Landes cap5

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<ul><li> 1. CAPTULO 5FALTA DE AR E RECUPERAO DO FLEGOOs anos decorridos entre 1873 e 1896 pareceram a muitos contemporneos umassombroso desvio da experincia histrica. Os preos caram de maneira desigual eespordica, mas inexorvel, atravs de crises e exploses de crescimento - uma mdiade aproximadamente 1/3 em todos os produtos. Foi a mais drstica deflao namemria do homem. A taxa de juros tambm caiu, a ponto de os tericos da economiacomearem a invocar a possibilidade de que o capital se tornasse to abundante aponto de passar a ser uma mercadoria gratuita. E os lucros encolheram, enquanto o queento se reconhecia como depresses peridicas parecia arrastar-se interminavelmente.O sistema econmico parecia estar desmoronando. Ento, a roda girou. Nos ltimos anos do sculo, os preos comearam a subir,levando consigo os juros. Com a melhora dos negcios, a confiana voltou - no aconfiana irregular e evanescente dos breves surtos de crescimento que haviam pontuadoo desalento das dcadas precedentes, mas uma euforia geral de um tipo que no haviaprevalecido desde os Grnderjahre do inicio da dcada de 1 8 70 . Tudo pareciacorrer bem outra vez - apesar do matraquear das armas e das admonitrias refernciasmarxistas ao "ltimo estgio" do capitalismo. Em toda a Europa ocidental, esses anosperduram na memria como os bons tempos - a era edwardiana, Ia belle poque. Sua lembrana abrilhantada pelo contraste com os anos de morte e desencantoque se seguiram. Em todos os campos, a guerra parece constituir o grande divisor:entre o otimismo e o pessimismo, a democracia par-239</li></ul><p> 2. lamentar e o fascismo, o progresso e o declnio. A macia mobilizao de preos como um sintoma. Schumpeter talvez seja o mais famoso desse grupo, com seupessoas e recursos para o conflito, bem como sua destruio nele, pareceram tirar tudo modelo de uma mquina econmica movida a surtos de inovao. Tambm nesse campodos eixos, para nunca mais se aprumar. Na vida econmica a guerra assistiu encontra-se Rostow, com uma anlise mais matizada, baseada nos deslocamentos dointroduo de controles e restries "temporrios" - do comrcio, dos preos, dosinvestimento entre aplicaes com diferentes velocidades de gestao: quanto maisinvestimentos, da movimentao do capital e da pessoas - que, desde ento, persistiram longo o intervalo entre o desembolso e o retorno (infinito, no caso dos gastos comsob uma ou outra forma. A economia internacional que se auto-ajustava serenamentearmamentos), maior o efeito inflacionrio imediato.cedeu lugar a um mecanismo atabalhoado e ineficiente, s mantido emoperao atravs de ajustes e consertos reiterados.Entre essas duas posies situa-se um homem como Kondratiev, que afirma que o Todavia, um exame mais criterioso deixa claro que a guerra foi apenas ummovimento ascendente do ciclo longo est associado a aumentos tanto do investimento (devidocatalisador, um precipitador de mudanas que j estavam em andamento. Os sinais de a novas invenes, recursos naturais e mercados) quanto da oferta de capital. Kondratievum afastamento do otimismo e da liberdade evidenciam-se bem antes de 1 9 0 0 , tanto no encara esses elementos concomitantes da flutuao como causas, mas como produtosna literatura e na filosofia quanto na poltica e na economia. Isso no equivale a negar o da conjuntura, e fala enigmaticamente de "causas que so inerentes essncia da economiaimenso impacto da guerra, mas simplesmente a situ-lo em seu contexto. O sistema jcapitalista". No obstante, parte as questes de ideologia, est claro que elas ocupamestava passando por uma dolorosa transformao, a qual, por sua vez, foi mais causaem seu esquema o mesmo lugar explicativo que tm, mutatis mutandis, nos dos outrosdo que consequncia da rivalidade e do conflito internacionais. Neste ponto, en- autores que escrevem sobre o assunto.2tretanto, estamos tocando num assunto complicado e polmico, e mais vale adiar sua Num aspecto, porm - a periodizao das tendncias longas -, todos esto de acordo.discusso por enquanto. Comeando pelo fim do sculo XVIII, eles pontuariam a histria econmica da eraindustrial mais ou menos assim: 1790-1817, inflao; 1817-50, deflao; 1 8 5 0 - 7 3 , Superficialmente, as tendncias cclicas da economia europia nesse periodoinflao; 1 8 7 3 - 9 6 , deflao; 1 8 9 6 - 19 14, inflao. (As datas exatas variam de umaafiguraram-se, para a maioria dos analistas, uma repetio das alternncias anterioresanlise para outra, mas o esquema e os pontos de demarcao aproximados continuamde contrao e expanso a longo prazo. Os tericos monetrios apontaram uma os mesmos.) Alm disso, a maioria concordaria quanto ao carter cclico dessasdiminuio da oferta de capital em relao a demanda entre 1873 e 1896, seguida flutuaes. Sem dvida, presumvel que um marxista como Kondratiev fizesse umapor um aumento acentuado do estoque de reservas, em decorrncia das descobertas ressalva a isso (embora ele no a faa explicitamente), restringindo esse padro sde ouro na frica do Sul e no Klondike.* Essa tese talvez tenha recebido sua mais economias capitalistas e sujeitando sua repetitividade influncia de mudanasplena elaborao analtica na obra de Simiand, que generalizou a experincia do sculosubjacentes, e de alcance ainda mais longo, no sistema total. Similarmente, o recenteXIX e construiu um modelo de tendncias inflacionrias e deflacionrias longas etrabalho de Rostow sobre os estgios da industrializao parece implicar aalternadas, as primeiras caracterizadas pelo rpido crescimento quantitativo, apoiado possibilidade de que o ritmo e o carter dessas ondas se alterem com o amadurecimentonuma base tecnolgica relativamente estvel (anlogo ao que hoje chamamos expansoda economia. No obstante, essas ressalvas no afetam a periodicidade aceita dodo capital), e as ltimas, pelo aperfeioamento qualitativo (aprofundamento do capital) sculo XIX.e pela eliminao forada das empresas ineficientes.1 Esse quadro me parece inexato e, em minha opinio, leva a um entendimento Opondo-se em geral a essa interpretao, h os economistas e historiadores que equivocado da relao entre o processo subjacente de industrializao e os outrosencaram o investimento como o determinante primordial e osaspectos da transformao econmica. A principal fonte de dificuldade a iluso detica produzida pelo contraste entre a exploso de crescimento da dcada de 1850 e adepresso da de 1870; ambas se destacam do restante e parecem introduzir uma nova * O rio canadense cujo nome passou a designar a regio que foi palco de umaera, marcando um perodo de alta inflacionria de 1850 a 1873. Na verdade, adas mais clebres corridas do ouro, no fim do sculo XIX. (N. da T.)seqncia dos preos no mostra esse tipo de tendncia longa. A longa deflao iniciada 240241 3. aps as guerras napolenicas foi momentaneamente revertida pela entrada de metais nesse aspecto, as diferenas em termos de recursos materiais e instituies e as preciosos em barra e pela exploso de crdito da dcada de 1850. Mas a inflao nodefasagens quanto ao momento do desenvolvimento foram determinantes. O durou mais do que a alta do ciclo curto. Os preos caram em 1857 e, embora tivessem resultado foi uma variao substancial de um pas para outro. altos e baixos na dcada e meia seguinte, a tendncia foi ligeiramente descendente (no A economia a cuja carreira o curso dos preos mais se adequa a da Gr- mximo, estvel em alguns casos), com a instalao de um declnio acentuado a partir Bretanha. Isso no chega a surpreender. Primeira nao a se industrializar, ela de 18 73.3 continuou, pelo sculo XX adentro, a liderar o mercado internacional. Mesmo depois Em suma, o sculo XIX foi marcado por uma deflao prolongada e aguda, que sede ter perdido sua supremacia, na dcada de 1890, para os Estados Unidos e a estendeu desde 1817 at 1896, tendo apenas uma breve interrupo de uns seis ouAlemanha, em setores crticos como o ferro e o carvo, sua posio de mediadora do sete anos. Na longa histria da moeda e dos preos desde a Idade Mdia at o presente, comrcio e das finanas mundiais sustentou sua influncia predominante nos preos no h nada que lhe seja semelhante - com a possvel exceo de alguns declnios maisdas mercadorias. brandos nas dcadas que se seguiram Peste Negra e no sculo XVII. Alm disso,No minha inteno empreender, neste ponto, um exame detalhado da diversamente desses perodos anteriores, quando a queda dos preos vinculou-se a experincia britnica. Podemos simplesmente observar que os clculos de que catstrofes, despovoamentos e depresso muito disseminada, o sculo XIX foi um pe- dispomos sobre suas taxas de crescimento industrial e seu aumento de produtividade - e rodo de paz, de aumento sem precedentes da populao e de rpida expanso eles so confirmados pela principal srie temporal da indstria - mostram uma ntida econmica. No mais, com ou sem a conivncia de reis e governos, o longo prazo queda depois das dcadas sumamente prsperas de meados do sculo. Eles s sempre feito de depreciao e inflao.voltaram a subir depois de 1900. De 1870 em diante, com exceo de um ramo A explicao da aberrao do sculo XIX parece residir, precisamente, noscomo a siderurgia, que foi transformada por uma srie de avanos tcnicosaumentos de produtividade que estimularam e possibilitaram esse crescimento fundamentais, a indstria inglesa esgotou o impulso trazido pelo grupo original deeconmico. Ao longo do sculo, os custos reais caram sistematicamente, a princpio inovaes que havia constitudo a Revoluo Industrial. Mas, esgotados esses grandessobretudo na indstria e, mais tarde aps uma revoluo dos transportes que abriu incrementos, as indstrias estabelecidas no ficaram paradas. A mudana estavavastos novos territrios ao cultivo comercial , tambm na produo de alimentos. ( a embutida no sistema e a inovao foi, no mnimo, mais freqente do que nunca. Comsafra de avanos nesses dois setores que responde pela queda particularmentea alta do custo dos equipamentos e a queda da vantagem fsica sobre as tcnicasacentuada dos anos de 1873-96.) Sem dvida, haviam ocorrido aperfeioamentosexistentes, no entanto, diminuiu o produto marginal dos aperfeioamentos.tecnolgicos e economias de custo em pocas anteriores. Por que, ento, essa deflao Essa desacelerao s foi revertida por volta da passagem do sculo, quando umasingularmente persistente? A resposta reside, claro, na singularidade das inovaes srie de grandes avanos abriu novas reas de investimento. Esses anos assistiram aque constituram a Revoluo Industrial; nunca houve, antes dela, um feixe de novidades vigorosa infncia, seno ao nascimento, da energia e dos motores eltricos; da qumicade aplicao to generalizada e de implicaes to radicais.orgnica e dos sintticos; do motor de combusto interna e dos dispositivos Portanto, a queda dos preos do sculo XIX foi uma conseqncia e um barmetro daautomotores; da indstria de preciso e da produo em linhas de montagem um feixe deindustrializao europia. Desnecessrio dizer que isso no implica que, por ter sido inovaes que mereceu o nome de Segunda Revoluo Industrial. Como essas inovaesmais ou menos idntico o rumo das alteraes de preos em todos os pases da Europa,traziam em si a possibilidade de diminuir custos, seria concebvel que sua vigorosao curso da industrializao tambm tenha sido o mesmo. Dadas as comunicaesexplorao gerasse um declino adicional dos preos - embora, dadas as condies dacomerciais e monetrias ento vigentes, a sincronizao das tendncias dos preos era tecnologia, seu impacto relativo estivesse fadado a ser menor que o dos avanos pioneirosinevitvel. Isso da natureza do mercado. Mas os padres e as taxas de crescimento so do sculo XVIII. No caso, porm, a Inglaterra no tirou pleno proveito dasoutra histria. Embora a mesma comunicao internacional que deu origem deflaooportunidades oferecidas, e o incentivo inicial fornecido aos preos pelos fluxos degeral tambm conduzisse a movimentos solidrios na tecnologia,lingotes de ouro vindos da frica do Sul (Witwatersrand, 1887), do oeste da Austrlia(1887) e do242 243 4. Klondike (1896) foi substitudo e reforado por um padro de investimentos que geroude minrio de ferro na Lorena. Antes dessa revitalizao e mesmo depois, j que aretornos lentos em bens e servios de consumo. E ento, claro, veio a Primeiraopinio sempre varivel nessas questes -, a sonolncia da economia francesa evocouGuerra Mundial, trazendo consigo presses inflacionrias que tornam impossvelreiteradas advertncias das Cassandras horrorizadas com a crescente defasagem entreuma comparao com o perodo anterior.as economias francesa e alem. A "capacidade de crescimento" no , em absoluto, uma Mesmo assim, esse conjunto de inovaes marcou o incio de uma nova subida, um inveno do debate poltico norte-americano contemporneo.segundo ciclo de crescimento industrial que ainda est em andamento e cujas Ao lado das economias avanadas, certo nmero do que hoje chamaramos de naespossibilidades tecnolgicas ainda esto longe de ter-se esgotado. nesse contexto que se "subdesenvolvidas" embarcou, durante esses anos de transio tecnolgica, em suaspode compreender o debate sobre o momento do "poca crtica" da Gr-Bretanha. prprias revolues industriais. Algumas delas, como a Sucia e a Dinamarca, realizaramMudana de vida, houve. A questo : ter ela ocorrido na dcada de 1870 ou na de a mudana suavemente e alcanaram rpidos aumentos da produtividade e da renda real1890? 4 A resposta, obviamente, depende do ponto de vista. O fim da grandeper capita. Outras, como a Itlia, a Hungria e a Rssia, assimilaram apenas parte daprosperidade aps 1873 e o persistente mal-estar das dcadas seguintes apontam, de fato,tecnologia moderna, e esses avanos, conquistados em pontos precisos da economia,para o ocaso da Revoluo Industrial, ao passo que a articulao da dcada de 1890 marcademoraram a desarticular o tenaz atraso da maioria dos ramos da atividade econmica.o incio de uma nova acelerao.Nesses pases, alm disso, a indstria respondia por uma frao to pequena da riqueza A Alemanha proporciona um contraste impressionante. Apesar de sua capacidade, ae da renda nacional, que at os rpidos aperfeioamentos desse setor fizerameconomia desse pas estava muito atrs da inglesa, em 1870, em termos da assimilao erelativamente pouco, a princpio, pela produo global ou pelo padro de vida. Nodisseminao da tecnologia da Revoluo Industrial. Amplos setores da indstria ainda obstante, seu crescimento industrial foi, em geral, mais rpido nesse perodo que o dosestavam por ser mecanizados; a fabricao domiciliar continuava a predominar em pases mais avanados, ate mesmo a Alemanha. Em parte, isso reflete uma falciamuitos ramos; a rede ferroviria estava longe de ter sido concluda; e a escala deestatstica: sua produo era to reduzida, nesses estgios iniciais, que ate as melhoriasproduo costumava ser pequena. Assim, uma vez deixado para trs o revs de meadosmodestas afiguravam-se proporcionalmente grandes. Porm, reflete ainda mais ada dcada de 1870, a Alemanha retomou sua alta taxa de crescimento. E ainda no havia precariedade da base tecnolgica desses pases e o grande potencial de suas prpriasesgotado esse impulso quando as novas oportunid...</p>