karine daufenbach

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Continuidades e Dinossncias na Arquitetura Industrial de Hans BroosKarine DaufenbachMestranda pelo Programa de Pesquisa e Ps-graduao em Arquitetura PROARQ UFRJ kdaufenbach@yahoo.com.br

Este artigo se fundamenta na anlise de duas obras industriais: a Hering Matriz de Blumenau, Santa Catarina, construda em 1968 e o projeto da Hering Nordeste, que data de 1975, localizada na cidade de Paratibe Paulista, Pernambuco. Este estudo parte de reflexes que as unem e distanciam ao mesmo tempo: ambas so do arquiteto Hans Broos e construdas em um curto intervalo de tempo; porm localizadas em regies diferentes e situao diversa e apresentam caractersticas formais divergentes. Deste modo, a anlise busca verificar qual o papel da crtica na apreciao das obras e quais as condicionantes que guiaram os projetos. Palavras-chave: arquitetura industrial This paper is based in the analysis of two industrial works: Hering Matriz, Blumenau, Santa Catarina, built in 1968 and Hering Nordeste, built in 1975, located in the city of Paratibe Paulista, Pernambuco. Many criterias are observed: both belong to architect Hans Broos and built in a short interval of time; however located in different areas and several situation and they present distinct formal characteristics. This way, the analysis intends to verify the discuss about these works and which parameters are most relevant in the projects. Key-words: industrial architecture

IntroduoHans Broos chegou ao Brasil em 1953 e fixou residncia inicialmente na cidade de Blumenau, Santa Catarina. Em 1968 mudou-se para So Paulo, onde estabeleceu escritrio de arquitetura e trabalha atualmente. Formado em 1947 pela Universidade de Braunschweig, Alemanha, trabalhou como assistente do professor Egon Eiermann na Universidade Tcnica de Karlsruhe, Alemanha, entre os anos de 1949 e 1953, e participou da elaborao de inmeros projetos, entre eles, industriais e religiosos. Ao chegar ao pas Hans Broos teve intensa produo, com cerca de 200 obras construdas. Dedicando-se a vrias reas, sua produo composta principalmente por obras residenciais,

religiosas, hospitalares e industriais, alm de edifcios pblicos e planejamento urbano. Em Blumenau, poucos anos aps sua chegada teve incio sua produo de projetos industriais, dando incio a sua colaborao na Indstria Txtil Hering. Inicialmente Hans Broos trabalhou na ampliao e expanso da Hering matriz de Blumenau e na formulao de seu plano diretor. Nesta empresa h o sistema de satlites, que so indstrias de pequeno porte localizadas nas proximidades da matriz, responsveis pela costura dentro do processo de produo. Em Santa Catarina, a Cia. Hering compe-se de seis unidades fabris: a matriz em Blumenau e as satlites de Itoror, Encano, Rodeio, Ibirama e gua Verde. Deste ncleo, ainda surgiu a Hering Nordeste, na cidade de Paratibe Paulista, PE. Foi atravs desta obra que o arquiteto ganhou maior projeo. Em 1983 foi concedido o prmio anual do IAB de So Paulo para a Hering do Nordeste, obra construda, na categoria edifcios industriais. Este artigo intenciona traar um paralelo entre duas obras industriais do arquiteto Hans Broos: a Hering Matriz de Blumenau, Santa Catarina, construda em 1968 e o projeto da Hering Nordeste, que data de 1975. O interesse nestas obras consiste no fato de serem formalmente dissonantes, localizadas em regies diferentes e realizadas em curto intervalo de tempo. Esta anlise se fundamenta no estudo das condicionantes principais de projeto e qual a reflexo da crtica acerca das obras. Para tanto, os seguintes aspectos sero levados em considerao: implantao, volumetria e plasticidade, e partido e estrutura.

Contexto HistricoOs anos de 1950, com o fim dos CIAM e as vicissitudes do Team 10, protagonizam uma paulatina evoluo da ortodoxia do Movimento Moderno pautada na continuidade das propostas formulados pelos mestres do Movimento Moderno. H, sobretudo, a necessidade de uma renovao, tendo em vista novas demandas sociais; mais uma reviso formal dentro dos prprios parmetros, j que os critrios de projeto e tecnolgicos se mantinham. Aps a segunda guerra mundial o paradigma da mquina se debilita, e o modelo centrado nas formas puras direcionou-se a um modelo mais aberto, em que o contexto, a natureza, o vernculo, a expressividade de formas orgnicas e escultricas, e a expressividade dos prprios materiais passaram a predominar. H uma transformao da viso do edifcio racionalista enquanto algo autnomo: uma fragmentao do edifcio e diferenciao das fachadas, visando quebrar a repetio, a monotonia, alm da busca por uma maior

expressividade e monumentalidade na arquitetura. Este ltimo aspecto teve notoriedade na soluo de conjuntos construdos sobre plataformas, em que Braslia e Chandigarh so exemplos. O contexto urbano vai adquirindo importncia nas discusses, entendido de uma maneira mais complexa que o exposto na Carta de Atenas. A idia do edifcio autnomo e isolado na cidade vai perdendo espao para uma noo de ambiente urbano, que considera os edifcios integrados ao contexto topogrfico e urbano. A idia de lugar passa a ser corrente; a arquitetura deixa de ser entendida como espao fsico, plstico, racional e funcional, e passa a ser vista como lugar, algo mais concreto, qualitativo e humano; passa-se de uma idia abstrata uma concepo mais material.1 Parte da obra desenvolvida por Le Corbusier a partir dos anos de 1950 manifesta esta mudana, com a valorizao do uso de materiais como concreto aparente e tijolos vista alm do resgate de certas tcnicas construtivas rudimentares em suas obras. Esta nova fase o que pode ser chamada de Brutalista, justamente o perodo que mais exerceu influncia internacional na arquitetura dos anos de 1950 e 1960. Sem dvida, a obra mais paradigmtica deste perodo e que mais deu sinais da reviso formal que se processara a capela de Ronchamp (1950-1955). Do impasse entre crise e continuidade que caracterizou os anos de 1950, surgem novas metodologias projetuais nos anos 1960. Abre novos horizontes as propostas do grupo Archigram, a crtica tipolgica de Aldo Rossi e a arquitetura comunicativa de Robert Venturi. As discusses provenientes da dcada anterior comeam a se materializar e permitem entrar em uma nova poca. Esta mudana de expresso na arquitetura que se concretizou na Europa na dcada de 1950 tambm teve fortes ressonncias no Brasil. A partir de meados dos anos de 1950 a arquitetura paulista vinha desenvolvendo uma linguagem diferentemente daquela desenvolvida pelos arquitetos cariocas: uma linguagem marcantemente influenciada pelo brutalismo, sinalizado, sobretudo, na figura de Le Corbusier e sua Unidade de Habitao de Marselha. Essa mudana que se processou na arquitetura brasileira foi contempornea, portanto, construo de1

Montaner, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno: arquitetura da segunda metade do sculo XX. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 2001, pg. 41.

Braslia; at este momento vivamos uma poca de continuidade racionalista. nessa poca, porm, que h uma mudana na expresso formal da arquitetura, quando o predomnio da arquitetura nacional passa da escola carioca escola paulista, e suas primeiras manifestaes datam de meados dos anos de 1950, prolongando-se por toda dcada de 1960. O termo brutalismo refere-se a uma reao crtica de jovens arquitetos em relao construo das new tows inglesas do ps-guerra, e segundo Reyner Banham, descreve uma nova atitude na arquitetura, e tinha pretenso de ser uma tica e no uma esttica2 que prezava pelos elementos estruturais do edifcio aparentes, conferindo, assim, o prprio carter do edifcio. Montaner define as caractersticas desta arquitetura: estrutura do edifcio aparente, a valorizao dos materiais por suas qualidades inerentes e a expresso de cada um dos elementos tcnicos.3 No Brasil, o brutalismo caracterizou-se por um idealismo que levou os arquitetos a terem esperanas em um novo pas, em uma mudana social atravs da arquitetura, que se aproximava muito das vanguardas europias do incio do sculo XX. Segundo Maria Alice Junqueira Bastos, esta arquitetura, formalmente, caracterizou-se pela nfase na verdade construtiva levando exposio da estrutura, em geral em concreto, das alvenarias de vedao, feitas em tijolos ou blocos de concreto, das tubulaes e pela aspirao industrializao da construo e ao desenvolvimento tcnico.4 Outra caracterstica marcante o papel e a importncia da estrutura como definidora dos espaos, alm do uso do concreto aparente, que no Brasil foi, via de regra, a prpria expresso dessa arquitetura. Os anos de 1970 passam a ser visto como uma nova etapa, onde novas estratgias tericas e prticas so buscadas. As formulaes tericas e os projetos e obras propostos por arquitetos como Aldo Rossi, Robert Venturi e Charles Moore evidenciam esta mudana formal. Nesta poca ganha fora uma posio abertamente crtica ao legado do Movimento Moderno. Uma situao que no final da dcada se consolidou como ps-moderna, que assiste a uma diversidade de posies, inclusive umas contrarias s outras, marcando o fim da continuidade pretendida pelas vanguardas e o incio do pluralismo. O livro de Charles Jencks, A linguagem da arquitetura ps-moderna, publicado em 1977, veio a evidenciar a conscincia de se estar vivendo uma nova condio.

Banham, Reyner. El Brutalimo em Arquitectura: tica ou Esttica? Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 1966, pg. 8. 3 Idem, pg. 73. 4 Bastos, Maria Alice Junqueira. Ps-Braslia: rumos da arquitetura brasileira. So Paulo: Perspectiva, 2003, pg. 6.

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No Brasil, as ressonncias da arquitetura moderna ainda foram sentidas nos anos de 1970 como uma atitude de resistncia, de arquitetos que ainda se expressavam dentro do repertrio formal desta arquitetura, explorando as possibilidades plsticas do concreto armado. A despeito das discusses ps-modernas, a arquitetura brasileira, at a dcada de 1980, ainda parecia estar sob a gide modernista, vinculada tecnologia do concreto e obsesso estrutural.

Anlise dos ProjetosHering Matriz (1968) Imp