jose - carlos drummond de andrade

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando pordinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel."

  • ESTA EDIO DE JOS, A PRIMEIRA EM QUE O CONJUNTODE POEMAS APARECIDO EM 1942 PUBLICADO NUMVOLUME ISOLADO E NO ACOMPANHANDO OUTROSTTULOS DA OBRA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE ,FOI PRODUZIDA ESPECIALMENTE PARA CELEBRARA ESCOLHA DO POETA MINEIRO COMO O AUTORHOMENAGEADO DA 10A EDIO DA FESTA LITERRIAINTERNACIONAL DE PARATY (FLIP).

  • sumrio A BRUXAO BOIPALAVRAS NO MAREDIFCIO ESPLENDORO LUTADORTRISTEZA NO CURUA DO OLHAROS ROSTOS IMVEISJOSNOTURNO OPRIMIDOA MO SUJAVIAGEM NA FAMLIA posfcioJOS E ALGUMAS DE SUAS HISTRIASjlio castaon guimares Cronologia

  • a bruxa A EMIL FARHAT Nesta cidade do Rio,de dois milhes de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na Amrica. Estarei mesmo sozinho?Ainda h pouco um rudoanunciou vida a meu lado.Certo no vida humana,mas vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhes de habitantes!E nem precisava tanto...Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de Horciomas secretamente influemna vida, no amor, na carne.Estou s, no tenho amigo,e a essa hora tardiacomo procurar amigo? E nem precisava tanto.Precisava de mulherque entrasse neste minuto,recebesse este carinho,salvasse do aniquilamentoum minuto e um carinho loucosque tenho para oferecer. Em dois milhes de habitantes,quantas mulheres provveisinterrogam-se no espelhomedindo o tempo perdidoat que venha a manhtrazer leite, jornal e calma.

  • Porm a essa hora vaziacomo descobrir mulher? Esta cidade do Rio!Tenho tanta palavra meiga,conheo vozes de bichos,sei os beijos mais violentos,viajei, briguei, aprendi.Estou cercado de olhos,de mos, afetos, procuras.Mas se tento comunicar-me,o que h apenas a noitee uma espantosa solido. Companheiros, escutai-me!Essa presena agitadaquerendo romper a noiteno simplesmente a bruxa. antes a confidnciaexalando-se de um homem.

  • o boi solido do boi no campo, solido do homem na rua!Entre carros, trens, telefones,entre gritos, o ermo profundo. solido do boi no campo, milhes sofrendo sem praga!Se h noite ou sol, indiferente,a escurido rompe com o dia. solido do boi no campo,homens torcendo-se calados!A cidade inexplicvele as casas no tm sentido algum. solido do boi no campo!O navio-fantasma passaem silncio na rua cheia.Se uma tempestade de amor casse!As mos unidas, a vida salva...Mas o tempo firme. O boi s.No campo imenso a torre de petrleo.

  • palavras no mar Escrita nas ondasa palavra Encantobalana os nafragos,embala os suicidas.L dentro, os naviosso algas e pedrasem total olvido.H tambm tesourosque se derramarame cartas de amorcirculando friaspor entre medusas.Verdes solides,merencrios prantos,queixumes de outrora,tudo passa rpidoe os peixes devorame a memria apagae somente um palorde lua embruxadafica pervagandono mar condenado.O ltimo hipocampodeixa-se prendernum receptculode coral e lgrimas do Oceano Atlnticoou de tua boca,triste por acaso,por demais amarga. A palavra Encantorecolhe-se ao livro,entre mil palavrasinertes espera.

  • edifcio esplendor i Na areia da praiaOscar risca o projeto.Salta o edifcioda areia da praia. No cimento, nem traoda pena dos homens.As famlias se fechamem clulas estanques. O elevador sem ternuraexpele, absorvenum ranger montonosubstncia humana. Entretanto h muitose acabaram os homens.Ficaram apenastristes moradores. ii A vida secreta da chave.Os corpos se unem ebruscamente se separam. O copo de usque e o bluedestilam pios de emergncia.H um retrato na parede,um espinho no corao,uma fruta sobre o pianoe um vento martimo com cheiro de peixe, tristeza, [viagens... Era bom amar, desamar,morder, uivar, desesperar,era bom mentir e sofrer.

  • Que importa a chuva no mar?a chuva no mundo? o fogo?Os ps andando, que importa?Os mveis riam, vinha a noite,o mundo murchava e brotavaa cada espiral de abrao. E vinha mesmo, sub-reptcio,em momentos de carne lassa,certo remorso de Gois.Gois, a extinta pureza... O retrato cofiava o bigode. iii Oh que saudades no tenhode minha casa paterna.Era lenta, calma, branca,tinha vastos corredorese nas suas trinta portastrinta crioulas sorrindo,talvez nuas, no me lembro. E tinha tambm fantasmas,mortos sem extrema-uno,anjos da guarda, bodoquese grandes tachos de docee grandes cismas de amor,como depois descobrimos. Chora, retrato, chora.Vai crescer a tua barbaneste medonho edifciode onde surge tua infnciacomo um copo de veneno. iv As complicadas instalaes do gs,teis para suicdio,o terrao onde camisas tremem,

  • tambm convite morte,o pavor do caixoem p no elevador,o estupendo banheirode mil cores rabes,onde o corpo esmorecena lascvia frouxada dissoluo prvia.Ah, o corpo, meu corpo,que ser do corpo?Meu nico corpo,aquele que eu fizde leite, de ar,de gua, de carne,que eu vesti de negro,de branco, de bege,cobri com chapu,calcei com borracha,cerquei de defesas,embalei, tratei?Meu coitado corpoto desamparadoentre nuvens, ventos,neste areo living! v Os tapetes envelheciampisados por outros ps. Do cassino subiam msicase at o rumor de fichas. Nas cortinas, de madrugada,a brisa pousava. Doce. A vida jogada foravoltava pelas janelas. Meu pai, meu av, Alberto...Todos os mortos presentes.

  • J no acendem a luzcom suas mos entrevadas. Fumar ou beber: proibido.Os mortos olham e calam-se. O retrato descoloria-se,era superfcie neutra. As dvidas amontoavam-se.A chuva caiu vinte anos. Surgiram costumes loucose mesmo outros sentimentos. Que sculo, meu Deus! diziam os ratos.E comeavam a roer o edifcio.

  • o lutador Lutar com palavras a luta mais v.Entanto lutamosmal rompe a manh.So muitas, eu pouco.Algumas, to fortescomo um javali.No me julgo louco.Se o fosse, teriapoder de encant-las.Mas lcido e frioapareo e tentoapanhar algumaspara meu sustentonum dia de vida.Deixam-se enlaar,tontas carciae sbito fogeme no h ameaae nem h sevciaque as traga de novoao centro da praa.Insisto, solerte.Busco persuadi-las.Ser-lhes-ei escravode rara humildade.Guardarei sigilode nosso comrcio.Na voz, nenhum travode zanga ou desgosto.Sem me ouvir deslizam,perpassam levssimase viram-me o rosto.Lutar com palavrasparece sem fruto.No tm carne e sangue...Entretanto, luto.

  • Palavra, palavra(digo exasperado),se me desafias,aceito o combate.Quisera possuir-teneste descampado,sem roteiro de unhaou marca de dentenessa pele clara.Preferes o amorde uma posse impurae que venha o gozoda maior tortura. Luto corpo a corpo,luto todo o tempo,sem maior proveitoque o da caa ao vento.No encontro vestes,no seguro formas, fluido inimigoque me dobra os msculose ri-se das normasda boa peleja. Iludo-me s vezes,pressinto que a entregase consumar.J vejo palavrasem coro submisso,esta me ofertandoseu velho calor,outra sua glriafeita de mistrio,outra seu desdm,outra seu cime,e um sapiente amorme ensina a fruirde cada palavraa essncia captada,o sutil queixume.Mas ai! o instante

  • de entreabrir os olhos: entre beijo e boca,tudo se evapora. O ciclo do diaora se concluie o intil duelojamais se resolve.O teu rosto belo, palavra, esplendena curva da noiteque toda me envolve.Tamanha paixoe nenhum peclio.Cerradas as portas,a luta prosseguenas ruas do sono.

  • tristeza no cu No cu tambm h uma hora melanclica.Hora difcil, em que a dvida penetra as almas.Por que fiz o mundo? Deus se perguntae se responde: No sei. Os anjos olham-no com reprovao,e plumas caem. Todas as hipteses: a graa, a eternidade, o amorcaem, so plumas. Outra pluma, o cu se desfaz.To manso, nenhum fragor denunciao momento entre tudo e nada,ou seja, a tristeza de Deus.

  • rua do olhar Entre tantas ruasque passam no mundo,a Rua do Olhar,em Paris, me toca. Imagino um olhocalmo, solitrio,a fitar os homensque voltam cansados. Olhar de perdopara os desvarios,de lento conselhoe cumplicidade. Rua do Olhar:as casas no contam,nem contam as pedras,caladas no cho. S conta esse olhotriste, na tarde,percorrendo o corpo,devassando a roupa... A luz que se acendeno te ilumina.O brilho sem brilho,a vaga pestana desse olho imveloscilam nas coisas(so apenas coisasmas tambm respiram). Pela noite abaixouma vida surdaembebe o silncio,

  • como frio no ar. Sinto que o dramaj no interessa.Quem ama, quem luta,quem bebe veneno? Quem chora no escuro,quem que se diverteou apenas fumaou apenas corre? Uma rua um olhoaberto em Parisolha sobre o mar.Na praia estou eu. Vem, farol tmido,dizer-nos que o mundode fato restrito,cabe num olhar. Olhar de uma ruaa quem quer que passe.Compreenso, amorperdidos na bruma. Que funda esperanaperfura o desgosto,abre um longo tnele sorri na boca! E sorri nas mos,no queixo, na rosa,no menor dos bensde ti, meu irmo!

  • os rostos imveis A OTTO MARIA CARPEAUX Pai morto, namorada morta.Tia morta, irmo nascido morto.Primos mortos, amigo morto.Av morto, me morta(mos brancas, retrato sempre inclinado na parede, [gro de poeira nos olhos).Conhecidos mortos, professora morta. Ini