Lei Pele Comentada

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<p>LEI N 9</p> <p>6</p> <p>LEI N 9.615, DE 24 DE MARO DE 1998</p> <p>Institui normas gerais sobre desporto e d outras providncias.</p> <p> O PRESIDENTE DA REPBLICA</p> <p> Fao saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:</p> <p>CAPTULO I</p> <p>DISPOSIES INICIAIS</p> <p> Art. 1 O desporto brasileiro abrange prticas formais e no-formais e obedece s normas gerais desta lei, inspirado nos fundamentos constitucionais do Estado Democrtico de Direito.</p> <p> 1 A prtica desportiva formal regulada por normas nacionais e internacionais e pelas regras de prtica desportiva de cada modalidade, aceitas pelas respectivas entidades nacionais de administrao do desporto.</p> <p> 2 A prtica desportiva no-formal caracterizada pela liberdade ldica de seus praticantes.</p> <p>Como se observa, o art. 1 e seus pargrafos da lei Pel o mesmo que j se continha na lei Zico. Apenas no 1 do art.1 da lei atual h uma pequena alterao redacional que em nada altera o sentido do contedo da lei anterior. </p> <p>Este artigo visa a esclarecer que os esportes podem ser praticados sob o imprio de regras previamente estabelecidas, de tal sorte que os participantes devem respeito a elas sob pena de alguma sano determinada nessas mesmas regras. Buscando-se o exemplo do futebol, por mais difundido entre ns, teramos a observar que os participantes de competies, oficiais ou amistosas, teriam de ater-se s regras gerais da International Board e s normas especficas de cada competio, expostas estas previamente em seus respectivos regulamentos. A se tem a prtica formal da modalidade esportiva. </p> <p>Em contraposio, dentro da mesma modalidade esportiva, a famosa pelada, sem regras ou regulamentos, por sua liberdade ldica, apenas para deleite de seus participantes, se caracteriza como prtica desportiva no-formal. O que vale ou no estabelecido na hora, de comum acordo. Assim, as prticas de desporto no-formais so aquelas para as quais no existem regras preestabelecidas, cabendo aos seus participantes estabeleceram-nas de comum acordo, no momento mesmo da sua prtica. Juntam-se os participantes e combinam na hora como ser a disputa: se h ou no juiz (caso negativo, os prprios participantes so obrigados a denunciar as infraes que cometem); qual o tempo de durao do jogo; o limite de idade mnima e mxima dos participantes; se em caso de empate a deciso se faz por disputa em penalidades mximas ou se atravs de prorrogao, caso em que tanto esta pode ser por tempo como por morte sbita, e assim por diante. Enfim, esportes no-formais so os que se praticam sem regras predeterminadas.</p> <p>Este o sentido bsico do art. 1 e seus pargrafos, despiciendo falar-se em fundamentos constitucionais do Estado Democrtico de Direito porque nenhuma lei antidemocrtica pode ser constitucional numa democracia. </p> <p>CAPTULO II</p> <p>DOS PRINCPIOS FUNDAMENTAIS</p> <p> Art. 2 O desporto, como direito individual, tem como base os princpios:</p> <p> I - da soberania, caracterizado pela supremacia nacional na organizao da prtica desportiva;</p> <p> II - da autonomia, definido pela faculdade e liberdade de pessoas fsicas e jurdicas organizarem-se para a prtica desportiva;</p> <p> III - da democratizao, garantido em condies de acesso s atividades desportivas sem quaisquer distines ou formas de discriminao;</p> <p> IV - da liberdade, expresso pela livre prtica do desporto, de acordo com a capacidade e interesse de cada um, associando-se ou no a entidade do setor;</p> <p> V - do direito social, caracterizado pelo dever do Estado em fomentar as prticas desportivas formais e no-formais; </p> <p> VI - da diferenciao, consubstanciado no tratamento especfico dado ao desporto profissional e no-profissional;</p> <p> VII - da identidade nacional, refletido na proteo e incentivo s manifestaes desportivas de criao nacional;</p> <p> VIII - da educao, voltado para o desenvolvimento integral do homem como ser autnomo e participante, e fomentado por meio da prioridade dos recursos pblicos ao desporto educacional;</p> <p> IX - da qualidade, assegurado pela valorizao dos resultados desportivos, educativos e dos relacionados cidadania e ao desenvolvimento fsico e moral;</p> <p> X - da descentralizao, consubstanciado na organizao e funcionamento harmnicos de sistemas desportivos diferenciados e autnomos para os nveis federal, estadual, distrital e municipal;</p> <p> XI - da segurana, propiciado ao praticante de qualquer modalidade desportiva, quanto a sua integridade fsica, mental ou sensorial;</p> <p> XII - da eficincia, obtido por meio do estmulo prtica desportiva e administrativa. </p> <p>No captulo II da lei Pel, repetiu-se o que j se continha na lei Zico, com pequenssimas variantes redacionais, sendo quase uma cpia fiel da lei anterior.</p> <p>Dentre os princpios fundamentais do desporto, a soberania desejada pela lei no pode ser to absoluta quanto aparenta o inciso I, porque a organizao da prtica desportiva, internamente, est bastante subordinada a normas internacionais de vrias modalidades. A FIFA e o COI estabelecem normas que devem ser obedecidas por todas as legislaes nacionais, sem o que corre o pas o risco de desfiliao. Ora, dentro da prtica desportiva formal, nenhum sentido teria a prtica de um esporte que se limitasse s prprias fronteiras com impedimentos de participaes internacionais. Portanto, essa soberania est adstrita aos princpios do interesse e da moralidade pblica de cada povo. Se a legislao nacional proibir a prtica de alguma modalidade desportiva considerada pela sociedade nociva formao de seu povo, a estar exercendo o princpio da soberania, mas a tambm se estar auto-excluindo de competies internacionais de tal esporte. No quero citar nenhum esporte como exemplo, para que se no diga que me insurjo contra qualquer deles. Mas a mim, ao menos, no me satisfazem os esportes que, rotineiramente, levam seus praticantes a sequelas irreversveis, quando no mesmo morte, seja de pessoas seja de animais.</p> <p>O princpio da autonomia nsito a toda e qualquer atividade humana, no se podendo impor comportamentos queles que no pertenam a um quadro autnomo, dentro do qual todos so, individualmente, sujeito e objeto, com direitos e deveres, opondo-se, grupalmente, como unidade autnoma a outras unidades co-irms, todas sob a gide das mesmas regras e normas convencionadas para a disputa pretendida.</p> <p>O princpio da democratizao preceito constitucional. Onde houver discriminao, sob que forma seja, violada estar a lei maior. As formas de discriminao, em nosso pas, no se revelam de forma clara, mas dizem com a injustia social e econmica onde os menos aquinhoados lutam duplamente por um lugar ao sol.</p> <p>O princpio da liberdade est assentado no preceito constitucional segundo o qual ningum ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa seno em virtude de lei (Const. Fed., art. 5, II). Por isso que a lei trata o desporto como direito individual e no como dever social. A liberdade a que a lei se refere a liberdade do indivduo e no a liberdade da coletividade.</p> <p>O princpio do direito social um dos grandes avanos da modernidade esportiva. Cumpre ao Estado, diretamente ou atravs de incentivos, criar condies para que a prtica desportiva, formal, no-formal ou educacional, consiga minimizar a diferenciao na formao do atleta e do cidado. Muita vez, atravs do esporte que estar a salvao de uma juventude e, cada jovem assim salvo, pode representar a salvao de uma famlia, prestante sociedade e ao pas. Qualquer que seja a modalidade desportiva, ela ser sempre um caminho para o lado bom da sociedade na medida em que afasta o jovem do lado mau que toda sociedade apresenta. Aos mais carentes, sobretudo, impe-se maior assistncia social e desportiva, at para realmente garantir o princpio da democratizao anteriormente consagrado.</p> <p>O princpio da diferenciao busca resguardar direitos e impor deveres queles que elejam uma modalidade desportiva como profisso, resultando da consequncias de ordem trabalhista e previdenciria, entre outras.</p> <p>O princpio da identidade nacional tem por primado a busca de valores da criao nacional para a valorizao de modalidade desportiva que possa atingir degraus de igualdade com outros pases.</p> <p>O princpio da educao justamente aquele que h de garantir recursos pblicos para a prtica do desporto como meio de formao do homem. Tem a ver com o princpio do direito social, anteriormente mencionado, e por isso que, ao comentarmos o 3 do art. 6 no nos pareceu, como se ver adiante, que a frmula apresentada para distribuio da receita ali considerada seja, socialmente, a melhor.</p> <p>O princpio da qualidade visa ao aperfeioamento do praticante do desporto na sua integralidade dentro da velha maxima de mens sana in corpore sano.</p> <p>O princpio da descentralizao um dos mais importantes se considerarmos as dimenses continentais do Brasil. fcil falar-se --tomemos ainda o futebol como exemplo -- das excelncias de organizao das competies dos campeonatos italiano, espanhol, alemo, enfim, de pequenos pases europeus e mesmo das competies internacionais entre pases da Europa. O que, porm, no se pode esquecer que nesses pases, por suas pequenas dimenses, no h, na maioria deles, campeonatos regionais; so todos nacionais, porque pases pequenos. So to pequenos que conseguem ter uma nica moeda para todos eles. preciso que se no esquea, tambm, que, dentro da Europa, se fazem viagens de um pas a outro (Frana/Inglaterra, Espanha/Itlia, Holanda/Alemanha) em tempo igual a uma viagem Rio/So Paulo. Um atleta do Rio Grande do Sul chega a outros pases (Uruguai, Paraguai, Argentina, Chile) em menor tempo que o gasto para alguns outros estados (Pernambuco, Cear, Amazonas) dentro do prprio Brasil. Mas quando temos viagens do campeonato brasileiro, com os atletas passando mais tempo nos aeroportos e avies e hotis que nos campos de jogo ou de treinamento, e menor tempo ainda com sua famlia, seus pais, suas mulheres, seus filhos, bem de ver que a descentralizao do desporto no Brasil primordial para o seu prprio desenvolvimento, assegurando-se melhor capacitao aos atletas, durante as competies, e obedecendo ainda s suas peculiaridades regionais. O prprio biotipo do brasileiro do sul difere do do norte. nesse cadinho de tantas variantes e tantas vertentes que havemos de encontrar, pela descentralizao, a unidade do desporto nacional. </p> <p>O princpio da segurana est apenas no papel. Apesar de reiterado como necessria prtica de qualquer esporte, a segurana dos atletas tem sido esquecida ou desdenhada em diversas modalidades desportivas. Os responsveis pela garantia desse princpio deveriam dar-se conta do nmero de atletas lesionados, alguns acidentalmente outros nem to acidentalmente assim, a fim de que a prtica desportiva, em que pese seu lado competitivo, no ultrapasse os limites impostos por suas prprias regras. Aos infratores, a punio; aos omissos, a excluso.</p> <p>O princpio da eficincia tem a ver com a busca do resultado positivo. No a qualquer preo, como alinhavado acima, mas pela competncia na prtica da modalidade desportiva. Isto compete ao atleta. Mas a eficincia tambm h que ser buscada na administrao do desporto e isto diz com os dirigentes. No Brasil, a maioria dos dirigentes formada por amadores. Alguns realmente bem intencionados e altrustas; outros, buscando a consecuo de interesses pessoais. Em regra, a fama e o poder. E conseguem. Conseguem atravs da projeo que lhes d uma entidade desportiva com certo grau de prestgio junto ao pblico. Por isso que a idia do clube-empresa e, em consequncia, do dirigente profissional, pode ser uma soluo para a melhoria do desporto brasileiro. Discutiremos sua obrigatoriedade ao tratarmos do art. 27.</p> <p>CAPTULO III</p> <p>DA NATUREZA E DAS FINALIDADES DO DESPORTO</p> <p>Art. 3 O desporto pode ser reconhecido em qualquer das seguintes manifestaes:</p> <p> I - desporto educacional, praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemticas de educao, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcanar o desenvolvimento integral do indivduo e a sua formao para o exerccio da cidadania e a prtica do lazer;</p> <p> II - desporto de participao, de modo voluntrio, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integrao dos praticantes na plenitude da vida social, na promoo da sade e educao e na preservao do meio ambiente;</p> <p> III - desporto de rendimento, praticado segundo normas gerais desta Lei e regras de prtica desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados e integrar pessoas e comunidades do Pas e estas com as de outras naes.</p> <p> Pargrafo nico. O desporto de rendimento pode ser organizado e praticado:</p> <p> I - de modo profissional, caracterizado pela remunerao pactuada em contrato formal de trabalho entre o atleta e a entidade de prtica desportiva;</p> <p> II - de modo no-profissional, compreendendo o desporto:</p> <p> a) semiprofissional, expresso em contrato prprio e especfico de estgio, com atletas entre quatorze e dezoito anos de idade e pela existncia de incentivos materiais que no caracterizem remunerao derivada de contrato de trabalho;</p> <p>b) amador, identificado pela liberdade de prtica e pela inexistncia de qualquer forma de remunerao ou de incentivos materiais para atletas de qualquer idade.</p> <p>O desporto educacional no deve ser praticado com o objetivo do rendimento (a vitria a qualquer custo) mas sim com o objetivo de preparar a criana e o jovem para a vida esportiva como forma de sociabilidade. Por isso que as "competies" com o objetivo educacional devem ser muito bem monitoradas por professores bem qualificados e antes de iniciadas devem os pais receber "aulas de educao desportiva" para que no exijam que seus filhos sejam o brilhareco do clube ou da escola ou da rua ou do condomnio porque, em no conseguindo xito, a criana ou o jovem passa por um processo de frustrao como filho na medida em que no conseguiu corresponder expectativa do papai coruja ou da mame vaidosa, para os quais o seu filho sempre o melhor. E nem sempre e nem em tudo ele poder s-lo. Ter que aprender a ganhar, sem humilhar o vencido, e a perder, sem menoscabar a vitria de seu opositor. Perder e ganhar a vida. Por isso que o desporto educacional tem por finalidade o desenvolvimento e a formao do indivduo como cidado e no como atleta. Somente se a criana ou o jovem mostrar pendor para o esporte e desejo de a ele se dedicar integralmente dever receber incentivo para tal. Incentivo, no exigncia. Muito menos a castrao de um sonho. Os pais no podem viver a vida de seus filhos e muito menos impedir que eles vivam sua prpria vida. </p> <p>O desporto de participao exige um pouco mais. No como competio, mas como desenvolvimento do cidado j formado pelo desporto educacional, quando j estar apto a, atravs do esporte, colaborar at...</p>