vis a toda cena cultural brasileira. Todavia, no logrou compensar a

    concentrao de projetos executados nas regies Sudeste e Sul, especialmente no eixo Rio-

    So Paulo, em funo da localizao do parque industrial brasileiro e da densidade de

    negcios, interesses, riquezas e consumo na regio. Igualmente, no compensou a debilidade

    demonstrada pelos outros mecanismos institudos pela Lei Rouanet. O projeto do ProCultura

    cria pontuaes e faixas de renncia correspondentes, de modo a orientar a poltica no sentido

    de uma democracia cultural e de uma maior democratizao do acesso cultura, alm de

    assegurar equiparao de recursos para o FNC. um grande avano, mas necessria a

    participao da sociedade, especialmente via o Conselho Nacional de Polticas Culturais

    CNPC e via a Comisso Nacional de Incentivo Cultura CNIC, para o suporte poltica.

    preciso haver cobrana pela dotao e execuo dos recursos oramentrios, de forma a se

    constituir uma correlao de foras com o mecanismo do incentivo. H que se regulamentar o

    ProCultura no sentido de se garantir, em cada projeto executado, o plantio de uma semente de

    deslumbramento no espectador. A existncia de uma demanda qualificada para a arte e para a

    cultura essa conscincia que tem condio de relativizar o desmanche cultural que a

    comunicao de massa e a indstria cultural podem provocar. necessria criatividade no

    sentido de mediar a aproximao entre patrocinadores e produtores, sobretudo nas regies

    onde h potencial inexplorado.

    Congregando esforos de toda a sociedade chegamos neste momento ao ProCultura,

    que, com olhar atento a questes para as quais, eventualmente, se d pouca relevncia, poder

    assegurar uma ferramenta de efetiva e equilibrada influncia para o processo de construo

    identitria do povo brasileiro.

  • Vicente Finageiv Filho

    25

    DADOS DO AUTOR Vicente Finageiv Filho.

    Formado em Educao Artstica com Especializao em Histria da Arte.

    Coordenador-Geral de Anlise de Projetos de Incentivos Fiscais na Secretaria de Fomento e

    Incentivo Cultura no MinC h quatro anos.

    Tel. 9244-6619

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS i Durand, Jos Carlos. Poltica Cultural e Economia da Cultura, Edies Sesc, So Paulo, 2013, pp. 28, 30 e 31. ii O stio sistemas.cultura.gov.br/salicnet uma ferramenta sistmica disponibilizada pelo Ministrio da Cultura com a finalidade de acessar e tratar informaes acerca dos projetos beneficiados pela Lei Rouanet. iii Barbosa da Silva, F.O. Mecenato Cultural e Demanda, Ipea, Braslia, 2005, mimeo. iv Os quantitativos pesquisados por ocasio da listagem dos objetivos previstos no art. 3 da Lei Rouanet, exceo do Patrimnio Imaterial, foram levantados por ttulos dos projetos, mtodo que possui grandes limitaes, o que explica o quantitativo inferior aos 393 projetos quantificados para a rea. v As citaes acerca da cena cultural dos Estados Unidos provem do artigo Poltica Cultural na Virada do Milnio: TendIencias Internacionais e o Caso do EUA, captulo 6 do livro Poltica Cultural e Economia da Cultura, Durand, pp. 85-119.

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