Jürgen Habermas: religião, DiversiDaDe Cultural e ?· Habermas enfrenta, a ... Habermas, The theory…

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  • NOVOSESTUDOS84JULHO2009 199

    Ainda que os fenmenos religiosos contemporneos estejam em processo de profunda mutao, seu estudo tem permane-cido confinado s fronteiras disciplinares tradicionais, sobretudo da sociologia e da antropologia, que por terem herdado esse tema como um objeto clssico de sua prpria construo se deparam com dificul-dades para renovar seus instrumentos de anlise e o modo de colocar os problemas nesse campo. Neste trabalho, trata-se de enfrentar o desafio de expandir essas fronteiras a fim de renovar nosso modo de pensar a religio, acionando dispositivos conceituais distintos, oriun-dos de programas de trabalho que no tm esse campo como um dos principais focos de sua problemtica1.

    Em trabalhos anteriores, procuramos demonstrar como o para-digma weberiano da secularizao acabou por engendrar um obst-culo epistmico compreenso dos processos que apontavam para a presena e a visibilidade dos fenmenos religiosos na esfera pblica2.

    Resumo

    Este trabalho pretende recuperar o modo particular como

    Jrgen Habermas enfrenta, a partir dos conceitos de publicidade, legitimidade e agir comunicativo, alguns desafios que,

    em nosso entender, interessam particularmente o pensamento antropolgico contemporneo: o problema da traduo

    cultural ou da irredutibilidade das diferenas e o problema do lugar da religio no espao pblico.

    PaLaVraS-cHaVE:Religio; modernidade; espao pblico; traduo

    cultural.

    AbstRAct

    The aim of this essay is to take a reflexive view of the parti-

    cular way Jrgen Habermas faces some theorethical challenges that, from my point of view, are particulary interes-

    ting to anthropological contemporary thought: the cultural translation problem and the presence of religion on the

    public space.

    KEywOrDS: Religion; modernity; public space; cultural translation.

    Jrgen Habermas: religio, DiversiDaDe Cultural e PubliCiDaDe*

    [*] AgradeoagenerosaleiturademeuscolegaseamigosMarcosNobreeAdrinLavalle,cujassugestescon-triburamparatrazermaiorclarezaaoargumento.

    [1] OdesafiofoipropostoporFla-vioPierucciporocasiodoEncontrodaAnpocsde2008.

    [2] Montero,Paula.MaxWebereosdilemasdasecularizao:olugardareligionomundocontempor-neo.Novos Estudos do Cebrap, n65,mar.2003,pp.34-44;Idem,Religio,pluralismoeesferapblicanoBrasil.Novos Estudos do Cebrap,n74,mar.2006,pp.47-66.

    Paula Montero

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  • 200 JrgENHabErmaS:rELigiO,DiVErSiDaDEcULTUraLEPUbLiciDaDE Paula Montero

    [3] NolivroCurso livre de teoria cr-tica,organizadoporMarcosNobre,ele sugerequeascontribuiesdateoriacrticapermitemcompreenderfenmenosespecficosemumapers-pectivamaisampladoqueadosespe-cialistas.Emboranosepossaabrirmodoconhecimentoespecializadopreciso,segundoele,aprofundarcadavezmaisodilogoentreasdis-ciplinasparaproporumdiagnsticoacuradoeplausveldenossotempo.Emboranomesitueaquinocampodosestudosdateoriacrtica,tomocomoinspiraoasugestodoautordeenfrentarodesafiodeencontrarnovasrelaesprodutivasentreasdisciplinas (So Paulo: Papirus,2008,pp.19-20).

    [4] A generalizao a partir daprticaetnogrficaumproblemaclssico. George Marcus observaqueaetnografia,comoinstrumentodedescrio,nuncatrabalhouade-quadamentecomproblemasconcei-tuaisdeordemmaisgeral.Omundodoseventosmaisamplosaparecesempre,segundoele,comoexternosaospequenosmundosenosoin-tegradosanlise(Marcus,George.Problemasdelaantropologiacon-temporneaemelmundomoderno.In:Retricas de la antropologia.Madri:Jucri,1991,p.165.

    [5] Lavalle,AdrinGurza.JrgenHabermaseavirtualizaodapublici-dade.Margem,n16,2002,pp.65-89.

    [6] Nobre,MarcoseTerra,Ricardo.Direito e democracia: um guia de leitu-ra de Habermas.SoPaulo:Malhei-ros,2008.

    Sugerimos, ento, que autores como Jrgen Habermas nos permi-tiriam pensar o problema sem a necessidade de supor que a emer-gncia da esfera pblica fosse o resultado do refluxo dos fenmenos religiosos para o mundo privado e sem que a permanncia e mesmo a expanso de atores e discursos religiosos nessa esfera fossem re-presentadas, particularmente em sociedades como as nossas, como um obstculo consolidao dos processos democrticos. Trata-se agora de fundamentar conceitualmente o que fora ento apresenta-do apenas como insight e, sobretudo, elaborar as conseqncias des-sa abordagem para o fazer antropolgico nesse campo. Alm disso, na leitura de Habermas que proponho neste ensaio, evidentemente um recorte parcial e interessado, entendo que seu modelo de teoria crtica dialoga com vrios problemas com os quais as cincias huma-nas vm se debatendo no momento atual, em particular o dilema que ope, de um lado, a exigncia de reconhecimento das particularida-des culturais e, de outro, o problema da traduo das diversidades na construo de consensos mais universais3. Penso que ao refratar o campo dos estudos religiosos com o prisma dessa interlocuo a abordagem antropolgica ganha flego para produzir um diagns-tico mais abrangente do presente, projeto abandonado pela antro-pologia ps-moderna atual que, na sua crtica aos clssicos, acabou por renunciar a possibilidade de qualquer teoria social4.

    A obra de J. Habermas , como sabemos, vastssima e muda ao lon-go do tempo de registro terico. No contexto de sua obra de 1962, o conceito de publicidade dizia respeito reconstruo analtica do pro-cesso histrico de gestao do social por meio da emergncia de ins-tituies de publicidade burguesas.Segundo Lavalle5, na medida em que o autor se afasta de suas consideraes genticas sobre a emergn-cia do social o conceito de publicidade foi depurado de suas particula-ridades burguesas e passou a designar um princpio abstrato de inter-mediao entre o Estado e a sociedade. Nessa redefinio, o suposto de um suporte institucional emprico da publicidade abandonado em prol da idia da articulao intangvel de fluxos comunicativos, fundamento necessrio aos processos de legitimao poltica que se materializa onde a opinio pblica ganha publicidade. Em seu traba-lho Teoria da ao comunicativa, de 1981, a estrutura social da esfera pblica passa a ser descrita por Habermas em dois planos o sist-mico e o mundo da vida que se acompanham de uma diferenciao de racionalidade social das aes: aes instrumentais, voltadas para a reproduo do sistema (mercado, poder poltico institucionalizado, Estado ou poder administrativo) e aes comunicativas voltadas para o entendimento (redes perifricas da esfera pblica)6.

    Nossa inteno neste artigo recuperar o modo particular como Habermas enfrenta, a partir dos conceitos de publicidade, legitimi-

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    [7] EmsuaobraDireito e democracia: facticidade e validade,Habermasdefi-neomundodavidacomoumsistemadeaesedesaberesespecializadosvinculadosescola,religioefam-lia,quetemporfunoareproduodomundodavidaeavalidaodossaberescomunicados(RiodeJaneiro:TempoBrasileiro,2003,vol.2,p.92).

    [8] Lavalle,op.cit.,p.79.

    [9] QuandoaEsferaPblicasege-neraliza,isto,sedesligadosespaosfsicos das interaes simples, asestruturascomunicacionaiscompri-mem-se,segundoHabermas(op.cit.,p.94),emcontedosetomadasdeposiodesacopladasdoscontextosdensosdessasinteraes.

    [10]EstamosusandooconceitoemseusentidomaisabrangentetalcomofoipropostoporautorescomoS.Be-nhabib (Models of public space:HannahArendt,theliberaltraditionandJrgenHabermas.In:Calhoun,Craig(org.).Habermas and the public sphere.4ed.Cambridge,Massachu-setsInstituteofTechnology,1996).Aocriticaranoohabermasianadeesferapblicaburguesacunhadanotrabalhohistricode1962,aau-torapropequeovolumedaesferapblicasejapreenchidoporumlequediversificadodeprocessoscomunica-tivosqueseelaboramemdiferentesmicrocampos.NaleituradeSrgioCosta(As cores de Erclia: esfera p-blica, democracia e configuraes ps-nacionais.BeloHorizonte,EditoradaUFMG,2002,p.24),Habermasrevseusargumentossobreodecl-nioda esfera pblica burguesanareediode1990deseulivroA mu-dana estrutural da esfera pblica(RiodeJaneiro:TempoBrasileiro,2003).Nessetrabalho,Habermasreafirmaaimportnciadaesferapblicacomorbitadaconstituiodaopinioedavontadecoletiva.

    [11] Habermas,The theory of commu-nicative action. Boston:BeaconPress,1984[1981].

    dade e agir comunicativo, alguns desafios que, em nosso entender, interessam particularmente o pensamento antropolgico contem-porneo: o problema da traduo cultural ou da irredutibilidade das diferenas e o problema do lugar da religio no espao pblico. Para tratar essas questes, vamos privilegiar a dimenso do mundo da vida7, esfera das interaes na qual as aes comunicativas se voltam para a apropriao do existente e para a produo de sentidos que es-capam ao controle administrativo8. Neste nvel no cabe, talvez, o uso da noo de Esfera Pblica tal como foi elaborada por Habermas em sua obra de 1962 que, ento, supunha o suporte de uma instituciona-lidade propriamente poltica e procedimentos de argumentao9. Ain-da assim, pretendemos recuperar a noo de publicidade elaborada nesta primeira fase de sua obra, no tanto para reaver sua dimenso histrica, mas para enfatizar a permanncia, em sociedades como as nossas, de espaos de interao dialgicas atrelados a bases institucio-nais mais ou menos perifricas e relativamente autnomas em face do Estado e das instituies poltico-administrativas que, ao dar suporte aos discursos religiosos, modulam o mundo da vida e contribuem para moldar a opinio pblica10.

    A tRAduo cultuRAl dA difeRenA como pRoblemA AntRopolgico

    Em seu trabalho de 1981, The theory of communicative action11, Ha-bermas dedicou um longo captulo definio das caractersticas do pensamento mtico para demonstrar por que, em suas atitudes bsicas em relao ao mundo, esse tipo de conhecimento no permite aes racionalmente orientadas, isto , aes auto-reflexivas voltadas para a discusso das regras da prpria comunicao. Apoiando-se em au-tores clssicos da antropologia, tais como Lvy-Bruhl, E. Pritchard, Lvi-Strauss e M. G

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