jornalismo de viagens: análise das principais revistas brasileiras

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Jornalismo de Viagens: análise das principais revistas brasileiras. (Periodismo de viajes; análisis de las principales revistas brasileras) Karine Wenzel Valquíria Michela John Aportado por Agustina Pittaluga

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    Jornalismo de Viagens: anlise das principais revistasbrasileiras

    Karine Wenzel & Valquria Michela JohnUniversidade do Vale do Itaja, Brazil

    E-mail: karinewenzel@yahoo.com.br, val@univali.br

    Resumo

    Este artigo verifica, atravs da anlise decontedo, se as maiores revistas nacio-nais do ramo atendem aos critrios jorna-lsticos, como objetividade e pluralidadede fontes, ou so meras propagandas tu-rsticas. A quantidade de adjetivos e es-cassas fontes evidenciam que as revistasViaje Mais e Viagem e Turismo no po-dem ser consideradas produtos jornalsti-cos, j que no atendem aos pressupos-

    tos do mesmo. J a National GeographicBrasil, ainda que apresente um discursotcnico, atende a esses pressupostos. Ojornalismo de viagens ainda um temapouco explorado por estudiosos, pois muitas vezes vinculado literatura e con-siderado publicidade de destinos tursti-cos. Porm, assim como as demais espe-cializaes, tem uma funo social essen-cial: desvendar o outro.

    Palavras-chave: jornalismo de viagens, revista, jornalismo especializado

    Travel Journalism: analysis of the main Brazilian magazines

    Abstract

    This article checks, through the analysisof speech, if the major national magazi-nes in the travel journalism industry res-pect the journalistic standards, such asobjectivity and plurality of sources, orif they are merely tourist advertisements.Neither Viaje Mais or Viagem e Turismocan be considered journalistic productsbecause of their lack of sources. The Na-tional Geographic Brasil presents an ade-

    quate example of real and critical journa-lism, even though it uses technical spe-ech. Travel journalism is a topic infre-quently explored by scholars of commu-nication. It is often linked to literatureand considered as advertising for touristdestinations. However, like other speci-alizations, travel journalism has an es-sential function: it makes the destinationgraspable to individuals.

    Estudos em Comunicao n 11, 291-311 Maio de 2012

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    292 Karine Wenzel & Valquria Michela John

    Keywords: travel journalism, magazine, specialized journalism

    EM pleno sculo XXI, vive-se em um mundo permeado por termos comoglobalizao, tecnologia, conhecimento, no qual deixamos de ser massapara sermos consumidores (ABIAHY, 2010, p. 03) e as informaes passamdo mbito local para o global. Por isso, a sociedade ps-moderna conhecidacomo a Sociedade da Informao, afinal, presencia-se um fenmeno nico deexcesso de informaes. Se antes faltavam meios, receptores alfabetizados,agilidade, tecnologia, atualmente o nico inconveniente a quantidade deinformaes que circulam.

    Sendo assim, pode-se dizer que estamos diante de um grande paradoxo(idem). Por um lado temos a evoluo tecnolgica dos meios de comunicaoe o bombardeio de informao ao qual somos submetidos todos os dias. Issocausa uma proliferao de meios especializados, que tentam atender a uma de-manda de consumidores especficos, porm, ao mesmo tempo em que h umademocratizao do pblico, h uma concentrao por parte dos emissores. Osmeios de comunicao se unem em grandes conglomerados, caminhando paraa monopolizao da informao. o caso de vrias empresas de comunicao,como o Grupo RBS, Grupo Abril entre outros. O espanhol Javier Fernandezdel Moral discute o tema no livro Periodismo Especializado (2004, p. 73):

    [. . . ] los controladores de la comunicacin y de la informacin tambin seglobalizan, constituyendo conglomerados de mltiples escalas, que necesi-tan fragmentar al mximo las audiencias para rentabilizar medios - surgenentonces los modelos multimedia - y recursos, a fin de competir en todaspartes y con todo tipo de soporte, lo que les obliga a crear sinergias medi-ticas, que van en contra de la diversidad de contenidos.

    Alm disso, ocorre ainda uma padronizao de programao, j que hos mesmos programas no mundo todo graas globalizao. Enfim, vive-se a especializao ou a padronizao? Hoje, a aposta na especializao emotivos no faltam. O mercado publicitrio, por exemplo, um deles. Paraa propaganda os meios especializados so mais eficientes, pois lidam com operfil exato a que se pretende atingir. Se antes a segmentao do gosto dosconsumidores soava como alternativa homogeneizao da indstria cultural,hoje uma das principais estratgias mercadolgicas (ABIAHY, 2010, p. 3).

    Os meios de comunicao tambm ganham, pois vo conquistar um p-blico muitas vezes minoritrio, porm fiel e exclusivo. Um exemplo muito

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    claro so as revistas especializadas. A revista Tennis View destinada a todosos amantes e profissionais do esporte. Evidentemente que a tiragem de umarevista como essa no comparvel a da Veja, publicao voltada a generali-dades, porm, ter um grupo de assinantes fiel, que no encontram informa-es to precisas e especficas em outra revista.

    Porm, essencial salientar que a informao jornalstica especializadano definida apenas pela abordagem de um assunto especfico, mas tambmpela abordagem para um pblico especfico (idem). Mais uma vez pode-seexemplificar isso atravs das revistas especializadas. Na Tennis View a in-formao apresentada apenas sobre o tnis de campo, ou seja, uma in-formao especfica, motivo do rtulo revista especializada. J na revistaCapricho, por exemplo, a segmentao est no pblico: adolescentes do sexofeminino entre 14 e 18 anos. J a informao bem variada, falando de beleza,estudos e tudo o que rodeia tal faixa etria. Sendo assim, o termo especiali-zado engloba diversas publicaes, sejam elas segmentadas em seu pblicoou em seu contedo.

    Sem dvida essa proliferao de meios de comunicao segmentados noparte apenas de uma necessidade mercadolgica, mas de uma necessidade dosprprios leitores. H muita informao disponvel e acessvel a todos, masainda faltam as que atendam a um pblico seleto, que procura publicaes quefalem de temas pouco recorrentes nos meios de comunicao dirios. Essesconsumidores tambm buscam outras verses ou at mesmo interpretaessobre um acontecimento.

    quase paradoxal discutir a especializao no jornalismo, afinal, pormuito tempo os termos foram antagnicos. Os jornalistas eram reconhecidoscomo generalistas e as outras profisses trabalhavam com as especificaesem diversas reas.

    Porm, nos dias de hoje, a segmentao do jornalismo essencial em umasociedade vida por conhecimento e novidades, na qual cincia e novas tecno-logias multiplicam os saberes especficos. Ento, torna-se necessrio tradu-zir estes novos saberes populao em geral, que muitas vezes desconheceos termos e teorias cientficas. Outro motivo o fato de que conhecimentoe informao so sinnimos de poder e controle, pois na Sociedade da Infor-mao dinheiro quase um bem coadjuvante, perdendo cada vez mais espaopara o conhecimento.

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    evidente que, em excesso, a especializao pode surtir exatamente oefeito contrrio, distanciar as pessoas do conhecimento global, criando umapopulao sem capacidade de interconectar informaes e dados, com umaviso unilateral e reducionista. Neste contexto, os meios de comunicaotm o papel fundamental de evitar tais consequncias. Medios y periodistasestn, pues, obligados a ser instrumentos integradores de conocimiento, queha de estructurarse sobre la base de que el saber ha de ser especializado(MORAL, 2004, p. 80).

    O jornalismo de viagens

    Constata-se que a segmentao uma tendncia, ou melhor, uma reali-dade no jornalismo. comum os jornais trazerem suplementos sobre temasespecficos, alm das publicaes mensais sobre sade, beleza, mulher, crian-as, artesanato, culinria e at mesmo viagens.

    Embora seja um fenmeno ainda recente e pouco explorado, as publi-caes sobre viagens comeam a representar uma fatia significativa tambmentre as revistas especializadas. Prova disso so as revistas que compemo objeto de estudo deste trabalho, a National Geographic Brasil, Viaje Maise Viagem e Turismo, que independente de formato, linha editorial ou tema,atualmente figuram entre as revistas mais lidas.

    Sem dvida, h ainda certa resistncia em abordar e discutir o Jornalismode Viagens 1 nas universidades, por exemplo. Jan (2002) explica que essedesinteresse resultado da vinculao confusa desse tipo de publicao compropaganda turstica, alm de seus laos com a retrica literria. En muchasocaciones se ha considerado esta materia como algo secundario y ajeno alperiodismo, como um simple divertimento o relleno (JAN 2002, p. 109).

    Porm, no toa que existe esta vinculao quase que imediata entrejornalismo de viagem e publicidade. Em 2002, os jornalistas Carmen Car-valho e Ronaldo Leite analisaram os suplementos de turismo do jornal Folhade S. Paulo e O Estado de So Paulo e constataram que 95% do jornalismo

    1. Neste estudo, utilizada a denominao Jornalismo de Viagens, pois entende-se que um termo mais abrangente. Afinal, como defende Mariano Belenguer Jan (2002), o jorna-lismo turstico, termo utilizado por alguns autores, seria a vertente mais comercial do jorna-lismo de viagens. Este ltimo transcende a indstria turstica e envolve todo o processo daviagem, desde o viajante, at o destino.

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    desses suplementos est atrelado aos patrocinadores do setor turstico, sejaele pblico ou privado. Ento, como defender o interesse do pblico leitorse existe um outro interesse por trs da pauta, o de fazer a divulgao de umponto turstico determinado? (CARVALHO; LEITE, 2007, p. 12)

    Mas, cabe ressaltar que h casos em que o jornalismo de viagens tico,responsvel e apresenta um papel fundamental na sociedade ps-moderna, ode contribuir al conocimiento del mundo y del propio pas em el que vivi-mos (