Jornal Lampião - 21ª Edição

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O Jornal Lampio uma publicao laboratorial do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Dezembro de 2015

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2ARTE: LGIA CAIRESJaneiro de 2016 3ARTE: LGIA CAIRESJaneiro de 2016Quem paga a conta?se referiu ao Planalto. O rgo informou, pela as-sessoria, que no atribuio do DNPM fiscalizar a cons-truo fsica das barragens, nem suas alteraes, nem sua manuteno, ressaltando que a obrigao principal dos r-gos ambientais, que fazem o licenciamento das estruturas.A Vale e a BHP Billiton negam responsabilidade pela tragdia. A Vale realmen-te no tem qualquer respon-sabilidade pelo infeliz e triste acidente, alega um acionis-ta da mineradora brasileira. A Samarco classifica o rom-pimento da barragem como acidente. A Samarco e o go-verno de Minas no respon-deram as perguntas feitas pela reportagem do LAMPIO.Poo sem fundoMais de 600 pessoas perde-ram casas, plantaes, animais e bens na tragdia de Ben-to Rodrigues. A Defesa Civil planeja demolir o que no fi-cou submerso, mas ainda no h definio sobre o que ser feito com o lugar onde era a comunidade ou se a lama ser retirada. Tambm no h data para as derrubadas do que res-tou. Mais de 11 mil pescado-res e ribeirinhos foram afeta-dos com a morte de milhes de peixes ao longo do percur-so do Rio Doce, entre Minas Gerais e Esprito Santo.Mesmo pressionada pela Justia, a mineradora Samar-co ainda no se comprome-teu a pagar os R$ 1.500 mais 30% por dependente, pedido feito pelos prprios morado-res, que esto limitados a ape-nas um salrio mnimo mais 20% por dependente. A em-presa pretende dar R$ 10 mil para cada famlia recomear sua vida, e descontar desse va-lor anunciado eventuais inde-nizaes judiciais.At o fechamento do LAMPIO, a Samarco se ne-gava a cumprir os 21 itens propostos pelas comunidades e representados pelo Minist-rio Pblico por meio de um acordo. A negativa gerou uma ao civil pblica contra a mi-neradora e suas acionistas.sonoro para alertar os mora-dores sobre o rompimento da barragem. O procedimento, que deveria constar no Plano de Aes de Emergncias da mineradora Samarco, era des-conhecido pela Prefeitura de Mariana, pelo DNPM e pelo governo de Minas Gerais. Esse ltimo soube do rom-pimento em Bento Rodrigues somente aps duas horas, conforme relatrio do N-cleo de Emergncia Ambien-tal (NEA), rgo da adminis-trao estadual destinado a acidentes. Pela lei, a empresa responsvel por enviar os do-cumentos aos rgos de fisca-lizao e demais interessados, como a Prefeitura. A falta de preveno para o subsdistrito, distante 5 km dos diques, foi confirmada por Ricardo Vescovi. Segun-do ele, a ao de emergn-cia previa contato telefnico para as autoridades da regio de Mariana, como a Prefeitu-ra e a Defesa Civil. A empre-sa chegou a afirmar que a co-munidade foi avisada, porm no esclareceu quantas ca-sas teriam recebido a ligao. O LAMPIO no encontrou moradores que confirmassem o suposto comunicado.Somente em Mariana, a Prefeitura estima por volta de R$ 100 milhes em perdas, entre as quais as 15 pontes, duas escolas e 250 casas des-trudas. Cerca de 3800 pesso-as foram afetadas direta e in-diretamente no municpio. Os nmeros de atingidos podem resultar em aes individu-ais contra a Samarco por da-nos morais, relata o promotor Guilherme Meneghin. As multas e acordos com a empresa j somam mais de R$ 1 bilho, com possibilidade de subir para R$ 50 bilhes. Po-rm, o prefeito Duarte Jnior (PPS) diz que no h inte-resse em cobrar os danos da empresa atravs de uma ao judicial. Vamos levantar esse valor, conversar com a em-presa para que ela faa investi-mentos no municpio. A gente entende que se fizer uma ao contra a empresa, isso pode As causas sobre o rompi-mento da barragem do Fun-do, da Samarco, ainda no foram esclarecidas pelos r-gos pblicos e as anlises contratadas pela empresa de-vem se arrastar por meses, se-gundo o diretor-presidente da mineradora, Ricardo Vescovi. Para o promotor do Minist-rio Pblico de Mariana, Gui-lherme Meneghin, no h d-vidas de que a mineradora foi negligente antes, durante e depois [do desastre]. Sem todas as respostas da tragdia que destruiu o sub-distrito de Bento Rodrigues, deixando 15 mortos e quatro desaparecidos, a empresa in-vestigada por meio de trs in-quritos criminais, quatro in-quritos civis, uma preparao de laudo e uma avaliao de causas. At o fechamento da edio, a mineradora era pro-cessada por uma medida cau-telar e 13 aes civis.O julgamento da empresa dever ocorrer aps a conclu-so dos pareceres preparados individualmente pelo MP Es-tadual e Federal, Departamen-to Nacional de Produo Mi-neral (DNPM), polcias Civil e Federal e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentvel (Semad). As apuraes crimi-nais devem ser submetidas ao Ministrio Pblico, e, em se-guida, a Justia dever decidir se as acata ou no.De acordo com Guilher-me Meneghin, a principal fa-lha, entre uma srie de outros erros, foi a ausncia do aviso demorar 15, 20 anos, e esse no o melhor caminho.Mais minrioEm 5 de novembro, a bar-ragem do Fundo passava por um alteamento. A obra seria til para acomodar novos re-jeitos, conforme explica o ge-rente geral de projetos da Sa-marco, Germano Lopes. A Vale, acionista da em-presa em conjunto a BHP Billiton, tambm contribua com o aumento de volume minerrio, sendo responsvel por quase 30% do total despe-jado em 2014, segundo laudo do DNPM. A Vale nega a in-formao e diz que depositou apenas 5% do volume total na barragem do Fundo.A recente divulgao de laudos e auditorias revelou que a Samarco teve quatro vazamentos em 2005, 2006, 2008 e 2010. Alm disso, pa-ralisou um plano que iria pre-parar aes de emergncias em 2009, obteve a licena am-biental sem o aval do Minist-rio Pblico e foi recomendada a aplicar 10 medidas de repa-ro no complexo de Germano. A empresa ainda esteve envol-vida em um processo por im-pedir a fiscalizao minerria.Jogo do empurraO DNPM, rgo fede-ral vinculado ao Ministrio de Minas e Energia, respons-vel por fiscalizar o setor de minerao, incluindo 700 bar-ragens de rejeitos em MG. A autarquia possui quatro tcni-cos no territrio mineiro e ca-rece de infraestrutura. Para a Comarca de Mariana, os n-meros so insuficientes. De janeiro a outubro de 2015, o Governo Federal dis-ponibilizou somente R$ 1,2 milho para a fiscalizao de atividades minerrias; em todo o ano de 2014, foram R$ 3,6 milhes. O DNPM atribui a queda de investimento crise fiscal. De acordo com Meneghin, o Governo Federal est ausente diante da tra-gdia e a prefeitura faz papel de palhao. reportagem, o prefeito minimizou a declara-o e acredita que o promotor OpinioJornal-laboratrio produzido pelos alunos do curso de Jornalismo Instituto de Cincias Sociais Aplicadas (ICSA)/Universidade Federal de Ouro Preto Reitor: Prof. Dr. Marcone Jamilson Freitas Souza, Diretor do ICSA: Prof. Dr. Jos Benedito Donadon Leal, Chefe de departamento: Profa. Dra. Virgnia Alves Carrara, Presidente do Colegiado de Jornalismo: Profa. Dra. De-nise Figueiredo Barros do Prado Professoras responsveis: Karina Gomes Barbosa (Reportagem), Ana Carolina Lima Santos (Fotografia) e Talita Aquino (Planejamento Visual) Editor-chefe: William Vieira Editora de Texto: Hariane Alves Editora de Arte: Dbora Mendes Editor de Fotografia: Pedro Menegheti Reprteres: Agliene Melquades, Aleone Rodrigues, Alexandro Galeno, Carol Vieira, Camila Guardiola, Caroline Hardt, Fernando Cssio, Flvio Ribeiro, Francielle Ramos, Mariana Renn, Paloma Demartini, Priscila Ferreira Fotgrafos: Eduardo Rodrigues, Larissa Lana, Monique Torquetti, Rodrigo Sena, Sabrina Passos, Stela Diogo, Tainara Ferreira, Thiago Barcelos Diagrama-dores: Alcia Milhorance, Clarissa Castro, Elmo Alves, Lara Massa, Lgia Caires, Lusa Rodrigues Multimdia: Caio Aniceto, Caroline Rooke, Gabriella Visciglia, Thamiris Prado Reviso: Anna Flvia Monteiro, Pedro Guimares Monitoria: Catarina Barbosa, Silmara Filgueiras, Stnio Lima Colaborao: Fernando Ciraco e Rafaella Souza Tiragem: 3.000 exemplares. Endereo: Rua do Catete, n 166, Centro. Mariana MG. CEP: 35420-000.Fale Conoscolampiao@icsa.ufop.brfacebook.com/jornallampiaojornalismo.ufop.br/lampiaoissuu.com/jornallampiaoCaos e esperanaEditorialChargeCrnicaNo meio do caminhoNo h interesse de cobrar da empresa atravs de uma ao judicial. Vamos levantar esse valor, conversar com a empresa para que ela faa investimentos no municpio.Duarte JniorMilhes de multa do IbamaFlvio RibeiRoHaRiane alvesNaquela quinta de novembro, o tempo estava esquisito, transitando entre pancadas de chuva e o apare-cimento do sol na Regio dos In-confidentes. Era uma tarde comum, at que a lama veio e engoliu tudo pelo caminho. Os moradores de um Bento Rodrigues que comeava a ser tingido, quebrado, engolido, de-vastado corriam para salvar suas vidas. Era uma tarde como qualquer outra at no ser mais.Poderia ter sido muito pior. Muito. Se tivesse sido noite No quero nem pensar, conta Ve-rnica, enquanto olha para os des-troos que outrora foram sua casa e tenta esconder as mos trmu-las e lgrimas que insistem em cair. Foi o pior dia da minha vida. Da vida da gente. A gente perdeu tudo, perdeu amigos. Fomos arrancados das nossas casas... Mas a Pedra aju-dou. A Pedra segurou a lama. Ti-nha uma pedra no meio do caminho. Uma pedra que fez o que a Samarco no conseguiu: dar tempo para que os moradores de Bento salvassem uns aos outros. Uma pedra que di-minuiu, mesmo que minimamente, a fora da lama, que insistia em des-truir tudo sua volta.Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, falou o poeta. E foi aclamado pelo povo que tambm no vai esquecer. Pelas pessoas que olharam uma l-tima vez para a Pedra e para Ben-to e viram a lama mudar as suas vi-das. Para o seu Antnio, foi a mo de Deus que segurou a lama. A si-rene inexistente e a falta de respostas e avisos da mineradora foram subs-titudos pela Paula com sua moto e seus gritos; pela Pedra que retardou o avano da destruio; pela mo de Deus, que no permitiu que a barragem estourasse na calada da noite. A unio e o cuidado com o outro salvaram vidas e fizeram com que a lama no levasse mais pessoas. A Pedra, que fazia parte do ter-ritrio do subdistrito, foi engolida pelos rejeitos. Agora impossvel localiz-la. At isso a lama levou. Ela no conseguiu resistir ao tsunami de rejeitos, mas fez bem o seu papel. Manteve-se firme, ajudou a prote-ger a comunidade e depois desapa-receu no deserto que agora Ben-to Rodrigues. Mas o seu significado permanece na lembrana daqueles que no podem esquecer. No sa-bemos o que teria acontecido se a Pedra no existisse, mas tinha uma pedra no caminho. Uma pedra que fez toda a diferena.Reforando seu ideal jornalstico e o compromisso com a regio, esta edio do LAMPIO abre espao para publicar parte das perguntas enviadas mineradora Samarco e ao Governo de Minas Gerais. No obtivemos respos-ta para os questionamentos em nenhum dos canais de acesso da empresa e do governo. Tambm publicamos aqui inquietaes rel-ativas tragdia, as quais ainda no foram esclarecidas toda a populao de Mariana e distritos. Samarco- Quais eram os projetos desen-volvidos pela empresa para a populao de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo? - Quanto foi gasto com esses projetos de 2009 a 2014? (Especificar o valor da cada ano). Quais foram os resultados dess-es projetos nas comunidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo?- H algum projeto realizado com os moradores de Bento e Paraca-tu de Baixo que vem como uma ao emergencial a fim de am-parar os atingidos dos distritos? Qual a quantia at agora direcio-nada para essas aes? Elas ocor-rem em parceria com alguma or-ganizao pblica ou privada? Quais seriam?Ao Governo de Minas Gerais- Cerca de 20 dias aps a tragdia foi aprovado um projeto proposto pelo governo estadual, acelerando as concesses de licenas ambien-tais para empresas de minerao. Levando em conta os prejuzos decorrentes do rompimento da barragem do Fundo e o caso an-terior, que matou trabalhadores em Itabirito, no um erro um projeto como este ser aprovado?- O projeto que afrouxa a con-cesso das licenas ambientais para mineradoras foi debatido com al-gum setor, entidade ou com a populao envolvida? - Parte dos moradores de Mari-ana esto protestando para que a empresa no termine suas ativi-dades na cidade, temendo desem-prego. O Estado pretende entrar neste assunto, uma vez que o fim da ati-vidade pode afetar tambm na arrecadao de Minas Gerais?- Sabendo que a economia de Mariana majoritariamente man-tida pelo setor de minerao, cerca de 83%, o governo do Estado pre-tende criar uma ao antifaln-cia para o municpio? Ou se tra-ta de uma obrigao exclusiva da administrao municipal?- Segundo a Feam, erros foram detectados no volume de rejei-tos. E mesmo com a constatao, os dados continuaram a ser pub-licados de maneira defasada des-de 2012. Por que no houve ne-nhuma interveno durante tan-to tempo?Inquietaes- O que justifica a dificuldade de se conseguir, na regio de Ouro Preto e Mariana, aps o rom- pimento da barragem, um es- pecialista em direitos ou meio ambiente?- Que processos sero aplicados para minimizar os efeitos da lama de rejeitos que atingiu o mar? Quais as atitudes a serem toma-das para solucionar ou reduzir os danos ambientais causados?- Que aes a Samarco preten- de adotar para recuperar as reas devastadas? Em que pra- zo a empresa pretende executar esse processo?- O que ser feito com a lama que tomou conta do subdistrito de Bento Rodrigues? Como e quan-do ela ser retirada do local?Bilhes para o Governo Federal, ES e MGBilho em acordo com o Ministrio Pblico de Minas e o FederalFOTOS: SABRINA PASSOS E RODRIGO SENAReais mensais por famlia em acordo com o Ministrio do Trabalho Milhes blo-queados pelo MP de MarianaMilhes de prejuzo para a Prefeitura de Mariana Quem matou o tempo? No sculo XIX, o escritor e poe-ta estadunidense Henry David Thoreau garantiu que no se-ria possvel praticar tal fei-to sem desonrar a eternidade. Duzentos anos depois, no dia 5 de novembro de 2015, por vol-ta das quatro da tarde, o tem-po cessou numa terra chamada Bento Rodrigues. Era o ann-cio do fim. Com ele, a exigncia de um recomeo por parte dos sobreviventes, afinal, o tempo parou em Bento, mas no no resto do mundo.Uma tragdia de estragos incalculveis, que atingiu tam-bm Paracatu de Baixo (onde a foto de capa foi tirada), Barra Longa, Camargos, entre outros, alm de devastar o Rio Doce. A cada segundo, as facetas de gru-pos de poder se escancaravam. Na contramo, a solidariedade do povo nos fez crer novamente no ser humano e fez valer uma velha mxima: a esperana a ltima que morre. Enquanto Mariana tentava resistir graas prpria comunidade, os atingi-dos permaneciam e ainda se-guem merc de um novo fu-turo, que est para ser escrito.Nas ruas da primaz de Minas, a boataria, a omisso, a sub-misso e a culpa se perpetua-vam. Como cenrio, eternidades ceifadas e pessoas em fase de readaptao, lutando contra o choque de realidade de um mun-do que no lhes pertencia. E agora? o que nos pergunt-vamos e ainda repetimos. Bento j no existe. Como sobrevi-ver apesar disso? Esta edio do LAMPIO convida voc a se perguntar: Quem se responsabi-liza? Quem sustenta novas eter-nidades? Quem cuida de ns?Trazemos aqui uma trag-dia que no pode ser esquecida. Mariana possui um forte espao acadmico e precisa ser abra-ada por esta comunidade. Nos dias que sucederam o acontecido, estudantes se comprometeram e ajudaram, reforando o ideal de universidade pblica como espa-o coletivo de aprendizagens e retornos. Este LAMPIO mais um efeito disso. No somos insti-tuio. Somos gente, somos alu-nos (de um curso de Jornalismo, especificamente) e buscamos, por meio deste jornal, deixar nossa contribuio a esta cidade que nos recebe de braos abertos a cada semestre, dividindo conos-co seu tempo e sua eternidade.Nossos agradecimentos espe-ciais ao Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, agn-cia A Pblica, Secretaria do Departamento de Cincias Sociais, Jornalismo e Servio Social (Decso), Direo do Instituto de Cincias Sociais Aplicadas (Icsa) e ao Setor de Transportes da Universidade Federal de Ouro Preto, sem os quais no conseguiramos realizar esta edio.Sem respostalampioCIDADE4ARTE: ELMO OLIVEIRAJaneiro de 2016 5ARTE: ELMO OLIVEIRAJaneiro de 2016POLTICARelaes perigosasNova legislao minerria est sob cuidado de bancada financiada por mineradoras; atual cdigo tem fiscalizao insuficienteAlexAndro GAlenoAps o rompimento da barragem do Fun-do, uma dvida permanece na comunida-de de Mariana, principal regio atingida pelo desastre: Quem cuida de ns?. Bento Ro-drigues, Paracatu de Baixo, Barra Longa e as cidades ao longo da Bacia do Rio Doce so-frem com os impactos da devastao provoca-da pela tragdia. A atividade mineradora de alto risco e, por isso, a legislao deve - ou de-veria, ao menos - ajudar a minimizar, a fiscali-zar ou a prever esses riscos. Elmer Salomo, 72 anos, Presidente da As-sociao Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), afirma que, caso a legislao da minerao fosse posta em exerccio pleno, amenizaria os riscos e danos possveis causa-dos por desastres. Ele avalia que a atividade deve ter um setor exclusivamente responsvel pela fiscalizao, e que a burocracia na diviso de responsabilidades causa ineficincia desse servio em todo o pas. Em 2010, foi sancionada a Lei n 12.334, que criou a Poltica Nacional de Segurana de Barragens (PNSB), responsvel pelo controle de barragens de gua, rejeitos de minerao e acumulao de resduos industriais A regula-mentao visa, no papel, pelo menos garantir o amplo gerenciamento e controle dos empre-endimentos sob responsabilidade da Agncia Nacional de guas (ANA).O controle das barragens tambm no pa-pel, com o envio anual dos relatrios ao De-partamento Nacional de Produo Mineral (DNPM). Esses dados formam o Sistema Na-cional de Informao de Segurana de Barra-gens (SINSB), no qual existe o detalhamento daquilo que represado. Segundo o relat-rio apresentado em 2014, a barragem do Fun-do apresentava risco baixo e dano potencial alto - essa parte estava correta. No relatrio do SINSB de 2014, o campo destinado a des-crever a composio do contedo depositado no foi preenchido. Fiscalizao O DNPM possui dois eixos de fiscaliza-o: envio de documentao anual e vistoria presencial quando evidencia algum proble-ma. A falha no processo est no rgo ser de-pendente de uma terceirizada contratada pela prpria empresa fiscalizada para os laudos. A Poltica de Barragens prev, como res-ponsabilidade do empreendedor, a confeco do plano emergencial para acidentes. Con-forme o DNPM, a Samarco deveria, imedia-tamente aps o rompimento, colocar o pla-no em execuo a fim de minimizar os danos. A mineradora afirma ter executado medidas emergenciais, validadas pelos rgos compe-tentes, em conjunto com Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Polcia Militar. A licena ambiental para o funcionamento das atividades de barragens fica por responsa-bilidade da Secretaria Estadual de Meio Am-biente e Desenvolvimento Sustentvel (Se-mad). Em Minas Gerais, a Fundao Estadual do Meio Ambiente (Feam) a responsvel por conceder as licenas. A partir da tragdia em Bento, a licena ambiental da Samarco foi can-celada pela Semad, sob determinao do Mi-nistrio Pblico de MG. Apenas atividades emergenciais para amenizar os impactos am-bientais foram autorizadas. Novo marcoEm 2013, o Governo Federal apresentou o projeto de lei 5.807. A tramitao do chama-do Marco Regulatrio da Minerao pos-sua carcter de urgncia para a votao. De-veria ter sido analisado pelo Senado e Cmara Federal em 45 dias, porm a discusso foi ar-rastada at 2015. Durante a apresentao da proposta, a Presidente Dilma Rousseff decla-rou que o Brasil tem as maiores reservas de minrio do mundo, mas o setor ainda convive com uma legislao fraca e burocrtica. Com a nova regulao, o Governo pretende manter sob controle do Estado o desenvolvimento da atividade minerria, alm de aumentar a com-petitividade em relao aos mercados interna-cionais e impulsionar o setor.A discusso do texto na Comisso Espe-cial instalada para debater o assunto com os setores envolvidos acontece desde julho de 2013. A presidncia da Comisso ficou a car-go do deputado federal Gabriel Guimares (PT/MG), e a relatoria com o deputado Le-onardo Quinto (PMDB/MG). A expectati-va de votao do Cdigo na Cmara foi adia-da desde o primeiro parecer (substitutivo), em novembro de 2013. Aps o rompimento da barragem do Fun-do, o relator retirou o texto de tramitao para adequaes ao cenrio ps-tragdia de Mariana. Para o advogado do Instituto So-cioambiental (ISA) Maurcio Guetta, 30, seria fundamental a incluso de mecanismos efeti-vos que garantam a proteo das comunidades impactadas. Segundo ele, Quinto no acatou os pedidos de incluso desses mecanismos re-alizados pelo Comit Nacional em Defesa dos Territrios Frente Minerao. Quinto afir-mou Agncia Cmara que houve, aps o de-sastre de Bento Rodrigues, endurecimento das leis para obrigar as mineradoras a ter um se-guro geral que cubra acidentes, fatalidades e recuperao do meio ambiente. Na tera, 8 de dezembro, Quinto entre-gou o novo substitutivo do projeto Presi-dncia da Cmara. O relator pretendia votar o novo texto at o final de 2015. Para Guet-ta, isso estratgia para uma rpida aprova-o, j que existem interesses de deputados, devido ao financiamento de campanhas pa-gas pelas mineradoras. O presidente da Cma-ra, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi um dos parlamentares que mais apresentou emendas ao projeto. Em 2014, sua campanha recebeu R$1,7 milho da minerao, em repasses dire-tos e pela direo estadual do PMDB. Quinto ganhou algo parecido: cerca de R$1,7 milho, 40% de sua campanha, veio dos cofres das mi-neradoras. At o fechamento, o deputado no respondeu as perguntas do LAMPIO. Bancada da mineraoEm discusso desde 2013 no Supremo Tri-bunal Federal (STF), o financiamento privado de campanhas vem sendo um ponto de im-passe na reforma eleitoral. Seguindo resultado da votao no Supremo, a presidente Dilma vetou, em setembro, as doaes de empresas privadas. Se nada mudar, o financiamento pas-sar a ser ilegal a partir das eleies de 2016.Na comisso legislativa que analisa o tex-to do novo marco regulatrio, 20 dos 27 de-putados receberam repasses de mineradoras. Dos cinco deputados da bancada mineira que mais receberam repasses do setor, trs esto na Comisso. Dentre eles, o deputado Gabriel Guimares, presidente do colegiado. Segundo o Cdigo de tica do Congresso, fere o de-coro parlamentar relatar matria submetida apreciao da Cmara dos Deputados, de in-teresse especfico de pessoa fsica ou jurdica que tenha contribudo para o financiamento de sua campanha eleitoral. Para o deputado federal Chico Alencar (PSOL/RJ), o Cdigo de tica do Congresso interpretado ao bel-prazer dos interesses dos poderosos. A bancada da minerao to pre-sente e facilmente identificvel que o Supremo proibiu, para as prximas eleies em 2016, o fi-nanciamento empresarial das campanhas. O sistema viciado e dependente, e isso manipula o resultado no s das eleies, mas das pautas discutidas no Parlamento. Chi-co entrou com pedido para que Quinto fos-se afastado da relatoria da matria, dado seu envolvimento com o setor minerador. O de-putado contrrio ao financiamento priva-do porque as empresas tm interesses muito malficos para o ambiente poltico, j que sua nica preocupao o lucro. O cientista poltico Ricardo Caldas desta-ca a necessidade de uma noo de limite para definir o conflito de interesses que poderia es-tar atrelado atividade legislativa do poltico em relao origem do dinheiro que o finan-ciou. Caldas acrescenta que o repasse priva-do previsto pela legislao eleitoral brasilei-ra. Para ele, a relao do parlamentar poderia ser relacionada a uma convergncia de ideias pessoais e s das empresas.Repasse das mineradoras emcampanhas polticas mineirasR$ 3.999.492,33R$ 3.611.713,48R$ 2.656.327,67R$ 1.500.000,00R$ 1.414.425,80R$ 1.000.000R$ 2.000.000R$ 3.000.000Valor total arrecadado por todas as mineradoras:R$ 22.082.617,97Polticos que mais receberam financiamento da mineraoGOVERNADORFERNANDO PIMENTEL (PT)RECEBEU: R$ 11.474.504,79PROJETO DE LEI: Flexibilizao em licenas ambientaisSENADORESANTNIO ANASTASIA (PSDB) RECEBEU: R$ 2.179.706,37ACIO NEVES * (PSDB)RECEBEU: R$ 803.500,00LEONARDO QUINTO (PMDB)RECEBEU: R$ 1.706.796,71DEPUTADOS FEDERAISLUIZ FERNANDO (PP)RECEBEU: R$ 1.461.381,75ITAMAR FRANCO * (PPS)RECEBEU: R$ 247.000,00DEPUTADOS ESTADUAISPAULO LAMAC (PT)RECEBEU: R$439.245,00BOSCO (PT do B)RECEBEU: R$210.000,00MARCOS MONTES (PSD)RECEBEU: R$ 907.031,47PAULO ABI-ACKEL (PSDB)RECEBEU: R$ 908.000,00JOO ALBERTO (PMDB)RECEBEU: R$192.345* Dados do TSE referentes campanha de 2010 DURVAL NGELO (PT) RECEBEU: R$ 173. 424,53ECONOMIA sombra da minerao Mariana sofre impactos que afetam cadeia produtiva, desestimulam comrcio e dificultam criao de alternativas de rendaCAmilA GuArdiolA e CAroline HArdtReflexo. Aps tragdia, populao questiona modelo baseado na explorao de recursos naturaisElder Aparecido dos Santos, 27 anos, desempregado h dez meses, vive na casa dos pais na cidade mi-neira de Catas Altas, a 48,9 quil-metros de Mariana. Seu pai, Ailton Martins dos Santos, 55, respons-vel financeiro pela famlia, trabalha-va h menos de um ms como mo-torista de caminho-pipa na Integral Engenharia LTDA, terceirizada pela Samarco. Aps dois anos desempre-gado, Ailton entrou na minerao procurando oferecer o melhor fa-mlia e est desaparecido desde 5 de novembro. A famlia, sem notcias ou ajuda financeira, sente os impac-tos econmicos do maior desastre ambiental da minerao brasileira.Reservas canceladas e queda no comrcio turstico so as primeiras consequncias enfrentadas pela eco-nomia de Mariana e da regio aps o rompimento da barragem do Fun-do. A populao comea a perceber os efeitos, mesmo que indiretos, da tragdia. Para os lojistas, a preocupa-o com o futuro grande.Poliane Priscila de Freitas Lube, 28, comerciante de roupas femini-nas, defende a permanncia da em-presa em Mariana e afirma que, de-vido dependncia econmica da minerao, a cidade no consegue se manter sem a atividade. Segundo ela, sua loja j sentia o impacto da crise econmica brasileira, com re-flexo nas vendas, que caram 20%. Aps a tragdia, a procura caiu mais de 60%, e tende a piorar.Essa preocupao no nica dos comerciantes. Entre os funcio-nrios da mineradora, o sentimento de apreenso. Segundo o presiden-te do Sindicato Metabase Mariana, Ronaldo Bento, 38, h um desequi-lbrio emocional muito grande, no sentido de perda dos seus compa-nheiros de trabalho.S a unidade do Germano pos-sui mais de 1,5 mil trabalhadores, sendo 735 moradores de Mariana. Segundo a Prefeitura, indiretamente, a minerao gera cerca de 2 mil em-pregos na regio. Por isso, h uma preocupao com a conservao dessas vagas.A minerao responsvel por 80% da arrecadao da cidade, o que coloca o desenvolvimento e a manuteno de Mariana diretamente ligados explorao. Apenas a Sa-marco contribuir diretamente com R$ 5,3 milhes mensais, em impos-tos, como o Imposto Sobre Servi-os (ISS). Em 2014, a receita muni-cipal chegou a R$ 303,4 milhes, dos quais R$ 71,5 milhes vm de trans-ferncia de cotas-parte da Compen-sao Financeira pela Explorao de Recursos Minerais (CFEM), tributo calculado sobre o faturamento lqui-do obtido com a venda de produtos minerais. Ou seja, cerca de 23,6% da receita municipal vm de uma nica taxa sobre a minerao. Por conta dessa dependncia, com a queda no setor, o munic-pio sofre com diminuio na recei-ta. Em 2015, antes mesmo do rom-pimento da barragem, com a baixa no preo do minrio, Mariana rece-beu R$ 45,7 milhes da CFEM. A baixa reflete na receita e arrecadao municipal, que, segundo a prefeitu-ra, perdeu R$ 22,3 milhes s nos trs primeiros meses do ano.Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) de Mariana em 2012, os ltimos disponibilizados, confir-mam a discrepncia entre os setores econmicos da cidade. Do total de R$ 4 bilhes, 72,9% provm do se-tor industrial, seguido por 24,4% de servios e 2,40% de impostos.O que preocupa a Prefeitura que impostos como o ISS e o CFEM deixam de ser recolhidos com a pa-ralisao das atividades da Samarco, que teve sua Licena de Operao revogada a pedido do Ministrio P-blico. Com isso, estima-se que Ma-riana perca R$ 5,53 milhes por ms referente aos dois impostos. Sem alternativasO especialista em recursos na-turais e professor de economia da Universidade Federal de Ouro Pre-to (Ufop) Chrystian Mendes, 31, explica as consequncias da de-pendncia da minerao. O pro-blema da cidade ser to dependen-te que caso ocorra algum evento como o que aconteceu, o munic-pio fica merc das mineradoras, o que pode prejudicar seu desenvolvi-mento e a manuteno das ativida-des, afirma. Segundo ele, o pero-do de esgotamento das minas ainda deve demorar um longo tempo para acontecer. Porm, isso no im-plica que alternativas no devam ser procuradas, como o turismo, cultu-ra, arte e at a prpria universidade, que tem importante papel nisso, pe-los diversos cursos.Para no deixar a economia re-fm apenas de uma atividade e a ci-dade no parar, preciso ser cria-tivo, explica Mendes. Quanto paralizao da explorao, o econo-mista ressalta as consequncias que isso traria cidade e a importncia da minerao. Supondo a interrup-o, o que pode acontecer um au-mento do desemprego, bem como fechamento de alguns pontos co-merciais e, consequentemente, ele-vao dos preos, enumera.Ronaldo Bento, do Metabase Mariana, concorda que o municpio precisa da minerao e afirma que a possibilidade de trmino das ativi-dades mineradoras refletiria direta-mente no setor de comrcio e servi-os, e consequentemente acarretaria a diminuio de empregos, trans-formando Mariana em uma cidade fantasma. A soluo para essa de-pendncia histrica seria o investi-mento em novas atividades, at mes-mo ligadas ao minrio, como o uso e a explorao de novos recursos dis-ponveis no municpio. Durante sua participao na 21 Conferncia do Clima (COP21), na Frana, no incio de dezembro, o prefeito de Mariana, Duarte Jnior, criticou a dependncia econmica do municpio. Temos que entender a minerao como um parceiro que em determinado momento vai ter-minar. finito. Temos de nos pre-parar para deixarmos de ser to de-pendentes dessa atividade, afirma.Entre as alternativas para no-vas formas de arrecadao est a construo de um polo industrial na cidade, que atrairia empresas de outros segmentos. Segundo a Prefei-tura, no h um setor especfico que se deseja atrair para o distrito indus-trial de Mariana. O objetivo, informa a assessoria, promover um espao propcio para instalao de empre-sas que possam gerar emprego e ri-quezas na cidade, mas no h deta-lhamento do que se espera.Histria antiga A relao do municpio com a minerao vem de antes de 1850, no primeiro ciclo do ouro. J a explo-rao de minrio de ferro comeou em meados da dcada de 70, e o au-mento de produo veio em 1978, um ano aps a fundao da Samarco.Mariana no a nica que sofreu consequncias da explorao. A vi-zinha Itabirito tambm teve uma barragem de rejeitos, da empresa Herculano Minerao, rompida em setembro de 2014. O desastre dei-xou trs mortos, cursos dgua e o rio Itabirito contaminados. A semelhana entre ambas abran-ge a dependncia econmica. Itabi-rito tambm j passou por perodos em que mais de 65% de sua receita provinha do setor mineral. Para mu-dar esse cenrio, o municpio inves-tiu em um plano de diversificao da economia, trazendo indstrias e am-pliando as arrecadaes municipais. O mesmo deve acontecer com Mariana. Segundo a Prefeitura, a administrao j trabalhava na im-plantao da rea de Diversifica-o Econmica (ADE) para incenti-var a produtividade rural, implantar novos empreendimentos rurcolas e estimular o desenvolvimento scio-econmico. Alm disso, a Secreta-ria de Desenvolvimento Econmi-co elaborou o Plano de Crescimento e Desenvolvimento de Mariana, que seria lanado em novembro, mas em virtude do rompimento foi adiado por tempo indeterminado. A construo de um laticnio municipal, o desenvolvimento da agricultura familiar e a elaborao de um mapeamento dos recursos cultu-rais de Mariana tambm esto entre os planos a longo prazo para equali-zar a economia da cidade. Turismo soluo? Reconstruo. Camargos precisa se reestruturar para voltar a ser destino turstico Com o rompimento da barragem do Fundo, um dos distritos atingidos foi Ca-margos, a cerca de 19 quilmetros de Maria-na. O local possui entre suas principais ati-vidades o turismo e o artesanato. Um dos patrimnios a Igreja de Nossa Senhora da Conceio, do sculo XVIII.Os prejuzos culturais de Camargos e re-gio aps o rompimento da barragem ain-da so incalculveis. O local, conhecido pelo artesanato, pela igreja e a cachoeira, faz par-te do percurso do Iron Biker, competio in-ternacional de mountain bike que acontece em Mariana anualmente. O secretrio de Tu-rismo, Cultura e Desportos de Mariana, Vi-cente Freitas, 42, espera que at a prxima edio do evento, em setembro de 2016, o lugar esteja recuperado. O turismo apontado como uma das solues para o fim da grande depen-dncia econmica de Mariana da minerao. Entretanto, mesmo que a cidade tenha ca-pacidade para atrair pblico, ainda h falhas e so necessrios aprimoramentos para que as atividades contribuam significativamente para a economia local.Segundo Freitas h dificuldade de che-gar a um acordo com os comerciantes lo-cais, principalmente em relao aos horrios de funcionamento, o que enfraquece ainda mais as vendas. Isso ocorre porque os turis-tas buscam os estabelecimentos nos fins de semana, quando esto fechados.Os problemas no acontecem s no co-mrcio. O secretrio afirma que com a Ar-quidiocese, responsvel pelas igrejas - princi-pal atrao entre os turistas -, h dificuldade de dilogo e acordo entre horrios e dias de funcionamento, devido ao baixo nmero de funcionrios disponveis. A Arquidiocese no respondeu o LAMPIO. Vicente destaca que um dos problemas mais recorrentes que, muitas vezes, os vi-sitantes chegam para conhecer os patrim-nios da regio e os encontram fechados. Por meio de programas como o Jovem Apren-diz, em que os estabelecimentos oferecem trabalhos de meio perodo para menores de 18 anos, os representantes pretendem so-lucionar a situao.Questionado sobre a capacidade tursti-ca de Mariana, o secretrio afirma que o se-tor no tem condies de sustentar econo-micamente o municpio. Novas propostas e investimentos para aquecer a atividade po-dem aumentar sua influncia na economia local. A Prefeitura no sabe quanto o turis-mo influencia no PIB de Mariana.FOTOS: THIAGO BARCELOSRepasse das mineradoras a campanhas polticas mineiras6 ARTE: LUSA RODRIGUESJaneiro de 2016 7ARTE: LUSA RODRIGUESJaneiro de 2016Quanto vale um projeto?A Secretaria de Desenvolvimento Social e Ci-dadania de Mariana entregou Samarco um Pla-no de Ao de Assistncia Social at maro, pedindo contratao de psiclogos e assistentes sociais para os atingidos. O secretrio ad-junto de Desenvolvimento Social, Joo Paulo Paranhos, diz que essas pessoas esto sob cuidado da empresa. No temos autorizao para iniciar uma poltica com os atingidos, ela de responsabilidade da Samarco.Fragmentos de uma tragdia marianenseDireitos em pautaEm 1991, moradores que perderam tudo devido a impac-tos de barragens no Brasil se juntaram para defender seus di-reitos. O Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) hoje atua em 17 estados. Desde o rompimento da barragem do Fundo, o movimento est em Mariana na tentativa de mover aes que garantam os direitos das comunidade de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e outras reas da igreja catlica e evanglica.Para a professora de dos responsveis. A Samarco se eximie da res-ponsabilidade de bancar as comunidades expro-priadas e usurpadas de seus direitos. Ecos na ruaNo se rompe uma memriaEm poucos minutos, o comerciante Jos Barbosa dos San-tos, 68, teve as mos calejadas e o suor de 45 anos reduzidos a destroos pela onda de lama. No momento em que a barragem rompeu, Jos trabalhava na venda que construiu h 25 anos. Ao ouvir de longe o barulho, pensou que fosse poeira no vendaval. Quando viu o mar marrom, a correnteza trazia tambm uma es-cola inteira, e estava a 30 metros de atingi-lo. Foi quando o misto de surpresa, incredulidade e desespero o acometeu. Matou meu povo tudo. Andei at de passos. No adiantava correr. Aquela lama poderia me lamber, j tinha lambido o meu povo mesmo, relembra, quando pensou ter perdido a famlia. A aposentada Maria Flix de Souza Santos, 67, mulher de Jos, recorda com nostalgia os 44 anos que viveu no distrito. Era um lugar muito sossegado, podia dormir com as portas abertas. Das tantas saudades de Maria, a maior talvez seja o so-nho da cozinha nova. Depois de um ano em reformas, s falta-vam os vidros do armrio.Nos ltimos dois anos, o lugarejo estava diferente. Mais pes-soas visitavam o local, as celebraes religiosas e a igreja estavam mais movimentadas. Parecia que tudo no Bento foi despedida. Foi tudo muito bem festejado. Tudo era adeus., lamenta.Na tarde do dia 5, Maria se preparava para descansar no sof da casa quando a filha lhe avisou que a barragem tinha se rom-pido. A aposentada s teve te mpo de chamar a amiga e fugir. Entrei no nibus da linha que estava passando, ia em direo a Santa Rita, mas a lama cortou o caminho. O nibus recuou e nos deixou no p do morro. L de cima eu s via tudo sendo levado. O reencontro com os fa-miliares trouxe alvio e aumentou a f. Com uma das mos Deus segurou a lama, com a outra nos empurrou para o morro.Jos tenta seguir a vida com otimismo, mas as memrias do antigo Bento permeiam o pensamento. s vezes no quero lem-brar. Mas nos meus sonhos chega um fregus e fala, quanto aquilo ali, Barbosa?. No a primeira vez que o aposentado fica sem suas economias. No governo Collor, o aposentado perdeu toda a quantia aplicada na caderneta de poupana. Desde ento, passou a guardar dinheiro em casa. Antes da tragdia, cerca de 60 mil reais estavam reservados entre a parede e o guarda-roupa. O negcio foi diferente do Fernando Collor de Mello, porque ele veio e levou o dinheiro, ao menos a casa deixou pra gente. Agora levou o dinheiro, com casa, com tudo. Meu sonho que a Samar-co devolva tudo que perdi, desabafa. Vanderlei Lucas, 38, morador de Contagem, MG, e passou 31 dias em um hotel de Mariana sem notcias da me. Maria Elisa Lucas, 60, estava a passeio em Bento quando a barragem rompeu. Ela estava pescando, fazendo a coisa que mais gostava. A veio a lama e a levou. Movido pela inquietao, Vanderlei, junto com famlias de desaparecidos, foi porta do escritrio da Samarco, em Mariana, para exigir que as buscas nas reas atingidas no fossem cessadas enquanto no houvessem respostas. At o fechamento do LAMPIO, duas pessoas continuam desaparecidas e 17 corpos foram reconhecidos por parentes, entre eles a me de Vanderlei.A barragem do Fundo comeou a operar em 2008. Segundo o Presidente da Associao de Moradores de Bento Rodrigues, Ze-zinho do Bento, a populao no foi consultada sobre a constru-o. Na poca, a Samarco informou que o empreendimento no trazia riscos comunidade. Ele conta que depois do fim da obra, as reunies com a Samarco para esclarecer, entre outros assuntos, sobre os riscos da barragem eram frequentes. A empresa garantia que a estrutura era muito segura. O morador visitou a barragem de Santarm. Sempre garanti o pessoal que se a nossa vida fosse to segura quanto Santarm, no morreramos nunca. A do Fun-do nunca tive a oportunidade de visitar. Eles nunca convidaram.Aps o rompimento da barragem do Fundo, Mariana se transformou em um lugar de tristeza, desespero e solidariedade. Ora sentia-se o silncio estarrecedor, a incredulidade, a reflexo. Ora pulsava a tentativa de recomear amparada na f e na vontade de justia. Algo ficou claro: o algoz e o protetor so o mesmo e compem o cenrio de peas que se encaixam em um passado impiedoso, um presente devastado e um futuro incerto.Parceiro privilegiadoLetcia Alves, 27, coordenadora estadual do MAB e afir-ma que normalmente o movimento inicia as atividades nos lo-cais onde h barragem ou durante a construo, sendo nova a experincia com um rompimento. A gente chegou em um momento impactante, o direito informao desde o incio foi violado e no havia quase nenhuma participao dos atingidos sobre os direitos e propostas para ampar-los. Em Mariana, o MAB defende a obrigatoriedade de uma verba de manuteno paga pela empresa, um valor mais alto para iniciar o processo de reconstruo dos bens, o reergui-mento da comunidade priorizando sua dinmica e laos afeti-vos, alm da recuperao da Bacia do Rio Doce. Os integran-tes do movimento esclarecem aos atingidos sobre direitos e os incentivam a no desistir de recuperar tudo o que perderam.Outra ao que surgiu como estratgia para negociaes foi o Reage. O coletivo juntou iniciativas de rgos da socieda-de civil, para ajudar no processo de ressarcimento das famlias atingidas. Representantes do Ministrio Publico, MAB, Arqui-diocese, IFMG, Ufop e moradores das reas afetadas dialo-gam sobre pautas emergenciais para entregar empresa. Uma proposta nica defende os interesses dos moradores de Ben-to Rodrigues, Paracatu de Baixo e Barra Longa. A criao de comisses que representem os atingidos tambm uma ideia surgida no Reage. A comisso representativa composta por 32 membros, que falam pelos distritos afetados. Os participan-tes, moradores dos locais atingidos, mediam as negociaes entre a Samarco e a populao. De acordo com o representan-te do distrito de Paracatu de Baixo, Dan Mol Peixoto, 47,o co-mit tem se preocupado com a unio dos atingidos, para que ningum saia prejudicado das negociaes.Alm da comisso representativa, foi criada uma comisso para administrar quase R$ 1 milho de doaes. De acordo com um dos representantes, Jos do Nascimento de Jesus, 70, o dinheiro est retido, e a inteno utiliz-lo depois que a Samarco indenizar e reconstruir as reas atingidas. Ainda no foi discutido como a quantia ser repartida. A solidariedade s vtimas do rompimento tambm se mos-trou na unio pela f. O ato ecumenico realizado na Arena Ma-riana, aps 30 dias, contou com a presenade representantes afetadas pela lama.Servio Social da Ufop Sheila Dias, 36, a par-ticipao dos movimentos sociais, o trabalho voluntrio e as doaes so atos importantes, mas que po-dem reduzir as aes reparatrias funcionrios. Ns, que somos do cho de f-brica, sabemos que o papel [ranking] de sus-tentabilidade e desenvolvimento social no acontece na convivncia do dia-a-dia. A cada dia, a mo humana mais escravizada.De acordo com a pesquisa Poltica, Econo-mia, Minerao, Ambiente e Sociedade - Poemas 2015, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Samarco res-ponde a 554 processos no Tribunal Regional do Trabalho da 3a Regio de Minas Gerais e 1.021 no Tribunal Regional do Trabalho da 17a Regio de Esprito Santo. O nmero con-siderado alto comparado aos funcionrios da empresa, cer-ca de 7 mil no Esprito Santo e em Minas Gerais. O Poemas afirma que o nmero de desrespeitos trabalhistas pode ser maior, j que muitos no chegam Justia.O risco na execuo das atividades minerrias chega es-cala 4, o nvel mximo. Na Samarco, de acordo com o Po-emas, os acidentes com trabalhadores cresceram 95% entre 2009 e 2014. O estudo credita o aumento queda do preo do minrio junto com a necessidade de se manter a constan-te produtividade, reduzindo custos operacionais para man-ter os lucros. Em 2014, a companhia lucrou R$ 2,8 bilhes e teve faturamento bruto de R$ 7,6 bilhes.O LAMPIO procurou trabalhadores da mineradora para relatar o cotidiano de presso. Ningum quis falar. Se me expor, perco meu emprego. E, depois, onde vou traba-lhar em Mariana?; Motivos relacionados s exigncias do contrato me impedem de falar. O Cdigo de Conduta da Samarco adverte que obrigao do colaborador proteger informaes que dizem respeito s atividades exercidas na organizao, mesmo aps o trmino do vnculo. O papel e o cho de fbricaRodney Cassiano, 62 anos, aposentado da Samarco, de-pois de 24 anos como mecnico na empresa. No perodo re-cebeu auxlio creche, alimentao, bolsa de estudo para os fi-lhos, transporte e participao nos lucros. Ele conta que, na sua poca, a mineradora tinha como meta priorizar a segu-rana do trabalhador. Terceirizado da Aveyance, o vulcaniza-dor Rodson Cassiano, 29, filho de Rodney, afirma que, ape-sar de no ter os mesmos benefcios, a conscientizao e a exigncia de preveno de riscos no trabalho so as mesmas.A cultura de organizao e proteo interna incluiu a Sa-marco entre as 150 melhores empresas para se trabalhar no Brasil da revista Voc S/A, em 2014. Com 81,4 de 100 pon-tos, um dos critrios o ndice de satisfao dos funcionrios com o ambiente de trabalho. Na Samarco, 80,7% dos traba-lhadores esto satisfeitos. De acordo com o Metabase Ma-riana, atualmente a mineradora emprega cerca de 2 mil fun-cionrios e 3 mil terceirizados de 15 empresas em Mariana, Ouro Preto, Santa Brbara, Baro de Cocais e Catas Altas.Apesar disso, Ronaldo Bento, um dos representantes do sindicato Metabase, 38, discorda da colocao no ranking. Segundo ele, a corporao diferenciada em relao aos be-nefcios dos trabalhadores, contudo a preocupao com o lucro, como em todas as empresas, gera presso sobre os A estudante Jennyfer Fialho dos Santos, 11, recorda com saudade a vida em Bento. Os fins de semana e a expectati-va pela construo da piscina no quintal so memrias ainda muito vivas. Em poucos minutos, a lama do Fundo trans-formou a realidade em sonho a ser recuperado. Meu desejo que faam um novo Bento, o mais parecido possvel. Antes queria que melhorasse, porque l tinha pouca coisa.Jennyfer conta que um dos problemas era a insuficin-cia na captao de recursos hdricos, assunto muito estuda-do na Escola Municipal de Bento Rodrigues. Em uma repor-tagem de rdio, a estudante entrevistou moradores sobre a falta dgua e possveis solues. A iniciativa surgiu de par-ceria entre a escola e o projeto Cidado do Futuro. Voltado para inovar o ambiente educacional, o programa promoveu a incluso de tecnologias que auxiliam prticas pedaggicas.O projeto comeou em Bento Rodrigues em 2014 e era executado pelo Instituto Paramitas, contratado pela Samar-co, como parte da poltica de relacionamento socioinstitu-cional da empresa. Segundo o relatrio financeiro de 2014, a organizao gastou cerca de R$ 10,4 milhes em projetos sociais em Minas e no ES cerca de 0,14% do faturamento bruto. A companhia no respondeu sobre a verba para proje-tos em Bento Rodrigues, antes e depois da tragdia. Diante do cenrio, a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) criou o Comit de Articulao para Ao Voluntria em apoio aos atingidos. A estratgia visa organizar as aes propostas pela comunidade aca-dmica em uma frente de mobi-lizao, de mdio e longo prazo, para acompanhar e orientar os mo-radores de Bento Rodrigues, Paracatu e outras re-as afetadas. O comit construdo por eixos, como Educao e Memria, Sade, Trabalho, Comunicao, e est aberto a su-gestes. H 28 projetos para entrar em ao. O chefe de ga-binete da reitoria, Jos Armando Ansaloni, 55, explicou que, antes da criao do comit, a universidade facilitou aes iso-ladas. Entre elas, carros para o envio de donativos a Barra Longa e o nibus que levou 40 estudantes de medicina para fazer a triagem dos moradores. A instituio foi convidada pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentvel de MG (Semad) para participar de um estudo de normatizao da constru-o de barragens de rejeitos. A pesquisa tem como pro-posta realizar uma fora-tarefa para analisar e sugerir nor-mas tcnicas para melhorar a fiscalizao em Minas Gerais, alm de desenvolver novas tecnologias. A minerao est presente em outras instncias da Ufop. A Samarco contribui de forma efetiva para a reali-zao de pesquisas e eventos na universidade, por meio de convnios, protocolos e financiamentos. Em outubro de 2015, foi assinado um protocolo de intenes para ofertar aos estudantes aulas de segurana do trabalho, ministra-das por funcionrios da Samarco. O reitor da universidade, Marcone Jamilson, 55, conta que ainda no existe nenhu-ma conversa sobre a suspenso das propostas, e que, de-pois do rompimento da barragem, a empresa responsvel ter tempo de sobra para se dedicar s aulas. A constru-o do Parque Laboratorial do Instituto Tecnolgico Vale (ITV) e do Centro de Geotecnia Aplicada tambm inte-gram o protocolo. Com investimento de R$ 6,8 milhes em estrutura, Vale e Samarco pretendem criar um polo de tecnologia industrial no campus.Em 2014, por intermdio da Fundao Gorceix, a Vale e a Samarco investiram R$781,8 mil em pesquisas de pro-fessores da Ufop. As empresas tambm patrocinam even-tos como Festival de Inverno e Frum das Letras, realiza-dos pela instituio. Como consequncia do rompimento da barragem do Fundo, alguns convnios entre a Funda-o Educativa de Ouro Preto (Feop) e a Samarco, avalia-dos em R$ 1,2 milho foi suspenso. A instituio um dos principais rgos de apoio univer-sidade. O Grupo de Pesquisa RE-CICLOS, da Engenharia Civil, faz estudos na rea. Um deles mostra que possvel incorporar at 80% da lama no lugar da areia na construo civil.Por meio de nota, a Ufop lamentou o acontecido e se solidarizou em ajudar as famlias atingidas pela lama. Par-te da universidade classificou a postura dos integrantes da Escola de Minas, maior beneficiria das verbas de pesqui-sa e dos convnios com a minerao, como omissa, j que no houve nenhum pronunciamento do instituto. Segun-do o reitor, alguns professores optaram por no falar so-bre o caso devido relao que mantm com a empresa ou por no dominar as peculiaridades da barragem da Samar-co. Ns temos professores que esto envolvidos no pro-cesso, confirma, informando que no houve proibio de declaraes por parte da reitoria. da quem cuida realmente do povo, e os questionamentos comearam.O primeiro uniu as vtimas do rompimento, a Arquidiocese de Mariana e o MAB. Atrs de res-postas, cartazes tomaram conta das ruas em manifesto pela valorizao da vida.Nilza Pena, 72, trazia a incerteza no olhar e nas mos. No cartaz, as palavras pai de famlia, dedicado, competen-te descreviam indagaes sobre o desaparecimento do gen-ro Daniel de Carvalho, 53, terceirizado da Samarco. Ele saiu de casa para trabalhar na quinta-feira e no voltou mais. Na Praa Minas Gerais, os participantes rezaram de mo dadas. A reflexo sobre o recomeo fez muitos pensarem nos rumos da minerao na cidade.O movimento Fica Samarco foi uma resposta indaga-o. Comerciantes, estudantes, trabalhadores da mineradora e moradores atingidos participaram. O pedido de todos era um s: justia sim, desemprego no. Era possvel ouvir Fica, Samarco, sem voc ns somos fracos.Os semblantes e os cartazes reforavam o receio de que Mariana se torne uma cidade fantasma. Na mesma linha, o sentimento de vulnerabilidade motivou a passeata Todos juntos pelo futuro de Mariana, com moradores da cidade e dos distritos. A marcha terminou com a entrega de um ma-nifesto ao prefeito, Duarte Jnior (PPS), e ao representante da Cmara dos vereadores, Fernando Sampaio (PRB). Entre os pedidos est a criao de alternativas que diversifiquem a economia da cidade. Para o comerciante Flvio Almeida, 40, a pauta dos desabrigados no exclui a pauta da minerao. Expressamos o desejo de que as reivindicaes se conver-tam em um bem comum.Depois da tragdia, que tingiu a primaz de marrom, gri-tos e choros clamavam por justia. A ao do poder pblico e de empresas privadas colocou em dvi-TEXTO:Agliene MelquadesCarol VieiraFOTOS:Rodrigo Sena8ARTE: CLARISSA CASTROJaneiro 2016 9ARTE: CLARISSA CASTROJaneiro 2016CIDADANIABurocracia feita com mgoaMoradores dos distritos atingidos se veem de mos atadas depois de perderem a documentao bsica e registros de seus bensSolidariedade em meio dor A lama liberada aps o rompi-mento da barragem do Fundo da mineradora Samarco, no dia 5 de novembro, no destruiu apenas la-res, vidas e meio ambiente. Os re-jeitos de minrio misturados gua prejudicaram o convvio das comu-nidades atingidas e levaram um pe-dao da dignidade das vtimas. Os documentos so suportes para que qualquer pessoa consiga exercer sua cidadania. No t-los em mos difi-culta a comprovao das posses ou at mesmo da prpria existncia.Quando se depararam com a in-vaso da lama, os moradores dos dis-tritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo se preocuparam em se sal-var. Os bens materiais, assim como a documentao, se tornaram irre-levantes. Alguns resgataram o que puderam, outros perderam tudo, de certides de nascimento, carteiras de identidade e Cadastro de Pessoa Fsica (CPF) a documentos que en-volvem maior burocracia para serem repostos. Registros informais de ca-sas e automveis se dissiparam em meio aos escombros.Dei sorte porque meus docu-mentos estavam todos no alto, dei-xei pendurados na parede. As pa-redes molharam, mas a bolsa no, afirma Geralda da Penha Gomes, 57 anos, moradora de Bento Ro-drigues. A dona de casa conta que, hoje, s tem a documentao essen-cial por um milagre. Ela foi levada pela Samarco para buscar o que res-tou somente no dia 24 de novembro. At ento, estava sem os documen-tos bsicos e com medo de precisar fazer todos outra vez. Ao fugir, Geralda no pegou nada. Quando corri com meu me-nino, no teve jeito de pegar docu-mento. Nessa hora o mais impor-tante sair vivo. Ela revela que vem recebendo apoio da empresa, me-nos na questo documental. Apesar da perda da escritura, sua casa era registrada em cartrio, o que facilita a comprovao da propriedade.Nos distritos, por ser uma rea rural, grande parte dos imveis no eram formalizados. Os propriet-rios no dispem de documentos que certifiquem, legalmente, que eram donos dos pertences. Esse o caso de Vanda Emlia Teotono, 60, tambm dona de casa e mora-dora de Paracatu de Baixo. Ela per-deu a casa onde vivia, deixada de he-rana pelo pai e ajeitada aos poucos por ela. Fiz minha casa como pude. Era tudo novo, meus mveis... Tudo novo. Desde a tragdia, Vanda est morando com a irm em Mariana.Tinha acabado de chegar, na-quela quinta-feira fiz compras no mercado. S peguei minha bolsa e sa com a roupa do corpo, relem-bra. Atualmente, ela tem a carteira de identidade e o CPF, porque fica-ram na bolsa que protegeu.Vanda ainda no solicitou a se-gunda via da certido de nascimento e da carteira de trabalho, porque no est pronta para lidar com o proces-so. Para ela, o nico meio de atestar a existncia da construo a conta de luz em seu nome. O documento da Cemig comprova a residncia no lugar, no a posse do imvel.ProcedimentosNo dia seguinte ao rompimento, o Centro de Atendimento ao Cida-do (CAC) de Mariana, em parceria com a Secretaria de Estado de Direi-tos Humanos, a Polcia Civil de Mi-nas Gerais e o Sindicato dos Cart-rios (Recivil), iniciou mutires para que as pessoas pudessem refazer a documentao bsica. As equipes foram at os hotis e recolheram os nomes de quem precisaria. As aes j foram finalizadas, mas os servios regulares desses rgos continuam sendo preferenciais.A Cmara Municipal e o Cart-rio de Registro de Imveis de Maria-na garantiram que todos os afetados pela calamidade tm direito isen-o para retirar novas vias dos docu-mentos. A Cmara no soube infor-mar quantos deles foram atendidos desde 6 de novembro. Uma fon-te contou ao LAMPIO que a Sa-marco pagar a segunda via do do-cumento do carro e descontar no valor da indenizao. At o fecha-mento, 20 moradores de Bento Ro-drigues e Paracatu haviam ido ao cartrio para buscar as escrituras. Alguns voltaram de mos vazias. Dos 25 imveis procurados, apenas 10 foram identificados.Um ms aps o desastre, a Sa-marco ainda no tinha uma estrat-gia para ressarcir as vtimas, inclusi-ve as que esto sem a documentao comprobatria dos bens. De acordo com o analista de comunicao da mineradora, Thales de Toledo Fran-a, a empresa est focada em aes emergenciais. A Samarco no est discutindo indenizaes agora com nenhum dos atingidos, isso no a prioridade. O que estamos fazen-do o atendimento aos direitos hu-manos. A prioridade necessidade bsica como alimentao, moradia, gua e pagar contas.Thales afirmou que existe uma consultoria comeando a traar um plano para reembolsar quem no apresentar provas legtimas de suas posses. Isso vai entrar nesse plane-jamento, mas ainda no temos uma resposta. Ele assegurou que a Sa-marco cumprir os prazos estabe-lecidos pelo Ministrio Pblico. A empresa atrasou para cumprir as primeiras etapas do Termo de Ajus-te de Conduta (TAC).Segundo o promotor de Direi-tos Humanos da comarca de Maria-na, Guilherme Meneghin, a falta de documentos no empecilho para a indenizao; eles podem ser supri-dos pela prova testemunhal. As v-timas se enquadram em um meca-nismo jurdico chamado inverso do nus da prova. Nele, a parte prejudi-cada declara os bens e a outra que deve comprovar que ela no os pos-sua. A Samarco no pode se negar a ressarcir. Ela quem tem que pro-var que a pessoa no tinha aquilo, e ela no vai conseguir.Voc chega com uma palavra, um abrao, uma cesta e percebe que, em meio destruio, consegue ver sorrisos nos rostos dessas pessoas, conta Elmrio Eduardo de Almeida, 38 anos, sobre os atos de solidarie-dade aps a tragdia que deixou 16 mortos, trs desaparecidos e cente-nas de desabrigados em Mariana. O caminhoneiro se envolve em aes de diferentes situaes de ca-lamidade pelo pas. Por ter um jipe com facilidade para se deslocar, ele oferece ajuda queles que querem doar, mas no tm condies de che-gar a lugares precrios.Elmrio saiu do Mato Grosso e foi aos distritos atingidos para resga-tar vtimas, em apoio ao Corpo de Bombeiros. Desde ento, compra e recolhe donativos para levar aos que perderam tudo. Ele e quem o acom-panha nas misses consultam os moradores para descobrir do que es-to precisando. O perodo de dura-o de alimentos, remdios e gua considerado para que a prxima car-ga chegue no tempo certo. A solida-riedade parte das pessoas que esto na sua zona de conforto e se sentem incomodadas quando veem algum em sofrimento. Parte das pessoas de bom corao, define. E ento vejo como est sobrando em casa e acho que hora de ajudar. O caminhoneiro prefere entregar os donativos pessoalmente a quem necessita. Segundo ele, com esse trabalho voluntrio pode ter conta-to humano e experimentar a sensa-o de dever cumprido. Isso me faz muito bem, me sinto feliz e me gra-tifica muito. Para Elmrio, todos de-vem estar unidos para que a coope-rao tenha mais fora. Toda ajuda bem-vinda para essas pessoas. Va-mos nos por no lugar delas, porque um dia podemos precisar tambm.MobilizaoOs pontos oficiais de recolhi-mento de doaes foram criados pela Prefeitura de Mariana em par-ceria com Defesa Civil de Minas Ge-rais, Corpo de Bombeiros e Cruz Vermelha. Aps a tragdia, morado-res se voluntariaram para organizar os itens recebidos e amenizar o caos instalado. Com o apoio deles, os gal-pes foram estruturados aos poucos. Segundo o secretrio adjunto de De-senvolvimento Social e Cidadania de Mariana, Joo Paulo Batista, hoje a maioria dos que fazem esse trabalho so servidores pblicos municipais.As doaes foram armazenadas no Centro de Convenes e cerca de 940 pessoas podem receb-las. Tria-gens foram realizadas pela Assistn-cia Social para identificar as necessi-dades reais dos atingidos. Entre os donativos, esto arroz (230 kg), fei-jo (197 kg), colches (111), produ-tos de higiene (2104) e gua (84,3 mil litros). A Samarco disponibiliza transporte para as famlias buscarem as doaes. Em mdia, elas pegam o que precisam duas vezes por sema-na e os idosos comparecem menos.A mineradora responsvel por mobiliar as casas alugadas para os desabrigados e arcar com os uten-slios domsticos e enxovais. Ainda assim, quando foram encaminhadas para os imveis, as vtimas procura-ram cestas bsicas e roupas de cama no Centro de Convenes. A empresa abastece as casas com alimentos perecveis. Porm, a Sa-marco no se compromete mais com o suprimento aps a entrega do carto de auxlio financeiro. Ele con-tm um salrio mnimo por famlia, mais 20% para cada dependente e o valor de uma cesta bsica. At o fe-chamento do LAMPIO, 754 pes-soas haviam sido alojadas.Trs contas bancrias foram abertas pela Prefeitura para contri-buies em dinheiro e so adminis-tradas por uma comisso de rgos pblicos e moradores. Elas continu-am ativas e o arrecadamento foi de aproximadamente R$ 1 milho. O recebimento de donativos foi interrompido no dia 15 de novem-bro, por causa do acmulo de obje-tos. Joo Paulo Batista afirmou que a deciso foi tomada para tudo seja contabilizado e distribudo com efi-cincia. Apesar de a campanha es-tar finalizada, trs carregamentos de doaes chegaram na cidade na se-mana do dia 11 de dezembro.O secretrio diz que os rgos pblicos no tm como controlar aes independentes porque o ato de doar espontneo. Ele acredita que os que preferem contribuir as-sim tm medo de que as coisas no cheguem at quem precisa. A grande arrecadao em Mariana possibili-tou que donativos fossem direciona-dos para outras cidades, como Barra Longa e Governador Valadares.Riqueza tingida de lamaCom a produo afetada pelo rompimento da barragem, patrimnios locais podem se tornar uma raridade no comrciolidria. Francisca trabalhava com a Ahobero desde maio de 2014 e, nes-se processo, a associao ganhou um prmio do Banco Santander, que foi dividido em duas fases em 2014. O dinheiro, um total de R$ 100 mil, foi usado para ampliar e adequar a asso-ciao s normas da Anvisa.Imaterial comum escutar o discurso de que h alternativas para quem per-deu um patrimnio. A professora de Cincias Sociais da Ufop, Marisa Sin-gulano, 32, explica que, no caso da Ahobero, as mulheres podem voltar a produzir a geleia, j que o saber- -fazer no foi perdido. Ela ouviu de uma das mulheres da Ahobero que a perda mais importante foi a hist-Alm disso, uma diversidade de plantaes frutferas foi destru-da, juntamente com o trabalho de reflorestamento na beira do rio Gualaxo que ele vinha reali-zando. E, por enquanto, vou ten-tar tocar o que dou conta.Alm de vender suas hortali-as na feirinha, que acontece aos sbados no Centro de Conven-es de Mariana, ele tambm en-tregava orgnicos em comunida-des da regio. Flvio Ernani, 30, conta que vai feirinha h cinco. Ele muito simptico. Vou l e deixo tudo separado e busco de-pois. Flvio comeou a fazer isso porque os produtos do seu Wal-dir acabam rpido.Nas prateleiras dos pequenos co-mrcios, j no possvel encontrar as geleias de pimenta biquinho. A promessa de t-las de volta nos co-mrcios uma etapa adiada. A Aho-bero no se construiu de forma r-pida e do nada; foram anos para conquistar o que alcanaram. Agora que estavam prontas para avanar, o trabalho foi perdido. Tudo foi leva-do por um mar de lama. Produzida com a adio de frutas ctricas, acar e pimenta malagueta, alm da prpria biquinho, a geleia de pimenta era vendida em feiras e lati-cnios sob encomenda para revenda em Belo Horizonte e em pequenos comrcios da regio de Mariana. Ela foi concebida e produzida para aju-dar no desenvolvimento de um gru-po de pessoas e da comunidade. A Associao de Hortifrutigran-jeiros de Bento Rodrigues (Ahobe-ro) comeou em 2002, em Bento Rodrigues, com a produo de ver-dura processada. Em 2006, por in-centivo da Empresa de Assistncia Tcnica e Extenso Rural de Mi-nas Gerais (EmaterMG), a Aho-bero conheceu a pimenta biquinho, novidade no Brasil naquela poca. A ideia inicial era vender o produto em seu estado natural para a regio.No mesmo ano, o grupo decidiu mudar e passou a produzir a geleia de pimenta biquinho, estimulado por uma tcnica da Emater. A asso-ciao composta por nove pesso-as, que participavam de todo o pro-cesso de produo, desde o plantio e colheita (processo que levava trs meses) at a confeco da geleia.Com a incluso da Ahobero na Incubadora de Empreendimentos Sociais e Solidrios (Incop), projeto de extenso da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a associao adequou a produo s normas exi-gidas pela Agncia Nacional de Vigi-lncia Sanitria (Anvisa), inserindo o cdigo de barras nos produtos para poder vender a geleia em supermer-cados. Estava tudo organizado e pla-nejado para a ampliao das vendas. Keila Vardele Sialho dos San-tos, 42 anos, presidente da associa-o, conta que j chegaram a produ-zir mais de 7 mil potes em menos de uma semana devido a uma en-comenda de cestas. Em mdia eram produzidos 400 potes de geleia por dia. Neuza da Silva Santos, 39, uma das produtoras, comenta que, de-pois do rompimento da barragem, todo o maquinrio foi recuperado da sede da associao no subdistri-to de Bento Rodrigues, assim como cerca de 700 garrafas pets (de 1,5l e 2l) cheias de pimenta biquinho, hoje em posse da mineradora Samarco.Ainda havia 22 caixas e meia de geleia prontas, com 24 potes cada. Logo que ocorreu a tragdia, a pro-cura aumentou. Foram vendidas 21 caixas de geleias para apenas uma pessoa, pelo valor de R$ 10 cada pote. Antes da tragdia, o valor m-dio de venda era R$ 7,50.Sem expectativas, Keila e Neuza esperam em breve poder produzir geleia com as pimentas j colhidas e estocadas, assim como conseguir um novo espao para retomar a plantao e produo da geleia. Am-bas, contudo, ainda esto incertas de quando e como isso vai ocorrer.CooperaoConceito um tanto distante da economia tradicional, a economia solidria no est relacionada prio-ritariamente ao lucro, como explica a professora do curso de Engenha-ria de Produo da Ufop Francisca Diana, 36. A economia solidria est ligada autogesto e ao cooperati-vismo e ajuda no desenvolvimento social e local, associando o empre-endimento ao lugar onde est inse-rida. desenvolvida para a melhoria de vida das pessoas que trabalham nesses empreendimentos.Francisca, que participa da In-cop, vinha mapeando empreendi-mentos de Mariana, Ouro Preto e Joo Monlevade para incubar os que tivessem associados economia so-Conhecida na regio de Ma-riana por sua famosa coxinha, Sandra Quinto, 43, de Bento Rodrigues, espera recomear e recuperar um pouco do que per-deu. Assim como outras famlias que aguardam uma casa provi-sria e depois um lugar definitivo para morar, Sandra busca encon-trar uma que a permita continuar fazendo o que usualmente fazia. Emocionada, conta que, logo quando foi levada ao hotel, de-pois de perder a casa, conseguiu a cozinha emprestada e continua a produo de coxinhas e p de moleque, com a ajuda da irm, Terezinha. A procura pelos salga-dos aumentou consideravelmen-Produto artesanal e familiar, a cachaa Tiara foi mais um dos pa-trimnios da regio que teve a produo interrompida. O local onde o bagao da cana ficava ar-mazenado foi atingido pela lama do rompimento da barragem da Samarco. A tragdia afetou a pro-duo da cachaa, prevista para terminar apenas em dezembro. Segundo Juliano Siqueira, 37, gestor da empresa, quatro fun-cionrios formais e outros dez in-formais foram dispensados. O bagao serve como com-bustvel para o alambique onde produzem a cachaa. Numa safra, que dura, em geral, seis meses, chegam a ter entre 70 e 80 mil li-tros do produto. Como a produ-o anual, a Tiara no deve su-mir do mercado e, por volta de junho de 2016, a safra recomea.Desde 1940 no mercado, a cachaa Tiara, inicialmente Iara, produzida em Barra Longa. Antes de Juliano, o patrimnio foi administrado pelo pai, Benja-min e, antes dele, pelo av. A Tiara tem parceria com o departamento de Tecnologia de Alimentos da Ufop, que faz an-lises peridicas do produto. Em 2014, a Tiara foi premiada com medalha de ouro do Concurso Mundial de Bruxelas. Ela co-mercializada em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Campinas. Sandra, vida em reconstruo Tiara, iguaria de Barra Longa Seu Waldir, colher o que dCom um sorriso no rosto e muita disposio, seu Waldir Pollack, 69, morador de Paraca-tu de Baixo, conta sua histria. No dia 7 de novembro, foi a primei-ra vez que chegou feirinha onde vende suas hortalias de mos va-zias, para mostrar aos clientes que estava bem. Ficou ao lado da bar-raca toda a manh. Uma semana depois, ele j ti-nha o que vender, mas em menor quantidade. Com o rompimento da barragem, trabalhadores que o ajudavam na plantao foram afe-tados e no tiveram condies de continuar no subdistrito. A plantao grande e pos-sui uma diversidade de produtos. te e ela os vende congelados ou fritos, por R$50 o cento. Sandra trabalhou durante nove anos em casas de famlia, em Belo Horizonte, e l aprendeu a fazer o salgado. Mas o tempero dela e segredo. O casaro em que ficava o Bar da Sandra, que servia comida mineira, funciona-va como pousada. J tive casos de a pessoa almoar e pegar a coxinha pra levar na viagem.Hrica Mara, 22, frequentava desde a infncia o subdistrito e, sempre que dava, visitava os tios. Sobre as coxinhas, ela afirma: impossvel resistir. Ela tem mos de fada. E os doces tambm so maravilhosos.TRABALHOria. Ficou enterrada na lama. Essa memria se materializava em obje-tos, fotografias, recordaes, coisas que no sero mais recuperadas.Para Marisa, a associao faz parte da histria da comunidade de Bento Rodrigues. Era muito mais que vender; as pessoas envolvidas estavam juntas desde a plantao da pimenta at a colocao da geleia no pote. Havia uma relao entre o ter-ritrio e a vida de cada uma delas. Nesse lugar, todos colocavam em prtica o saber-fazer quando passa-vam por todos os processos da pro-duo. O territrio de uma comu-nidade , em parte, uma dimenso material a terra , mas, em parte, imaterial, o espao da vida, e isso se perdeu com a tragdia.MG - 129MG - 129MG - 262MG - 262MG - 326MG - 326Ouro PretoMarianaBento RodriguesParacatu de BaixoBarra LongaPedrasPonte NovaMendes CunhaF aCachoeira do Brumadoguas Clarasonsec Achado. Aps 19 dias, Geralda volta ao local da tragdia e recupera alguns documentos essenciaisIncerteza. Fabricao da geleia antes produzida em Bento Rodrigues no tem previso de ser retomadaEmpatia. Voluntrios ajudam na separao e organizao dos donativos para serem distribudos s vtimas; Centro de Convenes de Mariana o principal ponto de apoioMONIQUE TORQUETTIVoc chega com uma palavra, um abrao, uma cesta e percebe que, em meio destruio, consegue ver sorrisos nos rostos dessas pessoas.Elmrio Eduardo de AlmeidaFrancielle ramos mariana rennmariana rennColaboraram Flvio Ribeiro e Rafaella SouzaSABRINA PASSOSTAINARA FERREIRAFOTOS: TAINARA FERREIRACLARISSA CASTRO10ARTE: ALCIA MILHORANCEJaneiro de 2016 11ARTE: ALCIA MILHORANCEJaneiro de 2016Cruz sagrada, a f do povoAlm das quatro linhasO dia 5 de novembro de 2015 es-tar para sempre na memria dos moradores de Bento Rodrigues. Os rejeitos da barragem do Fundo le-varam vidas e interromperam so-nhos. Levaram tambm o verde das rvores, das plantaes, do gramado do campo, o verde da camisa de um time de futebol. S no foram capa-zes de levar a esperana.Onzio Izabel de Souza, 52 anos, tcnico do Unio So Bento, time do subdistrito destrudo, sonha com dias melhores. Ele era morador de Bento desde 1982. Mecnico, ca-sado e pai de quatro filhos, um apaixonado por futebol. O mar de lama que invadiu o lugar onde mo-rava causou dor e destruio. Per-di tudo, menos a minha famlia e a f em Deus. Onzio atleticano e tinha uma coleo com 77 camisas do time do corao. A recordao o emociona. Foi dodo, no gosto nem de lembrar, perder minha cole-o. Se pudesse ter pegado algo an-tes da lama chegar, certamente se-riam as minhas camisas e o Jason, meu cachorro.H mais de dois anos como trei-nador do Unio So Bento, ele diz que comandar a equipe era bom, prazeroso e motivador. Segundo Onzio, a unio do time no fica-va s no nome; dentro de campo o que se via era muita raa e vonta-de de vencer. Os atletas jogam por amizade, ressalta.O tcnico conta que os mora-dores sentiam satisfao em ajudar o grupo. A relao estabelecida en-tre equipe e comunidade era forte. A fonte de sustento do Unio So Ben-to costumava vir dos prprios joga-dores, cada um contribua da forma que podia. O primeiro uniforme que ele conseguiu depois que assumiu o comando da equipe foi comprado com recursos dos moradores. Onzio, que j foi jogador do time, enxergou no cargo de treina-dor a possibilidade de oferecer qua-lidade de vida por meio do espor-te. No comeo, foi para no deixar os moleques irem para a rua faze-rem coisas erradas. Depois de um tempo, ele passou a dar conselhos, percebeu que os atletas encaravam o grupo como uma famlia e que, aci-ma de tudo, se ajudavam.O campo da comunidade de Bento Rodrigues estava sendo re-formado custa da Samarco, e a reinaugurao estava marcada para dezembro de 2015. Ainda emocio-nado, Onzio se recorda dos quatro conjuntos de uniforme, dos mate-riais de treino, das redes novas dos gols e dos trofus que foram embo-ra na lama. Depois do rompimento, dois conjuntos de uniforme, que es-tavam em uma sacola, e um trofu foram encontrados por um torcedor do time que voltou ao subdistrito. SmbolosA equipe de Bento representava o lazer e um dos laos da comunida-de. Ravane Augusto da Silva, 23, tra-balhava no subdistrito como pintor e lateral esquerdo do Unio So Bento. Os atletas treinavam duas ve-zes por semana, e ir ao campo do lu-gar onde moravam era uma terapia. O futebol, para mim, tudo. O que mais gosto de fazer jogar bola. Ele refora o que pensa o tcni-co ao afirmar que a manuteno da equipe importante para quem vi-via em Bento Rodrigues. No pode parar no, seno perde a cultura do nosso lugar.Para o goleiro do time, Vitor de Souza, 18, estudante e ex-funcion-rio do Restaurante e Bar da Sandra, o campo significava muito pra co-munidade, porque foi l que a equi-pe sempre jogou. Desde pequeno, gostava de futebol. O jovem expli-ca que quer permanecer no grupo. Afinal de contas, sou o nico go-leiro do time, explica. Vitor relem-bra que a equipe estava h algum tempo sem disputar campeonatos e, mesmo aps o desastre, a inteno voltar a jog-los.Agora, certamente o time de Bento Rodrigues precisar de apoio. Mas, conforme garantiu o prefeito de Mariana, Duarte Jnior, colabo-rao no vai faltar. Vamos colocar o time para disputar campeonatos e buscar parceiros para pagar as des-pesas. Agora uma nova realidade, hora de demonstrar que d para sair mais forte de uma tragdia. O torcedor Gleison Alexandrino Souza, 31, tenta dar a volta por cima. Segundo ele, que encontrou os uni-formes perdidos na lama de Bento, a equipe uma das boas lembranas que restou do subdistrito. O time representa tudo hoje. S de termos na memria todas as coisas que pas-samos l, temos mais fora de von-tade e empenho pra continuar. A relao de afeto estabelecida com o Unio So Bento faz com que ele es-teja presente em todos os jogos. O pedreiro conta que sempre acompa-nha e incentiva o time.Das histrias de arquibancadas, Gleison se lembra de uma em espe-cial, durante um campeonato regio-nal, numa partida disputada na co-munidade de Vargem. Os torcedores do time da casa prestigiavam em peso a equipe mandante, enquanto os de Bento no tinham o mesmo apoio. O Unio So Bento come-ou jogando bem e logo abriu o pla-car. Os torcedores da casa, nervosos com o resultado, comearam a ame-aar os visitantes, dizendo: Pega a espingarda l. Apreensivos com as ameaas, os torcedores de Bento fo-ram embora, mas os atletas perma-neceram em campo. No fim, tudo no passou de um susto, e a equipe voltou com a vitria pra casa.Unio. Moradores buscam foras no futebol para manter esperanasAo caminhar pela rua do gin-sio, logo na chegada a Bento Rodri-gues, subdistrito de Mariana, impor-tante rota da minerao na Estrada Real, pude ver a corrida contra o tempo: casas no atingidas, destru-das pela metade e suas runas. No foi possvel chegar at meu destino, a Capela de So Bento.Uma das primeiras igrejas de Mi-nas, construda por volta de 1718, derrubada e reerguida no fim do s-culo XVIII, com o nome do padro-eiro da cidade, a capela lembrada com saudade pelos moradores. Mes-mo histrica, no era patrimnio tombado, tinha apenas um inven-trio. Construo simples, pequena, acolhedora; com paredes brancas, uma porta, duas janelas azuis e uma cruz latina que ficava na cumeeira.O altar, de madeira e decorado com anjos e adornos, retratava a arte barroca e guardava a imagem de So Bento. Um corvo, uma cobra, uma bblia e um cajado so referncias do padroeiro para os beneditinos. Havia tambm uma cruz, em aluso ao santo, simbolizando o livramento de So Bento e do seu povo de todo mal causado pela inveja, iluminando caminhos. Que a Cruz Sagrada seja minha luz, rege o santo em orao.H 30 anos, a imagem do padro-eiro foi pintada de marrom. Escon-der o brilho do ouro esculpido no objeto santo foi uma ttica dos de-votos, contra a vontade do pro-co Armando Godinho, para prote-ger a materializao da f de furtos e realocao em igrejas consideradas mais importantes pelas autoridades.Devoto de So Bento desde pe-queno, Jos do Nascimento Jesus, 70 anos, mais conhecido como Ze-zinho do Bento, relembra carinhosa-mente como foi acolhido quando se mudou para o subdistrito. O presi-dente da associao dos moradores de Bento ressalta a importncia de construir sua casa a 50 metros da ca-pela: Somos muito catlicos, amos igreja todos os dias. Sbados e do-mingos, com ou sem missa. A gente ia l sempre rezar para o Santssimo que ficava exposto.At que chegou o nmero 5. Po-deria ser a quantidade das flores co-lhidas no dia; a hora que o remdio deveria ser tomado; os minutos que faltavam para o recreio ou a hora que o sino da Capela de So Bento anunciava para os fiis. Mas foi o dia em que ele parou de bater.O dia em que a igreja teve, em questo de minutos, as paredes brancas tingidas de outra cor e, em seguida destrudas. Da estrutura nada restou. Como um redemoinho, o tsunami de rejeitos girou por toda Todos na escola, menos doisFernando CssioPaloma demartini a igreja e s deixou por l a pia ba-tismal, que tem na base, como de-corao, uma cobra. O marrom no veio para recordar a estrutura de pau a pique. O subdistrito, que vi-via da minerao, foi trado por ela. Bento Rodrigues agora monocro-mtico e carrega o tom terroso da lama por todos os lados. Cerca de 30 objetos santos fo-ram soterrados pela lama, como imagens de Nossa Senhora Apare-cida, Santo Antnio, So Sebastio e a imagem de So Bento. O cruci-fixo tambm havia se perdido, mas foi encontrado e devolvido ao pa-dre Armando. At o fechamento do LAMPIO, foram encontradas mais quatro peas, entre elas parte de um anjo barroco que ficava no altar, duas almofadas da porta cen-tral da igreja e fragmentos de um banco. Os arquelogos seguem trabalhando no local para en-contrar mais peas sacras ou parte delas.Internado desde o rompimento, o marido de Tereza Viana Silva, 78, Filomeno, era o procurador da igre-ja e responsvel pela chave do local. As toalhas do altar e paramentos da missa ficavam sob responsabilida-de dela, que lamenta: Estava tudo limpinho, engomadinho, agora t tudo sujo e perdido na lama!Com olhos marejados, Marcos Muniz, 52, genro de Tereza, con-ta que era tradio da famlia reali-zar batizados, 1as comunhes e ca-samentos na Capela de So Bento. As bodas de prata dele e da es-posa, Marinalda, segui-riam a tradio em 2017. Conceio Aparecida, 34, teve a cerimnia de casamento que tan-to sonhava em maio de 2015 na ca-pela e planejava comemorar o ani-versrio de 2 anos do filho, que tem necessidades especiais, no lugar. Depois de tanta luta pela vida dele, queria rezar uma missa na Capela para comemorar. Alm dela, ape-nas duas noivas se casaram no lugar este ano. Conceio, como Marcos, guarda na memria os planos que foram feitos. Entre os desejos dos dois, de Zezinho e Tereza est um novo Bento, com as mes-mas casas, capela e vizi-nhana. A lama le-vou tudo, mas no levou a f.EDUARDO RODRIGUESPATRIMNIOCIDADANIAESPORTEEDUCAOFoi dodo, no gosto nem de lembrar, perder minha coleo. Se pudesse ter pegado algo antes da lama chegar, certamente seriam as minhas camisas e o Jason, meu cachorro.Onzio Izabel de SouzaELMO DE OLIVEIRARenascer longe do BentoAps ter sua casa levada pela lama, perder histria e memria, Terezinha luta para reconstruir a vida com sua famliaPrisCila Ferreira STELA DIOGOImprovisado. Dona T abrigada em hotel enquanto espera novo lar Transio. 20 dias depois ela realocada para apartamento alugadoSTELA DIOGOOlhos expressivos, cabea baixa e poucos sorrisos. Fala firme, con-cisa e com pausas que gritam. Sen-timentos que transbordam em lgri-mas. Nervosismo misturado com ansiedade. Um turbilho de reaes em cada entrevista. Terezinha Quin-to, conhecida como Dona T, 49 anos, moradora de Bento Rodrigues (ex-moradora, do ex-Bento Rodri-gues?), viu seu trabalho, sua histria e memria serem levados no rom-pimento da barragem do Fundo da mineradora Samarco. O mar de lama avanou destruindo o que en-controu pela frente. Ao relembrar esse momento, que parece um pe-sadelo, Terezinha conta como pen-sa em reconstruir sua vida com a fa-mlia e fala sobre as dificuldades do processo de adaptao.Acostumada a cozinhar para muitas pessoas e a fazer vrias coi-sas no dia, como ela mesma diz: mexia o dia inteiro, menina, Tere-zinha acha difcil ficar sem sua roti-na. Percebo, ao observar seu jeito in-quieto, que lhe fora arrancado algo que ela no s cultivava, mas tinha como princpio: a liberdade. Sinto o n na garganta de Terezinha. Ela conta sobre a dificuldade de morar por mais de um ms em quar-to de hotel, com trs camas para ela e os dois filhos. No h espao para organizar a roupa. L, as visitas so preestabelecidas em horrios, assim como as refeies. No estou acos-tumada a ficar presa e a no ter pri-vacidade. Tem horrio para tudo. Tudo bem, regra deles, est cer-to, tem que respeitar... Mas a gen-te tinha o nosso cantinho. No pre-cisava estar nessa situao. A dor aumenta quando ela cita a frase do filho mais novo, Marlon, que, como ela, se cansou da situao. Ah, me, no aguento mais ficar preso!Alguns empecilhos foram en-contrados ao tentar voltar Bento Rodrigues para resgatar seus perten-ces. Cheguei a esperar no carro du-rante duas horas at algum vir fa-lar comigo. Terezinha conta que s conseguiu voltar no dia e horrio marcado pela Samarco.Outros obstculos so se adap-tar ao barulho da rua Dom Silvrio, violncia da cidade, ou at mesmo cama, que parece estranha demais. Em uma de nossas conversas, ela confessa o que tinha acontecido na noite anterior: Nunca tinha cado da cama. Desde pequena nunca ca da cama, mas naquela noite eu ca. Outra coisa que soa estranho, para quem vivia em uma tranquili-dade s, so os inmeros cadastros e reunies que j foram feitos, dos quais perdeu a conta. A incerteza de no saber como sero os prximos meses torna a espera ainda mais an-gustiante. A dor da perda daquilo que compunha sua identidade e suas lembranas atemporal. A casa da minha me se foi. As lembranas verdadeiras foram todas embora.Terezinha no quer voltar para onde nasceu. Por causa do trauma, ela no quer se mudar para uma rea rural, que lhe faa lembrar do mar de lama que arruinou sua vida. No quero mais casa no Bento, nem em lugar de terra. Se tiver como, quero um apartamento com trs quartos para os meus filhos e eu. Um prdio em que fique tambm minhas irms, pra gente no se separar.O prdio no chegou, mas, aos poucos, Terezinha enxerga a som-bra de alguns desses direitos. De-pois de semanas morando no hotel, foi transferida para um apartamen-to com trs quartos, cozinha, sala e rea. Ainda no a casa da gen-te, mas j melhor do que ficar no hotel. um espao mais amplo. A casa que tinha em Bento Rodrigues era de sua propriedade. Aos pou-cos algumas peas do quebra-cabea vo tomando forma, como o traba-lho, que agora passa a ser feito qua-se todos os dias na cozinha do hotel em que estava, onde sua irm San-dra permanece. Com o tempo, Tere-zinha tambm recebeu da Samarco um carto cujo valor se aproxima a R$ 1.500. O contrato do apartamen-to ainda ser fechado, mas provavel-mente valer para 2016. O apartamento foi mobilia-do pela Samarco com peas padro-nizadas. Todos vm com os mes-mos mveis, no escolhidos pelos ocupantes. A filha no ganhou um guarda-roupa, apenas uma cmo-da. Terezinha pretende dar o mvel menina. Est bom. No igual como se a gente escolhesse, mas est bom. Como a casa de Bento era maior, as coisas recuperadas por ela em meio lama no cabem no apar-tamento. Terezinha est arrumando o lugar aos poucos. Os alimentos, como frutas, ar-roz e carne chegam a cada semana, mas tudo isso no se compara com o sentimento de mais uma perda: a mudana do local em que passava o Natal e Ano Novo h anos. O almo-o, a ceia e, at mesmo, a troca de presentes ocorriam naquele lugar. O sentimento gerado por esse desloca-mento ainda de muita confuso. Para a professora de Servio So-cial da Ufop, Cristiane Nobre, 42, os atingidos pela barragem, como a fa-mlia Quinto, tm direito ao acesso a todas as polticas que tinham an-tes: sade, educao, assistncia, en-tre outros. Nesse processo, o papel do assistente social acompanhar o percurso e ajudar na compreen-so de que tudo isso seja percebido como direito dos atingidos e no fa-vores prestados pela Samarco. Eles precisam continuar sendo assistidos para alm do atendimento emergen-cial, isso no pode se perder, res-salta. Cristiane ainda explica que importante pensar aes para mi-nimizar os danos causados, que, se-gundo ela, no so possveis de se-rem totalmente reparados. O municpio planeja polticas pblicas para disponibilizar esses atendimentos, mas no pode se so-brecarregar e deixar de atender as demandas j existentes. Caso fal-te pessoal, por exemplo, a Samarco pode contratar esses profissionais que sero inseridos na rede desen-volvendo aes para atender a esse pblico. Muitos servios devero continuar disponveis para essas fa-mlias de acordo com suas necessi-dades, explica Cristiane.A esperana de Terezinha que a Samarco construa um novo bairro, o So Bento, para abrigar as fam-lias atingidas. Nele, quer ter sua casa prpria sem quintal. A expectati-va de ganhar a moradia transfor-ma o choro em sorriso, a ansiedade em esperana e o desespero j no transparece mais. Ser ressarcida com uma nova casa significa renascer para uma vida que at o momento tem sido um pesadelo. Quando ga-nhar a casa, vou chorar igual quan-do perdi a minha. A vou sentir real-mente que nasci de novo, porque at agora parece que ns estamos mor-tos. Ou ento que a gente est dor-mindo e no acordou ainda. Adaptao. Crianas do subdistrito atingido tentam retornar rotina escolar apesar das dificuldadesSobreviventes do rompimento de barragem, meninos e meninas voltam sala de aula aps a perda de colegas, lembranas e afetosChego para conversar com Cris-tiam, 8 anos, em um dos hotis que alojam moradores dos subdistri-tos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. Encontro o garoto senta-do no cho do quarto, olhos fixos na TV. Pergunto o que tanto lhe pren-de a ateno e ele me responde que um desenho, que nem sabe o nome. O pai, que acompanha o fi-lho durante a entrevista, diz que ele e o amigo Flvio gostavam de andar de bicicleta o tempo todo. Cristiam se entristece. Pergunto sobre a bici-cleta. Perdi. Cristiam no conse-gue mais brincar com Flvio. Como est no colgio? Estou gostando, responde timidamente. L na nossa escola, tinha Lego e nessa no tem. As mesas de l eram de madeira e aqui tudo de plsti-co, compara. E a merenda? Era mais gostosa. Por qu? Cristiam no sabe explicar. O garoto sabe que as cozinheiras vieram para a nova escola e ajudam a preparar o lanche. A professora a mesma? Concor-da com a cabea. E os coleguinhas? Tem um que morreu Na lama. Ele se chama Thiago.No hotel em que Cristiam se hos-peda, conheo Silvany, tambm de 8 anos. Ela estudava na Escola Muni-cipal de Bento Rodrigues, na mesma turma de Cristiam e Thiago Damas-ceno, uma das vtimas da tragdia. Outra vtima, Emanuele Vitria Fer-nandes, 5, tambm estudava l. Na nova escola, Silvany brinca com to-dos os coleguinhas, menos um. Ele no se salvou. Algumas pessoas di-zem que encontraram ele morto, ou-tros dizem que no.A saudade da antiga escola e de Bento aparece nas falas de Silvany. Tinha a quadra e um parquinho para os meninos menores. Ela gos-tava muito de brincar na rua e de pular corda. Brincava tambm no barro, sujava a roupa toda e minha me brigava. Silvany e Cristiam no tm mais a grandeza de Bento. Eles j no soltam pipa, nem brincam de amarelinha, nem andam de bicicleta. Agora, alm da televiso, Cristiam tem carrinhos e Silvany tem bone-cas, doados. A nova escola, no mo-mento um local estranho para am-bos, parece ser mais prximo do que eles viviam em Bento, j que nela re-encontram amigos, professores e constroem novas lembranas.Depois do encontro com as crianas, converso com a secret-ria da escola de Bento, Miriam Go-mes, que foi transferida para a Es-cola Municipal Dom Luciano, no Alto Rosrio. Como era a escola? Era a escola perfeita. Onze horas o cheiro do almoo ia l na secre-taria, lembra, sorrindo. E na hora do recreio? As merendeiras serviam cada menino e perguntavam: O que voc quer? Uns diziam: Ah, quero s arroz, quero s verdura. J ou-tros: Ah, quero s angu com couve. At esse cuidado, esse carinho, tinha como ter. A secretria, porm, tem tido problemas para se adaptar de-pois da tragdia. T com dificul-dade de estabelecer rotina. Saa 6h, chegava 17h40 e dava conta de tudo. Hoje eu saio 7h30, chego 17h20, e no dou conta de nada.Para a pedagoga da escola de Bento, Alcione Arajo, funcion-rios e alunos esto com dificuldade para se adaptar. Eles pedem a roti-na, mas no depende s do profes-sor, e vai levar tempo. Acho que em fevereiro, quando comear o ano le-tivo e as coisas se assentarem um pouco, melhora. Est tudo baguna-do na cabea deles, mas esto fazen-do tratamento com especialista em traumas, afirma. E o colgio antigo?Aps o rompimento da barra-gem de rejeitos do Fundo, da Sa-marco, o prdio da escola foi to-talmente destrudo pela lama. De acordo com a secretria Miriam Gui-mares, a empresa no ligou avisan-do do rompimento. Eles souberam s 16h03, pelo marido da diretora, que a lama estava chegando. Para conseguir se salvar, os 40 alunos e 10 funcionrios que estavam no pr-dio correram em direo Igreja de Nossa Senhora das Mercs, que fica na parte mais alta do distrito. S fo-ram resgatados no dia seguinte.Dez dias depois, a Prefeitura de Mariana encaminhou 178 alunos, 102 de Bento Rodrigues e 76 de Paracatu de Baixo, que cursam en-tre a pr-escola e o 9 ano do En-sino Fundamental, Escola Munici-pal Dom Luciano, para retomarem os estudos. Tambm foram transfe-ridos para a nova escola os 43 pro-fissionais que atuavam nos distritos atingidos. Os alunos do ensino m-dio continuam nas escolas em que estudavam em Santa Rita Duro e guas Claras, antes da tragdia.De acordo com o ento secre-trio interino de Educao de Ma-riana, Israel Quirino, os alunos que esto na Escola Municipal Dom Lu-ciano iro permanecer na instituio, pelo menos, at o incio do ano leti-vo em fevereiro. Quirino teme que esses estudantes no voltem, em sua totalidade, para a mesma escola em 2016. Trabalhamos a hiptese de que a escola do Bento seja esvaziada por causa da disperso das famlias.L moravam numa vila e aqui esto espalhados pela cidade, completa.Para Quirino, enquanto a Samar-co no reconstruir a escola, h pos-sibilidade de esses estudantes serem transferidos para um espao menor, por causa dessa possvel disperso, avalia. Ainda segundo ele, se isso ocorrer, a responsabilidade finan-ceira de achar esse espao, de ade-qu-lo, da Samarco. O secretrio de Educao afirma que o valor mdio mensal investido pela Prefeitura nos alunos de Bento de R$ 700 por criana. Levando em conta o nmero de alunos da unida-de, eram investidos em torno de R$ 80 mil por ms na escola do distri-to. Depois da tragdia, a mineradora ofereceu kits escolares e transporte para os alunos e funcionrios. Alm disso, a Samarco contratou uma em-presa da rea de psicologia para fa-zer acompanhamento.aleone HigidioLARISSA VIDGALElas tm muito a falar sobre o passado, sobre como agir no presente e possibilitar o futuro. com elas que agora enxugamos e secamos as lgrimas para acordar e lutar, mais uma vez, pelos nossos sonhos.As mos que antes ficavam sujas. Litros de graxa e leo depois de inmeras horas de trabalho em uma correia para transportar minrio. Agora, totalmente limpas, apertam uma elegante gravata borboleta e tm pela frente mais uma noite de trabalho como garom. Elas no perderam o equilbrio e carregam a bandeja com humildade e perseverana.As mos que seguram uma foto. A horta ficava em um terreno herdado do pai em Bento Rodrigues. L as mos aprenderam a cultivar frutas, verduras, flores. Ainda que a casa no exista mais, as mos no se abaixaram para desistir e hoje jogam, em outro pedao de terra, as sementes de uma nova vida.As mos que seguram a esperana, as mos que agarraram firme outras mos quando a lama veio sem avisar. por essa esperana que pais e mes se sacrificam todos os dias. por essa esperana que essas mos, maiores e mais calejadas, se sujam de diferentes modos e maneiras. por essa esperana que acreditamos que, para todo fim, h um recomeo.12ARTE: LARA MASSAJaneiro de 2016ENSAIOFOTOS E TEXTO: THIAGO BARCELOSO que as mos podem dizer? CapaPgina 2 e 3Pgina 4 e 5especialPgina 8-9Pgina10-11Pgina 12