Kant CRP Prefacio

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<p>Kant, Crtica da razo pura, Prefcio A vii-xii. trad. A.F. Morujo e M.P. Santos, F.C. Gulbenkian, Lisboa 1989 (2 ed.), pp. 3-6.</p> <p>PREFCIO DA PRIMEIRA EDIO (1781) A razo humana, num determinado domnio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada por questes, que no pode evitar, pois lhe so impostas pela sua natureza, mas s quais tambm no pode dar resposta por ultrapassarem completamente as suas possibilidades. No por culpa sua que cai nessa perplexidade. Parte de princpios, cujo uso inevitvel no decorrer da experincia e, ao mesmo tempo, suficientemente garantido por esta. Ajudada por estes princpios eleva-se cada vez mais alto (como de resto lho consente a natureza) para condies mais remotas. Porm, I logo se apercebe de que, desta maneira, a sua tarefa h-de ficar sempre inacabada, porque as questes nunca se esgotam; v-se obrigada, por conseguinte, a refugiar-se em princpios, que ultrapassam todo o uso possvel da experincia e, no obstante, esto ao abrigo de qualquer suspeita, pois o senso comum est de acordo com eles. Assim, a razo humana cai em obscuridades e contradies, que a autorizam a concluir dever ter-se apoiado em erros, ocultos algures, sem contudo os poder descobrir. Na verdade, os princpios de que se serve, uma vez que ultrapassam os limites de toda a experincia, j no reconhecem nesta qualquer pedra de toque. O teatro destas disputas infindveis chama-se Metafsica. Houve um tempo em que esta cincia (a metafsica) era chamada rainha de todas as outras e, se tomarmos a inteno pela realidade, merecia amplamente esse ttulo honorfico, graas importncia capital do seu objeto. No nosso tempo ____________ Omitido em B.</p> <p>A VII</p> <p>A VIII</p> <p>3</p> <p>tornou-se moda testemunhar-lhe o maior desprezo e a nobre dama, repudiada e desamparada, lamenta-se como Hcuba:A IX</p> <p>... Modo maxima rerum, I Tot generis natis que potens... Nunc trahor exul, inops. OVDIO, Metamorfoses Inicialmente, sob a hegemonia dos dogmticos, o seu poder era desptico. Porm, como a legislao ainda trazia consigo o vestgio da antiga barbrie, pouco a pouco, devido a guerras intestinas, caiu essa metafsica em completa anarquia e os cticos, espcie de nmades, que tem repugnncia em se estabelecer definitivamente numa terra, rompiam, de tempos a tempos, a ordem social. Como, felizmente, eram pouco numerosos, no puderam impedir que os seus adversrios, os dogmticos, embora sem concordarem num plano prvio, tentassem repetidamente, restaurar a ordem destruda. Nos tempos modernos houve um momento em que parecia irem terminar todas essas disputas, graas a uma certa fisiologia do entendimento humano (a do clebre Locke) e a ser decidida inteiramente a legitimidade dessas pretenses. Embora essa suposta rainha tivesse um nascimento vulgar, derivasse da experincia comum e, por isso, com justia, a sua origem tornasse suspeitas as suas exigncias, aconteceu, no entanto, que esta genealogia tinha sido imaginada falsamente e, assim, a metafsica continuou a afirmar as suas pretenses; I pelo que de novo tudo caiu no dogmatismo arcaico e carcomido e, finalmente, no desprestgio a que se tinha querido subtrair a cincia. Agora, depois de serem tentados todos os caminhos (ao que se v) em vo, reina o enfado e um indiferentismo, que engendram o caos e a noite nas cincias, mas tambm, ao mesmo tempo, so origem, ou pelo menos preldio, de uma prxima transformao e de uma renovao dessas ________________ Traduo: Ainda h pouco a maior de todas, poderosa por tantos genros e filhos... eis-me agora exilada, despojada.</p> <p>AX</p> <p>cincias, que um zelo mal entendido tornara obscuras, confusas e inteis. vo, com efeito, afetar indiferena perante semelhantes investigaes, cujo objeto no pode ser indiferente natureza humana. Esses pretensos indiferentistas, por mais que busquem tornar-se irreconhecveis, substituindo a terminologia da Escola por uma linguagem popular, no so capazes de pensar qualquer coisa sem recair, inevitavelmente, em afirmaes metafsicas. Porm, esta indiferena, que se produz no meio do flores-cimento de todas as cincias e ataca precisamente aquela, a cujos conhecimentos, se pudssemos adquiri-los, renunciaramos com menos facilidade I do que a qualquer outro, um fenmeno digno de ateno e de reflexo. Evidentemente que no efeito de leviandade, mas do juzo* amadurecido da poca, que j no se deixa seduzir por um saber aparente; um convite razo para de novo empreender a mais difcil das suas tarefas, a do conhecimento de si mesma e da constituio de um tribunal que lhe assegure as pretenses legtimas e, em contrapartida, possa condenar-lhe todas as presunes infundadas; I e tudo isto, no por deciso arbitrria, mas em nome das suas leis eternas e imutveis. Esse tribunal outra coisa no que a prpria Crtica da Razo Pura. Por uma crtica assim, no entendo uma crtica de livros e de sistemas, mas da faculdade da razo em geral, com ________________ * De vez em quando, ouvem-se queixas acerca da superficialidade domodo de pensar da nossa poca e sobre a decadncia da cincia rigorosa. Pois eu no vejo que as cincias, cujo fundamento est bem assente, como a matemtica, a fsica, etc., meream, no mnimo que seja, uma censura. Pelo contrrio, mantm a antiga reputao de bem fundamentadas e ultrapassam-na mesmo nos ltimos tempos. Esse mesmo esprito mostrar-se-ia tambm eficaz nas demais espcies de conhecimentos, se houvesse o cuidado prvio de retificar os princpios dessas cincias. falta desta retificao, a indiferena, a dvida e, finalmente, a crtica severa so outras provas de um modo de pensar rigoroso. A nossa poca a poca da crtica, qual tudo tem que submeter-se. A religio, pela sua santidade e a legislao, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas ento suscitam contra elas justificadas suspeitas e no podem aspirar ao sincero respeito, que a razo s concede a quem pode sustentar o seu livre e pblico exame.</p> <p>A XI</p> <p>A XII</p> <p>A XIII</p> <p>A XIV</p> <p>respeito a todos os conhecimentos a que pode aspirar, independentemente de toda a experincia; portanto, a soluo do problema da possibilidade ou impossibilidade de uma metafsica em geral e a determinao tanto das suas fontes como da sua extenso e limites; tudo isto, contudo, a partir de princpios. Assim, enveredei por este caminho, o nico que me restava seguir e sinto-me lisonjeado por ter conseguido eliminar todos os erros que at agora tinham dividido a razo consigo mesma, no seu uso fora da experincia. No evitei as suas questes, desculpandome com a impotncia da razo humana; pelo contrrio, especifiquei-as completamente, segundo princpios e, depois de ter descoberto o ponto preciso do mal-entendido da razo consigo mesma, resolvi-as com a sua inteira satisfao. I No dei, certo, quelas questes as respostas que o exaltado desejo dogmtico de saber desejaria esperar, pois impossvel satisfaz-lo de outra forma que no seja por artes mgicas, das quais nada entendo. Topouco residia a o objeto do destino natural da nossa razo; o dever da filosofia era dissipar a iluso proveniente de um mal-entendido, mesmo com risco de destruir uma quimera to amada e enaltecida. Neste trabalho, a minha grande preocupao foi descer ao pormenor e atrevo-me a afirmar no haver um s problema metafsico, que no se resolva aqui ou, pelo menos, no encontre neste lugar a chave da soluo. Com efeito, a razo pura uma unidade to perfeita que, se o seu princpio no fosse suficiente para resolver uma nica questo de todas aquelas que lhe so propostas pela sua natureza, haveria que rejeit-lo, pois no se poderia aplicar a qualquer outra com perfeita segurana. Ao falar assim, julgo perceber na fisionomia do leitor um misto de indignao e desprezo I por pretenses aparentemente to vaidosas e imodestas; e, contudo, so incomparavelmente mais moderadas do que as de qualquer autor do programa mais vulgar, que pretende, por exemplo, demonstrar a natureza simples da alma ou a necessidade de um primeiro comeo do mundo; realmente, tal autor assume o compromisso de estender o conhecimento humano para alm de todos os limites da experincia possvel, coisa que, devo confess-lo com humildade,</p> <p>ultrapassa inteiramente o meu poder; em vez disso, ocupo-me unicamente da razo e do seu pensar puro e no tenho necessidade de procurar longe de mim o seu conhecimento pormenorizado, pois o encontro em mim mesmo e j a lgica vulgar me d um exemplo de que se podem enunciar, de maneira completa e sistemtica, todos os atos simples da razo. O problema que aqui levanto simplesmente o de saber at onde posso esperar alcanar com a razo, se me for retirada toda a matria e todo o concurso da experincia. Julgo ter dito o bastante acerca da perfeio a atingir em cada um dos fins e a extenso a dar investigao de conjunto de todos eles, que no constituem um propsito arbitrrio, mas que a natureza mesma do conhecimento nos prope como matria da nossa investigao crtica. I H ainda a ter em conta a certeza e a clareza, dois requisitos que se reportam forma e se devem considerar qualidades essenciais a exigir de um autor que se lana em empresa to delicada. No respeitante certeza, a lei que impus a mim prprio obriga-me a que, nesta ordem de consideraes, de modo algum seja permitido emitir opinies e que tudo o que se parea com uma hiptese seja mercadoria proibida, que no se deve vender, nem pelo mais baixo preo, mas que urge confiscar logo que seja descoberta. Com efeito, todo o conhecimento que possui um fundamento a priori anuncia-se pela exigncia de ser absolutamente necessrio; com mais forte razo deve assim acontecer a respeito de uma determinao de todos os conhecimentos puros a priori que deve servir de medida e, portanto, de exemplo a toda a certeza apodtica (filosfica). S ao leitor competir julgar se me mantive fiel, neste ponto, ao meu compromisso, pois ao autor apenas convm apresentar razes e no decidir dos efeitos delas sobre os juzes. Contudo, para que nada possa, inocentemente, ser causa de que se enfraqueam estas razes, I seja permitido ao autor que ele prprio assinale as passagens que poderiam ocasionar alguma desconfiana, embora apenas tenham importncia secundria, a fim de prevenir a</p> <p>A XV</p> <p>A XVI</p> <p>A XVII</p> <p>influncia que o mais leve escrpulo do leitor poder exercer mais tarde no seu juzo, relativamente ao fim principal. No conheo investigaes mais importantes para estabelecer os fundamentos da faculdade que designamos por entendimento e, ao mesmo tempo, para a determinao das regras e limites do seu uso, do que aquelas que apresentei no segundo captulo da Analtica transcendental, intitulado Deduo dos conceitos puros do entendimento; tambm foram as que me custaram mais esforo, mas espero que no tenha sido o trabalho perdido. Esse estudo, elaborado com alguma profundidade, consta de duas partes. Uma reporta-se aos objetos do entendimento puro e deve expor e tornar compreensvel o valor objetivo desses conceitos a priori e, por isso mesmo, entra essencialmente no meu desgnio. A outra diz respeito ao entendimento puro, em si mesmo, do ponto de vista da sua possibilidade e das faculdades cognitivas em que assenta: I estuda-o, portanto, no aspecto subjetivo. Esta discusso, embora de grande importncia para o meu fim principal, no lhe pertence essencialmente, pois a questo fundamental reside sempre em saber o que podem e at onde podem o entendimento e a razo conhecer, independentemente da experincia e no como possvel a prpria faculdade de pensar. Uma vez que esta ltima questo , de certa maneira, a investigao da causa de um efeito dado e, nessa medida, tambm algo semelhante a uma hiptese (embora de fato no seja assim, como noutra ocasio mostrarei) parece ser este o caso de me permitir formular opinies e deixar ao leitor igualmente a liberdade de emitir outras diferentes. Por isso devo pedir ao leitor para se lembrar de que, se a minha deduo subjetiva no lhe tiver criado a inteira convico que espero, a deduo objetiva, que a que aqui me importa principalmente, conserva toda a sua fora, bastando, de resto, para isso, o que dito de pginas 92 a pginas 93 . Finalmente, no que respeita clareza, o leitor tem o direito de exigir, em primeiro lugar, a clareza discursiva (lgica) por ________________ Paginao de A. Kant refere-se Passagem deduo transcendentaldas categorias.</p> <p>conceitos; seguidamente, tambm a clareza I intuitiva (esttica) por A XVIII intuies, isto , por exemplos e outros esclarecimentos em concreto. Cuidei suficientemente da primeira, pois dizia respeito essncia do meu projeto, mas foi tambm a causa acidental que me impediu de me ocupar suficientemente da outra exigncia, que justa, embora o no seja de uma maneira to estrita como a primeira. No decurso do meu trabalho encontrei-me quase sempre indeciso sobre o modo como a este respeito devia proceder. Os exemplos e as explicaes pareciam-me sempre necessrios e no primeiro esboo apresentaram-se, de fato, nos lugares adequados. Contudo, bem depressa vi a grandeza da minha tarefa e a multido de objetos de que tinha de me ocupar e, dando conta de que, expostos de uma forma seca e puramente escolstica, esses objetos dariam extenso suficiente minha obra, no me pareceu conveniente torn-la ainda maior com exemplos e explicaes, apenas necessrios de um ponto de vista popular; tanto mais que esta obra no podia acomodar-se ao grande pblico e aqueles que so cultores da cincia no necessitam tanto que se lhes facilite a leitura, coisa sempre agradvel, mas que, neste caso, poderia desviar-nos um pouco do nosso fim em vista. Diz com verdade o Padre Tarrasson que, se avaliarmos I o tamanho de um livro, no A XIX pelo nmero de pginas, mas pelo tempo necessrio a compreendlo, poder-se- afirmar de muitos livros, que seriam muito mais pequenos se no fossem to pequenos. Mas se, por outro lado, for proposto como objetivo a inteligncia de um vasto conjunto de conhecimentos especulativos, embora ligados a um princpio nico, poder-se-ia dizer, com igual razo, que muitos livros teriam sido muito mais claros se no quisessem ser to claros. De fato, os expedientes para ajudar a ser claro so teis nos pormenores, embora muitas vezes distraiam de ver o conjunto, impedindo o leitor de alcanar, com suficiente rapidez, uma viso desse conjunto; com o seu brilhante colorido encobrem, por assim dizer, e tornam invisvel a articulao ou a estrutura do sistema, que o mais importante para se poder julgar da sua unidade e do seu valor. Parece-me que pode ser para o leitor coisa de no pequeno atrativo juntar o seu esforo ao do autor, se tiver a</p> <p>A XX</p> <p>inteno de realizar inteiramente e de maneira duradoura uma obra grande e importante, de acordo com o plano que lhe proposto. I Ora a metafsica, segundo os conceitos que dela apresentaremos aqui, a nica de todas as cincias que pode aspirar a uma realizao semelhante e isto em pouco tempo e com pouco trabalho, desde que se congreguem os esforos, de tal modo que nada mais reste posteridade que dispor tudo de uma maneira didtica, de acordo com seus propsitos, sem por isso poder aumentar o contedo no que quer que seja. Na verdade, a metafsica outra c...</p>