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  • 1. Da Teoria Prtica Leny Rodrigues Kyrillos (Organizadora)

2. Expressividade - Da Teoria Prtica Copyright 2005 by Livraria e Editora Revinter Ltda. ISBN 85-7309-899-6 Todos os direitos reservados. expressamente proibida a reproduo deste livro, no seu todo ou em parte, por quaisquer meios, sem o consentimento por escrito da Editora. Contato com os autores: leny.kyrillos@uol.com.br Te!.: (11) 5579-1988 A responsabilidade civil e criminal, perante terceiros e perante a Editora Revinter, sobre o contedo total desta obra, incluindo as ilustraes e autorizaesJcrditos correspondentes, do(s) autor(es) da mesma. Livraria e Editora REVINTER Ltda. Rua do Matoso, 170 - Tijuca 20270-131 - Rio de Janeiro - RJ Te!.: (21) 2563-9700 - Fax: (21) 2563-9701 livraria@revinter.com.br - www.revinter.com.br 3. CApiTUlo 2 EXPRESSIVIDADE DA FALA Sandro Madureiro Oestudo da Lingstica sempre fez parte dosprpgramas dos Cursos de Fonoaudiologia, mas usualmente os alunos tinham dificuldade de estabelecer sua aplicao prtica. Alm de a disciplina ser ministrada geralmente no 1 ou 2 ano do Curso, o que dificulta a observao de seu uso durante a parte prtica dos 3 e 4 anos, nem sempre a programao do curricu/um favorece a discusso conjunta dos contedos. Nosso recente olhar para a expressividade resgatou o interesse dos pro- fissionais para o aprofundamento dos conhecimentos dessa rea, de impor- tncia vital para a compreenso de todo o processo comunicativo. A Dra. Sandra Madureira, lingista que atua com fonoaudilogos, orientando e dis- cutindo trabalhos de pesquisa, favoreceu imensamente a aproximao das duas reas e faz ponte entre os conhecimentos tericos e a aplicao prtica de maneira didtica e bastante clara. Neste captulo, ela nos fornece os ele- mentos necessrios para a compreenso da fontica e sua relao ntima com a avaliao e a compreenso da expressividade de fala, evidenciando a grande importncia desses conceitos e favorecendo o uso desse conheci- mento, no s para compreendermos o processo, mas principalmente para podermos interferir no mesmo. uma grande contribuio para nossa rea de atuao. Leny R. Kyri//os 15 4. 16 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA PRTICA RESUMO o objetivo deste trabalho abordar conceitos que tm interesse para a investigao da expressividade na fala e fornecer subsdios para a realizao de uma anlise dos elementos envolvidos na construo da expressividade oral. INTRODUO Quando dizemos que uma fala expressiva, geralmente nos referimos a uma fala caracterizada por variabilidade de padres meldicos e rtmicos, os quais, em trabalho anterior, denominamos "recursos fnicos que veiculam e- feitos de sentido". O termo "efeitos de sentido" usado nesse contexto para sinalizar que a matria fnica causa impresses nos ouvintes, os quais lhe atribuem sentidos (Madureira, 1992). Entretanto, toda a fala expressiva, no sentido de que alguma forma de atitude, emoo, crena, estado fsico ou condio social veiculada por meio da fonao e da articulao dos sons. Portanto, a fala, comumente referida como montona, tambm expressiva. Ela pode ser interpretada pelo ouvinte como indicadora de falta de entusiasmo, apatia, desinteresse, entre outros sentidos. A fala a face sonora da linguagem e essa materialidade sonora que oferece inmeras possibilidades de ser trabalhada (Granger, 1974) para a expresso de sentidos. Assim, pelo trabalho do falante, forma (a matria fni- ca) e contedo (o sentido) se interinfluenciam. Foi exatamente a constatao dessa interao que motivou Possenti (1988) a afirmar que uma forma suscita um contedo e um contedo suscita uma forma, ou, no dizer de Albano (1988) "se verdade que o sentido faz som o som tambm faz sentido". Essapotencialidade da fala para expressar sentidos a torna um meio eficaz para a comunicao. Por meio da fala veiculamos informaes, mas tambm expressamos nossas atitudes, emoes e crenas e sinalizamos nossas posi- es em relao ao discurso. Dessa maneira, um tom ascendente pode ser interpretado pelos ouvintes como indicador de continuidade do discurso e cri- ar expectativas sobre o que o falante ir dizer na seqncia da fala. Se escutar- mos as gravaes de uma mesma frase enunciada por um grupo de pessoas, tambm somos capazes de fazer inferncias a partir da matria fnica sobre caractersticas fsicas, sociais e psicolgicas dos indivduos que o compe. A expressividade da fala constri-se a partir das interaes que se estabe- lecem entre elementos segmentais (vogais e consoantes) e prosdicos (rit- mo, entoao, qualidade de voz, taxa de elocuo, pausas e padres de acento) e das relaes que se estabelecem entre som e sentido. Vogais e consoantes co-articuladas constituem o fluxo da fala, e suas caractersticas fonticas alteram-se, dependendo das caractersticas prosdicas. 5. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 17 Os elementos prosdicos exercem diversas funes, entre elas: segmen- tar o fluxo da fala, facilitar a compreenso da fala, destacar elementos na fala (conferir proeminncia), expressar modalidades (declarativa, interrogati- va etc.), atitudes, emoes, condies fsicas etc. A segmentao do fluxo de fala reduz a ambigidade, aumenta a inteligi- bilidade e proporciona ao ouvinte uma margem maior de tempo para proces- sar a fala nos intervalos entre grupos de palavras. Essadiviso em grupos pode ser realizada pelo uso de variados elementos prosdicos que tendem a co-ocorrer. Alm da pausa silenciosa, a segmentao do fluxo de fala pode ser sinalizada por uma variao de pitch, pelo alongamento de segmentos e sla- bas, pelo no-estabelecimento de fenmenos coarticulatrios e por ajustes de qualidade da voz. Alm da segmentao, o que facilita a compreenso da fala o acento, ou seja, a proeminncia relativa que faz com que certas slabas de palavras se destaquem no fluxo da fala. Um elemento proeminente aquele que apre- senta caractersticas que o permitem se diferenciar dos demais no contexto. Como a segmentao e a acentuao interagem com a organizao sin- ttica, semntica e pragmtica, os resultados provenientes da investigao sobre a prosdia das lnguas so cruciais para o entendimento de como se d a expresso de vrias modalidades e efeitos de sentido a partir de uma mes- ma seqncia segmental na fala natural. Tentemos imaginar possveis maneiras de se pronunciar "Sim" em respos- ta a uma pergunta. Voc gostou do filme? Imaginemos que voc no gostou muito e quer dar uma resposta evasiva. Uma das maneiras de demonstrar isso seria alongar um pouco a vogal e modificar gradativamente o tom em dire- o ascendente. Entretanto, se quisesse afirmar categoricamente, a direo do tom seria provavelmente descendente e mais abrupta. Se voc alongasse os segmentos e usasse um tom ascendente-descendente, possivelmente, o ouvinte o julgaria entusiasmado. E se voc alterasse sua qualidade de voz, uti- lizando um ajuste de mandbula fechada (Laver, 1980, 1994) mudasse gra- dativamente o tom em direo descendente e alongasse a durao do seg- mento voclico, seu interlocutor provavelmente perceberia que voc no est a fim de responder a pergunta. As variaes para cima e para baixo no contorno meldico dos enuncia- dos so acompanhadas por mudanas de ajustes de qualidade de voz que vo desde a voz rangida (o nvel mais baixo) at o falseto (o nvel mais alto), passando pelo moda I (o nvel mdio). Essas alteraes dentro dos enuncia- dos tm importantes implicaes para a anlise da fala. A fala expressiva porque suas condies de produo possibilitam infi- nitos ajustes. Nosso aparelho fonador dotado de plasticidade e por causa 6. 18 EXPRESSIVIDADE - DA TEORIA PRTICA disso, podemos combinar a atuao das cmaras iniciadoras da corrente de ar (pulmes, laringe e vu palatino), a quantidade de fluxo de ar, as direes da corrente de ar (ingressiva e egressiva), as modificaes causadas pelo po- sicionamento das pregas vocais e pelos articuladores na formao das con- figuraes do trato vocal. As combinaes permitidas so inmeras e os efei- tos acsticos variados compreendem modificaes nos parmetros de dura- o, freqncia e intensidade. E a partir das pistas acsticas depreendidas do sinal da fala, que o falante impressiona o ouvinte. Consideraremos neste artigo alguns conceitos que julgamos particular- mente relevantes de serem discutidos quando se aborda a expressividade da fala: os papis do falante e as relaes entre som e sentido considerados a partir das noes de metfora sonora e simbolismo sonoro. Por fim, apresen- taremos subsdios para a realizao de uma anlise da expressividade oral. A EXPRESSIVIDADE DA FALA E OS PAPIS DO FALANTE Segundo Goffmann (1981), o falante desempenha trs papis diferen- tes: o animador, o autor e o protagonista. Estes papis referem-se a trs as- pectos distintos: a emisso do gesto vocal (o animador; a mquina falante), a produo do texto (o autor) e a veiculao de um sistema de crenas que se quer compartilhado (protagonista). Essa noo tripartida do falante ressalta aspectos fundamentais da din- mica da fala: o ouvinte est contemplado nessa noo de falante por meio da postulao da categoria de protagonista. A esse ouvinte o falante quer impressionar, e essa sua misso realiza-se pelas escolhas que faz sobre a for- ma (a animao oral) e o contedo (a escolha das palavras). Essa noo tambm abre perspectivas para a avaliao da expressivida- de na fala. Por que alguns oradores arrebatam o pblico e outros no? Por que algumas pessoas prendem a ateno de seus interlocutores em uma conversa? Para responder a essas perguntas temos de investigar como cren- as (o falante no seu papel de protagonista) so expressas pelas escolhas lexicais (o falante no seu papel de autor) e de recursos fnicos (o falante no seu papel de animador). A EXPRESSIVIDADE E AS RELAES ENTRE SOM E SENTIDO 'O sentido de um mesmo enunciado pode ser alterado em funo das escolhas prosdicas que fazemos. So as relaes entre som e sentido que se colocam a. As relaes entre som e sentido tm sido debatidas ao longo dos sculos por filsofos e lingistas. Plato, em um dos seus famosos dilogos, o Crti- 7. A EXPRESSIVIDADE DA FALA 19 lo.discute se as rel