Klinger, Diana - Escritas de Si, Escritas Do Outro

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<ul><li><p> 0</p><p>UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO </p><p>INSTITUTO DE LETRAS </p><p>DIANA IRENE KLINGER </p><p>ESCRITAS DE SI, ESCRITAS DO OUTRO: </p><p>AUTOFICO E ETNOGRAFIA NA NARRATIVA LATINO-AMERICANA </p><p>CONTEMPORNEA. </p><p>Rio de Janeiro </p><p>2006 </p></li><li><p> 1</p><p> DIANA IRENE KLINGER </p><p>ESCRITAS DE SI, ESCRITAS DO OUTRO: AUTOFICO E ETNOGRAFIA NA </p><p>NARRATIVA LATINO-AMERICANA CONTEMPORNEA. </p><p>Tese apresentada ao Instituto de Letras da UERJ, como parte dos requisitos para obteno do ttulo de Doutor em Letras rea de concentrao:Literatura Comparada. Orientador: Prof. Dr. Italo Moriconi </p><p>Rio de Janeiro 2006 </p></li><li><p>CATALOGAO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/CEH/B </p><p>K65 Klinger, Diana Irene Escritas de si, escritas do outro: autofico e etnografia na </p><p>narrativa latino-americana contempornea / Diana Irene Klinger. 2006. </p><p> 204 f. Orientador : talo Moriconi. Tese (doutorado) Universidade do Estado do Rio de Janeiro, </p><p>Instituto de Letras. 1. Fico latino-americana Teses. 2. Literatura e antropologia </p><p>Teses. I. Moriconi, talo. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Letras. III. Ttulo. </p><p> CDU 860(7/8)-3 </p></li><li><p> 3</p><p> KLINGER, Diana. Escritas de si e escritas do outro. Auto-fico e etnografia na literatura </p><p>latino-americana contempornea. Tese de Doutorado em Letras. Literatura Comparada. Rio de Janeiro: UERJ, 2006. </p><p>BANCA EXAMINADORA </p><p>Prof. Dr. talo Moriconi (UERJ) (Orientador) </p><p>Profa Dra. Beatriz Resende (UNIRIO) (Titular) </p><p>Profa. Dra. Ana Cristina Chiara (UERJ) (Titular) </p><p>Prof Dr. Vitor Hugo Pereira (UERJ) (Titular) </p><p>Profa. Dra. Maria Antonieta Pereira (UFMG) (Titular) </p><p> Profa. Dra. Marilia Rothier (UERJ ) </p><p>(Suplente) </p><p>Profa. Dra. Clia Pedrosa (UFF) (Suplente) </p><p>Defesa da Tese marcada para o dia 14 de maro de s 14 h. </p></li><li><p> 4</p><p>A Hilde, com eterna saudade </p><p>A meus pais, Zulema e Pedro </p></li><li><p> 5</p><p>Agradecimentos </p><p>A talo, no s pelas leituras atentas, os comentrios sagazes e as conversas frutferas, mas </p><p>tambm pelo apio, o incentivo e a valorizao do meu trabalho. </p><p>Um agradecimento muito especial aos membros da Banca, Maria Antonieta Pereira, Beatriz </p><p>Resende, Ana Cristina Chiara e Vitor Hugo Adler Pereira. </p><p>A Florncia Garramuo e a Gonzalo Aguilar, porque no fosse por eles eu no estaria no </p><p>Brasil </p><p>Aos professores da UERJ, especialmente a Gustavo Bernardo, a Carlinda Fragale Pat </p><p>Nuez, a Joo Cezar de Castro Rocha, a Luiz Costa Lima, pelo incentivo. </p><p>A Marildo, a Paloma, a meus amigos que me apoiaram e me ajudaram em momentos muito </p><p>difceis, Nicole e Ricardo, Liliana, Mariela e Javier, Marina e Alejandro, Ktia e Ramiro, a </p><p>meus amigos que esto longe, mas eu sinto perto. </p><p>A Ypun Garcia pelas dicas de leitura e as conversas frutferas. </p><p>A minha famlia pelo carinho de sempre. </p><p>E, enfim, Capes pela bolsa sem a qual no poderia ter escrito esta tese. </p></li><li><p> 6</p><p>RESUMO </p><p>Este trabalho consiste na identificao de duas problemticas estticas que </p><p>atravessam a fico brasileira e latino-americana contempornea: o retorno do autor e a </p><p>virada etnogrfica. Nossa hiptese que o cruzamento de ambas perspectivas (a auto-</p><p>fico e a etnografia) em alguns romances contemporneos, permite pensar as mltiplas </p><p>relaes entre a literatura e a antropologia, em particular, e entre a literatura e a </p><p>epistemologia num sentido mais amplo. As fices abordadas participam da condio de </p><p>estarem nas fronteiras culturais e nas fronteiras da fico. Assim, elas apresentam pontos </p><p>de contato com as premissas da chamada antropologia ps-moderna, enquanto proposta de </p><p>re-considerar o lugar do autor e da linguagem na representao do outro culturalmente </p><p>afastado. Nesses romances, a representao da alteridade se inscreve num paradoxo, entre a </p><p>hermenutica do outro e a tautologia de uma linguagem que se dobra sobre si prpria. Na </p><p>auto-reflexo sobre o conceito de representao, que tambm caracteriza um momento </p><p>recente das disciplinas humansticas, a narrativa contempornea se situa numa posio </p><p>ambivalente entre a fico e a no-fico. </p><p>Palavras chave: Autofico; Etnografia; Narrativa latino-americana contempornea </p></li><li><p> 7</p><p>RESUMEN </p><p>Este trabajo consiste en la identificacin de dos problemticas estticas que atraviesan la ficcin latinoamericana contempornea: la escritura de autoficcin y la ficcin etnogrfica. Nuestra hiptesis es que el cruce de ambas perspectivas en algunas novelas contemporneas, permite pensar las mltiples relaciones entre literatura y antropologa, en particular, y entre literatura y epistemologa en un sentido ms amplio. Asi, podemos afirmar que los textos ledos aqu presentan una semejanza con las premisas de la llamada antropologa posmoderna, en cuanto propuesta de reconsiderar el lugar del autor y del lenguaje en la representacin del otro culturalmente distante. En las novelas, la representacin de la alteridad se inscribe en una paradoja, entre la hermenutica del otro y la tautologa de un lenguaje que se dobla sobre si mismo. En la autorreflexin sobre la representacin, que caracteriza un momento reciente de las disciplinas humansticas, la narrativa contempornea al mismo tiempo re-dimensiona la categora de narrador y se sita en una posicin ambivalente entre la ficcin y la no-ficcin. </p><p> Palavras chave: Autoficcon; Etnografia; Narrativa latino-americana contempornea </p></li><li><p> 8</p><p>SUMRIO </p><p>Introduo 9 </p><p>Captulo I: A escrita de si (o retorno do autor) 16 </p><p>1.0 Aproximaes................................................................................................ 17 </p><p>1.1 A escrita de si: uma histria .......................................................................... 26 </p><p>1.2 A crise do sujeito e a morte do autor............................................................. 31 </p><p>1.3 O retorno do autor.......................................................................................... 37 </p><p>1.4 A auto-fico no campo da escrita de si ....................................................... 41 </p><p>1.5 Auto-fico e performance ........................................................................... 52 </p><p>1.6 Joo Gilberto Noll: os bastidores da escrita................................................... 62 </p><p>Captulo II: A escrita do outro (a virada etnogrfica)..................................... 68 </p><p>2.1 O artista como etngrafo................................................................................ 74 </p><p>2.2 A virada da etnografia.................................................................................... 81 </p><p>2.3 Antropologia do mundo contemporneo........................................................ 89 </p><p>2.4 Antropologia e Estudos Culturais................................................................... 94 </p><p>2.5 Antropologia e valor literrio......................................................................... 102 </p><p>Captulo III: Confluncia das perspectivas: a virada etnogrfica e a </p><p>auto-fico na fico contempornea 110 </p><p>3.1 O narrador (ps)-etnogrfico........................................................................ 111 </p><p>3.2. Fernando Vallejo: um duelo lingstico....................................................... 121 </p><p>3.3 Washington Cucurto: a arte da performance................................................ 146 </p><p>3.4 Bernardo Carvalho: o ncleo duro do real................................................... 168 </p><p>Consideraes finais............................................................................................ 188 </p><p>Bibliografia.......................................................................................................... 192 </p></li><li><p> 9</p><p>INTRODUO </p><p>Concete a ti mismo... es fcil decirlo, y aun ms creerlo; despus, en los momentos de ruptura, de implosin, de cada en uno mismo, lo que se descubre es otra cosa. Cebollas infinitas, no terminaremos jams de retirar las telas que nos abarcan, desde los siete velos de Salom hasta la prodigiosa espeleologa del psicoanlisis; debajo, siempre ms abajo, el centro rehsa dejarse ver tal como es. Estamos lejos de muchas cosas, pero de nada estamos ms lejos que de nosotros mismos. (Julio Cortazar, 19841). Toute personne qui dcide dcrire sa vie se comporte comme si elle tait son propore ngre. (Lejeune, Je est un autre2) </p><p>Na novela de Fernando Vallejo, La virgen de los sicarios (1994), um anjo </p><p>exterminador percorre as ruas de Medelln, uma das cidades mais violentas da terra, </p><p>limpando-a de parte de seus moradores e ao mesmo tempo livrando seu amante do que mais </p><p>parece incomod-lo: o prximo. O narrador da novela, gramtico de profisso, voltara j </p><p>velho Colmbia da sua infncia e iniciara uma relao homossexual com o anjo, um </p><p>rapaz chamado Alexis, um sicrio (ou assassino profissional), sem pai e sem lei. Dos </p><p>subrbios de uma outra metrpole, Buenos Aires, o narrador de Noches Vacas (2003), do </p><p>escritor argentino Washington Cucurto, relata suas aventuras noturnas no mundo marginal </p><p>da cumbia (gnero musical que se produz, se ouve e se dana s margens da cultura </p><p>oficial, comparvel ao funk brasileiro), povoado pelas recentes imigraes de latino-</p><p>americanos que chegaram Argentina dos anos noventa com a iluso de encontrar </p><p>melhores condies de vida. Em Nove Noites (2001), de Bernardo Carvalho, um jornalista </p><p> 1 Aqui la dignidad y la belleza. En Nicaragua tan violentamente dulce. Buenos Aires: Muchnik Editores, 1984. p.66 2 Je est un autre. Lautobiographie de la litteraure aux midias Paris: Ed. Du Seuil, 1980. p. 236 </p></li><li><p> 10</p><p>se interna na aldeia de ndios krah no Xingu em busca de dados sobre Bell Quain, </p><p>promissor antroplogo norte-americano que, em 1938, aos 27 anos se suicidou em </p><p>circunstncias misteriosas quando voltava da aldeia indgena para a cidade de Carolina. </p><p> primeira vista, estas narrativas escritas na ltima dcada no tm nada em comum </p><p>entre elas. No entanto, essa primeira percepo logo se revela falsa, quando se percebe que </p><p>elas compartilham dois elementos que definem aspectos da narrativa contempornea: uma </p><p>forte presena da primeira pessoa e um olhar sobre o outro culturalmente afastado. Por um </p><p>lado, alter ego do escritor, o gramtico de Vallejo, o cumbiero de Cucurto e o jornalista </p><p>de Carvalho, os trs narradores destas fices tm fortes marcas autobiogrficas; por outro </p><p>lado, os trs atravessam uma fronteira cultural e escrevem sobre outro mundo, subalterno. </p><p>Assim, nestas fices confluem duas perspectivas que analisaremos no captulo um e dois </p><p>respectivamente: a escrita de si e a escrita do outro. Identificamos estas perspectivas com </p><p>duas tendncias da narrativa contempornea: o retorno do autor e a virada etnogrfica. </p><p>A escrita de si. Italo Moriconi acredita que o trao marcante na fico mais recente </p><p> a presena autobiogrfica real do autor emprico em textos que por outro lado so </p><p>ficcionais 3, de maneira que se trata de discursos explicitamente situados na interface entre </p><p>real e ficcional. </p><p>Na definio de autobiografia de Philippe Lejeune, o que diferencia a fico da </p><p>autobiografia no a relao que existe entre os acontecimentos da vida e sua transcrio </p><p>no texto, mas o pacto implcito ou explcito que o autor estabelece com o leitor, atravs de </p><p>vrios indicadores presentes na publicao do texto, que determina seu modo de leitura. </p><p>Assim, a considerao de um texto como autobiografia ou fico independente do seu </p><p>grau de elaborao estilstica: ela depende de que o pacto estabelecido seja ficcional ou </p><p>referencial.4</p><p>Os trs romances citados, assim como os outros que veremos no primeiro captulo, </p><p>transgridem de alguma forma o pacto ficcional, incorporando elementos que exigem </p><p>serem lidos em outra clave, referencial. Segundo o conceito de Lejeune, o espao </p><p>autobiogrfico compreende o conjunto de todos os dados que circulam ao redor da idia </p><p>do autor: suas memrias e biografias, seus (auto) retratos e suas declaraes sobre sua </p><p> 3 Moriconi, Italo. Circuitos contemporneos do literrio (Indicaes de pesquisa). Comunicao apresentada na Universidade de San Andres, Buenos Aires, 9 de Agosto de 2005. Indita. 4 cf. Lejeune, Phillipe. Le pacte autobiographique. Paris: ditions du Seuil, 1996 [1975] </p></li><li><p> 11</p><p>prpria obra ficcional. Ora, se num sentido geral, todo texto de fico participa do espao </p><p>autobiogrfico, as fices em primeira pessoa e com traos autobiogrficos analisadas no </p><p>corpo da presente tese, ocupam a um lugar de destaque: estabelecem o que Lejeune chama </p><p>de pactos indiretos, pois o autor, por meio de alguma indicao, os d a ler indiretamente </p><p>como fantasmas reveladores do individuo. Si lhypocrisie est un hommage que le vice </p><p>rend la vertu, ces jugements sont en ralit un hommage que le roman rend </p><p>lautobiographie, diz Philippe Lejeune.5 Assim, nossos romances se inscrevem num </p><p>espao no qual as duas categorias autobiografia e romance no so redutveis a </p><p>nenhuma das duas 6, num jogo em que fico e no fico no remetem a territrios </p><p>nitidamente separados. </p><p>Em Noches Vacas, o nome do personagem coincide com o pseudnimo do autor, </p><p>Washington Cucurto. Na novela de Fernando Vallejo, o narrador possui vrios traos da </p><p>biografia do autor, fora o fato de que ele mesmo declarou para a imprensa que se trataria de </p><p>uma histria de amor auto-biogrfica. Por sua parte, em Nove Noites, a figura do narrador </p><p>tambm est montada com traos autobiogrficos e Bernardo Carvalho, ao colocar na </p><p>orelha do livro uma foto sua, aos seis anos de idade de mos dadas com um ndio no Xingu, </p><p>insere sua prpria imagem na trama romanesca. precisamente essa transgresso do pacto </p><p>ficcional, em textos que - no entanto - continuam sendo fices o que os torna to </p><p>instigantes: sendo ao mesmo tempo ficcionais e (auto)referenciais, estes romances </p><p>problematizam a idia de referncia e assim incitam a abandonar os rgidos binarismos </p><p>entre fato e fico. </p><p>A escrita do outro. Por outro lado, as trs figuras narradoras do conta de um </p><p>movimento na narrativa atual que, segundo Francine Massiello uma das faces da literatura </p><p>latino-americana ps-boom e ps-ditaduras no Cone Sul. Massiello argumenta que haveria, </p><p>na fico recente, uma atrao pelas figuras marginais da sociedade que expem o dilema </p><p>acerca da representao da outridade.7 Com a recuperao da democracia, em meio de </p><p>discusses intelectuais sobre os fracassos da histria e o destino da nao, a fico </p><p> 5 Se a hipocrisia uma homenagem que o vicio rende virtude, estas apreciaes so em realidade uma homenagem que o romance rende autobiografia. (Traduo minha do francs). Lejeune, Phillipe, 1996 [1975] p. 42. Lejeune encontra este pacto indireto ou fantasmtico na obra de Andr Gide. 6 Melo Miranda, Wander. Corpos Escritos. So Paulo: Editora: Edusp e Belo Horizonte: Editora UFMG, 1992. p.37 7 Masiello, Francine. El arte de la transicin. Buenos Aires: Norma, 2001. p. 17. </p></li><li><p> 12</p><p>oferece uma interveno para examinar a idia de representao nos dois sentidos da </p><p>palavra, o poltico (no sentido de delegao) e o artstico (reproduo mimtica). Os trs </p><p>romances citados so relatos de outridades que habitam no corpo da sociedade latino-</p><p>americana: delinqentes, imigrantes pobres e ndios. E os t...</p></li></ul>