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Quatro entrevistas se destacam nesta edição: - Autor do livro Memórias de Uma Guerra Suja, Rogério Medeiros afirma que a imprensa "só desceu da companhia dos militares quando o regime mostrou a sua podridão interna". - Natalia Viana fala do início de carreira, seu aprendizado na Caros Amigos, o trabalho nos Centros de Jornalismo Investigativo, o encontro com Julian Assange, e o surgimento da Pública - Agência de Jornalismo Investigativo, uma experiência inédita no Brasil que valoriza o trabalho do repórter. - Nas duas outras entrevistas, Marco Morel fala de seu avô, o jornalista Edmar Morel, cujo centenário se comemora neste ano; e Fernando Meirelles bate um papo com Celso Sabadin a respeito de seu novo filme. Outros destaques da edição: - O obra do cartunista argentino Liniers ganha mostra no Brasil; - Outro que tem sua obra exposta: o cineasta Méliès, que levou o homem à Lua; - Nelson Rodrigues fez histórias em quadrinhos no começo de carreira; - A paixão segundo Joe Kubert.

TRANSCRIPT

  • PGINA 44

    Nelson Rodrigues e seucomeo editando quadrinhos

    CARREIRA

    381AGOSTO

    2012

    Emoo e lgrimas em ato da 61 Caravana da Anistia, no Rio

    VIDAS JLIO BRAZIL IRAMAYA BENJAMIN JOE KUBERT HARRY HARRISON

    RGO OFICIAL DA ASSOCIAO BRASILEIRA DE IMPRENSA

    MA

    RTIN

    CA

    RO

    NE D

    OS SA

    NTO

    SJO

    S D

    UA

    YER

    PGINA 36

    Georges Mlis, o cineastaque levou o homem Lua

    CINEMA

    PGINA 42

    A arte genial de Liniersem exposio no Brasil

    ARTE SEQENCIAL

    PGINA 27 PGINA 12PGINA 12Edmar Morel, um reprter sem medoEdmar Morel, um reprter sem medo

    PGINA 30

    PGINA 5

  • 2 JORNAL DA ABI 381 AGOSTO DE 2012

    DESTAQUES

    UM INVENTRIO DO HORROR

    03 ESPECIAL - Memrias de uma guerra

    que ainda sangra

    09 REFLEXES - Os demnios esto de volta,

    por Rodolfo Konder

    10 COMEMORAO - Os 80 anos da ACI, a voz

    da comunicao em Santa Catarina

    11 DISPUTA - A guerra de audincia dos Jogos Olmpicos

    12 CENTENRIO - Edmar Morel,

    um gigante do jornalismo

    18 LEGISLAO - O Senado aprova

    a Pec do Diploma

    19 SUGESTO - Ca prope nome

    de Abdias para a Via Light

    20 IMPRENSA - O resgate histrico

    do Estado

    29 CINEMA - Fernando Meirelles, um

    cineasta internacional made in Brazil

    30 DEPOIMENTO - Natalia Viana, olhar independente

    35 CULTURA DE MASSA - A guerra global das mdias

    36 CINEMA - A ressurreio de Mlis,

    que levou o homem Lua

    39 COMEMORAES - O Brasil festeja trs

    mestres da mpb

    42 ARTE SEQENCIAL - Liniers, o idioma

    das coisas que passam

    44 CARREIRA - Os quadrinhos de Nelson Rodrigues

    SEES

    080ACONTECEU NA ABI

    Estudantes de Jornalismo visitam a Casa

    26 LIBERDADE DE IMPRENSANo Par, Prefeito candidato ameaa

    jornalistas de O Globo

    27 DIREITOS HUMANOS

    Emoo e lgrimas na Caravana da Anistia

    VIDAS

    46 A paixo segundo Joe Kubert

    47 Iramaya Benjamin, Jlio Brazil, Harry Harrison

    EDITORIAL

    MAURCIO AZDO

    SO ESTARRECEDORAS AS REVELAES fei-tas em depoimento aos jornalistas RogrioMedeiros e Marcelo Netto pelo ex-Delega-do do Dops Cludio Guerra, que expe comriqueza de pormenores os crimes cometidosnos pores da ditadura sob a chefia dele e deoutros criminosos que serviram ditaduramilitar 1964-1985, como o Delegado SrgioFleury, um dos monstros que infestaram osistema de represso desse perodo omino-so da vida nacional.

    AGORA TRAVESTIDO DE PRCER religio-so, como se sua alegada f pudesse absolv-lo dos crimes que cometeu, Cludio Guerraenunciou nomes e situaes que conduziram prtica de dezenas de assassinatos, grandeparte deles consumada com requintes de ini-maginvel perversidade. Um dos cenrios des-ses crimes foi a sinistra Casa da Mortemontada em Petrpolis, na regio serranafluminense, e que foi reproduzida, para osmesmos hediondos fins, em outras cidadesdo Pas. Ali ocorreram brutalidades sem pre-cedentes na nossa Histria e que s encon-tram smile na barbrie espalhada pelos na-zistas pela Europa e pela antiga Unio Sovi-tica durante a Segunda Guerra Mundial epelos Estados Unidos com suas bombas denapalm no territrio do Vietn na guerra dosanos 1960 a 1970 contra o povo vietnamita.

    APS A DIVULGAO DAS CONFISSES deCludio Guerra, a Comisso Nacional da Ver-dade tomou a iniciativa de ouvi-lo sobre odepoimento que prestara, para confirmaodas graves revelaes que fizeram. Tal comono depoimento a Medeiros e Marcelo Netto,Cludio Guerra absteve-se de citar nomes dosprofissionais da represso que participaramdos crimes por ele expostos, deixando a cri-trio destes a revelao da parte que lhes coubenesse inventrio do horror. O assassinoGuerra, carrasco de dezenas de presos pol-ticos, invocava suposto drama de conscin-cia: embora matador por atacado, afeta pou-par-se do papel de delator.

    SEJA PELO QUE TENHA REVELADO Co-misso Nacional da Verdade, confirmandoou alargando o depoimento transformado emlivro, Guerra abriu a porteira de um itiner-rio que a CNV tem a obrigao de percorrer,mediante o levantamento de quantos servi-ram empreitada criminosa, sobre os quaishaver registros em escalas de servio, ematos de designao de lotao e em tudo maisque compe a burocracia oficial, mesmo parafins ilcitos, como aqueles em que se esme-rou a represso da ditadura. No ser por faltade pistas que se deixar de identificar essesassassinos e exp-los exprobrao pbli-ca que h muito merecem.

    O OLHAR DE ALPINO Publicado no portal Yahoo! Notcias, em 3 de agosto.

    ILUSTRAO DE JOE KUBERTPARA A MINISSRIE INDITAJOE KUBERT PRESENTS 46

  • 3JORNAL DA ABI 381 AGOSTO DE 2012

    ESPECIAL

    E

    MEMRIASDE UMAGUERRA

    QUE AINDASANGRADepoimento de torturador

    que matou dezenas de presospolticos desvenda um filo

    de crimes cometidos durante aditadura militar e que deveroser investigados pela Comisso

    Nacional da Verdade.

    POR PAULO CHICO

    les tratam do mesmo tema: os crimes cometidos du-rante a ditadura militar no Brasil. Ambos ganharamamplo espao na mdia quase que de forma simult-nea. Em 16 de maio era instalada, em solenidade ofi-

    cial na capital federal, a Comisso Nacional da Verdade-CNV.Poucos dias depois, mais precisamente no dia 21 do mesmoms, o livro Memrias de Uma Guerra Suja teve realizado seulanamento no Rio de Janeiro evento que se repetiu logoem seguida em So Paulo (em 26 de maio) e em Braslia (nodia 30 subseqente). A comisso ainda d seus primeirospassos nas investigaes. A obra editada pela Topbooks, porsua vez, resultado final de muita pesquisa e entrevistasde flego, comandadas pelos jornalistas Rogrio Medeirose Marcelo Neto.

    Logo de cara, Memrias de Uma Guerra Suja causou sur-presa e revirou estmagos mais sensveis, pelo teor explosi-vo das revelaes feitas por seu personagem central. O livro,na verdade, um vasto e detalhado depoimento do ex-dele-gado do Dops (Departamento de Ordem Poltica e Social)Cludio Guerra, colhido pelos dois jornalistas autores daobra. Em 15 anos, o militar capixaba teria participado de umacentena de mortes como matador e estrategista do ServioNacional de Informaes-SNI. Arrependido de tais atos, apster experimentado o que descreve como um encontro comDeus, Guerra resolveu dar seu testemunho.

    MU

    NIR

    AH

    MED

  • 4 JORNAL DA ABI 381 AGOSTO DE 2012

    ESPECIAL MEMRIAS DE UMA GUERRA QUE AINDA SANGRA

    O Presidente da Ordem dos Advoga-dos do Brasil-Seo do Estado do Rio deJaneiro, Wadih Damous, considera que necessrio investigar com profundidadeas informaes contidas em Memrias deUma Guerra Suja: Esses relatos podem vira dar alguma pista sobre o que mais que-remos, que o paradeiro dos desapareci-dos, uma ferida ainda no cicatrizada naHistria da democracia brasileira. E tam-bm no se deve aceitar de pronto tudoo que est sendo relatado. Temos a Pol-cia Federal, o Ministrio Pblico Federal.Esses rgos devem, a partir de relatoscomo esse, iniciar uma investigao.

    Rose Nogueira, Presidente do TorturaNunca Mais de So Paulo, classifica Clu-dio Guerra como assassino e ru confes-so. Ele cometeu crimes permanentes, deseqestro e de desaparecimento de cor-pos. Ele cometeu crime de tortura, deexecuo sumria. Esses crimes so delesa-humanidade, so imprescritveis.Esse livro muda toda a Histria. H mui-tos fatos ali que so congruentes, quebatem com aquilo que a gente sabia,sublinhou Rose. Ela ponderou que o relatode Guerra situa a esquerda como umaquadrilha que se aproveitava do dinhei-ro dos empresrios, viso afinada com apoltica de Estado dos anos de chumbo.Rose, no entanto, defende que o direito resistncia um dos Direitos Humanos:Quando se fala em luta armada, eu pen-so que quem a fez contra o povo brasilei-ro foi a ditadura militar. O que ns fize-mos foi uma luta de resistncia.

    A viso radical de Rose Nogueira no compartilhada por Marcelo Neto. Eleingressou na Igreja Assemblia de Deus, naqual hoje pastor. Guerra tem a conscin-cia de que vai viver uma vida muito com-plicada a partir do que contou no livro, quevai ter um resto de vida cheio de polmi-cas, acusaes. Mas ele est tranqilo,consciente de que o seu papel ajudar aesclarecer o que se passou. Ele quer colabo-rar com a Comisso Nacional da Verdade,quer mesmo se colocar disposio paraficar em paz consigo mesmo.

    ENFIM, O DEPOIMENTO COMISSO DA VERDADE

    Por sugesto dos autores de Memriasde Uma Guerra Suja e tambm por funda-mentada presso da mdia, Cludio Guer-ra foi convidado a depor na ComissoNacional da Verdade. No dia 25 de junhoo ex-delegado do Dops reafirmou os cri-mes que cometeu durante a ditaduramilitar. De acordo com o coordenador dacomisso, Ministro Gilson Dipp, Guerrasugeriu que o grupo ouvisse algumas pes-soas citadas por ele no livro. As dennciasde incinerao de cadveres feitas porGuerra fato que teria ocorrido na usinade acar Cambahyba, em Campos, noNorte Fluminense esto sendo investi-gadas pelo Ministrio Pblico Federal epela Polcia Federal.

    Perguntado sobre a possibilidade de asinvestigaes prejudicarem os trabalhosda Comisso, Dipp disse que necessrioesclarecer que o grupo de trabalho coman-dado por ele no jurisdicional ou perse-

    Assim, o livro traz informaes sobreos bastidores das Operaes Condor eBandeirantes e outros episdios marcan-tes, como o caso Riocentro, o assassina-to do jornalista Alexandre von Baumgar-ten e a morte do Delegado Srgio ParanhosFleury, tambm do Dops. A obra mostracomo Cludio Guerra e seu grupo tenta-ram dificultar ao mximo a aberturapoltica proposta pelo ento PresidenteErnesto Geisel (1974-1979) com umasrie de atentados a bomba, falsamentecreditados ao Partido Comunista. Ele co-mandou, por exemplo, uma exploso noprdio de O Estado de S.Paulo e arquitetouum ataque ao Jornal do Brasil, desarticula-do por ordem do General Golbery doCouto e Silva.

    Os autores do livro p