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    A PAZ PERPTUA

    Um Projecto Filosfico

    Immanuel Kant(1795)

    Tradutor:Artur Moro

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    FICHA TCNICA

    Ttulo: A Paz Perptua. Um Projecto FilosficoAutor: Immanuel KantTradutor: Artur MoroColeco: Textos Clssicos de FilosofiaDireco da Coleco: Jos Rosa & Artur MoroDesign da Capa: Antnio Rodrigues TomPaginao: Jos RosaUniversidade da Beira InteriorCovilh, 2008

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    A Paz Perptua.Um Projecto Filosfico

    (1795)

    Immanuel Kant

    Contedo[Introduo] 3Primeira Secco que contm os Artigos Preliminares... 4Segunda Seco que contm os Artigos Definitivos... 10Suplemento Primeiro: Da Garantia da Paz Perptua 23Suplemento Segundo: Artigo Secreto para a Paz Perptua 32Apndice I: Sobre a discrepncia entre a Moral e a Poltica... 34Apndice II: Da Harmonia da Poltica com a Moral...... 46

    [Introduo]

    Pode deixar-se em suspenso se esta inscrio satrica na tabuleta deuma pousada holandesa, em que estava pintado um cemitrio, interessaem geral aos homens, ou em particular aos chefes de Estado que nuncachegam a saciar-se da guerra, ou to-s aos filsofos que se entregama esse doce sonho. Mas o autor do presente ensaio estipula o seguinte:visto que o poltico prtico est em bons termos com o terico e comgrande autocomplacncia o olha de cima como a um sbio acadmico

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    que, com as suas ideias ocas, nenhum perigo traz ao Estado este deveantes partir dos princpios da experincia e a quem se pode permitirarremessar de uma s vez os onze paus, sem que o estadista, conhe-cedor do mundo, com isso se preocupe, no caso de um conflito como terico, ele deve proceder de um modo consequente e no farejarperigo algum para o Estado por detrs das suas opinies, aventadas aoacaso e publicamente manifestadas com esta clausula salvatoria quero autor saber-se a salvo expressamente e da melhor forma contra todaa interpretao maliciosa.

    PRIMEIRA SECO

    QUE CONTM OS ARTIGOS PRELIMINARESPARA A PAZ PERPTUA ENTRE OS ESTADOS

    1. No deve considerar-se como vlido nenhum tratado de pazque se tenha feito com a reserva secreta de elementos para uma guerrafutura.

    Seria ento, pois, apenas um simples armistcio, um adiamento dashostilidades e no a paz, que significa o fim de todas as hostilidades,e juntar-lhe o epteto eterna j um pleonasmo suspeitoso. As cau-sas existentes para uma guerra futura, embora talvez no conhecidasagora nem sequer pelos negociadores, aniquilam-se no seu conjuntopelo tratado de paz, por muito que se possam extrair dos documentosde arquivo mediante um escrutnio penetrante. A restrio (reserva-tio mentalis) sobre velhas pretenses a que, no momento, nenhuma daspartes faz meno porque ambas esto demasiado esgotadas para pros-seguir a guerra, com a perversa vontade de, no futuro, aproveitar paraeste fim a primeira oportunidade, pertence casustica jesutica e no

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    A Paz Perptua. Um Projecto Filosfico 5

    corresponde dignidade dos governantes, do mesmo modo que tam-bm no corresponde dignidade de um ministro a complacncia emtais dedues, se o assunto se julgar tal como em si mesmo.

    Se, pelo contrrio, a verdadeira honra do Estado se colocar, segundoos conceitos ilustrados da prudncia poltica, no contnuo incrementodo poder seja por que meios for, ento aquele juzo afigurar-se- comoescolar e pedante.

    2. Nenhum Estado independente (grande ou pequeno, aqui tantofaz) poder ser adquirido por outro mediante herana, troca, compra oudoao.

    Um Estado no patrimnio (patrimonium) (como, por exemplo,o solo em que ele tem a sua sede). uma sociedade de homens so-bre a qual mais ningum a no ser ele prprio tem de mandar e dispor.Enxert-lo noutro Estado, a ele que como tronco tem a sua prpria raiz,significa eliminar a sua existncia como pessoa moral e fazer desta l-tima uma coisa, contradizendo, por conseguinte, a ideia do contrato ori-ginrio, sem a qual impossvel pensar direito algum sobre um povo1

    ). Todos sabem a que perigo induziu a Europa at aos tempos maisrecentes o preconceito deste modo de aquisio, pois as outras partesdo mundo jamais o conheceram, isto , de os prprios Estados poderementre si contrair matrimnio; este modo de aquisio , em parte, umnovo gnero de artifcio para se tomar muito poderoso mediante alian-as de famlia sem dispndio de foras e, em parte tambm, serve paraassim ampliar as possesses territoriais. Deve tambm aqui incluir-seo servio das tropas de um Estado noutro contra um inimigo no co-mum, pois em tal caso usa-se e abusa-se dos sbditos vontade, comose fossem coisas de uso.

    1 Um reino hereditrio no um Estado que possa ser herdado por outro Estado; um Estado cujo direito a governar se pode dar em herana a outra pessoa fsica.O Estado adquire, pois, um governante, no o governante como tal (isto , que jpossui outro reino) que adquire o Estado.

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    3. Os exrcitos permanentes (miles perpetuus) devem, com otempo, de todo desaparecer.

    Pois ameaam incessantemente os outros Estados com a guerra, de-vido sua prontido para aparecerem sempre preparados para ela; osEstados incitam-se reciprocamente a ultrapassar-se na quantidade dosmobilizados que no conhece nenhum limite, e visto que a paz, emvirtude dos custos relacionados com o armamento, se torna finalmentemais opressiva do que uma guerra curta, eles prprios so a causa deguerras ofensivas para se libertarem de tal fardo; acrescente-se que pr-se a soldo para matar ou ser morto parece implicar um uso dos homenscomo simples mquinas e instrumentos na mo de outrem (do Estado),uso que no se pode harmonizar bem com o direito da humanidade nanossa prpria pessoa. Algo de todo diverso defender-se a si e defen-der a Ptria dos ataques do exterior com o exerccio militar voluntriodos cidados empreendido de forma peridica. O mesmo se passariacom a acumulao de um tesouro; considerado pelos outros Estadoscomo uma ameaa de guerra, for-los-ia a um ataque antecipado, sea tal no se opusesse a dificuldade de calcular a sua grandeza (poisdos trs poderes, o militar, o das alianas e o do dinheiro, este ltimopoderia decerto ser o mais seguro instrumento de guerra).

    4. No se devem emitir dvidas pblicas em relao aos assuntosde poltica exterior.

    Para fomentar a economia de um pas (melhoria dos caminhos, no-vas colonizaes, criao de depsitos para os anos maus de forneci-mentos, etc.) fora ou dentro do Estado, esta fonte de financiamento nolevanta suspeitas. Mas um sistema de crdito, como aparelho de opo-sio das potncias entre si, um sistema que cresce ilimitadamente, sempre um poder financeiro perigoso para a reclamao presente (por-que certamente nem todos os credores o faro ao mesmo tempo) dasdvidas garantidas a engenhosa inveno de um povo de comercian-tes neste sculo ou seja, um tesouro para a guerra, que supera os

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    tesouros de todos os outros Estados tomados em conjunto e que s sepode esgotar pela eminente queda dos impostos (que, no entanto, semantero ainda durante muito tempo, graas revitalizao do comr-cio por meio da retroaco deste sobre a indstria e a riqueza). Estafacilidade para fazer a guerra, unida tendncia dos detentores do po-der que parece ser congnita natureza humana, , pois, um grandeobstculo para a paz perptua; para o debelar, deveria, com maior ra-zo, haver um artigo preliminar porque, no fim, a inevitvel bancarrotado Estado envolver vrios outros Estados sem culpa o que seria umaleso pblica destes ltimos. Por conseguinte, outros Estados tm aomenos o direito de se aliar contra semelhante Estado e as suas preten-ses.

    5. Nenhum Estado se deve imiscuir pela fora na constituio eno governo de outro Estado.

    Que que a tal o pode autorizar? Porventura o escndalo que daos sbditos de outro Estado? Mas tal escndalo pode antes servir deadvertncia mediante o exemplo do grande mal que um povo atraiu so-bre si em virtude da sua ausncia de leis; e, alm disso, o mau exemploque uma pessoa livre d a outra no (enquanto scandalum accep-tum) nenhuma leso. No se aplicaria, decerto, ao caso em que umEstado se dividiu em duas partes devido a discrdias internas e cadauma representa para si um Estado particular com a pretenso de ser otodo; se um terceiro Estado presta, ento, ajuda a uma das partes nose poderia considerar como ingerncia na Constituio de outro Estado(pois s existe anarquia). Mas enquanto essa luta interna ainda no estdecidida, a ingerncia de potncias estrangeiras seria uma violao dodireito de um povo independente que combate a sua enfermidade in-terna; seria, portanto, um escndalo, e poria em perigo a autonomia detodos os Estados.

    6. Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir tais hosti-lidades que tomem impossvel a confiana mtua na paz futura, como,

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    por exemplo, o emprego no outro Estado de assassinos (percussores),envenenadores (venefici), a ruptura da capitulao, a instigao trai-o (perduellio), etc.

    So estratagemas desonrosos; mesmo em plena guerra deve aindaexistir alguma confiana no modo de pensar do inimigo j que, casocontrrio, no se poderia negociar paz alguma e as hostilidades resul-tariam numa guerra de extermnio (bellum internecinum); a guerra apenas o meio necessrio e lamentvel no estado da ntureza (em queno existe nenhum tribunal que possa julgar, com a fora do direito),para afirmar pela fora o seu direito; na guerra, nenhuma das partes sepode declarar inimigo injusto (porque

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