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<p> Luana Goulart de Castro Alves Questes ticas em Aristteles e Kant moralidade, dever e felicidade Dissertao de Mestrado DissertaoapresentadaaoProgramadePs-GraduaoemFilosofiadaPUC-Riocomorequisito parcialparaaobtenodograudeMestreem Filosofia. Orientador: Prof. Edgard Jos Jorge Filho Rio de Janeiro Maro de 2015 PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA Luana Goulart de Castro Alves Questes ticas em Aristteles e Kant moralidade, dever e felicidade Dissertaoapresentadacomorequisitoparcial para a obteno do grau de Mestre pelo Programa dePs-GraduaoemFilosofiadaPUC-Rio. AprovadapelaComissoExaminadoraabaixo assinada: Prof. Edgard Jos Jorge Filho Orientador Departamento de Filosofia da PUC-Rio Profa. Izabela Aquino Bocayuva Departamento de Filosofia da UERJ Prof. Danilo Marcondes de Souza Filho Departamento de Filosofia da PUC-Rio Prof. Edgard de Brito Lyra Netto Departamento de Filosofia da PUC-Rio Profa. Denise Berruezo Portinari Coordenadora Setorial do Centro de TeologiaE Cincias Humanas PUC-Rio </p> <p> Rio de Janeiro, 17 de Maro de 2015. PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA Ficha Catalogrfica CDD: 100 Alves, Luana Goulart de Castro QuestesticasemAristteleseKant:moralidade, deverefelicidade/LuanaGoulartdeCastroAlves; orientador: Edgar Jos Jorge Filho. 2015. 106 f. ; 30 cm Dissertao (Mestrado)Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro, Departamento de Filosofia, 2015. Inclui bibliografia </p> <p> 1.FilosofiaTeses.2.Moralidade.3.tica.4. Felicidade.I.Filho,EdgardJosJorge.II.Pontifcia UniversidadeCatlicadoRiodeJaneiro.Departamentode Filosofia. III. Ttulo. Todos os direitos reservados. proibida a reproduo total ou parcial do trabalho sem autorizao da universidade, do autor e do orientador. Luana Goulart de Castro Alves Bacharel em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiroem2012.Obtevelicenciaturaplenapelamesma instituio em 2013. Desenvolveu pesquisas no Departamento de Filosofia da UERJ atravs de seu programa institucional de bolsas de iniciao cientfica (PIBIC), financiada pelo CNPq. Tem experincia na rea de Filosofia, com nfase em tica e Filosofia Moral. CDD: 100 PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CAAgradecimentos Agradeo ao CNPq pelo fomento financeiro a meus estudos durante o mestrado. Agradeo ao professor Edgar Jos Jorge Filho por sua orientao sempre generosa e atenciosa. AgradeotambmaosprofessoresDaniloMarcondesdeSouzaFilho,Izabela AquinoBocayuvaeEdgarddeBritoLyraNetto,porteremaceitadocompora bancaexaminadoradestadissertaoeporteremcontribudocomsuascrticas, observaes e sugestes. AgradeoaoProfessorLuizBernardoLeiteArajopelaorientaoeaulas excelentes e instigadoras durante toda a minha formao e todos os professores da UniversidadeEstadualdoRiode Janeiroqueauxiliaramdediversasformaspara que eu pudesse ter a formao filosfica mais completa e profunda possvel. Agradeoaosmeuspaiseirmospelosconselhos,presenaepacincia,semos quais eu jamais teria sido capaz de levar esses estudos a cabo. Agradeodetodocoraoaomeumarido,TiagoRezendedeCastroAlvesque estevesemprepresentecomomeuco-orientadorinformalequecomsua pacincia, carinho e empenho infinitos e incessantes esteve presente durante todos osprincipaismomentosdesdeaminhaformaoateucompletaraminha dissertao: obrigada por tudo. PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CAResumo Alves, Luana Goulart de Castro; Filho, Edgard Jos Jorge. Questes ticas emAristteleseKant:moralidade,deverefelicidade.RiodeJaneiro, 2015.106p.DissertaodeMestradoDepartamentodeFilosofia, Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro. Estadissertaopodeserdescritacomoumestudocomparativosobrea ticadeAristteleseafilosofiamoraldeKant,cujoobjetivoprincipalindicar umarelevantecompatibilidadeentreasvisesdessesfilsofossobrearelao entreasnoesdefelicidadeeaomoral/virtuosa.Essatarefacumpridaem quatro estgios, a cada um dos quais corresponde um dos captulos do trabalho. O primeirolidacomainterpretaodopapeldafelicidadeedaaovirtuosana ticaaNicmaco.OspareceresdeAristtelessobreotemasoexaminadose interpretados, o que resulta numa figura coerente de sua doutrina tica que parece capazderesponderbemavriasdemandasdasquaisnoapenasnosepoderia darcontasegundooutraspossveisleituras,masquetambmparecem fundamentais.Osegundodedicadoaesclarecernoesbsicasdafilosofia moral de Kant; nele, aspectos de sua moral deontolgica, bem como seu papel na filosofiadeKantcomoumtodo,sopostossobescrutnio.Acomparao explcitadasduasdoutrinasconsideradasnoscaptulosanteriorescomeaater lugarnoterceiro,ondeasmotivaeseaefetivarealizaodasaes morais/virtuosas so discutidas e analisadas dos pontos de vista das interpretaes jsugeridasdastesesdeambosospensadores.Noquartocaptulo,asprincipais conclusesdadissertaosoaduzidasapartirdosresultadosobtidosemseu decorrerresumidamente,elesnosindicamaplausibilidadedeseconsiderara nooaristotlicadefelicidadecomocompatvelemprincpiocomoarcabouo conceitual da moral de Kant. Palavras-Chave Moralidade; tica; Felicidade PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CAAbstract Alves,LuanaGoulartdeCastro;Filho,EdgardJosJorge(Advisor). Ethical questions in Aristotle and Kant: morality, duty, happiness. Rio deJaneiro,2015.106p.MSc.DissertationDepartamentodeFilosofia, Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro. Thisdissertationcouldbedescribedasacomparativestudyconcerning AristotlesethicsandKantsmoralphilosophy,whosemainaimistoindicatea relevantcompatibilitybetweenthesetwophilosophersviewsontherelation betweenthenotionsofhappinessandmoral/virtuousaction.Thistaskiscarried out in four stages, to each of which correspondsone of the chapters of the work. The first of them deals directly with the interpretation of the role of happiness and virtuousactioninEthicaNicomachea.Aristotlesviewsonthethemeare surveyedandinterpreted,whichyieldsacoherentpictureofhisethicaldoctrine whichseemscapableofansweringquitewelltoseveraldemandsthatnotonly could not be dealt with according to other possible readings, but which also seem fundamental.ThesecondoneisdedicatedtoclarifyingbasicnotionsofKants moralphilosophy.Someaspectsofhisdeontologicalmoralarescrutinized,as wellastheirproperrolewithinKantsphilosophyasawhole.Theexplicit comparison of the two doctrines considered in the previous chapters starts taking placeinthethirdone,wherethemotivationsandtheeffectiverealisationofthe moral/virtuousactionsarediscussedandanalysedfromtheviewpointsofthe interpretationsofboththinkersthesesalreadysuggested.Inthefourthchapter, themainconclusionsofthedissertationaredrawnfromtheresultsobtained throughoutitinshort,theyleadustoconsiderplausibletoregardthe Aristoteliannotionofhappinessascompatibleinprinciplewiththeconceptual framework of Kants moral. Keywords Morality; Ethics; Happiness PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CASumrio 1.Introduo 0 10 2.Aristteles 0 17 2.1. Responsabilidade: causa motriz, o voluntrio e a escolha na tica18 2.1.1.A responsabilidade como conceito instrumental para uma interpretao adequada da tica aristotlica19 2.1.2.O voluntrio 20 2.1.3.A escolha24 2.2. Virtudes 33 2.3. Causa final38 3.Kant 0 56 3.1. A tica e a filosofia moral59 3.1.1.A felicidade e a moralidade60 3.1.2.Os imperativos kantianos66 3.1.3.A inteno e a vontade 68 3.1.4.As sensaes e a moralidade 72 3.1.5.A razo e a filosofia moral75 4.Comparaes entre Kant e Aristteles a respeito da ao virtuosa/moral79 4.1. Motores da ao virtuosa/moral e critrios de moralidade: contextualismo x apriorismo 80 4.1.1.A questo da aplicabilidade dos critrios demoralidade s aes 87 4.2. A ao enquanto evento: tica eudaimonista x distino entre direito e moral89 PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA5.Concluso94 6.Referncias bibliogrficas102 PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CALista de figuras e tabelas Tabela 1 Aes voluntrias, no voluntrias e involuntrias22 PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA10 1 Introduo Aobrakantiana,semsombradedvida,umdosmarcosmais importantes em toda a histria da filosofia. A parte dela que concerne moral, em particular, no apenas representa um divisor de guas na tradio filosfica, como tambmserveaoimportantepropsitodefuncionarcomoumdosmais paradigmticos exemplos de um pensamento tico-moral de ndole deontolgica.Umadascaractersticasmarcantesdafilosofiamoralkantianasua descrio da moralidade como sendo algo estritamente conectado ao que pode ser conhecidoaprioristicamente.Emseuseio,aaomoralfiguracomoalgoque dependeexclusivamentedaobedinciarazopuraaprioriouseja,comoa aocujainteno/motivaoseresumeapenasaseguiroquearazoaponta comooquedeveserfeito.Destaforma,somenteasaesqueatendemaesse requisitopodemserconsideradasmorais.Aaomoral,sereportaria,portanto, unicamenteaosditamesracionaisaprioristicamentecognoscveis,abstraindo completamente de quaisquer inclinaes empricas. Trocando em midos, se junto aodeverseapresentarqualqueroutrafonteparaaaomesmoqueestapossa parecer nobre, como o altrusmo, a obedincia a Deus, ou qualquer outra ela no poderia, segundo Kant, ser considera moral.Afilosofiakantianapodeserentendidacomoumapropostaqueexpressa uma ruptura com certo tipo clssico de pensamento que encontra, por exemplo, nasdoutrinasepicuristaeestica,bemcomoemdiversasoutrasteleologias eudaimonistasdaGrciaAntigaalgunsdeseusmaiseminentesrepresentantes segundooqualosconceitosdeaovirtuosaedefelicidadepodemser compreendidoscomopartesestruturaisdoarcabouoconceitualticonamedida em que a relao entre eles parece dar-se por fora de necessidade. Segundo Kant, as aes morais no esto vinculadas necessariamente com a felicidade, j que de PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA11 umanosesegueobrigatoriamenteaoutra,nemdeoutraauma.Emalgumas passagens da obra kantiana na Fundamentao da Metafsica dos Costumes, ou mesmo na Crtica da Razo Prtica , o autor parece esclarecer o porqu de estes conceitos no poderem ser forosamente conectados: Infelizmente,porm,oconceitodafelicidadeumconceitoto indeterminado que, muito embora todo homem deseje alcan-la, ele jamais pode dizerdemaneiradeterminadaeemharmoniaconsigomesmooqueele propriamentedesejaequer.Acausadisso:quetodososelementosque pertencem ao conceito da felicidade so, sem exceo, empricos, (...) Em suma, ele no capaz de determinar com plena certeza, segundo um princpio qualquer, oqueverdadeiramentehdefaz-lofeliz,porqueparaissoseriapreciso omniscincia.Nosepode,pois,paraserfeliz,agirsegundoprincpios determinados.1</p> <p>Issosignificanosomentedizerqueafelicidadeempricae indeterminada,comotambmqueeladependeriadasinclinaesparticularesde cadahomem.Afelicidadenoseria,portanto,consequncianecessriade nenhumaao;easaesquepoderiamresultaremfelicidade,porsuavez, dependeriamdosgostosedesejospessoaisdecadasujeito.Aconcepode felicidadedelineadapelopensadorparece,dessaforma,coloc-lacomoumtipo desentimento;umeventosubjetivo,decontornosemocionais,quenopodeser determinadonaordemcausaldoseventoscomosendoumaconsequncia necessriadequaisqueraesmoraisisto,quenopodeterumarelaode conexonecessriacomoeventoobjetivoquearealizaodeaesmorais. Enquantoestasteriamseucontedoaprioristicamentecognoscveleporisso seriamaptasaseremprescritasuniversalmentepelarazo,afelicidadeno apenas teria seu contedo indeterminado, como tambm indeterminados seriam os meios para alcan-la, o que a impossibilitaria de exercer a funo de causa final da ao moral.Assim,noqueconcernerelaoentreosconceitosdefelicidadeeao virtuosa/moral,opensamentokantianopoderiaserapontadocomoumbom candidatoarepresentaropapeldeantagonistadefilosofiasmoraisouticasde fundamentoteleolgicodecunhoeudaimonistadasquaisaaristotlicatalvez sejaomaisemblemticoexemplar.Aristtelesdescreveotelosisto,a finalidadedasaescomosendoafelicidade;portanto,seriapossvelentender </p> <p>1 KANT, I., Fundamentao da Metafsica dos Costumes, BA 46-47. PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA12 que,aprincpio,Kanteeleparecemdiscordarquantoparticipaodoconceito de felicidade no alicerce conceitual do edifcio tico. Se por um lado, o pensador moderno parece apontar para a impossibilidade de se unir felicidade e ao moral pormeiodousodeumarelaodeforadenecessidadecomoargamassa,por outro,oEstagiritapareceproporoextremocontrrio:aimpossibilidadede desconectarfelicidadedeaovirtuosa,dadasuaunionecessriaeirrevogvel. Assim,Aristtelesfrequentementeapontadocomoumfilsofoeudaimonista queseoporiadiametralmenteaKantnotocanteaparticipaodafelicidadeno arcabouo conceitual tico. Como o prprio diz, afinal:A felicidade , portanto, algo absoluto e auto-suficiente, sendo tambm a finalidade da ao. 2</p> <p>Ora,seafelicidadeafinalidadedaao,isto,oseutelos,parece adequado,comoanteriormentesugerido,afirmarquehaveriaentreosdoisuma ligao inseparvel. Dentre os diversos tipos de ao, as virtuosas seriam aquelas que,dealgumaforma,trariamafelicidade.,contudo,desumaimportncia observar que esta, por sua vez, tende a ser compreendida, mesmo no contexto da filosofiadeAristteles,comoalgodistintoeexternosaesvirtuosas, funcionandocomoumaconsequncianecessriadelas.Umaformadedescrever esse tipo de concepo da relao entre as noes de felicidade e ao virtuosa pensando-asemtermosdeeventosquesedonotempo,daseguinteforma:a felicidadeeaaovirtuosaseriamdoiseventosdistintosnotempo,quese conectariamnamedidaemqueosegundopoderiaserapontadocomocausa motriz/eficiente do primeiro. Como a finalidade da ao , segundo Aristteles, a felicidade, parece que o que buscado pelo sujeito agente na realizao das aes precisamenteela.Ouento,queomotivopeloqualsepodejustificarquese pratiquem aes virtuosas precisamente o fato de que parece ser apenas atravs delas que se alcana a felicidade. Assim sendo, parece ser possvel afirmar que as aesvirtuosasseriamvistascomomeionecessrioparaalcanarsuafinalidade, que a felicidade.luzdasobservaesfeitasacima,torna-sepossvelvislumbraropalco sobreoqualseapresentaajanteriormentecitadaoposioentreafilosofia aristotlicaeakantiananoquedizrespeitotica:seporumladopossvel </p> <p>2ARISTTELES, tica a Nicmaco, 1097 b 20-25. PUC-Rio - Certificao Digital N 1312391/CA13 conceder que ambos entenderiamfelicidade eao virtuosa/moral como eventos distintos um do outro no tempo, por outro, eles discordariam profundamente sobre apossibilidadedeelesseconectaremapartirdeumarelaonecessriade causalidade.Todavia,importantenotarqueessainterpretaocomparativados filsofosemquestosustenta-seapenasnahiptesedequeambosestotratando felicidadee ao virtuosa sob um mesmo registro; isto , como se ambas fossem eventosdistintospossivelmenteligadosnumarelaodecausaeefeito.Nesse sentido,importantenotarquepassagensdaobraaristotlicasugerema possibilidade de pr tal premissa em xeque.O filsofo nos diz, por exemplo: ... devemos antes classificar a felicidade como uma atividade, (...)3 Esse trecho, embora breve, ajuda a nortear a lida com uma questo fundamental na compreenso do pensamento tico aristotlico: como deveserentendidootermofelicidade?muitocomumquens,sujeitosdo sculoXXI,mobilizemosesseconceitocomcontornospsicolgicos,ou descrevendo-ocomoumtipodesentimento,talcomoumaalegriaexageradae duradoura, ou...</p>