Jornal Lampião - 21ª Edição

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O Jornal Lampio uma publicao laboratorial do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto. Dezembro de 2015

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  • 2ARTE: LGIA CAIRES

    Janeiro de 2016 3ARTE: LGIA CAIRES

    Janeiro de 2016

    Quem paga a conta?

    se referiu ao Planalto. O rgo informou, pela as-

    sessoria, que no atribuio do DNPM fiscalizar a cons-truo fsica das barragens, nem suas alteraes, nem sua manuteno, ressaltando que a obrigao principal dos r-gos ambientais, que fazem o licenciamento das estruturas.

    A Vale e a BHP Billiton negam responsabilidade pela tragdia. A Vale realmen-te no tem qualquer respon-sabilidade pelo infeliz e triste acidente, alega um acionis-ta da mineradora brasileira. A Samarco classifica o rom-pimento da barragem como acidente. A Samarco e o go-verno de Minas no respon-deram as perguntas feitas pela reportagem do LAMPIO.

    Poo sem fundoMais de 600 pessoas perde-

    ram casas, plantaes, animais e bens na tragdia de Ben-to Rodrigues. A Defesa Civil planeja demolir o que no fi-cou submerso, mas ainda no h definio sobre o que ser feito com o lugar onde era a comunidade ou se a lama ser retirada. Tambm no h data para as derrubadas do que res-tou. Mais de 11 mil pescado-res e ribeirinhos foram afeta-dos com a morte de milhes de peixes ao longo do percur-so do Rio Doce, entre Minas Gerais e Esprito Santo.

    Mesmo pressionada pela Justia, a mineradora Samar-co ainda no se comprome-teu a pagar os R$ 1.500 mais 30% por dependente, pedido feito pelos prprios morado-res, que esto limitados a ape-nas um salrio mnimo mais 20% por dependente. A em-presa pretende dar R$ 10 mil para cada famlia recomear sua vida, e descontar desse va-lor anunciado eventuais inde-nizaes judiciais.

    At o fechamento do LAMPIO, a Samarco se ne-gava a cumprir os 21 itens propostos pelas comunidades e representados pelo Minist-rio Pblico por meio de um acordo. A negativa gerou uma ao civil pblica contra a mi-neradora e suas acionistas.

    sonoro para alertar os mora-dores sobre o rompimento da barragem. O procedimento, que deveria constar no Plano de Aes de Emergncias da mineradora Samarco, era des-conhecido pela Prefeitura de Mariana, pelo DNPM e pelo governo de Minas Gerais. Esse ltimo soube do rom-pimento em Bento Rodrigues somente aps duas horas, conforme relatrio do N-cleo de Emergncia Ambien-tal (NEA), rgo da adminis-trao estadual destinado a acidentes. Pela lei, a empresa responsvel por enviar os do-cumentos aos rgos de fisca-lizao e demais interessados, como a Prefeitura.

    A falta de preveno para o subsdistrito, distante 5 km dos diques, foi confirmada por Ricardo Vescovi. Segun-do ele, a ao de emergn-cia previa contato telefnico para as autoridades da regio de Mariana, como a Prefeitu-ra e a Defesa Civil. A empre-sa chegou a afirmar que a co-munidade foi avisada, porm no esclareceu quantas ca-sas teriam recebido a ligao. O LAMPIO no encontrou moradores que confirmassem o suposto comunicado.

    Somente em Mariana, a Prefeitura estima por volta de R$ 100 milhes em perdas, entre as quais as 15 pontes, duas escolas e 250 casas des-trudas. Cerca de 3800 pesso-as foram afetadas direta e in-diretamente no municpio. Os nmeros de atingidos podem resultar em aes individu-ais contra a Samarco por da-nos morais, relata o promotor Guilherme Meneghin.

    As multas e acordos com a empresa j somam mais de R$ 1 bilho, com possibilidade de subir para R$ 50 bilhes. Po-rm, o prefeito Duarte Jnior (PPS) diz que no h inte-resse em cobrar os danos da empresa atravs de uma ao judicial. Vamos levantar esse valor, conversar com a em-presa para que ela faa investi-mentos no municpio. A gente entende que se fizer uma ao contra a empresa, isso pode

    As causas sobre o rompi-mento da barragem do Fun-do, da Samarco, ainda no foram esclarecidas pelos r-gos pblicos e as anlises contratadas pela empresa de-vem se arrastar por meses, se-gundo o diretor-presidente da mineradora, Ricardo Vescovi. Para o promotor do Minist-rio Pblico de Mariana, Gui-lherme Meneghin, no h d-vidas de que a mineradora foi negligente antes, durante e depois [do desastre].

    Sem todas as respostas da tragdia que destruiu o sub-distrito de Bento Rodrigues, deixando 15 mortos e quatro desaparecidos, a empresa in-vestigada por meio de trs in-quritos criminais, quatro in-quritos civis, uma preparao de laudo e uma avaliao de causas. At o fechamento da edio, a mineradora era pro-cessada por uma medida cau-telar e 13 aes civis.

    O julgamento da empresa dever ocorrer aps a conclu-so dos pareceres preparados individualmente pelo MP Es-tadual e Federal, Departamen-to Nacional de Produo Mi-neral (DNPM), polcias Civil e Federal e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentvel (Semad). As apuraes crimi-nais devem ser submetidas ao Ministrio Pblico, e, em se-guida, a Justia dever decidir se as acata ou no.

    De acordo com Guilher-me Meneghin, a principal fa-lha, entre uma srie de outros erros, foi a ausncia do aviso

    demorar 15, 20 anos, e esse no o melhor caminho.

    Mais minrioEm 5 de novembro, a bar-

    ragem do Fundo passava por um alteamento. A obra seria til para acomodar novos re-jeitos, conforme explica o ge-rente geral de projetos da Sa-marco, Germano Lopes.

    A Vale, acionista da em-presa em conjunto a BHP Billiton, tambm contribua com o aumento de volume minerrio, sendo responsvel por quase 30% do total despe-jado em 2014, segundo laudo do DNPM. A Vale nega a in-formao e diz que depositou apenas 5% do volume total na barragem do Fundo.

    A recente divulgao de laudos e auditorias revelou que a Samarco teve quatro vazamentos em 2005, 2006, 2008 e 2010. Alm disso, pa-ralisou um plano que iria pre-parar aes de emergncias em 2009, obteve a licena am-biental sem o aval do Minist-rio Pblico e foi recomendada a aplicar 10 medidas de repa-ro no complexo de Germano. A empresa ainda esteve envol-vida em um processo por im-pedir a fiscalizao minerria.

    Jogo do empurraO DNPM, rgo fede-

    ral vinculado ao Ministrio de Minas e Energia, respons-vel por fiscalizar o setor de minerao, incluindo 700 bar-ragens de rejeitos em MG. A autarquia possui quatro tcni-cos no territrio mineiro e ca-rece de infraestrutura. Para a Comarca de Mariana, os n-meros so insuficientes.

    De janeiro a outubro de 2015, o Governo Federal dis-ponibilizou somente R$ 1,2 milho para a fiscalizao de atividades minerrias; em todo o ano de 2014, foram R$ 3,6 milhes. O DNPM atribui a queda de investimento crise fiscal. De acordo com Meneghin, o Governo Federal est ausente diante da tra-gdia e a prefeitura faz papel de palhao. reportagem, o prefeito minimizou a declara-o e acredita que o promotor

    Opinio

    Jornal-laboratrio produzido pelos alunos do curso de Jornalismo Instituto de Cincias Sociais Aplicadas (ICSA)/Universidade Federal de Ouro Preto Reitor: Prof. Dr. Marcone Jamilson Freitas Souza, Diretor do ICSA: Prof. Dr. Jos Benedito Donadon Leal, Chefe de departamento: Profa. Dra. Virgnia Alves Carrara, Presidente do Colegiado de Jornalismo: Profa. Dra. De-nise Figueiredo Barros do Prado Professoras responsveis: Karina Gomes Barbosa (Reportagem), Ana Carolina Lima Santos

    (Fotografia) e Talita Aquino (Planejamento Visual) Editor-chefe: William Vieira Editora de Texto: Hariane Alves Editora de Arte: Dbora Mendes Editor de Fotografia: Pedro Menegheti Reprteres: Agliene Melquades, Aleone Rodrigues, Alexandro Galeno, Carol Vieira, Camila Guardiola, Caroline Hardt, Fernando Cssio, Flvio Ribeiro, Francielle Ramos, Mariana Renn, Paloma Demartini, Priscila Ferreira Fotgrafos: Eduardo Rodrigues, Larissa Lana, Monique Torquetti, Rodrigo Sena, Sabrina Passos, Stela Diogo, Tainara Ferreira, Thiago Barcelos Diagrama-dores: Alcia Milhorance, Clarissa Castro, Elmo Alves, Lara Massa, Lgia Caires, Lusa Rodrigues Multimdia: Caio Aniceto, Caroline Rooke, Gabriella Visciglia, Thamiris Prado Reviso: Anna Flvia Monteiro, Pedro Guimares Monitoria: Catarina Barbosa, Silmara Filgueiras, Stnio Lima Colaborao: Fernando Ciraco e Rafaella Souza Tiragem: 3.000 exemplares. Endereo: Rua do Catete, n 166, Centro. Mariana MG. CEP: 35420-000.

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    Caos e esperanaEditorial

    Charge

    Crnica

    No meio do caminho

    No h interesse de cobrar da empresa atravs de uma ao judicial. Vamos levantar esse valor, conversar com a empresa para que ela faa investimentos no municpio.

    Duarte Jnior

    Milhes de multa do Ibama

    Flvio RibeiRo

    HaRiane alves

    Naquela quinta de novembro, o tempo estava esquisito, transitando entre pancadas de chuva e o apare-cimento do sol na Regio dos In-confidentes. Era uma tarde comum, at que a lama veio e engoliu tudo pelo caminho. Os moradores de um Bento Rodrigues que comeava a ser tingido, quebrado, engolido, de-vastado corriam para salvar suas vidas. Era uma tarde como qualquer outra at no ser mais.

    Poderia ter sido muito pior. Muito. Se tivesse sido noite No quero nem pensar, conta Ve-rnica, enquanto olha para os des-troos que outrora foram sua casa e tenta esconder as mos trmu-las e lgrimas que insistem em cair. Foi o pior dia da minha vida. Da vida da gente. A gente perdeu tudo,

    perdeu amigos. Fomos arrancados das nossas casas... Mas a Pedra aju-dou. A Pedra segurou a lama. Ti-nha uma pedra no meio do caminho. Uma pedra que fez o que a Samarco no conseguiu: dar tempo para que os moradores de Bento salvassem uns aos outros. Uma pedra que di-minuiu, mesmo que minimamente, a fora da lama, que insistia em des-truir tudo sua volta.

    Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, falou o poeta. E foi aclamado pelo povo que tambm no vai esquecer. Pelas pessoas que olharam uma l-tima vez para a Pedra e para Ben-to e viram a lama mudar as suas vi-das. Para o seu Antnio, foi a mo de Deus que segurou a lama. A si-rene inexistente e a falta de respostas e avisos da mineradora foram subs-titudos pela Paula com sua moto e

    seus gritos; pela Pedra que retardou o avano da destruio; pela mo de Deus, que no permitiu que a barragem estourasse na calada da noite. A unio e o cuidado com o outro salvaram vidas e fizeram com que a lama no levasse mais pessoas.

    A Pedra, que fazia parte do ter-ritrio do subdistrito, foi engolida pelos rejeitos. Agora impossvel localiz-la. At isso a lama levou. Ela no conseguiu resistir ao tsunami de rejeitos, mas fez bem o seu papel. Manteve-se firme, ajudou a prote-ger a comunidade e depois desapa-receu no deserto que agora Ben-to Rodrigues. Mas o seu significado permanece na lembrana daqueles que no podem esquecer. No sa-bemos o que teria acontecido se a Pedra no existisse, mas tinha uma pedra no caminho. Uma pedra que fez toda a diferena.

    Reforando seu ideal jornalstico e o compromisso com a regio, esta edio do LAMPIO abre espao para publicar parte das perguntas enviadas mineradora Samarco e ao Governo de Minas Gerais. No obtivemos respos-ta para os questionamentos em nenhum dos canais de acesso da empresa e do governo. Tambm publicamos aqui inquietaes rel-ativas tragdia, as quais ainda no foram esclarecidas toda a populao de Mariana e distritos.

    Samarco- Quais eram os projetos desen-volvidos pela empresa para a populao de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo?

    - Quanto foi gasto com esses projetos de 2009 a 2014? (Especificar o valor da cada ano). Quais foram os resultados dess-es projetos nas comunidades de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo?

    - H algum projeto realizado com os moradores de Bento e Paraca-tu de Baixo que vem como uma ao emergencial a fim de am-parar os atingidos dos distritos? Qual a quantia at agora direcio-nada para essas aes? Elas ocor-rem em parceria com alguma or-ganizao pblica ou privada? Quais seriam?

    Ao Governo de Minas Gerais- Cerca de 20 dias aps a tragdia foi aprovado um projeto proposto pelo governo estadual, acelerando as concesses de licenas ambien-tais para empresas de minerao. Levando em conta os prejuzos decorrentes do rompimento da barragem do Fundo e o caso an-terior, que matou trabalhadores em Itabirito, no um erro um projeto como este ser aprovado?

    - O projeto que afrouxa a con-cesso das licenas ambientais para

    mineradoras foi debatido com al-gum setor, entidade ou com a populao envolvida?

    - Parte dos moradores de Mari-ana esto protestando para que a empresa no termine suas ativi-dades na cidade, temendo desem-prego. O Estado pretende entrar neste assunto, uma vez que o fim da ati-vidade pode afetar tambm na arrecadao de Minas Gerais?

    - Sabendo que a economia de Mariana majoritariamente man-tida pelo setor de minerao, cerca de 83%, o governo do Estado pre-tende criar uma ao antifaln-cia para o municpio? Ou se tra-ta de uma obrigao exclusiva da administrao municipal?

    - Segundo a Feam, erros foram detectados no volume de rejei-tos. E mesmo com a constatao, os dados continuaram a ser pub-licados de maneira defasada des-de 2012. Por que no houve ne-nhuma interveno durante tan-to tempo?

    Inquietaes

    - O que justifica a dificuldade de se conseguir, na regio de Ouro Preto e Mariana, aps o rom- pimento da barragem, um es- pecialista em direitos ou meio ambiente?

    - Que processos sero aplicados para minimizar os efeitos da lama de rejeitos que atingiu o mar? Quais as atitudes a serem toma-das para solucionar ou reduzir os danos ambientais causados?

    - Que aes a Samarco preten- de adotar para recuperar as reas devastadas? Em que pra- zo a empresa pretende executar esse processo?

    - O que ser feito com a lama que tomou conta do subdistrito de Bento Rodrigues? Como e quan-do ela ser retirada do local?

    Bilhes para o Governo Federal, ES e MG

    Bilho em acordo com o Ministrio Pblico de Minas e o Federal

    FOTO

    S: S

    ABR

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    ROD

    RIG

    O S

    ENA

    Reais mensais por famlia em acordo com o Ministrio do Trabalho

    Milhes blo-queados pelo MP de Mariana

    Milhes de prejuzo para a Prefeitura de Mariana

    Quem matou o tempo? No sculo XIX, o escritor e poe-ta estadunidense Henry David Thoreau garantiu que no se-ria possvel praticar tal fei-to sem desonrar a eternidade. Duzentos anos depois, no dia 5 de novembro de 2015, por vol-ta das quatro da tarde, o tem-po cessou numa terra chamada Bento Rodrigues. Era o ann-cio do fim. Com ele, a exigncia de um recomeo por parte dos sobreviventes, afinal, o tempo parou em Bento, mas no no resto do mundo.

    Uma tragdia de estragos incalculveis, que atingiu tam-bm Paracatu de Baixo (onde a foto de capa foi tirada), Barra Longa, Camargos, entre outros, alm de devastar o Rio Doce. A cada segundo, as facetas de gru-pos de poder se escancaravam. Na contramo, a solidariedade do povo nos fez crer novamente no ser humano e fez valer uma velha mxima: a esperana

    a ltima que morre. Enquanto Mariana tentava resistir graas prpria comunidade, os atingi-dos permaneciam e ainda se-guem merc de um novo fu-turo, que est para ser escrito.

    Nas ruas da primaz de Minas, a boataria, a omisso, a sub-misso e a culpa se perpetua-vam. Como cenrio, eternidades ceifadas e pessoas em fase de readaptao, lutando contra o choque de realidade de um mun-do que no lhes pertencia. E agora? o que nos pergunt-vamos e ainda repetimos. Bento j no existe. Como sobrevi-ver apesar disso? Esta edio do LAMPIO conv...