José Joaquim Cesário Verde - O livro de cesário verde

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<ul><li> 1. Poesias Completas, de Cesrio Verde Fonte: VERDE, Cesrio. Poesias Completas de Cesrio Verde. Rio de Janeiro : Ediouro, 1987. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de So Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Emerson Kamiya So Paulo/SP Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acima sejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para ou POESIAS COMPLETAS Cesrio Verde DESLUMBRAMENTOS Milady, perigoso contempl-la, Quando passa aromtica e normal, Com seu tipo to nobre e to de sala, Com seus gestos de neve e de metal. Sem que isso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solenidade, Ir impondo toilettes complicadas!... Em si tudo me atrai como um tesouro: O seu ar pensativo e senhoril, A sua voz que tem um timbre de ouro E o seu nevado e lcido perfil! Ah! Como me estonteia e me fascina... E , na graa distinta do seu porte, Como a Moda suprflua e feminina, E to alta e serena como a Morte!... Eu ontem encontrei-a, quando vinha, Britnica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha, E com firmeza e msica no andar! O seu olhar possui, num jogo ardente, Um arcanjo e um demnio a ilumin-lo; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o plo dum regalo! Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mos, O modo diplomtico e orgulhoso Que Ana de ustria mostrava aos cortesos. </li> <li> 2. E enfim prossiga altiva como a Fama, Sem sorrisos, dramtica, cortante; Que eu procuro fundir na minha chama Seu ermo corao, como um brilhante. Mas cuidado, milady, no se afoite, Que ho de acabar os brbaros reais; E os povos humilhados, pela noite, Para a vingana aguam os punhais. E um dia, flor do Luxo, nas estradas, Sob o cetim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, alucinadas, E arrastando farrapos as rainhas! SETENTRIONAL Talvez j te no lembres, triste Helena, Dos passeios que dvamos sozinhos, tardinha, naquela terra amena, No tempo da colheita dos bons vinhos. Talvez j te no lembres, pesarosa, Da casinha caiada em que moramos, Nem do adro da ermida silenciosa, Onde ns tantas vezes conversamos. Talvez j te esquecesses, bonina, Que viveste no campo s comigo, Que te osculei a boca purpurina, E que fui o teu sol e o teu abrigo. Que fugiste comigo da Babel, Mulher como no h nem na Circssia, Que bebemos, ns dois, do mesmo fel, E regamos com prantos uma accia. Talvez j te no lembres com desgosto Daquelas brancas noites de mistrio, Em que a Lua sorria no teu rosto E nas lajes campais do cemitrio. Talvez j se apagassem as miragens Do tempo em que eu vivia nos teus seios, Quando as aves cantando entre as ramagens O teu nome diziam nos gorjeios. Quando, brisa outonia, como um manto, Os teus cabelos de mbar, desmanchados, Se prendiam nas folhas dum acanto, Ou nos bicos agrestes dos silvados. Eu ia desprend-los, como um pajem Que a cauda solevasse aos teus vestidos, E ouvia murmurar doce aragem Uns delrios de amor, entristecidos. Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, Pousarem borboletas doidejantes Nas tuas formosssimas madeixas, Daquela cor das messes lourejantes. </li> <li> 3. E no pomar, ns dois, ombro com ombro, Caminhvamos ss e de mos dadas, Beijando os nossos rostos sem assombro, E colorindo as faces desbotadas. Quando Helena, bebamos, curvados, As guas nos ribeiros remansosos, E, nas sombras, olhando os cus amados Contvamos os astros luminosos. Quando, uma noite, em xtases camos Ao sentir o chorar dalgumas fontes, E os cnticos das rs que sobre os limos Quebravam a solido dos altos montes. E assentados nos rudes escabelos, Sob os arcos de murta e sobre as relvas, Longamente sonhamos sonhos belos, Sentindo a fresquido das verdes selvas. Quando ao nascer da aurora, unidos ambos Num amor grande como um mar sem praias Ouvamos os meigos ditirambos Que os rouxinis teciam nas olaias. E, afastados da aldeia e dos casais, Eu contigo, abraado como as heras, Escondidos nas ondas dos trigais. Devolvia-te os beijos que me deras. Quando, se havia lama no caminho, Eu te levava ao colo sobre a greda, E o teu corpo nevado como arminho Pesava menos que um papel de seda. Talvez j te esquecesses dos poemetos, Revoltos como os bailes do Cassino, E daqueles byrnicos sonetos Que eu gravei no teu peito alabastrino. De tudo certamente te esqueceste, Porque tudo no mundo morre e muda, E agora s triste e s como um cipreste, E como a campa jazes fria e muda. Esqueceste-te, sim, meu sonho querido, Que o nosso belo e lcido passado Foi um nico abrao comprimido, Foi um beijo, por meses, prolongado. E foste sepultar-te, serafim, No claustro das Fiis emparedadas, Escondeste o teu rosto de marfim No vu negro das freiras resignadas. E eu passo to calado como a Morte Nesta velha cidade to sombria, Chorando aflitamente a minha sorte E prelibando o clix da agonia, E, tristssima Helena, com verdade, Se pudera na terra achar suplcios, </li> <li> 4. Eu tambm me faria gordo frade E cobriria a carne de cilcios. NOITES GLIDAS MERINA Rosto comprido, airosa, angelical, macia, Por vezes, a alem que eu sigo e que me agrada, Mais alva que o luar de inverno que me esfria, Nas ruas a que o gs d noites de balada; Sob os abafos bons que o Norte escolheria, Com seu passinho curto e em suas ls forrada, Recorda-me a elegncia, a graa, a galhardia De uma ovelhinha branca, ingnua e delicada. SARDENTA Tu, nesse corpo completo, lctea virgem dourada, Tens o linftico aspecto Duma camlia melada. MERIDIONAL CABELOS vagas de cabelo esparsas longamente, Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, E tendes o cristal dum lago refulgente E a rude escurido dum largo e negro mar; Cabelos torrenciais daquela que me enleva, Deixai-me mergulhar as mos e os braos nus No bratro febril da vossa grande treva, Que tem cintilaes e meigos cus de luz. Deixai-me navegar, morosamente, a remos, Quando ele estiver brando e livre de tufes, E, ao plcido luar, vagas, marulhemos E enchamos de harmonia as amplas solides. Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos Ocultos nesse abismo ebnico e to bom Como um licor renano a fermentar nos copos, Abismo que se espraia em rendas de Alenon! E, mgica mulher, minha Inigualvel, Que tens o imenso bem de ter cabelos tais, E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbvel, Entre o rumor banal dos hinos triunfais; Consente que eu aspire esse perfume raro, Que exalas da cabea erguida com fulgor, Perfume que estonteia um milionrio avaro E faz morrer de febre um louco sonhador. Eu sei que tu possuis balsmicos desejos, E vais na direo constante do querer, Mas ouo, ao ver-te andar, meldicos harpejos, Que fazem mansamente amar e elanguescer. </li> <li> 5. E a tua cabeleira, errante pelas costas, Suponho que te serve, em noites de vero, De flcido espaldar aonde te recostas Se sentes o abandono e a morna prostrao. E ela h-de, ela h-de, um dia, em turbilhes insanos Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor Que antigamente deu, nos circos dos Romanos, Um leo para ungir o corpo ao gladiador. ............................................................................... ............................................................................... mantos de veludo esplndido e sombrio, Na vossa vastido posso talvez morrer! Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio E quero asfixiar-me em ondas de prazer. RESPONSO I Num castelo deserto e solitrio, Toda de preto, s horas silenciosas, Envolve-se nas pregas dum sudrio E chora como as grandes criminosas. Pudesse eu ser o leno de Bruxelas Em que ela esconde as lgrimas singelas. II loura como as doces escocesas, Duma beleza ideal, quase indecisa; Circunda-se de luto e de tristezas E excede a melanclica Artemisa. Fosse eu os seus vestidos afogados E havia de escutar-lhe os seu pecados. III Alta noite, os planetas argentados Deslizam um olhar macio e vago Nos seus olhos de pranto marejados E nas guas mansssimas do lago. Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna, E faria que a noite fosse eterna. IV E os abutres e os corvos fazem giros De roda das ameias e dos pegos, E nas salas ressoam uns suspiros Dolentes como as splicas dos cegos. Fosse eu aquelas aves de pilhagem E cercara-lhe a fronte, em homenagem. V </li> <li> 6. E ela vaga nas praias rumorosas, Triste como as rainhas destronadas, A contemplar as gndolas airosas, Que passam, a giorno iluminadas. Pudesse eu ser o rude gondoleiro E ali que fizera o meu cruzeiro. VI De dia, entre os veludos e entre as sedas, Murmurando palavras aflitivas, Vagueia nas umbrosas alamedas E acarinha, de leve, as sensitivas. Fosse eu aquelas rvores frondosas, E prendera-lhe as roupas vaporosas. VII Ou domina, a rezar, no pavimento Da capela onde outrora se ouviu missa, A msica dulcssima do vento E o sussurro do mar, que se espreguia. Pudesse eu ser o mar e os meus desejos Eram ir borrifar-lhe os ps, com beijos. VIII E s horas do crepsculo saudosas, Nos parques com tapetes cultivados, Quando ela passa curvam-se amorosas As esttuas dos seus antepassados. Fosse eu tambm granito e a minha vida Era v-la a chorar arrependida. IX No palcio isolado como um monge, Erram as velhas almas dos precitos, E nas noites de inverno ouvem-se ao longe Os lamentos dos nufragos aflitos. Pudesse eu ter tambm uma procela E as lentas agonias ao p dela! X E s lajes, no silncio dos mosteiros, Ela conta o seu drama negregado, E o vasto carmesim dos reposteiros Ondula como um mar ensangentado. Fossem aquelas mil tapearias Nossas mortalhas quentes e sombrias. XI E assim passa, chorando, as noites belas, </li> <li> 7. Sonhando uns tristes sonhos doloridos, E a refletir nas gticas janelas As estrelas dos cus desconhecidos. Pudesse eu ir sonhar tambm contigo E ter as mesmas pedras no jazigo! ............................................................................... XII Mergulha-se em angstias lacrimosas Nos ermos dum castelo abandonado, E as prximas florestas tenebrosas Repercutem um choro amargurado. Unssemos, ns dois, as nossas covas, doce castel das minhas trovas! NOITE FECHADA Lembras-te tu do sbado passado, Do passeio que demos, devagar, Entre um saudoso gs amarelado E as carcias leitosas do luar? Bem me lembro das altas ruazinhas, Que ambos ns percorremos de mos dadas: s janelas palravam as vizinhas; Tinham lvidas luzes as fachadas. No me esqueo das cousas que disseste, Ante um pesado tempo com recortes; E os cemitrios ricos, e o cipreste Que vive de gorduras e de mortes! Ns saramos prximo ao sol-posto, Mas seguamos cheios de demoras; No me esqueceu ainda o meu desgosto Nem o sino rachado que deu horas. Tenho ainda gravado no sentido, Porque tu caminhavas com prazer, Cara rapada, gordo e presumido, O padre que parou para te ver. Como uma mitra a cpula da igreja Cobria parte do ventoso largo; E essa boca viosa de cereja Torcia risos com sabor amargo. A Lua dava trmulas brancuras, Eu ia cada vez mais magoado; Vi um jardim com rvores escuras, Como uma jaula todo gradeado! E para te seguir entrei contigo Num ptio velho que era dum canteiro, E onde, talvez, se faa inda o jazigo Em que eu irei apodrecer primeiro! Eu sinto ainda a flor da tua pele, Tua luva, teu vu, o que tu s! </li> <li> 8. No sei que tentao que te impele Os pequeninos e cansados ps. Sei que em tudo atentavas, tudo vias! Eu por mim tinha pena dos maranos, Como ratos, nas gordas mercearias, Encafurnados por imensos anos! Tu sorrias de tudo: os carvoeiros, Que aparecem ao fundo dumas minas, E crua luz os plidos barbeiros Com leos e maneiras femininas! Fins de semana! Que misria em bando! O povo folga, estpido e grisalho! E os artistas de ofcio iam passando, Com as frias, ralados do trabalho. O quadro interior, dum que candeia, Ensina a filha a ler, meteu-me d! Gosto mais do plebeu que cambaleia, Do bbado feliz que fala s! De sbito, na volta de uma esquina, Sob um bico de gs que abria em leque, Vimos um militar, de barretina E gales marciais de pechisbeque, E enquanto ela falava ao seu namoro, Que morava num prdio de azulejo, Nos nossos lbios retiniu sonoro Um vigoroso e formidvel beijo! E assim ao meu capricho abandonada, Erramos por travessas, por vielas, E passamos por p duma tapada E um palcio real com sentinelas. E eu que busco a moderna e fina arte, Sobre a umbrosa calada sepulcral, Tive a rude inteno de violentar-te Imbecilmente, como um animal! Mas ao rumor dos ramos e da aragem, Como longnquos bosques muito ermos, Tu querias no meio da folhagem Um ninho enorme para ns vivermos. E, ao passo que eu te ouvia abstratamente, grande pomba tpida que arrulha, Vinham batendo o macadame fremente, As patadas sonoras da patrulha, E atravs a imortal cidadezinha, Ns fomos ter s portas, s barreiras, Em que uma negra multido se apinha De teceles, de fumos, de caldeiras. Mas a noite dormente e esbranquiada Era uma esteira lcida de amor; jovial senhora perfumada, terrvel criana! Que esplendor! </li> <li> 9. E ali comearia o meu desterro!... Lodoso o rio, e glacial, corria; Sentamo-nos, os dois, num novo aterro Na muralha dos cais de cantaria. Nunca mais amarei, j que no amas, E preciso, decerto, que me deixes! Toda a mar luzia como escamas, Como alguidar de prateados peixes. E como necessrio que eu me afoite A perder-me de ti por quem existo, Eu fui passar ao campo aquela noite E andei lguas a p, pensando nisto. E tu que no sers somente minha, s carcias leitosas do luar, Recolheste-te, plida e sozinha, gaiola do teu terceiro andar! MANHS BRUMOSAS Aquela, cujo amor me causa alguma pena, Pe o chapu ao lado, abre o cabelo banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manh, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, buclica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda. Que lnguas...</li></ul>