Jorge Luiz Borges Obra Completa Volume 1

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Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestao do pensamento humano..

#JORGE LUIS BORGES OBRAS COMPLETAS

B j o 1

JORGE LUIS BORGES

OBRAS COMPLETAS

VOLUME 1 1923-1949

JORGE LUIS BORGES

OBRAS COMPLETAS

VOLUME 1

1923-1949

Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas

98-3272

Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1998 das tradues by Editora Globo S.A.

1a Reimpresso-9/98 22 Reimpresso-1/99 32 Reimpresso - 12/99

Edio baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas,

publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha.

Coordenao editorial: Carlos V. Fras

Capa: Joseph Llbach / Emec Editores

Ilustrao: Alberto Ciupiak

Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S

Assessoria editorial: Jorge Schwartz

Preparao de textos: Maria Carolina de Araujo

Reviso de textos: Flvio Martins, Levon Yacubian,

Luciana Vieira Alves e Mrcia Menin

Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda.

Fotolitos: GraphBox

Agradecimentos a Antonio Fernndez Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos,

Blas Matamoro, Fernando Paixo, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman

Agradecimentos especiais a lida Lois

Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos

EDITORA GLOBO S.A.

Avenida Jaguar, 1485

CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP

e-mail: atendimento@edglobo.com.br

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora.

Impresso e acabamento:

Grfica Crculo

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte - Cmara Brasileira do Livro, SP

Borges, Jorge Luis, 1899-1986.

Obras completas de Jorge Luis Borges_ volume 1 / Jorge Luis Borges. - So Paulo : Globo, 1999.

Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges.

Vrios tradutores.

V. 1. 1923-1949 / v. 2. 1952-1972 / v. 3. 1975-1985 / v. 4. 1975-1988 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) / ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) ISBN 85-25O-2879-7 (v. 3) / ISBN 85-25O-288O-O

(v. 4.)

1. Fico argentina 1. Ttulo.

ndices para catlogo sistemtico

1. Fico: Sculo 20: Literatura argentina ar863.4

2. Sculo 20: Fico: Literatura argentina ar863.4

CDD-ar863.4

Biblioteca Pblica "Arthur Vianna

FERVOR DE BUENOS AIRES

Fervor de Buenos Aires

Traduo de Glauco Mattoso e Jorge Schwartz

LUA DEFRONTE

Luna de Enfrente

Traduo de Josely Vianna Baptista

CADERNO SAN MARTN

Cuaderno San Martn

Traduo de Josely Vianna Baptista

EVARISTO CARRIEGO

Evaristo Carriego

Traduo de Vera Mascarenhas, Jorge Schwartz,

Maria Carolina de Araujo e Vistoria Rbori

DISCUSSO

Discusin

Traduo de Josely Vianna Baptista

HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

Historia Universal de Ia Infamia

Traduo de Alexandre Eullio

Reviso de traduo: Maria Carolina de Araujo e Jorge Schwartz

HISTRIA DA ETERNIDADE

Historia de Ia Eternidad

Traduo de Carmen Cirne Lima

Reviso de traduo: Maria Carolina de Araujo e Jorge Schwartz

FICES

Ficciones

Traduo de Carlos Nejar

Reviso de traduo: Maria Carolina de Araujo

O ALEPH

El Aleph

Traduo de Flvio Jos Cardozo

Reviso de traduo: Maria Carolina de Araujo

A Leonor Acevedo de Borges

Quero deixar escrita uma confisso, que a um tempo ser ntima e geral, j que as coisas que ocorrem a um homem ocorrem a todos. Estou falando de algo j remoto

e perdido, os dias de meu santo, os mais antigos. Eu recebia os presentes e pensava que no passava de um menino e que no havia feito nada, absolutamente nada,

para merec-los. Certamente, nunca o disse; a infncia tmida. Desde ento tu me tens dado tantas coisas e so tantos os anos e as recordaes. Pai, Norah, os

avs, tua memria e nela a memria dos antepassados - os ptios, os escravos, o aguateiro, a carga dos hussardos do Peru e o oprbrio de Rosas -, tua priso valorosa,

quando tantos homens calvamos, as manhs do Paso del Molino, de Genebra e de Austin, as compartilhadas claridades e sombras, tua fresca ancianidade, teu amor a

Dickens e a Ea de Queirs, Me, tu mesma.

Aqui estamos falando os dois, et tout le reste est littrature, como escreveu, com excelente literatura, Verlaine.

J. L. B.

7#FERVOR DE BUENOS AIRES

1923

PRLOGO

No reescrevi o livro. Mitiguei seus excessos barrocos, limei asperezas, risquei sentimentalismos e imprecises e, no decurso desse labor s vezes grato e outras vezes incmodo, senti que aquele rapaz que em 1923 o escreveu j era essencialmente - que significa essencialmente? - o senhor que agora se resigna ou corrige. Somos o mesmo; os dois descremos do fracasso e do sucesso, das escolas literrias e de seus dogmas; os dois somos devotos de Schopenhauer, de Stevenson e de Whitman. Para mim, Fervor de Buenos Aires prefigura tudo o que faria depois. Pelo que deixava entrever, pelo que prometia de algum modo, aprovaram-no generosamente Enrique Dez-Canedo

e AI fonso Reyes.

Como os de 1969, os jovens de 1923 eram tmidos. Temerosos de uma ntima pobreza, tratavam como agora de escamote-l sob inocentes novidades ruidosas. Eu, por exemplo, me propus demasiados fins: arremedar certas fealdades (que me agradavam) de Miguel de Unamuno, ser um escritor espanhol do sculo XVII, ser Macedonio Fernndez, descobrir as metforas que Lugones j havia descoberto, cantar uma Buenos Aires de casas baixas e, para o poente ou para o sul, de chcaras gradeadas.

Naquele tempo, procurava os entardeceres, os arrabaldes e a desdita; agora, as manhs, o centro e a serenidade.

J. L. B.

Buenos Aires, 18 de agosto de 1969.

11A QUEM LER

Se as pginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de t-lo usurpado eu, previamente. Nossos nadas pouco diferem; trivial e fortuita a circunstncia de que sejas tu o leitor destes exerccios, e eu seu redator.#AS RUAS

As ruas de Buenos Aires

j so minhas entranhas. No as vidas ruas,

incmodas de turba e de agitao, mas as ruas entediadas do bairro, quase invisveis de to habituais, enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais longnquas

privadas de rvores piedosas

onde austeras casinhas apenas se aventuram, abrumadas por imortais distncias, a perder-se na profunda viso de cu e de planura.

So para o solitrio uma promessa

porque milhares de almas singulares as povoam, nicas ante Deus e no tempo e sem dvida preciosas.

Para o Oeste, o Norte e o Sul

se desfraldaram - e so tambm a ptria - as ruas; oxal nos versos que trao estejam essas bandeiras.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

LA RECOLETA

Convencidos de caducidade

por tantas nobres certezas do p, demoramos e baixamos a voz entre as lentas filas de pantees,

cuja retrica de sombra e de mrmore promete ou prefigura a desejvel dignidade de ter morrido. Belos so os sepulcros,

o desnudo latim e as petrificadas datas fatais, a conjuno do mrmore e da flor e as pracinhas com frescor de ptio e os muitos ontens da histria hoje detida e nica.

Confundimos essa paz com a morte e cremos anelar nosso fim e anelamos o sonho e a indiferena. Vibrante nas espadas e na paixo e adormecida na hera, s a vida existe.

O espao e o tempo so formas suas,

so instrumentos mgicos da alma, e quando esta se apague,

se apagaro com ela o espao, o tempo e a morte, como ao cessar a luz

caduca o simulacro dos espelhos que a tarde j foi apagando. Sombra benigna das rvores,

vento com pssaros que sobre as ramas ondeia, alma que se dispersa em outras almas,

fora um milagre que alguma vez deixaram de ser, milagre incompreensvel, embora sua imaginria repetio infame com horror nossos dias. Estas coisas pensei em La Recoleta, no lugar de minha cinza.

O SUL

De um dos ptios ter olhado

as antigas estrelas, do banco da sombra ter olhado essas luzes dispersas

que minha ignorncia no aprendeu a nomear nem a ordenar em constelaes, ter sentido o crculo da gua na secreta cisterna,

O odor do jasmim e da madressilva, o silncio do pssaro adormecido, o arco do saguo, a umidade - essas coisas so, talvez, o poema.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

RUA DESCONHECIDA Penumbra da pomba

chamaram os hebreus iniciao da tarde

quando a sombra no entorpece os passos e a vinda da noite se adverte como msica esperada e antiga, como um grato declive. Nessa hora em que a luz tem uma finura

de areia, dei com uma rua ignorada, aberta em nobre largura de terrao, cujas cornijas e paredes mostrava cores brandas como o prprio cu que comovia o fundo. Tudo

- a mediania das casas,

as modestas balaustradas e aldravas,

talvez uma esperana de menina rias sacadas -

entrou no meu vazio corao

com limpidez de lgrima.

Qui essa hora da tarde de prata desse sua ternura rua, fazendo-a to real como UM verso esquecido e recuperado. S depois refleti

que aquela rua da tarde era alheia, que toda casa um candelabro onde as vidas dos homens ardem como velas isoladas, que todo imediato passo nosso caminha sobre

Glgotas.

Em busca da tarde

fui esquadrinhando em vo as ruas.

J estavam os alpendres entorpecidos de sombra. Com fino brunimento de mogno a tarde inteira tinha-se remansado na praa, serena e sazonada,

benfeitora e sutil como uma lmpada, clara como uma fronte,

grave como gesto de homem enlutado. Todo sentir se aquieta sob a absolvio das rvores - jacarands, accias - cujas piedosas curvas

atenuam a rigidez da impossvel esttua e em cuja rede se exalta a glria das luzes eqidistantes do leve azul e da terra avermelhada. Como se v bem a tarde do

fcil sossego dos bancos! Abaixo

o porto anela latitudes longnquas

e a profunda praa igualadora de almas se abre como a morte, como o sonho.

A PRAA SAN MARTN

A Macedonio Fernndez

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O TRUCO

Quarenta naipes deslocaram a vida. Pintados talisms de papelo nos fazem olvidar nossos destinos e uma criao risonha vai povoando o tempo roubado com as floridas

travessuras de uma mitologia caseira. Nos lindes da mesa a vida dos outros se detm. Dentro h um estranho pas: as aventuras do truco e do aceito, a autoridade

do s de espadas, como dom Juan Manuel, onipotente, e o sete de ouros tilintando esperana. Uma lentido preguiosa vai demorando as palavras e como as alternativas

do jogo se repetem e se repetem, os jogadores desta noite copiam antigas vazas:

fato que ressuscita um pouco, muito pouco, as geraes dos antepassados que legaram ao tempo de Buenos Aires os mesmos versos e as mesmas diabruras.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

UM PTIO

Com a tarde

cansaram as duas ou trs cores do ptio. Esta noite, a lua, o claro crculo, no domina seu espao. Ptio, cu canalizado. O ptio o declive

pelo qual se derrama o cu na casa. Serena,

a eternidade espera na encruzilhada de estrelas. Grato viver na amizade escura

de um saguo, de uma parreira e de uma cisterna.

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#FERVOR DE BUENOS AIRES

FERVOR DE BUENOS AIRES

INSCRIO SEPULCRAL

Para meu bisav, o coronel Isidoro Sudrez

Dilatou seu valor sobre os Andes. Afrontou montanhas e exrcitos.

A audcia foi costume de sua espada. Imps na planura de junn trmino venturoso batalha

e s lanas do Peru deu sangue espanhol. Seu censo de faanhas escreveu

em prosa rgida como os clarins belssonos. Elegeu o honroso desterro. Agora um pouco de cinza e de glria.

A ROSA

A rosa,

a imarcescvel rosa que no canto, a que peso e fragrncia, a do negro jardim na alta noite,

a de qualquer jardim e qualquer tarde, a rosa que ressurge da tnue cinza pela arte da alquimia, a rosa dos persas e de Ariosto, a que sempre est s, a que sempre

a rosa das rosas, a jovem flor platnica, a ardente e cega rosa que no canto, a rosa inalcanvel.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

BAIRRO RECONQUISTADO

Ningum viu a formosura das ruas

at que em pavoroso clamor o cu esverdeado dasabou

em abatimento de gua e de sombra. O temporal foi unonime

e aborrecvel aos olhares foi o mundo, mas quando um arco bendisse com as cores do perdo a tarde, e um odor de terra molhada alentou os jardins,

nos pusemos a andar pelas ruas como por uma recuperada herdade,

e nas vidraas houve generosidades de sol e nas folhas luzentes

gravou sua trmula imortalidade o estio.

SALA VAZIA

Os mveis de mogno perpetuam entre a indeciso do brocado sua tertlia de sempre. Os daguerretipos mentem sua falsa cercania de tempo detido num espelho e ante

nosso exame se perdem como datas inteis de embaados aniversrios. E faz muito tempo

suas angustiadas vozes nos buscam e agora esto apenas

nas manhs iniciais de nossa infncia. A luz do dia de hoje exalta os vidros da janela vinda da rua de clamor e de vertigem e encurrala e apaga a voz macia dos antepassados.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

ROSAS

Na sala tranqila

cujo relgio austero derrama

um tempo j sem aventuras nem assombro sobre a decente brancura

que amortalha a paixo vermelha do mogno, algum, como repreenso carinhosa, pronunciou o nome familiar e temido. A imagem do tirano

abarrotou o instante,

no clara como um mrmore na tarde, mas grande e umbrosa

como a sombra de uma montanha remota e conjecturas e memrias sucederam-se meno eventual como um eco insondvel. Famosamente infame seu nome foi desolao nas

casas, idoltrico amor na gauchagem e horror do talho na garganta. Hoje o olvido apaga seu censo de mortes, porque so venais as mortes se as pensamos como parte

do Tempo, essa imortalidade infatigvel

que aniquila com silenciosa culpa as raas e em cuja ferida sempre aberta

que o ltimo deus haver de estancar no ltimo dia, cabe todo o sangue derramado. No sei se Rosas

foi s um vido punhal como os avs diziam; creio que foi como tu e eu um fato entre os fatos

que viveu na soobra cotidiana e dirigiu para exaltaes e penas a incerteza dos outros.

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Agora o mar uma longa separao entre a cinza e a ptria. j toda vida, por humilde que seja, pode pisar seu nada e sua noite. j Deus o ter esquecido

e menos uma injria que uma piedade demorar sua infinita dissoluo com esmolas de dio.

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Biblioteca Pblica `~#rthur VLL

#FERVOR DE BUENOS AIRES

FERVOR DE BUENOS AIRES

FINAL DE ANO

Nem o pormenor simblico

de substituir um trs por um dois nem essa metfora baldia

que convoca um lapso que morre e outro que surge nem o cumprimento de um processo astronmico aturdem e solapam

o altiplano desta noite

e nos obrigam a esperar

as doze irreparveis badaladas. A causa verdadeira a suspeita geral e embaada do enigma do Tempo; o assombro ante o milagre

de que a despeito de infinitos acasos, de que a despeito de que somos as gotas do rio de Herclito, perdure algo em ns: imvel.

AOUGUE

Mais vil que um lupanar

o aougue rubrica como uma afronta a rua. Sobre o dintel

uma cega cabea de vaca preside a algazarra

de carne charra e mrmores finais com a remota majestade de um dolo.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

REMORSO POR QUALQUER MORTE

O arrabalde o reflexo de nosso t Meus passos claudicaram quando iam pisar o horizonte e fiquei entre as casas, quadriculadas em quarteires diferentes e iguais

como se fossem todas elas montonas recordaes repetidas de um s quarteiro. O matinho precrio, desesperadamente esperanado, salpicava as pedras da rua e divisei

na profundeza os naipes de cores do poente

e senti Buenos Aires.

Esta cidade que acreditei ser meu passado

meu porvir, meu presente;

os anos que vivi na Europa so ilusrios,

eu estava sempre (e estarei) em Buenos Aires.

Livre da memria e da esperana,

ilimitado, abstrato, quase futuro,

o morto no um morto: a morte. Como o Deus dos msticos,

de Quem devem negar-se todos os predicados, o morto ubiquamente alheio no seno a perdio e ausncia do mundo. Tudo dele roubamos,

no lhe deixamos nem uma cor nem uma slaba:

aqui est o ptio que j no compartilham seus olhos, ali a calada onde sua esperana espreitava.

At o que pensamos poderia estar pensando ele tambm; repartimos como ladres

o caudal das noites e dos dias.

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JARDIM

Valetas,

serras speras, dunas,

sitiadas por ofegantes singraduras

e pelas lguas de temporal e de areia que do fundo do deserto se aglomeram. Num declive est o jardim.

Cada arvorezinha uma selva de folhas. Assediada em vo

pelos estreis morros silenciosos

que apressam a noite com sua sombra e o triste mar de inteis verdores. Todo o jardim uma luz aprazvel que ilumina a tarde. O jardinzinho como um dia de festa

na pobreza da terra.

Yacimientos deI Chubut, 1922.

FERVOR DE BUENOS AIRES

INSCRIO EM QUALQUER SEPULCRO

No arrisque o mrmore temerrio

grrulas transgresses onipotncia do esquecimento, enumerando com meticulosidade o nome, a opinio, os acontecimentos, a ptria. Tanto avelrio bem atribudo

est s trevas e o mrmore no fale o que calam os homens. O essencial da vida fenecida - a trmula esperana,

o milagre implacvel da dor e o assombro do gozo - sempre perdurar.

Cegamente reclama durao a alma arbitrria quando a tem assegurada em vidas alheias, quando tu mesmo s o espelho e a rplica daqueles que no alcanaram teu tempo

e outros sero (e so) tua imortalidade na terra.

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A VOLTA

Ao cabo dos anos de desterro

voltei casa de minha infncia

e ainda me alheio o seu mbito. Minhas mos tocaram as rvores

como quem acaricia algum que dorme e repeti antigos caminhos

como se recobrasse um verso esquecido e vi ao espalhar da tarde a frgil lua nova

que se achegou ao amparo sombrio da palmeira de folhas altas, como ao seu ninho o pssaro. Que caterva de cus

abarcar entre suas paredes o ptio, quantos hericos poentes militaro na profundeza da rua e quantas quebradias luas novas infundiro ao jardim sua ternura, antes

que volte a reconhecer-me a casa e de novo seja um hbito!

Sempre comovedor o O

por indigente ou charro q porm mais comovedor am

aquele brilho desesperado e final que enferruja a plancie quando o sol ltimo afundou.

Nos di suster essa luz intensa e distinta, essa alucinao que impe ao espao o unonime medo da sombra e que cessa de repente quando notamos sua falsidade, como

cessam os sonhos quando sabemos que sonhamos.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

AMANHECER

Na profunda noite universal

que apenas contradizem os postes de luz uma ventura perdida ofendera as ruas taciturnas como pressentimento trmulo do amanhecer horrvel que ronda os arrabaldes

desmantelados do mundo. Curioso pela sombra e acovardado pela ameaa da aurora revivi a tremenda conjectura de Schopenhauer e de Berkeley que declara que o mundo

uma atividade da mente, um sonho das almas, sem base nem propsito nem volume. E j que as idias

no so eternas como o mrmore

mas imortais como um bosque ou um rio, a doutrina anterior

assumiu outra forma na aurora e a superstio dessa hora

quando a luz como uma trepadeira vai implicar as paredes da sombra, persuadiu minha razo e traou o capricho seguinte:

Se esto alheias de substncia as coisas e se esta numerosa Buenos Aires no mais que um sonho

que eriem em compartilhada magia as almas, h um instante

em que periga desmedidamente seu ser e o instante estremecido da aurora, quando so poucos os que sonham o mundo e s alguns notvagos conservam,

cinzenta e apenas esboada,

a imagem das ruas

que definiro depois com os outros. Hora em que o sonho pertinaz da vida corre perigo de quebranto, hora em que seria fcil a Deus matar de todo Sua obra!

Porm de novo o mundo se salvou.

A luz discorre inventando sujas cores e com algum remorso

de cumplicidade no ressurgimento do dia solicito minha casa,

atnita e glacial n luz branca, enquanto um pssaro detm o silncio e a noite gasta

permaneceu nos olhos dos cegos.

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FERVOR DE $UENOS AIRES

BENARES

Falsa e densa

como um jardim calcado num espelho, a imaginada urbe

que no viram nunca meus olhos entretece distncias e repete suas casas inalcanveis. O brusco sol

desgarra a complexa escurido

de templos, muladares, crceres, ptios e escalar os muros e resplandecer num rio sagrado. Ofegante,

a cidade que oprimiu uma folhagem de estrelas transborda o horizonte

e na manh cheia

de passos e de sonho

a luz vai abrindo como ramas as ruas. Juntamente amanhece

em todas as persianas que olham para o oriente e a voz de um muezim

aflige de sua alta torre o ar deste dia

e anuncia cidade dos muitos deuses a solido de Deus.

(E pensar

que enquanto brinco com duvidosas imagens, a cidade que canto persiste num lugar predestinado do mundo, com sua topografia precisa, povoada como um sonho, com hospitais

e quartis e lentas alamedas

e homens de lbios podres que sentem frio nos dentes.)

AUSNCIA

Hei de levantar a vasta vida

que ainda agora teu espelho: cada manh hei de reconstitu-la. Desde que te afastaste,

quantos lugares se tornaram vos e sem sentido, iguais a luzes no dia.

Tardes que foram nicho de tua imagem, msicas em que sempre me aguardavas, palavras daquele tempo,

eu terei que quebr-las com minhas mos. Em que ribanceira esconderei minha alma para que no veja tua ausncia que como um sol terrvel, sem ocaso, brilha definitiva

e desapiedada? Tua ausncia me rodeia como a corda garganta. O mar no qual se afunda.

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SINGELEZA

A Hayde Lange

Abre-se a cancela do jardim

com a docilidade da pgina

que uma freqente devoo interroga e dentro os olhares no precisam deter-se nos objetos que j esto cabalmente na memria. Conheo os costumes e as almas e esse

dialeto de aluses

que todo agrupamento humano vai urdindo. No necessito falar

nem mentir privilgios;

bem me conhecem aqueles que aqui me rodeiam, bem sabem minhas penas e minha fraqueza. Isso alcanar o mais alto, o que talvez nos dar o Cu: no admiraes nem

vitrias mas simplesmente ser admitidos como parte de uma Realidade inegvel, como as pedras e as rvores.

FERVOR DE BUENOS ARES

CAMINHADA

Cheirosa como um mate curado

a noite aproxima agrestes lonjuras e desanuvia as ruas que acompanham minha solido,

feitas de vago medo e de longas linhas. A brisa traz pressgios de campo,

doura das quintas, memrias dos lamos, que faro tremer sob rigidez de asfalto a detida terra viva

que oprime o peso das casas. Em vo a furtiva noite felina inquieta as sacadas fechadas que na tarde mostraram

a notria esperana das meninas. Tambm est o silncio nos vestibulos. Na cncava sombra vertem um tempo vasto e generoso os relgios da meia-noite magnfica, um

tempo caudaloso

onde todo o sonhar encontra acolhida, tempo de largueza d"alma, diferente dos avaros termos que medem as tarefas do dia.

Eu sou o nico espectador desta rua; se a deixasse de ver, ela morreria. (Advirto um longo paredo eriado de uma agresso de arestas e um farol amarelo que aventura

sua indeciso de luz. Tambm advirto estrelas vacilantes.) Grandiosa e viva

como a plumagem escura de um Anjo cujas asas tapam o dia, a noite perde as medocres ruas.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

A NOITE DE SO JOO

O poente implacvel em esplendores quebrou a fio de espada as distncias. Suave como um salgueiral est a noite. Vermelhos fascam

os redemoinhos das bruscas fogueiras; lenha sacrificada

que se dessangra em altas labaredas, bandeira viva e cega travessura.

A sombra aprazvel como uma lonjura; hoje as ruas lembram que foram campo um dia. Toda a santa noite a solido rezando seu rosrio de estrelas esparramadas.

CERCANIAS

Os ptios e sua antiga certeza,

os ptios alicerados na terra e no cu.

As janelas com grade da qual a rua

se torna familiar como uma lmpada. As alcovas profundas onde arde em quieta chama o mogno e o espelho de tnues resplendores como um remanso na sombra. As encruzilhadas

escuras

que lanceiam quatro infinitas distncias em arrabaldes de silncio. Nomeei os lugares

onde se esparrama a ternura e estou s e comigo.

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SBADOS

A c. c.

Fora h um ocaso, jia escura engastada no tempo, e uma profunda cidade cega de homens que no te viram. A tarde cala ou canta.

Algum descrucifica as aspiraes cravadas no piano.

Sempre, a multido de tua formosura.

A despeito de teu desamor

tua formosura

esbanja seu milagre pelo tempo. Est em ti a ventura

como a primavera na folha nova. J quase no sou ningum, sou to-somente essa aspirao que se perde na tarde. Em ti est a delcia

como est a crueldade nas espadas.

Agravando a grade est a noite. Na sala severa

se buscam como cegos nossas duas solides. Sobrevive tarde

a brancura gloriosa de tua carne.

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FERVOR DE BUENOS ARES

Em nosso amor h uma pena que se parece com a alma.

Tu

que ontem eras s toda a formosura s tambm todo o amor, agora.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

TROFU

Como quem percorre uma costa

maravilhado com a multido do mar, alvissarado de luz e prdigo espao, eu fui o espectador de tua formosura durante um longo dia. Nos despedimos ao anoitecer e

em gradual solido

ao voltar pela rua cujos rostos ainda te conhecem, escureceu minha ventura, pensando que de to nobre profuso de memrias perdurariam escassamente uma ou duas para

ser decoro da alma

na imortalidade de sua andana.

ENTARDECERES

A clara multido de um poente exaltou a rua,.

a rua aberta como um vasto sonho para qualquer acaso. O lmpido arvoredo

perde o ltimo pssaro, o ouro ltimo. A mo esfarrapada de um mendigo agrava a tristeza da tarde.

O silncio que habita os espelhos forou seu crcere. A escureza o sangue das coisas feridas. No incerto ocaso a tarde mutilada foi umas pobres cores.

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FERVOR DE BUENOS AIRES

CAMPOS ENTARDECIDOS

O poente de p como um Arcanjo tiranizou o caminho.

A solido povoada como um sonho se remansou ao redor do vilarejo. Os cincerros recolhem a tristeza dispersa da tarde. A lua nova uma vozinha do cu. medida que

vai anoitecendo volta a ser campo o vilarejo.

O poente que no se cicatriza ainda lhe di a tarde.

As trmulas cores se resguardam nas entranhas das coisas. No dormitrio vazio a noite fechar os espelhos.

DESPEDIDA

Entre meu amor e eu ho de levantar-se trezentas noites como trezentas paredes e o mar ser magia entre ns.

No haver seno recordaes.

tardes merecidas pela pena, noites esperanadas de olhar-te, campos de meu caminho, firmamento que estou vendo e perdendo... Definitiva como um mrmore entristecer

tua ausncia outras tardes.

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#FERVOR DE BUENOS AIRES

LINHAS QUE POSSO TER ESCRITO E PERDIDO POR VOLTA DE 1922

Silenciosas batalhas do ocaso

em arrabaldes ltimos,

sempre antigas derrotas de uma guerra no cu, albas ruinosas que nos chegam do fundo deserto do espao como do fundo do tempo,

negros jardins da chuva, uma esfinge de um livro que eu tinha medo de abrir e cuja imagem volta nos sonhos, a corrupo e o eco que seremos, a lua sobre o mrmore,

rvores que se elevam e perduram como divindades tranqilas, a mtua noite e a esperada tarde,

Walt Whitman, cujo nome o universo, a espada valorosa de um rei no silencioso leito de um rio, os saxes, os rabes e os godos que, sem o saber, me engendraram,

sou eu essas coisas e as outras

ou so chaves secretas e rduas lgebras do que no saberemos nunca?

FERVOR DE BUENOS AIRES

NOTAS

Ruw DascoNxECroA. inexata a notcia dos primeiros versos. De Quincey (Writings, terceiro volume, pgina 293) anota que, segundo a nomenclatura judaica, a penumbra

da aurora tem o nome de penumbra da pomba; a do entardecer, do corvo.

O TtzUCO. Nesta pgina de duvidoso valor assoma pela primeira vez uma idia que sempre me inquietou. Sua declarao mais cabal est em "Sentirse en muerte (El Idioma

de los Argentinos, 1928) e em "Nueva refutacin del tiem

po (Otras Inquisiciones,1952).

Seu erro, j denunciado por Parmnides e Zeno de Elia, postular que o tempo est feito de instantes individuais, que possvel separ-los uns dos outros, assim

como o espao de pontos.

Rosas. Ao escrever este poema, eu no ignorava que um av de meus avs era antepassado de Rosas. O fato nada tem de singular, se considerarmos a escassez da populao

e o carter quase incestuoso de nossa histria.

Por volta de 1922 ningum pressentia o revisionismo. Este passatempo consiste em "revisai" a histria argentina, no para indagar a verdade mas para chegar a uma

concluso de antemo resolvida: a justificativa de Rosas ou de qualquer outro dspota disponvel. Continuo sendo, como se percebe, um selvagem unitrio.

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PRLOGO

Por volta de 19O5, Hermann Bahr decidiu: "O nico dever, ser moderno". Vinte e tantos anos depois, eu tambm me impus essa obrigao totalmente suprflua. Ser moderno

ser contemporneo, ser atual; todos fatalmente o somos. Ningum - a no ser certo aventureiro sonhado por Wells - descobriu a arte de viver no futuro ou no passado.

No h obra que no seja de seu tempo; o escrupuloso romance histrico Salammb, cujos protagonistas so os mercenrios das guerras pnicas, um tpico romance

francs do sculo XIX. Nada sabemos da literatura de Cartago, que verossimilmente foi rica, s que no podia incluir um livro como o de Flaubert.

Esquecido de que j o era, quis tambm ser argentino. Incorri na arriscada aquisio de um ou dois dicionrios de argentinismos, que rne forneceram palavras que

hoje mal posso decifrar: madrejn,

espadana, estaca pampa...

A cidade de Fervor de Buenos Aires no deixa nunca de ser nfima; a deste volume tem algo de ostentoso e de pblico. No quero ser injusto com ele. Uma que outra

composio - "O general Quiroga vai de coche para a morte" - talvez possua toda a vistosa beleza de uma decalcomania; outras - "Manuscrito encontrado num livro de

Joseph Conrad" - no desonram, permito-me afirmar, quem as comps. O fato que as sinto alheias; no me dizem respeito seus erros nem suas eventuais virtudes.

Pouco mudei este livro. Agora, j no meu.

J. L. B.

Buenos Aires, 25 de agosto de 1969. 55

#RUA DO ARMAZM ROSADO

J se acendem os olhos dessa noite em cada boca de rua, e como a estiagem farejando chuva. Agora todos os caminhos esto perto, at mesmo o caminho do milagre.

O vento traz a aurora entorpecida.

A aurora nosso medo de fazer coisas diferentes e desce

sobre ns.

Caminhei por toda a santa noite e sua inquietude me deixa nesta rua, uma qualquer.

Aqui outra vez esse sossego da plancie no horizonte

e o terreno baldio que se desfaz em amarantos e arames e o armazm to claro como a lua nova de ontem tarde. A esquina familiar como a lembrana com seus longos

frisos e a promessa de um ptio.

Que bom testemunhar-te, rua de sempre, j que meus dias

viram to poucas coisas!

A luz j risca o ar.

Meus anos percorreram os caminhos da terra e da gua

e s a ti que sinto, rua dura e rosada.

Penso se tuas paredes conceberam a alvorada, armazm assim claro no limite da noite. Penso e ganha voz diante das casas a confisso de minha pobreza: no vi os rios

nem o mar nem a serra, mas conviveu comigo a luz de Buenos Aires

e eu forjo os versos de minha vida e de minha morte com essa luz de rua.

Rua grande e sofrida,

s a nica msica que minha vida conhece.

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#LliA DEFRONTE

LUA DEFRONTE

AO HORIZONTE DE UM SUBRBIO

Pampa:

Avisto tua amplido que afunda os subrbios, estou me dessangrando em teus poentes.

Pampa:

Posso ouvir-te nas tenazes violas sentenciosas, e nos altos bem-te-vis e no rudo cansado, dos carros de bois que vm do vero.

Pampa:

O espao de um ptio colorado me basta para te sentir meu.

Pampa:

Eu sei que te cortam

trilha e atalhos e o vento que te muda.

Pampa sofrido e macho que ests nos cus,

no sei se s a morte. Sei que ests em meu peito.

f

AMOROSA ANTECIPAO

Nem a intimidade de tua fronte clara como uma festa

nem o costume de teu corpo, ainda misterioso e tcito e de

menina,

nem a sucesso de tua vida assumindo palavras ou silncios sero favor to misterioso

como olhar teu sonho envolvido na viglia de meus braos.

Virgem miraculosamente outra vez pela virtude do sono

que absolve,

calma e resplandecente como a alegria que a memria elege, vais me dar essa margem de tua vida que tu mesma no tens. Lanado no silncio,

fitarei essa praia ltima de teu ser

e hei de te ver pela primeira vez, quem sabe, como Deus h de ver-te, a fico do Tempo dissipada, sem o amor, sem mim.

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#LUA DEFKONTE

LUA DEFRONTE

UMA DESPEDIDA

Tarde que solapou nosso adeus.

Tarde afiada e prazerosa e monstruosa como um anjo obscuro. Tarde em que viveram nossos lbios na intimidade nua

dos beijos.

O tempo inevitvel transbordava

sobre o abrao intil.

Juntos dissipvamos paixo, no para ns, mas para a

solido j prxima.

A luz nos afastou; a noite chegara de repente.

Fomos at o porto com a seriedade da sombra que agora

uma estrela atenua.

Como quem volta de um prado perdido eu voltei de teu

abrao.

Como quem volta de um pas de espadas eu voltei de tuas

lgrimas.

Tarde que dura vvida como um sonho

entre as outras tardes.

Depois fui alcanando e ultrapassando

noites e singraduras.

O GENERAL QUIROGA VAI DE COCHE PARA A MORTE

O leito seco nu j sem um fio de gua

e uma lua perdida no frio da alvorada,

e o campo morto de fome, pobre como uma aranha.

O coche balanava resmungando a altura;

um cantorio enftico, enorme, funerrio. Quatro tapados com pinta de morte na negrura carregavam seis medos e um valor desvelado.

Junto aos cocheiros cavalgava um moreno.

Ir pra morte de coche, que coisa mais vanglria! O general Quiroga quis entrar na sombra levando seis ou sete degolados de escolta.

Essa cordobesada turbulenta e ladina

(meditava Quiroga), o que h de poder com minha alma? Aqui estou asseverado e cravado na vida como o esporo pampa bem cravado no pampa.

Eu, que j sobrevivi a milhares de tardes

e a cujo nome estremecem as lanas, no perderei a vida por estes pedregais.

Morre acaso o pampeiro, se perecem as espadas?

Mas ao brilhar o dia sobre Barranca Yaco

ferros que no perdoam desceram sobre ele; a morte, que de todos, arriou com o riojano

e um par de punhaladas assinalou Juan Manuel.

J morto, ou de p, imortal, ou fantasma, compareceu ao inferno por Deus designado, e sob as suas ordens, rasgadas, dessangradas, seguiam almas penadas de homens

e cavalos.

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#LUA DEFRONTE

LUA DEFRONTE

MANUSCRITO ENCONTRADO NUM

LIVRO DE JOSEPH CONRAD

Nas terras trmulas que exsudam o estio, O dia invisvel de puro branco. O dia uma estria cruel numa gelosia,

Um fulgor nas praias e uma febre no stio.

Mas a antiga noite funda como um jarro

De gua cncava. A gua se abre a infinitos rastros, E em canoas ociosas, de frente para os astros, O homem mede o tempo livre com o cigarro.

A fumaa esmaece em cinza as constelaes Remotas. O imediato perde pr-histria e nome. O mundo um par de ternas imprecises. O rio, o rio primeiro. O homem,

o primeiro.

SINGRADURA

O mar uma espada inumervel e uma plenitude de pobreza. A labareda se traduz em ira, a fonte em tempo, e a cisterna

em clara aceitao.

O mar solitrio como um cego.

O mar uma linguagem antiga que no consigo mais decifrar. Em sua profundei, a aurora um modesto muro caiado. De seus confins surge o claror, qual nuvem de fumaa.

Impenetrvel como de pedra lavrada o mar persiste diante dos muitos dias. Cada tarde um porto.

Nosso olhar flagelado de mar caminha por seu cu: ltima praia macia, celeste argila das tardes.

Que doce intimidade a do ocaso com o mar intratvel! Claras como uma feira as nuvens brilham. A lua nova enredou-se num mastro.

A mesma lua que deixamos sob um arco de pedra e cuja luz

vai enfeitar os salgueiros.

No convs, em silncio, compartilho a tarde com minha irm,

como um naco de po.

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#LUA DEFRONTE

LUA DEFRONTE

DAKAR

Dakar est na encruzilhada do sol, do deserto e do mar.

O sol nos esconde o firmamento, o areal espreita nos caminhos, o mar um furor.

Vi um cavaleiro em cuja manta o azul era mais vivo que no cu incendiado.

A mesquita perto do cinema reflete uma lucidez de orao. A ressolana afasta as choas, o sol como um ladro escala os muros.

A frica tem na eternidade seu destino, onde h faanhas, dolos, reinos, rduos bosques e espadas. Eu alcancei um entardecer e uma aldeia.

A PROMISSO EM ALTO-MAR

No tenho mais teus arredores, minha ptria, mas ainda

guardo tuas estrelas.

O mais remoto firmamento as trouxe e agora se perdem em

sua graa os mastros.

Soltaram-se das altas cornijas como um assombro de pombos. Vm do ptio onde o poo uma torre invertida entre dois

cus.

Vm do vioso jardim cuja inquietude sobe ao p do muro

como gua sombria.

Vm do lasso entardecer de provncia, manso como amarantos. So imortais e veementes; nenhum povo vai medir sua

eternidade.

Diante de sua firmeza de luz todas as noites dos homens vo

se curvar como folhas secas.

So um claro pas e de algum modo minha terra habita seu

espao.

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#LUA DEFRONTE

LUA DEFRONTE

DULCIA LINQUIMUS ARU

Meus avs fizeram amizade

com estes ermos

e conquistaram a intimidade dos lhanos e ligaram a seu campear a terra, o fogo, o ar, a gua. Foram soldados e estancieiros e apascentaram o corao com manhs e

o horizonte, como um bordo,

soou nas profundezas de sua austera jornada. Sua jornada foi clara como um rio e a tarde era fresca como a gua oculta do poo

e as quatro estaes foram para eles como os quatro versos da copla esperada. Decifraram longnquas nuvens de p em carroas ou em cavalhadas e alegrou-os o esplendor

com que a espadana aviva o sereno. Um lutou contra os godos, outro no Paraguai cansou a sua espada; todos conheceram o abrao do mundo

e a campanha foi mulher submissa ao seu amor. Vastos eram seus dias

feitos de cu e descampado. Sabedoria de campo alm da sua, a daquele que est firme no cavalo e rege os homens da plancie e os trabalhos e os dias e as geraes

dos touros.

Sou do povoado e j no sei dessas coisas, sou homem de cidade, de bairro, de rua:

os bondes distantes embalam minha tristeza com o lamento longo que soltam pelas tardes.

QUASE JUZO FINAL

Meu errante no fazer nada vive e se solta pela variedade da

noite.

A noite uma festa longa e solitria.

Em meu corao secreto eu me justifico e celebro: Testemunhei o mundo; confessei a estranheza do mundo. Cantei o eterno: a clara lua volvedora e as faces que o amor

enseja.

Comemorei com versos a cidade que me cerca

e os arrabaldes que se apartam.

Disse assombro onde outros dizem apenas hbito.

Diante da cano dos tbios, acendi minha voz em poentes. Exaltei e cantei os antepassados de meu sangue e os

antepassados de meus sonhos.

Fui e sou.

Travei com palavras firmes roeu sentimento que pode ter

se dissipado em ternura.

A lembrana de uma antiga vileza volta a meu corao. Como o cavalo morto que a mar inflige praia, volta a meu

corao.

Ainda esto a meu lado, no entanto, as ruas e a lua.

A gua continua sendo doce em minha boca e as estrofes no

me negam sua graa.

Sinto o pavor da beleza; quem se atrever a condenar-me

se esta grande lua de minha solido me perdoa?

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#LUA DEFRONTE

LUA DEFRONTE

MINHA VIDA INTEIRA

Aqui outra vez, os lbios memorveis, nico e semelhante a vs.

Persisti outra vez na aproximao da ventura e na intimidade do sofrimento.

Cruzei o mar.

Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou trs homens. Amei uma menina altiva e branca, de uma hispnica quietude. Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma

insaciada

imortalidade de poentes.

Saboreei numerosas palavras.

Acredito profundamente que isso tudo e que no verei nem farei coisas novas.

Acredito que minhas jornadas e minhas noites se igualam em pobreza e em riqueza aos de Deus e aos de todos os homens.

LTIMO SOL EM VILLA ORTZAR

Tarde como de Juzo Final.

A rua uma ferida aberta no cu.

No sei se foi Anjo ou ocaso a claridade que ardeu na

profundeza.

Insistente, como um pesadelo, pesa sobre mim a distncia. Um arame farpado fere o horizonte. O mundo parece imprestvel e inerte. No cu dia, mas a noite traioeira

nas sarjetas.

Toda a luz est nas paredes azuis e nesse alvoroo de moas. J no sei se uma rvore ou um deus, esse que surge pela

grade enferrujada.

Quantos pases ao mesmo tempo: o campo, o cu, os subrbios. Hoje fui rico de ruas e de ocaso afiado e da tarde entorpecida. Longe, vou me devolver a minha pobreza.

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#LUA DEFRONTE

PARA UMA RUA DO OESTE

Vais me dar uma estranha imortalidade, rua sozinha. s a sombra de minha vida.

Atravessas minhas noites com tua segura exatido de estocada. A morte - tempestade obscura e imvel - confundir minhas

horas.

Algum recolher meus passos e usurpar minha devoo e essa estrela.

(A distncia como um longo vento flagelar seu caminho.) Desvelado de nobre solido, vai levar um mesmo desejo a

teu cu.

Vai levar esse mesmo desejo que sou eu. Ressurgirei em seu vindouro assombro de ser.

Em ti outra vez:

Rua que dolorosamente como uma ferida te abres.

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LUA DEFRONTE

VERSOS DE CATORZE

minha cidade de ptios cncavos como cntaros e de ruas que sulcam as lguas como um vo, minha cidade de esquinas com aurola de ocaso e de subrbios azuis,

feitos de firmamento,

minha cidade que se abre clara como um pampa, eu retornei das terras antigas do oriente, recuperei suas casas e a luz de suas casas e essa modesta luz que os armazns

exigem

e conheci nas margens, do querer, que de todos

e no fio de um poente dessangrei o peito em salmos e cantei o bem-vindo costume de estar s e o retalho de pampa colorido de um ptio.

Falei dos carrossis, o engenho dos domingos, do paredo que cresta a sombra de um paraso, do destino que espreita, tcito, no punhal, da noite perfumada como um

mate curado.

Pressenti as entranhas da fala as margens, palavra que na terra pe o acaso da gua

e que d aos subrbios sua aventura infinita e s campinas agrestes um sentido de praia.

Assim vou devolvendo a Deus alguns centavos do caudal infinito que Ele me pe nas mos.

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As to an occasional copy of verses, there are few men zupo have leisure to real, and are possessed of any musie in their souls, who are not capable of z~ersifying

on some ten or twelve occasions during their natural lives: at a proper conjunction of [fie stars. There is no harm in taking advantage of such occasions.

E. FiTzGERALD. Numa carta a Bernard Barton (1842).

PRLOGO

Falei muito, falei demais, sobre a poesia como brusco dom do Esprito, sobre o pensamento como atividade da mente; vi em Verlaine o exemplo de puro poeta lrico;

em Emerson, de poeta intelectual. Creio agora que em todos os poetas que merecem ser relidos ambos os elementos coexistem. Como classificar Shakespeare ou Dante?

No que se refere aos exerccios deste volume, notrio que aspiram segunda categoria. Devo ao leitor algumas observaes. Diante da indignao da crtica, que

no perdoa que um autor se arrependa, escrevo agora "Fundao mtica de Buenos Aires" e no "Fundao mitolgica", j que a ltima palavra sugere macias divindades

de mrmore. As duas sees de "Mortes de Buenos Aires" - ttulo que devo a Eduardo Gutirrez - imperdoavelmente exageram a conotao plebia de L Chacarita e a

conotao aristocrata de L Recoleta. Penso que a nfase de "Isidoro Acevedo" teria feito meu av sorrir.

Alm de "Llaneza", "A noite em que no Sul o velaram" talvez seja o primeiro poema autntico que escrevi.

J. L. B.

Buenos Aires, 1969.

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FUNDAO MTICA DE BUENOS AIRES

E foi por este rio de modorra e de barro

que as proas vieram fundar minha ptria? Deviam ir aos trancos os barquinhos pintados por entre os aguaps de sua corrente zaina.

Pensando bem na coisa, vamos supor que o rio fosse ento azulado, como oriundo do cu com sua estrelinha rubra para marcar o stio em que Juan Daz jejuou e os ndios

comeram.

O certo que mil homens e outros mil chegaram por um mar com a largura de umas cinco luas e ainda povoado de sereias e endragos

e dessas pedras-ms que enlouquecem a bssola.

Fincaram alguns ranchos trmulos pela costa,

dormiram assombrados. Isso - dizem - foi no Riachuelo, mas so desses embustes que se forjam na Boca. Foi numa quadra inteira e em meu bairro: Palermo.

Uma quadra inteira, mas do lado do campo exposto s madrugadas e chuvas e suestadas. Essa quadra parelha que persiste em meu bairro: Guatemala, Serrano, Paraguay,

Gurruchaga.

Um armazm rosado como o verso de um naipe brilhou e em seus fundos conversaram um troco; o armazm rosado floresceu num compadre, dono da esquina agora, j ressentido

e duro.

O primeiro realejo surgia no horizonte

com seu porte queixoso, a habanera e o gringo. Na certa o barraco j falava de YRIGoYEN, um piano mandava tangos de Saborido.

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#CADERNO SAN MARTN

Uma tabacaria incensou como uma rosa

o deserto. A tarde mergulhara em ontens,

os homens partilharam um passado ilusrio. S faltou uma coisa: a calada defronte.

Parece-me histria o comeo de Buenos Aires: julgo-a to eterna como a gua e o ar.

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CADERNO SAN MARTN

ELEGIA DOS PORTES

A Francisco Luis Bernrdez

Bairro Villa Alvear: entre as ruas Nicaragua, Arrogo Maldonado, Canning e Rivera. Muitos terrenos baldios ainda existem e sua importncia reduzida.

MANUEL BILBAO: Buenos Aires, 19O2.

Esta uma elegia

dos portes retos que alongavam sua sombra na praa de terra.

Esta uma elegia

que recorda um longo esplendor merencrio que os entardeceres davam aos baldios. (At nas passagens havia cu bastante para toda uma felicidade e as paredes eram

da cor das tardes.) Esta uma elegia

de um Palermo traado com vaivm de lembrana

e que se esvai na pequena morte dos esquecimentos.

Moas comentadas por uma valsa de realejo

ou pelos condutores do Klaxon insolente da linha 64,

sabiam nas portas a graa de sua espera. Havia ocos de cactos e a margem hostil do Maldonado - menos gua que barro na estiagem -

e descaradas veredas em que flamejava o namoro e uma fronteira de apitos de ferro.

Houve coisas felizes,

coisas que s existiram para alegrar as almas: o canteiro do ptio

e o andar balanado do compadre.

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CADERNO SAN MARTN

O dia era mais longo em tuas veredas

que nas ruas do centro,

porque aos buracos fundos se afeioava o cu. Carroas de flanco sentencioso cruzavam tua manh

e nas esquinas eram suaves os armazns como se espera de um anjo.

De minha rua nos altos ( coisa de uma lgua) vou procurar lembranas em tuas ruas noturnas. Meu assobio de pobre penetrar nos sonhos dos homens que dormem.

Essa figueira que surge sobre a mureta

se afina com minha alma

e mais grato o rosado firme de tuas esquinas que o das nuvens suaves.

Minha lembrana do jardim de casa: vida benigna das plantas, vida corts de misteriosa e lisonjeada pelos homens.

A mais alta palmeira daquele cu

e estncia de pardais;

parra firmamental de uva preta,

os dias de vero dormiam tua sombra.

Moinho colorado:

remota roda laboriosa no vento,

honra de nossa casa, porque nas outras o rio.ia sob a sineta do aguadeiro.

Poro circular da base

que tornavas vertiginoso o jardim, dava medo entrever por uma frincha teu calabouo de gua sutil.

Jardim, diante da grade cumpriram seus caminhos os sofridos carreiros

e o carnaval berrante aturdiu com insolentes blocos.

O armazm, padrinho do malvolo, dominava a esquina;

mas tinhas canaviais para fazer lanas e pardais para a orao.

O sonho de tuas rvores e o meu

ainda se confundem na noite e a extino da urraca

deixou um medo antigo em meu sangue.

CADERNO SAN MARTN

Palermo do princpio, tu possuas

umas quantas milongas para fazer-te valente e um baralho crioulo para esquecer da vida e alvoradas eternas para saber a morte.

CURSO DAS LEMBRANAS

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CADERNO SAN MARTN

Tuas poucas varas de profundidade se transformaram em geografia; um topo era "a montanha de terra" e uma temeridade seu declive.

Jardim, eu cortarei minha orao para seguir sempre lembrando: vontade ou acaso de dar sombra foram tuas rvores.

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CADERNO SAN MARTN

ISIDORO ACEVEDO

verdade que ignoro tudo sobre ele

- salvo os nomes de lugar e as datas: fraudes da palavra -

mas com temerosa piedade resgatei seu ltimo dia, no o que outros viram, o seu,

e quero me distrair de meu destino para escrev-lo. Afeito conversa portenha do truco,

alsinista e nascido do lado bom do Arrogo del Medio, fiscal de frutos do pas no antigo mercado do Once, no terceiro distrito,

lutou quando Buenos Aires o quis

em Cepeda, em Pavn e na praia dos Corrales.

Mas minha voz no deve assumir suas batalhas, porque ele as travou num sonho essencial. Porque como outros homens escrevem versos, meu av fez um sonho.

Quando uma congesto pulmonar o estava arruinando e a febre inventiva falseou-lhe a face do dia, reuniu os documentos ardentes da memria para forjar seu sonho.

Isto aconteceu numa casa da rua Serrano,

no vero abrasado de mil novecentos e cinco. Sonhou com dois exrcitos que entravam na sombra de um combate; enumerou os comandos, as bandeiras, as unidades. "Agora

os chefes esto parlamentando", disse em voz

que se ouviu,

e quis se levantar para v-los.

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#CADERNO SAN MARTN

CADERNO SAN MARTN

Recrutou gente do pampa:

viu terreno quebrado para que a infantaria pudesse aferrar-se e plancie arrojada para que o arranque da cavalaria fosse

invencvel.

Fez uma ltima leva,

reuniu os milhares de rostos que o homem sabe, sem saber,

com os anos:

rostos de barba que devem estar desmaiando em

daguerretipos,

rostos que viveram junto ao seu na Puente Alsina e em Cepeda. Naquela poca saqueou

para essa visionria rebelio que sua f pedia, no que uma

fraqueza lhe imps;

juntou um exrcito de sombras portenhas para que o matassem.

Assim, no quarto que dava para o jardim, morreu num sonho pela ptria.

Em metfora de viagem me contaram sua morte; no acreditei. Era um menino, ainda no conhecia a morte, eu era imortal; procurei-o durante dias pelos quartos sem

luz.

A NOITE EM QUE NO SUL O VELARAM

A Letizia lvarez de Toledo

Pelo passamento de algum

- mistrio cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade

no abarcamos -

h at o alvorecer uma casa aberta no Sul,

uma casa ignorada que no estou destinado a rever, mas que me espera esta noite com tresnoitada luz nas altas horas do sono, consumida por noites em claro, diferente,

minuciosa de realidade.

Para sua viglia que gravita em morte caminho

por ruas elementares como lembranas, pelo tempo exuberante da noite, sem mais vida audvel

que os vadios do bairro junto ao armazm apagado e algum assovio perdido no mundo.

O andar lento, na posse da espera,

chego quadra e casa e singela porta que busco e me recebem homens constrangidos seriedade que viveram a poca de meus antepassados,

e nivelamos destinos no aposento arrumado que d para o ptio - ptio que est sob o poder e na integridade da noite - e dizemos, porque a realidade maior, coisas

indiferentes e somos apticos e argentinos no espelho e o mate compartilhado mede horas vs.

Comovem-me as midas sabedorias

que em todo falecimento se perdem

- hbito de alguns livros, de uma chave, de um corpo entre

os outros.

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#CADERNO SAN MARTN

CADERNO SAN MARTN

Eu sei que todo privilgio, embora obscuro, da linhagem do milagre

e muito o de participar desta viglia,

reunida ao redor do que no se sabe: do Morto,

reunida para acompanhar e guardar sua primeira noite na morte.

(O velrio gasta os rostos;

nossos olhos esto morrendo no alto como Jesus.) E o morto, o incrvel?

Sua realidade est sob as flores diferentes dele e sua mortal hospitalidade vai nos dar uma lembrana a mais para o tempo

e sentenciosas ruas do Sul para merec-las devagar e brisa obscura sobre a fronte que se volta e a noite que nos livra da maior angstia: a prolixidade do real.

MORTES DE BUENOS AIRES

I

LA CHACARITA

Porque a entranha do cemitrio do sul

foi saciada pela febre amarela at dizer basta; porque os tugrios fundos do sul lanaram morte sobre a face de Buenos Aires

e porque Buenos Aires no pde encarar essa morte, golpes de p te abriram

na ponta perdida do oeste, atrs das tempestades de p

e do barro pesado e primitivo que moldou os quarteadores. Ali s existia o mundo

e os costumes das estrelas sobre umas chcaras, e o trem saa de um galpo em Bermejo com os esquecimentos da morte: mortos de barba desabada e olhos desvelados,

mortas de carne desalmada e sem magia.

As trapaas da morte - suja como o nascimento do homem - continuam multiplicando teu subsolo e assim recrutas teu cortio de almas, tua guerrilha clandestina de

ossos que caem no fundo de tua noite, to enterrada quanto as profundezas de um mar.

Uma dura vegetao de restos desolados

investe contra teus paredes interminveis cujo sentido perdio,

e as margens, convencidas de mortalidade, apressam sua vida quente a teus ps

em ruas transpassadas por um lampejo plido de barro ou se atordoam com desgosto de bandonees ou com balidos de cornetas insossas no carnaval. (A sentena inaltervel

do destino que dura em mim eu ouvi nessa noite em tua noite

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CADERNO SAN MARTN

quando a viola na mo do ribeirinho

disse o mesmo que as palavras, e elas diziam:

A morte vida vivida,

a vida morte que vem; a vida no outra coisa que a morte que se mostra.)

Macaco do cemitrio, La Quema

gesticula adventcia morte a teus ps.

Gastamos e adoecemos a realidade: 21O carroas infamam as manhs, levando a essa necrpole de fumaa as coisas cotidianas que contagiamos de morte. Cpulas desengonadas

de madeiras e cruzes no alto

se movem - peas pretas de um xadrez final - por tuas ruas e sua enfermia majestade vai encobrindo as vergonhas de nossas mortes. Em teu disciplinado recinto

a morte incolor, oca, numrica; se reduz a datas e a nomes, mortes da palavra.

Chacarita:

desaguadouro desta ptria de Buenos Aires, encosta final, bairro que sobrevives aos outros, que sobremorres, lazareto que ests nesta morte, no na outra vida, ouvi

tua palavra de caducidade e no acredito nela, porque tua prpria convico de angstia ato de vida

e porque a plenitude de uma s rosa maior que teus mrmores.

11

LA RECOLETA

Aqui a morte briosa,

a recatada morte portenha,

a consangnea da duradoura luz venturosa do trio do Socorro

e da cinza minuciosa dos braseiros

e do fino doce de leite dos aniversrios e das fundas dinastias de ptios.

92

CADERNO SAN MARTN

Combinam bem com ela

essas velhas douras e tambm os velhos rigores.

Tua fronte o prtico valoroso

e a generosidade de cego da rvore

e a dico de pssaros que aludem, sem conhec-la, morte e o rufo, endeusados de peitos, dos tambores nos enterros militares;

teu dorso, os tcitos cortios do norte e o paredo das execues de Rosas.

Cresce em dissoluo sob os sufrgios de mrmore a nao irrepresentvel de mortos que se desumanizaram em tua treva

desde que Mara de los Dolores Maciel, menina do Uruguai - semente de teu jardim para o cu - adormeceu, definhada, em teu descampado.

Mas eu quero demorar-me no pensamento

das flores leves que so teu comentrio piedoso - cho amarelo sob as accias de tua encosta, flores iadas para comemorar em teus mausolus - e no porqu de seu

viver belo e adormecido junto s terrveis relquias dos que amamos.

Falei do enigma e direi tambm sua palavra:

as flores sempre vigiaram a morte,

porque ns, homens, sempre soubemos de um modo

incompreensvel

que seu existir adormecido e belo

o que melhor pode acompanhar os que morreram sem ofend-los com soberba de vida, sem ser mais vida que eles.

93

#CADERNO SAN MARTN

A FRANCISCO LPEZ MERINO

Se te cobriste, por deliberada mo, de morte,

se tua vontade foi recusar todas as manhs do mundo, intil que palavras rejeitadas te solicitem, predestinadas impossibilidade e derrota.

S nos resta ento

falar da desonra das rosas que no souberam demorar-te, da afronta do dia que te permitiu o balao e o fim.

O que nossa voz poder opor

ao que a dissoluo, a lgrima, o mrmore confirmaram? Mas h ternuras que nenhuma morte torna menores: as ntimas, indecifrveis notcias que a msica nos conta,

a ptria que condescende com figueiras e poo, a gravitao do amor, que nos justifica.

Penso nelas e penso tambm, amigo escondido,

que talvez, com a imagem preferida, trabalhamos a morte, que j a conhecias de sinos, menina e graciosa, irm de tua aplicada letra de colegial, e que terias gostado

de distrair-te nela como num sonho.

Se isto verdade, e se quando o tempo nos deixa permanece em ns um sedimento de eternidade, um gosto do mundo,

ento tua morte leve,

como os versos em que sempre ests nos esperando, e assim no profanaro tua treva estas amizades que invocam.

CADERNO SAN MARTN

BAIRRO NORTE

Esta a declarao de um segredo

proibido pela inutilidade e pelo descuido, segredo sem mistrio nem juramento que s o por indiferena:

hbitos de homens e anoiteceres o possuem,

resguarda-o o esquecimento, que o modo mais pobre do

mistrio.

Um dia este bairro foi uma amizade,

um argumento de averses e afetos, como as outras coisas do

amor;

essa f persiste apenas

nuns fatos distanciados que vo morrer: na milonga que recorda as Cinco Esquinas,

no ptio como uma rosa firme sob os muros crescentes, no letreiro desbotado que ainda diz La Flor del Norte, nos rapazes de violo e carteado do armazm, na memria

estancada do cego.

Esse amor disperso nosso esmorecido segredo.

Uma coisa invisvel est perecendo no mundo,

um amor no maior que uma msica. O bairro nos afasta,

as sacadas atarracadas de mrmore no nos defrontam o cu. Nosso afeto se acovarda em tristezas, outra a estrela de ar das Cinco Esquinas.

Mas sem rudo, e sempre,

em coisas incomunicadas, perdidas, como as coisas sempre

esto,

na seringueira com seu estriado cu de sombra, na vasilha que recolhe o primeiro e o ltimo sol, perdura este fato diligente e amistoso,

essa obscura lealdade que minha palavra est declarando: o bairro.

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95

#CADERNO SAN MARTN

CADERNO SAN MARTN

PASSO DE JULIO

Juro que foi sem pensar que voltei rua

da alta feira repetida como um espelho,

das grelhas com a trana de carne dos Corrales,

da prostituio oculta pelo mais distinto: a msica.

Porto mutilado sem mar, afunilado bafo salobre,

ressaca que aderiste terra: Paseo de Julio,

embora minhas lembranas, antigas at a ternura, te saibam nunca te senti ptria.

S guardo de ti uma deslumbrada ignorncia,

uma incerta propriedade como a dos pssaros no ar, mas meu verso de interrogao e de prova e para obedecer ao entrevisto.

Bairro com lucidez de pesadelo ao p dos outros,

teus espelhos curvos denunciam o lado feio dos rostos, tua noite aquecida em bordis pende da cidade.

s a perdio forjando um mundo

com os reflexos e a deformao deste; sofres de caos, adoeces de irrealidade,

te empenhas em jogar com cartas marcadas a vida; teu lcool move pelejas,

tuas gregas manuseiam invejosos livros de magia.

Por ser vazio o inferno

ser espria tua prpria fauna de monstros

e a sereia prometida por esse cartaz morta e de cera?

Tens a terrvel inocncia

da resignao, do amanhecer, do conhecimento, a do esprito no purificado, apagado pelos dias do destino,

que ora branco de muitas luzes, ora ningum,

s cobia o presente, o atual, como os homens velhos.

Atrs dos muros de meu subrbio, as carroas rudes rezaro com os varais em riste para seu impossvel deus de

ferro e de p,

mas, que deus, que dolo, que venerao a tua, Paseo de Julio?

Tua vida fez um pacto com a morte;

toda felicidade, por existir, j te adversa.

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EVARISTO CARRIEGO

193O

... a mode of truth, not of truth coherent and central, but angular and splintered.

DE QUINCEY: Writings, XI, 68.

PRLOGO

Acreditei, durante anos, que tinha crescido num subrbio de Buenos Aires, um subrbio de ruas perigosas e de ocasos visveis. A verdade que cresci num jardim,

atrs de grades com lanas, e numa biblioteca de inumerveis livros ingleses. Palermo do punhal e da guitarra andava (me afirmam) pelas esquinas, mas os que habitavam

minhas manhs e trouxeram agradvel horror s minhas noites foram o corsrio cego de Stevenson, agonizante sob as patas dos cavalos, e o traidor que abandonou seu

amigo luz da lua e o viajante do tempo, que trouxe do futuro uma flor murcha, e o gnio, durante sculos encarcerado no cntaro salomnico, e o profeta velado

do Kurassan, que, por trs das pedras e da seda, ocultava a lepra.

Contudo, o que havia do outro lado do gradil com lanas? Que destinos vernculos e violentos foram-se cumprindo a alguns passos de mim, no obscuro armazm ou no

baldio sem leis? Como foi aquele Palermo, ou como deveria ter sido para que fosse belo evoc-lo?

A tais perguntas este livro menos documental que imaginativo quis responder.

J. L. B.

1O3

DECLARAO

Penso que o nome de Evaristo Carriego pertencer ecclesia visibilis de nossas letras, cujas instituies piedosas - cursos de oratria, antologias, histrias da

literatura nacional - contaro definitivamente com ele. Tambm penso que pertencer mais verdadeira e reservada ecclesia invisibilis, dispersa comunidade dos

justos, e que essa melhor incluso no se dever frao de pranto de sua palavra. Tenho tentado fundamentar essas opinies.

Tenho considerado tambm - talvez com preferncia indevida - a realidade que se props imitar. Quis proceder por definio, no por suposio: perigo voluntrio,

pois suspeito que mencionar rua Honduras e se abandonar repercusso casual de seu nome mtodo menos falvel - e menos fatigante - que defini-lo com prolixidade.

O amante dos temas de Buenos Aires no se impacientar com essas delongas. Para ele, acrescentei os captulos do suplemento.

Usei o utilssimo livro de Jos Gabriel e os estudos de Melin Lafinur e de Oyuela. Minha gratido quer reconhecer tambm outros nomes: Julio Carriego, Flix Lima,

doutor Marcelino del Mazo, Jos Olave, Nicols Paredes, Vicente Rossi.

J. L. B.

Buenos Aires, 193O.

1O5

#1

PALERMO DE BUENOS AIRES

A vindicao da antigidade de Palermo deve-se a Paul Groussac. Est registrada nos Anais da Biblioteca, numa nota da pgina 36O do tomo quatro; as provas ou documentos

foram publicados muito depois no nmero 242 de Nosotros. Trazemnos de volta um siciliano, Domnguez (Domenico) de Palermo da Itlia, que acrescentou a seu nome o

de sua ptria, talvez para manter, pelo menos, um sobrenome no hispnico, "e chegou com vinte anos e casou-se com filha de conquistador". Este, portanto, Domnguez

Palermo, fornecedor de carne para a cidade, entre os anos de 16O5 e 1614, possua um curral perto do Maldonado, para abrigo ou matana de rebanho selvagem. Degolado

e suprimido foi esse rebanho, mas restou-nos a precisa referncia a "uma mula tordilha que anda pela chcara de Palermo, no limite desta cidade". Posso v-la absurdamente

clara e pequenina, no fundo do tempo, e no quero somar-lhe pormenores. Que nos baste v-la sozinha: o confuso estilo incessante da realidade, pontuado de ironias,

de surpresas, de previses estranhas como as surpresas, s recupervel pelo romance, intempestivo aqui. Felizmente, o copioso estilo da realidade no o nico:

h o da memria tambm, cuja essncia no a ramificao dos fatos, mas a perdurao de traos isolados. Essa poesia a natural de nossa ignorncia e no procurarei

outra.

Nos esboos de Palermo esto a chcara decente e o matadouro torpe; tampouco faltava em suas noites algum barco contrabandista holands, atracando na parte baixa

do rio, diante do afiado capim oscilante. Recuperar essa quase imvel pr-histria seria tecer insensatamente uma crnica de infinitesimais processos: as etapas

da distrada marcha secular de Buenos Aires sobre Palermo, ento, uns terrenos baldios ala

1O7

#EVARISTO CARRIEGO

gadios, s costas da ptria. A forma mais direta, conforme o procedimento cinematogrfico, seria propor uma continuidade de figuras que cessam: um arreio de mulas

carregadas de vinhas, as xucras com a cabea coberta; uma gua quieta e longa em que biam algumas folhas de salgueiro; uma vertiginosa alma penada, enforquilhada

em pernas-de-pau e vadeando os torrenciais riachos; o campo aberto sem nada para fazer; as marcas do pisotear teimoso do rebanho, rumo aos currais do Norte; um campons

(por volta da madrugada) que apeia do cavalo derreado e lhe degola o largo pescoo; uma fumaa que se desentende no ar. Assim at a fundao por Dom Juan Manuel:

pai mitolgico de Palermo, no meramente histrico, como esse Domnguez-Domenico, de Groussac. A fundao foi a ferro e fogo. Uma chcara adocicada pelo tempo, no

caminho para Barracas, era o costumeiro ento. Mas Rosas queria construir, queria a casa filha dele, no saturada de forasteiros destinos, nem provada por eles.

Milhares de cargas de terra negra foram trazidas dos campos de alfafa de Rosas (depois Belgrano) para nivelar e adubar o solo argiloso, at que o barro selvagem

de Palermo e a terra ingrata conformassem com sua vontade.

Por volta dos quarenta, Palermo elevou-se condio de cabea da Repblica, corte do ditador e palavra de maldio para os unitrios. No conto sua histria para

no desluzir o resto. Limito-me a enumerar "essa grande casa caiada chamada seu Palcio" (Hudson, Far Away and Long Ago, pgina 1O8) e os laranjais e a piscina de

paredes ladrilhadas e a balaustrada de ferro de onde o bote do Restaurador se aventurava para uma navegao to frugal que Schiaffino comentou: "O passeio aqutico

em to pouca gua devia ser pouco prazeroso e em to curto circuito equivalia a navegar em petio. Mas Rosas estava tranqilo; levantando o olhar via a silhueta,

recortada no cu, das sentinelas que faziam a guarda perto da balaustrada, escrutando o horizonte com o olho vigilante do quero-quero". Essa corte j se dividia

pelas margens: o escondido acampamento de adobe cru da Diviso Hernndez e a rancharia, palco de brigas e paixo das quarteleiras negras, os Quartos de Palermo.

O bairro, como se v, foi sempre carta dbia, moeda de duas caras.

PALERMO DE BUENOS AIRES

Durou doze anos esse ardido Palermo, na soobra da exigente presena de um homem obeso e loiro que percorria os caminhos limpinhos, com cala azul militar, debruada

de vermelho, colete escarlate e sombreiro de aba muito larga, e que costumava manejar e dobrar uma cana comprida, como um cetro de ar, bem leve. Esse homem temeroso

saiu de Palermo num entardecer para comandar a mera debandada ou batalha de antemo perdida a que se entregou em Caseros; a Palermo chegou o outro Rosas, justo Jos,

com sua aparncia de touro xucro, e a faixa mazorqueira escarlate, ao redor da ridcula cartola, e o uniforme pomposo de general. Chegou, e se os panfletos de Ascasubi

no nos enganam:

na entrada de Palermo ordenou pr pendurados dois homens desgraados que depois de fuzilados iaram nos umbuzeiros at que da aos pedaos cassem apodrecidos...

Ascasubi, depois, detm-se na desprezada tropa entrerriana do Exrcito Grande:

Entretanto nos lodaais

de Palermo amontoados quase todos sem camisa, estavam seus Entrerrianos (como ele diz) miserveis, comendo novilhos magros e vendendo cacarecos...

Milhares de dias de que no se tem lembrana, zonas embaadas pelo tempo, cresceram e gastaram-se depois, at chegar-se, com as fundaes individuais - a Penitenciria,

no ano de 77, o hospital Norte, de 82, o hospital Rivadavia, de 87 -, ao Palermo das vsperas de 9O, em que os Carriego compraram sua casa. sobre esse Palermo

de 1889 que quero escrever. Direi sem restrio o que sei, sem omisso nenhuma, porque a vida recatada como um delito, e no sabemos o que

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#EVARISTO CARRIEGO

PALERMO DE BUENOS AIRES

enfatizado por Deus. Alm disso, o circunstancial sempre pattico." Escrevo tudo, com risco de escrever verdades notrias, mas que amanh o descuido confundir

entre os papis, que o modo mais pobre do mistrio e sua primeira face."

Alm do ramal da estrada de ferro do Oeste, que seguia por Centroamrica, espreguiava-se entre bandeirolas de leiloeiros o bairro, no s sobre o campo elementar,

mas tambm sobre o desmantelado corpo de chcaras, loteadas brutalmente para logo serem pisoteadas por armazns, carvoarias, ptios, cortios, barbearias e barraces.

H abafados jardins de bairro, com palmeiras enlouquecidas entre material e ferros, que a relquia degenerada e mutilada de uma grande chcara.

Palermo era uma despreocupada pobreza. A figueira escurecia sobre o taipal; as varandinhas de modesto destino entregavam-se a dias iguais; a perdiOa corneta do vendedor

de amendoim explorava o anoitecer. Na humildade das casas, no era estranho algum vaso de alvenaria, coroado aridamente de cactos: planta sinistra que, no sono universal

das outras, parece corresponder a uma regio de pesadelo, mas to sofrida, na verdade, que vive nos terrenos mais ingratos e no ar deserto, e a consideram distraidamente

um adorno. Havia felicidades tambm: a jardineira do ptio, o andar orgulhoso do compadre, a balaustrada com espaos de cu.

1 "O pattico, quase sempre, est no pormenor das pequenas circunstncias", observa Gibbon numa das notas finais do captulo qinquagsimo de seu Declin and Fa11.

2 Afirmo - sem afetado temor nem romanesco amor pelo paradoxo - que somente os pases novos possuem passado; isto , lembrana autobiogrfica do mesmo; isto , tm

histria viva. Se o tempo sucesso, temos de reconhecer que quanto maior

a densidade dos fatos, mais tempo corre e mais caudaloso o tempo deste inconseqente lado do mundo. A conquista e a colonizao destes reinos - quatro temerosos

fortins de barro, presos costa e vigiados pelo inclinado horizonte, arco

que disparava inesperados ataques - foram de to efmera operao que um de meus avs, em 1872, comandou a ltima batalha importante contra os ndios, realizando,

depois da metade do sculo XIX, obra conquistadora do XVI. Contudo, por

que trazer destinos j mortos? No senti a leveza do tempo em Granada, sombra de torres cem vezes mais antigas que as figueiras, e, sim, em Pampa e Triunvirato:

inspido lugar de telhas anglicizantes agora, de fornos de tijolos enfumaados h

trs anos, de cavalarias caticas h cinco. O tempo - emoo europia de homens repletos de dias que so sua vindicao e apangio - da mais imprudente circulao

nestas repblicas. Os jovens, para seu pesar, sentem-no. Aqui somos do mesmo tempo que o tempo, somos seus irmos.

O cavalo escorrido de limo e seu Garibalda no deprimiam os Portes antigos. (A dolncia geral: no resta praa que no esteja suportando seu fantoche de bronze.)

O Botnico, estaleiro silencioso de rvores, ptria de todos os passeios da capital, formava esquina com a desmantelada praa de terra; no era assim o Jardim Zoolgico,

que se chamava ento as feras e ficava mais ao norte. Agora (cheirando a caramelo e a tigre), ocupa o lugar onde se alvoroaram faz cem anos os Quartos de Palermo.

Somente algumas ruas - Serrano, Canning, Coronel - estavam grosseiramente caladas, com corredores aplainados para passagem das grandes carroas, imponentes como

um desfile, e para as pomposas vitrias. Na rua Godoy Cruz, subia-lhe a ladeira aos trambolhes, o 64, veculo servial que divide com a poderosa sombra passada

de Dom Juan Manuel a fundao de Palermo. As viseiras laterais e a corneta milongueira do condutor instigavam a admirao ou as emulaes do bairro, mas o inspetor

- duvidados profissional da retido - era instituio combatida, e no faltou espertalho que, enfiando o bilhete na braguilha, repetia com indignao que se quisesse

era s tir-lo da.

Procuro realidades mais nobres. Nos confins com Balvanera, a leste, havia casares em abundncia com reta sucesso de ptios, casares amarelos ou pardos com porta

em forma de arco - arco repetido especularmente em outro saguo - e com delicada porta do tipo cancela de ferro. Quando as noites impacientes de outubro levavam

cadeiras e pessoas para a calada e as casas devassadas se deixavam ver at o fundo e havia amarela luz nos ptios, a rua era confidencial e leviana e as casas ocas

eram como lanternas em fila. Essa impresso de irrealidade e de serenidade mais bem lembrada por mim numa histria ou smbolo, que parece ter sempre estado comigo.

um instante desgarrado de uma histria que ouvi num armazm e que era, ao mesmo tempo, trivial e enredado. Relembro-o sem muita segurana. O heri dessa extravagante

Odissia era o eterno crioulo, acossado pela justia, delatado dessa vez por um sujeito mal-encarado e odioso, mas que na guitarra no havia outro igual. O sobrevivente

instante da narrativa conta como o heri pde fugir da priso, como tinha que cumprir sua vingana numa nica noite, como procurou em vo o traidor, como vagando

pelas

11O

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#EVARISTO CARRIEGO

PALERMO DE BUENOS AIRES

ruas com lua o vento subjugado lhe trouxe indicaes da guitarra, como seguiu esse rastro entre os labirintos e as inconstncias do vento, como dobrou esquinas de

Buenos Aires, como chegou ao umbral distante em que guitarreava o traidor, como abrindo passagem entre os ouvintes o alou sobre a faca, como saiu aturdido e se

foi, deixando mortos e calados atrs o delator e sua guitarra mexeriqueira.

No poente, ficava a pobreza gringa do bairro, sua nudez. O termo Ias orillas ajusta-se com sobrenatural preciso a esses pontais escassos, em que a terra assume

a indeterminao do mar e parece digna de ilustrar a insinuao de Shakespeare: "A terra tem borbulhas, como as tem a gua". No poente, havia becos empoeirados que

se iam empobrecendo pela tarde afora; havia lugares em que um galpo da estrada de ferro ou um vazio com pitas, ou uma brisa quase confidencial, inaugurava mal e

mal o pampa. Ou, ento, uma dessas casas baixotas sem reboco, de janela baixa, com grade - s vezes com uma amarela esteira atrs, com figuras - que a solido de

Buenos Aires parece criar, sem participao humana visvel. Depois: o Maldonado, ressequido e amarelo leito, estirando-se sem destino desde L Chacarita e que, por

milagre espantoso, passava de morto de sede s desmedidas extenses de gua violenta, que carregavam furtivamente a rancharia moribunda das margens. H uns cinqenta

anos, depois desse irregular leito ou morte, comeava o cu: um cu de relinchos e crinas e pasto doce, um cu cavalar, os happy hunting-grounds preguiosos das

cavalhadas emritas da polcia. Para o lado do Maldonado, tornava-se escassa a gentalha nativa, substituda pelo calabrs, gente com quem ningum queria meter-se,

pela perigosa boa lembrana de seu rancor, por suas punhaladas traioeiras iniludveis. A Palermo entristecia, pois os trilhos de ferro do Pacfico bordejavam o

arroio, descarregando essa peculiar tristeza das coisas escravizadas e grandes, das barreiras altas como varal de carroa em descanso, dos verticais terrenos aplainados

e das plataformas. Uma fronteira de fumaa trabalhadora, uma fronteira de vages rudes em movimento fechava esse lado; atrs, crescia ou emperrava o arroio. Esto

encarcerando-o agora: esse quase infinito flanco de solido que at bem pouco se acavernava, atrs da casa de doces e de truco La Paloma, ser substitudo por uma

rua atre

vida, de telhas do tipo ingls. Do Maldonado, no restar seno nossa lembrana, elevada e solitria, e a melhor tragicomdia popular argentina, e os dois tangos

que se chamam assim - um primitivo, atualidade que no se preocupa, mera marcao da dana, ocasio de arriscar-se nos requebros; outro, um doloroso tango-cano,

ao estilo da Boca - e algum clich apoucado que no facilitar o essencial, a impresso de espao, e uma equivocada outra vida, na imaginao dos que no o viveram.

Ao imagin-lo, no creio que o Maldonado fosse diferente de outros locais muito pobres, mas a idia de sua gentalha, excedendo-se em esfarrapados bordis, sombra

da inundao e do fim, imperava na imaginao popular. Assim, na hbil tragicomdia local que mencionei, o arroio no um gasto pano de fundo: uma presena muito

mais importante do que o mulato Nava e que a china Dominga e que o Ttere. (A ponte Alsina, com seu ainda no cicatrizado passado pendenciador e sua memria da grande

ao patritica dos oitenta, desbancou-o na mitologia de Buenos Aires. No que se refere realidade, fcil observar que os bairros mais pobres costumam ser os

mais rebaixados e que neles floresce uma assustada decncia.) Do lado do arroio, zarpavam as tormentas altas de terra que toldavam o dia, e o ataque de ar do pampeiro,

golpeando todas as portas voltadas para o sul e que deixavam no vestbulo uma flor de cardo, e a arrasadora nuvem de gafanhotos, que as pessoas tentavam espantar

aos gritos," e a solido e a chuva. Gosto de p tinha esse bairro.

Na direo da gua traioeira do rio, prximo ao bosque, o bairro tornava-se cruel. A primeira construo desse pontal foi a dos matadouros do Norte, que ocuparam

umas dezoito quadras, entre as futuras ruas Anchorena, Ls Heras, ustria e Beruti, e agora sem mais vestgio verbal que o nome La Tablado, que ouvi de um carroceiro,

ignorante de sua antiga justificativa. Tenho induzido o leitor a imaginar esse dilatado recinto de muitas quadras, e embora os currais tenham desaparecido nos setenta,

a figura tpica do lugar, atravessado sempre por propriedades - o cemitrio, o hospital Rivadvia, o presdio, o mercado, o barraco municipal, o atual lanifcio,

3 Destru-los era coisa de hereges, porque levavam o sinal da cruz: marca de sua emisso e repartio especiais por parte do Senhor.

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#EVARISTO CARRIEGO

PALERMO DE BUENOS AIRES

a cervejaria, a chcara de Hale -, com a pobreza de surrados destinos ao redor. Essa chcara era por duas razes mencionada: pelos pereirais que a garotada do bairro

saqueava com clandestinos ataques e pela apario que visitava os lados da rua Agero, reclinada na haste de um lampio a cabea impossvel. Porque, aos verdadeiros

perigos de um compadrio de faco e soberba, tinha-se que acrescentar os fantsticos de uma mitologia foragida; a viva e o estapafrdio porco de lata, srdidos como

o baixo mundo, foram as mais temidas criaturas dessa religio de escria. Antes tinha sido uma queimada esse norte: natural que gravitassem em seus ares lixos

de almas. Restam esquinas pobres que se no desabam porque as sustentam ainda os compadritos mortos.

Descendo pela rua de Chavango (depois Las Heras), o ltimo botequim do caminho era La Primera Luz, nome que, apesar de aludir a seus madrugadores hbitos, deixa

impresso - correta - de cegas ruas, atascadas, sem ningum, e por fim, nas cansadas curvas, uma humana luz de armazm. Entre os fundos do cemitrio avermelhado

do Norte e os da Penitenciria, ia-se levantando do p um subrbio achatado e despedaado, sem rebocar: sua notria denominao, a Terra do Fogo. Escombros dos primrdios,

esquinas de agressividade ou de solido, homens furtivos que se chamam assobiando e que se dispersam de repente na noite lateral dos becos, designavam seu carter.

O bairro era uma esquina final. Uma corja a cavalo, corja de sombreiro pontudo como mitra sobre os olhos e com a acaipirada bombacha, sustentava por inrcia ou por

impulso uma guerra de duelos individuais com a polcia. A lmina do valento suburbano, sem ser to longa - era luxo de corajosos us-la curta -, era de melhor tmpera

que a do sabre adquirido pelo Estado, vale dizer, com predileo pelo custo mais alto e pelo pior material. Era manejada por um brao com mais vontade de derrubar,

melhor conhecedor dos rumos instantneos do entrevero. S pela virtude da rima, sobreviveu ao desgaste de quarenta anos um instante desse impulso:

Fique longe, eu lhe rogo, que sou da Terra do Jogo."

4 Taullard, 233.

No s de lutas; essa fronteira era feita de guitarras tambm.

Escrevo esses recuperados fatos, e me atrai com aparente arbitrariedade o agradecido verso de Home-thoughts: "Here and here did England help me", que Browning escreveu

pensando em uma abnegao sobre o mar e no alto navio torneado como um bispo do xadrez em que Nelson caiu, e que repetido por mim - traduzido tambm o nome da ptria,

pois para Browning no era menos prximo o de sua Inglaterra - serve-me como smbolo de noites solitrias, de caminhadas extasiadas e eternas pela infinitude dos

bairros. Porque Buenos Aires profunda, e nunca, na desiluso ou no penar, abandonei-me a suas ruas sem receber inesperado consolo, seja por sentir irrealidade,

seja pelas guitarras ao fundo de um ptio, seja pelo roar de vidas. "Here and here did England help me", aqui e aqui veio me ajudar Buenos Aires. Essa razo uma

das razes por que resolvi compor este primeiro captulo.

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#LIMA VIDA DE EVARISTO CARRIEGO

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UMA VIDA DE EVARISTO CARRIEGO

Que um indivduo queira despertar em outro indivduo

recordaes que no pertenceram seno a um terceiro, um

paradoxo evidente. Realizar com despreocupao esse para

doxo a inocente vontade de toda biografia. Acredito tambm

que ter conhecido Carriego no retifica, neste caso particular, a

dificuldade do propsito. Tenho recordaes de Carriego:

recordaes de recordaes de outras recordaes, cujos m

nimos desvios originais tero obscuramente crescido, a cada novo ensaio. Conservam, eu sei, o idiossincrtico sabor que chamo Carriego e que nos permite identificar

um rosto na multido. inegvel, mas esse leve arquivo mnemnico - inteno da voz, maneiras de seu andar e de sua quietude, emprego dos olhos - , por escrito,

a menos comunicvel de minhas informaes sobre ele. Unicamente a transmite a palavra Carriego, que exige a mtua possesso da prpria imagem que desejo comunicar.

H outro paradoxo. Escrevi que para as pessoas das relaes de Evaristo Carriego bastava a meno de seu nome para imagin-lo; acrescento que toda descrio pode

satisfazlas, sempre que no desmentir crassamente a representao j formada em seu esprito. Repito esta de Giusti, no nmero 219 de Nosotros: "magro poeta de

olhinhos instigadores, sempre trajado de preto, que vivia nos arrabaldes". A indicao de morte, presente no trajado sempre de preto e no adjetivo, no faltava em

seu vivacssimo rosto, que refletia sem maior divergncia as linhas da caveira interior. A vida, a mais urgente vida, estava nos olhos. Tambm os lembrou com justia

o discurso fnebre de Marcelo del Mazo. "Esse acento nico de seus olhos, com to pouca luz e to eloqente expresso", escreveu.

Carriego era entrerriano, de Paran. Foi seu av o doutor Evaristo Carriego, escritor deste livro de papel escuro e capas

rijas que se chama com inteira razo Pginas Esquecidas (Santa F, 1895) e que meu leitor, se tem o costume de remexer os turvos purgatrios de livros velhos da

rua Lavalle, provavelmente teve nas mos alguma vez. Teve e deixou, porque a paixo escrita nesse livro circunstancial. Trata-se de uma soma de pginas partidrias

de urgncia, em que tudo requisitado para a ao, desde o uso caseiro do latim at Macaulay ou Plutarco segundo Garnier. Sua valentia da alma: quando a legislatura

do Paran resolveu erigir uma esttua para Urquiza ainda em vida, o nico deputado que protestou foi o doutor Carriego, num belo discurso, porm intil. Carriego,

o antecessor, memorvel aqui no s por sua possvel herana polmica, mas tambm pela tradio literria de que se valeria seu neto depois para rabiscar essas

primeiras coisas frouxas que so condio para as vlidas.

Carriego era de muitas geraes entrerriano. O acento entrerriano do crioulismo, semelhante ao oriental, rene o decorativo e o impiedoso da mesma maneira que os

tigres. batalhados, seu smbolo a lana guerrilheira das insurreies patriticas. doce: uma doura vergonhosa e mortal, uma doura despudorada, tipifica as

mais belicosas pginas de Leguizamn, de Elas Regules e de Silva Valds. E grave: a Repblica Oriental, onde o acento a que me refiro mais evidente, no escreveu

nada bem-humorado, nem sequer uma nota de felicidade, desde os mil e quatrocentos epigramas hispano-coloniais propostos por Acuna de Figueroa. Posta a versificar,

vacila entre a aquarela e o crime; seu tema no a aceitao do destino de Martn Fierro, mas as febres da aguardente ou da divisa, bem adoadas. Colabora com esse

sentir uma efuso que no compreendemos, a rvore; uma impiedade que no encarnamos, o ndio. Sua gravidade parece derivar de um mais sobressaltado rigor: Dom Segundo

Sombra, portenho, conheceu os retos rumos da plancie, a conduo do rebanho e um duelo ocasional a punhal; oriental, teria conhecido tambm o ataque da cavalaria

das insurreies patriticas, o duro recrutamento de homens, o contrabando... Carriego conhecia por tradio esse crioulismo romntico e o misturou ao crioulismo

ressentido dos subrbios.

s razes evidentes de seu crioulismo - linhagem provinciana e vivncia nos subrbios de Buenos Aires - devemos

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#EVARISTO CARRIEGo

UMA VIDA DE EVARISTO CARRIEGo

acrescentar uma razo paradoxal: a de sua poro de sangue italiano, articulada em seu sobrenome materno Giorello. Escrevo sem malcia; o crioulismo do inteiramente

crioulo uma fatalidade, o do mestio, uma deciso, uma conduta escolhida e resolvida. A venerao do tnico ingls que se l no nspired Eurasian journalist Kipling

no mais uma prova (se a fisionmica no bastasse) de seu mesclado sangue?

Carriego costumava vangloriar-se: "Os gringos, no me basta detest-los; eu os caluOio", mas a irreverncia alegre dessa declarao prova que no verdadeira. O

crioulo, com a segurana de seu ascetismo e de quem est en1 sua casa, considera o gringo inferior, e acha graa de sua felicidade, de sua apoteose densa. observao

costumeira que o italiano tudo pode nesta repblica, exceto ser levado realmente a srio pelos que foram desalojados por ele. Essa benevolncia, no fundo totalmente

dissimulada, a desforra reservada dos filhos do pas.

Os espanhis eram outra preferncia de su averso. A acepo corrente do espanhol - o fantico que substituiu o auto-de-f pelo Dicionrio de Galicismos, o criado

rla selva de espanadores - era tambm a dele. Falta acrescentar que essa preveno ou preconceito no o impediu de ter algumas amizades hispnicas, como a do doutor

Severianb Lorente, que parecia carregar consigo o tempo ocioso e generoso da Espanha (o largo tempo muulmano que gerou o Luro das Mil e Uma Noites) e que se demorava

at o amanhecer, no Royal Keller, diante de sua meia garrafa.

Carriego acreditava ter obrigao com seu bairro pobre: obrigao que o estilo velhaco da poca traduzia em rancor, mas que ele sentiria como foro- Ser pobre implica

posse mais imediata da realidade, um choque com o primeiro gosto spero das coisas: conhecimento que parece faltar aos ricos, como se tudo lhes chegasse filtrado.

To endividado se acreditava Evaristo Carriego com seu ambiente, que em duas diferentes passagens de sua obra sedesculpa por escrever versos a uma mulher, como se

a considerao pela pobreza amarga da vizinhana fosse o nico emprego lcito de seu destino.

Os fatos de sua vida, ainda que infinitos e incalculveis, so de enumerao aparentemente fcil e Gabriel ps cita de modo prestativo em seu livro de novecentos

e vinte e um. Ele

nos revela a que nosso Evaristo Carriego nasceu em 1883, em 7 de maio, que concluiu o terceiro ano do colegial e freqentava a redao do jornal La Protesta, falecendo

no dia 13 de outubro de novecentos e doze, e outras pontuais e invisveis informaes que despreocupadamente obrigam quele que as recebe esse trabalho descosido

do narrador, que o de reconstituir em imagens os relatos. Penso que a sucesso cronolgica no possa ser aplicada a Carriego, homem de conversada e passeada vida.

Enumer-lo, seguir a ordem de seus dias, parece-me impossvel; melhor ser procurar sua eternidade, suas repeties. Somente uma descrio atemporal, morosa e com

amor, pode devolv-lo a ns.

Literariamente, seus juzos de condenao e elogio ignoravam a dvida. Era muito maledicente: atacava os mais justificados nomes famosos com essa evidente falta

de razo que costuma no ser mais do que cortesia ao prprio cenculo, uma lealdade em acreditar que a reunio presente perfeita e no poderia ser melhorada pelo

acrscimo de ningum. A revelao da capacidade esttica da palavra ocorreu nele, como em quase todos os argentinos, mediante os desconsoles e os xtases de Almafuerte:

afeio que a amizade pessoal corroborou depois. O Quixote era sua mais freqente leitura. Com Martn Fierro deve ter tido o procedimento comum em seu tempo: algumas

apaixonadas leituras clandestinas, quando jovem, um gosto sem regras. Era aficionado tambm pelas caluniadas biografias de valentes feitas por Eduardo Gutirrez,

desde a semi-romntica de Moreira at a claramente realista de Formiga Negra, o de San

Nicols ( "del Arrogo y no me arrollo!"). A Frana, pas ento de

recomendado entusiasmo, tinha lhe transmitido sua representao em Georges D"Esparbs, em algum romance de Victor Hugo e nos de Dumas. Tambm costumava publicar

em suas conversas tais preferncias guerreiras. A morte ertica do caudilho Ramrez, desmontado do cavalo a golpes de lana e decapitado por defender sua Delfina,

e a de Juan Moreira, que passou dos ardentes jogos do lupanar s baionetas policiais e aos balaos, eram muito contadas por ele. No descuidava da crnica de seu

tempo: as punhaladas dos bailecos e das esquinas, os relatos de ferro cujo valor recai em quem os est contando. "Sua conversa" - escreveria

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UMA VIDA DE EVARISTO CARRIEGO

Giusti depois - "evocava os ptios da vizinhana, os queixosos realejos, os bailes, os velrios, os valentes, os lugares de perdio, sua carne de presdio e de

hospital. Ns, os homens do Centro, o escutvamos encantados, como se nos contasse fbulas de um distante pas". Ele se sabia delicado e mortal, mas lguas rosadas

de Palermo o estavam respaldando.

Escrevia pouco, o que significa que seus rascunhos eram orais. Na caminhada noite vagabunda, na plataforma dos Lacroze, nas tardias voltas para casa, ia tramando

versos. No dia seguinte - em geral depois de almoar, hora venulada de indolncia, mas sem grande pressa -, definia-os no papel. Nem se fatigou noite, nem se atreveu

jamais cerimnia desconsolada de madrugar para escrever. Antes de entregar um original, punha prova sua imediata eficcia, lendo-o ou repetindo-o aos amigos.

Destes, um que menciona invariavelmente Carlos de Soussens.

"A noite em que Soussens me descobriu" era uma das freqentes referncias na conversa de Carriego. Este queria-o ou no o queria pelas mesmas razes. Gostava de

sua condio de francs, de homem associado ao prestgio de Dumas pai, de Verlaine e de Napoleo; incomodava-o sua condio anexa de gringo, a de homem sem mortos

na Amrica. Alm disso, o oscilante Soussens era francs mais por aproximao: era, como ele prprio circunloqueava e repetiu Carriego em um verso, cavalheiro de

Friburgo, francs que no chegava a francs e no passava de suo. Agradava-lhe, em abstrato, sua condio librrima de bomio; aborrecia-o - at a reflexo pedaggica

e a censura - sua complicada preguia, seu alcoolismo, sua rotina de adiamentos e de complicaes. Essa averso revela que o Evaristo Carriego da honesta tradio

crioula era o essencial e no o tresnoitado de Los Inmortales.

Contudo, o amigo mais verdadeiro de Carriego foi Marcelo dei Mazo, que sentia por ele essa quase perplexa admirao que o instintivo costuma produzir no homem de

letras. Del Mazo, escritor injustamente esquecido, exercia na arte a mesma cortesia exacerbada que no trato comum, e as piedades ou as delicadezas do mal eram seu

argumento. Publicou em 191O Los Vencidos (segunda srie), livro ignorado que contm algumas pginas virtualmente famosas, como a diatribe contra as pessoas de idade

- menos feroz, mas mais

bem observada que a de Swift (Traveis finto Several Remote Nations, 111, 1O) -, e o que se intitula La ltima. Outros escritores amigos de Carriego foram Jorge Borges,

Gustavo Caraballo, Flix Lima, Juan Ms y Pi, Alvaro Melin Lafinur, Evar Mndez, Antonio Monteavaro, Florencio Snchez, Emilio Surez Malimano, Soiza Reilly.

Elucido agora suas amizades do bairro, que ele teve em abundncia. A mais til foi a do caudilho Paredes, ento o dono de Palermo. Essa amizade Evaristo Carriego

procurou com catorze anos. Tinha sua lealdade disponvel, inquiriu o nome do caudilho do bairro, informaram-lhe quem era, procurou-o, abriu caminho entre os robustos

pretorianos de sombreiro de copa alta, disse-lhe que era Evaristo Carriego, de Honduras. Isso aconteceu no mercado situado na praa Gemes; o rapaz no se moveu

da at o amanhecer, igualando-se aos valentes, tuteando - a genebra gera confiana - assassinos. Pois a votao naquele tempo se decidia a machadadas, e os pontais

norte e sul da capital produziam, em virtude da sua populao crioula e de sua misria, o elemento eleitoral que as distribua. Esse elemento agia tambm na provncia:

os caudilhos do bairro iam onde o partido precisava deles e levavam seus homens. Olho e ao - velhas cdulas nacionais de papel e profundos revlveres - depositavam

seu voto independente. A aplicao da lei Senz Pena, em novecentos e doze, desarticulou essas milcias. No importa; a desvelada noite que narrei s de 1897,

e quem manda Paredes. Paredes o crioulo ostentoso, com inteiro domnio de sua realidade: o peito virilmente dilatado, a presena autoritria, a cabeleira negra

insolente, o bigode frisado, a grave voz usual que deliberadamente se efemina e se arrasta na provocao, o sentencioso andar, o domnio da possvel curiosidade

herica, do palavro, do naipe habilidoso, da faca e da guitarra, a segurana infinita. E bom cavaleiro tambm, porque se criou num Palermo anterior a este do trnsito,

naquele da distncia e das chcaras. o varo dos churrascos homricos e do desafio potico incansvel. Do desafio eu disse; trinta anos aps essa memorvel noite

me dedicaria umas dcimas, das quais no esquecerei esta destreza impensada, esta resoluo de amizade: "Senhor, companheiro Borges, eu o sado inteiramente". Brinca

com a

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UMA VIDA DE EVARISTO CARRIEGO

lei, porm o malfeitor que quis desobedec-lo foi submetido, no por ferro igual, mas pelo chicote autoritrio ou pela mo aberta, para manter disciplina. Os amigos,

tanto quanto os mortos e as cidades, colaboram em cada homem e h linhas de El Alma del Suburbio: "pois uma vez j o fez ca ... ir com uma machadada", em que parece

retumbar a voz de Paredes, esse trovo cansado e enfastiado das imprecaes crioulas. Por meio de Nicols Paredes, Evaristo Carriego conheceu a gente da faca das

redondezas, a flor do Deus te livre. Manteve com eles durante um tempo uma desigual amizade, amizade profissionalmente crioula, com efuses de armazm e juramentos

leais de gacho e de mano, tu me conheces e outras bobagens do gnero. Cinza dessa freqncia so algumas dcimas en lunfardo que Carriego se desinteressou de assinar

e das quais reuni duas sries: uma agradecendo a Flix Lima a remessa de seu livro de crnicas Con los Nueve; outra cujo nome parece zombaria de Dies Irae, chamada

Da de Bronca e publicada com o pseudnimo de El Barretero na revista policia]L. C. No suplemento deste segundo captulo copio algumas,

No se conheceram dele fatos de amor. Seus irmos tm a lembrana de uma mulher de luto que costumava esperar na calada e que mandava qualquer menino procur-lo.

Gracejavam: nunca lhe arrancaram o nome dela.

Chego questo de sua doena, que imagino importantssima. A crena geral que a tuberculose o consumiu: opinio desmentida pela famlia, guiada talvez por duas

supersties, a de que esse mal degradante e a de que hereditrio. Exceto seus parentes, todos asseguram que morreu tsico. Trs consideraes vindicam essa

opinio geral de seus amigos: a inspirada mobilidade e vitalidade da conversa de Carriego, benefcio possvel de um estado febril; a imagem, repetida com obsesso,

do escarro vermelho; a necessidade urgente de aplauso. Ele se sentia preso morte e sem outra possvel imortalidade seno a de suas palavras escritas; por isso,

a impacincia da glria. Impunha seus versos no caf, desviava a conversa para temas prximos dos versificados por ele, denegria com elogios indiferentes ou com

total reprovao seus colegas de aptido perigosa; dizia, com ar distrado, meu talento. Alm disso, tinha preparado ou se

apropriado de um sofisma, que vaticinava que toda a poesia contempornea iria perecer por retrica, com exceo da sua, que poderia subsistir como documento - como

se a tendncia retrica no fosse tambm documento de um sculo. "Tinha razo de sobra" - escreve Del Mazo - "ao requisitar pessoalmente a ateno geral para sua

obra. Compreendia que a consagrao lentssima alcana em vida alguns poucos ancios, e sabendo que no produziria um amontoado de livros, abria o esprito ambiente

beleza e gravidade de seus versos". Esse procedimento no significava vaidade: era a parte mecnica da glria, era obrigao da mesma ordem que a de corrigir

as provas. A premonio da incessante morte tornava-a urgente. Cobiava Carriego o futuro tempo generoso dos outros, o afeto dos ausentes. Por causa dessa abstrata

conversa com as almas, chegou a desinteressar-se do amor e da desprevenida amizade, e se reduziu a ser seu prprio divulgador e apstolo.

Posso intercalar uma histria. Uma mulher ensangentada, italiana, que fugia da surra de seu marido, irrompeu uma tarde no ptio dos Carriego. Ele saiu, indignado,

rua e disse as quatro duras palavras que tinha de dizer. O marido (um cantineiro vizinho) tolerou-as sem resposta, mas guardou rancor. Carriego, sabendo que a

fama artigo de primeira necessidade, mesmo vergonhosa, publicou na Ultima Hora uma nota de evidente reprovao sobre a brutalidade desse gringo. O resultado foi

imediato: o homem, vindicada publicamente sua condio de bruto, declarou entre imprprias chacotas bajuladoras o mau humor; a surrada andou sorridente alguns dias;

a rua Honduras se sentiu mais real, quando se leu impressa. Quem podia espelhar nos outros esse apetite clandestino de fama adoecia por causa dela tambm.

A perdurao na lembrana dos outros o tiranizava. Quando alguma definitiva pena de ao decidiu que Almafuerte, Lugones e Enrique Banchs integravam j o triunvirato

- ou seria o tricrnio ou o trimestre - da poesia argentina, Carriego props nos cafs a destituio de Lugones, para no ter quem atrapalhasse sua prpria incluso

nesse arranjo ternrio.

As variantes rareavam: seus dias eram um nico dia. At sua morte, morou no 84 de Honduras, hoje 3784. Era infalvel aos domingos em nossa casa, na volta do hipdromo.

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EVARISTO CARRIEGO

Repensando as freqncias de seu modo de viver - os inspidos despertares domsticos, o gosto pelas travessuras com os meninos, a taa grande de um licor uruguaio,

ou de aguardente de laranja, no vizinho armazm de Charcas e Malabia, as partidas no bar de Venezuela e Peru, as discusses amistosas, as italianas comidas portenhas,

na Cortada, a comemorao dos versos de Gutirrez Njera e de Almafuerte, a assistncia viril casa de saguo rosado como uma menina, o cortar um galhinho de madressilva

ao ladear um muro, o hbito e o amor pela noite -, vejo um sentido de incluso e de crculo em sua prpria trivialidade. So aes comunitrias, mas o sentido fundamental

de comum o de compartilhado por todos. Essas freqncias de Carriego que enunciei, sei que nos aproximam. Repetem-se infinitamente em ns mesmos, como se Carriego

perdurasse disperso em nossos destinos, como se cada um de ns fosse por alguns segundos Carriego. Creio que literalmente assim e que essas momentneas identidades

(no repeties!) que aniquilam o suposto correr do tempo provam a eternidade.

Inferir de um livro as tendncias de seu escritor parece operao muito fcil, principalmente se esquecermos que esse no redige sempre o que prefere, mas o menos

difcil e o que lhe parece que esperam dele. Essas suficientes imagens apagadas do campo da poca do cavalo, que so o fundo de toda conscincia argentina, no podiam

faltar em Carriego. Nelas teria querido viver. Outras incidentais (de acaso domiciliar, no princpio, de ensaio aventureiro depois, de carinho por fim) eram, no

obstante, as que defenderiam sua memria: o ptio que ocasio de serenidade, rosa para os dias, o fogo humilde de So Joo, revolvendo-se como um co no meio da

rua, os limites da carvoaria, seu bloco de cerrada treva, seu monte de lenha, a cancela de ferro do cortio, os homens da esquina rosada. Elas o revelam e aludem.

Espero que Carriego o tenha entendido assim, alegre e resignadamente, num de seus ltimos passeios tresnoitados pelas ruas; imagino que o homem poroso morte

e que sua imediao costume marc-lo com veios de fastios e de luz, de vigilncias milagrosas e previses.

AS MISAS HEREIES

Antes de considerar este livro, convm repetir que todo escritor comea por um conceito ingenuamente fsico do que seja arte. Um livro, para ele, no expresso

ou concatenao de expresses, mas literalmente um volume, um prisma de seis lados retangulares, feito de finas lminas de papel que devem apresentar uma folha de

rosto, uma falsa folha de rosto, uma epgrafe em itlico, um prefcio em cursiva maior, nove ou dez partes com uma versai no comeo, um ndice de assuntos, um ex

libris com um reloginho de areia e um arrojado latim, uma concisa lista de erratas, algumas pginas em branco, um colofo centralizado e uma nota com local de impresso:

elementos que se sabe constituem a arte de escrever. Alguns estilistas (geralmente os do inimitvel passado) oferecem alm disso um prlogo do editor, um retrato

duvidoso, uma assinatura autgrafa, um texto com variantes, um espesso aparato crtico, algumas leituras propostas pelo editor, uma lista de referncias bibliogrficas

e algumas lacunas, mas se compreende que isso no para todos... Essa confuso de papel da Holanda com estilo, de Shakespeare com Jacob Peuser, indolentemente

comum e perdura (apenas mais decente) entre os retricos, para cujas informais almas acsticas uma poesia um mostrurio de acentos, rimas, elises, ditongaes

e outra fauna fontica. Escrevo essas misrias caractersticas de todo primeiro livro, para destacar as inusuais virtudes deste que considero.

Irrisrio, contudo, seria negar que as Misas Herejes um livro de aprendizado. No pretendo definir assim a falta de habilidade, a no ser estes dois hbitos: o

deleitar-se quase fisicamente com determinadas palavras - em geral, de resplendor e de fora - e a simples e ambiciosa determinao de definir pela ensima vez os

fatos eternos. No h versificados incipiente

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#EVARISTO CARRIEGO

que no empreenda uma definio da noite, da tempestade, do

apetite carnal, da lua: fatos que no requerem definio, porque

j possuem nome, ou seja, uma representao compartilhada.

Carriego incide nessas duas prticas.

Tampouco pode ser absolvido da acusao de escrevi

nhador. E to evidente a distncia entre o incompreensvel palavrrio de composies - de decomposies, melhor - como Las ltimas Etapas e a retido de suas boas

pginas ulteriores em La Cancin del Barrio, que no se deve nem enfatizar, nem omitir. Vincular essas insignificncias ao simbolismo desconhecer deliberadamente

as intenes de Laforgue ou de Mallarm. No preciso ir to longe: o verdadeiro e famoso pai desse relaxamento foi Rubn Daro, homem que sob pretexto de importar

do francs algumas convenincias mtricas, mobiliou a mancheias seus versos no Petit Larousse com to infinita ausncia de escrpulos que pantesmo e cristianismo

eram palavras sinnimas para ele e que ao imaginar tdio escrevia nirvana." Odivertido que o formulados da etiologia simbolista, Jos Gabriel, no se conforma

em no encontrar smbolos nas Misas Herejes e prope aos leitores da pgina 36 de seu livro esta soluo ainda mais insolvel do soneto "El clavel": "Ele dir (Carriego)

que tentou dar um beijo em uma mulher e que ela, intransigente, colocou a mo entre ambas as bocas (e isso no se compreende seno aps muitos penosos esforos);

contudo, diz-lo assim seria vulgar, no seria potico e, por isso, chama seus lbios de cravo e rubro emblema de amorosos credos, e o ato de negao da fmea, de

execuo do cravo pela guilhotina de seus nobres dedos".

Esta a interpretao; veja-se agora o interpretado soneto:

Foi ao vir de suspeita insinuao quando feriu tua senhoril nobreza, como smbolo rubro de afoiteza, rubro cravo desfeito por tua mo.

Houve, talvez, na frase sugesto sentiu-a tua inteligente natureza, pois tua calma to plena de beleza fingiu acalentar rebelio.

1 Conservo essas impertinncias para castigar-me por t-las escrito. Naquele tempo acreditava que os poemas de Lugones eram superiores aos de Daro. E verdade que

tambm acreditava que os de Quevedo eram superiores aos de Gngora.

(Nota de 1954)

As MISAS HEREJES

Assim, em tua vaidade impaciente condenado pelo orgulho intransigente, meu rubro emblema de amorosos credos

mereceu, por ser smbolo atrevido, como um apstolo ou qual bandido a guilhotina de teus nobres dedos.

O cravo , sem dvida, um cravo mesmo, uma flor popular qualquer, desfeita pela menina, e o simbolismo (o mero gongorismo) o do prolixo espanhol, que o traduz

por lbios.

O que no se discute que grande parte das Misas Herejes incomodou seriamente os crticos. Como justificar essas incontinncias incuas no especial poeta do subrbio?

A to escandalizada interrogao creio satisfazer com esta resposta: esses princpios de Evaristo Carriego so tambm do subrbio, no no superficial sentido temtico

em que tratam dele, mas no essencial de que assim versificam os arrabaldes. Os pobres gostam dessa pobre retrica, preferncia que no costumam estender s descries

realistas. O paradoxo to admirvel como inconsciente: discute-se a autenticidade popular de um escritor em virtude das nicas pginas desse escritor das quais

o povo gosta. um gosto por afinidade: o palavreado, o desfile de termos abstratos, o sentimentalismo piegas so os estigmas da versificao suburbana, desinformada

de qualquer acento local, menos do gauchesco, ntima de Joaqun Castellanos e de Almafuerte, no de letras de tango. Recordaes de coretos e de armazns me auxiliam

aqui; o arrabalde se abastece de seu jargo na rua Corrientes, mas o grandiloqente abstrato o seu e a matria com que trabalham os cantadores. Resumindo, com

brevidade: essa pecadora maioria das Misas Herejes no fala de Palermo, mas Palermo poderia t-la inventado. Prova-o esta balbrdia:

E no salmo coral que concerta

um selvagem ciclone sobre a pauta, venha o robusto canto que anuncie, com a alegre fereza de uma diana que resgatasse como um verso altivo o soberbo delrio de uma

gama,

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#EVARISTO CARRIEGO

o futuro prximo dos triunfos, futuro precursor das desforras;

o instante supremo em que se agita a misso terrenal da canalha...

Ou seja: uma tempestade colocada em salmo que deve conter um canto que deve parecer-se com uma diana que deve parecer-se com um verso, e a predio de um futuro

recmchegado, confiada ao canto que deve parecer-se com a diana que se parece com um verso. Seria uma exposio de rancor prolongar a citao: limito-me a afirmar

que essa rapsdia de cantador aturdido pelo hendecasslabo ultrapassa duzentas linhas e que nenhuma de suas muitas estrofes pode lamentarse da falta de tempestades,

de bandeiras, de condores, de vendas maculadas e de martelos. Eliminem sua m lembrana estas dcimas, de paixo suficientemente circunstancial para que as pensemos

biogrficas e que to bem podem ser acompanhadas pela guitarra:

Que este verso, que pediste, v para ti, como enviado de algum recordar vertido de uma terra de olvido... para insinuar-te ao ouvido sua agonia mais secreta, quando

nas noites, inquieta, pelas memrias, talvez, leias, sequer uma vez, as estrofes do poeta.

Eu ...? Vivo com a paixo daquele sonho remoto,

que guardei como um voto, j velho, do corao.

Sei em minha amarga obsesso que minha cabea cansada cair, recm-libertada, da priso desse sonho,

quando dormir o derradeiro sono, sobre a derradeira almofada!

AS MISAS HEREJES

Passo a rever as composies realistas que integram El Alma del Suburbio, em que podemos escutar, at que enfim!, a voz de Carriego, to ausente nas menos favorecidas

pginas. Vou rev-las em sua prpria ordem, omitindo voluntariamente umas duas: "De Ia aldea" (cromo moda andaluza e de trivialidade categrica) e "El guapo",

que deixo para considerao final mais extensa.

A primeira, "El alma del suburbio", narra um entardecer na esquina. A rua popular, transformada em ptio, o que descreve, a consoladora posse do elementar que

resta aos pobres: a magia servial dos naipes, o trato humano, o realejo com sua habanera e seu gringo, a prolongada frescura da prece, o eterno bate-boca sem rumo,

os temas da carne e da morte. Evaristo Carriego no se esqueceu do tango, que se quebrava com diabrura e bulcio pelas caladas, como recmsado das casas da rua

Junn, e que era a delcia exclusiva de vares, tal como o duelo:z

Na rua, a boa gente esbanja

seus palavres mais lisonjeiros,

porque no compasso do tango, que La Moroeha, luzem geis requebros dois orilheiros.

Segue uma pgina de misterioso renome, "La viejecita", festejada quando se publicou porque sua leve dose de realidade, indistinta agora, era infinitesimalmente mais

forte que a das rapsdias coetneas. A crtica, com a mesma facilidade de elogiar, corre o risco de profetizar. Os encmios que se dirigiram a "La viejecita" so

os que mereceria "El guapo" depois; os dedicados em 1862 a "Los mellizos de Ia Flor", de Ascasubi, so uma profecia escrupulosa de Martn Fierro.

2 A pica circunstanciada do tango j foi escrita: seu autor, Vicente Rossi; seu nome na livraria, Cosas de Negros (1926), obra clssica em nossas letras e que unicamente

pela intensidade de seu estilo o merecer. Para Rossi, o tango afro-montevideano,

do Bajo, o tango tem carapinha na raiz. Para Laurentino Mejas (La Policia por Dentro, 11, 1913, Barcelona) afro-portenho, inaugurado nos enfadonhos candombes

da Concepcin e de Montserrat, degradado depois nos prostbulos: o de Lorea, o da

Boca del Riachuelo e o de Sols. Era danado tambm nos bordis da rua do Temple, com o realejo de contrabando sufocado por um colcho, cedido por um dos leitos

venais, escondidas as armas dos freqentadores nos esgotos vizinhos, prevendo-se uma batida policial.

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#EVARISTO CARRIEGO

AS MISAS HEREJES

"Detrs del mostrador" uma oposio entre a urgente vida alvoroada dos bbados e a mulher bela, grosseira e aprisionada,

por trs do balco como uma esttua

que, impvida, os enlouquece de desejo

e passa sem dor, assim, inconsciente, sua vida material de carne escrava:

a tragdia opaca de uma alma que no v seu destino.

A pgina seguinte, "El amasijo", o reverso deliberado de "El guapo". Nela se denuncia com ira santa nossa pior realidade: o valento domstico, a dupla calamidade

da mulher insultada e surrada e do malfeitor que, com infmia, teima nessa pobre macheia, vaidosa da opresso:

Deixou de castig-la, por fim, cansado de repetir o dirio brutal ultraje que havia de contar depois, felicitado, na roda insolente da malandragem...

Segue "En el barrio", pgina cujo gracioso motivo o acompanhamento eterno e a eterna letra da guitarra, proferidos no por conveno como hbito, mas literalmente

para indicar um efetivo amor. O episdio dessa reanimao de smbolos de ofuscada luz, mas forte. Do primitivo ptio de terra ou ptio vermelho, clama com ira

apaixonada a urgente milonga

que escuta insensvel a orgulhosa moa, que no quer sair do quarto.

Sobre o rosto triste tem o guitarreiro velhas marcas de violceo fanal, no peito um fundo rancor arruaceiro e nos negros olhos a luz do punhal.

E no para o outro sua eterna ira.

A esse desgraado que a golpes aparelha d o mesmo favor, seja bruto ou frouxo, que ao pucho que esquece atrs da orelha.

Pois tem tal gana sua altivez airada com todos os mexericos acabar.

To capaz se sente de uma fanfarronada para trs ou quatro dias o bairro falar!...

A penltima estrofe de ordem dramtica; parece dita pelo mesmo que foi golpeado. O ltimo verso tambm carregado de sentido, a apressada ateno de uns poucos

dias que o bairro, mal-acostumado ento, dedicava a uma morte, a passageira glria de uma facada no rosto.

Depois vem "Resduo de fbrica", que o piedoso relato de uma dor, no qual o que mais importa talvez seja a verso instintiva das doenas como imperfeio, como

culpa.

Tossiu novamente. O irmozinho que s vezes no quarto se distrai brincando sem lhe falar, tornou-se subitamente srio, como se pensasse.

Depois se levantou e bruscamente foi, murmurando ao afastar-se, com algo de pesar e muito de asco:

- que a porca outra vez cospe sangue.

Acho que a nfase emotiva da penltima estrofe est na circunstncia cruel: sem lhe falar.

Segue "La queja", que uma premonio fastidiosa de no sei quantas letras fastidiosas de tango, biografia do esplendor, desgaste, declnio e obscuridade final

de uma mulher de todos. O tema de ascendncia horaciana - Lydia, a primeira dessa estril dinastia infinita, enlouquece de ardente solido como enlouquecem as

mes dos cavalos, matres equorum, e em seu j abandonado quarto amai janua limen, a porta se prendeu ao umbral - e desgua em Contursi, passando por Evaristo

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#EVARISTO CARRIEGO

As MIAS HERE/ES

Carriego, cujo harlot"s progress sul-americano, completado pela tuberculose, no pesa muito na srie.

Segue-se "L guitarra", desconcertante enumerao de imagens bobas, indigna do autor de En el Barrio, e que parece desdenhar ou ignorar as situaes de eficc"a

potica motivadas pelo instrumento: a msica dedicada rua, o ar venturoso que nos entristece pela lembrana incidental que lhe acrescentamos, as amizades que ela

apadrinha e coroa. Vi dois homens tornarem-se amigos e suas almas comearem a correr emparelhadas, enquanto dedilhavam nas duas guitarras um gato, dana que parecia

o alegre som dessa confluncia.

A ltima, "Los perros del barrio", uma surda reverberao de Almafuerte, mas traduz uma realidade, pois na pobreza desses subrbios sempre foram abundantes os

ces, seja por serem sentinelas seja para bisbilhotarem seu jeito de viver, uma diverso que no cansa, seja por desleixo. Alegoriza indevidamente Carriego essa

cachorrada mendicante e sem lei, mas transmite sua quente vida de matilha, sua chusma de apetites. Quero repetir esse verso

quando bebem gua de lua nos charcos

e aquele outro de

uivando exorcismos contra a carrocinha,

que desperta uma das minhas fortes recordaes: a visita atroz a esse pequeno inferno, vaticinado por latidos aflitos e precedido - de perto - por uma nuvem de crianas

pobres, que espantavam com gritos e pedradas outra nuvem de ces, para proteg-los do lao.

Falta-me considerar "El guapo", exaltao precedida de uma famosa dedicatria ao tambm cabo eleitoral alsinista So Juan Moreira. uma calorosa apresentao,"

cuja virtude reside tambm nas nfases laterais: no

conquistou com o tempo renome de ousado

3 Lastima, nos versos finais, a meno arbitrria ao mosqueteiro.

que se refere s muitas candidaturas para merecer esse renome, e nessa quase mgica indicao de poder ertico:

caprichos de fmea que teve a daga.

Em "El guapo", tambm interessam as omisses. O valento no era um salteador nem um rufio, nem obrigatoriamente um chato; era a definio de Carriego: um cultor

da coragem. Um estico no melhor dos casos; no pior, um profissional da desordem, um especialista da intimidao progressiva, um veterano do ganhar sem brigar: menos

indigno - sempre - que sua atual desfigurao italiana de cultor da infmia, de pequeno malfeitor afligido pela vergonha de no ser cften. Viciado no lcool e no

perigo ou calculista vencedor pela simples presena: isso era o valento, sem implicar covardia o ltimo trao. (Se uma comunidade decide que a valentia a primeira

das virtudes, a simulao da valentia ser to geral como a da beleza entre as moas, ou a do pensamento inventivo entre os que publicam; mas essa mesma aparente

valentia ser um aprendizado.)

Penso no valento de outrora, personagem de Buenos Aires que me interessa com mais justificada atrao que esse outro mito mais popular de Carrtego (Gabriel, 57),

a costureirinha que deu aquele mau passo e seu contratempo orgnico-sentimental. Sua profisso, carroceiro, amansador de cavalos ou magarefe; sua educao, em qualquer

das esquinas da cidade, e estas principalmente: a do sul, o Alto - o circuito Chile, Garay, Balcarce, Chacabuco -, a do norte, a Terra do Fogo - o circuito Ls Heras,

Arenales, Pueyrredn, Coronel -, outras, o Once de Setiembre, a Bateria, os Corrales Viejos." No era sempre um rebelde: o comit alugava sua valentia e esgrima

e lhe dava proteo. A polcia, ento, tomava precaues contra ele:

4 Seu nome? Entrego lenda esta lista, que devo ativa amabilidade de D. Jos Olave. Refere-se s duas ltimas dcadas do sculo que passou. Sempre despertar

uma suficiente imagem, embora imprecisa, de mestios briguentos, duros e ascti

cos no empoeirado subrbio, semelhantes aos cactos.

PARQUIA DO SOCORRO

Avelino Galeano (do regimento Guardia Provincial). Alejo Albornoz (morto em

luta pelo que se segue, na rua Santa F). Pio Castro.

Aproveitadores, valentes ocasionais: Toms Medrano. Manuel Flores.

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#EVARISTO CARRIEGO

numa desordem, o valento no se deixava prender, mas dava - e cumpria - sua palavra de comparecer em seguida. As tutelares influncias do comit retiravam todo

perigo desse rito. Mesmo temido, no pensava em renegar sua condio; um cavalo arreado com prata vistosa, algumas moedas para a rinha ou para o jogo bastavam para

iluminar seus domingos. Podia no ser forte: um dos valentes de La Primera, o Baixinho Flores, era um indiozinho peonhento, uma misria, mas com o punhal, um raio.

Podia no ser um provocador: o valento Juan Murava, famoso, era uma obediente mquina de brigar, um homem sem mais traos diferenciais que a segurana letal de

seu brao e uma incapacidade perfeita de sentir medo. No sabia quando agir, e pedia com os olhos - alma servil - a vnia de seu patro de turno. Uma vez na briga,

atirava somente para matar. No queria criar corvos. Falava, sem temor e sem preferncia, das mortes que pagou - ou melhor: que o destino executou por meio dele,

pois existem feitos de to infinita responsabilidade (o de procriar um homem ou mat-lo) que o remorso ou a vaidade por eles uma insensatez. Morreu repleto de

dias, com sua constelao de mortes na lembrana, j esmaecida, sem dvida.

PARQUIA DEL PILAR, ANTIGA

Juan Murava. Romualdo Surez, apelidado El Chileno. Toms Real. Florentino Rodrguez. Juan Tink (filho de ingleses, que acabou inspetor de polcia em Avellaneda).

Raimundo Renovales (magarefe).

Aproveitadores, valentes ocasionais: Juan Ros, Damsio Surez, apelidado Carnaza.

PARQUIA DE BELGRANO

Atansio Peralta (morto em luta com muitos). Juan Gonzlez. Eulgio Murava, apelidado Cuervito.

Aproveitadores: Jos Daz. Justo Gonzlez.

Nunca lutavam em grupos, sempre com arma branca, sozinhos.

O desprezo britnico pelo punhal tornou-se to amplo que posso lembrar, com

direito, o conceito vernculo: Para o crioulo a nica luta sria, de homens, era a que

permitia risco de morte. O soco era mero prlogo do ao, uma provocao.

lv

LA CANCION DEL BARRIO

Mil novecentos e doze. Para o lado dos muitos barraces da rua Cervino ou dos canaviais e vazios do Maldonado - zona desleixada, com galpes de zinco, chamados diversamente

sales, onde flamejava o tango, a dez centavos por cabea e mais a companheira - engalfinhava-se ainda a gente dos subrbios, e alguma cara de macho virava histria,

ou um compadrito desdenhosamente morto amanhecia com uma punhalada humana no ventre; mas, em geral, Palermo se portava como Deus manda e era uma coisa meio decente,

infeliz, como qualquer outra comunidade gringo-crioula. O jbilo astrolgico do Centenrio era j to defunto como suas lguas de lzinha azul de bandeiras, como

seus tonis de vinho para brindar, seus foguetes malucos, suas luminrias municipais no enferrujado cu da praa de Mayo e sua luminria predestinada ao cometa Halley,

anjo de ar e de fogo para quem os realejos tocaram o tango Independencia. J a ginstica interessava mais do que a morte: os garotos ignoravam a provocao do duelo

para assistir ao football, rebatizado por indolncia verncula de o foba. Palermo se apressava at a tolice: a sinistra construo art noveau brotava como afetada

flor at dos lamaais. Os rudos eram outros: agora a campainha do cinema - com seu bom anverso americano de coragem a cavalo e seu reverso ertico-sentimental europeu

- se misturava ao cansado estrondo das carroas e ao silvo do amolador. Com exceo de algumas veredas, no restava rua para pavimentar. A densidade da populao

dobrou: o censo, que registrou em mil novecentos e quatro um total de oitenta mil almas para as circunscries de Las Heras e de Palermo de San Benito, registraria,

em catorze, cento e oitenta mil. O bonde mecnico rangia pelas aborrecidas esquinas.

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#EVARISTO CARRIECO

Cattaneo, na imaginao popular, desbancara Moreira... Esse quase invisvel Palermo, mateador e progressista, o de La Cancin del Barrio.

Carriego, que publicou em mil novecentos e oito El Alma del Suburbio, deixou em mil novecentos e doze os materiais para La Cancin del Barrio. Este segundo ttulo

melhor que o primeiro quanto delimitao e veracidade. Cano de inteno mais lcida do que alma; subrbio ttulo receoso, um sobressalto de homem que

tem medo de perder o ltimo trem. Ningum nos diz Moro no subrbio Tal; todos preferem indicar em que bairro. Essa aluso ao bairro no menos ntima, til e unificadora

na parquia de La Piedad do que em Saavedra. A distino pertinente: o emprego de palavras de distncia para elucidar as coisas desta repblica deriva de uma propenso

para detectar em ns a barbrie. Querem explicar os camponeses pelo pampa; o compadrito pelos ranchos de ferro velho. Exemplo: o jornalista ou artefato vasco J.

M. Salaverra, num livro em que se equivoca desde o ttulo: El Poema de Ia Pampa, Martn Fierro y el Criollismo Espanol. Crioulismo espanhol um contra-senso deliberado,

feito para assombrar (logicamente, uma contradictio in adjecto); poema do pampa outro menos voluntrio acidente. Pampa, segundo informao de Ascasubi, era para

os antigos camponeses o deserto onde vagavam os ndios." Basta rever Martn Fierro para saber que o poema, no do pampa, mas do homem desterrado do pampa, do homem

rejeitado pela civilizao pastoril, concentrada nas estncias como vilarejos e no pago socivel. Para Fierro, o to corajoso homem Fierro, era doloroso suportar

a solido, quer dizer, o pampa.

E nessa hora da tarde

Em que tudo adormece,

Que o mundo adentrar parece A viver em pura calma, Com as tristezas da alma Ao capinzal enderece.

1 Agora um exclusivo termo literrio, que no campo chama a ateno.

LA CANCIN DEL BARRIO

triste no meio do campo Passar noites inteiras Contemplando em suas carreiras As estrelas que Deus cria, Sem ter por mais companhia Que seu delito e as feras.

E estas estrofes so para sempre, porque so o momento mais pattico da histria:

Cruz e Fierro de uma estncia Uma tropilha conduziram, Para diante a lanaram Como crioulos entendidos, E logo, sem serem percebidos, Pela fronteira cruzaram. E

quando por ela passaram Numa madrugada clara, Disse-lhe Cruz que olhasse As ltimas povoaes E em Fierro duas lgrimas Rolaram-lhe pela face.

Outro Salaverra - de cujo nome no quero me lembrar, porque o restante de seus livros tem minha admirao - fala, como no!, do cantador pampiano que " sombra

do umbu, na infinita calma do deserto, entoa acompanhado da guitarra espanhola as montonas dcimas de Martn Fierro"; mas o escritor to montono, dcimo, infinito,

espanhol, cheio de calma, desrtico e acompanhado, que no percebe que em Martn Fierro no h dcimas. A predisposio para detectar em ns a barbrie muito geral:

Santos Vega (cuja verdadeira lenda que haja uma lenda de Santos Vega, segundo as quatrocentas pginas da monografia de Lehmann-Nitsche podem evidenci-lo) armou

ou herdou a estrofe que diz: "Se este novilho me mata / No me enterrem no sagrado; /Enterrem-me no campo verde / Onde me pise o gado", e sua evidentssima idia

("Se sou to torpe, renuncio a meu lugar no cemitrio") foi

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#EVARISTO CARRIEGO

LA CANCIN DEL BARRIO

aplaudida como declarao pantesta de homem que deseja, depois de morto, ser pisado pelas vacas."

Os subrbios padecem tambm de uma atribuio irritante. So representados pelo homem do arrabalde e pelo tango. No captulo anterior escrevi como o arrabalde se

nutre de seu prprio jargo na rua Corrientes e como as efuses de El Cantaclaro, dos discos de fongrafo e da rdio adaptam essa gria de ator em Avellaneda ou

em Coghlan. Sua pedagogia

2 Fazer do campons um percorredor infinito do deserto um contra-senso romntico; assegurar, como o faz nosso melhor prosador de lutas, Vicente Rossi, que o gacho

o guerreiro nmade charrua, simplesmente assegurar que chamaram de gachos esses desapegados charruas: associao primitiva de uma palavra, que resolve muito

pouco. Ricardo Giraldes, para sua verso do homem do campo, como homem ocioso, teve de recorrer ao grmio dos tropeiros. Groussac, em sua conferncia de 1893, fala

do gacho fugido para o longnquo sul, no que resta do pampa, mas todos sabem que no longnquo sul no restam gachos, porque no os teve antes, e que perduram nas

regies prximas quelas de hbitos crioulos. Mais que no tnico (o gacho pode ser branco, negro, mestio, mulato ou cafuzo), mais que no lingstico (o gacho

rio-grandense fala uma variante brasileira do portugus) e mais do que no geogrfico (vastas regies de Buenos Aires, de Entre Rios, de Crdoba e de Santa F so

agora gringas), o trao diferencial do gacho est na prtica cabal de um tipo primitivo de criao de gado.

Caluniado tambm o destino dos compadritos. H mais de cem anos chamavam-se assim os portenhos pobres que no podiam morar nas imediaes da Plaza Mayor, fato

responsvel tambm por seu nome de suburbanos. Eram literalmente o povo: tinham seu terreninho, ocupando um quarto de quadra, e casa prpria, alm da rua Tucumn

ou da rua Chile ou ainda da rua de Velardes Libertad-Salta. As conotaes desbancaram mais tarde a idia principal: Ascasubi, na reviso de seu Gallo nmero doze,

escreveu: "compadrito: moo solteiro, danarino, apaixonado e cantor". O imperceptvel Monner Sans, vice-rei clandestino, tornou-o equivalente a mata-sete, fanfarro

e valento, e perguntou: "Por que compadre toma aqui sempre o mau sentido?", questo que se apressou em responder, escrevendo, com sua to invejvel ortografia,

sadio gracejo etc.: "Sabe-se l". Segvia o define com insultos: "Indivduo jactancioso, falso, provocativo e traidor". No para tanto. Outros confundem grosseiro

e compadrito: esto enganados, o compadre pode no ser grosseiro, como no costuma s-lo o campons. Compadrito, sempre, o cidado da plebe que maneja o ao; outras

atribuies so a coragem que alardeia, a inveno ou a prtica das piadas, o canhestro emprego de palavras insignes. No vesturio, usou o costumeiro de seu tempo,

com acrscimo ou acentuao de alguns pormenores: por volta de noventa foram caractersticos o chapu negro requintado de copa altssima, o palet cruzado, as calas

francesas com gales, pouco sanfonada na barra, a botina negra com abotoaduras ou elstico, de salto alto; agora (1929) prefere o chapu cinza na nuca, o leno farto,

a camisa rosa ou gren, o palet aberto, um dedo pesado de anis, as calas retas, a botina negra como espelho, com polainas claras.

O que em Londres o cockney, em nossas cidades o compadrito.

no fcil: cada tango novo, redigido no pretenso idioma popular, um enigma, sem que lhe faltem as perplexas variantes, os corolrios, as passagens obscuras e

a argumentada discrdia dos comentadores. A nvoa lgica: o povo no precisa acrescentarse cor local; o simulador pensa que sim, mas passa do ponto na operao.

No que se refere msica, tampouco o tango o natural som dos bairros; foi dos bordis somente. O representativo deveras a milonga. Sua verso corrente uma

infinita saudao, uma cerimoniosa gestao de rpios lisonjeiros, corroborados pelo grave lamento da guitarra. As vezes, narra sem pressa coisas de sangue, duelos

de muito tempo, mortes por corajoso bate-boca provocador; outras, resolve simular o tema do destino. Os tons e os argumentos costumam variar; o que no varia a

entonao do cantor, apudecida, arrastada, com sobressaltos de fastio, nunca gritada, meio conversada e cantada. O tango est no tempo, nos desaires e contrariedades

do tempo; j o cotidiano aparente da milonga o da eternidade. A milonga uma das grandes conversas de Buenos Aires; o troco a outra. Sobre o troco me aprofundarei

em captulo parte; limito-me a escrever que, entre os pobres, o homem alegra o homem, como o primognito de Martn Fierro compreendeu na priso." O aniversrio,

o dia dos mortos, o dia santo, o dia da ptria, o batizado, a noite de So Joo, uma doena, as vsperas do ano, tudo ocasio de se ver gente. A morte provoca

o velrio: falatrio geral que no fecha a porta a ningum, visita a quem morreu. To evidente essa pattica sociabilidade da gente humilde que o doutor Evaristo

Federico Carriego, para zombar das recm-liberadas recepes, escreveu que se pareciam muitssimo aos velrios. O subrbio a gua apodrecida e os becos, mas

tambm a balaustrada celeste e a madressilva pendente e a gaiola com o canrio" Gente atenciosa, costumam dizer as comadres.

3 E antes do filho de Martn Fierro, o deus Odin. Um dos livros sapienciais da Antiga Edda (Havamal, 47) lhe atribui a frase Mathr er mannz gaman, que se traduz

literalmente por O homem a alegria do homem.

4 Nos arredores esto as involuntrias belezas de Buenos Aires, que so tambm as nicas - a ligeira rua navegadora Blanco Encallada, as desamparadas esquinas de

Villa Crespo, de San Cristbal Sur, de Barracas, a majestade miservel dos subrbios da estao de cargas La Paternal e da Ponte Alsina -, mais expressivas, creio,

que as obras feitas com deliberao de beleza: a Costanera, o Balnerio e o Rosedal, e a elogiada esttua de Pellegrini, com a revolta bandeira e o tempestuoso pedestal

incoerente que parece aproveitar os escombros da demolio de um banheiro, e as reticentes gavetinhas de Virasoro, que, para no delatar o ntimo mau gosto, esconde-se

na nua absteno.

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LA CANCIN DEL BARRIO

Pobrerio tagarela, o de nosso Carriego. Sua pobreza no a desesperada ou congnita do europeu pobre (pelo menos, a do europeu romanceado pelo naturalismo russo),

mas a pobreza que confia na loteria, no comit, nas influncias, no baralho que pode ter seu mistrio, na aposta de mdica possibilidade, nas recomendaes ou, na

falta de outra mais circunstanciada e baixa razo, na pura esperana. Uma pobreza que se consola com hierarquias - os Requeria de Balvanera, os Luna de San Cristbal

Norte - que se tornam simpticas, por seu prprio apelo ao mistrio, e que nos representa to bem certo dignssimo compadrito de Jos Alvarez: "Nasci na rua Maip,

sabia?.._ na casa dos Garcia e estava acostumado a me dar com gente e no com lixo... Bem!... E se no sabia, fica sabendo... me batizaram na Merc e foi meu padrinho

um italiano que tinha armazm do lado de casa e que morreu na febre grande... Lhe comendo o peso!"

Entendo que o defeito substancial de La Cancin dei Barrio a insistncia naquilo que foi definido por Shaw como: "mera mortalidade ou infortnio" (Man and Superman,

XXXII). Suas pginas publicam desgraas; tm a nica gravidade do destino brutal, no menos incompreensvel para seu escritor que para aquele que as l. No lhes

surpreende o mal, e elas no nos conduzem a essa meditao sobre sua origem, como o fizeram os gnsticos que resolveram diretamente a questo com a postulao de

uma divindade minguante ou gasta, improvisando este mundo com material adverso. a reao de Blake. "Deus, que fez o cordeiro, te fez?", pergunta ao tigre. Tampouco

objeto dessas pginas o homem que sobrevive ao mal, o varo que, apesar de sofrer injrias - e de caus-las -, mantm limpa a alma. a reao estica de Hernndez,

de Almafuerte, de Shaw pela segunda vez, de Quevedo.

Alma robusta em dores se examina

E trabalhos ansiosos e mortais

Tolhem, mas no derrubam nobres peitos

se l em "Ls musas castellanas ", em seu segundo livro. Tampouco distrai Carriego a perfeio do mal, a preciso e a inspirao, pode-se dizer, do destino em suas

perseguies, o arrebatamento cnico da desgraa. a reao de Shakespeare:

All strange and terrible events are welcome, But comforts we despise: our size of sorrow, Proportion"d to our cause, must be as great As that which makes it.

Carriego apela somente para nossa piedade.

Aqui inevitvel uma digresso. A opinio geral, tanto falada quanto escrita, decidiu que esses apelos piedade so a justificativa e a virtude da obra de Carriego.

Devo discordar, embora sozinho. Uma poesia que vive de contrariedades domsticas e que se vicia com perseguies midas, imaginando ou registrando incompatibilidades

para que o leitor as deplore, parece-me uma privao, um suicdio. O argumento qualquer emoo mutilada, qualquer desgosto; o estilo mexeriqueiro, com todas

as interjeies, ponderaes, falsas piedades e preparatrios receios como os utilizam as comadres. Uma errnea opinio (que tenho a decncia de no compreender)

afirma que essa apresentao de misrias implica generosa bondade. Est mais para indelicadeza. Produes como "Mamboret " ou "El neve est enfermo" ou "Hay que

cuidaria mucho, hermana, mucho" - to utilizadas para distrao nas antologias e para declamao - no pertencem literatura, mas ao delito: so uma deliberada

chantagem sentimental, redutvel a esta frmula: "Apresento-lhe um sofrimento; se voc no se comove, um desalmado". Copio este final de um poema ("El otono, muchachos"):

...Que tristonha anda, h dias, a vizinha!

Ser por algum novo desengano? Outono melanclico e chuvoso,

que deixars, outono, em casa este ano? que folha te levars? To silencioso chegas que nos ds medo.

Sim, anoitece e te sentimos, na paz caseira,

entrar sem um rumor... Como envelhece nossa tia solteira!

Essa apressada tia solteira, gerada na urgncia do verso final para que possa encarniar-se nela o outono, bom ind

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#EVARISTO CARRIEGO

LA CANCIN DEL BARRIO

cio da caridade dessas pginas. O humanitarismo sempre desumano: certo filme russo prova a iniqidade da guerra mediante a infeliz agonia de um pangar morto a

balaos; naturalmente, pelos que dirigem o filme.

Feita essa restrio - cuja decente finalidade consolidar e firmar a fama de Carriego, provando que no lhe faz falta o auxlio dessas queixosas pginas -, quero

reconhecer com alacridade as verdadeiras virtudes de sua obra pstuma. Em seu decurso, possui refinamentos de ternura, invenes e intuies da ternura, to precisas

como esta:

E quando no estiverem, durante quanto tempo ainda se ouvir a voz querida deles na casa deserta?

Como sero na recordao os rostos

que j no veremos mais?

Ou este trecho de conversa com uma rua, esta secreta possesso inocente:

s familiar como uma coisa que fosse nossa: somente nossa.

Ou este encadeamento, emitido to de uma vez como se fosse uma nica extensa palavra:

No. Digo-te que no. Sei o que digo: nunca mais, nunca mais teremos noiva, e os anos passaro, mas nunca mais voltaremos a querer a outra. Podes ver. E pensar que

nos dizias, aflita talvez por te veres s, que quando morresses nem te lembraramos. Que tola! Sim. Passaro os anos, mas sempre como uma lembrana boa, a toda

hora estars conosco.

Conosco... Porque eras carinhosa

como ningum o foi. Dizemos-te

tarde, no verdade? Um pouco tarde agora que no nos podes ouvir. Mocinhas como tu tm havido poucas. No temas nada, te lembraremos, e a ti somente recordaremos:

nenhuma mais, nenhuma mais. E nunca mais voltaremos a querer a outra.

A forma repetitiva dessa pgina a de certa pgina de Enrique Banchs ("Balbuceo ", em El Cascabel del Halcn, 19O9) que a supera incomensuravelmente linha por linha

("Nunca poderia dizer-te/o quanto te queremos: como um monto de estrelas/o quanto te queremos", etc.), mas que parece mentira, enquanto a de Evaristo Carriego

verdade.

Pertence tambm a L Cancin del Barrio a melhor poesia de Carriego, intitulada "Has vuelto".

Voltaste, realejo. Na calada

h risos. Voltaste choro e cansado como antes.

O cego te espera

no mais das noites sentado

d porta. Cala e escuta. Apagadas memrias de coisas distantes evoca em silncio, de coisas

de quando seus olhos tinham manhs,

de quando era jovem... a noiva... quem sabe!

O verso que anima a estrofe no o final, o anterior, e acredito que Evaristo Carriego o colocou assim para evitar a nfase. Uma de suas primeiras composies

- "El alma del suburbio" - tratara do mesmo assunto, e agradvel comparar a soluo antiga (quadro realista feito de observaes particulares) com a definitiva

e lmpida festa para a qual so convocados os smbolos preferidos por ele: a costureirinha que deu aquele mau passo, o realejo, a esquina desmantelada, o cego, a

lua.

...Realejo que cruzas a rua cansado moendo o eterno

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#EVARISTO CARRIEGO

familiar motivo que no ano passado gemia lua de inverno:

com tua voz fanhosa dirs na esquina

a cano ingnua, a de sempre, por acaso essa preferida de nossa vizinha

a costureirinha que deu aquele mau passo. E aps uma valsa partirs como uma tristeza que cruza a rua deserta, e haver quem se ponha a olhar a lua de alguma porta.

... Na noite de ontem, depois que partiste quando todo o bairro tornava ao sossego - que triste -

choravam os olhos do cego.

A ternura apangio dos muitos dias, dos anos. Outra virtude do tempo, j utilizada neste segundo livro e nem suspeitada ou verossmil no anterior, o bom humor.

condio que implica um delicado carter: nunca se distraem os ignbeis com esse puro prazer simptico s debilidades alheias, to imprescindvel ao exerccio

da amizade. condio que acompanha o amor: Soame Jenyns, escritor de mil e setecentos, pensou com reverncia que a parte da felicidade dos bem-aventurados e dos

anjos derivaria de uma percepo refinada do ridculo.

Copio, exemplo de sereno humorismo, estes versos:

E a viva da esquina?

A viva morreu anteontem. Bem dizia a adivinha,

que quando Deus determina j nada h mais que fazer!

Os recursos de sua graa devem ser dois: primeiro, o de colocar na boca de uma adivinha essa no divinatria moralidade sobre o inescrutvel dos atos da Providncia;

segundo, o respeito impertrrito da vizinhana, que desculpa sabiamente essa distrao.

Contudo, a mais deliberada pgina de humorismo deixada por Carriego "El casamiento". E a mais portenha tam

LA CANCIN DEL BARRIO

bm. "En el barrio" quase uma fanfarronice entrerriana; "Has vuelto" apenas um frgil minuto, uma flor de tempo, de um nico entardecer. "El casamiento", em

compensao, to caracterstico de Buenos Aires como os versos dos delitos de Hilrio Ascasubi ou o Fausto crioulo ou o humorismo de Macedonio Fernndez ou o estilhaado

m,peto festeiro dos tangos de Greco, de Arolas e de Saborido. E uma articulao habilssima dos muitos infalveis traos de uma festinha pobre. No falta o rancor

desenfreado da vizinhana.

Na calada da frente vrias mexeriqueiras que se encontram a par do que se passa, afirmam que para ver certas coisas muito melhor seria ficar em casa.

Afastadas do cara de presidirio

que sugere torpezas, umas vizinhas pretendem que esse sujo vocabulrio no o deveriam ouvir as pequeninas.

Embora - tal acontece - tudo seja possvel, tirando conseqncias pouco oportunas, lamenta uma venenosa a incompreensvel sorte que, por desgraa, tm algumas.

E no o primeiro caso... Embora lhe estranhe que tenha sado tonto... pois em janeiro do ano que passa, que no se engane, deu o que falar com o filho do aougueiro.

O orgulho de antemo ferido, a quase desesperada decncia:

O tio da noiva, que se acreditou

obrigado a reparar, se o baile traa bom rumo, afirma, meio ofendido,

que no se admitem requebros, nem por troa...

- Que, modstia parte, no a pega nenhum desses vivos... seguramente. A casa ser pobre, ningum o nega, tudo o que se quiser, porm decente.

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Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestao do pensamento humano..

Carriego, moo de tradio entrerriana, criado nos subrbios do norte de Buenos Aires, decidiu dedicar-se a uma verso potica desses subrbios. Publicou, em mil

novecentos e oito, Misas Herejes: livro despreocupado, aparente, que registra dez conseqncias desse deliberado propsito de localismo e vinte e sete amostras desiguais

de versificao: algumas de bom estilo trgico - "Los lobos" -, outra de sentimento delicado - "Tu secreto, en silencio" -, mas que em geral passam despercebidas.

As pginas sobre a observao do bairro so as que interessam. Repetem a corajosa idia que o subrbio tem de si mesmo, apreciam-nas com todo o direito. Desse tipo

preliminar so "El alma dei subrbio", "El guapo", "En el barrio". Carriego se estabeleceu nesses temas, mas sua exigncia de comover o conduziu a uma lacrimosa

esttica socialista, cuja inconsciente reduo ao absurdo realizaria muito depois o grupo de Boedo. Exemplos do segundo tipo, que usurpou at a informao das outras,

com sua glria efeminada, so "Hay que cuidaria mucho, hermana, mucho", "Lo que dicen los vecinos", "Mamboret". Ensaiou depois uma forma narrativa, com inovao

de humorismo: to indispensvel num poeta de Buenos Aires. Desse ltimo tipo - o melhor - so "El casamiento", "El velorio", "Mientras el barrio duerme". Tambm,

ao longo do tempo, anotou algumas intimidades: "Munia", "Tu secreto", "De sobremesa".

Qual o futuro de Carriego? No h uma posteridade judicial sem posteridade, dedicada a emitir sentenas irrevogveis, mas os fatos me parecem seguros. Creio que

algumas de suas pginas - talvez "El casamiento", "Has vuelto", "El alma dei subrbio", "En el barrio" - comovero

148

UM POSSVEL RESUMO

suficientemente muitas geraes argentinas. Creio que foi o primeiro espectador de nossos bairros pobres e que para a histria de nossa poesia isso importante.

O primeiro, quer dizer, o descobridor, o inventor.

Truly I loved the man, on this side idolatry, as much as any. 149

vi

PGINAS COMPLEMENTARES

i. DO SEGUNDO CAPTULO

Dcimas em lunfardo, que publicou Evaristo Carriego na revista policial L. C. (quinta-feira, vinte e seis de setembro de 1912) com o pseudnimo El Barretero.

Compadre: se no tenho escrito, perdoa... Estou rebentado! Ando muito embuchado, que se continua palpito que vou pegar direitinho o caminho de Triunvirato; pois

j tenho para tanto esta minha sorte suna: Hoje me largou a mina e se visse com que rato!

Sim, mano, como digo: se visse que maloqueiro! mixo, sarnento, fuleiro, mau lanceiro e pior amigo. At me dobra o umbigo de pensar no cacetao que me deram! O

bacano no vale nem uma cuspida e o que dela, na vida no imaginei esse desaforo.

Neles eu t de olho! Visse o que se sabe de velho! No tem como correr igual

PGINAS COMPLEMENTARES

para estar bem na carreira.

Te engrupem com a manqueira e que talvez nem sejam da patota, e se vo

na cara dura, de qualquer jeito. Quando se abre a guarda j no tem caso: te do!

Mas logo na minha idade

vai me suceder essa coisa!

Se no pra abrir a piolhenta de tanta bronca que me d. Porque triste, na verdade, - o dizer necessrio - que com o lindo pronturio que com tanto sacrifcio

conseguido no servio me tenham feito de otrio.

Bem, que isto lamuriento e escrito como sem gana! Deixa a culpa ao espertalho que me afanou a ladrona. Tigreiro de minha marona, veremos como se esfora, se

que o corpo no safa quando lhe ponha a mo! At logo.

- Ainda

tenho que afiar o faco!

15O

151

#EVARISTO CARRUGO

PGINAS COMPLEMENTARES

11. DO QUARTO CAPTULO

O TRUCO

Quarenta cartas querem deslocar a vida. Nas mos range

o mao novo ou se trava o velho: miscelneas de papelo que

se animaro, um s de espadas que ser onipotente como

Dom Juan Manuel, valetes panudos dos quais Velsquez

copiou os seus. O gravador embaralha essas pinturazinhas.

A coisa fcil de dizer e tambm de fazer, mas o mgico e

desmedido do jogo - do fato de jogar - desponta da ao.

Quarenta o nmero das cartas e 1 yor 2 por 3 por 4... por 4O,

o de maneiras em que podem sair. E uma cifra delicadamente

pontual em sua enormidade, com imediato predecessor e

nico sucessor, mas no escrita nunca. uma remota cifra de vertigem que parece dissolver em sua multido os que a embaralham. Assim, desde o princpio, o central

mistrio do jogo se v enfeitado com outro mistrio, o de que haja nmeros. Sobre a mesa, descoberta para que resvalem as cartas, esperam os gravanos em seu monte,

aritmetizados tambm. A trucada se arma; os jogadores, acrioulados de repente, alijam-se do eu habitual. Um eu distinto, um eu quase antepassado e vernculo, enreda

os projetos do jogo. Subitamente, o idioma outro. Proibies tirnicas, possibilidades e impossibilidades astutas pesam sobre toda palavra. Mencionar flor sem

ter trs cartas de um naipe fato delituoso e punvel, mas se algum j disse truco, no importa. Mencionar um dos lances do truco empenhar-se nele: obrigao

que continua desdobrando-se em eufemismos a cada termo. Quebro quer dizer aceito, aposta quer dizer truco, uma perfumada ou uma jardineira quer dizer flor. Geralmente

costuma retumbar na boca dos que perdem esta consabida sentena de caudilho de salo: "Na lei do jogo tudo est dito: falta aposta e truco e se h flor, contra flor

para a mesa!" O dilogo se entusiasma at o verso, mais de uma vez. O truco conhece receitas de pacincia para os perdedores; versos para a exultao. O truco

memorioso como uma data. Milongas de cozinha ou de botequim, tumultos de velrio, bravatas de polticos, safadezas das casas de Junn e de sua madrasta, a

rua do Temple, fazem parte, graas a ele, das relaes humanas. O truco bom cantor, principalmente quando se ganha ou se finge ganhar: canta nas pontas das ruas

noitinha, nos armazns iluminados.

O habitual do truco mentir. Sua forma de enganar no a do pquer: simples desnimo ou aborrecimento por no hesitar e pr em risco um monte de fichas a cada

tantas jogadas; ao de voz mentirosa, de rosto que se julga desvendado e que se defende, de embusteiro e desatinado palavrrio. Uma potencializao do engano

ocorre no truco: esse jogador resmungo, que atirou suas cartas sobre a mesa, pode ocultar um bom jogo (astcia elementar) ou talvez nos esteja enganando com a verdade

para que no acreditemos nela (astcia ao quadrado). vontade e conversador est o jogo crioulo, mas sua frieza de astcia. uma superposio de mscaras, e

seu esprito o dos mascateiros Mosche e Daniel que no meio da grande plancie da Rssia se cumprimentaram.

- Aonde voc vai, Daniel? - disse um.

- A Sebastopol - disse o outro.

Ento, Mosche o olhou fixamente e afirmou:

- Voc mente, Daniel. Diz que vai a Sebastopol para que eu pense que vai a Nijni-Novgorod, mas o certo que vai mesmo a Sebastopol. Voc mente, Daniel!

Observo os jogadores de truco. Esto como escondidos no rudo crioulo do dilogo; querem espantar a vida a gritos. Quarenta cartas - amuletos de papelo pintado,

mitologia barata, exorcismos - lhes bastam para conjurar o viver comum. Jogam de costas para as transitadas horas do mundo. A pblica e urgente realidade em que

estamos todos chega s fronteiras dessa reunio e no passa; o recinto de sua mesa outro pas. Povoam-no o "truco" e o "aceito", a perfumada cruzada e o que ela

trar inesperadamente, o vido folhetim de cada partida, o 7 de ouros tilintando esperana e outras apaixonadas bagatelas do repertrio. Os truqueiros vivem esse

alucinado mundinho. Alimentam-no com piadas crioulas que no se esgotam, cuidam-no como se fosse um fogo. um mundo estreito, eu sei: fantasma de poltica de parquia

e de trapaas, mundo inventado enfim por feiticeiros de barraco e bruxos de bairro, mas nem por isso menos substituto deste mundo real e menos inventivo e diablico

em sua ambio.

152

153

#EVARISTO CARRIEGO

Pensar em um argumento local como este do truco e no sair dele ou no aprofund-lo - as duas figuras podem simbolizar aqui um ato igual, tamanha sua preciso

- parece-me gravssima frivolidade. Desejo no esquecer aqui um pensamento sobre a pobreza do truco. As diversas instncias de sua polmica, seus sobressaltos, seus

palpites, suas cabalas no podem no voltar. Tm com as experincias de se repetir. Que o truco para um exercitado no jogo, seno um hbito? Vejase tambm o aspecto

rememorativo do jogo, seu gosto por frmulas tradicionais. Todo jogador, na verdade, no faz mais que reincidir em vazas remotas. Seu jogo uma repetio de jogos

passados, o que equivale a dizer de timos de viveres passados. Geraes j invisveis de crioulos esto como enterradas vivas nele: so ele, podemos afirmar sem

metfora. Depreende-se que o tempo uma fico, de acordo com esse pensar. Assim, partindo dos labirintos de papelo pintado do truco, acercamo-nos da metafsica:

nica justificativa e finalidade de todos os temas.

154

Vil

AS INSCRIES DOS COCHES

Importa que meu leitor imagine um coche. No custa imagin-lo grande, as rodas traseiras mais altas que as dianteiras, como se fosse reserva de fora, o cocheiro

crioulo robusto como a construo de madeira e ferro em que est, os lbios distrados num assobio ou com ordens paradoxalmente suaves aos cavalos puxadores: s

parelhas seguidoras e montaria dianteira (proa insistente para os que precisam de comparao). Carregado ou no d no mesmo, salvo que voltando vazio est menos

preso a seu uso e mais entronizada a bolia, como se a conotao militar que os coches tiveram no imprio guerrilheiro de tila permanecesse nele. A rua pisada pode

ser Montes de Oca, ou Chile, ou Patrcios, ou Rivera ou Valentn Gmez, mas melhor Ls Heras, pela heterogeneidade de seu trfego. O tardio coche a distanciado

perpetuamente, mas essa mesma postergao se torna vitria, como se a alheia celeridade fosse espavorida urgncia de escravo, e a prpria demora, possesso inteira

do tempo, quase de eternidade. (Essa possesso temporal o infinito capital crioulo, o nico. Da demora, podemos exaltar a imobilidade: possesso do espao.) Persiste

o coche, com uma inscrio no lado. O classicismo do subrbio assim o decreta, e, embora essa desinteressada gorjeta expressiva, sobreposta s visveis expresses

de resistncia, forma, destino, altura, realidade, confirme a acusao de tagarelas que os conferencistas europeus nos imputam, no posso escond-la, porque o

argumento desta informao. Faz tempo que sou caador dessas inscries: epigrafia de barraco que supe caminhadas e desocupaes mais poticas que as efetivas

peas colecionadas, que rareiam nesses italianizados dias.

No penso em despejar esse coletado capital de centavos sobre a mesa, mas mostrar alguns. O projeto de retrica,

155

#EVARISTO CARRIEGO

como se v. Sabe-se que os metodizadores dessa disciplina

englobavam nela todos os empregos da palavra, at os irrisrios

ou humildes do enigma, do calembour, do acrstico, do anagrama, do labirinto, do labirinto cbico, do emblema. Se esta ltima, que figura simblica e no palavra,

tem sido admitida, entendo que a incluso da sentena do coche irrepreensvel. uma variante da Amrica para o lema, gnero que nasceu nos escudos. Alm disso,

convm comparar a sentena do coche s outras letras, para que o leitor se desiluda e no espere portentos de meu exame. Como desej-los aqui, quando no existem

ou nunca existiram nas premeditadas antologias de Menndez y Pelayo ou de Palgrave?

Um equvoco muito comum: o de tomar como genuno

lema do coche o nome da casa a que pertence. O modelo da

Chocara Bollini, rtulo perfeito da grosseria sem inspirao, pode

ser dos que apontei; A me do Norte, coche de Saavedra com

certeza. Lindo nome este ltimo e podemos experimentar duas

explicaes. Uma, inacreditvel, a de ignorar a metfora e

supor o Norte parido por esse coche, fluindo casas, armazns e

lojas de tintas de seu passo inventor. Outra a que previram

vocs, a de acolher. Mas nomes como este correspondem a outro

gnero literrio menos domstico, o das empresas comerciais:

gnero abundante em concisas obras-primas tais como a alfaia

taria O Colosso de Rodes, de Villa Urquiza, e a fbrica de camas

A dormitolgica, de Belgrano, mas que no de minha jurisdio.

A genuna letra de coche no muito diversa. tradi

cionalmente assertiva - A flor da praa Vrtiz, O vencedor - e costuma estar como que enfastiada de ostentao. Da mesma forma, O anzol, A mala, O garrote. O ltimo

me agrada, mas se apaga quando me lembro deste outro lema, de Saavedra tambm, que revela viagens dilatadas como navegaes, prtica nas azinhagas pampianas e em

poeiradas altas: O barco.

Uma espcie definida do gnero a inscrio nos pequenos coches distribuidores. O regateio e a conversa cotidiana da mulher os tm distrado da preocupao com

a coragem, e suas vistosas letras preferem o alarde servial ou a galanteria. O liberal, Viva quem me protege, O vasquinho do Sul, O beija-flor, O leiterinho do

futuro, O bom moo, At amanh, O recorde de Talcahuano, O sol nasce para todos podem ser alegres exemplos. Que me tero feito teus olhos e Onde restam cinzas houve

fogo so da mais individuali

156

zada paixo. Quem me inveja morre desesperado deve ser intromisso espanhola. No tenho pressa crioulo na certa. A displicncia ou severidade da frase breve costuma

ser corrigida tambm, no s pela graa do dizer, como pela profuso das frases. Vi um pequeno coche de frutas que, alm de seu presumvel nome O preferido do bairro,

afirmava em dstico satisfeito

Eu o digo e sustento

Que a ningum inveja tenho.

e comentava a figura de um par de bailarinos de tango, sem muita luz, com a resoluta indicao Sempre em frente. Essa charlatanice da brevidade, esse frenesi sentencioso,

lembra-me a maneira de falar do clebre estadista dinamarqus Polnio, de Hamlet, ou a do Polnio natural, Baltasar Gracin.

Volto s inscries clssicas. A meia-lua de Morn lema de um coche com balaustradas de ferro to altas que pareciam quase de barco, o qual pude contemplar numa

mida noite no centro pontual de nosso Mercado de Abasto, reinando em doze patas e quatro rodas sobre a fermentao luxuosa de odores. A solido mote de uma carroa

que vi pelo sul da provncia de Buenos Aires e que vai a distncia. o objetivo de O barco outra vez, mas menos obscuro. Que importa velha que a filha me queira

de omisso impossvel, menos por sua ausente agudeza que por seu genuno tom de barraco. E o que se pode observar tambm em Teus beijos foram meus, afirmao

derivada de uma valsa, mas que por estar escrita em um coche se adorna de insolncia. Que olha, invejoso? tem algo de efeminado e de presumido. Sinto orgulho muito

superior, pela dignidade de sol e pela alta bolia, s mais efusivas acusaes de Boedo. Aqui vem o Aranha um belo anncio. Pra loura, quando ainda mais, no

s por sua apcope crioula e por sua antecipada preferncia pela morena, mas tambm pelo irnico emprego do advrbio quando, que tem aqui o valor de nunca. (Encontrei

pela primeira vez esse quando de renncia em uma intransfervel milonga, que lamento no poder ler em voz baixa ou mitigar recatadamente em latim. Destaco em seu

lugar esta parecida, crioula do Mxico, registrada no livro de Rubn Campos, El Folklore y Ia Msica Mexicana: "Dizem que me ho de fechar / as veredas por onde

ando; / as veredas fecharo, / mas a querncia, quando". Quando, meu

157

#E VARISTO CARRIEGO

bem era tambm uma sada habitual dos que brincavam, ao interceptar o pau queimado ou o punhal do outro.) O ramo est florido anncio de grande serenidade e magia.

Quase nada, Disseram-me isto e Quem diria so incorrigveis por serem bons. Implicam drama, esto na circulao da realidade. Correspondem a freqncias da emoo:

so como do destino, sempre. So trejeitos que perduram na escrita, so uma afirmao incessante. Seu modo alusivo o do conversador dos subrbios que no pode

ser direto narrador ou argumentador e que se compraz com descontinuidades, com generalidades, com logros: sinuosos como o requebro. Mas a honra, mas a tenebrosa

flor deste censo, a opaca inscrio No chora o perdido, que manteve a Xul Solar e a mim escandalosamente intrigados, afeitos, sem dvida, a entender os mistrios

delicados de Robert Browning, os tolos de Mallarm e os meramente chatos de Gngora. No chora o perdido; passo esse cravo retinto ao leitor.

No h atesmo literrio fundamental. Eu acreditava descrer da literatura, e me deixei guiar pela tentao de reunir essas partculas dela. Absolvem-me duas razes.

Uma a democrtica superstio que postula mritos reservados a qualquer obra annima, como se apenas ns soubssemos o que ningum sabe, como se fosse nervosa

a inteligncia e funcionasse melhor nas ocasies em que no a vigiam. Outra a facilidade de julgar o breve. Custa-nos admitir que nossa opinio sobre uma frase,

possa no ser a ltima. Depositamos nossa f nas frases, j que no nos captulos. inevitvel aqui a meno a Erasmo: incrdulo e curioso de provrbios.

Esta pgina comear a ser erudita depois de muitos dias. Nenhuma referncia bibliogrfica posso indicar, salvo esta quadra casual de um predecessor meu nesses afetos.

Pertence aos desalentados rascunhos do verso clssico que agora se chamam versos livres.

Lembro-o assim:

Os coches de dorso sentencioso franqueavam tua manh

e eram nas esquinas ternos os armazns como esperando por um anjo.

Agradam-me mais as inscries de coche, flores do brejo.

VIII

HISTRIAS DE GINETES

So muitas e poderiam ser infinitas. A primeira modesta; logo a aprofundaro as que seguem.

Um estancieiro do Uruguai tinha adquirido um estabelecimento do campo (estou certo de que foi essa a palavra que usou) na provncia de Buenos Aires. Trouxe de Paso

de los Toros um domador, homem de toda a sua confiana, mas muito xucro. Alojou-o em uma penso perto do Once. Depois de trs dias, foi sua procura; encontrou-o

mateando em seu quarto, no ltimo andar. Perguntou-lhe o que tinha achado de Buenos Aires, e o resultado foi que o homem no tinha chegado rua uma nica vez.

A segunda no muito diferente. Em 19O3, Aparicio Saravia dirigiu a campanha do Uruguai; em algum momento da luta, temeu-se que seus homens pudessem irromper em

Montevidu. Meu pai, que se encontrava a, foi pedir conselho a um parente, Luis Melin Lafinur, o historiador. Este lhe disse que no havia perigo, "porque o gacho

teme a cidade". De fato, as tropas de Saravia se desviaram e meu pai comprovou, com algum assombro, que o estudo da histria pode ser til e no s agradvel."

A terceira que contarei tambm pertence tradio oral de minha casa. Nos fins de 187O, as foras de Lpez Jordn, sob o comando de um gacho chamado O Chumbado,

cercaram a cidade de Paran. Uma noite, aproveitando um descuido da guarnio, os guerrilheiros conseguiram atravessar

1 Burton escreve que os bedunos, nas cidades rabes, tampam os narizes com o leno ou com algodes; Amiano, que os hunos tinham tanto medo das casas como dos sepulcros.

Da mesma forma, os saxes que irromperam na Inglaterra no sculo

V no se atreveram a morar nas cidades romanas que conquistaram. Deixaram-nas cair aos pedaos e compuseram depois elegias para lamentar essas runas.

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159

#EVARISTO CARRIEGO

as defesas e deram, a cavalo, toda a volta na praa central, batendo na boca e fazendo algazarra. Em seguida, entre apupos e assobios, foram embora. A guerra no

era para eles a execuo coerente de um plano, mas um jogo de machismo.

A quarta das histrias, a ltima, est nas pginas de um livro admirvel: L"Empire des Steppes (1939), do orientalista Grousset. Dois pargrafos do captulo dois

podem ajudar a entend-la; eis aqui o primeiro:

"A guerra de Gngis Khan contra os kin, comeada em 1211, devia, com breves trguas, prolongar-se at sua morte (1227), para ser terminada pelo seu sucessor (1234).

Os mongis, com sua mvel cavalaria, podiam arrasar os campos e povoaes abertas, mas durante muito tempo ignoraram a arte de tomar as praas fortificadas pelos

engenheiros chineses. Alm disso, guerreavam na China como na estepe, por incurses sucessivas, no fim das quais se retiravam com seu butim, deixando que na retaguarda

os chineses voltassem a ocupar as cidades, levantassem as runas, reparassem as fendas e refizessem as fortificaes, de tal modo que no decorrer daquela guerra

os generais mongis se viram obrigados a reconquistar duas ou trs vezes as mesmas praas".

Eis aqui o segundo:

"Os mongis tomaram Pequim, degolaram a populao, saquearam as casas e depois lhe atearam fogo. A destruio durou um ms. Evidentemente, os nmades no sabiam

o que fazer com uma grande cidade e no atinavam com a maneira de utiliz-la para consolidar e estender seu poderio. H a um caso interessante para os especialistas

da geografia humana: o embarao do povo das estepes quando, sem transio, o acaso lhes entrega velhos pases de civilizao urbana. Queimam e matam, no por sadismo,

mas porque ficam desconcertados e no sabem agir de outra forma".

Eis aqui, agora, a histria que todos os testemunhos confirmam: Durante a ltima campanha de Gngis Khan, um de seus generais observou que seus novos sditos chineses

no lhe serviriam para nada, j que eram ineptos para a guerra, e que, conseqentemente, o mais ajuizado era extermin-los, arrasar as cidades e fazer do quase interminvel

Imprio Central um dilatado campo de pastoreio para a cavalaria. Assim, pelo menos, aproveitariam a terra, j que o resto era

HISTORIAS DE GINETES

intil. O Khan ia seguir esse parecer, quando outro conselheiro o fez notar que mais proveitoso era fixar impostos sobre as terras e sobre as mercadorias. A civilizao

salvou-se, os mongis envelheceram nas cidades que tinham desejado destruir e, sem dvida, acabaram por apreciar, nos jardins simtricos, as desprezveis e pacficas

artes da prosdia e da cermica.

Distantes no tempo e no espao, as histrias que reuni so uma s; o protagonista eterno, e o receoso peo que passa trs dias diante de uma porta que d para

o ltimo ptio , embora maltratado, o mesmo que, com dois arcos, um lao feito de crina e um alfanje, esteve a ponto de arrasar e apagar, debaixo dos cascos dos

cavalos das estepes, o reino mais antigo do mundo. agradvel perceber, sob os disfarces do tempo, as eternas espcies do ginete e da cidade;"- esse prazer, no

caso dessas histrias, pode deixar-nos um sabor melanclico, j que ns, os argentinos (por obra do gacho de Hernndez ou por gravitao de nosso passado), identificamo-nos

com o ginete, aquele que perde no fim. Os centauros vencidos pelos lpitas, a morte do pastor de ovelhas Abel nas mos de Cairo, que era lavrador, a derrota da cavalaria

de Napoleo pela infantaria britnica em Waterloo so emblemas e sombras desse destino.

Ginete que se afasta e se perde, com sugesto de derrota, igualmente o gacho em nossas letras. Assim, em Martn Fierro:

Cruz e Fierro de uma estncia Uma tropilha conduziram, Para diante a lanaram Como crioulos entendidos E logo, sem serem percebidos, Pela fronteira cruzaram.

E quando por ela passaram, Numa madrugada clara, Disse-lhe Cruz que olhasse As ltimas povoaes E em Fierro duas lgrimas Rolaram-lhe pela face.

Z Sabe-se que Hidalgo, Ascasubi, Estanislao del Campo e Lussich foram prdigos em verses jocosas do dilogo do ginete com a cidade.

16O

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#EVARISTO CARRIEGO

E seguindo o fiel do rumo Entraram pelo deserto...

E em El Pagador, de Lugones:

"Dir-se-ia que o vimos desaparecer por trs das colinas familiares, no trote de seu cavalo, devagarinho, porque no vo acreditar que de medo, com a ltima tarde

que ia se tornando parda como a asa da pomba-trocai, sob o chapu lgubre e o poncho pendente dos ombros em decadas pregas de bandeira a meio-pau".

E em Don Segundo Sombra:

"A silhueta reduzida de meu padrinho apareceu no morro. Minha vista se fixava energicamente sobre aquele pequeno movimento no pampa sonolento. Foi chegar no alto

do caminho e desaparecer. Foi-se reduzindo como se o cortassem por baixo em consecutivos talhos. Sobre o ponto negro do chapu, meus olhos se aferraram no af de

fazer perdurar aquele vestgio".

O espao, nos textos supracitados, tem a misso de significar o tempo e a histria.

A figura do homem sobre o cavalo secretamente pattica. Sob Atila, Aoite de Deus, sob Gngis Khan e Timor, o ginete destri e funda com violento fragor dilatados

reinos, mas suas destruies e fundaes so ilusrias. Sua obra efmera como ele. Do lavrador procede a palavra cultura, das cidades a palavra civilizao, mas

o ginete uma tempestade que se perde. No livro Die Germanen der Vlkerwanderung (Stutrgart, 1939), Capelle observa, nesse sentido, que os gregos, os romanos e

os germanos eram povos agrcolas.

1x

O PUNHAL

A Margarita Bunge

Numa gaveta h um punhal.

Foi forjado em Toledo, nos fins do sculo passado; Luis Melin Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; em algum momento, Evaristo Carriego teve-o na mo.

Quem o v tem de brincar um pouco com ele; percebe-se que h muito o procuravam; a mo se apressa a apertar a empunhadura que a espera; a lmina obediente e poderosa

encaixa com preciso na bainha.

Outra coisa quer o punhal.

mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; , de algum modo, eterno, o punhal que ontem noite matou

um homem em Tacuaremb e os punhais que mataram Csar. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da escrivaninha, entre rascunhos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mo se anima quando o empunha, porque o metal

se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.

As vezes me d pena. Tanta dureza, tanta f, to impassvel ou inocente soberba, e os anos passam, inteis.

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#P1,O1,O(,O A UMA EDIO DAS POESIAS COMPLETAS DE EVARISTO CARRIEGO

X

PRLOGO A UMA EDIO DAS POESIAS

COMPLETAS DE EVARISTO CARRIEGO

Todos, agora, vemos Evaristo Carriego em funo do subr

bio e tendemos a esquecer que Carriego (como o valento, a

costureirinha e o gringo) personagem de Carriego, assim como o

subrbio em que o imaginamos e projeo e quase iluso de sua

obra. Wilde sustentava que o Japo - as imagens que essa palavra

desperta - tinha sido inventado por Hokusai; no caso de Evaris

to Carriego, devemos postular uma ao recproca: o subrbio

cria Carriego e recriado por ele. Influem em Carriego o subr

bio real e o subrbio de Trejo e das milongas; Carriego impe sua

viso do subrbio; essa viso modifica a realidade. (Depois a

modificaro, muito mais, o tango e a tragicomdia popular.)

Como se produziram os fatos, como pde esse pobre rapaz

Carriego chegar a ser o que agora ser para sempre? Talvez o

prprio Carriego, interrogado, no nos pudesse dizer. Sem

outro argumento que minha incapacidade para imaginar de outra maneira as coisas, proponho esta verso ao leitor:

Um dia, entre os dias do ano 19O4, numa casa que persiste na rua Honduras, Evaristo Carriego lia com pesar e com avidez um livro da gesta de Charles de Baatz, senhor

de Artagnan. Com avidez, porque Dumas lhe oferecia o que a outros oferece Shakespeare ou Balzac ou Walt Whitman, o sabor da plenitude da vida; com pesar, porque

era jovem, orgulhoso, tmido e pobre, e se acreditava desterrado da vida. A vida estava na Frana, pensava, no claro contato com os aos, ou quando os exrcitos

do Imperador inundavam a terra, mas a mim tocou o sculo XX, o tardio sculo XX, e um medocre arrabalde sul-americano... Nessa elucubrao estava Carriego quando

algo aconteceu. Um rasgado de laboriosa guitarra, a desparelhada fileira de casas baixas vistas pela

janela, Juan Murava tocando no chapu para responder a uma saudao (Juan Murava que anteontem marcou Surez, o Chileno), a lua no quadrado do ptio, um homem velho

com um galo de rinha, algo, qualquer coisa. Algo que no poderemos recuperar, algo cujo sentido sabemos, mas no sua forma, algo cotidiano e trivial e imperceptvel

at ali, que revelou a Carriego que o universo (que se d inteiro em cada instante, em qualquer lugar, e no s nas obras de Dumas) tambm estava ali, no simples

presente, em Palermo, em 19O4. Entrai, que aqui tambm esto os deuses, disse Herelito de feso s pessoas que o encontraram aquecendo-se na cozinha.

Tenho suspeitado algumas vezes que qualquer vida humana, por intricada e povoada que seja, consta na realidade de um momento: o momento em que o homem sabe para

sempre quem . A partir da imprecisa revelao que tentei intuir, Carriego Carriego. J o autor daqueles versos que anos depois lhe ser permitido inventar:

Cruzam-lhe o rosto, de estigmas violentos, Fundas cicatrizes, e por certo lhe agrada Mostrar indelveis adornos sangrentos: Caprichos de fmea que teve a daga.

No ltimo, quase milagrosamente, h um eco da imaginao medieval, do consrcio do guerreiro com sua arma, dessa imaginao que Detlev von Liliencron fixou em outros

versos ilustres:

In die Friesen trug er sein Sehwert Hilfnot, das hat ihn heute betrogen...

Buenos Aires, novembro de 195O.

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165

#xt

HISTRIA DO TANGO

Vicente Rossi, Carlos Vega e Carlos Muzzio Senz Pena,

pesquisadores pontuais, historiaram de diversas maneiras a

origem do tango. No me custa declarar que subscrevo todas as suas concluses, e ainda qualquer outra. H uma histria do destino do tango que o cinema periodicamente

divulga; o tango, segundo essa verso sentimental, teria nascido no subrbio, nos cortios (na Boca del Riachuelo, geralmente, pelas virtudes fotogrficas dessa

regio); a aristocracia t-lo-ia rejeitado a princpio; at 191O, doutrinado pelo bom exemplo de Paris, teria franqueado finalmente suas portas a esse interessante

suburbano. Esse Bildungsroman, esse "romance de um jovem pobre", agora uma espcie de verdade incontestvel ou de axioma; minhas recordaes (j completei cinqenta

anos) e as indagaes de natureza oral que empreendi certamente no a confirmam.

Conversei com Jos Saborido, autor de Felicia e de La Morocha, com Ernesto Poncio, autor de Don Juan, com os irmos de Vicente Grecco, autor de La Virut e de La

Tablada, com Nicols Paredes, caudilho que foi de Palermo, e com algum cantador de seu conhecimento. Deixei-os falar; cuidadosamente me abstive de formular perguntas

que sugerissem determinadas respostas. Interrogados sobre a procedncia do tango a topografia e at a geografia de seus relatos eram singularmente diversas: Saborido

(que era oriental) preferiu uma origem montevideana; Poncio (que era do bairro do Retiro) optou por Buenos Aires e por seu bairro; os portenhos do Sul invocaram

a rua Chile, os do Norte, a meretrcia rua do Temple ou a rua Junn.

A despeito das divergncias que enumerei e que seria fcil enriquecer, interrogando platenses ou rosarienses, metes

Hisrri.n Do TANGO

assessores concordavam com um fato essencial: a origem do tango nos lupanares. (Assim como com a data dessa origem, que para ningum foi muito anterior a oitenta

ou posterior a noventa.) O instrumental primitivo das orquestras - piano, flauta, violino, depois bandnion - confirma, pelo custo, esse testemunho; uma prova

de que o tango no surgiu nos subrbios, onde se satisfaziam sempre, ningum o ignora, com as seis cordas da guitarra. Outras confirmaes no faltam: a lascvia

das figuras, a conotao evidente de certos ttulos (El Choclo, El Fierrazo), a circunstncia que em criana pude observar em Palermo e, anos depois, em L Chacarita

e em Boedo, de que nas esquinas o danavam pares de homens, porque as mulheres do povo no queriam participar de um baile de perdidas. Evaristo Carriego assim o

descreveu em suas Mesas Herejes:

Na rua, a gente boa esbanja

seus palavres mais lisonjeiros,

porque no compasso de um tango, que L Moroeha, luzem geis requebros dois orilheiros.

Em outra pgina de Carriego mostra-se, com luxo de aflitivos detalhes, uma pobre festa de casamento; o irmo do noivo est na priso; h dois rapazes agressivos

que o valento tem que pacificar com ameaas, h receio e rancor e bazfia, mas

O tio da noiva, que se acreditou

obrigado a reparar, se o baile traa bom rumo, afirma, meio ofendido,

que no se admitem requebros, nem por troa... Que, modstia parte, no a pega nenhum desses vivos... seguramente. A casa ser pobre, ningum o nega, tudo o que

se quiser, porm decente.

O homem momentneo e severo que as duas estrofes nos deixam entrever, para sempre, mostra muito bem a primeira reao do povo diante do tango, esse rptil de lupanar,

como o definiria Lugones com laconismo desdenhoso (El Pagador, pgina 117). De muitos anos precisou o Bairro Norte para

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#EVARISTO CARRUGO

impor o tango - j tornado decente em Paris, verdade - nos cortios, e no sei se o conseguiu inteiramente. Antes era uma orgistica diabrura; hoje, uma maneira

de caminhar.

O TANGO BRIGUENTO

A ndole sexual do tango foi notada por muitos, mas no a ndole briguenta. verdade que as duas so modos ou manifestaes de um mesmo impulso, e assim a palavra

homem, em todas as lnguas que sei, conota capacidade sexual e capacidade belicosa, e a palavra virtus, que em latim quer dizer coragem, provm de vir, que varo.

Paralelamente, em uma das pginas de Kim um afego afirma: "Aos quinze anos, eu tinha matado um homem e procriado um homem" ("When I was fifteen, I had shot my man

and begot my man"), como se os dois atos fossem, essencialmente, um.

Falar do tango briguento no basta; eu diria que o tango e as milongas expressam diretamente algo que os poetas, muitas vezes, tm desejado dizer com palavras: a

convico de que brigar pode ser uma festa. Na famosa Histria dos Godos que Jordans comps no sculo VI, lemos que tila, antes da derrota de Chlons, arengou

a seus exrcitos dizendo que a fortuna lhes tinha reservado os jbilos dessa batalha (certaminis hujus gaudia). Na Iluda se fala de aqueus para quem a guerra era

mais doce que regressar nas vazias naus a sua querida terra natal e se diz que Pris, filho de Pramo, correu com ps velozes para a batalha, como o cavalo de agitada

crina a procurar as guas. Na antiga epopia saxnica que inicia as literaturas germnicas, no Beowulf, o rapsodo chama sweorda gelas (jogo de espadas) batalha.

Festa de vikings a chamaram, no sculo XI, os poetas escandinavos. No princpio do sculo XVII, Quevedo, numa de suas xcaras, chamou dana de espadas a um duelo,

o que quase o jogo de espadas do annimo anglo-saxo. O esplndido Hugo, em sua evocao da batalha de Waterloo, disse que os soldados, compreendendo que iam morrer

naquela festa ("comprenant qu"ils allaient mourir dans cette fte"), saudaram seu deus, de p na tormenta.

Esses exemplos, que ao acaso de minhas leituras fui anotando, poderiam, sem maior diligncia, multiplicar-se e porventura na Chanson de Roland ou no vasto poema

de Ariosto se

HISTRIA Do TANGO

encontrem passagens congneres. Alguns dos registrados aqui - o de Quevedo ou o de Atila, digamos - so de irrecusvel eficcia; todos, contudo, padecem do pecado

original do literrio: so estruturas de palavras, formas feitas de smbolos. Dana de espadas, por exemplo, convida-nos a unir duas representaes dspares, a do

baile e a do combate, para que a primeira sature de alegria a ltima, mas no fala diretamente com nosso sangue, no recria em ns essa alegria. Schopenhauer (Welt

als Wille und Vorstellung, 1, 52) escreveu que a msica no menos imediata que o prprio mundo; sem mundo, sem um caudal comum de memrias evocveis pela linguagem,

no haveria, certamente, literatura, mas a msica prescinde do mundo, poderia haver msica sem mundo. A msica a vontade, a paixo; o tango antigo, como msica,

costuma transmitir diretamente essa alegria belicosa cuja expresso verbal ensaiaram, em idades remotas, rapsodos gregos e germnicos. Certos compositores atuais

procuram es se torn valente e elaboram, s vezes com felicidade, milongas do bairro baixo da Bateria ou do Barrio del Alto, mas seus trabalhos, de letra e msica estudadamente

antiquadas, so exerccios de nostalgia do que foi, prantos pelo perdido, essencialmente tristes, ainda que a toada seja alegre. So para as bravias e inocentes

milongas que o livro de Rossi registra o que Don Segundo Sombra para Martn Fierro ou para Paulino Lueero.

Num dilogo de Oscar Wilde, l-se que a msica nos revela um passado pessoal que at esse momento ignorvamos e nos leva a lamentar desventuras que no nos ocorreram

e culpas que no cometemos; quanto a mim, confessarei que no posso ouvir

El Marne ou Don Juan sem lembrar com preciso um passado apcrifo, ao mesmo tempo estico e orgistico, em que desafiei e lutei para cair, por fim, silencioso, num

obscuro duelo a punhal. Talvez a misso do tango seja essa: dar aos argentinos a certeza de terem sido valentes, de terem j cumprido com as exigncias da valentia

e da honra.

UM MISTRIO PARCIAL

Admitida uma funo compensadora do tango, resta um breve mistrio por resolver. A independncia da Amrica foi, em grande parte, uma ao argentina; homens argentinos

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EVARISTO CARRIEGO

lutaram em distantes batalhas do continente, em Maip, em

Ayacucho, em Junn. Depois houve as guerras civis, a guerra

do Brasil, as campanhas contra Rosas e Urquiza, a guerra do

Paraguai, a guerra de fronteira contra os ndios... E copioso

nosso passado militar, mas o indiscutvel que o argentino,

fora de pensar-se valente, no se identifica com ele (a despeito da preferncia que nas escolas se d ao estudo da histria), mas com as vastas figuras genricas

do Gacho e do Compadre. Se no me engano, este trao instintivo e paradoxal tem sua explicao. O argentino acharia seu smbolo no gacho e no no militar, porque

o valor cifrado naquele pelas tradies orais no est a servio de uma causa e puro. O gacho e o compadre so imaginados como rebeldes; o argentino, diferentemente

dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, no se identifica com o Estado. Pode-se atribuir isso ao fato geral de que o Estado uma inconcebvel abstrao;"

o certo que o argentino um indivduo, no um cidado. Aforismos como o de Hegel "O Estado a realidade da idia moral" parecem-lhe galhofas sinistras. Os filmes

elaborados em Hollywood repetidamente propem admirao o caso de um homem (em geral, um jornalista) que procura a amizade de um criminoso para entreg-lo depois

polcia; o argentino, para quem a amizade uma paixo, e a polcia, uma maffia, sente que esse "heri" um incompreensvel canalha. Sente com Dom Quixote que

"v-se cada um com seu pecado" e que "no bem que os homens honrados sejam verdugos de outros homens, no levando nada nisso" (Quixote, 1, XXII). Mais de uma vez,

diante das vs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos inapelavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me do erro;

so como o smbolo tranqilo e secreto de uma afinidade. Profundamente a confirma uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da

polcia rural gritou que no ia consentir no delito de se matar um valente e se ps a lutar contra seus soldados, junto com o desertor Martn Fierro.

1O Estado impessoal; o argentino s concebe uma relao pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro pblico no crime. Comprovo um fato, no o justifico ou

desculpo.

HIsrORIA Do TANGO

AS LETRAS

De valor desigual, j que notoriamente derivam de centenas e de milhares de penas heterogneas, as letras de tango que a inspirao ou o esforo elaboraram integram,

ao fim de meio sculo, um quase inextricvel corpus poeticum que os historiadores da literatura argentina lero ou, em todo caso, vindicaro. O popular, sempre que

o povo j no o entenda, sempre que os anos tenham-no tornado antigo, obtm a nostlgica venerao dos eruditos e permite polmicas e glossrios; verossmil que

at 199O surja a suspeita ou a certeza de que a verdadeira poesia de nosso tempo no est em La Urna de Banchs ou em Luz de Provncia de Mastronardi, mas nas obras

imperfeitas que se entesouram em El Alma que Canta. Esta suposio melanclica. Uma culpvel negligncia vedou-me a aquisio e o estudo desse repertrio catico,

mas no desconheo sua variedade e o crescente mbito de seus temas. No princpio, o tango no teve letra ou a teve obscena e casual. Alguns a tiveram agreste ("Sou

a fiel companheira / do nobre gacho portenho"), porque os compositores procuravam a popular, e a m vida e os arrabaldes no eram matria potica, ento. Outros,

como a milonga congnere," foram alegres e vistosas bravatas ("No tango sou to estourado / que quando fao um duplo requebro / corre a voz pelo Norte / se que

me encontro no Sul"). Depois, o gnero relatou, como certos romances do naturalismo francs, ou como certas gravuras de Hogarth, as vicissitudes locais do harlot"s

progress ("Logo foste a amiguinha / de um velho boticrio / e o filho do comissrio / todo enfunado te levou"); depois, a deplorvel converso dos bairros briguentos

ou arruaceiros para a decncia ("Ponte Alsina, /onde est essa malandragem?" ou "Onde esto aqueles homens e essas chinas / faixas vermelhas e chapus que Requeria

conheceu? / Onde est minha Villa Crespo de outros

Eu sou do bairro do Alto, Son do bairro do Retiro. Eu sou aquele que no olho Corai quem tenho de lutar,

E quem se pe a milonQuear, Vin,kn~m o r,rrea trn.

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#EVARISTO CARRIEGO

HISTBRIA DO TANGO

tempos? / Vieram os judeus, Triunvirato acabou"). Desde muito cedo, as soobras do amor clandestino ou sentimental atarefaram as penas ("No te lembras que comigo

/ puseste um chapu / e aquele cinturo de couro /que de outra mina afanei?"). Tangos de recriminao, tangos de dio, tangos de zombaria e de rancor se escreveram

renitentes transcrio e lembrana. Toda a agitao da cidade foi entrando no tango; a m vida e o subrbio no foram os nicos temas. No prlogo das stiras,

Juvenal memoravelmente escreveu que tudo o que move os homens - o desejo, o temor, a ira, o prazer carnal, as intrigas, a felicidade - seria matria de seu livro;

com perdovel exagero poderamos aplicar seu famoso quidquid agunt homines soma das letras de tango. Tambm poderamos dizer que essas formam uma desconexa e vasta

comdie humaine da vida de Buenos Aires. Sabe-se que Wolf, em fins do sculo XVIII, escreveu que a Ilada, antes de ser uma epopia, foi uma srie de cantos e rapsdias;

isso permite, talvez, a profecia de que as letras de tango formaro, com o tempo, um longo poema civil, ou sugeriro a algum ambicioso a escrita desse poema.

E conhecido o parecer de Andrew Fletcher: "Se me deixam escrever todas as baladas de uma nao, no me importa quem escreva as leis"; o ditame sugere que a poesia

comum ou tradicional pode influir nos sentimentos e ditar a conduta. Aplicada a conjetura ao tango argentino, veramos nele um espelho de nossas realidades e, ao

mesmo tempo, um mentor ou um modelo, de influxo certamente malfico. A milonga e o tango das origens podiam ser bobos ou, pelo menos, estabanados, mas eram valentes

e alegres; o tango posterior um ressentido que deplora com luxo sentimental as desditas prprias e festeja com descaramento as desditas alheias.

Lembro que por volta de 1926 costumava atribuir aos italianos (e mais concretamente aos genoveses do bairro da Boca) a degenerao dos tangos. Naquele mito, ou fantasia,

de um tango "crioulo" corrompido pelos "gringos", vejo um claro sintoma, agora, de certas heresias nacionalistas que assolaram o mundo depois - impulsionado pelos

gringos, naturalmente. No foi o bandnion, que chamei de covarde algum dia, nem os aplicados compositores de um subrbio fluvial que fizeram com que o tango fosse

o que , mas a Repblica inteira. Alm

disso, os crioulos velhos que geraram o tango se chamavam Bevilacqua, Greco ou de Bassi...

Algum poder objetar, quanto a meu descrdito da fase atual do tango, que a passagem da valentia ou bravata tristeza no necessariamente culpvel e pode ser

indcio de maturidade. Meu imaginrio adversrio bem pode acrescentar que o inocente e valoroso Ascasubi para o queixoso Hernndez o que o primeiro tango para

o ltimo e que ningum - salvo, talvez, Jorge Luis Borges - se animou a inferir dessa diminuio de felicidade que Martn Fierro inferior a Paulino Lucero. A resposta

fcil: a diferena no somente de tom hedonista: de tom moral. No tango cotidiano de Buenos Aires, no tango dos seres familiares e das confeitarias decentes,

h uma canalhice trivial, um sabor de infmia de que nem suspeitaram os tangos do punhal e do lupanar.

Musicalmente, o tango no deve ser importante; sua nica importncia a que lhe damos. A reflexo justa, mas talvez seja aplicvel a todas as coisas. nossa

morte pessoal, por exemplo, ou mulher que nos desdenha... O tango pode ser discutido, e o discutimos, porm encerra, como tudo que verdadeiro, um segredo. Os

dicionrios musicais registram, por todos aprovada, sua breve e suficiente definio; essa definio elementar e no promete dificuldades, mas o compositor francs

ou espanhol que, confiante nela, urde corretamente um "tango" descobre, no sem espanto, que urdiu algo que nossos ouvidos no reconhecem, que nossa memria no

hospeda e que nosso corpo rejeita. Dir-se-ia que sem entardeceres e noites de Buenos Aires no se pode fazer um tango e que no cu nos espera, aos argentinos, a

idia platnica do tango, sua forma universal (essa forma que apenas soletram La Tablada ou E1 Choclo), e que essa espcie venturosa tem, ainda que humilde, seu

lugar no universo.

O DESAFIO

H um relato lendrio ou histrico, ou ao mesmo tempo feito de histria e de lenda (o que, talvez, seja outra maneira de dizer lendrio), comprovando oculto da coragem.

Suas

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#EVARISTO CARRIEGO

melhores verses escritas podem ser encontradas nos romances de Eduardo Gutirrez, esquecidos agora com injustia, no Hormiga Negra ou no Juan Moreira; das orais,

a primeira que ouvi provinha de um bairro demarcado por uma priso, um rio e um cemitrio, chamado a Terra do Fogo. O protagonista dessa verso era Juan Murava,

homem da faca e carroceiro, em que convergem todos os contos de coragem que andam pelos subrbios do Norte. Essa primeira verso era simples. Um homem de Corrales

ou de Barracas, conhecedor da fama de Juan Murava (a quem nunca tinha visto), vem de seu subrbio do Sul para desafi-lo; provoca-o num armazm, os dois saem para

lutar na rua; ferem-se; Murava marca-o por fim e lhe diz:

"- Deixo-te com vida para que voltes a me procurar."

A falta de interesse daquele duelo gravou-se em minha memria; em minhas conversas (meus amigos esto cansados de saber) no prescindi dele; por volta de 1927, escrevi-o

e com enftico laconismo o intitulei "Hombres pelearon"; anos depois, o caso me ajudou a imaginar um conto afortunado, ainda que no fosse bom, "Hombre de Ia esquina

rosada"; em 195O, Adolfo Bioy Casares e eu o retomamos para compor o roteiro de um filme que as empresas recusaram com entusiasmo e que se chamaria Los Orilleros.

Acreditei, ao fim de to dilatadas fadigas, ter-me despedido da histria do duelo generoso; neste ano, em Chivilcoy, recolhi uma verso muito superior, que oxal

seja a verdadeira, embora as duas muito bem possam s-lo, j que o destino se compraz em repetir as formas e o que ocorreu uma vez ocorre muitas. Dois contos medocres

e um filme que considero muito bom saram da verso deficiente; nada pode sair da outra, que perfeita e cabal. Como me contaram, vou cont-la, sem adio de metforas

ou de paisagem. A histria, disseram-me, ocorreu na regio de Chivilcoy, por volta de mil oitocentos e setenta e tantos. Wenceslao Surez o nome do heri, que

desempenha a tarefa de tranados e vive num ranchinho. homem de quarenta ou cinqenta anos; tem reputao de valente e bem inverossmil (em razo dos fatos da

histria que narro) que no carregue uma ou duas mortes, mas estas, cometidas dentro da ordem, no perturbam sua conscincia nem mancham sua fama. Uma tarde, na

vida pacata desse homem, ocorre um

HISTRIA Do TANGO

fato inslito: na taberna lhe informaram que havia chegado uma carta para ele. Dom Wenceslao no sabe ler; o taberneiro decifra com lentido uma cerimoniosa missiva

que tampouco seria do punho e letra de quem a manda. Em nome de alguns amigos que sabem admirar a destreza e a verdadeira serenidade, um desconhecido cumprimenta

Dom Wenceslao, por sua fama que atravessou o Arrogo del Medio, e oferece-lhe a hospitalidade de sua humilde casa, num povoado de Santa F. Wenceslao Surez dita

ao taberneiro uma resposta; agradece a fineza, explica que no se anima a deixar sozinha sua me, j muito idosa, e convida o outro para vir a Chivilcoy, a seu rancho,

onde no faltaro um churrasco e uns copos de vinho. Passam os meses e um homem num cavalo aperado de modo um tanto diferente do da regio pergunta na taberna onde

fica a casa de Surez. Este, que viera comprar carne, ouve a pergunta e lhe diz quem ; o forasteiro lembra-lhe as cartas escritas h algum tempo. Surez se alegra

que o outro tenha decidido vir; depois os dois vo a um carapinho e Surez prepara o churrasco. Comem e bebem e conversam. Sobre o qu? Suspeito que sobre temas

de sangue, temas brbaros, mas com ateno e prudncia. Almoaram e o pesado calor da sesta desce sobre a terra, quando o forasteiro convida Dom Wenceslao para darem

uns tirinhos. Recusar seria uma desonra. Os dois se provocam e fingem lutar no incio, mas Wenceslao no tarda a sentir que o forasteiro se prope mat-lo. Entende,

por fim, o sentido da carta cerimoniosa e lamenta ter comido e bebido tanto. Sabe que se cansar antes do outro, que ainda um jovem. Com troa ou cortesia, o forasteiro

prope um descanso. Dom Wenceslao aceita, e, quando reatam o duelo, permite ao outro que o fira na mo esquerda, na que traz o poncho, enrolado." O punhal entra

no pulso, a mo fica como morta, pendendo. Surez, com um grande salto, recua, pe a mo ensangentada no cho, pisa-a com a bota, arranca-a,

3 Dessa velha maneira de combater capa e espada, fala Montaigne em seus Ensaios (l, 49) e cita uma passagem de Csar: "Sinistras sagis involvunt, gladiosque ais1?

ingunt-. Lugones, na pgina 54 de E1 Pagador, traz passagem anloga do romance

de Bernardo del Carpio:

Envolvendo o manto no brao, Aespada fora sacar.

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#EVARISTO CARRIEGO

ameaa um golpe no peito do forasteiro e lhe abre o ventre com uma punhalada. Assim acaba a histria, exceto que para algum narrador fica o homem de Santa F no

campo e, para outro (que lhe amesquinha a dignidade de morrer), volta a sua provncia. Nessa ltima verso, Surez usa para o primeiro socorro a aguardente que sobrou

do almoo...

Na gesta do Maneta Wenceslao - agora Surez se chama assim, para a glria -, a brandura ou cortesia de certos traos (o trabalho de tranados, o escrpulo de no

deixar a me sozinha, as duas cartas floridas, a conversa, o almoo) mitigam ou acentuam com felicidade a terrvel fbula; tais traos dolhe carter pico e at

cavalheiresco que no encontraremos, por exemplo, a no ser que resolvamos encontr-lo, nas lutas de bbado do Martn Fierro ou na congnere e mais pobre verso

de Juan Murava e o sulista. Um trao comum s duas talvez significativo. Em ambas, o provocador termina derrotado. Isso pode dever-se mera e miservel necessidade

de que triunfe o campeo local, mas tambm, e assim o preferiramos, a uma tcita condenao do desafio nessas fices hericas ou, e isso seria o melhor, obscura

e trgica convico de que o homem sempre o artfice de sua prpria desdita, como o Ulisses do canto XXVI do Inferno. Emerson, que louvou nas biografias de Plutarco

"um estoicismo que no das escolas, mas do sangue", no teria desdenhado esta histria.

Teramos, pois, homens de pauprrima vida, gachos e suburbanos das regies ribeirinhas do Prata e do Paran, criando, sem sab-lo, uma religio, com sua mitologia

e seus mrtires, a dura e cega religio da coragem, a de estar pronto para matar e para morrer. Essa religio velha como o mundo, mas teria sido redescoberta,

e vivida, nestas repblicas, por pastores, magarefes, tropeiros, prfugos e rufies. Sua msica estaria nos estilos, nas milongas e nos primeiros tangos. Escrevi

que antiga essa religio; em uma saga do sculo XII se l:

"- Diga-me qual sua f - disse o conde.

Creio em minha fora - disse Sigmund."

Wenceslao Surez e seu annimo oponente, e outros que a mitologia esqueceu ou incorporou a eles, professaram sem dvida essa f viril, que bem pode no ser vaidade,

mas a conscincia de que em qualquer homem est Deus.

xi1

DUAS CARTAS

(A publicao de um dos captulos que integram a Historia del Tango valeu a seu autor estas duas cartas, que agora enriquecem o livro.)

C. del Uruguay (E. R.), 27 de janeiro de 1953.

Senhor

Jorge Luis Borges

Li em La Nacin de 28 de dezembro "El desafio".

Em razo do interesse que o senhor manifesta por acontecimentos da natureza do que relata, penso que lhe ser grato conhecer um que meu pai, falecido h muitos anos,

contava, dizendo-se testemunha presencial do mesmo.

Local: a chasqueada "San Jos" de Puerto Ruiz, prximo a Gualeguay, que funcionava sob a orientao da firma Laurencena, Parach e Marc.

poca: por volta dos 6O.

Entre o pessoal da chasqueada, quase exclusivamente formado de vascos, estava um negro de nome Fustel, cuja fama de hbil no manejo do faco havia transposto os

limites da provncia, como o senhor ver.

Um belo dia, chegou a Puerto Ruiz um campons luxuosamente vestido ao estilo da poca: um chirip de merino negro, um calo bordado, leno de seda no pescoo, cinto

coberto de moedas de prata, num bom cavalo aperado regiamente: freio, peitoral, estribos e cabeada de prata, com adornos de ouro, e faco, compondo o conjunto.

Deu-se a conhecer dizendo que vinha da chasqueada "Fray Bentos", onde havia sabido da fama de Fustel, e que, considerando-se muito homem, desejava pr-se prova

com ele.

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#EVARISTO CARRIEGO

Foi fcil coloc-los em contato, e no havendo motivo para nenhum tipo de malquerena, acertou-se o lance para o dia e hora determinados, no mesmo lugar.

No centro de uma grande roda, formada por todo o pessoal da charqueada e vizinhos, comeou a luta, em que ambos os homens demonstravam admirvel destreza.

Depois de longo tempo de luta, o negro Fustel conseguiu tocar seu rival com a ponta do faco na testa, abrindo-lhe uma ferida que, embora pequena, comeou a verter

bastante sangue.

Ao ver-se ferido, o forasteiro jogou o faco e, estendendo a mo a seu adversrio, disse-lhe: "O senhor mais homem, amigo".

Tornaram-se muito bons amigos e, ao se despedirem, trocaram os faces como prova de amizade.

Parece-me que contado por sua prestigiosa pena, este fato, que acredito histrico (meu pai nunca mentiu), poderia servir-lhe para refazer o roteiro de seu filme,

trocando o nome de Los Orilleros por Nobleza Gaucha, ou algo parecido.

Sada-o com especial considerao

ERNESTO T. MARC

Chivilcoy, 28 de dezembro de 1952.

Senhor Jorge Luis Borges, em La Nacin. Com minha distinta considerao:

Ref.: Comentrios a "EI desafo" (28/12/52)

Escrevo esta com propsito de informao e no de retificao, j que o essencial no sofre alterao nenhuma, variando somente algumas formas do fato.

Muitas vezes escutei de meu pai pormenores do duelo que serve de essncia a "El desafo" publicado em La Nacin de hoje. Ele, naquela poca, vivia num campo de sua

propriedade, situado nas proximidades da "Taberna de dona

Hiplita", cuja praia limtrofe foi o cenrio em que se desenrolou o terrvel duelo entre Wenceslao e o campons azulense - o prprio visitante disse a Wenceslao

que vinha de Azul, at onde chegaram os ecos da destreza deste -, que veio para definir posies.

Prximo de uma parva de pasto seco, os rivais comeram, seguramente estudando-se, e quando talvez os nimos esquentaram, veio o convite para um duelo, feito pelo

sulista e aceito no ato pelo nosso.

gil como era o azulense, tornava-se inatingvel para o faco de seu rival, prolongando-se a luta em prejuzo de Wenceslao. De cima da parva, um peo de dona Hiplita,

que tinha fechado a porta de sua taberna por causa do aspecto da questo, presenciava atemorizado as alternativas da luta. Wenceslao, resolvido a obter uma deciso,

descobriu sua guarda, oferecendo o brao esquerdo protegido pelo poncho, a enrolado. O azulense caiu-lhe em cima como um raio, com um terrvel golpao descarregado

sobre o pulso de seu adversrio, ao mesmo tempo que a ponta aguada do faco de Wenceslao lhe atingia um olho. Um alarido selvagem rasgou o silncio do pampa, e

o azulense, em fuga, refugiou-se atrs da slida porta da taberna, enquanto Wenceslao pisava sua mo esquerda, sustentada por uma tira de pele, e de um golpe a separava

do brao, enfiava o coto na abertura da camisa e corria atrs do fugitivo, rugindo como um leo e reclamando sua presena para continuar a luta.

A partir da, Wenceslao passou a ser conhecido como o maneta Wenceslao. Vivia de seu trabalho com os couros. Nunca provocava. Sua presena nas tabernas tornou-se

garantia de paz, pois bastava sua enrgica advertncia, proferida calmamente, com sua voz varonil, para desanimar os briguentos. Dentro dessa pobreza foi um senhor.

Sua vida simples teve transcendncia, porque sua orgulhosa personalidade no tolerou o insulto, nem sequer o desdm, e seu profundo conhecimento das debilidades

humanas o fez duvidar da imparcialidade da justia daquele tempo e, por isso, habituouse a faz-la por si mesmo. Foi a que esteve seu erro, quanto prpria sobrevivncia.

A velhacaria de um gringo obrigou-o a agir e da partiu sua desgraa. Uma numerosa comisso policial integrada por

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#EVARISTO CARRIEGO

civis encurralou-o numa taberna, onde fora procura dos vcios. A luta com arma branca, de cinco contra um, decidia-se vantajosamente para Wenceslao, quando o certeiro

disparo de um civil estendeu para sempre o heri da quadra 13.

O resto exato. Vivia num rancho com sua me. Os vizinhos, entre eles meu pai, ajudaram-no a constru-lo. Nunca roubou.

Aproveito a oportunidade para saudar o talentoso escritor, com expresses de minha admirao e simpatia.

JUAN 13. LAUHIRAT

18O

Este o mal de no dar estampa as obras: passamos a vida a refaz-las.

ALFONso REYES Cuestiones Gongorinas, 6O.

PRLOGO

As pginas compiladas neste livro no pedem maiores esclarecimentos. "A arte narrativa e a magia", "Filmes" e "A postulao da realidade" respondem a cuidados idnticos

e creio mesmo que esto de acordo. "Nossas impossibilidades" no , como disseram alguns, um tosco exerccio de invectiva; um relato reticente e doloroso de certos

aspectos, no muito gloriosos," de nosso ser. "Uma vindicao do falso Basilides" e "Uma vindicao da Cabala" so resignados exerccios de anacronismo: no restituem

o difcil passado - interagem e divagam com ele. "A durao do Inferno" revela meu incrdulo e persistente pendor pelas dificuldades teolgicas. O mesmo ocorre com

"A penltima verso da realidade". "Paul Groussae" a pgina mais dispensvel do volume. A que tem por ttulo "O outro Whitman" omite voluntariamente o fervor que

seu tema sempre me inspirou; lamento no ter dado um pouco mais de destaque s numerosas invenes retricas do poeta, certamente mais imitadas e mais belas que

as de Mallarm ou as de Swinburne. "A perptua corrida de Aquiles e da tartaruga" no solicita outra virtude que a de sua profuso de dados. "As verses homricas"

so minhas primeiras letras - que no creio um dia ascendam a segundas - de helenista divinatrio.

Vida e morte faltaram minha vida. Dessa indigncia, meu laborioso amor por estas mincias. No sei se a desculpa da epgrafe vai me valer.

Buenos Aires, 1932.

7 O artigo, que agora pareceria muito fraco, no figura nesta reedio. (Nota de 1955.)

185

A POESIA GAUCHESCA

fama que ao perguntarem a Whistler quanto tempo lhe fora necessrio para pintar um de seus noturnos, ele respondeu: "A vida toda". Com o mesmo rigor ele poderia

ter dito que necessitara de todos os sculos que precederam o momento em que o pintou. Dessa correta aplicao da lei da causalidade segue-se que o menor dos fatos

pressupe o inconcebvel universo e, inversamente, que o universo necessita do menor dos fatos. Pesquisar as causas de um fenmeno, mesmo de um fenmeno to simples

como a literatura gauchesca, avanar no infinito; limito-me a mencionar as duas causas que considero principais.

Os que me precederam neste labor restringiram-se a uma: a vida pastoril que era tpica das coxilhas e do pampa. Essa causa, sem dvida apta amplificao oratria

e digresso pinturesca, insuficiente; a vida pastoril foi tpica de muitas regies da Amrica, de Montava e Oregon, at o Chile, mas esses territrios, at agora,

abstiveram-se energicamente de redigir El Gaucho Martn Fierro. No bastam, pois, o rude pastor e o deserto. O cowboy, apesar dos livros documentais de Will James

e do insistente cinema, pesa menos na literatura de seu pas que os camponeses do Midde West ou os homens negros do Sul... Derivar a literatura gauchesca de sua

matria, o gacho, um engano que desfigura a notria verdade. No menos necessrio para a formao desse gnero do que o pampa e as coxilhas foi o carter urbano

de Buenos Aires e Montevidu. As guerras da Independncia, a guerra do Brasil, as guerras anrquicas fizeram com que homens de cultura civil se identificassem com

a gaucharia; da fortuita conjuno desses dois estilos vitais, do assombro que um causou no outro, nasceu a literatura gauchesca. Insultar (alguns o fize

187

#Dis cusso

ram) juan Cruz Varela ou Francisco Acuna de Figueroa por no terem exercido, ou inventado, essa literatura, uma tolice; sem as humanidades que suas odes e parfrases

representam, Martn Fierro no teria assassinado, numa taberna de fronteira, cinqenta anos depois, o Moreno. To vasta e incalculvel a arte, to secreto seu

jogo. Tachar a literatura gauchesca de artificial ou de inverdica por no ser obra de gachos pedante e ridculo; no entanto, no h cultor desse gnero que algum

dia no tenha sido, por sua gerao ou pelas vindouras, acusado de falsidade. Assim, para Lugones, o Aniceto de Ascasubi " um pobre-diabo, mescla de filosofastro

e de farsista"; para Vicente Rossi, os protagonistas do Fausto so "dois camponeses ladinos e embusteiros"; Vizcacha, "um velho mensalista, manaco"; Fierro, "um

frade federal partidrio de Oribe de barba e chirip". Estas definies, naturalmente, so meras curiosidades da invectiva; sua frgil e remota justificativa que

todo gacho da literatura (todo personagem da literatura) , de alguma forma, o literato que o inventou. J se repetiu que os heris de Shakespeare so independentes

de Shakespeare; para Bernard Shaw, no entanto, "Macbeth a tragdia do homem de letras moderno, como assassino e cliente de bruxas"... Sobre a maior ou menor autenticidade

dos gachos escritos, cabe observar, talvez, que para quase todos ns o gacho um objeto ideal, prototpico. Da, o dilema: se a figura que o autor nos prope

se ajusta com rigor a esse prottipo, ns a julgamos batida e convencional; se difere, sentimo-nos logrados e defraudados. Veremos depois que de todos os heris

dessa poesia Fierro o mais individual, o que menos responde a uma tradio. A arte sempre opta pelo individual, pelo concreto; a arte no platnica.

Passo, agora, ao exame sucessivo dos poetas.

O iniciador, o Ado, Bartolom Hidalgo, montevideano. A circunstncia de em 181O ele ter sido barbeiro, ao que parece, fascinou a crtica; Lugones, que o reprova,

estampa a voz "rapabarbas"; Rojas, que o considera, no se resigna a prescindir de "rapista". Transforma-o, de uma nica penada, num cantador, e descreve-o de forma

ascendente, com profuso de traos minuciosos e imaginrios: "vestido o chirip sobre o calo aberto em crivos; caladas as esporas na bota surrada

A POESIA GAUCHESCA

cio cavaleiro gacho; aberta sobre o peito a camisa escura, inflada pelo vento dos pampas, a aba do chapu erguida sobre a testa, como se estivesse sempre galopando

a terra natal; a cara barbuda realada por seu olho habituado ao campear da imensido e da glria". Muito mais memorveis que essas licenas da iconografia e da

alfaiataria me parecem duas circunstncias, tambm registradas por Rojas: o fato de que Hidalgo foi um soldado, o fato de que, antes de inventar o capataz Jacinto

Chano e o gacho Ramn Contreras, foi prdigo - disciplina singular num cantador - em sonetos e odes hendecasslabas. Carlos Roxlo julga que as composies rurais

de Hidalgo "ainda no foram superadas por nenhum dos que se distinguiram, imitando-o". Eu penso o contrrio; penso que ele foi superado por muitos e que seus dilogos,

agora, beiram o esquecimento. Penso tambm que sua paradoxal glria est nessa vasta e diversa superao filial. Hidalgo sobrevive nos outros, Hidalgo , de algum

modo, os outros. Em minha breve experincia de narrador, comprovei que saber como um personagem fala saber quem ele , que descobrir uma entonao, uma voz, uma

sintaxe peculiar, ter descoberto um destino. Bartolom Hidalgo descobre a entonao do gacho; isso no pouco. No repetirei linhas suas; inevitavelmente incorreramos

no anacronismo de conden-las, usando como cnone as de seus famosos seguidores. Lembrarei apenas que nas melodias alheias que ouviremos est a voz de Hidalgo, imortal,

secreta e modesta.

Hidalgo faleceu obscuramente de uma doena pulmonar, no vilarejo de Morn, em 1823. Por volta de 1841, em Montevidu, desandou a cantar, multiplicado em insolentes

pseudnimos, o cordobs Hilario Ascasubi. O futuro no foi piedoso com ele, nem mesmo justo.

Ascasubi, em vida, foi o "Branger do Rio da Prata"; morto, um precursor apagado de Hernndez. Ambas as definies, como vemos, traduzem-no em mero rascunho -

errneo tanto no tempo como no espao - de outro destino humano. A primeira, a contempornea, no lhe fez mal: aos que a apadrinharam no faltou uma noo direta

de quem era Ascasubi, e uma notcia suficiente de quem era o francs; agora, os dois conhecimentos raleiam. A glria honesta de

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#DISCUSSO

Branger declinou, embora ele ainda disponha de trs colunas na Encyclopaedia Britannica, assinadas por ningum menos que Stevenson; e a de Ascasubi... A segunda,

a de premonio ou anncio do Martn Fierro, uma insensatez: a semelhana das duas obras acidental, nula a de seus propsitos. O motivo dessa atribuio equivocada

curioso. Esgotada a edio princeps de Ascasubi de 1872 e rarssima em livrarias a de 19OO, a editora La Cultura Argentina quis oferecer ao pblico algumas de

suas obras. Por motivos de extenso e seriedade escolheram o Santos Vega, impenetrvel sucesso de treze mil versos de sempre empreendida e sempre adiada leitura.

As pessoas, entediadas, afugentadas, tiveram de recorrer a esse respeitoso sinnimo da incapacidade meritria: o conceito de precursor. Imagin-lo precursor de seu

declarado discpulo, Estanislao del Campo, era evidente demais; resolveram aparent-lo com Jos Hernndez. O projeto sofria desse mal, que abordaremos adiante: a

superioridade do precursor, nessas poucas pginas ocasionais - as descries do amanhecer, do ataque indgena - cujo tema o mesmo. Ningum se demorou nesse paradoxo,

ningum passou desta comprovao evidente: a costumeira inferioridade de Ascasubi. (Escrevo com um pouco de remorso: um dos distrados fui eu, em certa considerao

intil sobre Ascasubi.) Uma ligeira meditao, no entanto, teria demonstrado que, bem postulados os objetivos dos dois escritores, era de prever uma freqente superioridade

parcial de Aniceto. Qual era o objetivo de Hernndez? Um, limitadssimo: a histria do destino de Martn Fierro, narrada pelo prprio. No intumos os fatos, mas

o campons Martn Fierro contando-os. Da que a omisso, ou atenuao da cor local, seja tpica de Hernndez. No especifica dia e noite, ou o plo dos cavalos:

afetao que em nossa literatura de criadores de gado tem correlao com a mania britnica de especificar os aparelhos, os roteiros e as manobras, em sua literatura

do mar, pampa dos ingleses. No silencia a realidade, mas refere-se a ela apenas em funo do carter do heri. (Como faz, no ambiente marinheiro, Joseph Conrad.)

Assim, as muitas danas que necessariamente figuram em seu relato nunca so descritas. Ascasubi, por sua vez, prope a intuio direta da dana, do jogo descontnuo

dos corpos que comeam a se entender (Paulino Lucero, pg. 2O4):

A POESIA GAUCHESCA

Depois tirou a parceira fuana Rosa, pra danar, e largaram a cadenciar meia-canha e canha inteira. Ah, morena! as cadeiras

do seu corpo se esquivavam, e tanto o negaceava nos requebros que fazia, que meio que se perdia quando Lueero adentrava.

E esta outra dcima, vistosa como baralho novo (Aniceto el Gallo, pg. 176):

Olha Pilar, a Portenha

linda de nossa campanha, danando a meia-canha: vejam como desempenha

e a graa com que desdenha os avanos do gauchito, que sem soltar o ponehito com sua mo na cintura, lhe fala nessa postura: minh"alma, eu sou compadrito!

esclarecedor tambm o cotejo da notcia dos ataques indgenas que h no Martn Fierro com a imediata apresentao de Ascasubi. Hernndez (La Vuelta, canto quarto)

quer destacar o horror judicioso de Fierro diante da desatinada depredao; Ascasubi (Santos Vega, XIII), as lguas de ndios que investem:

Mas quando vem a Indiada d pra sentir, pois na raia do campo corre a alimria escapando assustada, e cercados na malhada vm os cachorros-do-mato, raposas, emas,

lees, gamas, lebres e veados cruzando atribulados por entre as povoaes.

19O

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#DISCUSSO

E ento os ovelheiros coleando bravos toureiam e tambm revoluteiam gritando os tero-teros; mas, claro, os primeiros que anunciam a agitao com inteira preciso

quando os puelches avanam so os tas, que ento lanam voando: ta! ta!

E atrs das madrigueiras

que os selvagens espantam, campo afora se levantam como nuvens, as poeiras grvidas todas inteiras de puelches descabelados

que em trote largo apressados, sobre os potros estendidos investem soltando gritos e em meia-lua formados.

O cnico outra vez, outra vez o prazer da contemplao. Nessa tendncia est para mim a singularidade de Ascasubi, no nas virtudes de sua ira unitria, destacada

por Oyuela e por Rojas. Este (Obras, 1X, pg. 671) imagina o desgosto que seus versos brbaros causaram, sem dvida, em Dom Juan Manuel e lembra o assassinato, na

praa sitiada de Montevidu, de Florencio Varela. O caso incomparvel: Varela, fundador e redator de El Comercio del Plata, era uma pessoa internacionalmente visvel;

Ascasubi, cantador incessante, limitava-se a improvisar os versos caseiros do lento e vivo truco do cerco.

Ascasubi, na blica Montevidu, cantou um dio feliz. O facit indignado versum de Juvenal no nos revela a razo de seu estilo; cortante ao extremo, mas to desaforado

e vontade nas injrias que mais parece uma diverso e uma festa, um gosto de provocar. o que deixa entrever uma suficiente dcima de 1849 (Paulino Lucero, pg.

336):

Senhor patro, a est

essa carta, uma flor! com que ao Restaurador eu daqui retruco j.

Se a leres vais encontrar no remate do papel

coisas que tambm do lu para ele se alegrar; porque a bem da verdade

gacho o dom Juan Manuel.

Mas contra esse mesmo Rosas, to gacho, mobiliza danas que parecem evolucionar como exrcitos. Deixemos serpear e ressoar novamente este primeiro giro de sua meiacanha

do campo, para os livres:

O potro que em dez anos

ningum no encilhou,

dom Frutos em Cagancha

sem mais o cavalgou, e durante a batida transmitiu-lhe um rigor que no tem nem medida!

Amai, minha vida - os Orientais

que so domadores - sem dificuldades.

Que viva Rivera! Que viva Lavalle!

E arrimo a Rosas... que ele no desmaie. Meia-canha, em campanha, canha inteira, como queira.

E vamos a Entre Rios, que l est Badana,

pra ver se danamos esta Meia-Canha:

que l est Lavalle tocando o violo,

e dom Frutos quer dan-la at a concluso. Os de Cagancha se afinam com o diabo em qualquer cancha.

A POESIA GAUCHESCA

192

193

#DISCUSSO

Transcrevo, tambm, esta combativa felicidade (Paulino Lucero, pg. 58):

V ld um delito raivoso coisa boa se h ensejo e o homem s desejo

de se entreter com balaos.

Coragem florida, gosto por cores lmpidas e objetos precisos podem definir Ascasubi. Assim, no incio do Santos Vega:

Ia o tal de plo a plo

em um potrinho bragado, flete lindo como um dado, roando o solo com zelo de to ligeiro e delgado.

E esta meno a uma figura (Aniceto el Gallo, pg. 147):

Olha a estampa do Gallo segurando a bandeira dessa Ptria verdadeira do Vinte e cinco de Maio.

Ascasubi, em La Refalosa, apresenta o pnico normal dos homens prestes a serem degolados; mas evidentes razes de data lhe vetaram o anacronismo de praticar a nica

inveno literria da guerra de mil novecentos e catorze: o pattico tratamento do medo. Essa inveno - paradoxalmente preludiada por Rudyard Kipling, tratada depois

com delicadeza por Sheriff e com boa insistncia jornalstica pelo concorrido Remarque - ficava fora de mo para os homens de mil oitocentos e cinqenta.

Ascasubi lutou em Ituzaing, defendeu as trincheiras de Montevidu, lutou em Cepeda, e registrou em versos resplandecentes seus dias. No h em suas linhas o empuxo

do destino que h no Martn Fierro; h essa despreocupada, dura inocncia dos homens de ao, hspedes contnuos da aventura, nunca do assombro. H tambm sua boa

audcia, porque seu destino era a guitarra insolente do compadrito e os

A POESIA GAUCHESCA

foges da tropa. H ainda (virtude correlata desse vcio e tambm popular) a felicidade prosdica: o verso ftil cuja entonao, apenas, j o faz funcionar.

Dos muitos pseudnimos de Ascasubi, Aniceto el Gallo foi o mais conhecido; talvez o menos feliz, tambm. Estanislao del Campo, que o imitava, escolheu o de Anastasio

el Pollo. Esse nome ficou vinculado a uma obra celebrrima: o Fausto. A origem desse afortunado exerccio conhecida; Groussac, no sem certa perfdia inevitvel,

assim a referiu: "Estanislao del Campo, oficial superior do governo provincial, tinha j muitos expedientes despachados sem grande alarde em versos de todo metro

e jaez, quando em agosto de 66, assistindo a uma exibio do Fausto de Gounod no Coln, lhe ocorreu imaginar, entre os espectadores do paraso, o gacho Anastasio,

que depois contava a um companheiro suas impresses, interpretando a seu modo as fantsticas cenas. Fazendo certa vista grossa ao argumento, a pardia resultava

divertidssima, e lembro que eu mesmo festejei na Revista Argentina a reduo para guitarra da aplaudida partitura... Tudo concorria para o sucesso; a extraordinria

voga da pera, recm-estreada em Buenos Aires; o vis cmico do "pato" entre o diabo e o doutor, que, assim parodiado, fazia o drama retornar, passando por alto

pelo poema de Goethe, a suas origens populares e medievais; o ritornelo fcil das redondilhas, em que o trmulo sentimental se alternava habilmente com punhados

de sal grosso; por fim, naqueles anos de crioulismo triunfante, o sabor de mate chimarro do dilogo gauchesco, em que o filho do pampa folgava vontade, se no

como jamais o fizera na realidade, pelo menos como o haviam composto e "convencionado" cinqenta anos de m literatura".

At aqui, Groussac. Ningum ignora que este douto escritor pensava que o desdm fosse obrigatrio ao tratar com meros sul-americanos; no caso de Estanislao del Campo

(a quem, imediatamente depois, chama de "cantador de gabinete"), acrescenta a esse desdm uma impostura ou, pelo menos, uma omisso da verdade. Perfidamente o define

como funcionrio pblico; minuciosamente esquece que lutou no cerco de Buenos Aires, na batalha de Cepeda, em Pavn e na revoluo de 74. Um de meus avs, unitrio,

que militou com ele, costumava lembrar que Del Campo vestia o uniforme de

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195

#Discusso

gala para entrar na batalha e que saudou, a mo direita no quepe, as primeiras balas de Pavn.

O Fausto foi julgado de modos muito diversos. Calixto Oyuela, nem um pouco generoso com os escritores gauchescos, qualificou-o de jia. E um poema que, como os primitivos,

podia prescindir da imprensa, por viver em muitas memrias. Singularmente, em memrias de mulheres. Isso no implica uma censura; h escritores de valor inquestionvel

- Marcel Proust, D. H. Lawrence, Virgnia Woolf - que costumam agradar mais s mulheres do que aos homens... Os detratores do Fausto acusam-no de ignorncia e de

falsidade. At o plo do cavalo do heri foi examinado e reprovado. Em 1896, Rafael Hernndez - irmo de Jos Hernndez - anota: "Esse parelheiro de cor oveiro

rosado, justamente a cor que um pare~ lheiro jamais teve, e consegui-la seria to raro como encontrar um gato de trs cores"; em 1916, Lugones confirma: "Nenhum

crioulo ginete e garboso, como o protagonista, monta em cavalo oveiro rosado: um animal sempre depreciado, cujo destino puxar o balde nas estncias ou servir de

montaria aos moos mandadeiros". Tambm foram condenados os ltimos versos da famosa dcima inicial:

Capaz de levar um potro A sofre-lo na lua.

Rafael Hernndez observa que no potro no se pe freio, mas bocal, e que sofrear o cavalo "no prprio de crioulo ginete, mas de gringo raivoso". Lugones confirma,

ou transcreve: "Nenhum gacho segura o cavalo, sofreando-o. Esta uma crioulada falsa de gringo fanfarro, que anda gineteando a gua de sua jardineira".

Eu me declaro indigno de terar nessas controvrsias rurais; sou mais ignorante que o reprovado Estanislao del Campo. Atrevo-me apenas a confessar que, embora os

gachos de mais firme ortodoxia menosprezem o plo oveiro rosado, o verso

En un overo rosco

continua - misteriosamente - me agradando. Tambm censurou-se que um rstico pudesse compreender e narrar o

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argumento de uma pera. Os que fazem isso esquecem que toda arte convencional; tambm o o repente biogrfico de Martn Fierro.

Passam as circunstncias, passam os fatos, passa a erudio dos homens versados no plo dos cavalos; o que no passa, o que talvez seja inesgotvel, o prazer que

nos d a contemplao da felicidade e da amizade. Esse prazer, talvez no menos raro nas letras que neste mundo corporal de nossos destinos, a meu ver a virtude

central do poema. Muitos louvaram as descries do amanhecer, do pampa e do anoitecer que o Fausto apresenta; tenho para mim que a meno preliminar dos bastidores

cnicos contaminou-as de falsidade. O essencial o dilogo, a clara amizade que transparece no dilogo. O Fausto no pertence realidade argentina, mas - como

o tango, como o truco, como Irigoyen - mitologia argentina.

Mais prximo de Ascasubi que de Estanislao del Campo, mais prximo de Hernndez que de Ascasubi, est o autor que passo a considerar: Antonio Lussich. Que eu saiba,

s circulam duas menes a sua obra, ambas insuficientes. Copio na ntegra a primeira, que bastou para incitar minha curiosidade. E de Lugones e figura na pgina

189 de El Pagador.

"Dom Antonio Lussich, que acabava de escrever um livro elogiado por Hernndez, Los Tres Cauchos Orientales, pondo em cena tipos gachos da revoluo uruguaia chamada

campanha de Aparicio, deu-lhe, ao que parece, o oportuno estmulo. O envio dessa obra a Hernndez resultou na feliz idia. A obra do senhor Lussich apareceu editada

em Buenos Aires pela grfica da Tribuna em 14 de junho de 1872. A carta com que Hernndez cumprimentou Lussich, agradecendo-lhe o envio do livro, de 2O do mesmo

ms e ano. Martn Fierro apareceu em dezembro. Galhardos e geralmente apropriados linguagem e peculiaridades do campons, os versos do senhor Lussich formavam

quadras, redondilhas, dcimas e tambm aquelas sextilhas de cantador que Hernndez devia adotar como as mais tpicas."

O elogio considervel, principalmente se levarmos em conta o propsito nacionalista de Lugones, que era exaltar o Martn Fierro, e sua reprovao incondicional

de Bartolom Hidalgo, de Ascasubi, de Estanislao del Campo, de Ricardo

A POESIA GAUCHESCA

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#DISCUSSo

A POESIA GAUCHESCA

Gutirrez, de Echeverra. A outra meno, incomparvel em reserva e extenso, aparece na Historia Crtica de la Literatura Uruguaya, de Carlos Roxlo. "A musa" de

Lussich, lemos na pgina 242 do segundo tomo, " excessivamente desalinhada e vive num calabouo de prosasmos; suas descries carecem de luminosa e pitoresca policromia".

O maior interesse da obra de Lussich sua evidente antecipao do imediato e posterior Martn Fierro. A obra de Lussich profetiza, ainda que de modo espordico,

os traos diferenciais do Martn Fierro; bem verdade que a convivncia com este ltimo lhes d um relevo extraordinrio que no texto original talvez no possuam.

O livro de Lussich, em princpio, menos uma profecia do Martn Fierro que uma repetio dos colquios de Ramn Contreras e Chano. Entre amargo e amargo, trs veteranos

contam suas batalhas pela ptria. O procedimento o habitual, mas os homens de Lussich no se prendem notcia histrica e contam muitas passagens autobiogrficas.

Essas freqentes digresses de ordem pessoal e pattica, ignoradas por Hidalgo ou por Ascasubi, so as que prefiguram o Martn Fierro, seja na entonao, nos fatos

ou nas prprias palavras.

Serei generoso nas citaes, pois comprovei que a obra de Lussich , virtualmente, indita.

E como primeira transcrio, vai o desafio destas dcimas:

Mas me chamam marginal Porque eu fujo da espada, Pois o toque da alvorada Na orelha me soa mal; Sou livre como o pampeiro E sempre livre eu vivi. Fui livre quando

do ventre De minha me eu sa

Sem outro co que me espante Que o destino que segui...

Meu faco tem uma folha Com um letreiro no envesso Que diz: quando eu apareo pra que a gente se encolha.

Meu cinturo s afrouxa Ao dispor de minha sorte, Com ele eu sempre fui forte E altivo como um leo; No me salta o corao Nem tenho medo da morte.

Sou robusto boleador,

Enlao lindo e com gosto; Eu lano as bolas to justo Que mais que acerto primor. No se encontra outro melhor Pra rebolear uma lana, famosa minha pujana,

Minha bravura, e forte e duro Meu sabre com o rude impulso Eita! se no faz matana!

Outros exemplos, desta vez com sua correspondncia imediata ou conjeturai:

Diz Lussich:

Eu tive ovelhas, fazenda; Cavalos, mangueira e herdade; Era feliz de verdade Mas me cortaram as rdeas!

Rinco, malhada e querncia Voaram com a campanha, E at a velha choupana

Que caiu... na minha ausncia!

Tudo me levou a guerra

E o rastro do que se foi

o que encontrarei depois Quando voltar a minha terra.

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#DISCUSSAO

A POESIA %AUCHESCA

Dir Hernndez:

Tive no meu pago um tempo Filhos, fazenda e consorte Mas comeou a m sorte, Me jogaram na fronteira E ao voltar o que encontrei? S a Tapera inteira.

Diz Lussich:

Me mandei com todo o apego,

Rico e de eoscs o freio, Rdeas novas pro campeio Tranadas com todo esmero; Uma carona de couro De vaca, e bem curtida; At uma manta fornida

Eu trouxe entre os meus trens,

E embora o chapeado no fosse bom pra Montei o pingo em seguida.

Virei meu bolso do avesso Porque nunca fui tacanho: Usava um poncho de pano Que chegava ao tornozelo E um coxinilho bem concho Pra descansar o esqueleto; Eu quis

passar a tormenta De fome e frio ao amparo Sem deixar dos meus aperos Nem argola ferrugenta.

As excelentes esporas,

Meu rebenque com virolas, Rico faco, boas bolas, Peia e cabresto na mo. Deixei no meu cinturo Dez pesos de prata branca

Pra juntar-me a qualquer banca

vaivns,

Pois s cartas tenho apego, E presumo que no jogo

A minha mo no manca.

Copas, correias, bual, Estribos e cabeadas

Com nossas armas bordadas, Da grande Banda Oriental. Nunca mais vi sela igual To companheira e paquete Caramba! em cima do flete Aquilo era como um cu. Mas pra

que me lembrar dele Se j foi pro belelu?

Montei um pingo de cincerro Como uma luz de ligeiro Eita, se prum entrevero Era coisa superior! Seu corpo dava calor E a ferragem que levava Como uma lua brilhava

Ao sair detrs da lomba. Com orgulho, e no broma, Em seu lombo eu montava.

Dir Hernndez:

Levei um mouro de nmero Sobresselente o diacho! Ganhei com ele em Ayacucho Mais prata do que gua benta. O gacho sempre alenta

Um pingo pra fiar-lhe um pueho.

E avancei sem mais rodeios Com os trens que possua; Xergas, poncho, o que havia Em minha casa apanhei. Minha china eu deixei Meio nua nesse dia.

2OO

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#DISCUSSO

No me faltava uma guasca; ou novembro de 1872,

Nesse ento juntei o resto:

Bual, loco e cabresto,

Lao, bolas e maneia.

Talvez do fato descreia

Quem hoje me v modesto!

Diz Lussich:

E h de sobrar monte ou serra

Que em sua guarida me acolha,

Pois onde a fera se acoita,

Tambm o homem se encerra.

Dir Hernndez:

Assim que ao cair da noite

Ia buscar minha guarida.

Pois onde o tigre se acoita

Tambm o homem pernoita,

E nas casas no queria

Que me cercasse a guerrilha.

Percebe-se que, em outubro

Hernndez estava tout sonore encore dos versos que em junho do mesmo ano o amigo Lussich lhe dedicou. Vamos perceber tambm a conciso do estilo de Hernndez, e

sua ingenuidade voluntria. Quando Fierro enumera: Filhos, fazenda e consorte, ou exclama, depois de mencionar uns tentos:

Talvez do fato descreia Quem hoje me v modesto!

sabe que os leitores urbanos no vo deixar de agradecer essas simplicidades. Lussich, mais espontneo ou estouvado, nunca procede desse modo. Suas ansiedades literrias

eram de outra ordem, e costumavam acabar em imitaes das ternuras mais insidiosas do Fausto:

A POESIA GAUCHESCA

Eu tive um nardo uma vez

E o acariciava tanto

Que seu purssimo encanto Perdurou por mais de um ms.

Mas, ai! uma hora de olvido Secou at a ltima folha. Assim tambm se desfolha A iluso de um bem perdido.

Na segunda parte, que de 1873, essas imitaes se alternam com outras fac-similares do Martn Fierro, como se Dom Antonio Lussich reclamasse o que era seu.

So desnecessrias outras confrontaes. Bastam as anteriores, creio, para justificar esta concluso: os dilogos de Lussich so um rascunho do livro definitivo

de Hernndez. Um rascunho descomedido, lnguido, ocasional, mas til e proftico.

Chego agora obra mxima: o Martn Fierro.

Desconfio que no existe outro livro argentino que tenha sabido provocar na crtica um tal dispndio de inutilidades. Trs profuses teve o erro com nosso Martn

Fierro: uma, as admiraes condescendentes; outra, os elogios grosseiros, ilimitados; outra, a digresso histrica ou filolgica. A primeira a tradicional: seu

prottipo est na incompetncia benvola dos pequenos artigos de jornal e das cartas de leitores que usurpam o caderno da edio popular, e seus seguidores so insignes.

Depreciadores inconscientes do que elogiam, nunca deixam de celebrar no Martn Fierro a falta de retrica: palavra que lhes serve para nomear a retrica deficiente

- como se utilizassem arquitetura para significar a intemprie, os desmoronamentos e as demolies. Imaginam que um livro pode no pertencer s letras: o Martn

Fierro lhes agrada contra a arte e contra a inteligncia. Todo o resultado de seu trabalho cabe nestas linhas de Rojas: "Seria o mesmo que repudiar o arrulho da

pomba por no ser um madrigal, ou a cano do vento, uma ode. Assn este pitoresco poema ser considerado na rusticidade de sua forma e na ingenuidade de seu fundo

como uma voz elementar da natureza".

2O2

2O3

#DISCUSSO

A segunda - a do elogio hiperblico - s realizou at hoje o sacrifcio intil de seus "precursores" e um nivelamento forado com o Cantar del Cid e com a Comdia

dantesca. Ao falar do coronel Ascasubi, discuti a primeira dessas atividades; da segunda, limito-me a referir que seu perseverante mtodo o de pesquisar versos

de p-quebrado ou ingratos nas epopias antigas - como se as afinidades no erro fossem probatrias. Alm disso, toda essa laboriosa manobra deriva de uma superstio:

pressupor que determinados gneros literrios (neste caso particular, a epopia) valem formalmente mais do que outros. A extravagante e inocente necessidade de que

o Martn Fierro seja pico pretendeu reduzir, ainda que de modo simblico, a histria secular da ptria, com suas geraes, seus desterros, suas agonias, suas batalhas

de Tucumn e de Ituzaing, s andanas de um homem da faca de mil oitocentos e setenta. Oyuela

(Antologia Potica Hispanoamericana, tomo terceiro, notas) j desbaratou esse complot. "O assunto do Martn Fierro", assinala, "no propriamente nacional, muito

menos de raa, nem se relaciona de modo algum com nossas origens como povo, nem como nao politicamente constituda. Trata-se nele das dolorosas vicissitudes da

vida de um gacho, no ltimo tero do sculo anterior, na poca da decadncia e prximo desaparecimento deste nosso tipo local e transitrio, diante de uma organizao

social que o aniquila, contadas ou cantadas pelo prprio protagonista".

A terceira distrai com melhores tentaes. Afirma com erro sutil, por exemplo, que o Martn Fierro uma apresentao do pampa. O fato que para os homens da cidade

o campo s pode ser apresentado como um descobrimento gradual, como uma srie de experincias possveis. o procedimento dos romances de aprendizado pampiano, The

Purple Land (1885), de Hudson, e Don Segundo Sombra (1926),

de Giraldes, cujos protagonistas vo pouco a pouco se identificando com o campo. No o procedimento de Hernndez, que pressupe deliberadamente o pampa e os hbitos

dirios do pampa, sem nunca detalh-los - omisso verossmil num gacho, que fala para outros gachos. Algum poder oporme estes versos, e os que os precedem:

A POESIA GAUCHESCA

Eu conheci esta terra

Na qual o campnio vivia E um ranchinho possua, E seus filhos e mulher. Era uma delcia ver Como passava seus dias.

O tema, a meu ver, no a miservel idade de ouro que poderamos entrever; a destituio do narrador, sua nostalgia presente.

Rojas s deixa lugar no futuro para o estudo filolgico do poema - vale dizer, para uma discusso melanclica sobre a palavra cantra ou contramilla, mais adequada

infinita durao do Inferno que ao tempo relativamente curto de nossa vida. Nesse particular, como em todos os outros, uma deliberada subordinao da cor local

tpica de Martn Fierro. Comparado ao dos "precursores", seu lxico parece evitar os traos diferenciais da linguagem do campo, e solicitar o sermo plebeius comum.

Lembro-me de que quando menino surpreendeu-me sua simplicidade, e que me pareceu mais de compadre crioulo do que de campons. O Fausto era minha norma de fala rural.

Agora - com algum conhecimento do campo - o predomnio do soberbo homem da faca de taberna sobre o campons reservado e solcito me parece evidente, no tanto pelo

lxic empregado, mas pelas repetidas bravatas e o tom agressivo.

Outro recurso para descurar o poema oferecido pelos provrbios. Essas lstimas - como as qualifica definitivamente Lugones - foram consideradas, mais de uma vez,

parte substantiva do livro. Inferir a tica do Martn Fierro no dos destinos que apresenta, mas dos mecnicos chocarreiros hereditrios que estorvam seu decurso,

ou das moralidades forneas que aparecem no eplogo, uma distrao que s o respeito tradio pode ter recomendado. Prefiro ver nessas prdicas meras verossimilhanas

ou marcas do estilo direto. Acreditar em seu valor nominal obrigar-se infinitamente contradio. Assim, no canto stimo de "La ida" encontramos esta copla que

define plenamente o campons:

2O4

2O5

#DISCUSSO

Limpei o faco no pasto, Desatei meu redomo, Montei devagar, e fui No tranco pro canhado.

No preciso restaurar a cena perdurvel: o homem, resignado, acaba de matar algum. O mesmo homem que depois quer nos servir esta moralidade:

O sangue que se derrama No se esquece at a morte. A impresso de tal sorte Que pra meu pesar, no nego, Cai como gotas de fogo Na alma de quem o verte.

A verdadeira tica do crioulo est no relato: a que presume que o sangue derramado no muito memorvel, e que aos homens ocorre matar. (O ingls conhece a locuo

kill his man, cuja verso direta matar seu homem, entenda-se matar o homem

que todo homem tem que matar.) Quem, em minha poca, no carregava uma morte, ouvi um senhor de idade queixar-se serenamente uma tarde. Tambm no me esquecerei

do homem do arrabalde que me disse, bem srio: "Senhor Borges, posso ter estado na priso muitas vezes, mas sempre foi por homicdi".

Assim aporto, por eliminao dos percalos tradicionais, a uma considerao direta do poema. Desde o verso decidido que o inaugura, quase todo ele est em primeira

pessoa: considero este fato capital. Fierro conta sua histria a partir da plena idade viril, tempo em que o homem , no tempo dcil em que a vida est sua procura.

Isso nos ilude um pouco: no em vo somos leitores de Dickens, inventor da infncia, e preferimos a morfologia dos personagens a sua maturidade. Gostaramos de saber

como se chega a ser Martn Fierro...

Qual a inteno de Hernndez? Contar a histria de Martn Fierro, e nessa histria, seu carter. Servem de prova todos os episdios do livro. O qualquer tempo passado,

normalmente melhor, do canto segundo, a verdade do sentimento do heri, no da desolada vida das estncias no tempo de Rosas. A robusta luta com o negro, no canto

stimo, no cor

."~ POESIA GAUCHESCA

responde nem sensao de lutar nem s momentneas luzes e sombras que a memria de um fato rende, mas ao gacho Martn Fierro contando-a. (Na guitarra, como costumava

cant-la a meia voz Ricardo Giraldes, o esporeio do acompanhamento sublinha bem sua inteno de triste coragem.) Tudo o corrobora: limito-me a destacar algumas

estrofes. Comeo por esta comunicao total de um destino:

Um italianinho preso Sempre falava de um barco E o afogaram num charco Como causador da peste. Tinha os olhos celestes Como um potrinho zarco.

Entre as muitas circunstncias infelizes - atrocidade e inutilidade dessa morte, lembrana verossmil do barco, estranheza de que venha a se afogar no pampa quem

atravessou ileso o mar -, a eficcia mxima da estrofe est nessa psdata ou adio pattica da lembrana: tinha os olhos celestes comoum potrinho zarco, to significativa

de quem imagina que uma coisa j est contada e qual a memria restitui mais uma imagem.

Tambm no em vo que estas linhas assumem a primeira pessoa:

De joelhos a seu lado Encomendei-o a Jesus. Faltou aos meus olhos luz, Tive um terrvel desmaio. Como por obra de um raio Ca ao ver morto o Cruz.

Quando viu Cruz morto, Fierro, por um pudor do desgosto, d por consumado o falecimento do companheiro, finge t-lo mostrado.

Essa postulao de uma realidade me parece significativa de todo o livro. Seu tema - repito - no a impossvel apresentao de todos os fatos que atravessaram

a conscincia de um homem, tampouco a desfigurada, mnima parte que deles

2O6

2O7

#DISCUSSO

a lembrana pode resgatar, mas a narrao do campons, o homem que se mostra ao contar. O projeto comporta assim uma dupla inveno: a dos episdios e a dos sentimentos

do heri, estes ltimos retrospectivos ou imediatos. Esse vaivm impede a elucidao de alguns detalhes: no sabemos, por exemplo, se a tentao de aoitar a mulher

do negro assassinado uma brutalidade de bbado ou - talvez o preferssemos - a vertigem do desespero, que essa perplexidade dos motivos torna mais real. Nesta

discusso de episdios me interessa menos a imposio de uma determinada tese do que esta convico central: a ndole romanesca do Martn Fierro, at nos detalhes.

Romance, romance de organizao instintiva ou premeditada, o Martn Fierro: nica definio que pode transmitir pontualmente o tipo de prazer que nos d e que

condiz sem escndalo com sua poca. Esta, para quem no sabe, a do sculo romanesco por antonomsia: o de Dostoivski, Zola, Butler, Flaubert, Dickens. Cito esses

nomes evidentes, mas prefiro unir ao de nosso crioulo o de outro americano, na vida do qual tambm foram constantes o acaso e a lembrana: o ntimo, insuspeito Mark

Twain de Huckleberry Finn.

Eu falei de um romance. Serei lembrado que as epopias antigas representam uma prefigurao do romance. Concordo, mas comparar o livro de Hernndez a essa categoria

primitiva esgotar-se inutilmente num jogo de fingir coincidncias, denunciar toda possibilidade de anlise. A legislao da pica - metros hericos, interveno

dos deuses, destacada situao poltica dos heris - no aplicvel aqui. As condies romanescas, sem dvida o so.

A PENLTIMA VERSO DA REALIDADE

Francisco Luis Bernrdez acaba de publicar uma apaixonada notcia das especulaes antolgicas do livro The Manhood of Humanity (A idade viril da humanidade), escrito

pelo conde Korzybski: desconheo esse livro. Deverei ater-me, portanto, nesta apreciao geral dos produtos metafsicos desse conterrneo, ao relato lmpido de Bernrdez.

No tenho, claro, a pretenso de substituir o bom funcionamento assertivo de sua prosa pela minha, dubitativa e conversada. Transcrevo o resumo inicial:

"A vida tem trs dimenses, segundo Korzybski. Comprimento, largura e profundidade. A primeira dimenso corresponde vida vegetal. A segunda dimenso pertence

vida animal. A terceira dimenso equivale vida humana. A vida dos vegetais uma vida em longitude. A vida dos animais uma vida em latitude. A vida dos homens

uma vida em profundidade".

Creio que me permitida, aqui, uma observao elementar; a de quo suspeita uma sabedoria que se funda no sobre um pensamento, mas sobre uma mera comodidade

classificatria, como o so as trs dimenses convencionais. Escrevo convencionais porque - separadamente - nenhuma das dimenses existe: sempre h volumes, nunca

superfcies, linhas ou pontos. Aqui, mais generoso no palavreado, prope-nos um esclarecimento das trs ordens convencionais do orgnico, planta-animal-homem, mediante

as no menos convencionais ordens do espao: comprimento-largura-profundidade (esta ltima no sentido figurado de tempo). Diante da incalculvel e enigmtica realidade,

no acredito que a mera simetria de duas de suas classificaes humanas baste para elucid-la, e que supere um atrativo vazio aritmtico. Segue a citao de Bernrdez:

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2O9

#JJISCUSSgO

"A vitalidade ve etal se define pela fome de Sol. A vitalidade animal, pelo apet~tdaseplant- Aquela esttica. Esta dinomica. O estilo vita tal do " criaturas

diretas, uma

pura quietude. O estilo vl s anlrrlais, criaturas indiretas, um livre movimento. flua e

"A diferena subst~n ntre a Vida vegetal e a vida animal reside numa noo. A noo de espao. Enquanto as plan

irnais a

tas a ignoram, os a~ pssuem. Umas, afirma Korz bski, vivem armazenando ener ia, e os outros, amontoando espao. Sobre a~ divul axsst g pias, estticas e errti

cas, a existncia humana rema ori ua originalidade superior. Em ue consiste esta ssp glndidade do homem? Em que prximo do veget~o~em ente ha energia e do animal

que acumula espao, o l . ica o ura tempo".

Essa ensaiada clas51f o da 1 rn~ria do mundo parece divergncia ou emprsfl~ eneros sslficao quaternria de Rudolf Steiner. Este, m~ly g quanto a uma unidade

com o universo, parte da tilde ~atalo oral, no da geometria, e v no homem uma espcie der a go ou de resumo da vida

no humana. Faz corresy^On mera estadia inerte dos mine

rais do homem morto,

a fUte at e sileTlciosa das plantas do

homem que dorme; a sol~( verdad~esquecidia dos animais

do homem que sonha- dver a grosseira verdade, que despedaamos os ca das outreternos dos primeiros e aproveitamos a dormnola or e as para devor-las ou at

para roubar-lhes algum2 fl qUe rebaixamos o sonho dos

ltimos a pesadelo. De um cavalo ocupamos seu nico minuto - minuto sem sada,1171nuto do talhanho de uma formiga e

ue no se alon a em leltlbranas ou esperanas -, que encerramos entre os garais de rroceiror) p d~ sob o regime crioulo ou Santa Federao do c~ ome ono dessas

trs hierar

uias , se undo Steiner, ~ rn" que, alm do mais, tem o u : vale dizer, a memria d passado e a previso do futuro, vale dizer, o tempo. Come v2so~oantribuio

de nicos habitantes do tem o concedi~a enS, de nicos seres previsores e histricos, no e original de korzybski. Sua impli

cao - tambm maravill"adde e fp a q~ie os animais esto na pura atualidade ou eterniaa hau r dv tempo tampouco o .

Steiner o demonstra; Schi"p chamado postula continuamente

nesse tratado, com modstia d~ captulo, que est no

A PENLTIMA VERSO DA REALIDADE

segundo volume do Mundo como Uontnde e Representao, e que versa sobre a morte. Mauthner (Woerterbueh der Philosophie, III, pg. 436) o prope com ironia. "Parece",

escreve ele, "que os animais no tm seno obscuros pressentimentos da sucesso temporal e da durao. Em compensao, o homem, quando alm do mais um psiclogo

da nova escola, pode diferenciar no tempo duas impresses que estejam separadas por at 1/5OO de segundo". Gaspar Martn, que exerce a metafsica em Buenos Aires,

declara essa intemporalidade dos animais e tambm das crianas como verdade consabida. Ele escreve: "A idia de tempo falta aos animais e no homem de avanada

cultura que aparece em primeiro lugar" (El Tiempo, 1924). Seja de Schopenhauer ou de Mauthner ou da tradio teosfica, ou mesmo de Korzybski, a verdade que essa

viso da sucessiva e ordenadora conscincia humana perante o efmero universo realmente grandiosa."

O explanador prossegue: "O materialismo disse ao homem: Faz-te rico de espao. E o homem se esqueceu de sua prpria tarefa. Sua nobre tarefa de acumulador de tempo.

Quero dizer que o homem se deu conquista das coisas visveis. conquista de pessoas e territrios. Assim nasceu a falcia do progressismo. E, como brutal conseqncia,

nasceu a sombra do progressismo. Nasceu o imperialismo.

" preciso, pois, restituir vida humana sua terceira dimenso. necessrio aprofund-1a. mister encaminhar a humanidade a seu destino racional e vlido. Que

o homem volte a capitalizar sculos em vez de capitalizar lguas. Que a vida humana seja mais intensa em lugar de ser mais extensa".

Declaro no entender o que foi dito. Creio ser delusria a oposio entre os dois conceitos incontrastveis de espao e de tempo. Consta-me que a genealogia desse

equvoco ilustre e que entre seus ancestrais est o magistral nome de Spinoza, que deu a sua indiferente divindade - Deus sive Natura - os atributos de pensamento

(vale dizer, de tempo sentido) e de extenso (vale dizer, de espao). Penso que, para um bom idealismo, o espao no passa de uma das formas que integram a densa

fluncia do tempo.

1 Seria preciso acrescentar o nome de Sneca (Epstolas a Luctlio, 124).

Z1O

211

#DISCUSSO

A PENLTIMA VERSO DA REALIDADE

E um dos episdios do tempo e, ao contrrio do consenso natural dos metafsicos, est situado nele, e no vice-versa. Em outras palavras: a relao espacial - mais

alto, esquerda, direita - uma especificao como tantas outras, no uma continuidade.

Alm do mais, acumular espao no o contrrio de acumular tempo: um dos modos de realizar essa operao que nos parece nica. Os ingleses, que por impulso ocasional

ou genial do escrevente Clive ou de Warren Hastings conquistaram a ndia, no acumularam somente espao, mas tempo: ou seja, experincias, experincias de noites,

dias, descampados, montes, cidades, astcias, herosmos, traies, dores, destinos, mortes, pestes, feras, felicidades, ritos, cosmogonias, dialetos, deuses, veneraes.

Volto considerao metafsica. O espao um incidente no tempo e no uma forma universal de intuio, como imps Kant. H provncias inteiras do Ser que no o

solicitam: as do olfato e da audio. Spencer, em sua punitiva anlise do raciocnio dos metafsicos (Princpios de Psicologia, parte stima, captulo quarto), argiu

bem essa independncia e a corrobora, linhas depois, com esta reduo ao absurdo: "Quem pensar que o cheiro e o som tm por forma de intuio Oespao facilmente

se convencer de seu erro apenas buscando o lado esquerdo ou direito de m som ou tentando imaginar um cheiro do avesso".

Schopenhauer, menos extravagante e mais apaixonado, j havia declarado essa verdade. "A msica", escreve ele, " uma objetividade da vontade to imediata quanto

o universo" (obra citada, volume primeiro, livro terceiro, captulo 52). Uma postulao de que a msica no precisa do mundo.

Quero complementar essas duas ilustres imaginaes com uma de minha autoria, que delas deriva e as explicita. Imaginemos que todo o gnero humano s se abastecesse

de realidades mediante a audio e o olfato. Imaginemos anuladas assim as percepes oculares, tteis e gustativas e o espao que estas definem. Imaginemos tambm

- seqncia lgica - uma percepo mais afinada do que a que os outros sentidos registram. A humanidade - a nosso ver to assombrada por essa catstrofe - continuaria

urdindo sua histria. A humanidade se esqueceria de que houve espao.

A vida, em sua no opressiva cegueira, em sua incorporeidade, seria to apaixonada e precisa quanto a nossa. No quero dizer que essa humanidade hipottica (no

menos plena de vontades, de ternuras, de imprevistos) entraria na casca de noz proverbial: afirmo que estaria fora e ausente de todo espao.

1928

212

213

#A SUPERSTICIOSA TICA DO LEITOR

A SUPERSTICIOSA TICA DO LEITOR

A condio indigente de nossas letras, sua incapacidade de atrair produziram uma superstio do estilo, uma distrada leitura de atenes parciais. Os que sofrem

dessa superstio entendem por estilo no a eficcia ou ineficcia de uma pgina, mas as habilidades aparentes do escritor: suas comparaes, sua acstica, os episdios

de sua pontuao e de sua sintaxe. So indiferentes prpria convico ou prpria emoo: buscam tecniqueras (a palavra de Miguel de Unamuno) que lhes informaro

se o escrito tem o direito ou no de agradar-lhes. Ouviram dizer que a adjetivao no deve ser trivial e vo considerar que uma pgina est mal escrita se no houver

surpresas na juno de adjetivos com substantivos, embora sua finalidade geral esteja cumprida. Ouviram dizer que a conciso uma virtude e consideram conciso quem

se demora em dez frases breves e no quem domina uma longa. (Exemplos normativos dessa charlatanice da brevidade, desse frenesi sentencioso, podem ser encontrados

na dico do clebre estadista dinamarqus Polnio, de Hamlet, ou do Polnio natural, Baltasar Gracin) Ouviram dizer que a repetio prxima de algumas slabas

cacofnica e fingiro que na prosa isso os incomoda, embora no verso lhes proporcione um gosto especial, penso que fingido, tambm. Ou seja, no percebem a eficcia

do mecanismo, mas a disposio de suas partes. Subordinam a emoo tica, ou, antes, a uma etiqueta incontestvel. Generalizou-se tanto essa inibio que quase

no restam mais leitores, no sentido ingnuo da palavra, mas todos so crticos potenciais.

Essa superstio to aceita que ningum se atrever a admitir ausncia de estilo em obras que o tocam, principalmente se forem clssicas. No h livro bom sem

seu atributo

214

estilstico, do qual ningum pode prescindir - a no ser o prprio autor. Vejamos o exemplo do Quixote. A crtica espanhola, diante da comprovada excelncia desse

romance, no quis pensar que seu maior (e talvez nico irrecusvel) valor pudesse ser o psicolgico, e lhe atribui dons de estilo que a muitos parecero misteriosos.

Na verdade, basta rever alguns pargrafos do Quixote para sentir que Cervantes no era estilista (ao menos na presente acepo acstico-decorativa da palavra) e

que lhe interessavam sobremaneira os destinos de Quixote e Sancho para que se deixasse distrair por sua prpria voz. A Agudeza y Arte de Ingenio de Baltasar Gracin

- to laudatria de outras prosas narrativas, como a do Guzmn de Alfarache - no se digna de lembrar Dom Quixote. Quevedo faz versos satricos sobre sua morte e

o esquece. Algum poder objetar que os dois exemplos so negativos; Leopoldo Lugones, em nosso tempo, emite um juzo explcito: "O estilo a fraqueza de Cervantes,

e os estragos causados por sua influncia foram graves. Pobreza de cor, insegurana de estrutura, pargrafos ofegantes que nunca se resolvem, desenvolvendo-se em

convlvulos interminveis; repeties, falta de proporo, esse foi o legado dos que, no vendo seno na forma a suprema realizao da obra imortal, ficaram roendo

a casca cujas rugosidades escondiam a fora e o sabor" (EI Imperio Jesutico, pg. 59). Tambm nosso Groussac: "Se para descrever as coisas como so, teremos de

confessar que uma boa metade da obra tem a forma demasiadamente frouxa e desalinhada, o que suficiente para justificar o humilde idioma que os rivais de Cervantes

lhe imputavam. E com isto no me refiro nica nem principalmente s impropriedades verbais, s intolerveis repeties ou trocadilhos, nem aos trechos de pesada

grandiloqncia que nos aborrecem, mas contextura geralmente desmaiada dessa prosa de sobremesa" (Crtica Literaria, pg. 41). Prosa de sobremesa, prosa conversada

e no declamada, a de Cervantes, e outra no lhe faz falta. Imagino que essa minha observao deve ser justa no caso de Dostoisvski ou de Montaigne ou de Samuel

Butler.

Esta fatuidade do estilo se enfatua em outra fatuidade mais pattica, a da perfeio. No h um escritor mtrico, por mais casual e nulo que seja, que no tenha

cinzelado (o verbo costuma figurar em sua conversa) seu soneto perfeito, monu

215

#DISCUSSO

A SUPERSTICIOSA TICA DO LEITOR

mento minsculo que custodia sua possvel imortalidade, e que as novidades e aniquilaes do tempo devero respeitar. Trata-se de um soneto sem rpios, geralmente,

mas que todo ele um rpio: ou seja, um resduo, uma inutilidade. Essa falcia em perdurao (Sir Thomas Browne: Urn Burial) foi formulada e recomendada por Flaubert

nesta sentena: "A correo (no sentido mais elevado da palavra) faz com o pensamento o que fizeram as guas do Estige com o corpo de Aquiles: tornam-no invulnervel

e indestrutvel" (Correspondance, II, pg. 199). A sentena categrica, mas no conheo nenhuma experincia que a confirme. (Dispenso as virtudes tnicas do Estige;

essa reminiscncia infernal no um argumento, uma nfase.) A pgina de perfeio, a pgina na qual nenhuma palavra pode ser alterada sem prejuzo, a mais precria

de todas. As mudanas de linguagem apagam os sentidos laterais e os matizes; a pgina "perfeita" a que composta desses valores sutis, e a que com maior facilidade

se desgasta. Inversamente, a pgina que tem vocao de imortalidade pode atravessar o fogo das erratas, das verses aproximativas, das leituras distradas, das incompreenses,

sem deixar a alma na prova. No se pode mudar impunemente ( o que afirmam aqueles que trabalham no estabelecimento de seu texto) nenhuma das linhas fabricadas por

Gngora; mas o Quixote ganha batalhas pstumas contra seus tradutores e sobrevive a toda verso descuidada. Heine, que nunca o ouviu em espanhol, pde celebr-lo

para sempre. Mais vivo o fantasma alemo ou escandinavo ou hindustnico do Quixote que os ansiosos artifcios verbais do estilista.

Eu no gostaria que a moralidade desta comprovao fosse vista como de desespero ou niilismo. No quero fomentar negligncias nem creio numa virtude mstica da frase

tosca e do epteto grosseiro. Afirmo que a emisso voluntria desses dois ou trs agrados menores - distraes visuais da metfora, auditivas do ritmo e imprevistas

da interjeio ou do hiprbato - costuma nos provar que a paixo do tema tratado manda no escritor, e isso tudo. A aspereza de uma frase to indiferente genuna

literatura quanto sua suavidade. A economia prosdica no menos forasteira arte que a caligrafia ou a ortografia ou a pontuao: certeza que as origens judiciais

da retrica e musicais do canto sempre nos

216

esconderam. O equvoco preferido da literatura de hoje a nfase. Palavras definitivas, palavras que postulam sabedorias divinatrias ou angelicais ou resolues

de uma firmeza mais

que humana - nico, nunca, sempre, todo, perfeio, acabado - so

do comrcio habitual de todo escritor. No pensam que dizer demais uma coisa to inbil quanto no diz-la inteiramente, e que a descuidada generalizao e intensificao

uma pobreza, e que assim a sente o leitor. Suas imprudncias causam a depreciao do idioma. o que acontece no francs, cuja locuo Je Buis navr costuma significar

No irei tomar o ch com vocs, e cujo aimer foi rebaixado a gostar. Esse hbito hiperblico do francs aparece tambm em sua linguagem escrita: Paul Valry, heri

da lucidez ordenadora, transcreve algumas esquecveis e esquecidas linhas de La Fontaine, e afirma a seu respeito (contra

algum): "ces plus beaux vens du monde" (Varit, 84).

Agora quero lembrar-me do futuro, no do passado. J se pratica a leitura em silncio, sintoma venturoso. J existe leitor calado de versos. Dessa capacidade sigilosa

a uma escritura puramente ideogrfica - comunicao direta de experincias, no de sons - h uma distncia incansvel, mas sempre menos extensa que o futuro.

Releio estas negaes e penso: ignoro se a msica sabe desesperar da msica e o mrmore do mrmore, mas a literatura uma arte que sabe profetizar aquele tempo

em que j ter emudecido, e encarniar-se com a prpria virtude e enamorar-se da prpria dissoluo e cortejar seu fim.

193O

217

#O OUTRO WHITMAN

Quando o remoto compilador do Zohar teve que arriscar alguma notcia de seu indistinto Deus - divindade to pura que nem mesmo o atributo de ser pode ser aplicado

a ele sem blasfmia - imaginou um modo prodigioso de faz-lo. Escreveu que seu rosto era trezentas e setenta vezes maior que dez mil mundos; entendeu que o gigantesco

pode ser uma forma do invisvel, e mesmo do abstrato. Esse o caso de Whitman. Sua fora to avassaladora e to evidente que s percebemos que forte.

A culpa no , essencialmente, de ningum. Ns, homens das diversas Amricas, permanecemos to incomunicados que nos conhecemos apenas por referncia, contados pela

Europa. Em tais casos, a Europa costuma ser sindoque de Paris. A Paris interessa menos a arte que a poltica da arte: veja-se a tradio corrilheira de sua literatura

e de sua pintura, sempre dirigidas por comits e com seus dialetos polticos: um, parlamentar, que fala de esquerdas e direitas; outro, militar, que fala de vanguardas

e retaguardas. Para ser mais exato: interessa-lhes a economia da arte, no seus resultados. A economia dos versos de Whitman lhes foi to inaudita que no conheceram

Whitman. Preferiram classific-lo: louvaram sua licence majestueuse, tornaram-no precursor dos muitos inventores caseiros do verso livre. Alm disso, remedaram a

parte mais vulnervel de sua dico: as complacentes enumeraes geogrficas, histricas e circunstanciais que Whitman alinhou para realizar certa profecia de Emerson

sobre o poeta digno da Amrica. Esses remedos ou lembranas foram o futurismo, o unanimismo. Foram e so toda a poesia francesa de nosso"tempo, com exceo da que

deriva de Poe. (Da boa teoria de Poe, quero dizer, no de sua deficiente

prtica.) Muitos nem sequer perceberam que a enumerao um dos procedimentos poticos mais antigos - recordem-se os Salmos da Escritura e o primeiro coro d"Os

Persas e o catlogo homrico das naves - e que seu mrito essencial no a extenso, mas o delicado ajuste verbal, as "simpatias e diferenas" das palavras. Walt

Whitman no o ignorou:

And of the threads that connect the stars and of wombs and of

the father-stu f f.

From what the divine husband knows, from the work of fatherhood.

Ou:

Iam as one disembodied, triumphant, dead.

O assombro, contudo, lavrou uma imagem falsa de Whitman: a de um homem meramente laudatrio e mundial, um insistente Hugo imposto desconsideradamente aos homens

fora de repetio. No nego que Whitman foi essa infelicidade em grande nmero de suas pginas, limito-me a demonstrar que em outras, melhores, foi poeta de um

laconismo trmulo e suficiente, homem de destino comunicado, no proclamado. Para isso, nada melhor do que traduzir alguns de seus poemas:

ONCE I PASSED THROUGH A POPULOUS CITY

Certa vez passei por uma cidade populosa, guardando na mente,

para uso futuro, seus espetculos, sua arquitetura, seus hbitos,

suas tradies.

Agora de toda essa cidade me lembro apenas da mulher que encontrei

por acaso, que me demorou por amor.

Dia aps dia, noite aps noite estivemos juntos - e de todo o resto h

tempos me esqueci.

Lembro-me apenas dessa mulher que apaixonadamente se apegou

a mim.

218

219

#DISCUSSO

O OUTRO WHITMAN

Outra vez caminhamos, nos amamos, outra vez nos deixamos. Outra vez ela me leva pela mo, no preciso partir. E a vejo a meu lado com os lbios quietos, triste e

estremecida.

WHEN I READ THE BOOK

Enquanto eu lia o livro, a famosa biografia,

Ento isso (eu disse) o que o autor chama a vida de um homem.

E assim que algum vai escrever sobre mim quando eu estiver

morto?

(Como se algum pudesse saber alguma coisa de minha vida;

Eu mesmo costumo pensar que pouco ou nada sei de minha verdadeira vida.

S alguns traos, alguns sinais desmaiados e indcios

Que tento, para minha prpria informao, resolver aqui.)

WHEN I HEARD THE LEARNED ASTRONOMER

Quando ouvi o douto astrnomo

Quando me apresentaram em colunas as provas, os algarismos, Quando me mostraram os mapas e os diagramas, para medir, dividir e somar,

Quando de meu lugar ouvi o douto astrnomo dissertando em sua ctedra, muito aplaudido,

Senti-me inexplicavelmente atordoado e aborrecido, At que me esgueirei e me afastei sozinho

No ar mido e mstico da noite, e de tempos em tempos Em silncio perfeito eu olhei as estrelas.

Assim Walt Whitman. No sei se excessivo indicar - acabo de perceber - que essas trs confisses possuem um tema idntico: a peculiar poesia da arbitrariedade

e da privao. Simplificao final da lembrana, impenetrabilidade e pudor de nossa existncia, negao dos esquemas intelectuais e apreo pelas notcias primrias

dos sentidos so as respectivas moralidades desses poemas. como se Whitman dissesse: Inesperado e elusivo o mundo, mas sua prpria contingncia uma riqueza,

j que no podemos

nem mesmo determinar a que ponto somos pobres, pois tudo ddiva. Uma lio da mstica da parcimnia, proveniente da Amrica do Norte?

Uma ltima sugesto. Estou pensando que Whitman - homem de infinitas invenes, simplificado pela viso alheia como mero gigante - um abreviado smbolo de sua

ptria. A histria mgica das rvores que encobrem o bosque pode servir, invertida magicamente, para esclarecer minha inteno. Porque houve certa vez uma selva

to infinita que ningum se lembrou de que era feita de rvores; porque entre dois mares h uma nao de homens to forte que ningum costuma lembrar que de homens.

De homens de humana condio.

1929

22O

221

#UMw VtrJ~tcno ~a Cnaatia

UMA VINDICAO DA CABALA

No esta a primeira vez que se empreende nem ser a ltima que falha, mas dois fatos a distinguem. Um minha inocncia quase total do hebraico; outro a circunstncia

de que no quero vindicar a doutrina, mas os procedimentos hermenuticos ou criptogrficos que a ela conduzem. Esses procedimentos, como se sabe, so a leitura vertical

dos textos sagrados, a leitura chamada bouestrophedon (uma linha da direita para a esquerda, da esquerda para a direita a seguinte), metdica substituio de umas

letras do alfabeto por outras, a soma do valor numrico das letras, etc. Zombar de tais operaes fcil, prefiro procurar entend-las.

evidente que sua causa remota o conceito da inspirao mecnica da Bblia. Esse conceito, que faz de evangelistas e profetas secretrios impessoais de Deus que

escrevem o que lhes ditam, aparece com imprudente energia na Formula consensus helvetica, que reclama autoridade para as consoantes da Escritura e at para os sinais

diacrticos - que as verses primitivas no conheceram. (Esse preciso cumprimento no homem dos propsitos literrios de Deus a inspirao ou entusiasmo: palavra

cujo sentido exato endeusamento.) Os islamitas podem se gabar de exceder essa hiprbole, pois resolveram que o original do Alcoro - a me do Livro - um dos

atributos de Deus, com Sua misericrdia ou Sua ira, e o julgam anterior ao idioma, Criao. Tambm h telogos luteranos que no ousam englobar a Escritura entre

as coisas criadas e a definem como uma encarnao do Esprito.

Do Esprito: j nos espreita um mistrio. No a divindade geral, mas a hipstase terceira da divindade foi quem ditou a Bblia. a opinio corrente; Bacon, em 1625,

escreveu: "O lpis do Esprito Santo demorou-se mais nas aflies de J que nas

venturas de Salomo"." Tambm seu contemporneo John Donne: "O Esprito Santo um escritor eloqente, um veemente e copioso escritor, mas no um tagarela; to distante

de um estilo indigente quanto de um suprfluo".

Impossvel definir o Esprito e silenciar a horrenda sociedade trinitria e una da qual faz parte. Os catlicos laicos a consideram um corpo colegiado infinitamente

correto, mas tambm infinitamente entediado; os liberais, um vo Crbero teolgico, uma superstio que os muitos avanos do sculo vo se encarregar de abolir.

A trindade, claro, supera essas frmulas. Imaginada repentinamente, sua concepo de um pai, um filho e um espectro, articulados num s organismo, parece um caso

de teratologia intelectual, uma deformao que s o horror de um pesadelo pode ter parido. o que penso, mas tento considerar que todo objeto cujo fim ignoramos

provisoriamente monstruoso. Essa observao geral se v agravada aqui pelo mistrio profissional do objeto.

Desligada do conceito de redeno, a distino das trs pessoas em uma s pode parecer arbitrria. Considerada necessidade da f, seu mistrio fundamental no diminui,

mas sua inteno e seu emprego despontam. Entendemos que renunciar Trindade - Dualidade, pelo menos - fazer de Jesus um delegado ocasional do Senhor, um incidente

da histria, no o auditor imorredouro, contnuo, de nossa devoo. Se o Filho no tambm o Pai, a redeno no obra divina direta; se no eterno, tampouco

o ser o sacrifcio de ter-se rebaixado a homem e ter morrido na cruz. "S uma infinita excelncia poderia ser satisfatria para uma alma perdida por infinitas eras",

instou Jeremy Taylor. Assim o dogma pode se justificar, embora os conceitos da gerao do Filho pelo Pai e da procisso do Esprito pelos dois insinuem hereticamente

uma prioridade, sem contar sua culpada condio de meras metforas. A teologia, empenhada em diferenci-las, resolve que no h motivo de confuso, posto que o resultado

de uma o Filho, o da outra o Esprito. Gerao eterna do Filho, procisso eterna do Esprito, a soberba deciso de Ireneu: inveno de um ato sem tempo, de um

mutilado zeit

1 Sigo a verso latina: "diffusius tractavt Jobi afflictiones". Em ingls, com mais acerto, ele escreveu harth laboured more.

222

223

#DISCUSSO

Unia VtNOtcAo ~n CABALA

Toses Zeitwort, que podemos rejeitar ou venerar, mas no discutir. O inferno mera violncia fsica, mas as trs inextricveis pessoas implicam um horror intelectual,

uma infinitude sufocada, especiosa, como de espelhos contrrios. Dante quis figur-Tas com o signo de uma reverberao de crculos difanos, de vrias cores; Donne,

com enleadas serpentes, ricas e indissolveis. "Toto coruscat trinitas mysterio"; escreveu So Paulino; "Fulge em pleno mistrio a trindade".

Se o Filho a reconciliao de Deus com o mundo, o Esprito - princpio da santificao, segundo Atansio; um anjo entre os outros, para Macednio - no pode receber

melhor definio que a de ser a intimidade de Deus conosco, sua imanncia em nosso corao. (Para os socinianos - receio que com suficiente razo - no passava de

uma locuo personificada,uma metfora das operaes divinas, trabalhada depois at a vertigem.) Mera formao sinttica ou no, a verdade que a terceira pessoa

cega da enredada trindade o reconhecido autor das Escrituras. Gibbon, naquele captulo de sua obra que trata do Isl, incluiu um censo geral das publicaes do

Esprito Santo, calculadas com certa timidez em cento e tanto; mas a que me interessa agora o Gnese: matria da Cabala.

Os cabalistas, como agora muitos cristos, acreditavam na divindade dessa histria, em sua deliberada redao por uma inteligncia infinita. As conseqncias desse

postulado so muitas. A distrada execuo de um texto corrente - verbi gratia, das menes efmeras do jornalismo - tolera uma quantidade sensvel de acaso. Comunicam

- postulando-o - um fato: informam que o sempre irregular assalto de ontem ocorreu em tal rua, tal esquina, a tal hora da manh, receita no representvel por ningum

e que se limita a nos apontar o lugar Tal, onde as informaes so fornecidas. Em indicaes como essa, a extenso e a acstica dos pargrafos so necessariamente

casuais. O contrrio ocorre nos versos, cuja lei ordinria a sujeio do sentido s necessidades (ou supersties) eufnicas. O casual neles no o som, o que

significam. Assim no primeiro Tennyson, em Verlaine, no ltimo Swinburne: dedicados apenas expresso de estados gerais, mediante as ricas aventuras de sua prosdia.

Consideremos um terceiro escritor, o intelectual. Este, seja no domnio da prosa (Valry, De Quincey), seja no do verso, cer

224

tamente no aboliu o acaso, mas o evitou, na medida do possvel, e restringiu sua aliana incalculvel. Aproxima-se remotamente do Senhor, para Quem o vago conceito

de acaso no tem nenhum sentido. Do Senhor, do aperfeioado Deus dos telogos, que conhece de uma vez - uno intelligenti actu - no s todos os fatos deste mundo

repleto, mas os que teriam lugar se o mais evanescente deles mudasse - os impossveis, tambm.

Imaginemos agora essa inteligncia estelar, dedicada a manifestar-se no em dinastias nem em aniquilaes nem em pssaros, mas em vozes escritas. Imaginemos, tambm,

de acordo com a teoria pr-agostiniana de inspirao verbal, que Deus dita, palavra por palavra, o que se prope dizer.z Essa premissa (que foi a que os cabalistas

assumiram) faz da Escritura um texto absoluto, em que a colaborao do acaso se reduz a zero. S a concepo desse documento j um prodgio superior a todos os

registrados em suas pginas. Um livro impenetrvel contingncia, um mecanismo de propsitos infinitos, de variaes infalveis, de revelaes que espreitam, de

superposies de luz, como no interrog-lo at o absurdo, at a prolixidade numrica, como fez a Cabala?

1931

2 Orgenes atribuiu trs sentidos s palavras da Escritura: o histrico, o moral e o mstico, correspondentes ao corpo, alma e ao esprito que integram o homem;

Joo Escoto Ergena, um infinito de sentidos, como as cores cambiantes da plumagem do pavo.

225

#UMA VINDICAO DO FALSO BASILIDES

Em 19O5, eu sabia que as pginas oniscientes (de A a All) do primeiro volume do Diccionario Enciclopdico Hispanoamericano, de Montaner y Simn, incluam um breve

e alarmante desenho de uma espcie de rei, com perfilada cabea de galo, torso viril com braos abertos que comandavam um escudo e um ltego, e o resto era uma simples

cauda enroscada que lhe servia de tronco. Por volta de 1916, li esta obscura enumerao de Quevedo: "L estava o maldito Basilides heresiarca. Estava Nicolau da

Antiquia, Carpcrates e Cerinto e o infame bion. Depois veio Valentim, o que considerou como princpio de tudo o mar e o silncio". Por volta de 1923, percorri

em Genebra no sei que livro heresiolgico em alemo, e soube que o aziago desenho representava certo deus miscelneo, que o prprio Basilides havia horrivelmente

venerado. Soube tambm quo desesperados e admirveis foram os gnsticos, e conheci suas ardentes especulaes. Mais tarde pude interrogar os livros especiais de

Mead (na verso alem: Fragmente Bines verschollenen Glaubens, 19O2) e de Wolfgang Schultz (Dokumente der Gnosis, 191O) e os artigos de Wilhelm Bousset na Encyclopaedia

Britannica. Hoje me propus resumir e ilustrar uma de suas cosmogonias: a de Basilides heresiarca, precisamente. Sigo passo a passo a notificao de Ireneu. Consta-me

que muitos a invalidam, mas suspeito que essa desordenada reviso de sonhos defuntos pode admitir tambm a de um sonho que no sabemos se habitou algum sonhador.

A heresia basilidiana, por outro lado, a de configurao mais simples. Ele nasceu em Alexandria, dizem que aos cem anos da crucificao, dizem que entre os srios

e os gregos. A teologia, na poca, era uma paixo popular.

No princpio da cosmogonia de Basilides h um Deus. Esta divindade carece majestosamente de nome, bem como de origem; da sua aproximada nominao de pater innatus.

Seu

UMA VINDICAO DO FALSO BASILIDES

meio o pleroma ou a plenitude: o inconcebvel museu dos arqutipos platnicos, das essncias inteligveis, dos universais. um Deus imutvel, mas de seu repouso

emanaram sete divindades subalternas que, condescendendo ao, dotaram e presidiram um primeiro cu. Desta primeira coroa demirgica derivou uma segunda, tambm

com anjos, potestades e tronos, e estes fundaram outro cu mais baixo, que era o duplo simtrico do inicial. Este segundo conclave viu-se reproduzido num terceiro,

e este em outro inferior, e assim at 365. O senhor do cu do fundo o da Escritura, e sua frao de divindade tende ao zero. Ele e seus anjos fundaram esse cu

visvel, moldaram a terra imaterial que estamos pisando e depois a repartiram. O razovel esquecimento apagou as fbulas precisas que esta cosmogonia atribuiu

origem do homem, mas o exemplo de outras imaginaes coetneas nos permite remediar essa omisso, ainda que de forma vaga e conjeturai. No fragmento publicado por

Hilgenfeld, a treva e a luz sempre haviam coexistido, ignorando-se, e quando finalmente se viram, a luz s olhou de relance e se desviou, mas a escurido enamorada

se apoderou de seu reflexo ou lembrana, e esse foi o princpio do homem. No anlogo sistema de Satornil, o cu revela aos anjos operrios uma momentnea viso,

e o homem fabricado sua imagem, mas se arrasta pelo cho como vbora, at que o piedoso Senhor lhe transmite uma centelha de seu poder. A essas narraes o

trao comum o que importa: nossa temerria ou culpada improvisao por uma divindade deficiente, com material ingrato. Volto histria de Basilides. Removida pelos

anjos onerosos do deus hebreu, a baixa humanidade mereceu a piedade do Deus intemporal, que lhe destinou um redentor. Este devia assumir um corpo ilusrio, pois

a carne degrada. Seu fantasma impassvel ficou publicamente suspenso na cruz, mas o Cristo essencial atravessou os cus superpostos e foi restitudo ao pleroma.

Atravessou-os ileso, pois conhecia o nome secreto de suas divindades. "E os que sabem a verdade desta histria", conclui a profisso de f referida por Ireneu, "vo

saber que esto livres do poder dos prncipes que edificaram este mundo. Cada cu tem seu prprio nome e tambm cada anjo e senhor e cada potestade desse cu. Quem

souber seus nomes incomparveis os atravessar invisvel e seguro, como o redentor. E como o Filho no foi reconhecido por ningum, tampouco o ser o gnstico. E

estes mistrios no devero ser pronunciados, mas guardados em silncio. Conhece a todos, que ningum te conhea".

226

227

#DISCUSSO

UMA VINDICAO DO FALSO BASILIDES

A cosmogonia numrica do princpio degenerou no fim em magia numrica, 365 andares de cu, a sete potestades por cu, requerem a improvvel reteno de 2.555 amuletos

orais: idioma que os anos reduziram ao precioso nome do redentor, que Caulacau, e ao do imvel Deus, que Abraxas. A salvao, para esta desenganada heresia,

um esforo mnemotcnico dos mortos, assim como o tormento do salvador uma iluso tica - dois simulacros que misteriosamente condizem com a precria realidade

de seu mundo.

Zombar da v multiplicao de anjos nominais e de refletidos cus simtricos dessa cosmogonia no totalmente difcil. O princpio taxativo de Ockham: "Entia non

sunt multiplicanda praeter necessitatem", poderia ser-lhe aplicado - arrasando-a. De minha parte, considero anacrnico ou intil esse rigor. A boa converso desses

pesados smbolos vacilantes o que importa. Vejo neles duas intenes: a primeira um lugar-comum da crtica; a segunda - que no pretendo erigirem descoberta

- no foi destacada at hoje. Comeo pela mais ostensiva, que a de resolver sem escndalo o problema do mal, mediante a hipottica insero de uma srie gradual

de divindades entre o no menos hipottico Deus e a realidade. No sistema analisado, essas derivaes de Deus decrescem e se abatem medida que vo se afastando,

at fundear nos abominveis poderes que rabiscaram os homens com material adverso. No de Valentim - que no considerou como princpio de tudo o mar e o silncio

-,uma deusa cada (Achamoth) tem com uma sombra dois filhos, que so Ofundador do mundo e o diabo. A Simo, o Mago atribuda uma exacerbao dessa histria: o

resgate de Helena de Tria, antes filha primeira de Deus e depois condenada pelos anjos a transmigraes dolorosas, de um bordel de marinheiros em Tiro." Os trinta

e trs anos humanos de Jesus Cristo e seu anoitecer na cruz no eram expiao suficiente para os duros gnsticos.

Falta considerar o outro sentido dessas invenes obscuras. A vertiginosa torre de cus da heresia basilidiana, a proliferao de seus anjos, a sombra planetria

dos demiurgos transtornando a terra, a maquinao dos crculos inferiores contra o pleroma,

1 Helena, filha dolorosa de Deus. Essa filiao divina no esgota as semelhanas de sua lenda com a de Jesus Cristo. A este, os discpulos de Basilides outorgaram

um corpo insubstancial; da trgica rainha, pretendeu-se que apenas seu edolon ou si

mulacro fosse levado de Tria. Um belo espectro nos redimiu; outro fez carreira em batalhas e em Homero. Ver, para este docetismo de Helena, o Fedro de Plato e

o livro Adventures among Books, de Andrew Lang, pgs. 237-248.

a densa populao, ainda que inconcebvel ou nominal, dessa vasta mitologia, visam tambm a diminuio deste mundo. O que nelas se prega no nosso mal, mas nossa

central insignificncia. Como nos caudalosos poentes da plancie, o cu apaixonado e monumental e a terra pobre. Essa a justificadora inteno da cosmogonia

melodramtica de Valentim, que desfia um infinito argumento de dois irmos sobrenaturais que se reconhecem, de uma mulher cada, de uma ilusria intriga poderosa

dos anjos maus e de um casamento final. Nesse melodrama ou folhetim, a criao deste mundo um mero aparte. Admirvel idia: o mundo imaginado como processo essencialmente

ftil, como reflexo lateral e perdido de velhos episdios celestes. A criao como fato casual.

O projeto foi herico; o sentimento religioso ortodoxo e a teologia repudiam essa possibilidade com escndalo. A criao primeira, para eles, ato livre e necessrio

de Deus. O universo, conforme d a entender Santo Agostinho, no comeou no tempo, mas simultaneamente com ele - juzo que nega toda prioridade do Criador. Strauss

d por ilusria a hiptese de um momento inicial, pois este contaminaria de temporalidade no apenas os instantes ulteriores, mas tambm a eternidade "precedente".

Durante os primeiros sculos de nossa era, os gnsticos disputaram com os cristos. Foram aniquilados, mas no podemos representar sua vitria possvel. Se Alexandria,

e no Roma, tivesse vencido, as estranhas e sombrias histrias que compendiei aqui seriam coerentes, majestosas e cotidianas. Frases como a de Novalis: "A vida

uma doena do esprito"; ou a de Rimbaud, desesperada: "A verdadeira vida est ausente; no estamos no mundo", fulgurariam nos livros cannicos. Especulaes como

a (renegada) de Richter sobre a origem estelar da vida e sua casual disseminao neste planeta conheceriam o assentimento incondicional dos laboratrios piedosos.

Em todo caso, que melhor dom podemos esperar que o de sermos insignificantes, que maior glria para um Deus que a de ser absolvido do mundo?

1931

2 Esse ditame - Lehen ist eive Krankhet des Geistes, ein leidensehaftliches Tun - deve sua difuso a Carlyle, que o destacou em seu famoso artigo da Foreign Review,

1829. No so coincidncias momentneas, mas uma redescoberta essencial das agonias

e das luzes do gnosticismo, a dos Livros Profticos de William Blake.

22s

229

#A POSTULAO DA REALIDADE

A POSTULAO DA REALIDADE

Hume observou definitivamente que os argumentos de Berkeley no admitem a menor rplica e no produzem a menor convico; eu gostaria, para eliminar os de Croce,

de uma sentena no menos educada e mortal. A de Hume no me serve, porque a difana doutrina de Croce tem a faculdade de persuadir, embora esta seja a nica. Seu

defeito ser impraticvel; serve para acabar com uma discusso, no para resolv-la.

Sua frmula - meu leitor vai se lembrar - a identidade do esttico e do expressivo. No a renego, mas quero observar que os escritores de hbito clssico costumam

evitar a expressividade. O fato no foi considerado at agora; explico-me.

O romntico, em geral com pobre fortuna, quer incessantemente expressar; o clssico raramente prescinde de uma petio de princpios. Destituo aqui de toda conotao

histrica as palavras clssico e romntico; entendo-as como dois arqutipos de escritor (dois procedimentos). O clssico no desconfia da linguagem, acredita na

suficiente virtude de cada um de seus signos. Escreve, por exemplo: "Depois da partida dos godos e da separao do exrcito aliado, tila ficou maravilhado com o

vasto silncio que reinava sobre os campos de Chlons: a suspeita de um estratagema hostil deteve-o por alguns dias dentro do crculo de suas carruagens, e sua retirada

do Reno marcou a ltima vitria alcanada em nome do imprio ocidental. Meroveu e seus francos, observando uma distncia prudente e aumentando seu suposto nmero

com os muitos fogos que acendiam a cada noite, seguiram na retaguarda dos hunos at os confins da Turngia. Os turngios militavam nas foras de tila:

cruzaram, no avano e na retirada, os territrios dos francos; talvez nesta ocasio tenham cometido as atrocidades que foram vingadas, uns oitenta anos depois, pelo

filho de Clvis. Degolaram seus refns: duzentas donzelas foram torturadas com implacvel e raro furor; seus corpos foram esquartejados por cavalos indmitos e seus

ossos esmagados sob as rodas das carruagens e tiveram seus membros insepultos abandonados pelos caminhos, como presa para ces e abutres". (Gibbon, Decline and Fall

of the Roman

Empire, XXXV.) Basta o inciso Depois da partida dos godos para

perceber o carter mediato desta escrita, generalizante e abstrata at a invisibilidade. O autr nos prope um jogo de smbolos, rigorosamente organizados, sem dvida,

mas cuja eventual animao fica a nosso cargo. No realmente expressivo: limita-se a registrar uma realidade, no a represent-la. Os ricos fatos, a cuja pstuma

aluso nos convida, implicaram pesadas experincias, percepes, reaes; estas podem ser inferidas de seu relato, mas no esto nele. Para ser mais exato: ele no

escreve os primeiros contatos da realidade, mas sua elaborao final em conceito. o mtodo clssico, sempre observado por Voltaire, por Swift, por Cervantes. Transcrevo

um segundo pargrafo, j quase abusivo, deste ltimo: "Finalmente a Lotrio pareceu mister, no espao e lugar proporcionado pela ausncia de Anselmo, apertar o cerco

quela fortaleza, e atacou, pois, sua presuno com elogios de sua formosura, porque no h outra coisa que mais rpido renda e domine as encasteladas torres da

vaidade das belas que a prpria vaidade posta na lngua da adulao. De fato, ele com toda diligncia minou a rocha de sua integridade com essa munio, e ainda

que Camila fosse toda de bronze, viria ao cho. Chorou, rogou, ofereceu, adulou, porfiou e fingiu Lotrio com tanto sentimento, com mostras de todas as veras, que

deitou por terra o recato de Camila, e alcanou o mais inesperado e mais desejado triunfo". (Quixote, I, captulo 34.)

Passagens como as anteriores formam a grande maioria da literatura mundial, mesmo da menos indigna. Rejeit-las para no perturbar uma frmula seria inoportuno e

prejudicial. Em sua notria ineficcia, so eficazes; falta resolver essa contradio.

23O

231

#DISCUSSO

A POSTULAO DA REALIDADE

Eu aconselharia esta hiptese: a impreciso tolervel ou verossmil na literatura, porque sempre tendemos a ela na realidade. A simplificao conceituai de estados

complexos muitas vezes uma operao instantnea. O prprio fato de perceber, de levar em conta, de ordem seletiva: toda ateno, toda fixao de nossa conscincia,

comporta uma omisso deliberada do no interessante. Vemos e ouvimos por meio de lembranas, de temores, de previses. No corporal, a inconscincia necessidade

dos atos fsicos. Nosso corpo sabe articular esse difcil pargrafo, sabe lidar com escadas, com ns, com passagens de nvel, com cidades, com rios correntosos,

com ces, sabe atravessar uma rua sem que o trnsito nos aniquile, sabe engendrar, sabe respirar, sabe dormir, sabe, talvez, matar: nosso corpo, no nossa inteligncia.

Nosso viver uma srie de adaptaes, vale dizer, uma educao do esquecimento. admirvel que a primeira notcia que Thomas Moore nos d sobre Utopia seja sua

perplexa ignorncia da "verdadeira" extenso de uma de suas pontes...

Releio, para melhor exame do clssico, o pargrafo de Gibbon, e me deparo com uma quase imperceptvel e certamente incua metfora, a do reinado do silncio. E um

projeto de expresso - ignoro se frustrado ou feliz - que no parece condizer com o estrito desempenho legal do resto de sua prosa. Naturalmente, ela se justifica

por sua invisibilidade, sua ndole j convencional. Seu emprego nos permite definir outra marca do classicismo: a crena de que uma vez forjada uma imagem, esta

constitui um bem pblico. Para o conceito clssico, a pluralidade dos homens e dos tempos acessria, a literatura sempre uma s. Os surpreendentes defensores

de Gngora o justificavam da acusao de inovar - mediante a prova documental da boa ascendncia erudita de suas metforas. Nem chegavam a pressentir o achado romntico

da personalidade. Agora, estamos to concentrados nele que o fato de neg-lo ou negligenci-lo apenas uma entre tantas aptides para "ser pessoal". Quanto tese

de que a linguagem potica deve ser una, cabe apontar sua evanescente ressurreio por parte de Arnold, que props reduzir o vocabulrio dos tradutores homricos

ao da Authorized Uersion da Escritura, sem outro alvio que a intercalao eventual de algumas

liberdades de Shakespeare. Seu argumento era o poderio e a difuso das palavras bblicas...

A realidade que os escritores clssicos propem questo de confiana, como a paternidade para certo personagem dos Lehrjahre. A que os romnticos procuram esgotar

, antes, de carter impositivo: seu mtodo contnuo a nfase, a mentira parcial. No inquiro ilustraes: todas as pginas de prosa ou de verso que so profissionalmente

atuais podem ser questionadas com sucesso.

A postulao clssica da realidade pode assumir trs modos, muito diversamente acessveis. O de trato mais fcil consiste numa notificao geral dos fatos que interessam.

(Salvo certas alegorias incmodas, o supracitado texto de Cervantes no mau exemplo desse modo primeiro e espontneo dos procedimentos clssicos.) O segundo consiste

em imaginar uma realidade mais complexa que a declarada ao leitor e referir suas derivaes e efeitos. No conheo melhor ilustrao que a abertura do fragmento

herico de Tennyson, Mort d"Arthur, que reproduzo em desentoada prosa, pelo interesse de sua tcnica. Verto literalmente: "Assim, durante todo o dia, o rudo blico

retumbou nas montanhas, junto ao mar invernal, at que a tvola do rei Arthur, homem por homem, tombou em Lyonness ao redor de seu senhor, o rei Arthur: ento, porque

seu ferimento era profundo, o intrpido Sir Bediver o levantou, Sir Bediver, o ltimo de seus cavaleiros, e o levou para uma capela perto do campo, um presbitrio

quebrado, com uma cruz quebrada, que ficava num sombrio brao de terreno rido. De um lado jazia o Oceano; do outro, uma grande gua, e a lua era cheia". Trs vezes

essa narrao postulou uma realidade mais complexa: a primeira, mediante o artifcio gramatical do advrbio assim; a segunda e melhor, mediante o modo incidental

de transmitir um fato: porque seu ferimento era profundo; a terceira, mediante a inesperada adio de e a lua era cheia. Outra eficaz ilustrao desse mtodo proporcionada

por Morris, que depois de relatar o mtico rapto de um dos remeiros de Jaso pelas ligeiras divindades de um rio, fecha a histria deste modo: "A gua ocultou as

ninfas enrubescidas e o despreocupado homem adormecido. No entanto, antes que a gua os engolisse, uma

232

233

#DISCUSSO

delas atravessou correndo aquele prado e apanhou na relva a lana com ponta de bronze, o escudo cravejado e redondo, a espada com o punho de marfim, a cota de malhas,

e depois se atirou na correnteza. Assim, quem poder contar essas coisas, seno o vento, ou o pssaro que do canavial as viu e ouviu?" Este testemunho final de seres

ainda no mencionados d que nos importa.

O terceiro mtodo, o mais difcil e eficiente de todos, exerce a inveno circunstancial. Sirva-nos de exemplo certo memorabilssimo trao de La Gloria de Don Ramiro:

aquele aparatoso "caldo de toicinho, que era servido numa sopeira com cadeado para defend-lo da voracidade dos pajens", to insinuativo da misria decente, da fileira

de criados, do casaro cheio de escadas e voltas e de luzes diversas. Dei um exemplo curto, linear, mas sei de obras extensas - os rigorosos romances imaginativos

de Wells," os exasperadamente verossmeis de Daniel Defoe - que no utilizam outro recurso seno o desenvolvimento ou a srie desses pormenores lacnicos de longa

projeo. Afirmo o mesmo dos romances cinematogrficos de Josef von Sternberg, feitos tambm de momentos significativos. mtodo admirvel e difcil, mas sua aplicabilidade

geral o torna menos estritamente literrio do que os dois anteriores, e, em particular, do que o segundo. Isto costuma funcionar pela pura sintxe, pela pura percia

verbal. Prova disso so os versos de Moore:

1 Como O Homem Invisvel. Esse personagem - um solitrio estudante de qumica no desesperado inverno londrino - acaba por reconhecer que os privilgios do estado

invisvel no compensam seus inconvenientes. Tem que sair descalo e nu,

para que um casaco apressado e umas botas autnomas no agitem a cidade. Um revlver, em sua mo transparente, de impossvel ocultao. Antes de assimilados, tambm

o so os alimentos deglutidos por ele. Desde o amanhecer suas plpe

bras nominais no barram a luz e ele tem que se acostumar a dormir como se estivesse com os olhos abertos. Tambm intil colocar o brao fantasmal sobre os olhos.

Na rua os acidentes de trnsito o preferem e ele est sempre com medo de

morrer esmagado. Tem que fugir de Londres. Tem que se refugiar em perucas, em grandes culos escuros, em narizes de carnaval, em barbas suspeitas, em luvas, para

que no vejam que invisvel. Descoberto, inicia num vilarejo do interior um

miservel Reino do Terror. Para que o respeitem, fere um homem. Ento o delegado faz com que seja rastreado por ces, cercam-no perto da estao e o matam.

Outro exemplo de habilssima fantasmagoria circunstancial o conto de Kipling, "The finest story in the world", de sua recopilao de 1893, "Many inventions".

234

Je sois ton amam, et la blonde Gorge tremble sous mon baiser,

cuja virtude est na transio do pronome possessivo ao artigo definido, no emprego surpreendente do la. Seu inverso simtrico est na seguinte linha de Kipling:

Little they trust to sparrow - dust that stop the seal in his sea!

Naturalmente, his est regido por seal. Que detm a foca em seu mar.

1931

235

#FILMES

Escrevo minha opinio sobre alguns filmes que estrearam recentemente.

O melhor, a considervel distncia dos outros: O assassino Karamazov (Filmreich). Seu diretor (Ozep) eludiu sem desconforto visvel os aclamados e vigentes erros

da produo alem - a simbologia soturna, a tautologia ou repetio suprflua de imagens equivalentes, a obscenidade, as inclinaes teratolgicas, o satanismo -

e tampouco incorreu nos ainda menos esplendorosos da escola sovitica: a omisso absoluta de caracteres, a mera antologia fotogrfica, as grosseiras sedues do

comit. (Dos franceses no falo: hoje, seu desejo puro e simples o de no parecerem norte-americanos - risco que certamnte no correm.) Desconheo o extenso romance

do qual foi extrado esse filme: culpa feliz que me permitiu desfrut-lo sem a contnua tentao de superpor o espetculo atual sobre a leitura lembrada, para ver

se coincidiam. Assim, com imaculada prescindncia de suas profanaes nefandas e de suas meritrias fidelidades - ambas sem importncia -, o presente filme poderosssimo.

Sua realidade, embora puramente alucinatria, sem subordinao nem coeso, no menos torrencial que a de Docas de Nova York, de Josef von Sternberg. Sua apresentao

de genuna, candorosa felicidade, depois de um assassinato, um dos momentos altos do filme. A fotografia - o amanhecer j definido, as monumentais bolas de bilhar

aguardando Oimpacto, a mo clerical de Smerdiakov, retirando o dinheiro - excelente, em inveno e execuo.

Passo a outro filme. O que misteriosamente se chama Luzes da cidade, de Chaplin, conheceu o aplauso incondicional de todos os nossos crticos; verdade que sua

aclamao

FILMES

impressa mais uma prova de nossos irrepreensveis servios telegrficos e postais do que um ato pessoal, presumido. Quem se atreveria a ignorar que Charles Chaplin

um dos deuses mais seguros da mitologia de nosso tempo, um colega dos pesadelos imveis de De Chirico, das ardentes metralhadoras de Scarface Al, do universo finito

ainda que ilimitado, das costas zenitais de Greta Garbo, dos olhos enevoados de Gandhi? Quem desconheceria que sua novssima comdie larmoyante era de antemo assombrosa?

Na realidade, na realidade que imagino, esse visitadssimo filme do esplndido inventor e protagonista de Em busca do ouro no passa de uma lnguida antologia de

pequenos percalos, impostos a uma histria sentimental. Alguns episdios so novos; outro, como o da alegria tcnica do lixeiro diante do providencial (e depois

falaz) elefante que deve fornecer uma dose de raison d"tre, reedio fac-similar do incidente do lixeiro troiano e do falso cavalo dos gregos, do pretrito filme

A vida privada de Helena de Tria. Objees mais gerais podem ser somadas tambm contra City lights. Sua falta de realidade s comparvel a sua falta, tambm desesperadora,

de irrealidade. H filmes reais -

Defesa que humilha, Caminhos da sorte, A turba, at Melodias da

Broadway -; h os de voluntria irrealidade: os individualssimos de Borzage, os de Harry Langdon, os de Buster Keaton, os de Eisenstein. A este segundo gnero correspondiam

as primeiras travessuras de Chaplin, sem dvida apoiadas pela fotografia superficial, pela velocidade espectral da ao e pelos fraudulentos bigodes, insensatas

barbas postias, agitadas perucas e portentosas sobrecasacas dos atores. City lights no alcana essa realidade, e no convincente. Salvo a cega luminosa, que

tem o extraordinrio da beleza, e salvo Oprprio Charlie, sempre to disfarado e to tnue, todos os seus personagens so temerariamente normais. Seu destrambelhado

argumento pertence difusa tcnica conjuntiva de vinte anos atrs. Arcasmo e anacronismo tambm so gneros literrios, sei disso; mas seu uso deliberado algo

diferente de sua perpetrao infeliz. Consigno minha esperana - muitas vezes satisfeita - de no ter razo.

Em Morocco, de Sternberg, tambm perceptvel o cansao,embora em grau menos todo-poderoso e suicida. O laconismo fotogrfico, a organizao requintada, os procedimen

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#Drscussno

FILMES

tos oblquos e suficientes de Paixo e sangue foram substitudos aqui pela mera acumulao de figurantes, pelas largas pinceladas de excessiva cor local. Sternberg,

para significar Marrocos, no imaginou um meio menos brutal que a trabalhosa falsificao de uma cidade moura nos subrbios de Hollywood, com luxo de albornozes

e piscinas e altos muezins guturais que precedem a alvorada e camelos ao sol. Em compensao, seu argumento geral bom, e sua resoluo em claridade, em deserto,

em ponto de partida outra vez, a de nosso primeiro Martn Fierro ou a do romance Sanin, do russo Arzibshef. Morocco se deixa ver com simpatia, mas no com o prazer

intelectual que proporciona o herico O super-homem.

Os russos descobriram que a fotografia oblqua (e por conseguinte disforme) de um garrafo, de um cachao de touro ou de uma coluna possua valor plstico superior

de mil e um extras de Hollywood, rapidamente fantasiados de assrios e depois embaralhados at a vagueza total por Cecil B. de Mille. Tambm descobriram que as

convenes do Midde West - mritos da denncia e da espionagem, felicidade final e matrimonial, intacta integridade das prostitutas, concludente uppercut administrado

por um jovem abstmio - podiam ser trocadas por outras, no menos admirveis. (Assim, num dos mais altos filmes do Soviete, um encouraado bombardeia queima-roupa

o abarrotado porto de Odessa, sem outra mortandade que a de alguns lees de mrmore. Essa pontaria incua se deve ao fato de ser um virtuoso encouraado bolchevique.)

Tais descobertas foram propostas a um mundo saturado at o tdio pelas emisses de Hollywood. O mundo lhes fez as honras, e estendeu seu agradecimento a ponto de

pretender que a cinematografia sovitica havia obliterado para sempre a americana. (Eram os anos em que Alexander Block anunciava, com a peculiar inflexo de Walt

Whitman, que os russos eram citas.) Esqueceu-se, ou se quis esquecer, que a maior virtude do filme russo era sua interrupo de um regime californiano contnuo.

Esqueceu-se que era impossvel contrapor algumas boas ou excelentes violncias (Ivan, o Terrvel, O encouraado Potemkin, talvez Outubro) a uma vasta e

complexa literatura, exercitada com feliz desempenho em todos os gneros, desde a incomparvel comicidade (Chaplin, Buster Keaton e Langdon) at as puras invenes

fantsticas: mitologia do Krazy Kat e de Bimbo. Soou o alarme russo; Hollywood reformou ou enriqueceu alguns de seus hbitos cinematogrficos e no se preocupou

muito.

King Vidor, sim. Refiro-me ao desigual diretor de obras to memorveis quanto Aleluia e to desnecessrias e triviais quanto Billy the Kid: recatada historiao

das vinte mortes (sem contar mexicanos) do desordeiro mais afamado do Arizona, feita sem outro mrito que a profuso das tomadas panormicas e a metdica prescindncia

de dose-ups para significar o deserto. Sua obra mais recente, Street Scene, adaptada da comdia homnima do ex-expressionista Elmer Rice, est inspirada pelo mero

desejo negativo de no parecer "standard". H um insatisfatrio minimum de argumento. H um heri virtuoso, mas que manobrado por um valento. H um casal romntico,

mas toda unio legal ou sacramental lhes est proibida. H um glorioso e excessivo italiano, larger than life, que tem a seu evidente cargo toda a comicidade da

obra, e cuja vasta irrealidade recai tambm sobre seus colegas normais. H personagens que parecem de verdade, e h os fantasiados. No , substancialmente, uma

obra realista; a frustrao ou a represso de uma obra romntica.

Duas grandes cenas a exaltam: a do amanhecer, em que o belo processo da noite sintetizado pela msica; a do assassinato, que nos apresentado indiretamente, no

tumulto e na tempestade dos rostos.

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#A ARTE NARRATIVA E A MAGIA

A anlise dos procedimentos do romance conheceu pouca publicidade. A causa histrica desta continuada reserva a prioridade de outros gneros; a causa fundamental,

a quase inextricvel complexidade dos artifcios romanescos, que trabalhoso extrair da trama. O analista de uma obra forense ou de uma elegia dispe de um vocabulrio

especial e da facilidade de exibir pargrafos que se bastam; o de um longo romance carece de termos adequados e no pode ilustrar o que afirma com exemplos imediatamente

fidedignos. Peo, pois, um pouco de resignao com as verificaes que se seguem.

Comearei por considerar a face romanesca do livro The

Life and Death of Jason (1867), de William Morris. Meu objetivo

literrio, no histrico: da que deliberadamente omita qualquer estudo, ou aparncia de estudo, da filiao helnica do poema. Limito-me a transcrever que os

antigos - entre eles, Apolnio de Rodes - j haviam versificado as etapas da faanha argonutica, e mencionar um livro intermedirio, de 1474, Les

Faits et Prouesses du Noble et Vaillant Chevalier Jason, inacessvel

em Buenos Aires, naturalmente, mas que os comentadores ingleses poderiam rever.

O rduo projeto de Morris era a narrao verossmil das aventuras fabulosas de Jaso, rei de Iolco. A surpresa linear, recurso geral da lrica, no era possvel

nessa seqncia de mais de dez mil versos. Esta necessitava, antes de mais nada, de uma forte aparncia de veracidade, capaz de produzir essa espontnea suspenso

da dvida, que constitui, para Coleridge, a f potica. Morris consegue despertar essa f; quero investigar como.

Recorro a um exemplo do primeiro livro. son, antigo rei de Iolco, entrega seu filho tutela selvtica do centauro Quron.

A ARTE NARRATIVA E A MAGIA

O problema reside na difcil verossimilhana do centauro. Morris o resolve insensivelmente. Comea por mencionar essa estirpe, misturando-a com nomes de feras que

tambm so estranhas.

Where bears and wolves the centaurs" arrows find

explica sem assombro. Essa primeira meno, incidental, continuada, aps trinta versos, por outra, que se adianta descrio. O velho rei ordena a um escravo

que v com o menino at a selva, no sop dos montes, sopre numa trompa de marfim para

chamar o centauro, que ser (adverte) de grave fisionomia e robusto, e que se ajoelhe diante dele. Seguem-se as ordens at a terceira meno, enganosamente negativa.

O rei lhe recomenda que no tenha medo do centauro. Depois, demonstrando pesar pelo filho que vai perder, tenta imaginar sua vida futura na selva, entre os quick-eyed

centaurs - trao que os anima e que se justifica por sua famosa condio de arqueiros." O escravo cavalga com o menino e apeia ao amanhecer, diante de um bosque.

Embrenha-se a p entre os carvalhos, com o filhinho nas costas. Ento sopra uma trompa e espera. Um melro est cantando essa manh, mas o homem j pode perceber

um rumor de cascos, e sente um pouco de medo no corao, e se distrai do menino, empenhado em alcanar a trompa reluzente. Aparece Quron: dizem que antes seu plo

era malhado, mas agora ele est quase branco, no muito diferente da cor de sua cabeleira humana, e com uma coroa de folhas de carvalho na transio de besta a homem.

O escravo cai de joelhos. Anotemos, de passagem, que Morris pode no comunicar ao leitor sua imagem do centauro e nem mesmo convidar-nos a ter uma, basta-lhe nossa

contnua f em suas palavras, como no mundo real.

Idntica persuaso, embora mais gradual, a do episdio das sereias, no livro quatorze. As imagens preparatrias so de doura. A cortesia do mar, a brisa de aroma

alaranjado, a perigosa msica reconhecida primeiro pela feiticeira Media, sua prvia operao de felicidade nos rostos dos

1 Cf. o verso:

Cesare armnto, con gli occhi grifagni (Inferno N, 123).

24O

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#DiscussAo

marinheiros que mal tinham conscincia de ouvi-la, o fato verossmil de que no incio no se distinguiam bem as palavras, dito de modo indireto:

And by their faces could the queen behold How sweet it was, although no tale it told, To those worn toilers o"er the bitter sea,

antecedem a apario dessas divindades. Estas, ainda que finalmente avistadas pelos remeiros, esto sempre a alguma distncia, implcita na frase circunstancial:

for they were pear enow To see the gusty wind of evening bloca Long locks of hair across those bodies white With golden spray hiding some dear delight.

O ltimo pormenor: o orvalho de ouro - de seus violentos cachos, do mar, de ambos ou de outro qualquer? - ocultando alguma querida delcia, tem ainda outro objetivo:

o de significar sua atrao. Esse duplo intento repete-se na seguinte circunstncia: a neblina de lgrimas ansiosas, que ofusca a viso dos homens. (Ambos os artifcios

so da mesma ordem que o da coroa de ramos na figurao do centauro.) Jaso, desesperado at a ira pelas sereias,Z lhes d o epteto de bruxas do mar e faz

2 Ao longo do tempo, as sereias mudam de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do duodcimo livro da Odissia, no nos diz como eram; para Ovdio, so pssaros

de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolnio de Rodes, da metade do corpo para cima so mulheres, no restante, pssaros; para o mestre Tirso de Molina

(e para a herldica) "metade mulheres, metade peixes". No menos discutvel sua ndole; ele as chama de ninfas; o dicionrio clssico de Lemprire entende que

so ninfas, o de Quicherat que so monstros e o de Grimal que so demnios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadver de uma delas, Partnope,

foi encontrado em Campnia, e deu nome famosa cidade que agora tem o nome de Npoles, e o gegrafo Estrabo viu sua tumba e presenciou os jogos ginsticos e a

corrida com tochas que periodicamente eram celebrados em honra de sua memria.

A Odissia narra que as sereias atraam e perdiam os navegantes e que Ulisses, para ouvir seu canto e no perecer, tapou com cera os ouvidos de seus remeiros e ordenou

que o amarrassem ao mastro. Para tent-lo, as sereias prometiam o conhecimento de todas as coisas do mundo: "Ningum passou por aqui em seu negro lenho sem ter ouvido

de nossa boca a voz doce como o favo de mel, sem ter se deleitado com ela, sem ter prosseguido mais sbio. Porque sabemos todas as coisas;

cantar Orfeu, o dulcssimo. Vem a tenso, e Morris tem o maravilhoso escrpulo de nos avisar que as canes atribudas por ele boca no beijada das sereias e

de Orfeu no encerram mais que uma transfigurada lembrana do que ento foi cantado. A mesma preciso insistente de suas cores - as margens amarelas da praia, a

espuma dourada, a rosa gris - pode nos enternecer, porque parecem fragilmente salvas desse antigo crepsculo. Cantam as sereias para proporcionar uma felicidade

vaga como a gua - Such bodies garlanded with gold, so faint, so fair -; canta Orfeu contrapondo as venturas firmes da terra. As sereias prometem um indolente cu

submarino,

roofed over by the changeful sea (coberto pelo mar inconstante) con

forme repetiria - dois mil e quinhentos anos depois, ou s cinqenta? - Paul Valry. Cantam, e algo da discernvel contaminao de sua perigosa doura entra no canto

corretivo de Orfeu. Finalmente os argonautas passam, mas um altivo ateniense, finda a tenso e j longa a esteira atrs da nave, atravessa correndo as filas dos

remeiros e se atira, da popa, ao mar.

Passo a uma segunda fico, a Narrative of A. Gordon Pym (1838), de Poe. O secreto argumento desse romance o medo e a vilificao do branco. Poe imagina algumas

tribos que vivem nos arredores do Crculo Antrtico, perto da ptria inesgotvel dessa cor, e que geraes atrs sofreram a terrvel visita dos homens e das tempestades

da brancura. O branco

todos os afs sofridos por argivos e troianos na grande Trada por determinao dos deuses, e sabemos tudo o que acontecer na Terra fecunda" (Odissia, XII). Uma

tradio recolhida pelo mitlogo Apolodoro, em sua Biblioteca, narra que, da nau dos argonautas, Orfeu cantou com mais doura que as sereias e que estas se precipitaram

ao mar e foram transformadas em rochas, porque sua lei era morrer quando algum no sentisse seu feitio. Tambm a Esfinge se precipitou das alturas quando adivinharam

seu enigma.

No sculo VI, uma sereia foi capturada e batizada no norte de Gales, e chegou a figurar como santa em certos calendrios antigos, sob o nome de Murgan. Outra, em

14O3, passou por uma brecha num dique, e morou em Haarlem at o dia de sua morte. Ningum a entendia, mas a ensinaram a fiar e ela venerava a cruz como que por instinto.

Um cronista do sculo XVI argumentou que no era um peixe porque sabia fiar e que no era uma mulher porque podia viver na gua.

A lngua inglesa distingue a sereia clssica (siren) das que tm rabo de peixe (rnermads). Na formao destas ltimas haviam infludo, por analogia, os trites,

divindades do cortejo de Poseidon.

No dcimo livro da Reyblicn, oito sereias presidem a rotao dos oito cus concntricos.

Sereia: suposto animal marinho, lemos num dicionrio brutal.

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#DISCUSSO

A ARTE NARRATIVA E A MAGIA

antema para essas tribos e posso confessar que tambm o , por volta da ltima linha do ltimo captulo, para os condignos leitores. Os argumentos desse livro so

dois: um imediato, de vicissitudes martimas; outro infalvel, sigiloso e crescente, que s se revela no final. "Nomear um objeto", dizem que disse Mallarm, "

suprimir as trs quartas partes do prazer do poema, que reside na felicidade de ir adivinhando; o sonho sugeri-lo". Nego que o escrupuloso poeta tenha redigido

essa frivolidade numrica das trs quartas partes, mas a idia geral lhe convm e ele a realizou ilustremente em sua apresentao linear de um ocaso:

Victorieusement fuit le suicide beau

Tison de gloire, sang par cume, or, tempte!

A sugesto lhe veio, sem dvida, da Narrative of A. Gordon Pym. A prpria impessoal cor branca no mallarmeana? (Creio que Poe preferiu essa cor, por intuies

ou razes idnticas s declaradas depois por Melville, no captulo "The whiteness of the whale" de sua tambm esplndida alucinao Moby Dick.) Impossvel exibir

ou analisar aqui o romance inteiro, e limito-me a traduzir um trao exemplar, subordinado - como todos - ao secreto argumento. Trata-se da obscura tribo que mencionei

e dos riachos de sua ilha. Determinar que sua gua era vermelha ou azul teria sido recusar excessivamente toda possibilidade de brancura. Poe resolve esse problema

assim, enriquecendo-nos: "Primeiro nos negamos a prov-la, supondo que estivesse estragada. Ignoro como dar uma idia justa de sua natureza, e no o conseguirei

sem muitas palavras. Apesar de correr com rapidez por qualquer desnvel, nunca parecia lmpida, salvo ao despenhar-se num salto. Em casos de pouco declive, era to

consistente como uma infuso espessa de goma-arbica, feita em gua comum. Esta, no entanto, era a menos singular de suas qualidades. No era incolor nem era de

cor invarivel, j que sua fluncia propunha aos olhos todos os matizes da prpura, como os tons de uma seda furtacor. Deixamos que assentasse numa vasilha e comprovamos

que toda a massa do lquido estava separada em diversos veios, cada um de um tom particular, e que esses veios no se misturavam. Se a lmina de uma faca fosse passada

ao longo

de seus veios, a gua se fechava imediatamente, e ao se retirar a lmina o rastro desapareceria. Em compensao, quando a lmina era inserida com preciso entre

dois desses veios, ocorria uma perfeita separao, que depois no se emendava".

legtimo deduzir do anterior que o problema central da arte romanesca a causalidade. Uma das variantes do gnero, o moroso romance de personagem, imagina ou

dispe uma concatenao de motivos que se propem no diferir daqueles do mundo real. Esse caso, no entanto, no o mais comum. No romance de contnuas vicissitudes,

essa motivao improcedente, como ocorre no relato de breves pginas e no infinito romance espetacular que Hollywood compe com os prateados idola de Joan Crawford

e que as cidades relem. So regidos por uma ordem muito diversa, lcida e atvica. A primitiva claridade da magia.

Esse procedimento ou ambio dos antigos homens foi submetido por Frazer a uma conveniente lei geral, a da simpatia, que postula um vnculo inevitvel entre coisas

distantes, seja porque sua figura igual - magia imitativa, homeoptica -, seja pela existncia de uma proximidade anterior - magia contagiosa. Encontramos uma

ilustrao da segunda no ungento curativo de Kenelm Digby, que se aplicava no ao enfaixado ferimento, mas ao ao delinqente que o causou - enquanto aquele, sem

o rigor de brbaros tratamentos, ia cicatrizando. Da primeira os exemplos so infinitos. Os peles-vermelhas do Nebraska revestiam couros rangentes de biso com a

cornadura e a crina e martelavam dia e noite sobre o deserto uma dana tormentosa, para chamar os bises. Os feiticeiros da Austrlia Central causam um ferimento

no antebrao que faz o sangue correr, para que o cu imitativo ou coerente tambm se dessangre em chuva. Os malaios da Pennsula costumam atormentar ou denegrir

uma imagem de cera, para que seu original perea. As mulheres estreis de Sumatra cuidam de uma criana de madeira e a enfeitam, para que seu ventre seja fecundo.

Por iguais razes de analogia, a raiz amarela da curcuma serviu para combater a ictercia, e a infuso de urtigas deve ter combatido a urticria. impossvel enumerar

o catlogo inteiro desses atrozes ou irrisrios exemplos; creio, no entanto, ter citado o suficiente para demonstrar que a magia a coroao ou o pesadelo do causal,

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#DISCUSSO

A ARTE NARRATIVA E A MAGIA

no sua contradio. O milagre no menos forasteiro nesse universo que no dos astrnomos. Todas as leis naturais o regem, e outras imaginrias. Para o supersticioso,

h uma conexo necessria no s entre um tiro e um morto, mas tambm entre um morto e uma maltratada efgie de cera ou a quebra proftica de um espelho ou o sal

entornado ou treze comensais terrveis.

Essa perigosa harmonia, essa frentica e precisa causalidade, tambm tem vigncia dentro do romance. Os historiadores sarracenos, dos quais o doutor Jos Antonio

Conde

traduziu sua Historia de la Dominacin de los rabes en Espana,

no escrevem que seus reis e califas morreram, mas: "Foi conduzido s recompensas e prmios" ou "Passou misericrdia do Poderoso" ou "Esperou o destino tantos

anos, tantas luas e tantos dias". Esse receio de que um fato temvel possa ser atrado por sua meno impertinente ou intil na desordem asitica do mundo real,

no num romance, que deve ser um jogo preciso de vigilncias, ecos e afinidades. Todo episdio, num relato cuidadoso, de projeo ulterior. Assim, numa das fantasmagorias

de Chesterton, um desconhecido empurra um desconhecido para que um caminho no o atropele, e essa violncia necessria, mas alarmante, prefigura seu ato final de

declar-lo insano para que no possam execut-lo por um crime. Em outra, uma perigosa e vasta conspirao integrada por um nico homem (com o socorro de barbas,

mscaras e pseudnimos) anunciada com tenebrosa exatido no dstico:

As all stars shrivel in the single sun,

The words are many, but The Word is one

que depois se decifra, com permutao de maisculas:

The words are many, but the word is One.

Numa terceira, a maquette inicial - a simples meno de um ndio que atira sua faca em outro e o mata - o estrito reverti so do argumento: um homem apunhalado

por seu amigo com uma flecha, no alto de uma torre. Faca voadora, flecha que se deixa empunhar. Longa repercusso tm as palavras. J assinalei uma vez que s a

meno preliminar dos bastidores

cnicos contamina de incmoda irrealidade as figuraes do amanhecer, do pampa, do anoitecer, que Estanislao del Campo intercalou no Fausto. Essa teleologia de palavras

e de episdios onipresente tambm nos bons filmes. No incio de The Showdown, alguns aventureiros jogam uma prostituta nas cartas, ou seu turno; ao terminar, um

deles jogou a posse da mulher que deseja. O dilogo inicial de Paixo e sangue versa sobre a delao, a primeira cena um tiroteio numa avenida; esses traos so

premonitrios do assunto central. Em Desonrada h temas recorrentes: a espada, o beijo, o gato, a traio, as uvas, o piano. Mas a ilustrao mais cabal de um orbe

autnomo de corroboraes, de pressgios, de monumentos, o predestinado. Ulisses de Joyce. Basta examinar o livro expositivo de Gilbert ou, em sua falta, o vertiginoso

romance.

Procuro resumir o anterior. Distingui dois processos causais: o natural, que o resultado incessante de incontrolveis e infinitas operaes; o mgico, em que os

pormenores profetizam, lcido e limitado. No romance, penso que a nica honradez possvel est no segundo. Que fique o primeiro para a simulao psicolgica.

1932

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#PAUL GROUSSAC

Verifiquei em minha biblioteca dez tomos de Groussac.

Sou um leitor hedonista: jamais consenti que meu sentimento

do dever interferisse em inclinao to pessoal como a

aquisio de livros, nem lancei a sorte duas vezes com autor

intratvel, eludindo um livro anterior com um livro novo,

nem comprei livros - grosseiramente - aos montes. Essa per

severante dezena evidencia, pois, a contnua legibilidade de

Groussac, a condio que em ingls se chama readableness. Em espanhol virtude rarssima: todo estilo escrupuloso contagia os leitores com uma sensvel poro da

doena com que foi trabalhado. Alm de Groussac, s em Alfonso Reyes comprovei igual ocultao ou invisibilidade do esforo.

O elogio, apenas, no iluminativo; precisamos de uma definio de Groussac. A tolerada ou recomendada por ele - a de consider-lo mero viajante da discrio de

Paris, um missionrio de Voltaire entre os mulatos - deprecia a nao que o afirma e o homem que se pretende realar, subordinando-o a empregos to escolares. Nem

Groussac foi um homem clssico - essencialmente Jos Hernndez o foi muito mais - nem foi necessria essa pedagogia. Por exemplo: o romance argentino no ilegvel

por faltar-lhe mesura, mas por falta de imaginao, de fervor. Posso dizer o mesmo de nosso viverem geral.

evidente que houve em Paul Groussac outra coisa alm das repreenses do professor, da santa clera da inteligncia diante da inaptido aclamada. Houve um prazer

desinteressado no desdm. Seu estilo se acostumou a desprezar, creio que sem maior desconforto para quem o exercia. O facit indignado versum no nos diz a razo

de sua prosa: mortal e punitiva mais de uma vez, como em certa causa clebre de La Biblioteca, mas em geral reservada, cmoda na ironia, retrtil. Soube depreciar

bem, at

PAUL GROUSSAC

com carinho; foi impreciso ou inconvincente para elogiar. Basta percorrer as prfidas e belas conferncias que tratam de Cervantes e depois a vaga apoteose de Shakespeare;

basta cotejar essa boa ira - "Lamentaramos que a circunstncia de ter-se posto venda o arrazoado do doutor Pinero fosse um obstculo srio para sua difuso, e

que este amadurecido fruto de um ano e meio de vagar diplomtico se limitasse a causar "impress" na casa de Coni. Isso no acontecer, com a graa de Deus, e pelo

menos enquanto depender de ns, no se cumprir to melanclico destino" -, com estas ignomnias ou incontinncias: "Depois do dourado triunfo das messes que ao

chegar presenciara, o que agora contemplo, nos horizontes esfumados pela nvoa azul, a festa alegre da vindima, que envolve numa imensa guirlanda de saudvel poesia

a rica prosa dos lagares e fbricas. E longe, muito longe dos estreis bulevares e seus teatros enfermios, senti de novo sob meus ps o estremecimento da antiga

Cbele, eternamente fecunda e jovem, para quem o repousado inverno no passa da gestao da primavera prxima..." Ignoro se ser possvel deduzir que ele requisitava

o bom gosto com fins exclusivos de terrorismo, e o mau para uso pessoal.

No h morte de escritor sem a imediata formulao de um problema fictcio, que reside em indagar - ou profetizar - que parte de sua obra permanecer. Esse problema

generoso, j que postula a possvel existncia de fatos intelectuais eternos, alm da pessoa ou circunstncias que os produziram; mas tambm ruim, porque parece

farejar corrupes. Afirmo que o problema da imortalidade , principalmente, dramtico. Persiste o homem total, ou desaparece. Os equvocos no prejudicam: se so

caractersticos, so preciosos. Groussac, pessoa inconfundvel, Renan queixoso de sua glria inalcanvel, no pode deixar de permanecer. Sua mera imortalidade sulamericana

corresponder inglesa de Samuel Johnson: os dois autoritrios, doutos, mordazes.

A incmoda sensao de que nas primeiras naes da Europa ou na Amrica do Norte ele teria sido um escritor quase imperceptvel far com que muitos argentinos lhe

neguem primazia em nossa desmantelada repblica. Ela, no entanto, lhe pertence.

1929

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#A DURAO DO INFERNO

Especulao que se foi gastando com o tempo, essa do Inferno. Os prprios pregadores o negligenciam, quem sabe privados da pobre, mas servial, aluso humana, que

as fogueiras eclesisticas do Santo Ofcio eram neste mundo: um tormento temporal, sem dvida, mas no indigno, dentro das limitaes terrenas, de ser uma metfora

do imortal, da dor perfeita sem destruio, que os herdeiros da ira divina conhecero para sempre. Seja ou no satisfatria essa hiptese, indiscutvel um cansao

geral na propaganda desse estabelecimento. (Que ningum se assuste: o termo propaganda no de genealogia comercial, mas catlica; uma reunio de cardeais.) No

sculo II, o cartagins Tertuliano podia imaginar o Inferno e prever seu funcionamento com este discurso: Agradam-vos as representaes; pois esperai a maior, o

Juzo Final. Qual no ser minha admirao, que gargalhadas, que celebraes, que jbilo, ao ver tantos reis soberbos e deuses enganosos sofrendo na priso mais

nfima das trevas; quantos magistrados que perseguiram o nome do Senhor, derretendo em fogueiras mais ferozes do que as que jamais foram atiadas contra os cristos;

quantos filsofos srios rubificando-se nas fogueiras vermelhas com seus iludidos ouvintes; quantos poetas aclamados tremendo, no diante do tribunal de Midas, mas

do de Cristo; quantos atores trgicos, agora mais eloqentes na manifestao de um tormento to genuno... (De Spectaculis, 3O; citao e verso de Gibbon) O prprio

Dante, em sua grande tarefa de prever de modo anedtico algumas decises da Justia divina relacionadas com-4o Norte da Itlia, ignora tal entusiasmo. Depois, os

infernos literrios de Quevedo - mera oportunidade espirituosa de anacronismos - e de Torres Villarroel - mera oportunidade de metforas - s

!~ DURAO DO INFERNO

evidenciaro a crescente usura do dogma. A decadncia do Inferno aparece neles quase como em Baudelaire, j to incrdulo dos tormentos eternos que finge ador-los.

(Uma etimologia significativa deriva o incuo verbo francs gner da poderosa palavra da Escritura gehenna.)

Passo a considerar o Inferno. O artigo distrado e pertinente do Diccionario Enciclopdico Hispanoamericano de leitura til, no por suas indigentes notcias ou

por sua espavorida teologia de sacristo, mas pela perplexidade que deixa entrever. Comea por observar que a noo de inferno no exclusiva da Igreja catlica,

precauo cujo sentido intrnseco : "Que os maons no venham dizer que essas brutalidades foram introduzidas pela Igreja", mas se lembra ato contnuo de que o

Inferno dogma, e acrescenta com certa pressa: "E glria imarcescvel do cristianismo atrair para si todas as verdades que estavam disseminadas entre as falsas

religies". Seja o Inferno um dado da religio natural ou apenas da religio revelada, a verdade que nenhum outro tema da teologia tem para mim igual fascnio

e poder. No me refiro mitologia simplssima de cortio - esterco, espetos, fogo e tenazes - que foi vegetando a seus ps e que todos os escritores repetiram,

para desonra de sua imaginao e de sua decncia." Refiro-me estrita noo - lugar de castigo eterno para os maus - que constitui o dogma, sem outra obrigao

que a de situ-lo in loco reali, num lugar preciso, e a beatorum sede distincto, diverso do que habitam os eleitos. Imaginar o contrrio seria sinistro. No captulo

qinquagsimo de sua Histria, Gibbon quer despossuir de maravilhas o Inferno, e escreve que os dois vulgarssimos ingredientes de fogo e de escurido bastam para

criar uma sensao de dor, que pode ser infinitamente agravada pela idia de uma perdurao sem fim. Esse reparo rabugento talvez prove que a preparao de infernos

fcil, mas no diminui o espanto admirvel de sua inveno. O atributo de eternidade o horroroso. O de continuidade - o

1 No entanto, o amnteur de infernos far bem em no descuidar dessas honrosas infraes: o inferno sabeta, com quatro vestbulos superpostos que admitem fffetes

de gua suja no cho, mas cujo recinto principal amplo, empoeirado, sem ningum; o

inferno de Swedenborg, cuja lugubridade no notada pelos condenados que renegaram o cu; o inferno de Bernard Shaw (Man and Superman, pgs. 86-13~, que distrai

inufilmente sua eternidade com os artifcios do luxo, da arte, da ertica e do renome.

25O

251

#DiscvssAo

fato de que a perseguio divina carece de intervalos, de que no Inferno no h sonho - ainda pior, mas impossvel de ser imaginado. A eternidade da pena o que

est em questo.

H dois argumentos importantes e belos para invalidar essa eternidade. O mais antigo o da imortalidade condicional ou aniquilao. A imortalidade, expe esse compreensvel

arrazoado, no atributo da natureza humana cada, dom de Deus em Cristo. No pode ser mobilizada, portanto, contra o mesmo indivduo a quem outorgada. No

uma maldio, um dom. Quem a merece a merece com cu; quem se prova indigno de receb-la, morre para morrer, como escreve Bunyan, morre, sem mais. O inferno,

segundo essa piedosa teoria, o nome humano blasfematrio do esquecimento de Deus. Um de seus propagadores foi Whately, o autor do opsculo de famosa

lembrana: Dvidas Histricas sobre Napoleo Bonaparte.

Especulao mais curiosa a apresentada pelo telogo evanglico Rothe, em 1869. Seu argumento - enobrecido tambm pela secreta misericrdia de negar o castigo infinito

dos condenados - observa que eternizar o castigo eternizar o Mal. Deus, afirma ele, no pode querer essa eternidade para Seu universo. Insiste no escndalo de

supor que o homem pecador e o diabo caoem para sempre das benvolas intenes de Deus. (A teologia sabe que a criao do mundo obra de amor. O termo predestinao,

para ela, refere-se predestinao para a glria; a reprovao simplesmente o oposto, uma no eleio traduzvel em pena infernal, mas que no constitui um

ato especial da bondade divina.) Defende, enfim, uma vida decrescente, minguante, para os rprobos. E os antev saqueando pelas margens da Criao, pelos desvos

do espao infinito, mantendo-se com sobras de vida. Conclui desse modo: Como os demnios esto incondicionalmente afastados de Deus e so seus inimigos incondicionais,

sua atividade contra o reino de Deus, e os organiza em remo diablico, que deve naturalmente eleger um chefe. A cabea desse governo demonaco - o Diabo - deve

ser imaginada como cambiante. Os indivduos que assumem o trono desse reino sucumbem fantasmagoria de seu ser, mas se renovam entre a descendncia diablica. (Dogmatik,

I, 248.)

Chego parte mais inverossmil de minha tarefa: as razes elaboradas pela humanidade a favor da eternidade do

A DURAO DO INFERNO

inferno. Vou resumi-las em ordem crescente de significao. A primeira de ndole disciplinar: postula que a temibilidade do castigo est precisamente em sua eternidade

e que coloc-la em dvida invalidar a eficcia do dogma e fazer o jogo do Diabo. argumento de ordem policial, e no creio que merea refutao. O segundo prescreve:

"A pena deve ser infinita porque a culpa o , por atentar contra a majestade do Senhor, que Ser infinit". Observou-se que esta demonstrao to probatria que

podemos inferir que no prova nada: prova que no h culpa venial, que todas as culpas so imperdoveis. Eu acrescentaria que um caso perfeito de frivolidade escolstica

e que seu equvoco a pluralidade de sentidos do termo infinito, que aplicado ao Senhor quer dizer incondicionado, e a pena quer dizer incessante, e a culpa, nada

que eu possa entender. Alm do mais, argumentar que uma falta infinita por atentar contra Deus, que Ser infinito, como argumentar que santa porque Deus o

, ou como pensar que as injrias dirigidas a um tigre devem ser rajadas.

Agora se levanta sobre mim o terceiro dos argumentos, o nico. Talvez se escreva assim: "H eternidade de cu e de inferno porque a dignidade do livre-arbtrio assim

o pede; ou temos a faculdade de agir para sempre ou este eu uma deluso". A virtude desse raciocnio no lgica, muito mais: inteiramente dramtica. Impe-nos

um jogo terrvel, concede-nos o direito atroz de nos perdermos, de insistirmos no mal, de recusarmos as operaes da graa, de sermos alimento do fogo que no finda,

de fazermos Deus fracassar em nosso destino, do corpo sem claridade no eterno e do detestabile cum cacodaemonibus consortium. Teu destino coisa verdadeira, nos

diz, condenao eterna e salvao eterna esto em teu minuto; essa responsabilidade tua honra. um sentimento parecido ao de Bunyan: "Deus no brincou ao convencer-me,

o demnio no brincou ao me tentar, nem eu brinquei ao mergulhar como num abismo sem fundo, quando as aflies do inferno se apoderaram de mim; tampouco devo brincar

agora ao cont

las". (trace abounding to the chief of sinners; the preface.)

Creio que em nosso impensvel destino, em que vigoram infmias como a dor carnal, toda coisa estapafrdia possvel, at a perpetuidade de um Inferno, mas tambm

acredito que uma irreligiosidade acreditar nele.

252

253

#D~scossno

Ps-escrito. Nesta pgina de mera notcia, posso comunicar tambm a de um sonho. Sonhei que saa de outro - povoado de cataclismos e de tumultos - e que acordava

num cmodo irreconhecvel. Clareava: uma difusa luz geral definia o p da cama de ferro, a cadeira estrita, a porta e a janela fechadas, a mesa em branco. Pensei

com medo, onde estou?, e compreendi que no sabia. Pensei, quem sou?, e no pude me reconhecer. O medo cresceu em mim. Pensei: Esta viglia desconsolada j o Inferno,

esta viglia sem destino ser minha eternidade. Ento acordei de verdade: tremendo.

254

AS VERSES HOMRICAS

Nenhum problema to consubstancia) com as letras e seu modesto mistrio como o que prope uma traduo. Um esquecimento animado pela vaidade, o temor de confessar

processos mentais que adivinhamos perigosamente comuns, o esforo para manter intacta e central uma reserva incalculvel de sombra, velam as tais escrituras diretas.

A traduo, por sua vez, parece destinada a ilustrar a discusso esttica. O modelo proposto sua imitao um texto visvel, no um labirinto inestimvel de projetos

pretritos ou a acatada tentao momentnea de uma facilidade. Bertrand Russell define um objeto externo como um sistema circular, irradiante, de impresses possveis;

pode-se dizer o mesmo de um texto, em face das repercusses incalculveis do verbal. Um parcial e precioso documento das vicissitudes que sofre permanece em suas

tradues. O que so as vrias verses da Ilada, de Chapman a Magnien, seno diversas perspectivas de um fato mvel, seno um longo lance experimental de omisses

e de nfases? (No h necessidade essencial de mudar de idioma, esse deliberado jogo da ateno no impossvel no interior de uma mesma literatura.) Pressupor

que toda recombinao de elementos obrigatoriamente inferior a seu original, pressupor que o rascunho 9 obrigatoriamente inferior ao rascunho H - j que no

pode haver seno rascunhos. O conceito de texto definitivo no corresponde seno religio ou ao cansao.

A superstio da inferioridade das tradues - amoedada no consabido adgio italiano - procede de uma distrada experincia. No h um bom texto que no parea invarivel

e definitivo se o praticamos um nmero suficiente de vezes. Hume identificou a idia habitual de causalidade com a sucesso. Assim, um bom filme, visto uma segunda

vez, parece ainda

255

#Discusso

melhor; tendemos a considerar necessidade o que no passa

de repetio. Com os livros famosos, a primeira vez j segun

da, posto que j os abordamos sabendo-os. A precavida e cor

riqueira frase reler os clssicos se reveste de inocente veraci

dade. J no sei se o relato: "En un lugar de la Mancha, de

cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia un hidalgo de los de lama en astillero, adarga antigua, rocn flaco y galgo corredor", bom para uma

divindade imparcial; sei apenas que toda modificao sacrlega e que no consigo imaginar outro comeo para o Quixote. Cervantes, creio, prescindiu dessa leve

superstio, e talvez no tivesse identificado esse pargrafo. Eu, em compensao, s poderei rejeitar qualquer divergncia. O Quixote, graas a meu exerccio congnito

do espanhol, um monumento uniforme, sem outras variaes que as deparadas pelo editor; o encadernador e o tipgrafo; a Odissia, graas a meu oportuno desconhecimento

do grego, uma biblioteca internacional de obras em prosa e verso, desde os versos de rimas emparelhadas de Chapman at a Authorized Uersion de Andrew Lang ou o

drama clssico francs de Brard ou a saga vigorosa de Morris ou o irnico romance burgus de Samuel Butler. Sou generoso na meno de nomes ingleses, porque as

letras da Inglaterra sempre conviveram com essa epopia do mar, e a srie de suas verses da Odissia bastaria para ilustrar seu curso de sculos. Essa riqueza heterognea

e mesmo contraditria no aplicvel especialmente evoluo do ingls ou mera extenso do original ou aos desvios ou diversa capacidade dos tradutores, mas

a esta circunstncia, que deve ser exclusiva de Homero: a dificuldade categrica de saber o que pertence ao poeta e o que pertence linguagem. A essa dificuldade

feliz devemos a possibilidade de tantas verses, todas sinceras, genunas e divergentes.

No conheo exemplo melhor que o dos adjetivos homricos. O divino Ptroclo, a terra sustentadora, o mar vinoso, os cavalos solpedes, as ondas molhadas, o lenho

negro, o negro sangue, os amados joelhos, so expresses que recorrem, comovedoramente a destempo. Num lugar, fala-se dos ricos vares que bebem a gua negra do

Esepo; noutro, de um rei trgico, que, infeliz em Tebas, a deliciosa, governou os cadmeus, por determinao fatal dos deuses. Alexander Pope (cuja traduo

AS VERSES HOMRICAS

faustuosa de Homero interrogaremos depois) acreditou que esses eptetos inamovveis eram de carter litrgico. Remy de Gourmont, em seu longo ensaio sobre o estilo,

escreve que devem ter sido encantadores algum dia, embora no o sejam mais. Preferi imaginar que esses fiis eptetos eram o que ainda so as preposies: obrigatrios

e modestos sons que o uso acrescenta a certas palavras e sobre os quais no se pode exercer a originalidade. Sabemos que o correto construir andar a p, no por

p. O rapsodo sabia que o correto era adjetivar divino Ptroclo. Em nenhum caso haveria propsito esttico. Fao essas conjeturas sem entusiasmo; a nica certeza

a impossibilidade de separar o que pertence ao escritor do que pertence linguagem. Quando lemos em Agustn 1Vloreto (se resolvermos ler Agustn Moreto):

Pois em casa to compostas O que fazem todo santo dia?

sabemos que a santidade desse dia ocorrncia do idioma e no do escritor. J de Homero ignoramos infinitamente as nfases.

Para um poeta lrico ou elegaco, essa nossa incerteza de suas intenes teria sido aniquiladora, mas no para um expositor pontual de vastos argumentos. Os fatos

da Ilada e da Odissia sobrevivem com plenitude, mas desapareceram Aquiles e Ulisses, o que Homero imaginava ao nome-los e o que na realidade pensou deles. O presente

estado de suas obras parece o de uma complicada equao que registra relaes precisas entre quantidades incgnitas. No h maior riqueza possvel para os que traduzem.

O livro mais famoso de Browning consta de dez informaes detalhadas de um nico crime, segundo os implicados nele. Todo o contraste deriva dos personagens, no

dos fatos, e quase to intenso e to abismal quanto o de dez verses justas de Homero.

A bela discusso Newman-Arnold (1861-1862), mais importante que seus dois interlocutores, discorreu extensamente sobre os dois modos bsicos de traduzir. Newman

defendeu o modo literal, a manuteno de todas as singularidades verbais; Arnold, a severa eliminao dos detalhes que distraem ou detm, a subordinao do sempre

irregular

256

257

#DISCUSSO

Homero de cada linha ao Homero essencial ou convencional, feito de simplicidade sinttica, de simplicidade de idias, de rapidez que flui, de altura. Esta conduta

pode fornecer os agrados da uniformidade e da seriedade; aquela, dos contnuos e pequenos assombros.

Passo a considerar alguns destinos de um nico texto homrico. Examino os fatos comunicados por Ulisses ao espectro de Aquiles, na cidade dos cimrios, na noite

incessante (Odissia, XI). Trata-se de Neoptlemo, o filho de Aquiles. A verso literal de Buckley esta: "Mas ao saquearmos a alta cidade de Pramo, tendo sua

poro e prmio excelente, inclume embarcou numa nau, nem maltratado pelo bronze afiado nem ferido ao combater corpo a corpo, como to comum na guerra; porque

Marte confusamente delira". A dos tambm literais mas arcaizantes Butcher e Lang: "Mas, uma vez saqueada a escarpada cidade de Pramo, embarcou ileso com sua parte

do despojo e com um nobre prmio; no foi destrudo pelas lanas agudas nem teve ferimentos no cerrado combate: e muitos tais riscos h na guerra, porque Ares enlouquece

confusamente". A de Cowper, de 1791: "Por fim, depois que saqueamos a sublevada vila de Pramo, carregado de abundantes despojos seguro embarcou, nem por lana ou

venbulo em nada ofendido, nem na refrega pelo fio dos alfanjes, como na guerra costuma acontecer, em que os ferimentos so repartidos promiscuamente, segundo a

vontade do fogoso Marte". A que em 1725 Pope dirigiu: "Quando os deuses coroaram de conquista as armas, quando os soberbos muros de Tria fumegaram por terra, a

Grcia, para recompensar as galhardas fadigas de seu soldado, cumulou sua armada de incontveis despojos. Assim, grande de glria, voltou seguro do estrondo marcial,

sem uma cicatriz hostil, e embora as lanas se fechassem sua volta em tormentas de ferro, seu jogo intil foi inocente de ferimentos". A de George Chapman, de

1614: "Despovoada Tria, a alta, ascendeu a seu belo navio, com grande proviso de presa e de tesouro, seguro e sem levar nem um rastro de lana que se atira de

longe ou de perigosa espada, cujos ferimentos so favores que a guerra concede, que ele (embora solicitado) no encontrou. Nas cerradas batalhas, Marte no costuma

contender: enlouquece". A de Butler, que de 19OO: "Uma vez ocupada a cidade, ele

258

AS VERSES HOMRICAS

pde apanhar e embarcar sua parte de benefcios havidos, que era uma forte soma. Saiu sem um arranho de toda essa perigosa campanha. J se sabe: tudo est em ter

sorte".

As duas verses do incio - as literais - podem comover por uma srie de motivos: a meno reverencia) do saque, o ingnuo esclarecimento de que as pessoas costumam

machucar-se na guerra, a sbita reunio das infinitas desordens da batalha num nico deus, o fato da loucura no deus. Outros elementos subalternos tambm colaboram:

num dos textos que transcrevo, o bom pleonasmo de embarcar num barco; noutro, o uso da conjuno aditiva pela causal," em e muitos tais riscos h na guerra. A terceira

verso - a de Cowper - a mais incua de todas: literal, at onde os deveres da inflexo miltoniana o permitem. A de Pope extraordinria. Seu luxuoso dialeto

(como o de Gngora) deixa-se definir pelo uso desconsiderado e mecnico dos superlativos. Por exemplo: a solitria nave negra do heri se multiplica em esquadra.

Sempre subordinadas a essa. amplificao geral, todas as linhas de seu texto

1 Outro hbito de Homero o bom abuso das conjunes adversativas. Dou alguns exemplos:

Morre, mas eu receberei meu destino onde aprouver a Zeus e aos demns deuses imor

tais. Ilada, XXII.

Astfoque, filha de Actor: uma virgem modesta quando ascendeu parte superior da

morada de seu pai, mas o deus abraou-a secretamente. Ilada, II.

(Os mirmdes) eram como lobos carnvoros, em cujos coraes h fora, que tendo der

rubado nas montanhas um grande cervo galhada, dilacerando-o o devoram; mas os focinhos

de todos es"tfio vermelhos de sangue. Ilada, XVI.

Rei Zeus, dodoneu, pelnsgo, que preside longe daqui sobre a invernal Dodona; mas ao

redor moram teus ministros, que tnt os ps sem Lavar e dormem no cho. Ilada, XVI. Mulher; alegra-te com nosso amor, e gru+ndo o ano virar dars filhos gloriosos

luz -

porque os feitos dos imortais ruo so em vo -, mas assiste-os. Uai-te agora a tua ursa e no O

reveles, mos sou Poseidon, estremecedor da terra. Odissia, XI.

Depois percebi o vigor de Hrcules, umn imagem; mas ele entre os deuses imortais se

alegra com banquetes, e tem Hebe, a dos belos tornozelos, filbm do poderoso Zeus e de Hera,

a de snndlias que so de ouro. Odissia, XI.

Acrescento a vistosa traduo que George Champman fez desta ltima passagem:

Down evith these zons thrust The ido) of Nre force of Hrcules, But Iris frrn self did no sudr fate oppress.

Hz feasting lives arnongst th"Inurnorial States White-ankled Hebe and himsel f nade mates In heav"nly rruptials. Hebe, Jove"s dear roce Arrd Juno"s whmn the golden

sandals graee.

259

#Dt$C[JS$Ao

caem em duas grandes classes: umas, na puramente oratria -

Quando os deuses coroaram de conquista as armas -; outras, na visual: Quando os soberbos muros de Tria fumegaram por terra.

Discursos e espetculos: esse Pope. Tambm espetacular o ardente Chapman, mas seu movimento lrico, no oratrio. Butler, por sua vez, demonstra sua determinao

de eludir todas as oportunidades visuais e de resolver o texto de Homero numa srie de notcias tranqilas.

Qual dessas muitas tradues fiel? talvez queira saber meu leitor. Repito que nenhuma, ou que todas. Se a fidelidade deve ser prestada s imaginaes de Homero,

aos irrecuperveis homens e dias que ele imaginou, nenhuma pode s-lo para ns; todas, para um grego do sculo X. Se aos propsitos que ele teve, qualquer uma das

muitas que transcrevi, salvo as literais, que extraem toda sua virtude do contraste com hbitos presentes. No impossvel que a verso morna de Butler seja a mais

fiel.

1932

A PERPTUA CORRIDA DE AQUILES

E DA TARTARUGA

As implicaes da palavra jia - valiosa pequenez, delicadeza que no est sujeita fragilidade, facilidade mxima de translao, limpidez que no exclui o impenetrvel,

flor para os anos - tornam seu uso legtimo aqui. No conheo melhor qualificao para o paradoxo de Aquiles, to indiferente s decisivas refutaes que h mais

de vinte e trs sculos o derrogam, que j podemos saud-lo como imortal. As reiteradas visitas do mistrio que essa perdurao postula, as sutis ignorncias a que

a humanidade foi por ela convidada, so generosidades que no podemos deixar de agradecerlhe. Vamos viv-la outra vez, ao menos para convencer-nos de perplexidade

e arcano ntimo. Penso dedicar algumas pginas - alguns minutos compartilhados - a sua apresentao e de suas mais famosas ressalvas. Sabe-se que seu inventor

foi Zeno de Elia, discpulo de Parmnides, pegador de que algo pudesse acontecer no universo.

A biblioteca me oferece um par de verses do glorioso paradoxo. A primeira a do hispanssimo Diccionario Hispanoamericano, em seu vigsimo terceiro volume, e se

limita a esta cautelosa notcia: "O movimento no existe: Aquiles no poderia alcanar a preguiosa tartaruga". Declino essa reserva e busco a menos apressada exposio

de G. H. Lewes, cuja Biographical History of Philosophy foi a primeira leitura especulativa que abordei, por vaidade, talvez, ou por curiosidade. Escrevo assim sua

exposio: Aquiles, smbolo de rapidez, tem de alcanar a tartaruga, smbolo de morosidade. Aquiles corre dez vezes mais rpido que a tartaruga e lhe d dez metros

de vantagem. Aquiles corre esses dez metros, a tartaruga corre um; Aquiles corre esse metro, a tartaruga corre

26O

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#DISCUSSO

um decmetro; Aquiles corre esse decmetro, a tartaruga corre um centmetro; Aquiles corre esse centmetro, a tartaruga um milmetro; Aquiles o milmetro, a tartaruga

um dcimo de milmetro, e assim infinitamente, de modo que Aquiles pode correr para sempre sem alcan-la. Tal o paradoxo imortal.

Passo s chamadas refutaes. As mais antigas - a de Aristteles e a de Hobbes - esto implcitas na formulada por Stuart Mill. O problema, para ele, no passa de

um exemplo, entre tantos outros, da falcia de confuso. Acredita, com esta distino, suprimi-lo:

Na concluso do sofisma, para sempre quer dizer qualquer lapso de tempo imaginvel; nas premissas, qualquer nmero de subdivises de tempo. Significa que podemos

dividir dez unidades por dez, e o quociente outra vez por dez, quantas vezes quisermos, e que as subdivises do percurso no tm fim, nem, por conseguinte, as do

tempo em que se realiza. Mas um nmero ilimitado de subdivises pode se efetuar com o que limitado. O argumento no prova outra infinitude de durao que a contida

em cinco minutos. Enquanto os cinco minutos no tiverem passado, o que falta pode ser dividido por dez, e outra vez por dez, e quantas vezes desejarmos, o que

compatvel com o fato de que a durao total seja cinco minutos. Prova, em suma, de que atravessar esse espao finito requer um tempo infinitamente divisvel, mas

no infinito. (Mill, Sistema de Lgica, livro quinto, captulo sete.)

No posso prever a opinio do leitor, mas estou sentindo que a refutao elaborada por Stuart Mill no passa de uma exposio do paradoxo. Basta fixar a velocidade

de Aquiles a um segundo por metro, para estabelecer o tempo de que necessita.

1 1 1 1

1O + 1 + + + +

1O 1OO 1.OOO 1O.OOO

O limite da soma desta infinita progresso geomtrica doze (mais exatamente, onze e um quinto; mais exatamente, onze e trs vinte e cinco avos), mas no alcanado

nunca. Ou seja, o trajeto do heri ser infinito e este correr para sempre, mas sua rota se extenuar antes de doze metros, e sua eternidade no ver o trmino

de doze segundos. Essa dis

262

A PERPTUA CORRIDA DE AQUILES E DA TARTARUGA

soluo metdica, essa ilimitada queda em precipcios cada vez mais minsculos, no realmente hostil ao problema: imagin-lo bem. No esqueamos tampouco de

comprovar que os corredores decrescem, no s pela diminuio visual da perspectiva, mas pela diminuio admirvel a que os obriga a ocupao de lugares microscpicos.

Notemos tambm que esses precipcios encadeados corrompem o espao, e com maior vertigem o tempo vivo, em sua dupla perseguio desesperada da imobilidade e do xtase.

Outra tentativa de refutao foi a comunicada em mil novecentos e dez por Henri Bergson, com o notrio Ensaio sobre os Dados Imediatos da Conscincia: o prprio

nome j uma petio de princpios. Aqui est sua pgina:

"Por um lado, atribumos ao movimento a prpria divisibilidade do espao que percorre, esquecendo que pode dividir-se bem um objeto, mas no um ato; por outro, habituamo-nos

a projetar esse mesmo ato no espao, a aplic-lo linha que percorre o mvel, a solidific-lo, numa palavra. Desta confuso entre o movimento e o espao percorrido

nascem, em nossa opinio, os sofismas da escola de Elia; porque o intervalo que separa dois pontos infinitamente divisvel, e se o movimento se compusesse de

partes como as do intervalo, jamais o intervalo seria transposto. Mas a verdade que cada um dos passos de Aquiles um indivisvel ato simples, e que, depois de

determinado nmero desses atos, Aquiles teria ultrapassado a tartaruga. A iluso dos eleatas provinha da identificao dessa srie de atos individuais sui generis

com o espao homogneo que os apia. Como esse espao pode ser dividido e recomposto segundo uma lei qualquer, acreditaram-se autorizados a refazer o movimento total

de Aquiles, no mais com passos de Aquiles, mas com passos de tartaruga. Substituram Aquiles perseguindo uma tartaruga, na realidade, por duas tartarugas dispostas

uma sobre a outra, duas tartarugas de acordo em dar o mesmo tipo de passos ou de atos simultneos, para jamais se alcanarem. Por que Aquiles ultrapassa a tartaruga?

Porque cada um dos passos de Aquiles e cada um dos passos da tartaruga so indivisveis enquanto movimentos, e magnitudes distintas enquanto espao: de sorte que

no tardar em dar-se a soma, para o espao percorrido por Aquiles, como uma longitude

263

#Discusso

superior soma do espao percorrido pela tartaruga e da vantagem que tinha em relao a ele. o que Zeno desconsidera quando recompe o movimento de Aquiles,

segundo a mesma lei que rege o movimento da tartaruga, esquecendo que s Oespao se presta a um modo decomposio e decomposio arbitrrias, e confundindo-o, assim,

com o movimento." (Dados Imediatos, verso espanhola de Barns, pgs. 89, 9O. Corrijo, de passagem, alguma distrao evidente do tradutor.) O argumento concessivo.

Bergson admite que o espao infinitamente divisvel, mas nega que o tempo o seja. Exibe duas tartarugas em lugar de uma para distrair o leitor. Atrela um tempo

e um espao que so incompatveis: o brusco tempo descontnuo de James, com sua perfeita efervescncia de novidade, e o espao divisvel at o infinito da crena

comum.

Aporto, por eliminao, nica refutao que conheo, nica de inspirao condigna do original, virtude que a esttica da inteligencia est reclamando. E a formulada

por Russell. Encontrei-a na obra nobilssima de William James, Some Problems of Philosophy, e a concepo total que postula pode ser estudada nos livros ulteriores

de seu inventor - Introduction to Mathematieal Philosophy, 1919; Our Knowledge of the External Wortd, 1926 - livros de uma lucidez desumana, insatisfatrios e intensos.

Para Russell, a operao de contar (intrinsecamente) a de equiparar duas sries. Por exemplo, se os primognitos de todas as casas do Egito foram mortos pelo Anjo,

salvo os que moravam em casa com um sinal vermelho na porta, evidente que se salvaram tantos quantos sinais vermelhos havia, sem que isso implique enumerar quantos

foram. Aqui a quantidade indefinida; h outras operaes em que tambm infinita. A srie natural dos nmeros infinita, mas podemos demonstrar que so tantos

os mpares quanto os pares.

Ao 1 corresponde o 2

- 3 4

- 5 " 6, etctera.

A prova to irrefutvel quanto suprflua, mas no difere da que demonstra que h tantos mltiplos de trs mil e dezoito quantos nmeros h.

A PERPTUA COKRIDA DE AQUILES E DA TARTARLGA

Ao 1 corresponde o 3.O18

" 2 6.O36

" 3 9.O54

" 4 " 12.O72, etctera.

Pode-se afirmar o mesmo de suas potncias, por mais que estas se rarefaam medida que progredimos.

Ao 1 corresponde o 3.O18

- 2 3.O18 ~, O9.1O8.324

- 3.... etctera.

Uma genial aceitao desses fatos inspirou a frmula de que uma coleo infinita - verbi grada, a srie dos nmeros naturais - uma coleo cujos membros podem

desdobrarse por sua vez em sries infinitas. A parte, nessas elevadas latitudes de numerao, no menos copiosa que o todo; a quantidade precisa de pontos que

h no universo a que h num metro de universo, ou num decmetro, ou na mais profunda trajetria estelar. O problema de Aquiles cabe nessa herica resposta. Cada

lugar ocupado pela tartaruga guarda proporo com outro ocupado por Aquiles, e a minuciosa correspondncia, ponto por ponto, de ambas as sries simtricas, basta

para declar-las iguais. No h nenhum remanescente peridico da vantagem inicial dada tartaruga; o ponto final de seu trajeto, o ltimo no trajeto de Aquiles

e o ltimo no tempo de corrida, so termos que matematicamente coincidem. Tal a soluo de Russell. James, sem recusar a superioridade tcnica do adversrio, prefere

dissentir. As explicaes de Russell (escreve) eludem a verdadeira dificuldade, que diz respeito categoria crescente do infinito, no categoria estvel, que

a nica que ele considera, quando pressupe que a corrida foi realizada e o problema o de equilibrar os trajetos. Por outro lado, no so necessrios dois: o

trajeto de cada um dos corredores ou o mero lapso de tempo vazio implica a dificuldade, que a de alcanar uma meta quando um intervalo prvio continua se apresentando

a cada instante, obstruindo o caminho (Some Problems of Philosophy, 1911, pg. 181).

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265

#IiISCUSSO

Cheguei ao final de minha notcia, no de nossa cavilao. O paradoxo de Zeno de Elia, segundo indicou James, atentatrio no apenas da realidade do espao,

mas da mais invulnervel e sutil do tempo. Acrescento que a existncia de um corpo fsico, a permanncia imvel, a fluncia de uma tarde na vida, colocam-na em estado

de alerta. Essa decomposio se d simplesmente pela palavra infinito, palavra (e depois conceito) angustiante que engendramos com temeridade e que, uma vez consentida

num pensamento, explode e o mata. (H outros escarmentos antigos contra o comrcio de to aleivosa palavra: h a lenda chinesa do cetro dos reis de Liang, que a

cada novo rei era reduzido metade; o cetro, mutilado durante vrias dinastias, ainda existe.) Minha opinio, depois das qualificadssimas que apresentei, corre

o duplo risco de parecer impertinente e trivial. Vou formul-la, no entanto: Zeno incontestvel, a menos que confessemos a idealidade do espao e do tempo. Aceitemos

o idealismo, aceitemos o crescimento concreto do que percebemos, e eludiremos a pululao de abismos do paradoxo.

E tocarem nosso conceito do universo por esse pedacinho de treva grega?, perguntar meu leitor.

NOTA SOBRE WALT WHITMAN

O exerccio das letras pode promover a ambio de se construir um livro absoluto, um livro dos livros que inclua todos os outros como um arqutipo platnico, um

objeto cuja virtude no diminua com os anos. Os que alimentaram essa ambio elegeram elevados assuntos: Apolnio de Rodes, a primeira nau que cruzou os perigos

do mar; Lucano, a luta de Csar e Pompeu, quando as guias guerrearam contra as guias; Cames, as armas lusitanas no Oriente; Donne, o crculo das transmigraes

de uma alma, segundo o dogma pitagrico; Milton, a mais antiga das culpas e o Paraso; Firdusi, os tronos dos sassnidas. Gngora, creio, foi o primeiro a julgar

que um livro importante pode prescindir de um tema importante; a vaga histria que referem as Soledades deliberadamente ftil, conforme assinalaram e reprovaram

Cascales e Gracin (Cartas Filolgicas, VIII; El Criticn, II, 4). A Mallarm no bastaram temas triviais; ele buscou os negativos: a ausncia de uma flor ou de

uma mulher, a brancura da folha de papel antes do poema. Como Pater, ele sentiu que todas as artes se inclinam para a msica, a arte em que a forma o fundo; sua

decorosa profisso de f Tout aboutit un livre parece sintetizar a sentena homrica de que os deuses tecem as desventuras para que s futuras geraes no falte

o que cantar (Odissia, VIII, in fine). Yeats, por volta do ano mil e novecentos, buscou o absoluto na utilizao de smbolos que despertassem a memria genrica,

ou grande Memria, que pulsa sob as mentes individuais; caberia comparar esses smbolos com os ulteriores arqutipos de Jung. Barbusse, em L"Enfer, livro injustamente

esquecido, evitou (tentou evitar) as limitaes do tempo mediante o relato potico dos atos fundamentais do homem; Joyce, em Finnegans Wake, mediante a

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#DtscussAo

apresentao simultnea de traos de diferentes pocas. O uso deliberado de anacronismos, para forjar uma aparncia de eternidade, tambm foi adotado por Pound e

por T. S. Eliot.

Lembrei alguns procedimentos; nenhum mais curioso que o exercido, em 1855, por Whitman. Antes de consider-lo, quero transcrever algumas opinies que mais ou menos

prefiguram o que direi. A primeira do poeta ingls Lascelles Abercrombie. "Whitman - lemos - extraiu de sua nobre experincia essa figura vvida e pessoal que

uma das poucas coisas grandiosas da literatura moderna: a figura dele mesmo." A segunda de Sir Edmund Gosse: "No h um Walt Whitman verdadeiro... Whitman

a literatura em estado de protoplasma: um organismo intelectual to simples que se limita a refletir todos os que se aproximam dele". A terceira minha." "Quase

tudo o que se escreveu sobre Whitman est falseado por dois erros interminveis. Um a sumria identificao de Whitman, homem de letras, com Whitman, heri semidivino

de Leaves of Grass como Dom Quixote o do Quixote; outro, a insensata adoo do estilo e vocabulrio de seus poemas, vale dizer, do prprio fenmeno surpreendente

que se quer explicar."

Imaginemos que uma biografia de Ulisses (baseada em testemunhos de Agamenon, de Laertes, de Polifemo, de Calipso, de Penlope, de Telmaco, do guardador de borcos,

de Cila e Carbdis) indicasse que este nunca saiu de Itaca. A decepo que esse livro nos causaria, felizmente hipottico, a que causam todas as biografias de

Whitman. Passar do orbe paradisaco de seus versos inspida crnica de seus dias uma transio melanclica. Paradoxalmente, essa melancolia inevitvel se agrava

quando o bigrafo quer dissimular que h dois Whitman: o "amistoso e eloqente selvagem" de Leaves of Grass e o pobre literato que o inventou. Este jamais esteve

na Califrnia ou no Platte Canyon; aquele improvisa uma apstrofe no segundo desses lugares ("Spirit that formed this scen") e foi mineiro no outro ("Starting from

Paumanok", 1). Este, em 1859, estava em Nova York; aquele, em dois de

1 Nesta edio, pg. 218.

2 Henry Seidel Canby (Wnft W{rihnan, 1943) e Mark Van Doren na antologia da Viking Pres (1945) reconhecem muito bem essa diferena. Ningum mais, Gue eu saiba.

NOTA SOBRE WALT WHITMAN

dezembro desse ano, assistiu em Virgnia execuo do velho abolicionista John Brown ("Year of meteors""). Este nasceu em Long Island; aquele tambm ("Starting

from Paumanok"), mas tambm num dos estados do Sul ("Longings for honre"). Este foi casto, reservado e mais para taciturno; aquele, efusivo e orgistico. Multiplicar

essas discrdias fcil; mais importante compreender que o mero vagabundo feliz que propem os versos de Leaves of Grass teria sido incapaz de escrev-los.

Byron e Baudelaire dramatizaram, em ilustres volumes, suas infelicidades; Whitman, sua felicidade. (Trinta anos depois, em Sils-Maria, Nietzsche descobriria Zaratustra;

esse pedagogo feliz, ou, em todo caso, recomenda a felicidade, mas tem o defeito de no existir.) Outros heris romnticos - Vathek o primeiro da srie, Edmond

Teste no o ltimo -acentuam prolixamente suas diferenas; Whitman, com impetuosa humildade, quer se parecer com todos os homens. Leaves of Grass, adverte, "

o canto de um grande indivduo coletivo, popular, homem ou mulher" (Complete Writings, V, 192). Ou, imortalmente (Song of Mysel f, 17):

Estes so na verdade os pensamentos de todos os

Homens em todos os lugares e pocas; no so originais meus. Se so menos teus que meus, so nada ou quase nada. Se no so o enigma e a soluo do enigma, so nada.

Se no esto perto e longe, so nada.

Este o pasto que cresce onde hl terra e gua, Este o ar comum que banha o planeta.

O pantesmo divulgou um tipo de frases nas quais se declara que Deus diversas coisas contraditrias ou (melhor ainda) miscelneas. Seu prottipo este: "Sou o

rito, sou a oferenda, sou a libao de manteiga, sou o fog" (Bhagavad Gita, IX, 16). Anterior, mas ambguo, o fragmento 67 de Herclito: "Deus dia e noite,

inverno e vero, guerra e paz, fartura e fom". Plotino descreve a seus alunos um cu inconcebvel, no qual "tudo est em todo lugar, qualquer coisa todas as coisas,

o sol todas as estrelas, e cada estrela todas as estrelas e o sol" (Enneadas, V, 8, 4). Attar, persa do sculo XII, canta a dura peregrinao dos pssaros em

busca de seu

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#DiscussAo

rei, o Simurg; muitos perecem nos mares, mas os sobreviventes descobrem que eles so o Simurg e que o Simurg cada um deles e todos. As possibilidades retricas

dessa extenso do princpio de identidade parecem infinitas. Emerson, leitor dos hindus e de Attar, deixou-nos o poema "Brahma"; dos dezesseis versos que o compem,

talvez o mais memorvel seja este: "When me they fly, I am the wings" (Se elas me fogem, eu sou as asas). Anlogo, mas de voz mais elementar, "Ich bin der Eine

und bin Beide", de Stefan George (Der Stern des Bundes). Walt Whitman renovou esse procedimento. No o exerceu, como outros, para definir a divindade ou para brincar

com as "simpatias e diferenas" das palavras; quis se identificar, numa espcie de ternura feroz, com todos os homens. Disse (Crossing Brooklyn Ferry, 7):

Fui obstinado, vaidoso, vido, superficial, esperto, covarde, maligno;

O lobo, a serpente, e o porco no faltavam em mim...

Tambm (Song of Myself, 33):

Eu sou o homem. Eu sofri. Estava l.

O desdm e a tranqilidade dos mrtires;

A me, condenada como bruxa, queimada diante dos filhos, com

lenha seca;

O escravo acuado que vacila, se apia contra a sebe, ofegante, coberto de suor;

As pontadas que lhe atravessam as pernas e o pescoo, as cruis munies e balas;

Tudo isso eu sinto, eu sou.

Tudo isso sentiu e foi Whitman, mas fundamentalmente ele foi - no na mera histria, no mito - o que denotam estes dois versos (Song of Myself, 24):

Walt Whitman, um cosmos, filho de Manhattan,

Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo, engendrando.

Tambm foi o que seria no futuro, em nossa nostalgia vindoura, criada por estas profecias que a anunciaram ("Full of life, now"):

Nora SOBRE Watir WHITMAIV

Cheio de vida, hoje, compacto, visvel,

Eu, com quarenta anos de idade no ano oitenta e trs dos

Estados,

A ti, dentro de um sculo ou de muitos sculos, A ti, que no nascestes, procuro. Ests lendo-me. Agora o invisvel sou eu,

Agora s tu, compacto visvel, quem intui os versos e me procura, Pensando em como seria feliz se eu pudesse ser teu companheiro. S feliz como se eu estivesse contigo.

(No tenhas muita certeza

de que no estou contigo.)

Ou (Songs of Parting, 4, 5):

Camarada! Este no um livro;

O que me toca, toca um homem.

(E noite? Estamos sozinhos aqui?...) Te amo, me despojo deste invlucro.

Sou como algo incorpreo, triunfante, morto.3

Walt Whitman, homem, foi diretor do Brooklyn Eagle, e leu suas idias fundamentais nas pginas de Emerson, de Hegel e de Volney; Walt Whitman, personagem potico,

derivou-as do contato com a Amrica, ilustrado por experincias imaginrias nas alcovas de New Orleans e nos campos de batalha da Ger~ia. Um fato falso pode ser

essencialmente verdadeiro. E fama que Henrique I da Inglaterra no voltou a sorrir depois da morte de seu filho; o fato, talvez falso, pode ser verdadeiro como smbolo

do abatimento do rei. Dizia-se, em 1914, que os alemes haviam torturado e mutilado alguns refns belgas; a notcia, sem dvida, era falsa, mas sintetizava utilmente

os infinitos e confusos horrores da invaso. Ainda mais perdovel o caso dos que atribuem uma doutrina a experincias vitais e no a tal biblioteca ou a tal eptome.

3 O mecanismo dessas apstrofes complicado. Ficamos emocionados com o fato de o poeta se emocionar ao prever nossa emoo. Cf. estas linhas de Flecker, dirigidas

ao poeta que o ler, mil anos depois:

O friend unseen, unborn, unknown, Shident of our sweet English tongue Read out my eoords at night, alone: I was a poet, l Boas young.

27O

271

#DtscussAo

Nietzsche, em 1874, zombou da tese pitagrica de que a histria se repete ciclicamente (Vom Nutzen und Nachteil der Historie, 2); em 1881, numa trilha dos bosques

de Silvaplana, subitamente concebeu essa tese (Ecce Homo, 9). O grosseiro, o ordinariamente policial, falar de plgio; Nietzsche, questionado, replicaria que o

importante a transformao que uma idia pode operar em ns, no o mero fato de exp-la." Uma coisa a abstrata proposio da unidade divina; outra, a rajada

que arrancou do deserto alguns pastores rabes e os impeliu a uma batalha que no cessou e cujos limites foram a Aquitnia e o Ganges. Whitman se props exibir um

democrata ideal, no formular uma teoria.

Desde que Horcio, com imagem platnica ou pitagrica, predisse sua celeste metamorfose, clssico nas letras o tema da imortalidade do poeta. Os que o freqentaram

o fizeram

em funo da vanglria ("Not marble, not the gilded monuments"), quando no do suborno e da vingana; Whitman deriva de seu uso uma relao pessoal com cada futuro

leitor. Confunde-se com ele e dialoga com o outro, com Whitman

(Salut au Monde, 3):

O que ouves, Walt Whitman?

Assim se desdobrou no Whitman eterno, nesse amigo que um velho poeta americano de mil oitocentos e tantos e tambm sua lenda e tambm cada um de ns e tambm a

felicidade. Vasta e quase inumana foi a tarefa, mas no menor foi a vitria.

4 A razo e a convico diferem tanto que as mais graves objees a qualquer doutrina filosfica costumam preexistir na obra que a proclama. Plato, no Pnrrnndes,

antecipa o argumento do terceiro homem que ir opor-lhe Aristteles; Berkeley

(Dialogues, 3), as refutaes de Hume.

AVATARES DA TARTARUGA

H um conceito que corrompe e transtorna os outros. No falo do Mal cujo limitado imprio a tica; falo do infinito. Pensei em compilar algum dia sua movedia

histria. A numerosa Hidra (monstro palustre que vem a ser prefigurao ou emblema das progresses geomtricas) daria conveniente horror a seu prtico; seria coroada

pelos srdidos pesadelos de Kafka e seus captulos centrais no desconheceriam as conjeturas desse remoto cardeal alemo - Nicolau de Krebs, Nicolau de Cusa - que

viu na circunferncia um polgono com um nmero infinito de ngulos e deixou escrito que uma linha infinita seria uma reta, seria um tringulo, seria um crculo

e seria uma esfera (De Docta Ignorantia, I, 13). Cinco, sete anos de aprendizado metafsico, teolgico, matemtico, me capacitariam (talvez) para planejar decorosamente

esse livro. Intil acrescentar que a vida me probe essa esperana, e mesmo esse advrbio.

A essa ilusria Biografia do infinito pertencem de algum modo estas pginas. Seu propsito registrar certos avatares do segundo paradoxo de Zeno.

Lembremos, agora, esse paradoxo.

Aquiles corre dez vezes mais rpido que a tartaruga e lhe d uma vantagem de dez metros. Aquiles corre esses dez metros, a tartaruga corre um; Aquiles corre esse

metro, a tartaruga corre um decmetro; Aquiles corre esse decmetro, a tartaruga corre um centmetro; Aquiles corre esse centmetro, a tartaruga um milmetro; Aquiles

Ps-ligeiros o milmetro, a tartaruga um dcimo de milmetro e assim infinitamente, sem alcan-la... Esta a verso habitual. Wilhelm Capelle (Die Vorsokratiker,

1935, pg. 178) traduz o texto original de Aristteles: "O segundo argumento de Zeno o que se

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#DISCUSSO

denomina Aquiles. Alega que o mais lento no ser alcanado pelo mais veloz, pois o perseguidor tem de passar pelo lugar que o perseguido acaba de deixar livre,

de sorte que o mais lento sempre leva uma determinada vantagem". O problema no muda, como se v; mas eu gostaria de conhecer o nome do poeta que o dotou de um heri

e de uma tartaruga. A esses competidores mgicos e srie

1 1 1 1

1O + 1 + + + +

1O 1OO 1.OOO 1O.OOO

o argumento deve sua difuso. Quase ningum se lembra do que o antecede - o da pista -, embora seu mecanismo seja idntico. O movimento impossvel (considera Zeno),

pois o mvel deve atravessar o meio para chegar ao fim, e antes o meio do meio, e antes o meio do meio do meio, e antes..."

Devemos pena de Aristteles a comunicao e a primeira refutao desses argumentos. Ele os refuta com brevidade talvez desdenhosa, mas sua lembrana lhe inspira

o famoso argumento do terceiro homem contra a doutrina platnica. Essa doutrina quer demonstrar que dois indivduos que tm atributos comuns (por exemplo, dois homens)

so meras aparncias temporais de um arqutipo eterno. Aristteles pergunta se os muitos homens e o Homem - os indivduos temporais e o Arqutipo - tm atributos

comuns. evidente que sim; tm os atributos gerais da humanidade. Nesse caso, afirma Aristteles, ser preciso postular outro arqutipo que contenha todos e depois

um quarto... Patrcio de Azcrate, numa nota a sua traduo da Metafi"sica, atribui a um discpulo de Aristteles esta apresentao: "Se o que se afirma de muitas

coisas ao mesmo tempo um ser parte, diferente das coisas de que se afirma (e isto o que pretendem os platnicos), preciso que haja um terceiro homem. E uma

denominao que se aplica aos indivduos e idia. H, pois, um terceiro homem diferente dos homens particulares e da idia. H ao mesmo tempo um quarto, que estar

na mesma relao com este e com

1 Um sculo depois, o sofista chins Hui Tzu argumentou que um basto, cortado pela metade a cada dia, interminvel (H. A. Giles: Chuang Tzu, 1889, pg. 453).

AVATARES DA TARTARUGA

a idia dos homens particulares; depois um quinto, e assim infinitament". Postulamos dois indivduos, a e b, que integram o gnero c. Teremos ento

a+b=c

Mas tambm, segundo Aristteles:

a+b+c=d a+b+c+d=e a+b+c+d+e=f...

A rigor no so necessrios dois indivduos: bastam o indivduo e o gnero para determinar o terceiro homem que Aristteles denuncia. Zeno de Elia recorre infinita

regresso contra o movimento e o nmero; seu refutador, contra as formas universais.2

O prximo avatar de Zeno que minhas desordenadas notas registram Agripa, o Ctico. Este nega que algo possa ser provado, pois toda prova requer uma prova anterior

(Hypotyposes, I,166). Sexto Emprico argumenta analogamente que as definies so inteis, pois seria preciso definir cada uma das palavras utilizadas e, depois,

definir a definio (Hypotyposes, II, 2O7). Mil e seiscentos anos depois, Byron, na dedicatria de Don Juan, escrever de Coleridge: "I wish he

would explain His Explanation".

2 No Parmnides - cujo carter zenoniano irrecusvel - Plato expe um argumento muito parecido para demonstrar que o um realmente muitos. Se o um existe, participa

do ser; por conseguinte, h nele duas partes, que so o ser e o um, mas cada uma dessas partes uma e , de modo que encerra outras duas, que tambm encerram outras

duas: infinitamente. Russell (Introducton to Mathematical Philosophy, 1919, pg. 138) substitui a progresso geomtrica de Plato por uma progresso aritmtica.

Se o um existe, o um participa do ser, mas como so diferentes o ser e o um, existe o dois, mas como so diferentes o ser e o dois, existe o trs, etc. Chuang Tzu

(Waley: Three Ways of Thought n Ancient China, pg. 25) recorre ao mesmo interminvel regressos contra os monistas que declaravam que as Dez Mil Coisas (o Universo)

so uma s. Em todo caso - alega - a unidade csmica e a declarao dessa unidade j so duas coisas: essas duas e a declarao de sua dualidade j so trs; essas

trs e a declarao de sua trindade j so quatro... Russell opina que a impreciso do termo ser basta para invalidar o raciocnio. Acrescenta que os nmeros no

existem, que so meras fices lgicas.

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275

#DISCUSSO

At aqui, o regressus irt infinitum serviu para negar; Santo Toms de Aqulo recorre a ele (Suma Teolgica, 1, 2, 3) para afirmar que Deus existe. Adverte que no

h coisa no universo que no tenha uma causa eficiente e que essa causa, evidentemente, o efeito de outra causa anterior. O mundo um interminvel encadeamento

de causas e cada causa um efeito. Cada estado provm do anterior e determina o subseqente, mas a srie geral pode no ter sido, pois os termos que a formam so

condicionais, ou seja, aleatrios. No entanto, o mundo ; deles podemos inferir uma no contingente causa primeira que ser a divindade. Tal a prova cosmolgica;

Aristteles e Plato a prefiguram; Leibniz a redescobre."

Hermann Lotze apela ao regressus por no compreender que uma alterao do objeto A possa produzir uma alterao do objeto B. Argumenta que se A e B so independentes,

postular um influxo de A sobre B postular um terceiro elemento C, um elemento que para operar sobre B vai necessitar de um quarto elemento D, que no poder operar

sem E, que no poder operar sem F...

Para eludir essa multiplicao de quimeras, resolve que no mundo h um nico objeto: uma infinita e absoluta substncia, equiparvel ao Deus de Spinoza. As causas

transitivas se reduzem a causas imanentes; os fatos, a manifestaes ou modos da substncia csmica.4

Anlogo, mas ainda mais alarmante, o caso de F. H. Bradey. Este argumentador (Appearanee and Reality,1897, pgs. 19-34) no se limita a combater a relao causal;

nega todas as relaes. Pergunta se uma relao est relacionada com seus termos. Respondem-lhe que sim e infere que isso admitir a existncia de outras duas relaes,

e depois de outras duas. No axioma a parte menor que o todo, ele no percebe dois termos e a relao menor que; percebe trs (parte, menor que, todo), cuja vinculao

implica outras duas relaes, e assim at o infinito. No juzo Joo mortal, percebe trs conceitos inconjugveis (o terceiro a cpula) que nunca conseguiremos

unir.

3 Um eco dessa prova, agora morta, retumba no primeiro verso do Paradiso: "La gloria de Calui Che tutto mov".

4 Sigo a exposio de James (A Pluralistic llniverse, 19O9, pgs. 55-6O). Cf. Wentscher: Fechner und Lotze, 1924, pgs. 166-771.

AVATARES DA TARTARUGA

Transforma todos os conceitos em objetos incomunicados, durssimos. Refut-lo contaminar-se de irrealidade.

Lotze interpe os abismos peridicos de Zeno entre a causa e o efeito; Bradey, entre o sujeito e o predicado, quando no entre o sujeito e os atributos; Lewis

Carroll (Mind, volume quarto, pg. 278) entre a segunda premissa do silogismo e a concluso. Refere um dilogo sem fim, cujos interlocutores so Aquiles e a tartaruga.

Ao termo de sua interminvel corrida, os dois atletas conversam amigavelmente sobre geometria. Estudam este claro arrazoado:

a) Duas coisas iguais a uma terceira so iguais entre si.

b) Os dois lados deste tringulo so iguais a MN.

z) Os dois lados deste tringulo so iguais entre si.

A tartaruga aceita as premissas a e b, mas nega que justifiquem a concluso. Faz com que Aquiles interpole uma proposio hipottica.

a) Duas coisas iguais a uma terceira so iguais entre si.

b) Os dois lados deste tringulo so iguais a MN.

c) Se a e b so vlidas, z vlida.

z) Os dois lados deste tringulo so iguais entre si.

Feito este breve esclarecimento, a tartaruga aceita a validade de a, b, c, mas no de z. Aquiles, indignado, interpola:

d) Se a, b e c so vlidas, z vlida.

E acrescenta, com certa resignao daqui em diante:

e) Se a, b, c e d so vlidas, z vlida.

Carroll observa que o paradoxo do grego comporta uma infinita srie de distncias que diminuem, e que no proposto por ele as distncias aumentam.

Um exemplo final, talvez o mais elegante de todos, mas tambm o que menos difere de Zeno. William James (Some Problems of Philosophy, 1911, pg. 182) nega que possam

transcorrer catorze minutos, porque antes foroso que tenham se passado sete, e antes de sete, trs minutos e meio, e antes de trs e meio, um minuto e trs quartos,

e assim at o fim, at o invisvel fim, por tnues labirintos de tempo.

Descartes, Hobbes, Leibniz, Mill, Renouvier, Georg Cantor, Gomperz, Russell e Bergson formularam explicaes - nem sempre inexplicveis e inteis - do paradoxo da

tartaruga. (Eu registrei algumas.) Tambm so muitas, como o leitor pde ver, suas aplicaes. As histricas no a esgotam: o ver

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#DISCUSSO

tiginoso regressus in infinitum talvez seja aplicvel a todos os temas. A esttica: tal verso nos comove por tal motivo, tal motivo por tal outro motivo... Ao problema

do conhecimento: conhecer reconhecer, mas preciso ter conhecido para reconhecer, mas conhecer reconhecer... Como julgar essa dialtica? um legtimo instrumento

de indagao ou apenas um mau hbito?

E arriscado pensar que uma coordenao de palavras (as filosofias no so outra coisa) possa se assemelhar muito ao universo. Tambm arriscado pensar que dessas

coordenaes ilustres, alguma - ao menos de modo infinitesimal - no se assemelhe um pouco mais do que outras. Examinei as que gozam de certo crdito; atrevo-me

a assegurar que s na formulada por Schopenhauer reconheci algum trao do universo. Segundo essa doutrina, o mundo uma fbrica da vontade. A arte - sempre - requer

irrealidades visveis. Limito-me a citar uma: a dico metafrica ou numerosa ou cuidadosamente casual dos interlocutores de um drama... Admitamos o que todos os

idealistas admitem: o carter alucinatrio do mundo. Faamos o que nenhum idealista fez: busquemos irrealidades que confirmem esse carter. Ns as encontraremos,

creio, nas antinomias de Kant e na dialtica de Zeno.

"O maior feiticeiro" (escreve memoravelmente Novalis) "seria o que se enfeitiasse at o ponto de ver suas prprias fantasmagorias como aparies autnomas. No

seria esse o nosso caso?" Presumo que sim. Ns (a indivisa divindade que opera em ns) sonhamos o mundo. Ns o sonhamos resistente, misterioso, visvel, ubquo no

espao e firme no tempo; mas aceitamos em sua arquitetura tnues e eternos interstcios de desrazo para saber que falso.

VINDICAO DE BOUUARD ET PCUCHET

A histria de Bouvard e de Pcuchet enganosamente simples. Dois copistas (cuja idade, como a de Alonso Quijano, beira os cinqenta anos) travam estreita amizade:

uma herana lhes permite deixar o emprego e fixarem-se no campo, onde ensaiam agronomia, jardinagem, fabricao de conservas, anatomia, arqueologia, histria, mnemnica,

literatura, hidroterapia, espiritismo, ginstica, pedagogia, veterinria, filosofia e religio; cada uma dessas disciplinas heterogneas lhes depara um fracasso

ao cabo de vinte ou trinta anos. Desencantados (j veremos que a "ao" no ocorre no tempo, mas na eternidade), encomendam a um carpinteiro uma carteira escolar

dupla e se pem a copiar, como antes."

Seis anos de sua vida, os ltimos, foram dedicados por Flaubert ao projeto e execuo desse livro, que afinal ficou inconcluso, e que Gosse, to devoto de Madame

Bovary, julgaria uma aberrao, e Remy de Gourmont, a obra capital da literatura francesa, e quase de toda a literatura.

mile Faguet ("o cinzento Faguet", chamou-o certa vez Gerchunoff) publicou em 1899 uma monografia que tem a virtude de esgotar os argumentos contra Bouvard et Pcuchet,

o que uma comodidade para o exame crtico da obra. Flaubert, segundo Faguet, sonhou uma epopia da idiotice humana e superfluamente lhe deu (movido por lembranas

de Pangloss e Candide e, talvez, de Sancho e Quixote) dois protagonistas que no se complementam e no se opem e cuja dualidade no passa de artifcio verbal. Criados

ou postulados esses fantoches, Flaubert faz com que leiam uma biblioteca, para que no a entendam. Faguet denuncia o carter pueril desse jogo, e

1 Creio perceber aqui uma referncia irnica ao prprio destino de Flaubert.

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#DISCUSSO

o perigoso, j que Flaubert, para idear as aes de seus dois imbecis, leu mil e quinhentos tratados de agronomia, pedagogia, medicina, fsica, metafsica, etc.,

com o propsito de no compreend-los. Observa Faguet: "Se algum se obstina em ler do ponto de vista de um homem que l sem entender, em muito pouco tempo consegue

no entender absolutamente nada e ser obtuso por conta prpria". O fato que cinco anos de convivncia foram transformando Flaubert em Pcuchet e Bouvard ou (mais

precisamente) Pcuchet e Bouvard em Flaubert. Aqueles, no incio, so dois idiotas, menosprezados e humilhados pelo autor, mas no oitavo captulo ocorrem as famosas

palavras: "Ento uma faculdade lamentvel surgiu em seu esprito, a de ver a estupidez e j no poder toler-la". E depois: "Entristeciam-se com coisas insignificantes:

os anncios dos jornais, o perfil de um burgus, uma bobagem ouvida ao acaso". Flaubert, neste ponto, se reconcilia com Bouvard e com Pcuchet, Deus com suas criaturas.

Isso talvez acontea em toda obra extensa, ou simplesmente viva (Scrates chega a ser Plato; Peer Gynt a ser Ibsen), mas aqui surpreendemos o instante em que o

sonhador, para diz-lo com uma metfora afim, percebe que est sonhando a si mesmo e que as formas de seu sonho so ele.

A primeira edio de Bouvard et Pcuchet de maro de 1881. Em abril, Henry Card ensaiou esta definio: "uma espcie de Fausto em duas pessoas". Na edio da

Pliade, Dumesnil confirma: "As primeiras palavras do monlogo de Fausto, no incio da primeira parte, so todo o plano de Bouvard et Pcuchet". Aquelas palavras

em que Fausto deplora ter estudado inutilmente filosofia, jurisprudncia, medicina e, ai!, teologia. Faguet, alm disso, j havia escrito: "Bouvard et Pcuchet

a histria de um Fausto que foi tambm um idiota". Guardemos este epigrama, no qual de algum modo est cifrada toda a intrincada polmica.

Flaubert declarou que um de seus propsitos era a reviso de todas as idias modernas; seus detratores argumentam que o fato de que a reviso esteja a cargo de dois

imbecis basta, com razo, para invalid-la. Inferir dos percalos destes palhaos a vaidade das religies, das cincias e das artes, no passa de um sofisma insolente

ou de uma falcia grosseira. Os fracassos de Pcuchet no implicam um fracasso de Newton.

VINDICAO DE BOLIVARD ET PCUCHET

Para refutar essa concluso, o comum negar a premissa. Digeon e Dumesnil invocam, assim, uma passagem de Maupassant, confidente e discpulo de Flaubert, na qual

se l que Bouvard e Pcuchet so "dois espritos bastante lcidos, medocres e simplrios". Dumesnil sublinha o epteto "lcidos", mas o testemunho de Maupassant

- ou do prprio Flaubert, se isso fosse possvel - nunca ser to convincente quanto Oprprio texto da obra, que parece impor a palavra "imbecis".

A justificativa de Bouvard et Pcuchet, atrevo-me a sugerir, de ordem esttica, e pouco ou nada tem a ver com as quatro figuras e os dezenove modos do silogismo.

Uma coisa o rigor lgico, outra a tradio quase instintiva de pr as palavras fundamentais na boca dos simples e dos loucos. Lembremos a reverncia que o Isl

tributa aos idiotas, porque se entende que suas almas foram arrebatadas pelo cu; lembremos aquelas passagens da Escritura em que se l que Deus escolheu o nscio

do mundo para envergonhar os sbios. Ou, se preferirmos os exemplos concretos, pensemos em Manalive de Chesterton, que uma visvel montanha de simplicidade e um

abismo de divina sabedoria, ou em Joo Escoto, que argumentou que o melhor nome de Deus Nihilum (Nada) e que "ele mesmo no sabe o que , porque no um que...".

O imperador Montezuma disse que os bufes ensinam mais que os sbios, porque se atrevem a dizer a verdade; Flaubert (que, no fim das contas, no estava elaborando

uma demonstrao rigorosa, uma Destructio philosophorum, mas uma stira) pode muito bem ter tomado o cuidado de confiar suas ltimas dvidas e seus medos mais secretos

a dois irresponsveis.

Cabe entrever uma justificativa mais profunda. Flaubert era devoto de Spencer; nos First Principies do mestre lemos que o universo incognoscvel, pela suficiente

e clara razo de que explicar um fato referi-lo a outro mais geral e de que esse processo no tem fim,Z ou nos conduz a uma verdade to geral que no podemos referi-la

a nenhuma outra; ou seja, explic-la. A cincia uma esfera finita que cresce no espao infinito; cada nova expanso lhe permite compreender uma zona maior do desconhecido,

mas o desconhecido ines

2 Agripa, o Ctico argumentou que toda prova exige, por sua vez, outra prova, e assim infinitamente.

28O

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#DiscussAo

gotvel. Escreve Flaubert: "Ainda no sabemos quase nada e gostaramos de adivinhar essa ltima palavra que nunca nos ser revelada. O frenesi de se chegar a uma

concluso a mais funesta e estril das manias". A arte opera necessariamente com smbolos; a maior esfera um ponto no infinito; dois absurdos copistas podem

representar Flaubert e tambm Schopenhauer ou Newton.

Taine repetiu a Flaubert que o sujeito de seu romance exigia uma pena do sculo XVIII, a conciso e a mordacidade (le mordant) de um Jonathan Swift. Talvez ele tenha

falado de Swift porque sentiu de algum modo a afinidade entre os dois grandes e tristes escritores. Ambos odiaram com ferocidade minuciosa a estupidez humana; ambos

documentaram esse dio, compilando, ao longo dos anos, frases triviais e opinies idiotas; ambos quiseram abater as ambies da cincia. Na terceira parte de Gulliver,

Swift descreve uma venerada e vasta academia, cujos indivduos propem que a humanidade prescinda da linguagem oral para no gastar os pulmes. Outros amolecem o

mrmore para a fabricao de travesseiros e almofadas; outros querem propagar uma variedade de ovelhas sem l; outros acreditam resolver os enigmas do universo mediante

uma armao de madeira com manivelas de ferro, que combina palavras ao acaso. Essa inveno vai contra a Arte Magna de Llull...

Ren Descharmes examinou, e reprovou, a cronologia de Bouvard et Pcuchet. A ao requer cerca de quarenta anos; os protagonistas tm sessenta e oito quando se entregam

ginstica, no mesmo ano em que Pcuchet descobre o amor. Num livro to povoado de circunstncias, o tempo, no entanto, est imvel; alm dos ensaios e fracassos

dos dois Faustos (ou do Fausto bicfalo), nada acontece; faltam as vicissitudes comuns e a fatalidade e o acaso. "Os figurantes do desenlace so os do prembulo;

ningum viaja, ningum morre", observa Claude Digeon. Em outra pgina, conclui: "A honestidade intelectual de Flaubert lhe pregou uma pea terrvel: levou-o a sobrecarregar

seu conto filosfico, a conservar sua pena de romancista para escrev-lo.

As negligncias ou desdns ou liberdades do ltimo Flaubert desconcertaram os crticos; acredito ver nelas um smbolo. O homem que com Madame Bovary forjou o romance

VINDICAO DE BOUVARD ET PCUCHEr

realista foi tambm o primeiro a romper com ele. Chesterton, ainda ontem, escrevia: "O romance bem pode morrer conosc". O instinto de Flaubert pressentiu essa morte,

que j est ocorrendo - o Ulisses, com seus planos e horrios e precises, no a esplndida agonia de um gnero? -, e no quinto captulo da obra condenou os romances

"estatsticos ou etnogrficos" de Balzac e, por extenso, os de Zola. Por isso, o tempo de Bouvard et Pcuchet se inclina para a eternidade; por isso, os protagonistas

no morrem e continuaro copiando, perto de Caen, seu anacrnico Sottisier, to ignorantes de 1914 quanto de 187O; por isso, a obra mira, no passado, as parbolas

de Voltaire e de Swift e, adiante, as de Kafka.

H, talvez, outra chave. Para zombar dos anseios da humanidade, Swift os atribuiu a pigmeus ou a smios; Flaubert, a dois sujeitos grotescos. Evidentemente, se a

histria universal a histria de Bouvard e de Pcuchet, tudo o que a integra ridculo e inconsistente.

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#FLAUBERT E SEU DESTINO EXEMPLAR

Num artigo destinado a abolir ou a arrefecer o culto de Flaubert na Inglaterra, John Middeton Murry observa que h dois Flaubert: um, o homenzarro ossudo, amvel,

mais para simples, com o ar e o riso de um campons, que passou a vida agonizando sobre a cultura intensiva de meia dzia de volumes desiguais; outro, um gigante

incorpreo, um smbolo, um grito de guerra, uma bandeira. Declaro que no entendo essa oposio; o Flaubert que agonizou para produzir uma obra avara e preciosa

, exatamente, o da lenda e (se os quatro volumes de sua correspondncia no nos enganam) tambm o da histria. Mais importante que a importante literatura premeditada

e realizada por ele este Flaubert, que foi o primeiro Ado de uma nova espcie: a do homem de letras como sacerdote, como asceta e quase como mrtir.

A Antiguidade, pelas razes que j veremos, no conseguiu produzir esse tipo. No Ion lemos que o poeta " uma coisa leve, alada e sagrada, que nada pode compor at

estar inspirado, que quase, diramos, um possesso". Semelhante doutrina do esprito que sopra onde bem entende (Joo 3, 8) era hostil a uma valorao pessoal do

poeta, rebaixado a instrumento momentneo da divindade. Nas cidades gregas ou em Roma inconcebvel um Flaubert; talvez o homem que mais se aproximou dele tenha

sido Pndaro, o poeta sacerdotal, que comparou suas odes a caminhos pavimentados, mar, a talhas de ouro e de marfim e a edifcios, e que sentia e encarnava a

dignidade da profisso das letras.

A doutrina "romntica" da inspirao que os clssicos professaram," cabe acrescentar um fato: o sentimento geral de

1 Seu oposto a doutrina "clssica" do romntico Poe, que faz do trabalho do poeta um exerccio intelectual.

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FLAUBERT E SEU DESTINO EXEMPLAR

que Homero j havia esgotado a poesia ou, pelo menos, havia descoberto a forma cabal da poesia, o poema herico. Alexandre da Macednia punha todas as noites sob

o travesseiro seu punhal e sua Ilada, e Thomas de Quincey refere que um pastor ingls jurou do plpito "pela grandeza dos padecimentos humanos, pela grandeza das

aspiraes humanas, pela imortalidade das criaes humanas, pela Ilada, pela Odissia!". A clera de Aquiles e os rigores da volta de Ulisses no so temas universais;

nessa limitao, a posteridade fundou uma esperana. Impor a outras fbulas, invocao por invocao, batalha por batalha, mquina sobrenatural por mquina sobrenatural,

o curso e a configurao da Ilada, foi o propsito mximo dos poetas, durante vinte sculos. Zombar dele muito fcil, mas no da Eneida, que foi sua feliz conseqncia.

(Lemprire discretamente inclui Virglio entre os benefcios de Homero.) No sculo XIV, Petrarca, devoto da glria romana, pensou ter descoberto nas guerras pnicas

a matria perdurvel da epopia; Tasso, no sculo XVI, optou pela primeira cruzada. Dedicou-lhe duas obras, ou duas verses de uma obra; uma delas famosa, a Gerusalemme

Liberata; outra, a Conquistata, que quer ajustar-se mais Ilada, apenas curiosidade literria. Nela se atenua a nfase do texto original, operao que, executada

sobre uma obra essencialmente enftica, pode equivaler a sua destruio. Assim, na Liberata (VIII, 23), lemos sobre um homem gravemente ferido e valente que no

se decide a morrer:

La vita no, ma la virt sostenta quel eadavere indomito e feroce

Na reviso, hiprbole e eficcia desaparecem:

La vita no, ma la z~irt sostenta il cavaliere indomito e feroce.

Milton, depois, vive para construir um poema herico. Desde a infncia, talvez antes de ter escrito uma linha, sabe-se devotado s letras. Teme ter nascido tarde

demais para a pica (longe demais de Homero, longe demais de Ado) e numa latitude fria demais, mas se exercita na arte de versificar, durante

285

#Discusso

FLAUBERT E SEU DESTINO EXEMPLAR

muitos anos. Estuda hebraico, aramaico, italiano, francs, grego e, naturalmente, latim. Compe hexmetros latinos e gregos e hendecasslabos toscanos. E continente,

porque sente que a incontinncia pode consumir sua faculdade potica. Escreve, aos trinta e trs anos, que o poeta deve ser um poema, "ou seja, uma composio e

arqutipo das coisas melhores", e que ningum indigno de elogio deve se atrever a celebrar "homens hericos ou cidades famosas". Sabe que um livro que os homens

no deixaro morrer sair de sua pena, mas o sujeito ainda no lhe foi revelado e ele o procura na Matire de Bretagne e nos dois Testamentos. Num papel casual (que

hoje o Manuscrito de Cambridge) anota uma centena de temas possveis. Escolhe, por fim, a queda dos anjos e do homem, tema histrico naquele sculo, ainda que

agora o julguemos simblico ou mitolgico.Z

Milton, Tasso e Virglio se consagraram execuo de poemas; Flaubert foi o primeiro a se consagrar (dou a esta palavra seu rigor etimolgico) criao de uma

obra puramente esttica em prosa. Na histria das literaturas, a prosa posterior ao verso; este paradoxo incitou a ambio de Flaubert. "A prosa nasceu ontem",

escreveu. "O verso por excelncia a forma das literaturas antigas. As combinaes da mtrica se esgotaram; mas no as da prosa." E em outro lugar: "O romance espera

seu Homero".

O poema de Milton abarca o cu, o inferno, o mundo e o caos, mas ainda uma Ilada, uma Ilada do tamanho do universo; Flaubert, por sua vez, no quis repetir ou

superar um modelo anterior. Pensou que cada coisa s pode ser dita de um modo e que obrigao do escritor encontrar esse modo. Clssicos e romnticos discutiam

clamorosamente e Flaubert disse que seus fracassos podiam diferir, mas que seus acertos eram iguais, porque o belo sempre o preciso, o justo, e um bom verso de

Boileau um bom verso de Hugo. Acreditou

2 Sigamos as variaes de um trao homrico, ao longo do tempo. Helena de Tria, na Ilada, tece um tapete, e o que tece so batalhas e desventuras da guerra de

Tria. Na Eneida, o heri, prfugo da guerra de Tria, chega a Cartago e v figuradas num

templo cenas dessa guerra, e, entre tantas imagens de guerreiros, tambm a sua. Na segunda "Jerusalm", Godofredo recebe os embaixadores egpcios num pavilho historiado

cujas pinturas representam suas prprias guerras. Das trs verses, a ltima a menos feliz.

numa harmonia preestabelecida do eufnico e do exato e se maravilhou com a "relao necessria entre a palavra justa e a palavra musical". Esta superstio da linguagem

teria levado outro escritor a tramar um pequeno dialeto de maus hbitos sintticos e prosdicos; no Flaubert, cuja decncia fundamental o salvou dos riscos de sua

doutrina. Com muita probidade perseguiu o mot juste, que certamente no exclui o lugar-comum e que degeneraria, depois, no ftuo mot rate dos cenculos simbolistas.

A histria conta que o famoso Lao-ts quis viver secretamente e no ter nome; semelhante vontade de ser ignorado e semelhante celebridade marcam o destino de Flaubert.

Este queria no estar em seus livros, ou queria estar- apenas de modo invisvel, como Deus em suas obras; o fato que se no soubssemos previamente que uma mesma

pena escreveu Salammb e Madame Bovary no poderamos adivinh-lo. No menos inegvel que pensar na obra de Flaubert pensar em Flaubert, no ansioso e laborioso

trabalhador das muitas consultas e dos rascunhos inextricveis. Quixote e Sancho so mais reais que o soldado espanhol que os inventou, mas nenhuma criatura de Flaubert

real como Flaubert. Os que dizem que sua obra capital a Correspondncia podem argumentar que nesses volumes varonis est a face de seu destino.

Esse destino continua sendo exemplar, como o de Byron para os romnticos. imitao da tcnica de Flaubert devemos The Oid Wives" Tale e O Primo Basalio; seu destino

se repetiu, com misteriosas magnificaes e variaes, no de Mallarm (cujo epigrama O mundo existe para acabar num livro exprime uma convico de Flaubert), no

de Moore, no de Henry James e no do intrincado e quase infinito irlands que teceu o Ulisses.

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#O ESCRITOR ARGENTINO E A TRADIO"

Quero formular e justificar algumas proposies cticas sobre o problema do escritor argentino e a tradio. Meu ceticismo no se refere dificuldade ou impossibilidade

de resolv-lo, mas prpria existncia do problema. Creio que se nos depara um tema retrico, apto para desenvolvimentos patticos; mais que de uma verdadeira dificuldade

mental, entendo que se trata de uma aparncia, de um simulacro, de um pseudoproblema.

Antes de examin-lo, quero considerar as propostas e solues mais correntes. Comearei por uma soluo que se tornou quase instintiva, que se apresenta sem o concurso

de argumentaes: a que afirma que a tradio literria argentina j existe na poesia gauchesca. Segundo ela, o lxico, os procedimentos, os temas da poesia gauchesca

devem ilustrar o escritor contemporneo, so um ponto de partida e talvez um arqutipo. a soluo mais comum, e por isso pretendo demorar-me em seu exame.

Foi proposta por Lugones em El Payador; a lemos que ns, argentinos, possumos um poema clssico, o Martn Fierro, e que esse poema deve ser para ns o que os poemas

homricos foram para os gregos. Parece difcil contradizer essa opinio sem depreciar o Martn Fierro. Creio que o Martn Fierro a obra mais perdurvel que ns,

argentinos, escrevemos; e creio com a mesma intensidade que no podemos supor que o Martn Fierro , como algumas vezes j se disse, nossa Bblia, nosso livro cannico.

Ricardo Rojas, que tambm recomendou a canonizao do Martn Fierro, tem uma pgina, em sua Historia de la Literatura Argentina, que parece quase lugar-comum, e

que uma astcia.

1 Verso taquigrfica de uma aula proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores (1953).

O ESCRITOR ARGENTINO E A TRADIO

Rojas estuda a poesia dos gauchescos, ou seja, a poesia de Hidalgo, Ascasubi, Estanislao del Campo e Jos Hernndez, e a faz derivar da poesia dos cantadores, da

espontnea poesia dos gachos. Faz notar que o metro da poesia popular o octosslabo e que os autores da poesia gauchesca utilizam esse metro, e acaba por considerar

a poesia dos gauchescos continuao ou magnificao da poesia dos cantadores.

Desconfio que h um erro grave nessa afirmao; um erro hbil, diramos, porque se percebe que Rojas, para dar raiz popular poesia dos gauchescos, que comea em

Hidalgo e culmina em Hernndez, apresenta-a como continuao ou derivao da dos gachos, e assim Bartolom Hidalgo , no OHomero dessa poesia, como disse Mitre,

mas um elo da cadeia.

Ricardo Rojas faz de Hidalgo um repentista gacho; no entanto, segundo a mesma Historia de la Literatura Argentina, esse suposto cantador comeou compondo versos

hendecasslabos, metro naturalmente proibido aos cantadores, que no percebiam sua harmonia, como no perceberam a harmonia do hendecasslabo os leitores espanhis

quando Garcilaso o importou da Itlia.

Entendo que h uma diferena fundamental entre a poesia dos gachos e a poesia gauchesca. Basta comparar qualquer coleo de poesias populares com o Martn Fierro,

com o Paulino Lucero, com o Fausto, para perceber essa diferena, que est no tanto no lxico como no propsito dos poetas. Os poetas populares do campo e do subrbio

fazem versos sobre temas gerais: os sofrimentos do amor e da ausncia, a dor do amor, e o fazem num lxico tambm muito geral; por outro lado, os poetas gauchescos

cultivam uma linguagem deliberadamente popular, que os poetas populares no praticam. No quero dizer que o idioma dos poetas populares seja um espanhol correto;

quero dizer que se h incorrees so obra da ignorncia. Em compensao, h nos poetas gauchescos uma procura por palavras nativas, uma profuso de cor local. A

prova esta: um colombiano, um mexicano ou um espanhol podem compreender imediatamente os poemas dos cantadores, dos gachos, mas precisam de um glossrio para

compreender, ainda que aproximadamente, Estanislao del Campo ou Ascasubi.

Tudo isso pode ser resumido assim: a poesia gauchesca, que produziu - apresso-me a repeti-lo - obras admirveis,

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#DISCUSSO

um gnero literrio to artificial quanto qualquer outro. Nas primeiras composies gauchescas, nas trovas de Bartolom Hidalgo, j h um propsito de apresent-las

em funo do gacho, como se fossem ditas por gachos, para que o leitor as leia com entonao gauchesca. Nada mais distante da poesia popular. O povo - e observei

isto no s nos cantadores do campo, mas tambm nos dos subrbios de Buenos Aires -, quando versifica, tem a convico de executar algo importante, evita instintivamente

as vozes populares e busca termos e expresses altissonantes. provvel que agora a poesia gauchesca tenha infludo nos cantadores gachos e que estes tambm utilizem

profusamente os crioulismos, mas no princpio isso no ocorreu, e temos prova disso (que ningum assinalou) no Martn Fierro.

O Martn Fierro est escrito num espanhol de entonao gauchesca e no nos deixa esquecer durante muito tempo que um gacho que est cantando; prdigo em comparaes

tomadas da vida pastoril; no entanto, h uma famosa passagem em que o autor deixa de lado essa preocupao com a cor local e escreve num espanhol geral, e no fala

de temas vernculos, mas de grandes temas abstratos, do tempo, do espao, do mar, da noite. Refiro-me ao desafio entre Martn Fierro e o Moreno, que ocupa o fim

da segunda parte. como se o prprio Hernndez tivesse desejado indicar a diferena entre sua poesia gauchesca e a genuna poesia dos gachos. Quando esses dois

gachos, Fierro e o Moreno, pem-se a cantar, esquecem toda afetao gauchesca e abordam temas filosficos. Pude comprovar o mesmo ouvindo cantadores dos subrbios;

estes evitam fazer versos com sotaque arrabaldeiro ou em lunfardo e tentam se expressar corretamente. Fracassam, naturalmente, mas seu propsito fazer da poesia

algo elevado; algo distinto, poderamos dizer com um sorriso.

A idia de que a poesia argentina deve ser rica em traos diferenciais argentinos e em cor local argentina me parece um equvoco. Se nos perguntam que livro mais

argentino, o Martn Fierro ou os sonetos de La Urna de Enrique Banchs, no h nenhuma razo para dizer que o primeiro mais argentino. Talvez digam que em La Urna

de Banchs faltam a paisagem argentina, a topografia argentina, a botnica argentina, a zoologia argentina; no entanto, h outras condies argentinas em La Urna.

~ ESC2ITOR ARGENTINO E A TRADIO

Lembro-me agora de uns versos de La Urna que parecem escritos para que no se possa dizer que um livro argentino; so os que dizem: "... O sol nos telhados / e

nas janelas brilha. Rouxinis / querem dizer que esto apaixonados".

Aqui parece inevitvel condenar: "o sol nos telhados e nas janelas brilha". Enrique Banchs escreveu estes versos num subrbio de Buenos Aires, e nos subrbios de

Buenos Aires no h telhados, mas terraos; "rouxinis querem dizer que esto apaixonados"; o rouxinol menos um pssaro da realidade que da literatura, da tradio

grega e germnica. No entanto, eu diria. que no uso dessas imagens convencionais, nesses telhados e nesses rouxinis anmalos, no estaro, naturalmente, a arquitetura

nem a ornitologia argentinas, mas esto o pudor argentino, a reticncia argentina; a circunstncia de que Banchs, ao falar dessa grande dor que o afligia, ao falar

dessa mulher que o deixara e deixara o mundo vazio para ele, recorra a imagens estrangeiras e convencionais, como os telhados e os rouxinis, significativa: significativa

do pudor, da desconfiana, das reticncias argentinas; da dificuldade que temos para as confidncias, para a intimidade.

Alm do mais, no sei se preciso dizer que a idia de que uma literatura deva se definir pelos traos diferenciais do pas que a produz relativamente nova; tambm

nova e arbitrria a idia de que os escritores devam buscar temas de seus pases. Sem ir alm, creio que Racine nem sequer teria entendido uma pessoa que lhe houvesse

negado o direito ao ttulo de poeta francs por ter buscado temas gregos e latinos. Creio que Shakespeare se teria assombrado se tivessem pretendido limit-lo a

temas ingleses, e se lhe tivessem dito que, como ingls, no tinha o direito de escrever Hamlet, de tema escandinavo, ou Macbeth, de tema escocs. O culto argentino

da cor local um recente culto europeu que os nacionalistas deveriam rejeitar por ser forneo.

Encontrei dias atrs uma curiosa confirmao de que o verdadeiramente nativo costuma e pode prescindir da cor local; encontrei esta confirmao na Histria do Declnio

e Queda do Imprio Romano, de Gibbon. Gibbon observa que no Alcoro, livro rabe por excelncia, no h camelos; creio que se houvesse alguma dvida sobre a autenticidade

do Alcoro, bastaria essa ausncia de camelos para provar que ele rabe.

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#DISCUSSO

Foi escrito por Maom, e Maom, como rabe, no tinha por que saber que os camelos eram especialmente rabes; para ele eram parte da realidade, no tinha por que

distingui-los; em compensao, a primeira coisa que um falsrio, um turista, um nacionalista rabe teriam feito seria povoar de camelos, de caravanas de camelos,

cada pgina; mas Maom, como rabe, estava tranqilo: sabia que podia ser rabe sem camelos. Creio que ns, argentinos, podemos nos parecer a Maom, podemos acreditar

na possibilidade de sermos argentinos sem profuso de cor local.

Permitam-me aqui uma confidncia, uma mnima confidncia. Durante muitos anos, em livros agora felizmente esquecidos, tentei descrever o sabor, a essncia dos bairros

extremos de Buenos Aires; naturalmente utilizei muitas palavras locais, no prescindi de palavras como cuchilleros, milonga, tapia, e outras, e assim escrevi aqueles

esquecveis e esquecidos livros; depois, h quase um ano, escrevi uma histria que se chama "A morte e a bssola", que uma espcie de pesadelo, um pesadelo em

que figuram elementos de Buenos Aires deformados pelo horror do pesadelo; penso ali no Paseo Coln e o chamo rue de Toulon, penso nas chcaras de Adrogu e as chamo

Triste-le-Roy; publicada essa histria, meus amigos me disseram que finalmente tinham encontrado no que eu escrevia o sabor dos arredores de Buenos Aires. Precisamente

porque eu no me propusera a encontrar esse sabor, porque me abandonara ao sonho, pude conseguir, ao fim de tantos anos, o que antes busquei em vo.

Agora quero falar de uma obra justamente ilustre que os nacionalistas costumam invocar. Refiro-me a Don Segundo Sombra, de Giraldes. Os nacionalistas nos dizem

que Don Segundo Sombra um exemplo de livro nacional; mas se comparamos Don Segundo Sombra com as obras da tradio gauchesca, a primeira coisa que notamos so

as diferenas. Don Segundo Sombra prdigo em metforas de uma espcie que nada tem a ver com a fala do campo, e sim com as metforas dos cenculos contemporneos

de Montmartre. Quanto fbula, histria, fcil comprovar nela a influncia do Kim, de Kipling, cuja ao se situa na ndia e que foi escrito, por sua vez, sob

a influncia do Huckleberry Finn de Mark Twain, epopia do Mississipi. Ao fazer essa observao no quero diminuir o valor de Don Segundo Sombra; ao contrrio, quero

292

O ESCRITOR ARGENTINO E A TRADI6~O

ressaltar que para que ns tivssemos esse livro foi necessrio que Giraldes recordasse a tcnica potica dos cenculos franceses de seu tempo, e a obra de Kipling

que lera h muitos anos; ou seja, Kipling, e Mark Twain, e as metforas dos poetas franceses foram necessrios para esse livro argentino, para esse livro que no

menos argentino, repito, por ter aceitado essas influncias.

Quero apontar outra contradio: os nacionalistas fingem venerar as capacidades da mente argentina, mas querem limitar o exerccio potico dessa mente a alguns pobres

temas locais, como se ns, argentinos, s pudssemos falar de arrabaldes e estncias e no do universo.

Passemos a outra soluo. Dizem que h uma tradio na qual ns, escritores argentinos, devemos nos refugiar, e que essa tradio a literatura espanhola. Este

segundo conselho , naturalmente, um pouco menos estreito que o primeiro, mas tambm tende a nos fechar; muitas objees lhe poderiam ser feitas, mas duas so suficientes.

A primeira esta: a histria argentina pode ser definida sem equvoco como um querer afastar-se da Espanha, como um voluntrio distanciamento da Espanha. A segunda

objeo esta: entre ns o prazer da literatura espanhola, um prazer que eu pessoalmente compartilho, costuma ser um gosto adquirido; muitas vezes emprestei, a

pessoas sem formao literria especial, obras francesas e inglesas, e estes livros agradaram imediatamente, sem esforo. Em compensao, quando propus a meus amigos

a leitura de livros espanhis, comprovei que esses livros lhes eram dificilmente desfrutveis sem aprendizagem especial; por isso creio que o fato de que alguns

ilustres escritores argentinos escrevam como espanhis menos o testemunho de uma capacidade herdada que uma prova da versatilidade argentina.

Chego a uma terceira opinio que li recentemente sobre os escritores argentinos e a tradio, e que me surpreendeu muito. Diz que ns, os argentinos, estamos desvinculados

do passado; que houve uma espcie de soluo de continuidade entre ns e a Europa. Segundo este singular parecer, ns, argentinos, estamos como que nos primeiros

dias da criao; o fato de buscar temas e procedimentos europeus uma iluso, um erro; devemos compreender que estamos essencialmente sozinhos, e no podemos brincar

de ser europeus.

293

#DISCUSSO

Essa opinio me parece infundada. Compreendo que muitos a aceitem, porque essa declarao de nossa solido, de nossa perdio, de nosso carter primitivo tem, como

O existencialismo, os encantos do pattico. Muitas pessoas podem aceitar essa opinio, porque uma vez aceita vo se sentir sozinhas, desconsoladas e, de algum modo,

interessantes. No entanto, observei que em nosso pas, precisamente por ser um pas novo, h um grande sentido do tempo. Tudo o que aconteceu na Europa, os dramticos

acontecimentos dos ltimos anos na Europa, ecoaram profundamente entre ns. O fato de que uma pessoa fosse partidria dos franquistas ou dos republicamos durante

a Guerra Civil espanhola, ou fosse partidria dos nazistas ou dos aliados, determinou em muitos casos lutas e distanciamentos muito graves. Isso no aconteceria

se estivssemos desvinculados da Europa. No que se refere histria argentina, creio que todos ns a sentimos profundamente; e natural que a sintamos, porque

ela est, pela cronologia e pelo sangue, muito prxima de ns; os nomes, as batalhas das guerras civis, a guerra da Independncia, tudo est, no tempo e na tradio

familiar, muito prximo de ns.

Qual a tradio argentina? Creio que podemos responder facilmente e que no h problema nessa pergunta. Creio que nossa tradio toda a cultura ocidental, e

creio tambm que temos direito a essa tradio, maior que o que podem ter os habitantes de qualquer outra nao ocidental. Lembro aqui um ensaio de Thorstein Veblen,

socilogo norte-americano, sobre a primazia dos judeus na cultura ocidental. Ele se pergunta se essa primazia permite supor uma superioridade inata dos judeus, e

responde que no; diz que eles sobressaem na cultura ocidental porque agem dentro dessa cultura e ao mesmo tempo no se sentem ligados a ela por uma devoo especial;

"por isso - diz - sempre ser mais fcil para um judeu do que para um ocidental no judeu inovar na cultura ocidental"; e podemos dizer o mesmo dos irlandeses na

cultura da Inglaterra. Tratando-se dos irlandeses, no temos por que supor que a profuso de nomes irlandeses na literatura e na filosofia britnicas se deva a uma

primazia racial, porque muitos desses irlandeses ilustres (Shaw, Berkeley, Swift) foram descendentes de

O ESCRITOR ARGENTINO E A TRADIO

ingleses, foram pessoas que no tinham sangue celta; no entanto, bastou-lhes o fato de se sentirem irlandeses, diferentes, para inovarem na cultura inglesa. Creio

que os argentinos, os sul-americanos em geral, estamos numa situao anloga; podemos lanar mo de todos os temas europeus, utiliz-los sem supersties, com uma

irreverncia que pode ter, e j tem, conseqncias afortunadas.

Isso no quer dizer que todos os experimentos argentinos sejam igualmente felizes; creio que esse problema da tradio e do argentino simplesmente uma forma contempornea,

e fugaz, do eterno problema do determinismo. Se vou tocar a mesa com uma de minhas mos, e me pergunto: toco-a com a mo esquerda ou com a mo direita?; e depois

a toco com a mo direita, os deterministas diro que eu no podia agir de outro modo e que toda a histria anterior do universo me obrigava a toc-la com a mo direita,

e que tocla com a mo esquerda teria sido um milagre. No entanto, se a tivesse tocado com a mo esquerda teriam dito a mesma coisa: que eu fora obrigado a toc-la

com essa mo. O mesmo acontece com os temas e procedimentos literrios. Tudo o que ns, escritores argentinos, fizermos com felicidade pertencer tradio argentina,

do mesmo modo que tratar de temas italianos pertence tradio da Inglaterra por obra de Chaucer e de Shakespeare.

Creio, alm do mais, que todas essas discusses prvias sobre propsitos de elaborao literria baseiam-se no erro de supor que as intenes e os projetos tm muita

importncia. Vejamos o caso de Kipling: Kipling dedicou sua vida a escrever em funo de determinados ideais polticos, quis fazer de sua obra um instrumento de

propaganda e, no entanto, no final de sua vida teve que confessar que a verdadeira essncia da obra de um escritor costuma ser ignorada por este; e lembrou o caso

de Swift, que ao escrever As Viagens de Gulliver quis levantar um testemunho contra a humanidade e deixou, no entanto, um livro para crianas. Plato disse que os

poetas so amanuenses de um deus, que os anima contra sua vontade, contra seus propsitos, como o m anima uma srie de anis de ferro.

Por isso repito que no devemos temer e que devemos pensar que nosso patrimnio o universo; experimentar todos

294

295

#DISCUSSO

os temas, e no nos limitarmos ao argentino para sermos argentinos: pois ou ser argentino uma fatalidade, e nesse caso o seremos de qualquer modo, ou ser argentino

mera afetao, uma mscara.

Creio que, se nos abandonarmos a esse sonho voluntrio que se chama criao artstica, seremos argentinos e seremos, tambm, bons ou tolerveis escritores.

H. G. WELLS E AS PARBOLAS:

The Croquet Player. Star Begotten

Este ano, Wells publicou dois livros. O primeiro - The Croquet Player - descreve uma regio pestilenta de confusos pntanos na qual comeam a ocorrer coisas abominveis;

no fim compreendemos que essa regio todo o planeta. O outro - Star Begotten - apresenta uma amistosa conspirao dos habitantes de Marte para regenerar a humanidade

por meio de emisses de raios csmicos. O primeiro quer mostrar que nossa cultura est ameaada por um renascimento monstruoso da estupidez e da crueldade; nossa

cultura pode ser renovada por uma gerao um pouco diferente, murmura o outro. Os dois livros so duas parbolas, os dois livros colocam o velho debate das alegorias

e dos smbolos.

Todos ns tendemos a acreditar que a interpretao esgota os smbolos. Nada mais falso. Busco um exemplo bsico: o de uma adivinhao. Ningum ignora que dipo foi

interrogado pela Esfinge tebana: "Qual o animal que tem quatro ps ao amanhecer, dois ao meio-dia e trs tarde?". Ningum ignora, tampouco, que dipo respondeu

que era o homem. Quem de ns no percebe imediatamente que o despojado conceito de homem inferior ao mgico animal que a pergunta deixa entrever, e comparao

do homem comum a esse monstro varivel e de setenta anos a um dia, e da bengala dos ancios a um terceiro p? Essa natureza plural prpria de todos os smbolos.

As alegorias, por exemplo, propem ao leitor uma dupla ou tripla intuio, no umas figuras que podem ser permutadas por nomes substantivos abstratos. "Os caracteres

alegricos", adverte acertadamente De Quincey (Writings, undcimo tomo,

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297

#DISCUS5.4O

pg. 199), "ocupam um lugar intermedirio entre as realidades absolutas da vida humana e as puras abstraes do entendimento lgico". A faminta e magra loba do primeiro

canto da Divina Comdia no um emblema ou letra da avareza: uma loba e tambm a avareza, como nos sonhos. No desconfiemos demais dessa duplicidade; para os

msticos o mundo concreto no passa de um sistema de smbolos...

Atrevo-me a inferir do que foi dito que absurdo reduzir uma histria a sua moralidade, uma parbola a mera inteno, uma "forma" a seu "fundo". (Schopenhauer j

observara que raramente o pblico percebe a forma, e sempre o fundo.) Em The Croquet Player h uma forma que podemos condenar ou aprovar, mas no negar; j o conto

Star Begotten totalmente amorfo. Uma srie de discusses inteis esgota o volume. O argumento - a inexorvel variao do gnero humano por obra dos raios csmicos

- no se realizou; os protagonistas apenas discutem sua possibilidade. O efeito muito pouco estimulante. Que pena que Wells no tenha tido a idia deste livro!,

pensa com nostalgia o leitor. Seu desejo razovel: o Wells que o argumento exigia no era o conversador enrgico e vago do World of William Clissold e das imprudentes

enciclopdias. Era o outro, o antigo narrador de milagres atrozes: o da histria do viajante que traz do futuro uma flor murcha, o da histria dos homens bestiais

que de noite rezam, roufenhos, um credo servil, o da histria do traidor que fugiu da lua.

EDWARD KASNER AND JAMES NEWMAN:

Mathematics and the Imagination

(Simon and Schuster)

Revisando a biblioteca, vejo admirado que as obras que mais reli e adensei de notas manuscritas so o Diccionario de la Filosofi, de Mauthner, a Historia Biogrfica

de la Filosofia, de Lewes, a Historia de la Guerra de 1914-1918, de Liddell Hart, a Vida de Samuel Johnson, de Boswell, e a psicologia de Gustav Spiller: The Mind

of Man, 19O2. A esse heterogneo catlogo (que no exclui obras que talvez sejam meros hbitos, como a de G. H. Lewes) prevejo que os anos acrescentaro este livro

amenssimo.

NOTAS

Suas quatrocentas pginas registram com clareza os imediatos e acessveis encantos das matemticas, que at um mero homem de letras pode entender, ou imaginar que

entende: o incessante mapa de Brouwer, a quarta dimenso que More entreviu e que Howard Hinton declara intuir, a levemente obscena fita de Moebius, os rudimentos

da teoria dos nmeros transfinitos, os oito paradoxos de Zeno, as linhas paralelas de Desargues que se cortam no infinito, a notao binria que Leibniz descobriu

nos diagramas do I Ching, a bela demonstrao euclidiana da infinitude estelar dos nmeros primos, o problema da torre de Hanoi, o silogismo dilemtico ou bicornuto.

Deste ltimo, com o qual os gregos brincaram (Demcrito jura que os abderitas so mentirosos; mas Demcrito abderita; logo, Demcrito mente; logo, no verdade

que os abderitas so mentirosos; logo, Demcrito no mente; logo, verdade que os abderitas so mentirosos; logo, Demcrito mente; logo...), h verses quase inumerveis

que no variam de mtodo, mas de protagonistas e de fbula. Aulo Glio (Noites ticas, livro quinto, captulo X) recorre a um orador e a seu aluno; Luis Barahona

de Soto (Anglica, undcimo canto), a dois escravos; Miguel de Cervantes (Quixote, segunda parte, captulo LI), a um rio, a uma ponte e a uma forca; Jeremy Taylor,

em alguns de seus sermes, a um homem que sonhou com uma voz que lhe revela que todos os sonhos so inteis; Bertrand Russell (Introduction to Mathematical Philosophy,

pg. 136), ao conjunto de todos os conjuntos que no se incluem a si mesmos.

A essas perplexidades ilustres, atrevo-me a acrescentar esta:

Em Sumatra, algum quer doutorar-se em adivinhao. O bruxo examinador lhe pergunta se ser reprovado ou se passar. O candidato responde que ser reprovado... Podemos

imaginar a infinita continuao.

GERALD HEARD: Pain, Sex and Time

(Cassell)

No incio de 1896, Bernard Shaw percebeu que em Friedrich Nietzsche havia um acadmico inepto, coibido pelo culto supersticioso do Renascimento e dos clssicos (Our

Theatres in the

298

299

#Dtscussno

Nineties, tomo segundo, pg. 94). O inegvel que Nietzsche, para comunicar ao sculo de Darwin sua hiptese evolucionista do Super-Homem, o fez num livro carcomido,

que uma desairosa pardia de todos os Sacred Books of the East. No arriscou uma nica palavra sobre a anatomia ou a psicologia da futura espcie biolgica; limitou-se

a sua moralidade, que identificou (temeroso do presente e do futuro) com a de Csar Brgia e a dos vikings."

Heard corrige, a seu modo, as negligncias e omisses de Zaratustra. Linearmente, o estilo de que dispe bem inferior; para uma leitura corrida, mais tolervel.

No acredita numa super-humanidade, mas anuncia uma vasta evoluo das faculdades humanas. Essa evoluo mental no requer sculos; h nos homens uma incansvel

reserva de energia nervosa, que lhes permite ser incessantemente sexuais, diferena das outras espcies, cuja sexualidade peridica. "A histria", escreve Heard,

" parte da histria natural. A histria humana biologia, acelerada psicologicamente".

1 Certa vez ("Histria da eternidad") procurei enumerar ou recopilar todos os testemunhos da doutrina do Eterno Retorno anteriores a Nietzsche. Esse propsito intil

excede a brevidade de minha erudio e a da vida humana. Aos testemunhos j registrados, acrescento apenas, por ora, o do Padre Feijoo (Teatro Crtico Universal,

tomo quarto, discurso doze). Este, como Sir Thomas Browne, atribui a doutrina a Plato. Formula-a do seguinte modo: "Um dos delrios de Plato foi que, uma vez completado

o ciclo do ano magno (como ele chamava aquele espao de tempo em que todos os astros, depois de inumerveis giros, vo retornar mesma posio e ordem que antes

tiveram entre si), todas as coisas se renovaro, isto , voltaro a aparecer sobre o teatro do mundo os mesmos atores para representar os mesmos sucessos, adquirindo

uma nova existncia homens, bestas, plantas, pedras, enfim, tudo o que j foi animado e inanimado nos sculos anteriores, para se repetirem neles os mesmos exerccios,

os mesmos acontecimentos, os mesmos jogos da fortuna que tiveram em sua primeira existnci". So palavras de 173O; o volume LVI da Biblioteca de Autores Espanoles

as repete. Deixam evidente a justificativa astrolgica do Retorno.

No Timeu, Plato afirma que os sete planetas, equilibradas suas diversas velocidades, voltaro ao ponto de partida inicial, mas no deduz desse vasto circuito uma

repetio pontual da histria. No entanto, Lucflio Vanini declara: "Aquiles ir novamente a Tria; renascero as cerimnias e religies; a histria humana se repete;

no existe nada agora que no tenha sido; o que foi ser; mas tudo isso em geral, no (como determina Plato) em particular". Ele escreveu isso em 1616; Burton o

cita na quarta seo da terceira parte do livro The Anatomy of Melancholy. Francis Bacon (Essay, LVIII, 1625) admite que, completado o ano platnico, os astros causaro

os mesmos efeitos genricos, mas nega sua virtude para repetir os mesmos indivduos.

3OO

NOTAS

A possibilidade de uma evoluo ulterior de nossa conscincia do tempo talvez seja o tema bsico deste livro. Heard opina que os animais carecem totalmente dessa

conscincia e que sua vida descontnua e orgnica pura atualidade. Essa conjetura antiga; Sneca j a expusera na ltima das epsto

las a Luclio: "Animalibus tantum, quod brevissimum, est in transcursu, datum, proesens..." Tambm freqente na literatura

teosfica. Rudolf Steiner compara o estado inerte dos minerais ao dos cadveres; a vida silenciosa das plantas dos homens que dormem; as atenes momentneas do

animal s do negligente sonhador que sonha incoerncias. No terceiro volume de seu admirvel Woerterbueh der Philosophie, Fritz Mauthner observa: "Parece que os

animais no tm seno obscuros pressentimentos da sucesso temporal e da durao. J o homem, quando alm do mais um psiclogo da nova escola, pode diferenciar

no tempo duas imprecises que s estejam separadas por 1 /5OO de segundo". Num livro pstumo de Guyau - La Gense de 1"Ide de Temps, 189O - h duas ou trs passagens

anlogas. Ouspenski (Tertium Organum, captulo IX) enfrenta, no sem eloqncia, o problema; afirma que o mundo dos animais bidimensional e que so incapazes de

conceber uma esfera ou um cubo. Para eles todo ngulo uma moo, um acontecimento no tempo... Como Edward Carpenter, como Leadbeater, como Dunne, Ouspenski profetiza

que nossas mentes prescindiro do tempo linear, sucessivo, e que intuiro o universo de modo

angelical: sub speeie aeternitatis.

Heard chega mesma concluso, numa linguagem s vezes contaminada de patois psiquitrico e sociolgico. Chega, ou acredito que chega. No primeiro captulo de seu

livro afirma a existncia de um tempo imvel que ns homens atravessamos. Ignoro se esse memorvel juzo mera negao metafrica do tempo csmico, uniforme, de

Newton, ou se afirma literalmente a coexistncia do passado, do presente e do futuro. No ltimo caso (diria Dunne), o tempo imvel degenera em espao e nosso movimento

de translao exige outro tempo...

Que de algum modo a percepo do tempo evolua no me parece inverossmil, e talvez seja inevitvel. Que essa evoluo possa ser muito brusca me parece uma gratuidade

do autor, um estmulo artificial.

3O1

#DISCUSSO

GILBERT WATERHOUSE:

A Short History of German Literature

(Methuen, London, 1943)

Eqidistantes do marqus de Laplace (que declarou a possibilidade de cifrar numa nica frmula todos os fatos que sero, que so e que foram) e do inversamente paradoxal

doutor Rojas (cuja histria da literatura argentina mais extensa que a literatura argentina), o senhor Gilbert Waterhouse redigiu em cento e quarenta pginas uma

histria nem sempre inadequada da literatura alem. O exame deste manual no incita injria nem ao ditirambo; seu defeito mais evidente, e talvez inevitvel,

o que De Quincey reprova nos juzos crticos alemes: a omisso de exemplos ilustrativos. Tampouco generoso conceder exatamente uma linha ao mltiplo Novalis e

abusar dessa linha para situ-lo num catlogo subalterno de romancistas cujo modelo foi o Wilhelm Meister. (Novalis condenou o Wilhelm Meister; so clebres as palavras

de Novalis sobre Goethe: " um poeta prtico. nas obras o que so na mercadoria os ingleses: pulcro, simples, cmodo, resistente".) A tradicional excluso de Schopenhauer

e de Fritz Mauthner me indigna, mas j no me surpreende: o horror da palavra filosofia impede que os crticos reconheam, no Woerterbuch de um e nos Parerga und

Paralipomena do outro, os mais inesgotveis e agradveis livros de ensaios da literatura alem.

Os alemes parecem incapazes de agir sem algum aprendizado alucinatrio: podem travar felizes batalhas ou redigir lnguidos e infinitos romances, mas s com a condio

de se acreditarem "arianos puros", ou vikings maltratados pelos judeus, ou atores da Germania de Tcito. (Sobre esta singular esperana retrospectiva Friedrich Nietzsche

opinou: "Todos os germanos autnticos emigraram; a Alemanha de hoje um posto avanado dos eslavos e prepara o caminho para a russificao da Europa". Uma resposta

anloga merecem os espanhis, que se proclamam netos dos conquistadores da Amrica: os netos somos ns, os sul-americanos; eles so sobrinhos..) Notoriamente, os

deuses negaram aos alemes a beleza espontnea. Essa privao define o trgico do culto shakespeariano alemo, que de algum modo se parece a um amor infeliz. O alemo

(Lessing, Herder, Goethe, Novalis, Schiller, Schopenhauer, Nietzsche, Stefan

3O2

Noras

George...) sente com misteriosa intimidade o mundo de Shakespeare, ao mesmo tempo que se sabe incapaz de criar com esse mpeto e com essa inocncia, com essa delicada

felicidade e com esse negligente esplendor. Unser Shakespeare - "nosso Shakespeare", dizem, ou disseram, os alemes, mas sabem-se destinados a uma arte de natureza

diferente: arte de smbolos premeditados ou de teses polmicas. No se pode percorrer um livro como o de Gundolf - Shakespeare und der deutsche Geist - ou como o

de Pascal - William Shakespeare in Germany - sem notar essa nostalgia ou discrdia da inteligncia alem, essa tragdia secular cujo ator no um homem, mas muitas

geraes humanas.

Os homens de outras terras podem ser distraidamente atrozes, eventualmente hericos; os alemes precisam de seminrios de abnegao, ticas da infmia.

Das histrias breves da literatura alem, a melhor, que eu saiba, a de Karl Heinemann, publicada por Kroener; a mais evitvel e penosa, a do doutor Max Koch, invalidada

por supersties patriticas e temerariamente imposta ao idioma espanhol por uma editora catal.

LESLIE D. WEATHERHEAD:

After Death

(The Epworth Press, London, 1942)

Compilei certa vez uma antologia da literatura fantstica. Admito que essa obra uma das pouqussimas que um segundo No deveria salvar de um segundo dilvio, mas

confesso a condenvel omisso dos insuspeitos e maiores mestres do gnero: Parmnides, Plato, Joo Escoto Ergena, Alberto Magno, Spinoza, Leibniz, Kant, Francis

Bradey. De fato, o que so os prodgios de Wells ou de Edgar Allan Poe - uma flor que nos chega do futuro, um morto submetido hipnose - confrontados com a inveno

de Deus, com a teoria laboriosa de um ser que de algum modo trs e que solitariamente perdura fora do tempo? O que a pedra bezoar diante da harmonia preestabelecida,

quem o unicrnio diante da Trindade, quem Lcio Apuleio diante dos multiplicadores de Budas do Grande Veculo, o que so todas as noites de Scherazade perto

3O3

#D~scusswo

de um argumento de Berkeley? Venerei a gradual inveno de Deus; tambm o Inferno e o Cu (uma recompensa imortal, um castigo imortal) so admirveis e curiosos

desgnios da imaginao dos homens.

Os telogos definem o Cu como um lugar de sempiterna glria e ventura e advertem que esse lugar no o dedicado a tormentos infernais. O quarto captulo deste

livro muito razoavelmente nega essa diviso. Argumenta que o Inferno e o Cu no so localidades topogrficas, mas estados extremos da alma. Concorda plenamente

com Andr Gide (Journal, pg. 677), que fala de um Inferno imanente, j declarado pelo verso de Milton: "Which way I fly is Hell; mysel f am Hell"; parcialmente

com Swedenborg, cujas irremediveis almas perdidas preferem as cavernas e os pntanos ao esplendor insuportvel do Cu. Weatherhead prope a tese de um nico heterogneo

ultramundo, alternativamente infernal e paradisaco, segundo a capacidade das almas.

Para quase todos os homens, os conceitos de Cu e de felicidade so inseparveis. Na dcada final do sculo XIX, Butler projetou, no entanto, um Cu no qual todas

as coisas se frustrassem ligeiramente (pois ningum pode tolerar uma felicidade total) e um Inferno correlativo, no qual faltasse todo estmulo desagradvel, salvo

os que probem o sonho. Bernard Shaw, por volta de 19O2, instalou no Inferno as iluses da ertica, da abnegao, da glria e do puro amor imorredouro; no Cu, a

compreenso da realidade (Man and Superman, terceiro ato). Weatherhead um medocre e quase inexistente escritor, estimulado por leituras piedosas, mas intui que

a direta perseguio de uma pura e perptua felicidade no ser menos irrisria do outro lado da morte do que deste. Escreve: "A concepo mais alta das experincias

gozosas que denominamos Cu a de servir: a de uma plena e livre participao na obra de Cristo. Isto poder ocorrer entre outros espritos, talvez em outros

mundos; talvez possamos ajudar a salvar o nosso". Noutro captulo, afirma: "A dor do Cu intensa. Pois quanto mais evoluirmos neste mundo, mais poderemos compartilhar

no outro a vida de Deus. E a vida de Deus dolorosa. Em seu corao esto os pecados, as penas, todo o sofrimento do mundo. Enquanto houver um nico pecador no

universo, no haver felicidade no Cu". (Orgenes, que afirmava uma

NoTws

reconciliao final do Criador com todas as criaturas, inclusive o diabo, j sonhou esse sonho.)

No sei o que o leitor vai pensar de tais conjeturas semiteosficas. Os catlicos (leia-se os catlicos argentinos) acreditam num mundo ultraterreno, mas notei que

no se interessam por ele. Comigo ocorre o contrrio; me interessa e no acredito.

M. DAVIDSON:

The Free Will Controversy

(Watts, London, 1943)

Este volume pretende ser uma histria da vasta polmica secular entre deterministas e partidrios do arbtrio. No o , ou o imperfeitamente, em razo do mtodo

errneo adotado pelo autor. Este se limita a expor os diversos sistemas filosficos e a definir a doutrina de cada um no que concerne ao problema. O mtodo errneo

ou insuficiente, porque se trata de um problema especial cujas melhores discusses devem ser buscadas em textos especiais, no num pargrafo das obras cannicas.

Que eu saiba, esses textos so o ensaio The Dilemma of Determinism, de James, o quinto livro da obra De Consolatione Philosophiae, de Bocio, e os tratados De Divinatione

e De Fato, de Ccero.

A mais antiga forma de determinismo a astrologia judiciria. Assim o entende Davidson, e lhe dedica os primeiros captulos de seu livro. Declara os influxos dos

planetas, mas no expe com clareza suficiente a doutrina estica dos pressgios, segundo a qual, o universo formando um todo, cada uma de suas partes prefigura

(ao menos de modo secreto) a histria das outras. "Tudo o que ocorre um signo de algo que ocorrer", disse Sneca (Naturales Quaestiones, II, 32). Ccero j havia

explicado: "No admitem os esticos que os deuses intervenham em cada cissura do fgado ou em cada canto das aves, coisa indigna, dizem, da majestade divina e totalmente

inadmissvel; sustentam, ao contrrio, que de tal maneira est ordenado o mundo desde o princpio, que a determinados acontecimentos precedem determinados sinais

fornecidos pelas entranhas das aves, pelos raios, pelos prodgios, pelos astros, pelos sonhos e pelos furores profticos... Como tudo acontece por obra do destino,

se existisse um mor

3O4

3O5

#DISCUSSO

NOTAS

tal cujo esprito pudesse abarcar o encadeamento geral das causas, ele seria infalvel; pois quem conhece as causas de todos os acontecimentos futuros prev necessariamente

o futuro". Quase dois mil anos depois, o marqus de Laplace jogou com a possibilidade de cifrar numa nica frmula matemtica todos os fatos que compem um instante

do mundo, para depois extrair dessa frmula todo o futuro e todo o passado.

Davidson omite Ccero; tambm omite o decapitado Bocio. A este os telogos devem, no entanto, a mais elegante das reconciliaes do arbtrio humano com a Providncia

Divina. Que arbtrio o nosso, se Deus, antes de acender as estrelas, conhecia todos os nossos atos e nossos mais recnditos pensamentos? Bocio anota com perspiccia

que nossa servido deve-se circunstncia de que Deus saiba de antemo como vamos agir. Se o conhecimento divino fosse contemporneo dos fatos e no anterior, no

sentiramos que nosso arbtrio fica anulado. Abate-nos a idia de que nosso futuro j esteja, com minuciosa prioridade, na mente de Algum. Esclarecido esse ponto,

Bocio nos lembra que, para Deus, cujo puro elemento a eternidade, no h antes nem depois, j que a diversidade dos lugares e a sucesso dos tempos una e simultnea

para Ele. Deus no prev meu futuro; meu futuro uma das partes do nico tempo de Deus, que o imutvel presente. (Bocio, neste argumento, d palavra providncia

o valor etimolgico de previso; a est a falcia, pois a providncia, como os dicionrios j divulgaram, no se limita a prever os fatos; tambm os ordena.)

Mencionei James, misteriosamente ignorado por Davidson, que dedica um misterioso captulo a discutir com Haeckel. Os deterministas negam que haja no cosmos um nico

fato possvel, id est, um fato que poderia acontecer ou no acontecer; James conjetura que o universo tem um plano geral, mas que as mincias da execuo desse plano

ficam a cargo dos atores.z Quais so as mincias para Deus?, cabe perguntar. A dor fsica, os destinos individuais, a tica? verossmil que assim seja.

2 O princpio de Heisenberg - falo com temor e com ignorncia - no parece hostil a essa conjetura.

SOBRE A DUBLAGEM

As possibilidades da arte de combinar no so infinitas, mas costumam ser espantosas. Os gregos engendraram a quimera, monstro com cabea de leo, com cabea de

drago, com cabea de cabra; os telogos do sculo II, a Trindade, na qual inextricavelmente se articulam o Pai, o Filho e o Esprito; os zologos chineses, o ti-yian~,

pssaro sobrenatural e vermelho, dotado de seis patas e quatro asas, mas sem cara nem olhos; os gemetras do sculo XIX, o hipercubo, figura de quatro dimenses,

que encerra um nmero infinito de cubos e que est limitada por oito cubos e por vinte e quatro quadrados. Hollywood acaba de enriquecer esse intil museu teratolgico;

por obra de um maligno artifcio que se chama dublagem, prope monstros que combinam as ilustres feijes de Greta Garbo com a voz de Aldonza Lorenzo. Como no tornar

pblica nossa admirao diante desse prodgio penoso, diante dessas industriosas anomalias fontico-visuais?

Os que defendem a dublagem argumentaro (talvez) que as objees que lhe podem ser opostas podem tambm se opor a qualquer outro exemplo de traduo. Esse argumento

desconhece, ou elude, o defeito central: o arbitrrio enxerto de outra voz e de outra linguagem. A voz de Hepburn ou de Garbo no contingente; , para o mundo,

um dos atributos que as definem. Tambm cabe lembrar que a mmica do ingls no a do espanhol."

Ouo dizer que nas provncias a dublagem agradou. Trata-se de um simples argumento de autoridade; enquanto no forem publicados os silogismos dos conrtaisseurs de

Chilecito ou de Chivilcoy, eu, pelo menos, no me deixarei intimidar. Tambm ouo dizer que a dublagem agradvel, ou tolervel, para os que no sabem ingls. Meu

conhecimento do ingls menos perfeito que meu desconhecimento do russo; contudo, eu no me conformaria em rever Alexander Nevsky em outra lngua que no fosse

a primitiva e o veria

3 Mais de um espectador se pergunta: J que h usurpao de vozes, por que no usurpar tambm figuras? Quando ser perfeito o sistema? Quando veremos diretamente

Juana Gonzlez no papel de Greta Garbo, no papel da Rainha

Cristina da Sucia?

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3O7

#Discusso

com fervor, pela nona ou dcima vez, se dessem a verso original, ou uma que eu acreditasse ser a original. Este ltimo ponto importante; pior que a dublagem,

pior que a substituio que implica a dublagem, a conscincia geral de uma substituio, de uma farsa.

No h partidrio da dublagem que no acabe por invocar a predestinao e o determinismo. Juram que esse expediente fruto de uma evoluo implacvel e que logo

poderemos escolher entre ver filmes dublados e no ver filmes. Considerando a decadncia mundial do cinema (atenuada apenas por alguma exceo solitria, como A

mscara de Dimitrios), a segunda dessas alternativas no dolorosa. Bombas recentes - penso no Dirio de um nazista, de Moscou, em Pelo vale das sombras, de Hollywood

- nos levam a julg-lo uma espcie de paraso negativo. "Sight-seeing is the art of disappointment", deixou anotado Stevenson; essa definio convm ao cinema e,

com triste freqncia, ao contnuo exerccio inadivel que se chama viver.

O DR. JEKYLL E EDWARD HYDE, TRANSFORMADOS

Hollywood, pela terceira vez, difamou Robert Louis Stevenson. Esta difamao se intitula O mdico e o monstro: foi perpetrada por Victor Fleming, que repete com

nefasta fidelidade os erros estticos e morais da verso (da perverso) de Mamoulian. Comeo pelos ltimos, os morais. No romance de 1886, o doutor Jekyll moralmente

dual, como o so todos os homens, enquanto sua hipstase - Edward Hyde - perversa sem trgua e sem descanso; no filme de 1941, o doutor Jekyll um jovem patologista

que exerce a castidade, enquanto sua hipstase - Hyde - um doidivanas, com traos de sdico e de acrobata. O Bem, para os pensadores de Hollywood, o noivado

com a pudenda e opulenta Miss Lana Turner; o Mal (que tanto preocupou David Hume e os heresiarcas de Alexandria), a coabitao ilegal com Frken Ingrid Bergman ou

Miriam Hopkins. Intil advertir que Stevenson totalmente inocente dessa limitao ou deformao do problema. No captulo final da obra, expe os defeitos de Jekyll:

a sensualidade e a hipocrisia; num dos Ethical Studies - ano de

3O8

[voTAs

1888 - procura enumerar todas as "manifestaes do verdadeiramente diablico" e prope esta lista: "a inveja, a malignidade, a mentira, o silncio mesquinho, a verdade

caluniosa, o difamador, o pequeno tirano, o queixoso envenenador da vida domstica". (Eu afirmaria que a tica no comporta os fatos sexuais, se estes no estiverem

contaminados pela traio, pela cobia ou pela vaidade.)

A estrutura do filme mais rudimentar ainda do que sua teologia. No livro, a identidade de Jekyll e de Hyde uma surpresa: o autor a reserva para o final do nono

captulo. O relato alegrico finge ser um conto policial; no h leitor que adivinhe que Hyde e Jekyll so a mesma pessoa; o prprio ttulo nos faz postular que

so dois. Nada mais fcil do que transpor ao cinema esse procedimento. Imaginemos qualquer problema policial: dois atores que o pblico reconhece figuram na trama

(George Raft e Spencer Tracy, digamos); podem usar palavras anlogas, podem mencionar fatos que pressupem um passado comum; quando o problema indecifrvel, um

deles absorve a droga mgica e se transforma no outro. (Naturalmente, a boa execuo deste plano comportaria dois ou trs reajustes fonticos: a modificao dos

nomes dos protagonistas). Mais civilizado do que eu, Victor Fleming elude todo assombro e todo mistrio: nas cenas iniciais do filme, Spencer Tracy apura sem medo

a verstil poo e se transforma num Spencer Tracy com uma peruca diferente e traos negrides.

Distante da parbola dualista de Stevenson e prximo da Assemblia dos Pssaros composta (no sculo XII de nossa era) por Farid ud-din Attar, podemos conceber um

filme pantesta cujos numerosos personagens, no fim, se resolvem em Um, que perdurvel.

3O9

HISTRIA UNIVERSAL

DA INFAMIA

1935

PRLOGO PRIMEIRA EDIO

Os exerccios de prosa narrativa que integram este livro foram elaborados de 1933 a 1934. Derivam, creio, de minhas releituras de Stevenson e Chesterton e tambm

dos primeiros filmes de Von Sternberg e talvez de certa biografia de Evaristo Carriego. Abusam de alguns procedimentos: as enumeraes dspares, a brusca soluo

de continuidade, a reduo da vida inteira de um homem a duas ou trs cenas. (Esse propsito visual rege tambm o conto "Homem da esquina rosada"J No so, no tratam

de ser, psicolgicos.

Quanto aos exemplos de magia que encerram o volume, no tenho outro direito sobre eles que os de tradutor e leitor. s vezes creio que os bons leitores so cisnes

ainda mais tenebrosos e singulares que os bons autores. Ningum me negar que as obras atribudas por Ualry a seu mais-que-perfeito Edmond Teste valem notoriamente

menos que as de sua esposa e amigos.

Ler, entretanto, uma atividade posterior de escrever: mais resignada, mais civil, mais intelectual.

]. L. B.

Buenos Aires, 27 de maio de 1935.

313

PRLOGO EDIO DE 1954

Eu diria que barroco aquele estilo que deliberadamente esgota (ou pretende esgotar) suas possibilidades, e que confina com a prpria caricatura. Ern vo quis arremedar

Andrew Lang, por volta de mil oitocentos e tantos, a Odissia de Pope; a obra j era sua pardia e o parodista no pde exagerar a tenso. Barroco (Batuco) o nome

de um dos modos do silogismo; o sculo XVIII aplicou-o a determinados abusos da arquitetura e da pintura do XVII; eu diria que barroca a etapa final de toda arte,

quando esta exibe e dilapida seus meios. O barroquismo intelectual e Bernard Shaw declarou que todo trabalho intelectual humorstico. Este humorismo involuntrio

na obra de Baltasar Gracin; voluntrio ou consentido, na obra de John Donue.

J o excessivo ttulo destas pginas proclama sua natureza barroca. Atenu-las teria equivalido a destru-las; por isto prefiro, desta vez, invocar a sentena quod

scripsi, seripsi (Joo 19, 22) e reimprimi-las, ao cabo de vinte anos, tal e qual. So a irresponsvel brincadeira de um tmido que no se animou a escrever contos

e que se distraiu em falsear e tergiversar (sem justificativa esttica, vez ou outra) alheias histrias. Desses ambguos exerccios passou trabalhosa composio

de um conto direto - "Homem da esquina rosada" - que assinou com o nome de um av de seus avs, Francisco Bustos, e que conseguiu xito singular e um pouco misterioso.

Em seu texto, gtle de entonao suburbana, vai-se notar que intercalei algumas palavras cultas: vsceras, converses, etc. Assim o fiz porque o compadre aspira

n finura, ou (esta razo exclui a outra, mas qui a verdadeira) porque os compadres so indivduos e no falam sempre como o Compadre, que figura platnica.

Os doutores do Gro-Veculo ensinam que o essencial do universo o vazio. Tm plena razo no que se refere parte mnima do universo que este livro. Patbulos

e piratas o povoam e a palavra

315

#HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

infmia aturde no ttulo, mas sob o tumulto no h nada. No mais que aparncia, que su~erfeie de imagens; por isso mesmo possa talvez agradar. O homem que o

elaborou era assaz infeliz, mas se entreteve escrevendo-o; oxal algum reflexo daquele prazer chegue aos leitores.

Na seo "Etctera" incorporei trs obras novas.

]. z. B.

316

L inscribe this book to 5. D.: English, innumerable and ari Angel. Also: 1 offer her that kernel of myself thnt I have sgved, somehow- the central heart that deals

not in words, traffics not with dreams and is untouehed by time, by joy, by adversities.

O ATROZ REDENTOR LAZARUS MORELL

A CAUSA REMOTA

Em 1517, o padre Bartolom de las Casas compadeceu-se dos ndios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e props ao imperador Carlos

V a importao de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variao de um filantropo devemos infinitos fatos:

os blues de Handy, o sucesso alcanado em Paris pelo pintor-doutor uruguaio D. Pedro Figari, a boa prosa agreste do tambm oriental D. Vicente Rossi, a dimenso

mitolgica de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secesso, os trs mil e trezentos milhes gastos em penses militares, a esttua do imaginrio

Falucho, a admisso do verbo linchar na dcima terceira edio do Dicionrio da Academia Espanhola, o impetuoso filme Aleluya, a fornida carga de baionetas levada

por Soler frente de seus Pardos y Morenos em Cerrito, a graa da senhorita de Tal, o negro que assassinou Martn Fierro, a deplorvel rumba El Manisero, o napoleonismo

embargado e encarcerado de Toussaint Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pelo machado dos papaloi, a habanera me do tango, o

candombe.

Alm disso: a culpvel e magnfica existncia do atroz redentor Lazarus Morell.

O LUGAR

O Pai das guas, o Mississipi, o rio mais extenso do mundo, foi o digno teatro desse incomparvel canalha. (lvarez de

319

#HISTRIA NIVERSAL DA INFMIA

Pineda o descobriu e seu primeiro explorador foi o capito Hernando de Soto, antigo conquistador do Peru, que distraiu os meses de priso do finca Ataualpa ensinando-lhe

o jogo de xadrez. Morreu, e lhe deram como sepultura as suas guas.)

O Mississpi rio de peito largo; um infinito e obscuro irmo do Paran, do Uruguai, do Amazonas e do Orinoco. um rio de guas mulatas; mais de quatrocentos

milhes de toneladas de lama insultam anualmente o golfo do Mxico, descarregadas por ele. Tanto lixo venervel e antigo construiu um delta, onde os gigantescos

ciprestes dos pntanos crescem sobre os despojos de um continente em perptua dissoluo, e onde labirintos de barro, de peixes mortos, de juncos, dilatam as fronteiras

e a paz de seu ftido imprio. Mais acima, na altura do Arkansas e do Ohio, tambm se alongam as terras baixas. Habita-as uma estirpe amarelenta de homens esqulidos,

propensos febre, que olham com avidez as pedras e o ferro, porque entre eles no h outra coisa seno areia e madeira e gua turva.

OS HOMENS

Em princpios do sculo XIX (a data que nos interessa), as vastas plantaes de algodo que havia nas margens eram trabalhadas por negros, de sol a sol. Dormiam

em cabanas de madeira, sobre o cho de terra. Fora da relao me-filho, os parentescos eram convencionais e obscuros. Nomes tinham, mas podiam prescindir dos sobrenomes.

No sabiam ler. Sua enternecida voz de falsete cantava num ingls de vogais lentas. Trabalhavam em filas, curvados sob o rebenque do capataz. Fugiam, e homens de

barba saltavam sobre cavalos de raa, e fortes ces de caa os rastreavam.

A um sedimento de esperanas bestiais e medos africanos haviam agregado as palavras da Escritura: sua f por conseguinte era a de Cristo. Cantavam concentrados e

em grupos: Go dozvn Moses. O Mississpi servia-lhes de magnfica imagem do srdido Jordo.

Os proprietrios dessa terra trabalhadora e dessas levas de negros eram ociosos e vidos senhores de melena. Habitavam imensos casares voltados para o rio - sempre

O ATROZ REDENTOR LAZARUS MORELL

com um prtico pseudogrego de pinho branca Um bom escravo custava-lhes mil dlares e no durava muito. Alguns cometiam a ingratido de adoecer e morrer. Devia-se

tirar dessas incertas criaturas o maior rendimento. Por isso conservavam-nos nos campos desde o primeiro sol at o ltimo; por isso exigiam das terras colheita anual

de algodo, ou fumo, ou acar. A terra, fatigada e manuseada por essa cultura impaciente, ficava em poucos anos exausta: o deserto confuso e enlodaado enfiava-se

pelas plantaes. Nas chcaras abandonadas, nos subrbios, nos canaviais estreitos e nos abjetos lodaais, viviam os poor whites, a canalha branca. Eram pescadores,

vagos caadores, ladres de cavalo. Costumavam mendigar pedaos de comida roubada aos negros e mantinham em sua prostrao um orgulho: o do sangue sem tisne, sem

mescla. Lazarus Morell foi um deles.

O HOMEM

Os daguerretipos de Morell, que costumam publicar as revistas americanas, no so autnticos. Essa carncia de genunas efgies de homem to memorvel e famoso

no deve ser casual. E verossmil supor que Morell se tenha negado placa polida; essencialmente para no deixar inteis rastros e, de passagem, para alimentar

seu mistrio... Sabemos contudo que no foi favorecido quando jovem e os olhos demasiado prximos e os lbios finos no predispunham a seu favor. Os anos, porm,

conferiram-lhe essa peculiar majestade que tm os canalhas encanecidos, os facnoras venturosos e impunes. Era um antigo cavalheiro do Sul, apesar da infncia miservel

e da vida afrontosa. No desconhecia as Escrituras e pregava com singular convico. "Eu vi Lazarus Morell no plpit " - anota o dono de uma casa de jogo em Baton

Rouge, Louisiana - "e escutei suas palavras edificantes e vi lgrimas acudirem a seus olhos. Sabia que era adltero, ladro de negros e assassino perante o Senhor,

mas tambm meus olhos choraram."

Outro bom testemunho dessas efuses sagradas o que subministra o prprio Morell. "Abri ao acaso a Bblia, dei com um conveniente versculo de So Paulo e preguei

uma hora e vinte minutos. Tampouco desperdiaram esse tempo Crenshaw

32O

321

#~IISTRIA NIVERSAL DA INFr1MIA

e os companheiros, porque levaram com eles todos os cavalos do auditrio. Ns os vendemos no Estado de Arkansas, a no ser um baio muito brioso que reservei para

meu uso particular. Agradava tambm a Crenshaw, mas eu fiz ver a ele que

no lhe servia."

O MTODO

Os cavalos roubados em um Estado e vendidos em

outro foram apenas uma digresso na carreira delinqente

de Morell, porm prefiguraram o mtodo que agora lhe

assegura seu lugar privilegiado em uma Histria Universal

da Infmia. Esse mtodo nico, no s pelas circunstn

cias sui generis que o determinaram, como tambm pela

abjeo que requer, pelo fatal manejo da esperana e pelo desenvolvimento gradual, semelhante atroz evoluo de um pesadelo. A1 Capone e Bugs Moran operam com

ilustres capitais e com metralhadoras servis numa grande cidade, porm seu negcio vulgar. Disputam-se um monoplio, e isso tudo... Quanto a nmero de homens,

Morell chegou a comandar uns mil, todos juramentados. Duzentos integravam o Alto Conselho, e este promulgava as ordens que os restantes oitocentos cumpriam. O risco

recaa nos subalternos. Em caso de rebelio, eram entregues Justia ou arrojados correnteza do rio de guas pesadas, com uma pedra presa nos ps. Eram, com freqncia,

mulatos. Sua facinorosa misso era a seguinte:

Percorriam - com algum momentneo luxo de anis, para inspirar respeito - as vastas plantaes do Sul. Escolhiam um negro infeliz e propunham-lhe a liberdade. Diziam-lhe

que fugisse de seu senhor, para ser vendido por eles uma segunda vez, em alguma propriedade distante. Dar-lhe-iam ento uma percentagem do preo de sua venda e lhe

facultariam a prxima evaso. Iriam conduzi-lo, afinal, a um Estado abolicionista. Dinheiro e liberdade, dlares de prata bem sonantes e liberdade, que maior tentao

podiam oferecer-lhes? O escravo atrevia-se a sua primeira fuga.

O caminho natural era o rio. Uma canoa, o poro de um vapor, uma barcaa, uma balsa grande como o cu, tendo na

O ATROZ REllENTOR LAZARLS MORELL

extremidade uma cabana ou tendas de lona muito altas; o lugar no importava, importava apenas saber-se em movimento e seguro sobre o infatigvel rio... Vendiam-no

em outra plantao. Fugia outra vez para os canaviais ou barrancos. Ento, os terrveis benfeitores (dos quais j comeava a desconfiar) aduziam gastos obscuros

e declaravam que tinham de vend-lo uma ltima vez. Ao regressar dariam a ele a percentagem das duas vendas e a liberdade. O homem deixava-se vender, trabalhava

algum tempo e desafiava na ltima fuga o risco dos ces de caa e dos aoites. Regressava com sangue, com suor, com desespero e com sono.

A LIBERDADE FINAL

Falta considerar o aspecto jurdico desses fatos. O negro no era posto venda pelos sicrios de Morell antes que o dono primitivo houvesse denunciado sua fuga

e oferecido uma recompensa a quem o encontrasse. Quem quer que fosse podia ento ret-lo, de modo que sua venda posterior era abuso de confiana, no roubo. Recorrer

justia civil era gasto intil, porque os danos no eram pagos nunca.

Tudo isso era muito tranqilizador, mas no para sempre. O negro podia falar; o negro, de puro agradecimento ou infelicidade, era capaz de falar. Umas rodadas de

usque de centeio no prostbulo de El Cairo, Illinois, onde o filho de uma cadela nascido escravo iria malgastar o dinheiro que eles no lhe tinham de dar, e transpirava

o segredo. Nesses anos um Partido Abolicionista agitava o Norte, uma turba de loucos perigosos que negavam a propriedade e pregavam a liberdade dos negros, incitando-os

a fugir. Morell no ia deixar-se confundir por tais anarquistas. No era um yankee, era um homem branco do Sul, filho e neto de brancos, e esperava retirar-se dos

negcios e ser um cavalheiro, com lguas de algodoal e as curvadas filas de escravos. Com sua experincia, no estava para riscos inteis.

O trnsfuga esperava a liberdade. Ento os mulatos nebulosos de Lazarus Morell transmitiam entre si uma ordem que podia no passar de uma senha e o livravam da vista,

do ouvido, do tato, do dia, da infmia, do tempo, dos benfeitores, da

322

323

HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

misericrdia, do ar, dos cachorros, do universo, da esperana, do sor e dele mesmo. Um balao, uma punhalada baixa ou um golpe, e as tartarugas e pargos do Mississpi

recebiam a ltima informao.

A CATSTROFE

Servido por homens de confiana, o negcio tinha de prosperar. Em princpios de 1834, uns setenta negros j tinham sido "emancipados" por Morell, e outros dispunhamse

a seguir esses precursores ditosos. A zona de operaes sendo maior, era necessrio admitir afiliados. Entre os que prestaram juramento havia um rapaz, Virgil Stewart,

de Arkansas, que se destacou desde logo pela crueldade. Era ele sobrinh de um fazendeiro que perdera muitos escravos. Em agosto de 1834, rompeu seu juramento e

delatou Morell e os outros. A casa de Morell em Nova Orleans foi cercada pela Justia. Morell, por impreviso ou suborno, pde escapar.

Trs dias passaram. Morell esteve escondido esse tempo numa casa antiga, de ptios com trepadeiras e esttuas, na rua Toulouse. Parece que se alimentava pouco e

ficava a passear descalo pelos grandes dormitrios escuros, fumando pensativos cigarros. Por um escravo da casa remeteu duas cartas cidade de Natchez e outra

a Red River. No quarto dia entraram na casa trs homens que com ele ficaram discutindo at amanhecer. No quinto, Morell levantou-se quando escurecia e pediu uma

navalha e fez cuidadosamente a barba. Vestiu-se e saiu. Atravessou com lenta serenidade os bairros do Norte. J em pleno campo, costeando as terras baixas do Mississpi,

andou mais depressa.

Seu plano era de uma coragem bbada. Pensava aproveitar os ltimos homens que ainda lhe prestavam reverncia: os serviais negros do Sul. Estes haviam visto fugir

seus companheiros e no os haviam visto voltar. Acreditavam, portanto, em sua liberdade. O plano de Morell era o de uma sublevao total dos negros, a tomada e o

saque de Nova Orleans e a ocupao de seu territrio. Morell, cado e quase desfeito pela traio, meditava uma resposta continental: uma respos

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O ATROZ REDENTOR LAZARUS MORELL

ta em que o criminoso se exaltava at a redeno e a histria. Dirigiu-se com esse fim a Natchez, onde estava mais enraizada sua fora. Copio sua narrao dessa

viagem:

"Caminhei quatro dias antes de conseguir um cavalo. No quinto, descansei prximo a um riacho para abastecer-me de gua e sestear. Estava sentado num tronco, olhando

o caminho percorrido at ento, quando vi aproximar-se um cavaleiro numa montaria escura de bom aspecto. Assim que o vi, determinei tomar-lhe o cavalo. Pus-me de

p, apontei em sua direo uma bela pistola de tambor e dei-lhe ordem para apear. Assim o fez, e tomando na canhota as rdeas, mostreilhe o riacho e ordenei que

caminhasse adiante. Andou umas duzentas varas e se deteve. Ordenei que se despisse. Ento me disse: "J que est resolvido a me matar, deixe-me rezar antes de morrer".

Respondi que no tinha tempo d ouvir suas oraes. Caiu de joelhos e lhe disparei um balao na nuca. Abri-lhe o ventre com um talho, arranquei-lhe as vsceras e

afundei-o no riacho. Em seguida, revistei-lhe os bolsos e encontrei quatrocentos dlares e trinta e sete centavos e uma quantidade de papis que no me demorei lendo.

As botas eram novas em folha e me serviam. As minhas, que estavam muito gastas, joguei-as no riacho.

"Assim obtive o cavalo de que precisava para entrar em Natchez."

AINTERRUPO

Morell capitaneando bandos de negros que sonhavam enforc-lo, Morell enforcado por exrcitos negros que sonhava capitanear - sinto confessar que a histria do Mississpi

no aproveitou essas oportunidades suntuosas. Contrariamente a toda justia potica (ou simetria potica), tampouco o rio de seus crimes foi sua tumba. A dois de

janeiro de 1835, Lazarus Morell faleceu de congesto pulmonar no hospital de Natchez, onde se fizera internar com o nome de Silas Buckley. Um companheiro da enfermaria

geral reconheceu-o. A dois e a quatro quiseram sublevar-se os escravos de certas plantaes, mas foram reprimidos sem maior efuso de sangue.

325

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestao do pensamento humano..

O IMPOSTOR INVEROSSMIL TOM CASTRO

Dou-lhe esse nome porque com esse nome o conheceram pelas ruas e casas de Talcahuano, de Santiago do Chile e de Valparaso, por volta de 185O, e justo que o assuma

outra vez, agora que retorna a estas terras - ainda que na qualidade de mero fantasma e de passatempo de sbado." O registro civil de Wapping chama-o Arthur Orton

e o inscreve na data de 7 de junho de 1834. Sabemos que era filho de um aougueiro, que sua infncia conheceu a misria inspida dos bairros pobres de Londres e

que sentiu o chamado do mar. O fato no inslito. Run away to sea, fugir para o mar, a tradicional e britnica ruptura da autoridade paterna, a iniciao herica.

A geografia recomenda-a, e tambm a Escritura (Salmos, 1O6): "Os que descem em barcos ao mar, os que comerciam nas grandes guas, esses vem as obras de Deus e suas

maravilhas no abismo". Orton fugiu de seu deplorvel subrbio de fuliginoso rosa e foi ao mar num navio e contemplou com habitual decepo o Cruzeiro do Sul, e desertou

no porto de Valparaso. Era uma pessoa de sossegada idiotia. Logicamente poderia (e deveria) ter morrido de fome, mas sua confusa jovialidade, seu permanente sorriso

e sua mansido infinita conciliaram-lhe o favor de certa famlia Castro, cujo nome adotou. Desse episdio sul-americano no restam pegadas, mas sua gratido no

decaiu, posto que em 1861 reaparece na Austrlia sempre com esse nome, Tom Castro. Em Sidney conheceu um tal Bogle, criado negro. Bogle, sem ser bonito, tinha esse

ar repousado c: monumental, essa solidez meio de obra de engenharia, prpria

1 Esta metfora serve-me para lembrar ao leitor que as presentes biografias infames apareceram no suplemento de sbado de um vespertino.

32t-)

O IMPOSTOR INVEROSSMIL Tom CASTRO

do homem de cor entrado em anos, em carnes e em autoridade. Tinha uma segunda condio, que determinados manuais de etnologia negam a sua raa: a ocorrncia genial.

Logo veremos a prova. Era um varo morigerado e decente, com os antigos apetites africanos muito corrigidos pelo uso e abuso do calvinismo. Excetuando-se a visita

do deus (que descreveremos depois), era absolutamente normal, sem outra irregularidade que um pudico e vasto terror que o detinha nas esquinas, receando a leste,

oeste, sul e norte, o violento veculo que daria fim a seus dias.

Orton viu-o um entardecer numa desmantelada esquina de Sidney criando coragem para sortear a imaginria morte. Depois de fix-lo longamente, ofereceu-lhe o brao

e ambos atravessaram assombrados a rua inofensiva. Desde esse instante de um entardecer j defunto, estabeleceu-se um protetorado: o do negro inseguro e monumental

sobre o obeso imbecil de Wapping. Em setembro de 1865, ambos leram num jornal local um desconsolado anncio.

O IDOLATRADO HOMEM MORTO

Nos ltimos dias de abril de 1854 (no tempo em que Orton provocava as efuses da hospitalidade chilena, ampla como seus ptios), naufragou nas costas do Atlntico

o vapor Mermaid, procedente do Rio de Janeiro, rumo a Liverpool. Entre os que pereceram estava Roger Charles Tichborne, militar ingls criado na Frana, morgado

de uma das principais famlias catlicas cia Inglaterra. Parece inverossmil, mas a morte desse jovem afrancesado, que falava ingls com o mais fino sotaque de Paris

e despertava esse incomparvel rancor que s causam a inteligncia, a graa e a pedanteria francesas, foi um acontecimento transcendental no destino de Orton, que

jamais o vira. Lady Tichborne, a horrorizada me de Roger, recusou-se a acreditar na morte dele e publicou desconsolados anncios nos peridicos de mais ampla circulao.

Um desses anncios caiu nas macias mos funerrias do negro Bogle, que concebeu um projeto genial.

R".

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

O IMPOSTOR INVEROSSMIL TOM CASTRO

AS VIRTUDES DA DISPARIDADE

Tichborne era um esbelto cavalheiro de ar retrado, traos agudos, tez morena, cabelo negro muito liso, os olhos vivos e a palavra de uma preciso j incmoda. Orton

era um exuberante tosco, de vasto abdmen, traos de infinita vagueia, ctis puxando para o sardento, cabelo encaracolado castanho, olhos entorpecidos, e conversao

ausente e apagada. Bogle inventou que o dever de Orton era embarcar no primeiro vapor para a Europa e satisfazer a esperana de Lady Tichborne, declarando ser seu

filho. O projeto era de insensata perspiccia. Proponho um fcil exemplo. Se algum impostor em 1914 tivesse pretendido passar-se pelo Imperador da Alemanha, as primeiras

coisas que pensaria falsificar teriam sido os bigodes ascendentes, o brao morto, o cenho autoritrio, a capa cinza, o ilustre peito condecorado e o alto elmo. Bogle

era mais sutil: teria apresentado um kaiser glabro, alheio a atributos militares e guias honrosas, o brao esquerdo em indubitvel estado de sade. No necessitamos

de metfora; consta-nos que apresentou um Tichborne balofo, com sorriso amvel de imbecil, cabelo castanho e uma inaltervel ignorncia do idioma francs. Bogle

sabia que um fac-smile perfeito do desejado Roger Charles Tichborne era de impossvel obteno. Sabia tambm que todas as similitudes conseguidas no fariam outra

coisa seno destacar certas diferenas inevitveis. Renunciou, pois, a toda semelhana. Intuiu que a enorme inpcia da pretenso seria uma convincente prova de que

no se tratava de uma fraude, que jamais algum ousaria descobrir desse modo flagrante os mais simples traos convincentes. No se pode esquecer tambm a colaborao

todo-poderosa do tempo: catorze anos de hemisfrio austral e de acaso podem mudar um homem.

Outra razo fundamental: os repetidos e insensatos anncios de Lady Tichborne demonstravam sua absoluta segurana de que Roger Charles no havia morrido, sua vontade

de reconhec-lo.

O ENCONTRO

Tom Castro, sempre servial, escreveu a Lady Tichborne- Para fundamentar sua identidade invocou a prova fidedigna de

duas pintas, situadas no mamilo esquerdo, e aquele episdio de sua infncia, to aflitivo mas por isso mesmo to memorvel, quando foi atacado por um enxame de abelhas.

A comunicao era breve e, maneira de Tom Castro e de Bogle, prescindia de escrpulos ortogrficos. Na imponente solido de um hotel de Paris, a dama leu-a e releu-a

com lgrimas felizes, e em poucos dias encontrou as recordaes que lhe pedia o filho.

Aos dezesseis de janeiro de 1867, Roger Charles Tichborne anunciou-se nesse hotel. Precedeu-o seu respeitoso criado, Ebenezer Bogle. O dia de inverno era de muito

sol; os olhos fatigados de Lady Tichborne estavam velados pelo pranto. O negro abriu de par a par as janelas. A luz comps a mscara: a me reconheceu o filho prdigo

e franqueou-lhe seu abrao. Agora que deveras o possua, podia prescindir do dirio e das cartas que ele lhe mandara do Brasil: meros reflexos adorados que alimentaram

sua solido de catorze anos soturnos. Devolveu-as com orgulho: nem uma faltava.

Bogle sorriu discretamente: j tinha onde se documentar, o plcido fantasma de Roger Charles.

AD MAJOREM DEI GLORIAM

O reconhecimento ditoso - que parece cumprir uma tradio das tragdias clssicas - devia coroar esta histria, deixando trs felicidades asseguradas ou, pelo menos,

provveis: a da me verdadeira, a do filho apcrifo e tolerante, a do conspirador recompensado pela apoteose providencial de seu esforo. O Destino (tal o nome

que aplicamos infinita operao incessante de milhares de causas entrelaadas) no resolveu assim. Lady Tichborne morreu em 187O e os parentes iniciaram uma questo

litigiosa contra Arthur Orton por usurpao de estado civil. Desprovidos de lgrimas e de pesar, mas no de cobia, jamais acreditaram no obeso e quase analfabeto

filho prdigo que to intempestivamente ressurgia da Austrlia. Orton contava com o apoio dos inumerveis credores, que tinham decidido que ele era de fato Tichborne,

para que pudesse pagar-lhes.

Contava ainda com a amizade do advogado da famlia, Edward Hopkins, e com a do antiqurio Francis J. Baigent. Isso

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

O IMPOSTOR INVEROSSMIL TOM CASTRO

no bastava, contudo. Bogle pensou que para ganhar a partida era imprescindvel o favor de uma forte corrente popular. Pediu a cartola e o distinto guarda-chuva

e foi buscar inspirao nas circunspectas ruas de Londres. Era ao entardecer: Bogle vagou at que uma lua cor de mel se duplicou na gua retangular das fontes pblicas.

O deus visitou-o. Bogle chamou uma carruagem e fez-se conduzir ao apartamento do antiqurio Baigent. Este mandou uma longa carta ao Times, na qual assegurava ser

o suposto Tichborne um descarado impostor. Assinava-a o padre Goudron, da Sociedade de Jesus. Outras denncias igualmente papistas se sucederam. O efeito foi imediato:

as boas almas no deixaram de adivinhar que Sir Roger Charles era alvo de um compl abominvel dos jesutas.

A CARRUAGEM

Cento e noventa dias durou o processo. Cerca de cem testemunhas declararam que o acusado era Tichborne - entre eles, quatro companheiros de armas do 6 Regimento

de Drages. Seus partidrios no deixavam de repetir que no era um impostor, pois, se o fosse, teria procurado arremedar os retratos juvenis de seu modelo. Alm

disso, Lady Tichborne o havia reconhecido, e evidente que me no se engana. Tudo corria bem, ou mais ou menos bem, at que uma antiga amada de Orton compareceu

ante o tribunal para depor. Bogle no se alterou com essa prfida manobra dos "parentes"; pediu chapu e guarda-chuva e foi implorar uma terceira iluminao pelas

circunspectas ruas de Londres. No saberemos nunca se a encontrou. Pouco antes de chegar a Primrose Hill, atingiu-o o terrvel veculo que do fundo das idades o

perseguia. Bogle viu-o chegar, deixou escapar um grito, porm no atinou com a salvao. Foi projetado com violncia contra as pedras. Os traioeiros cascos do pangar

partiram-lhe o crnio.

O ESPECTRO

Tom Castro era o fantasma de Tichborne, mas um pobre fantasma habitado pelo gnio de Bogle. Quando lhe disseram

que este havia morrido, aniquilou-se. Continuou mentindo, porm com escasso entusiasmo e com disparatadas contradies. Era fcil prever o fim.

Aos 27 de fevereiro de 1874, Arthur Orton, tambm conhecido como Tom Castro, foi condenado a catorze anos de trabalhos forados. No crcere, soube fazer-se querer;

era seu ofcio. O comportamento exemplar valeu-lhe uma reduo de pena de quatro anos. Quando essa hospitalidade final (a da priso) lhe permitiu, excursionou pelas

aldeias e pelos centros populosos do Reino Unido, a pronunciar pequenas conferncias nas quais declarava sua inocncia ou afirmava sua culpa. Nele, a modstia e

o desejo de agradar eram to duradouros que muitas noites comeou pela defesa e acabou pela confisso, sempre a servio das inclinaes do pblico.

Aos 2 de abril de 1898, morreu.

33O

331

A VIVA CHING, PIRATA

A palavra corsrias corre o risco de despertar uma lembrana que vagamente incmoda: a de uma j descolorida zarzuela, com suas teorias de ostensivas mucamas a

representarem piratas coreogrficas em mares de notrio papelo. Contudo, houve corsrias: mulheres hbeis nas manobras marinheiras, no governo de tripulaes bestiais

e na perseguio e saque de naves de bordo alto. Uma delas foi Mary Read, que declarou certa vez no ser a profisso de pirata para qualquer um, e para exerc-la

com dignidade precisava-se ser homem de coragem, como ela. Nos rsticos princpios de sua carreira, quando ainda era capit, um de seus amantes foi injuriado pelo

espadachim de bordo. Mary desafiou-o para um duelo, e se bateu com ele com as duas mos, segundo o antigo uso das ilhas do mar do Caribe: a profunda e precria garrucha

na mo esquerda, o sabre fiel na direita. A garrucha falhou, mas a espada se portou bem... Por volta de 172O, a arriscada carreira de Mary Read foi interrompida

por uma forca espanhola, em Santiago de Ia Vega (Jamaica).

Outra pirata desses mares foi Anne Bonney, irlandesa resplandecente, de seios altos e cabelo fogoso, que mais de uma vez arriscou seu corpo na abordagem de embarcaes.

Foi companheira de armas de Mary Read, e, finalmente, de forca. Seu amante, o capito John Rackam, teve tambm seu n corredio nessa funo. Anne, despeitada, deu-lhe

esta spera variante de recriminao de Aixa a seu filho, o rei Boabdil: "Se houvesses combatido como um homem, no te enforcariam como um co".

Outra, mais venturosa e longeva, foi uma pirata que operou nas guas da sia, do Mar Amarelo at os rios da fronteira do Annam. Falo da aguerrida viva Ching.

A VIVA CHING, PIRATA OS ANOS DE APRENDIZAGEM

Por volta de 1797, os acionistas das muitas esquadras pirticas desse mar fundaram um consrcio e nomearam almirante um tal Ching, homem justiceiro e experimentado.

Este foi to severo e exemplar na pilhagem s costas que os habitantes espavoridos imploraram com ddivas e lgrimas o socorro imperial. Sua lastimosa petio no

foi desatendida: receberam ordens de pr fogo em suas aldeias, de esquecer os afazeres da pescaria, de emigrar terra adentro e aprender uma cincia desconhecida

chamada agricultura. Assim o fizeram, e os frustrados invasores no encontraram seno um litoral deserto. Tiveram de se entregar, por conseguinte, ao assalto de

navios: depredao ainda mais nociva do que a anterior, pois prejudicava seriamente o comrcio. O governo imperial no vacilou e ordenou aos antigos pescadores o

abandono do arado e dos bois, para que se restaurassem os remos e as redes. Eles se amotinaram, fiis ao antigo temor, e as autoridades decidiram-se por outra conduta:

nomear o almirante Ching chefe dos Estbulos Imperiais. Ele pretendia aceitar o suborno. Os acionistas souberam-no a tempo, e sua virtuosa indignao manifestou-se

num prato de urtigas envenenadas, cozidas com arroz. A guloseima foi fatal: o antigo almirante e chefe novel dos Estbulos Imperiais entregou sua alma s divindades

do mar. A viva, transfigurada pela ,dupla traio, congregou os piratas, revelou-lhes o enredado caso e instou-os a recusar a clemncia falaz do imperador e o ingrato

servio dos acionistas, de inclinao envenenadora. Props-lhes abordagem por conta prpria e a votao de um novo almirante. Foi ela a eleita. Era uma mulher sarmentosa,

de olhos entorpecidos e sorriso cariado. O cabelo, que enegrecia e azeitava, resplandecia mais do que os olhos.

Sob suas tranqilas ordens, os navios lanaram-se ao perigo e ao alto-mar.

O COMANDO

Treze anos de metdica aventura se sucederam. Seis pequenas esquadras integravam a armada sob bandeiras de diversas cores: a vermelha, a amarela, a verde, a cor

de amora e a da ser

k

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

pente, que era a nave capitnia. Os chefes chamavam-se Pssaroe-Pedra, Castigo-da-Agua-Matutina, Jia-da-Tripulao, Ondacom-Muitos-Peixes e Sol-Alto. O regulamento,

redigido pela viva Ching em pessoa, de inapelvel severidade, e seu estilo justo e lacnico prescinde das desfalecidas flores retricas que emprestam majestade

bem mais irrisria maneira oficial chinesa, da qual oferecemos em seguida alguns alarmantes exemplos. Copio alguns artigos:

"Todos os bens transportados de navios inimigos iro ter ao depsito e ali devem ser registrados. Uma quinta parte do saque de cada pirata ser-lhe- entregue mais

tarde; o restante continuar no depsito. A violao desta ordem a morte.

"A pena para o pirata que abandonar seu lugar sem autorizao especial ser a perfurao pblica de suas orelhas. A reincidncia nesta falta a morte.

"O comrcio com as mulheres arrebatadas nas aldeias fica proibido sobre a coberta; dever limitar-se ao poro e nunca sem a licena do oficial que se ocupa dos carregamentos.

A violao desta ordem a morte."

Relatos de prisioneiros asseguram que o rancho desses piratas consistia principalmente de bolachas, de obesos ratos cevados e arroz cozido; nos dias de combate,

costumavam misturar plvora com o lcool. Naipes e dados fraudulentos, o copo e o retngulo do baralho do fantan, o visionrio cachimbo do pio e a lamparina distraam

as horas. Duas espadas de emprego simultneo eram as armas preferidas. Antes da abordagem, esfregavam os pmulos e o corpo com uma infuso de alho; seguro talism

contra as bocas de fogo.

A tripulao viajava com as mulheres, o capito com seu harm, composto de cinco ou seis delas, que costumava renovar nas vitrias.

FALA KIA-KLNIG, O JOVEM IMPERADOR

Em meados de 18O9, promulgou-se um dito imperial do qual copio a primeira parte e a ltima. Muitos criticaram seu estilo:

"Homens desventurados e daninhos, homens que pisam o po, homens que desatendem o clamor dos cobradores de

A VIVA CHING, PIRATA

impostos e dos rfos, homens em cuja roupa ntima esto desenhados a fnix e o drago, homens que negam a verdade dos livros impressos, homens que deixam as lgrimas

correrem fixando o Norte, molestam a ventura de nossos rios e a antiga confiana de nossos mares. Em barcos avariados e desprezveis, enfrentam noite e dia a tempestade.

Seu objetivo no benvolo: no so nem foram nunca os verdadeiros amigos do navegante. Longe de prestar-lhe ajuda, acometemno com ferocssimo impulso e o convidam

runa, mutilao ou morte. Violam, assim, as leis naturais do Universo, de sorte que os rios transbordam, as ribeiras inundam-se, os filhos se voltam contra

os pais e os princpios da umidade e da seca so alterados...

"...Por conseguinte, encomendo-te o castigo, Almirante Kvo-Lang. No te esqueas de que a clemncia um atributo imperial e seria presuno em um impulsivo pretender

assumi-la. S cruel, s justo, s obedecido, s vitorioso."

A referncia inicial s embarcaes avariadas era, naturalmente, falsa. Seu fim era levantar a coragem da expedio de Kvo-Lang. Noventa dias depois, as foras da

viva Ching enfrentaram as do Imprio Central. Quase mil navios combateram de sol a sol. Um coro misto de sinos, de tambores, de canhonaos, de imprecaes, de gongos

e de profecias acompanhou a ao. As foras do Imprio foram desfeitas. Nem o proibido perdo nem a recomendada crueldade tiveram ocasio de exercerem-se. Kvo-Lang

observou um rito que nossos generais derrotados optam por declinar: o suicdio.

AS RIBEIRAS ESPAVORIDAS

Ento, os seiscentos juncos de guerra e os quarenta mil piratas vitoriosos da Viva soberba remontaram ao esturio do Si-Kiang, multiplicando incndios e festas

espantosas e rfos, a bombordo e a estibordo. Houve aldeias inteiras arrasadas. Em s uma delas o nmero de prisioneiros passou do milhar. Cento e vinte mulheres,

que solicitaram o confuso amparo dos juncais e arrozais vizinhos, foram denunciadas pelo incontido choro de uma criana e logo vendidas em Macau. Embora longnquas,

as miserveis lgrimas e lutos

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

A VIVA CHING, PIRATA

dessa depredao chegaram aos ouvidos de Kia-King, Filho do Cu. Certos historiadores pretendem que lhe doeram menos que o desastre de sua expedio primitiva. O

certo que organizou uma segunda, terrvel em estandartes, em marinheiros, em soldados, em petrechos de guerra, em provises, em ugures e astrlogos. O comando

recaiu desta vez em Ting-Kvei. Essa pesada multido de navios remontou ao delta do Si-Kiang e fechou a passagem da esquadra pirtica. A viva aprestou-se para a

batalha. Sabia-a difcil, muito difcil, quase desesperada; noites e meses de saque e cio haviam relaxado seus homens. A batalha no comeava nunca. Sem pressa,

o sol se levantava e se punha sobre os bambus trmulos. Os homens e as armas velavam. Os meios-dias eram mais poderosos, as sestas infinitas.

O DRAGO E A RAPOSA

Contudo, altos bandos preguiosos de leves drages surgiam a cada entardecer das naves da esquadra imperial e pousavam com delicadeza na gua e nas cobertas inimigas.

Eram areas construes de papel e taquara, semelhantes a cometas, e sua prateada ou vermelha superfcie repetia idnticos caracteres. A Viva examinou com ansiedade

esses regulares meteoros e leu neles a lenta e confusa fbula de um drago que sempre havia protegido uma raposa, apesar de suas muitas ingratides e constantes

delitos. A lua adelgaou-se no cu, e as figuras de papel e bambu traziam cada tarde a mesma histria, com quase imperceptveis variantes. A Viva afligia-se e pensava.

Quando a lua estava plena no cu e na gua avermelhada, a histria pareceu chegar a seu fim. Ningum podia predizer se um ilimitado perdo ou se um ilimitado castigo

abater-se-ia sobre a raposa, porm o inevitvel fim se aproximava. A Viva compreendeu. Jogou suas duas espadas no rio, ajoelhou-se num bote e ordenou que a conduzissem

at a nave do comando imperial.

Era ao entardecer; o cu estava cheio de drages, desta vez amarelos. A Viva murmurava uma frase. "A raposa procura a asa do drago", disse ao subir a bordo.

A APOTEOSE

Os cronistas narram que a raposa obteve seu perdo e dedicou a lenta velhice ao contrabando de pio. Deixou de ser a Viva; assumiu um nome cuja traduo verncula

Brilhoda-Verdadeira-lnstruo.

"Desde aquele dia (escreve um historiador) os navios recuperaram a paz. Os quatro mares e os rios inumerveis tornaram-se seguros e felizes caminhos.

"Os lavradores puderam vender as espadas e comprar bois para o arado de seus campos. Fizeram sacrifcios, ofereceram oraes nos cimos das montanhas e se regozijaram

durante o dia cantando atrs de biombos."

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O PROVEDOR DE INIQIDADES MONK EASTMAN

O PROVEDOR DE INIQIDADES

MONK EASTMAN

OS DESTA AMRICA

Bem perfilados num fundo de paredes celestes ou de cu alto, dois compadritos, empertigados em sria roupa negra, danam sobre sapatos de mulher uma dana gravssima,

que a dos idnticos punhais, at que de uma orelha salte um cravo, porque o punhal penetrou em um homem, que encerra, com sua morte horizontal, a dana sem msica.

Resignado, o outro ajeita o chapu e consagra a velhice narrao desse duelo to limpo. Esta a histria detalhada e total de nossa m vida. A dos homens de briga

de Nova York mais vertiginosa e mais desastrada.

OS DA OUTRA

A histria das quadrilhas de Nova York (revelada em 1928 por Herbert Asbury em um circunspecto volume de quatrocentas pginas em oitavo) possui a confuso e crueldade

das cosmogonias brbaras e muito de sua inpcia gigantesca: pores de antigas cervejarias habilitados para cortios de negros, uma raqutica Nova York de trs pavimentos;

bandos de foragidos como os Anjos do Pntano (Swamp Angels) que perambulavam entre labirintos de cloacas; bandos de foragidos como os Daybreak Boys (Rapazes da Madrugada)

que recrutavam assassinos precoces de dez e onze anos; gigantes solitrios e descarados como os Ferozes Insolentes (Plug Ughes) que procuravam o inverossmil riso

do prximo com uma firme cartola peluda e as vastas fraldas da camisa ondeadas pelo vento do subrbio, mas com um garrote na direita e um revlver profundo; bandos

de foragidos como os Coelhos Mortos (Dead Rabbits) que entravam

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na briga com a insgnia de um coelho morto num pau; homens como Johnny Dolan, o Dndi, famoso pelo topete azeitado sobre a fronte, pelas bengalas com cabea de macaco

e pelo fino instrumento de cobre que costumava calar no polegar para esvaziar os olhos dos adversrios; homens como Kit Burns, capaz de decapitar com uma nica

mordida um rato vivo; homens como Blind Danny Lyons, rapaz louro de imensos olhos mortos, rufio de trs rameiras que circulavam com orgulho por ele, filas de casas

de luz encarnadas como as dirigidas por sete irms de New England, que destinavam os lucros da noite de Natal caridade; rinhas de ratos famlicos e de ces; casas

de jogo chinesas; mulheres como a vrias vezes viva Red Norah, amada e ostentada por todos os homens que dirigiam o bando dos Gophers; mulheres como Lizzie the

Dove, que ps luto quando executaram Danny Lyons e morreu degolada por Gentle Maggie, que discutiu com ela a antiga paixo do homem morto e cego; motins, como o

de uma semana selvagem de 1863, que incendiaram cem edifcios e por pouco no se assenhorearam da cidade; combates de rua nos quais o homem se perdia como no mar

porque o pisoteavam at a morte; ladres e envenenadores de cavalos como Yoske Nigger - tecem essa catica histria. Seu heri mais famoso Edward Delaney, apelidado

William Delaney, apelidado Joseph Marvin, apelidado Joseph Morris, tambm conhecido por Monk Eastman, chefe de mil e duzentos homens.

O HERI

Esses disfarces graduais (penosos como um baile de mscaras em que no se sabe bem quem quem) omitem seu nome verdadeiro - se que nos atrevemos a pensar que

existe tal coisa no mundo. O certo que no Registro Civil de Williamsburg, Brooklyn, o nome Edward Ostermann, americanizado como Eastman depois. Coisa estranha,

esse malfeitor tormentoso era hebreu. Filho de um dono de restaurante dos que anunciam Kosher, onde homens de rabnicas barbas podem assimilar sem perigo a carne

dessangrada, trs vezes limpa, de reses degoladas com retido. Aos dezenove anos, por volta de 1892, abriu, com auxlio de seu pai, uma casa de pssaros. Perscrutar

a vida dos animais, contemplar suas pequenas decises e sua inescrut

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

O PROVEDOR DE INIQIDADES MONK EASTMAN

vel inocncia foi uma paixo que o acompanhou at o fim. Em ulteriores pocas de esplendor, quando recusava com desdm os charutos de folha dos sardentos sachems

de Tammany ou visitava os melhores prostbulos em um coche, antecipao de automvel, que parecia o filho natural de uma gndola, abriu um segundo e falso comrcio,

hospedando cem gatos finos e mais de quatrocentas pombas - que no estavam venda para ningum. Gostava deles individualmente e costumava passear a p em seu distrito

com um gato feliz no brao, e outros que o seguiam com ambio.

Ele era uma runa monumental. O pescoo curto, como de touro, o peito inexpugnvel, os braos pelejadores e compridos, o nariz quebrado, a cara, ainda que historiada

com cicatrizes, menos importante que o corpo, as pernas arqueadas como de ginete ou de marinheiro. Podia prescindir de camisa como tambm de palet, no de um chapu

de grandes abas sobre a cabea ciclpica. Os homens cuidam de sua memria. Fisicamente, o pistoleiro convencional dos filmes um arremedo seu, no do epiceno e

balofo Capone. De Wolheim, dizem que o empregaram em Hollywood porque seus traos aludiam diretamente aos do deplorado Monk Eastman... Este costumava percorrer seu

imprio foragido com uma pomba de plumagem azul no ombro, igual a um touro com um bem-te-vi no dorso.

Por volta de 1894, eram abundantes os sales de dana populares na cidade de Nova York. Eastman foi o encarregado de um deles, para manter a ordem. A lenda conta

que o empresrio no o quis atender e que Monk demonstrou sua capacidade demolindo com fragor o par de gigantes que detinha o emprego. Exerceu-o at 1899, temido

e s.

Para cada pendenciador que serenava, fazia com a faca uma marca na maa brutal. Certa noite, uma calva resplandecente que reclinava sobre um bock de cerveja chamou-lhe

a ateno, e a fez desmaiar com uma pancada. "Faltava-me uma marca para cinqenta!", exclamou depois.

O MANDO

Desde 1899, Eastman no era apenas famoso. Era o chefe eleitoral de uma zona importante, e cobrava fortes subsdios

das casas de luz encarnada, das casas de jogo clandestinas, das mulheres de calada, e dos ladres desse feudo srdido. Os comits consultavam-no para organizar

diretrios, e os particulares tambm. Eis aqui seus honorrios: 15 dlares uma orelha arrancada, 19 uma perna quebrada, 25 um balao na perna, 1OO o negcio completo.

As vezes, para no perder o costume, Eastman executava pessoalmente uma encomenda.

Certa questo de limites (sutil e mal-humorada como as outras que posterga o direito internacional) colocou-o diante de Paul Kelly, famoso capito de outro bando.

Balaos e entreveres das patrulhas haviam determinado uma fronteira. Eastman atravessou-a num amanhecer e acometeram-no cinco homens. Com aqueles braos vertiginosos

de macaco e com o cacetete fez rodar trs, mas lhe acertaram duas balas no abdmen e abandonaram-no como se estivesse morto. Eastman segurou a ferida clida com

o polegar e o indicador e caminhou com andar bbado at o hospital. A vida, a febre alta e a morte disputaram-no vrias semanas, mas seus lbios no se rebaixaram

a delatar pessoa alguma. Quando saiu, a guerra era um fato e floresceu em contnuos tiroteios at o dia dezenove de agosto de novecentos e trs.

A BATALHA DE RIVINGTON

Uns cem heris vagamente diferentes das fotografias que estaro desbotando nos pronturios, uns cem heris saturados de fumaa de tabaco e de lcool, uns cem heris

de palheta com faixa colorida, uns cem heris afetados, este mais do que aquele, por doenas vergonhosas, cries, males das vias respiratrias ou dos rins, uns cem

heris to insignificantes ou esplndidos quanto os de Tria ou de Junn deram-se a esse denegrido feito de armas, sombra dos arcos do Elevated. A causa foi o

tributo exigido pelos pistoleiros de Kelly ao empresrio de uma casa de jogo, compadre de Monk Eastman. Um dos pistoleiros foi morto, e o tiroteio conseguinte aumentou

a batalha de inmeros revlveres. Protegidos pelos altos pilares, homens de queixo raspado disparavam silenciosos e eram o centro de um espavorido horizonte de automveis

de aluguel tripulados por impacientes reforos, com ameaadora

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O PROVEDOR DE INIQIDADES MONK EASTMAN

artilharia Colt mo. O que teriam sentido os protagonistas dessa batalha? Primeiro (creio) a brutal convico de que o estrpito insensato de cem revlveres iria

aniquil-los de imediato; segundo (creio) a no menos errnea certeza de que, se a descarga inicial no os derrubara, eram invulnerveis. O certo que pelejaram

com furor, protegidos pelas estruturas metlicas e pela noite. Duas vezes interveio a polcia e duas foi rechaada. Ao primeiro vislumbre do amanhecer, o combate

morreu, como se fora obsceno ou espectral. Sob os grandes arcos de engenharia ficaram sete feridos graves, quatro cadveres e uma pomba morta.

OS RANGIDOS

Os polticos paroquiais, a cujo servio estava Monk Eastman, sempre desmentiram publicamente que houvesse tais bandos ou explicavam que se tratavam de meras sociedades

recreativas. A indiscreta batalha de Rivington alarmou-os. Tiveram entrevistas com os dois capites para intim-los necessidade de uma trgua. Kelly (bom sabedor

de que os polticos eram mais aptos que todos os revlveres Colt para entorpecer a ao policial) disse imediatamente que sim; Eastman (com a soberba de seu grande

corpo de bruto) ansiava por mais detonaes e mais refregas. Comeou por recusar e tiveram de amea-lo com a priso. Afinal, os dois ilustres malfeitores conferenciaram

num bar, cada um com um cigarro de palha na boca, a mo no revlver, e sua nuvem vigilante de pistoleiros ao redor. Chegaram a uma deciso muito americana: confiar

a uma luta de boxe a disputa. Kelly era boxeador habilssimo. O duelo realizou-se num galpo e foi excntrico. Cento e quarenta espectadores viram-no entre sujeitos

de chapus torcidos e mulheres de frgil penteado monumental. Durou duas horas e terminou por completa extenuao. Na outra semana recomearam os tiroteios. Monk

foi preso pela ensima vez. Os protetores se desinteressaram dele com alvio, o juiz vaticinou-lhe, com toda aparncia de verdade, dez anos de crcere.

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EASTMAN CONTRA A ALEMANHA

Quando o ainda perplexo Monk saiu de Sing-Sing, os mil e duzentos foragidos de seu comando estavam debandados. No soube junt-los outra vez, e se resignou a operar

por conta prpria. No dia oito de setembro de 1917, promoveu uma desordem na via pblica. Dia nove, resolveu participar de outra desordem, e se alistou em um Regimento

de Infantaria.

Sabemos de vrios aspectos de sua campanha. Sabemos que desaprovou com fervor a captura de prisioneiros e que certa vez (apenas com a culatra do fuzil) impediu essa

prtica deplorvel. Sabemos que conseguiu fugir do hospital para voltar s trincheiras. Sabemos que se distinguiu nos combates prximos de Montfaucon. Sabemos que

depois opinou que muitos bailaricos populares de Bowery eram mais terrveis que a guerra europia.

O MISTERIOSO, LGICO FIM

No dia vinte e cinco de dezembro de 192O, o corpo de Monk Eastman amanheceu em uma das ruas centrais de Nova York. Havia recebido cinco balaos. Desconhecedor feliz

da morte, um gato dos mais ordinrios rondava-o com certa perplexidade.

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O ASSASSINO DESINTERESSADO

BILL HARRIGAN

A imagem das terras do Arizona, antes de qualquer outra imagem: a imagem das terras do Arizona e do Novo Mxico, terras com ilustre fundamento de ouro e de prata,

terras vertiginosas e areas, terras da meseta monumental e das delicadas cores, terras com o esplendor branco de esqueleto descarnado pelos pssaros. Nessas terras,

outra imagem, a de Billy the Kid: o cavaleiro fixo sobre a montaria, o jovem dos duros tiroteios que aturdem o deserto, o emissor de balas invisveis que matam

distncia, como um feitio.

O deserto encordoado de metais, rido e reluzente. O quase menino que, ao morrer aos vinte e um anos, devia justia vinte e uma mortes - "sem contar mexicanos".

O ESTADO LARVAR

Por volta de 1859, o homem que, para o terror e a glria, seria Billy the Kid, nasceu num cortio subterrneo de Nova York. Dizem que o pariu um fatigado ventre

irlands, mas que se criou entre negros. Nesse caos de catinga e carapinhas, gozou do primado que concedem as sardas e uma melena avermelhada. Praticava o orgulho

de ser branco; tambm era mirrado, bravio, soez. Aos doze anos, militou na quadrilha dos Swamp Angels (Anjos do Pntano), divindades que operavam nas cloacas. Em

noites cheirando a nvoa queimada, emergiam daquele ftido labirinto, seguiam o rumo de algum marinheiro alemo, desmoronavam-no com uma bordoada, despojavam-no

at da roupa de baixo e se entregavam em seguida outra imundcie. Comandava-os

O ASSASSINO DESINTERESSADO BILL HARRIGAN

um negro encanecido, Gas Houser Jonas, tambm famoso como envenenados de cavalos.

s vezes, da janela da gua-furtada de alguma casa corcunda perto da gua, uma mulher virava sobre a cabea de um transeunte um balde de cinza. O homem se agitava

e se afogava. Em seguida, os Anjos do Pntano pululavam sobre ele, arrebatavam-no pela boca de um poro e saqueavam-no.

Tais foram os anos de aprendizagem de Bill Harrigan, o futuro Billy the Kid. No desdenhava as fices teatrais: gostava de assistir (talvez sem nenhum pressentimento

de que eram smbolos e letras de seu destino) aos melodramas

de cowboys.

GO WEST!

Se os populosos teatros de Bowery (cujos freqentadores vociferavam "Levantem o trapo!" menor falta de pontualidade da cortina) eram abundantes nesses melodramas

de cavaleiros e balaos, a faclima razo disso que a Amrica ento sofria a atrao do Oeste. Alm do poente estava o ouro de Nevada e da Califrnia. Alm dos

poentes estavam o machado demolidor de cedros, a enorme cara babilnica do biso, a cartola e o numeroso leito do Brigham Young, as cerimnias e a ira do homem vermelho,

o ar limpo dos desertos, a desmedida pradaria, a terra fundamental, cuja proximidade acelera o bater do corao como a proximidade do mar. O Oeste chamava. Um contnuo

rumor compassado povoou esses anos: o de milhares de homens americanos ocupando o Oeste. Nessa progresso, por volta de 1872, estava o sempre serpejante Bill Harrigan

fugindo de uma cela retangular.

DEMOLIO DE UM MEXICANO

A Histria (que, maneira de certo diretor cinematogrfico, procede por imagens descontnuas) prope agora a de uma arriscada taberna, isolada no todo-poderoso

deserto como em altomar. O tempo, uma desordenada noite do ano de 1873; o exato

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pr, a plancie Parada (Novo Mxico). A terra quase sobrenaturalmente lisa, porm o cu de nuvens em desnvel, com intervalos de tormenta e lua, est cheio de poos

que se fissuram e de montanhas. Na terra h o crnio de uma vaca, ladridos e olhos de coiote na sombra, finos cavalos e a luz prolongada da taberna. Dentro, acotovelados

no mesmo balco, homens cansados e fornidos bebem um lcool pendenciador e fazem ostentao de grandes moedas de prata com uma serpente e uma guia. Um bbado canta

impassivelmente. H quem fale um idioma com muitos esses, que tem de ser espanhol, pois os que o falam so desprezados. Bill Harrigan, rato avermelhado de cortio,

est entre os que bebem. Concluiu duas doses de aguardente e pensa pedir outra mais, talvez porque no lhe reste um centavo. Aniquilam-no, os homens daquele deserto.

V-os tremendos, tempestuosos, felizes, odiosamente sbios no manejo do gado selvagem e de altos cavalos. De repente, faz-se um silncio total, apenas ignorado pela

desatinada voz do bbado. Entrou um mexicano mais do que fornido, com cara de ndia velha. Transborda num excessivo sombreiro e em duas pistolas laterais. Em duro

ingls deseja as boas-noites a todos os gringos filhos de cadela que esto bebendo. Ningum aceita o desafio. Bill pergunta quem , e lhe sussurram temerosamente

que o Dago - o Dego -, Belisrio Villagrn, de Chihuahua. Uma detonao reboa em seguida. Parapeitado por aquele cordo de homens altos, Bill disparou sobre o

intruso. O copo cai da mo de Villagrn, depois todo o homem. No precisa de outra bala. Sem dignar-se olhar para o luxuoso morto, Bill retoma a conversa: "Deveras?

- diz." - Pois eu sou Bill Harrigan, de Nova York". O bbado continua cantando, insignificante.

J se adivinha a apoteose. Bill concede apertos de mo e aceita adulaes, hurras e usques. Algum observa que no h marcas em seu revlver e lhe prope gravar

uma para significar a morte de Villagrn. Billy the Kid fica com a navalha desse algum, mas diz "que no vale a pena anotar mexicanos". S isto, contudo, no basta.

Bill, essa noite, estende sua manta ao lado do cadver e dorme at a aurora - ostentosamente.

1 "Is that so?, he drawled."

O ASSASSINO DESINTERESSADO BILL HARRIGAN

MORTES PORQUE SIM

Dessa feliz detonao (aos catorze anos de idade) nasceu Billy the Kid, o Heri, e morreu o furtivo Bill Harrigan. O meninote da cloaca e das pedradas ascendeu a

homem da fronteira. Fez-se cavaleiro, aprendeu a montar ereto no cavalo, maneira de Wyoming ou do Texas, no com o corpo jogado para trs, ao modo do Oregon e

da Califrnia. No chegou nunca a se parecer, de todo, com sua lenda, porm, dela se aproximou bastante. Algo do cafajeste de Nova York perdurou no cowboy; dedicou

aos mexicanos o dio que antes lhe inspiravam os negros, porm as ltimas palavras que disse foram em espanhol (palavres). Aprendeu a arte vagabunda dos tropeiros.

Aprendeu a outra, mais difcil, de comandar homens; ambas ajudaram-no a ser um ladro eficaz de gado. s vezes, as guitarras e os bordis do Mxico empolgavam-no.

Com a lucidez atroz da insnia, organizava populosas orgias que duravam quatro dias e quatro noites. Afinal, com asco, pagava a conta com balaos. Enquanto o dedo

no gatilho no lhe falhou, foi o homem mais temido (e qui ningum mais sozinho) dessa fronteira. Garrett, seu amigo, o xerife que o matou, disse-lhe certa vez:

"Eu exercitei muito a pontaria matando bfalos". "Eu ainda mais, matando homens", replicou suavemente. Os pormenores so irrecuperveis, porm sabemos que deveu

at vinte e uma mortes - "sem contar mexicanos". Durante sete arriscadssimos anos praticou esse luxo: a coragem.

Na noite de vinte e cinco de julho de 188O, Billy the Kid atravessou no galope de seu malhado a rua principal ou nica, de Fort Sumner. O calor apertava e no haviam

acendido os lampies; o comissrio Garrett, sentado em certa cadeira de balano de um corredor, empunhou o revlver e disparou-lhe um balao no ventre. O cavalo

seguiu; o cavaleiro desaprumou-se na rua de terra. Garrett encaixou-lhe um segundo balao. O lugarejo (sabendo que o ferido era Billy the Kid) fechou bem as janelas.

A agonia foi longa e blasfematria. J com o sol bem alto, acercaram-se dele e o desarmaram; o homem estava morto. Notaram-lhe o ar de objeto fora de uso que tm

os defuntos.

HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

Barbearam-no, embainharam-no em roupa feita e exibiram-no ao espanto e aos remoques na vitrina do melhor armazm.

Homens a cavalo ou em tlburi acudiram de lguas ao redor. No terceiro dia, tiveram de maqui-lo. No quarto dia, enterraram-no com jbilo.

O INCIVIL MESTRE-DE-CERIMNIAS

KOTSUK NO SUK

O infame deste captulo o incivil mestre-de-cerimnias Kotsuk no Suk, aziago funcionrio que motivou a degradao e morte do senhor da Torre de Ako e no se

quis eliminar como um cavaleiro, quando a apropriada vingana o cominou. homem que merece a gratido de todos os homens, porque despertou preciosas lealdades e

foi a negra e necessria ocasio de uma tarefa imortal. Uma centena de romances, de monografias, de teses doutorais e de peras comemoram o fato - para no falar

nas efuses em porcelana, lpis-lazli venulado, e em laca. At o verstil celulide serve-o, uma vez que a Histria Doutrinal dos Quarenta e Sete Capites - tal

seu nome - a mais repetida inspirao do cinema japons. A minuciosa glria que essas ardentes atenes afirmam algo mais que justificvel: imediatamente

justa para quem quer que seja.

Sigo o relato de A. B. Mitford, que omite as contnuas distraes que opera a cor local e prefere atender ao movimento do glorioso episdio. Essa boa ausncia de

"orientalismo" d margem a se suspeitar de que se trata de uma verso direta do japons.

O CORDO DESATADO

Na desvanecida primavera de 17O2, o ilustre senhor da Torre de Ako teve de receber e hospedar um enviado imperial. Dois mil e trezentos anos de cortesia (alguns

mitolgicos) haviam complicado angustiosamente o cerimonial da recepo. O enviado representava o imperador, mas maneira de aluso ou de smbolo: matiz que no

era menos improcedente

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

sublinhar do que atenuar. Para impedir os equvocos muito facilmente fatais, um funcionrio da corte de Yedo precedia-o, na qualidade de mestre-de-cerimnias. Longe

da comodidade cortes e condenado a uma villgiature montanhesa que lhe deve ter parecido um desterro, Kira Kotsuk no Suk dava sem jeito as instrues. s vezes,

dilatava at a insolncia o tom magistral. Seu discpulo, o senhor da Torre, procurava dissimular esse escrnio. No sabia replicar, a disciplina vedava-lhe toda

a violncia. Uma manh, contudo, o cordo do sapato do mestre desatou-se e este lhe pediu que o reatasse. O cavaleiro f-lo com humildade, porm com indignao interior.

O incivil mestre-decerimnias disse-lhe que na realidade era incorrigvel, e que somente um campnio seria capaz de amarrar um n to torpe. O senhor da Torre puxou

da espada e deu-lhe um golpe. O outro fugiu, apenas rubricada a fronte por um fio tnue de sangue... Dias depois, proferia sentena o tribunal militar contra o agressor

e o condenava ao suicdio. No ptio central da Torre de Alo, elevaram um estrado de feltro vermelho e nele se mostrou o condenado e lhe entregaram um punhal de

ouro e pedras, e confessou publicamente sua culpa e se foi despindo at a cintura e abriu o ventre com as duas feridas rituais, e morreu como um samurai, e os espectadores

mais afastados no viram sangue porque o feltro era vermelho. Um homem encanecido e cuidadoso decapitou-o com a espada: o conselheiro Kuranosuk, seu padrinho.

O SIMULADOR DA INFMIA

A Torre de Takumi no Kami foi confiscada; seus capites, debandados; sua famlia, arruinada e obscurecida; seu nome, vinculado execrao. Um rumor quer que, na

idntica noite em que ele se matou, quarenta e sete de seus capites deliberaram no cume de um monte e planejaram, com toda a preciso, o que se produziu um ano

mais tarde. O certo que devem ter procedido de justificadas demoras e que algum de seus conclios teve lugar, no no cume difcil de uma montanha, mas numa capela

em um bosque, medocre pavilho de madeira branca, sem outro adorno que a caixa retangular que contm um espelho. Apetecia-lhes a vingana, e a vingana lhes deve

ter parecido inalcanvel.

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O INCIVIL MESTRE-DE-CERIMNIAS KOTSUK NO SUK

Kira Kotsuk no Suk, o odiado mestre-de-cerimnias, havia fortificado sua casa, e uma nuvem de arqueiros e esgrimistas custodiava seu palanquim. Contava com espias

incorruptveis, pontuais e secretos. Mais do que ningum, zelavam e vigiavam o presumido capito dos vingadores: Kuranosuk, o conselheiro. Este percebeu-o por acaso

e fundou seu projeto vindicativo sobre esse fato.

Mudou-se para Kioto, cidade insupervel em todo o imprio pela cor de seus outonos. Deixou-se arrebatar pelos lupanares, pelas casas de jogo e pelas tabernas. Apesar

de suas cs, conviveu com rameiras e com poetas, e gente ainda pior. Uma vez expulsaram-no da taberna e amanheceu adormecido no umbral, a cabea tombada sobre um

vmito.

Um homem de Satsuma reconheceu-o e disse, com tristeza e com ira: "No este, porventura, aquele conselheiro de Asano Takumi no Kami, que o ajudou a morrer e que,

em vez de vingar seu senhor, entrega-se aos deleites e vergonha? Oh, tu, indigno do nome de Samurai!"

Pisou-lhe o rosto adormecido e cuspiu nele. Quando os espies denunciaram sua passividade, Kotsuk no Suk sentiu grande alvio.

Os fatos no pararam a. O conselheiro despediu a esposa e o mais jovem de seus filhos, e comprou uma mulher num lupanar, famosa infmia que lhe alegrou o corao

e relaxou a temerosa prudncia do inimigo. Este acabou por dispensar a metade de seus guardas.

Numa das noites atrozes do inverno de 17O3, os quarenta e sete capites marcaram encontro num desmantelado jardim dos arredores de Yedo, perto da ponte e da fbrica

de baralhos. Iam com as bandeiras de seu senhor. Antes de empreenderem o assalto, advertiram os vizinhos de que no se tratava de violao s leis, mas de operao

militar de estrita justia.

A CICATRIZ

Os dois bandos atacaram o palcio de Kira Kotsuk no Suk. O conselheiro comandou o primeiro, que atacou a porta da frente; o segundo, seu filho mais velho, que

completaria dezesseis anos nessa noite. A histria sabe os diver

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

O INCIVIL MESTRE-DE-CERIMNIAS KOTSUK NO SUK

sos momentos desse pesadelo to lcido: a descida arriscada e pendular pelas escadas de corda, o tambor do ataque, a precipitao dos defensores, os arqueiros postados

na aotia, o direto destino das flechas aos rgos vitais do homem, as porcelanas infamadas de sangue, a morte ardente, que depois glacial; os impudores e desordens

da morte. Nove capites morreram; os defensores no eram menos valentes e no se quiseram render. Pouco depois da meia-noite, toda a resistncia cessou.

Kira Kotsuk no Suk, razo ignominiosa dessas lealdades, no aparecia. Procuraram-no por todos os cantos desse inquieto palcio, e j desesperavam de o encontrar

quando o conselheiro notou que os lenis de seu leito estavam ainda mornos. Voltaram a procurar e descobriram uma estreita janela dissimulada por um espelho de

bronze. Em baixo, de um pequeno ptio sombrio, olhava-os um homem de branco. Uma tnue espada estava em sua mo direita. Quando desceram, o homem entregou-se sem

luta. Raiava-lhe a fronte uma cicatriz: velho desenho do ao de Takumi no Kami.

Ento os sangrentos capites arrojaram-se aos ps do odioso e lhe disseram que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdio e fim era culpado, e lhe rogaram

que se suicidasse, como o deve fazer um samurai.

Em vo propuseram esse decoro a seu nimo servil. Era um varo inacessvel honra; de madrugada tiveram de degol-lo.

O TESTEMUNHO

J satisfeita sua vingana (mas sem ira, e sem agitao, e sem lstima), os capites dirigiram-se ao templo que guarda as relquias de seu senhor.

Em uma caldeira levam a incrvel cabea de Kira Kotsuk no Suk e se revezam para cuidar dela. Atravessam os campos e as provncias, luz sincera do dia. Os homens

os bendizem e choram. O prncipe de Sendai quer hospedlos, mas respondem que h quase dois anos que os aguarda seu senhor. Chegam ao escuro sepulcro e oferecem

a cabea do inimigo.

A Suprema Corte emite a sentena. o que esperam: se lhes outorga o privilgio do suicdio. Todos o cumprem, alguns com ardente serenidade, e repousam ao lado de

seu senhor. Homens e crianas vm rezar no sepulcro desses homens to fiis.

O HOMEM DE SATSUMA

Entre os peregrinos que acodem, h um rapaz empoeirado e exausto que deve ter vindo de longe. Prosterna-se diante do monumento de Oishi Kuranosuk, o conselheiro,

e diz em voz alta: "Eu te vi jogado porta de um lupanar de Kioto e no pensei que estava premeditando a vingana de teu senhor, e te julguei um soldado sem f

e cuspi em teu rosto. Vim te dar satisfaes". Disse isto e cometeu haraquiri.

O prior condoeu-se de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar em que os capites repousam.

Este o final da histria dos quarenta e sete homens leais - salvo que no tem fim, porque os outros homens que no somos leais talvez, mas nunca perderemos de

todo a esperana de s-lo, continuaremos a honr-los com palavras.

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O TINTUREIRO MASCARADO HAKIM DE MERV

O TINTUREIRO MASCARADO

HAKIM DE MERV

A Anglica Ocampo

Se no me engano, s fontes originais de informao acerca de Al Moganna, o Profeta Velado (ou mais estritamente, Mascarado) do Kurassan, reduzem-se a quatro: a)

os excertos da Histria dos Califas, conservados por Baladhuri; b) o Manual do Gigante ou Livro da Preciso e da Reviso, do historiador oficial dos abssidas, Ibn

abi Tair Tarfur; c) o cdice rabe intitulado A Aniquilao da Rosa, em que se refutaram as heresias abominveis da Rosa Obscura ou Rosa Escondida, que era o livro

cannico do Profeta; d) umas moedas sem efgie desenterradas pelo engenheiro Andrusov, num desmonte da Estrada de Ferro Transcaspiana. Essas moedas foram depositadas

no Gabinete Numismtico de Teer e contm dsticos persas que resumem ou corrigem certas passagens da Aniquilao. A Rosa original foi perdida, uma vez que o manuscrito

encontrado em 1889 e publicado no sem leviandade pelo Morgenlndisches Archiv foi declarado apcrifo por Horn e em seguida por Sir Percy Sykes.

A fama ocidental do Profeta deve-se a um loquaz poema de Moore, sobrecarregado de saudades e suspiros de conspirador irlands.

A PRPURA ESCARLATE

Aos 12O anos da Hgira e 736 da Cruz, o homem Hakim, que os homens daquele tempo e daquele espao apelidaram logo de O Velado, nasceu no Turquesto. Sua ptria foi

a antiga cidade de Merv, cujos jardins e vinhedos

e prados olham tristemente o deserto. O meio-dia branco e deslumbrante, quando no o obscurecem nuvens de p que sufocam os homens e deixam uma lmina esbranquiada

nas cepas escuras.

Hakim criou-se nessa fatigada cidade. Sabemos que um irmo de seu pai adestrou-o no ofcio de tintureiro: arte de mpios, de falsrios e de inconstantes, que inspirou

os primeiros antemas de sua carreira prdiga. "Meu rosto de ouro (revela em uma pgina famosa da Aniquilao), porm macerei a prpura e submergi na segunda noite

a l sem cardar e saturei na terceira a l preparada, e os imperadores das ilhas ainda se disputam essa roupa sangrenta. Assim pequei nos anos da juventude e transtornei

as verdadeiras cores das criaturas. O Anjo dizia-me que os carneiros no eram da cor dos tigres, Sat dizia-me que o Poderoso queria que o fossem e se valia de minha

astcia e de minha prpura. Agora sei que o Anjo e Sat erravam a verdade e que toda cor abominvel."

No ano 146 da Hgira, Hakim desapareceu de sua ptria. Encontraram destrudas as caldeiras e cubas de imerso, assim como um alfanje de Xiraz e um espelho de bronze.

O TOURO

Ao final da lua de xab no ano de 158, o ar do deserto estava muito claro e os homens olhavam o poente em busca da lua de ramad, que promove a mortificao e o

jejum. Eram escravos, esmoleres, vendilhes, ladres de camelo e aougueiros. Gravemente sentados na terra, aguardavam o sinal do porto de uma pousada de caravanas

no caminho de Merv. Olhavam o ocaso, e a cor do ocaso era a da areia.

Do fundo do deserto vertiginoso (cujo sol produz a febre, assim como a lua produz o pasmo), viram adiantaram-se trs figuras, que lhe pareciam altssimas. Eram humanas

as trs, mas a do meio tinha cabea de touro. Quando chegaram mais perto, viram que este usava mscara e os outros dois eram cegos.

Algum (como nos contos das Mil e Uma Noites) indagou a razo dessa maravilha. "Esto cegos" - declarou o homem da mscara - "porque viram meu rosto".

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O LEOPARDO

O cronista dos abssidas conta que o homem do deserto (cuja voz era singularmente doce, ou assim lhes pareceu por diferir da brutalidade de sua mscara) disse-lhes

que estavam aguardando o signo de um ms de penitncia, mas que ele pregava um signo superior: o de toda uma vida penitencia) e uma noite injuriada. Disse-lhes que

era Hakim, filho de Osm, e que no ano de 146 da Hgira havia penetrado um homem em sua casa e logo que se purificara, feitas as oraes, havia cortado a cabea

dele, com um alfanje, e a levara at o cu. Sobre a mo direita do homem (que era o Anjo Gabriel) sua cabea tinha estado ante o Senhor, que lhe deu a misso de

profetizar, e lhe inculcou palavras to antigas que sua repetio queimava as bocas, e lhe infundiu um glorioso esplendor, que os olhos mortais no toleravam. Tal

era a justificativa da Mscara. Quando todos os homens da terra professassem a nova lei, o Rosto lhes seria descoberto, e eles poderiam ador-lo sem risco - como

os anjos j o adoravam. Proclamada sua comisso, Hakim exortou-os a uma guerra santa - um djehad - e a seu conveniente martrio.

Os escravos, mendigos, pequenos negociantes, ladres de camelos e aougueiros negaram-lhe sua f: uma voz gritou bruxo e outra, impostor.

Algum havia trazido um leopardo - talvez um exemplar dessa raa esbelta e sangrenta que os monteiros persas amestram. O certo que rompeu sua priso. Salvos o

profeta mascarado e os dois aclitos, as pessoas atropelaram-se para fugir. Quando voltaram, a fera havia cegado. Ante os olhos luminosos e mortos, os homens adoraram

Hakim e confessaram sua virtude sobrenatural.

O PROFETA VELADO

O historiador oficial dos abssidas narra sem maior entusiasmo os progressos de Hakim, o Velado, no Kurassan. Essa provncia - muito comovida pela desventura e crucificao

de seu mais famoso chefe - abraou com desesperado fervor a doutrina do Rosto Resplandecente e lhe tributava seu sangue e

O TINTUREIRO MASCARADO HAKIM DE MERV

seu ouro. (Hakim, j ento, descartou sua efgie brutal por um qudruplo vu de seda branca, recamado de pedras. A cor emblemtica dos Banu Abbs era o negro; Hakim

escolheu a cor branca - a mais contraditria - para o Vu Resguardados, os pendes e os turbantes.) A campanha iniciou-se bem. verdade que no Livro da Preciso

as bandeiras do Califa so em todo lugar vitoriosas, mas como o resultado mais freqente dessas vitrias a destituio de generais e o abandono de castelos inexpugnveis,

o avisado leitor sabe a que se ater. Ao final da lua de rejeb do ano 161, a famosa cidade de Nixapur abriu suas portas de metal ao Mascarado; em princpios de 162,

a de Astarabad. A atuao militar de Hakim (como a de outro mais venturoso Profeta) reduziu-se prece em voz de tenor, mas elevada divindade do alto dorso de

um camelo avermelhado, no corao agitado das batalhas. A seu redor silvavam as flechas, sem que jamais o ferissem. Parecia procurar o perigo: na noite que uns detestveis

leprosos rondaram seu palcio, ordenou-lhes comparecer a sua presena, beijou-os e lhes ofereceu prata e ouro.

Delegava as fadigas do governo a seis ou sete adeptos. Era estudioso da meditao e da paz: um harm de 114 mulheres cegas tratava de aplacar as necessidades de

seu corpo divino.

OS ESPELHOS ABOMINVEIS

Sempre que suas palavras no invalidem a f ortodoxa, o Isl tolera a apario de amigos confidenciais de Deus, por indiscretos ou ameaadores que sejam. O Profeta,

talvez, no tivesse desprezado os favores desse desdm, mas seus partidrios, suas vitrias e a clera pblica do Califa - que era Mohamed Al Mahdi - obrigaram-no

heresia. Essa dissenso o arruinou, mas antes o fez definir os artigos de uma religio pessoal, se bem que com evidentes infiltraes das prhistrias gnsticas.

No princpio da cosmogonia de Hakim, h um Deus espectral. Essa divindade carece majestosamente de origem, assim como de nome e rosto. um Deus imutvel, mas sua

imagem projetou nove sombras que, condescendendo ao, dotaram e presidiram um primeiro cu. Dessa primeira coroa

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gica procedeu uma segunda, tambm com anjos,

Ades e tronos, e estes fundaram outro cu mais baixo,

Ia a rplica exata do inicial. Esse segundo conclave viuse reproduzido em um terceiro, e esse em outro inferior, e assim at 999. O senhor do cu do fundo o que

nos rege - sombra de sombras de outras sombras - e sua frao de divindade tende a zero.

A terra em que habitamos um erro, uma incompetente pardia. Os espelhos e a paternidade so abominveis, porque a multiplicam e afirmam. O asco a virtude fundamental.

Duas disciplinas (cuja escolha deixava livre o profeta) podem conduzir-nos a ela: a abstinncia e o excesso, a luxria ou a castidade.

O paraso e o inferno de Hakim no eram menos desesperados. "Aos que negam a Palavra, aos que negam o Vu Incrustado e o Rosto (diz uma imprecao que se conserva

da Rosa Escondida) prometo um Inferno maravilhoso, porque cada um deles reinar sobre 999 imprios de fogo, e em cada imprio 999 montes de fogo, e em cada monte

999 torres de fogo, e em cada torre 999 soalhos de fogo, e em cada andar 999 leitos de fogo, e em cada leito estar ele e 999 formas de fogo (que tero seu rosto

e sua voz) o torturaro para sempre." Em outro lugar corrobora: "Aqui na vida padeceis em um corpo; na morte e na Retribuio, em inumerveis". O paraso menos

concreto. "Sempre noite e h pilares de pedra, e a felicidade desse paraso a felicidade peculiar das despedidas, da renncia e dos que sabem que dormem."

O ROSTO

No ano 163 da Hgira e quinto do Rosto Resplandecente, Hakim foi cercado em San pelo exrcito do Califa. Provises e mrtires no faltavam, e se aguardava o iminente

socorro de uma caterva de anjos da luz. Nisso estavam, quando um espantoso rumor atravessou o castelo. Contava-se que uma mulher adltera do harm, ao ser estrangulada

pelos eunucos, havia gritado que mo direita do Profeta faltava o dedo anular e que careciam de unhas os outros. O rumor espalhou-se entre os fiis. Em pleno sol,

de um elevado terrao, Hakim

pedia uma vitria ou um sinal divindade familiar. Com a cabea baixa, servil - como se corressem contra a chuva -, dois capites lhe arrancaram o Vu recamado

de pedras.

Primeiro houve um calafrio. O prometido rosto do Apstolo, o rosto que havia estado nos cus, era de fato branco, mas da brancura peculiar lepra manchada. Era

to volumoso ou inacreditvel que parecia uma mscara. No tinha sobranclhas; a plpebra inferior do olho direito pendia sobre a bochecha senil; uma pesada cepa

de tubrculos comia-lhe os lbios; o nariz inumano e achatado como de um leo.

A voz de Hakim ensaiou uma mentira final. "Vosso pecado abominvel vos probe de perceber meu esplendor...", comeou a dizer.

No o escutaram e atravessaram-no com as lanas.

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HOMEM DA EsQu1NA ROSADA

HOMEM DA ESQUINA ROSADA"

Para Enriciue Amorico

Logo para mim, falar do finado Francisco Real. Cheguei a conhec-lo, embora no fosse deste bairro - seus domnios eram mais para o Norte, pelos lados da laguna

de Guadalupe e da Bateria. Estive com ele no mais de trs vezes, e todas numa nica noite, mas noite que no esquecerei: foi quando a Lujanera veio, sem mais,

dormir em meu rancho, e Rosendo Jurez deixou o Arrogo para no voltar. Claro que lhes falta a devida experincia para reconhecer esse nome, mas Rosendo Jurez,

o Batedor, era dos que falavam mais alto em Villa Santa Rita. Rapaz afamado por ser bom na faca, era um dos homens de Dom Nicols Paredes, que era homem de Morel.

Costumava aparecer muito alinhado nos bordis, num cavalo escuro enfeitado de prata. Homens e cachorros o respeitavam e tambm as chinas; ningum ignorava que matara

dois; usava chapu alto, de aba estreita, sobre a cabeleira oleosa. Como se costuma dizer, a sorte o tratava bem. Ns, os rapazes da Villa, o imitvamos at no modo

de cuspir. Entretanto, uma noite revelou para ns a verdadeira condio de Rosendo.

Parece fantasia, mas a histria dessa estranha noite comeou com uma soberba jardineira de rodas vermelhas, carregada de homens, aos trancos por esses becos de barro

duro, entre fornos de tijolos e buracos, com dois deles de preto tocando guitarra e fazendo barulho, e o outro na bolia a fustigar os cachorros soltos que atrapalhavam

o tordilho, e mais um sujeito de poncho, silencioso no meio, e esse era o to famoso Curraleiro, que ia brigar e matar. A noite era uma

1 Texto traduzido por Flvio Jos Cardozo.

bno de to fresca. Dois deles iam sobre a capota arriada, como se a solido fosse um corso. Esse foi o primeiro acontecimento dos tantos que houve, mas s depois

ficamos sabendo. Ns, os rapazes, estvamos desde cedo no salo de Jlia, um galpo com telhas de zinco, entre a estrada de Gauna e o arroio Maldanado. Era um lugar

que se podia ver de longe, graas luz que o desavergonhado lampio espalhava ao redor e tambm pelo barulho. Jlia, embora de cor humilde, era consciente e formal,

tanto que no faltavam msicos nem boa bebida nem companheiras resistentes para o baile. Mas a Lujanera, que era a mulher de Rosendo, ganhava longe de todas. Ela

morreu, senhor, e digo que passo anos sem pensar nela, mas precisava v-la naqueles bons tempos. Ningum se cansava de olhar para a Lujanera.

A bebida, a milonga, o mulherio, um palavro condescendente da boca de Rosendo, uma palmada dele em meu queixo, que eu tentava interpretar como amizade - a verdade

e que me sentia feliz. Arrumei uma parceira que me acompanhava muito bem, como se adivinhasse minhas intenes. O tango fazia o que bem entendia conosco; estimulava-nos

e perdia-nos e nos botava em ordem e nos fazia reencontrar. Nessa diverso, os homens estavam como num sonho, quando de repente a msica pareceu crescer: que a

ela j se misturava a msica dos guitarristas do carro, cada vez mais prximo. Depois, a brisa que a trouxe levou-a para outro rumo, e voltei a dar ateno a meu

corpo e ao de minha companheira e s conversas do baile. Mais tarde, bateram porta com autoridade, uma batida e uma voz. Em seguida, um silncio geral, um empurro

muito forte na porta e o homem j estava dentro. O homem se parecia com a voz.

Para ns, no era ainda Francisco Real, mas sim um sujeito alto, robusto, todo vestido de preto, com uma manta brancoamarelada jogada sobre o ombro. Lembro que tinha

cara de ndio, angulosa.

Ao abrir-se, a porta bateu em mim. No mais que por atordoamento, atirei-me sobre o homem e apliquei-lhe na facha um murro com a esquerda, enquanto com a direita

puxava a faca afiada que sempre trazia na cava do colete, junto ao sovaco esquerdo. Ia durar pouco minha precipitao. O homem, para se firmar, esticou os braos

e me afastou, como que se

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JNIVERSAL DA INFMIA

HOMEM DA ESQUINA ROSADA

Deixou-me escondido atrs, ainda

Jet, sobre a arma intil. Continuou

tempre mais alto que qualquer um

ano se no visse nada. Os primeiros

- abriram-se em leque, apressados.

grupo seguinte o Ingls j o espe

ombro a mo do forasteiro, deitou

pida. Foi acontecer aquela prancha

u.u am. O salo tinha muitas varas de fundo, e o carregaram como um cristo, quase duma ponta a outra, com empurres, vaias e cusparadas. Primeiro deramlhe socos,

depois, vendo que no se defendia dos golpes, s tapas com a mo aberta ou com a franja inofensiva da manta, como se estivessem rindo dele ou o reservando para Rosendo,

que no se mexera da parede do fundo, onde estava encostado, quieto. Fumava com pressa seu cigarro, como se entendesse o que depois fomos ver claramente. O Curraleiro

foi empurrado at ele, firme e ensangentado, envolvido na assuada da ral estpida. Vaiado, chicoteado, cuspido, s abriu a boca quando se defrontou com Rosendo.

Ento olhou para ele, limpou o rosto com o antebrao e disse o seguinte:

- Eu sou Francisco Real, um homem do Norte. Eu sou Francisco Real, que chamam de Curraleiro. Permiti a esses infelizes que me botassem a mo porque o que estou procurando

um homem. Andam por a uns boateiros dizendo que por estes descampados existe um sujeito com fama de ser bom na faca e de ser duro, um tal Batedor. Quero me encontrar

com ele para que me ensine, a mim que no sou ningum, o que um homem corajoso.

Disse isso e no tirou os olhos do outro. Na mo direita agora j reluzia uma faca que com certeza tinha trazido na manga. Em volta, os que o haviam empurrado foram

abrindo caminho e todos ns olhvamos para os dois, num grande silncio. At os beios do mulato cego que tocava violino tambm se abriram.

Nisso, ouo que se mexem l atrs e vejo na soleira da porta seis ou sete homens, que deviam ser capangas do Curraleiro. O mais velho, um homem com ar de campons,

curtido, de bigode grisalho, adiantou-se e, deslumbrado com tanto

mulherio e tanta luz, descobriu-se com respeito. Os outros vigiavam, prontos para entrar em ao se o jogo no fosse limpo.

Que que acontecia com Rosendo que no expulsava a pontaps aquele fanfarro? Continuava calado, sem levantar os olhos. No sei se cuspiu o cigarro ou se o deixou

cair da boca. Por fim, conseguiu balbuciar algumas palavras, mas to baixo que nada escutamos na outra ponta do salo. Francisco Real tornou a desafi-lo e ele continuou

a negar-se. Ento, o mais jovem dos forasteiros assobiou. A Lujanera olhou para ele com desprezo e foi andando, com a cabeleira solta nas costas, entre homens e

chinas. Chegou-se a seu homem, pslhe a mo no peito, tirou a faca desembainhada e deu-a a ele com estas palavras:

- Rosendo, acho que ests precisando disto.

Na altura do teto havia uma espcie de janela comprida que dava para o arroio. Com as duas mos, Rosendo recebeu a faca e a encarou como se no a reconhecesse. Jogou-se

de repente para trs e a faca voou direto e perdeu-se l fora, no Maldonado. Senti uma espcie de frio.

- No te meto a faca de nojo - disse o outro, e levantou a mo para castig-lo.

Ento a Lujanera agarrou-se nele, passou-lhe os braos pelo pescoo, olhou-o com aqueles olhos e disse com raiva:

- Deixa esse a que fez a gente pensar que era homem.

Francisco Real ficou confuso por um momento e depois abraou a mulher, como se fosse para sempre, e ordenou aos msicos que tocassem tango e milonga e aos outros

da festa que danssemos. A milonga correu como incndio de ponta a ponta. Real danava muito grave, mas sem nenhum brilho, j dono daquela mulher. Chegaram at

a porta e ele gritou:

- Abram cancha, gente, que eu a levo meio dormindo.

Disse isso e saram de rostos colados, no rodopio do tango, como se os deixasse perdidos o tango.

Devo ter ficado vermelho de vergonha. Dei umas voltinhas com uma das mulheres e larguei-a de repente. Disse que era por causa do calor e do aperto e fui ladeando

a parede at sair. Noite linda - para quem? Na curva do beco estava a jardineira, e as duas guitarras empertigadas no assento, como cristos. Fiquei chateado de

ver que descuidavam delas dessa forma, como se a gente no servisse nem para tomar conta das

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HOMEM DA ESQUINA ROSADA

guitarras mais ordinrias. Fiquei com raiva ao perceber que no ramos ningum. Atirei numa poa o cravo que tinha na orelha e fiquei algum tempo olhando para ele,

para no pensar em mais nada. Quisera estar duma vez no dia seguinte, queria sair dessa noite. Nisso me deram uma cotovelada que foi quase um alvio. Era Rosendo,

escapulindo do bairro, sozinho.

- Voc est sempre atrapalhando, idiota - resmungou ao passar, no sei se querendo desabafar ou se alheio a tudo. Tomou o lado mais escuro, o do Maldonado; no tornei

mais a v-lo.

Fiquei olhando para coisas da vida inteira - cu de nunca acabar, o arroio teimoso l embaixo, um cavalo adormecido,

- beco de terra batida, os fornos - e pensei que eu era no mais que qualquer capim daquelas bandas, criado entre flores de brejo e ossadas. Que poderia sair daquele

lixo alm de ns, gritalhes mas covardes para o castigo, conversadores e impulsivos, no mais que isso? Senti depois que no; quanto mais apanha, mais o bairro

tem obrigao de ser valento. Lixo? A milonga continuava endoidecendo e aturdindo pelas casas, e trazia cheiro de madressilvas o vento. Noite inutilmente linda.

Era tanta estrela que a gente ficava zonzo s de olhar, umas sobre as outras. Eu me esforava em pensar que

- assunto no me dizia respeito, mas a covardia de Rosendo

- a coragem insuportvel do forasteiro no me deixavam sossegado. At uma mulher o homem alto tinha arrumado para aquela noite. Para essa e para muitas outras, pensei,

e talvez para todas, porque a Lujanera era coisa sria. Sabe Deus que lado tomaram. Mas muito longe no deviam estar. Talvez os dois j estivessem at se amassando

por a em qualquer sarjeta.

Quando consegui voltar, o baile continuava como se nada tivesse ocorrido.

Disfaradamente me enfiei no meio do pessoal e vi que alguns dos nossos tinham debandado e que os do Norte tangueavam junto com os outros. Cotovelaos e empurres

no havia, mas sim receio e decncia. A msica parecia sonolenta, as mulheres que tangueavam com os do Norte no abriam a boca.

Eu esperava alguma coisa, mas no o que aconteceu.

L fora, ouvimos uma mulher que chorava e depois a voz que j conhecamos, mas serena, quase serena demais, como se j no fosse a voz de ningum, dizendo para ela:

- Entra, filha. - E o choro continuou. Depois, como se comeasse a desesperar-se, a voz prosseguiu:

- Abre, estou dizendo, abre, sua nojenta, abre, sua cadela! - A a trmula porta se abriu e a Lujanera entrou, sozinha. Entrou mandada, como se algum a viesse empurrando.

- Est sendo mandada por uma assombrao - disse o ingls.

- Por um morto, amigo - disse ento o Curraleiro. O rosto parecia o de um bbado. Entrou e na cancha que lhe abrimos todos ns deu, como antes, alguns passos titubeantes

- erguido, sem ver - e desabou feito poste. Um dos que tinham vindo com ele deitou-o de costas e ajeitou o pequeno poncho como travesseiro. Essas ajudas encheram

o homem de sangue. Vimos ento que tinha uma enorme ferida no peito; o sangue o encharcava e enegrecia um leno vermelho que antes eu no havia notado porque estava

coberto pela manta. Para um primeiro curativo, uma das mulheres trouxe aguardente e uns panos queimados. O homem no estava para dar explicaes. A Lujanera o olhava

como se estivesse perdida, com os braos cados. Todos a interrogavam em silncio e, por fim, ela conseguiu falar. Disse que depois de sair com o Curraleiro foram

a um pequeno campo e nisso surge um desconhecido que o desafia como um desesperado a brigar e lhe d aquela punhalada, e ela jura que no sabe quem e que no

o Rosendo. Quem ia acreditar nela?

O homem morria a nossos ps. Pensei que o pulso de quem o liquidou no tinha tremido. Mas o homem era duro. Quando caiu, Jlia estava cevando mate e a cuia deu uma

volta inteira e chegou a minha mo antes que ele morresse. "Cubram meu rosto", disse devagar, quando no pde mais. S lhe restava o orgulho e no podia permitir

que bisbilhotassem as marcas da agonia. Algum ps em cima dele o chapu preto, de copa altssima. Morreu debaixo do chapu, sem nenhuma queixa. Quando o peito estendido

deixou de subir e descer, o pessoal se animou a descobri-lo. Tinha aquele ar cansado dos defuntos; era um dos homens de maior coragem que houve naquele tempo, da

Bateria at o Sul; quando o vi morto e sem fala, perdi meu dio.

- Para morrer no se precisa mais que estar vivo - disse uma das mulheres do grupo.

- Tanta soberba e agora s serve para juntar moscas - falou outra, pensativa.

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

Ento os do Norte comearam a conversar baixinho entre eles e depois dois repetiram alto, ao mesmo tempo: - Foi a mulher que o matou.

Um dos homens perguntou, cara a cara, se no tinha sido ela, e todos a cercaram. Eu me esqueci de que devia ser prudente e fui para junto deles como um raio. De

afobado, quase desembainhei a faca. Senti que muitos me olhavam, para no dizer todos eles. Zombando, falei:

- Olhem as mos desta mulher: que pulso ou que corao pode ter ela para cravar uma punhalada?

Acrescentei, com jeito aparentemente entediado do valento:

- Quem podia imaginar que o falecido, que dizem ter sido bravo em sua terra, fosse acabar dum jeito to bruto e num lugar totalmente morto como este, onde nada acontece,

a no ser quando aparece por aqui algum sujeito de fora para distrair a gente e que depois serve apenas para a gente cuspir em cima?

O corpo no pediu surra a ningum.

Nisso comeou a crescer na solido um barulho de cavalos. Era a polcia. Uns mais e outros menos, todos teriam suas razes para no querer nada com ela, pois decidiram

que o melhor era jogar o morto no arroio. Vocs devem estar lembrados da janela comprida pela qual passou o punhal, brilhando. Foi por a que passou depois o homem

de preto. Ergueram-no, e de quantos centavos e miudezas tinha o aliviaram essas mos, e algum lhe decepou um dedo para deslizar o anel. Aproveitadores, senhores,

que assim criavam coragem diante de um pobre defunto indefeso, depois que algum mais homem o liquidou. Um empurro e a gua rpida e teimosa o levou. Para que no

boiasse, no sei se lhe arrancaram as vsceras, pois preferi no olhar. O sujeito de bigode grisalho no me tirava os olhos. A Lujanera aproveitou a confuso para

sair.

Quando os da lei fizeram o servio, o baile andava meio animado. O cego do violino sabia tocar umas habaneras das que j no se ouvem mais. L fora estava querendo

clarear. Umas estacas de nandubay sobre uma colina pareciam soltas, pois o arame fininho da cerca no podia ser visto assim to cedo.

Voltei tranqilo para meu rancho, distante dali umas trs quadras. Na janela brilhava uma luzinha, que se apagou logo

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HOMEM DA ESQUINA ROSADA

em seguida. claro que tive pressa em chegar, quando me dei conta daquilo. Ento, Borges, tornei a sacar a faca curta e afiada que eu sempre trazia aqui, no colete,

perto do sovaco esquerdo, e examinei-a mais uma vez, devagarinho, e ela estava como nova, inocente, e no restava nenhum pingo de sangue.

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ETCTERA

ETCTERA

A Nstor Ibarra

UM TELOGO NA MORTE

Os anjos comunicaram-me que, quando faleceu Melanchton, foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual que havia ocupado na terra. (A quase todos

recm-vindos Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam no terem morrido.) Os objetos domsticos eram iguais; a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca.

Quando Melanchton despertou nesse domiclio, retornou a suas tarefas literrias como se no fosse um cadver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificativa

pela f. Como era seu costume, no disse palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omisso e mandaram algumas pessoas interrogarem-no. Melanchton declarou:

"j demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no cu basta ter f". Essas coisas dizia-lhes com soberba e no sabia

que j estava morto e que seu lugar no era o cu. Quando os anjos ouviram esse discurso, abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os mveis comearam a afantasmar-se at se tornarem invisveis, salvo a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Alm disso, as

paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua prpria roupa j estava muito mais ordinria. Contudo, ele continuava escrevendo,

mas, como persistia na negao da caridade, transladaram-no para uma oficina subterrnea onde havia outros telogos como ele. A esteve alguns dias encarcerado e

comeou a duvidar de sua tese; permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas tentou imaginar

que os fatos anteriores haviam sido mera alucinao e continuou elevando a f e denegrindo a caridade. Num entardecer sentiu frio. Ento percorreu a casa e percebeu

que os demais aposentos j no correspondiam aos de sua moradia na terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminudo tanto que era impossvel

entrar nele; outro no tinha mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O cmodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam

que nenhum telogo era to sapiente como ele. Essa adorao agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas no tinham rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo

e desconfiando delas. Ento determinou-se escrever um elogio da caridade, mas as pginas escritas hoje apareciam amanh apagadas. Isso lhe aconteceu porque as compunha

sem convico.

Recebia muitas visitas de gente recm-morta, porm tinha vergonha de se mostrar num alojamento to srdido. Para faz-las crer que estava no cu, combinou com um

bruxo do cmodo dos fundos, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Apenas as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e s vezes

um pouco antes.

As ltimas notcias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no at as dunas e que agora como se fosse criado dos demnios.

(Do livro Arcana Coelestia, de Emanuel Swedenborg.) A CMARA DAS ESTTUAS

Nos primeiros dias, havia no reino dos andaluzes uma cidade na qual residiam seus reis e que tinha por nome Lebtit ou Ceuta, ou Jan. Existia um forte castelo nessa

cidade, cuja porta de dois batentes no era para se entrar nem sair, mas para se manter fechada. Cada vez que um rei falecia e outro rei herdava seu trono altssimo,

este adicionava com suas prprias mos uma fechadura nova porta, at que foram vinte e quatro fechaduras, uma para cada rei. Ento aconteceu que um homem malvado,

que no era da casa real, tomou o poder e, em lugar de adicionar uma fechadura a mais, quis que as vinte

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

e quatro anteriores fossem abertas para ver o que continha aquele castelo. O vizir e os emires suplicaram-lhe que no fizesse tal coisa, e esconderam-lhe o chaveiro,

e lhe disseram que adicionar uma fechadura era mais fcil do que forar vinte e quatro, mas ele repetia com astcia maravilhosa: "Quero examinar o contedo desse

castelo". Ento lhe ofereceram quantas riquezas puderam acumular em rebanhos, em dolos cristos, em prata e ouro, porm ele no quis desistir e abriu a porta com

sua mo direita (que arder para sempre). Dentro estavam desenhados os rabes em metal e madeira, sobre seus rpidos camelos e potros, com turbantes que ondeavam

sobre as espduas e os alfanjes suspensos por talabartes e a direita lana na destra. Todas essas figuras eram em relevo e projetavam sombras no soalho, e um cego

as podia reconhecer apenas pelo tato, e as patas dianteiras dos cavalos no tocavam o solo e no caam como se houvessem empinado. Grande espanto causaram ao rei

essas primorosas figuras, e ainda mais a ordem e o silncio excelentes que se observavam nelas, porque olhavam para um s lado, que era o poente, e no se ouvia

nem uma voz nem um clarim. Isso havia na primeira sala do castelo. Na segunda, estava a mesa de Solim, filho de Davi - seja a salvao para ambos! -, talhada numa

nica pedra-esmeralda, cuja cor, como se sabe, o verde, e cujas propriedades escondidas so indescritveis e autnticas, porque serena as tempestades, mantm a

castidade de seu portador, afugenta a disenteria e os maus espritos, decide favoravelmente um litgio e de grande socorro nos partos.

Na terceira, encontraram dois livros: um era negro e ensinava as virtudes dos metais, dos talisms e dos dias, assim como a preparao de venenos e contravenenos;

outro era branco e no se pde decifrar seus ensinamentos, embora a escrita fosse clara. Na quarta, encontraram um mapamndi, onde estavam os reinos, as cidades,

os mares, os castelos e os perigos, cada qual com seu nome verdadeiro e com sua precisa figura.

Na quinta, encontraram um espelho de forma circular, obra de Solim, filho de Davi - seja a salvao para ambos! -, cujo preo era muito elevado, pois era feito

de diversos metais e aquele que olhasse em seu cristal via o rosto de seus pais e de seus filhos, desde o primeiro Ado at os que ouviro a

ETCTERA

Trombeta. A sexta estava cheia de elixir do qual bastava um nico adarme para transmutar trs mil onas de prata em trs mil onas de ouro. A stima lhe pareceu

vazia e era to vasta que o mais hbil dos arqueiros teria disparado uma flecha da porta sem conseguir crav-la no fundo. Na parede final, viram gravada uma inscrio

terrvel. O rei examinou-a e a compreendeu, e dizia desta forma: "Se alguma mo abrir a porta deste castelo, os guerreiros de carne que se parecem aos guerreiros

de metal da entrada tomaro o Reino".

Essas coisas aconteceram no ano oitenta e nove da Hgira. Antes do final desse ano, Tric apoderou-se dessa fortaleza e derrotou esse rei e vendeu suas mulheres

e seus filhos e assolou suas terras. Assim foram se expandindo os rabes pelo reino da Andaluzia, com suas figueiras e seus campos regados em que no se sofre de

sede. Quanto aos tesouros, conta-se que Tric, filho de Zade, remeteu-os ao califa seu senhor, que os guardou em uma pirmide.

(Do Livro das Mil e Uma Noites, noite 272) HISTRIA DOS DOIS QUE SONHARAM

O historiador arbico El Ixaqui narra este acontecimento:

"Contam os homens dignos de f (porm s Al onis

ciente e poderoso e misericordioso e no dorme) que houve no

Cairo um homem possuidor de riquezas, porm to magno

nimo e liberal que as perdeu todas, menos a casa de seu pai, e

que se viu forado a trabalhar para ganhar o po. Trabalhou

tanto que o sono o rendeu certa noite debaixo de uma figueira

de seu jardim, e viu no sono um homem encharcado que tirou

uma moeda de ouro da boca e disse: "Tua fortuna est na Pr

sia, em Isfarr; vai busc-la". De madrugada, acordou,

empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos deser

tos, das naus, dos piratas, dos idlatras, dos rios, das feras e

dos homens. Chegou por fim a Isfarr, mas no recinto dessa

cidade a noite o surpreendeu, e ele parou para dormir no ptio

de uma mesquita. Havia, junto mesquita, uma casa, e por

decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladres

atravessou a mesquita e se meteu na casa, e as pessoas que

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

ETCTERA

dormiam acordaram com o barulho dos ladres e pediram socorro. Os vizinhos tambm gritaram, at que o capito dos vigias daquele distrito acudiu com seus homens,

e os bandidos fugiram pelo terrao. O capito fez revistar a mesquita, e nela deram com o homem do Cairo e lhe infringiram tantos e tais aoites com varas de bambu

que ele esteve perto da morte. No segundo dia, recobrou os sentidos no crcere. O capito mandou busc-lo e disse: "Quem s, e qual a tua ptria?" O outro declarou:

"Sou da cidade famosa do Cairo e meu nome Mohamed El Magrebi". O capito perguntou: "O que te trouxe Prsia?" O outro optou pela verdade e lhe disse: "Um homem

ordenou-me, em sonho, que viesse a Isfarr, porque a estava minha fortuna. J estou em Isfarr e vejo que essa fortuna prometida devem ser os aoites que to generosamente

me deste".

"Ante semelhantes palavras, o capito riu at mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer: "Homem desatinado e crdulo, trs vezes sonhei eu com uma casa na

cidade do Cairo, em cujo fundo h um jardim, e no jardim um relgio de sol e depois do relgio de sol, uma figueira, e aps a figueira uma fonte, e sob a fonte um

tesouro. No dei o menor crdito a essa mentira. Tu, no entanto, produto de mula com qualquer demnio, tens errado de cidade em cidade, na f nica de teu sonho.

Que eu no volte a te ver em Isfarr. Toma estas moedas e vai-te".

"O homem pegou-as e regressou ptria. Debaixo da fonte de seu jardim (que era a do sonho do capito) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu bnos e o recompensou

e o exaltou. Deus o Generoso, o Oculto."

(Do Livro das Mil e Uma Noites, noite 351) O BRUXO PRETERIDO

Em Santiago, havia um deo que cobiava aprender a arte da magia. Ouviu dizer que Dom Illn, de Toledo, conhecia-a mais do que ningum, e foi a Toledo procur-lo.

No mesmo dia em que chegou, dirigiu-se casa de Dom Illn e o encontrou lendo em um cmodo afastado. Este o

jrecebeu com bondade e lhe pediu que adiasse o motivo de sua visita at depois de comerem. Mostrou-lhe o alojamento fresco e disse que sua vinda o alegrava muito.

Depois de comer, o deo contou a razo daquela visita e rogou que lhe ensinasse a cincia mgica. Dom Illn disse que adivinhava ser ele deo, homem de boa situao

e belo futuro, por quem temia ser logo esquecido. O deo prometeu e assegurou que amais esqueceria aquela merc, e estaria sempre s suas ordens. Resolvido o assunto,

explicou Dom Illn que as artes mgicas no se podiam aprender seno em lugar apartado, e tomando-o pela mo levou-o a um quarto contguo, em cujo soalho havia uma

grande argola de ferro. Disse antes criada que preparasse perdizes para o jantar, porm que no as pusesse para assar seno quando lhe ordenassem. Juntos levantaram

a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada, at que ao deo pareceu terem descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles. Ao p da escada havia

uma cela e depois uma biblioteca e depois uma espcie de gabinete com instrumentos mgicos. Examinavam os livros, e nisso estavam quando entraram dois homens com

uma carta para o deo, escrita pelo bispo seu tio, na qual lhe fazia saber que estava muito doente e que, se quisesse encontr-lo vivo, no demorasse. Ao deo contrariaram

muito essas novas, primeiro pela enfermidade do tio, depois por ser obrigado a interromper os estudos. Optou por escrever uma desculpa e mandou-a ao bispo. Trs

dias depois, chegaram alguns homens de luto com outras cartas para o deo, nas quais se lia ter o bispo falecido, que estavam elegendo o sucessor e esperavam, com

a graa de Deus, que fosse ele o eleito. Diziam tambm que no se incomodasse em voltar, posto que parecia muito melhor que o elegessem em sua ausncia.

Passados dez dias, vieram dois escudeiros muito bem vestidos, que se atiraram a seus ps, beijaram-lhe as mos e o saudaram como bispo. Quando Dom Illn viu essas

coisas, dirigiu-se com muita alegria ao novo prelado e lhe disse que agradecia ao Senhor que to boas novas chegassem a sua casa. Depois pediu-lhe o decanato vacante

para um de seus filhos. O bispo fez-lhe saber que havia reservado o decanato para seu prprio irmo, mas que sempre havia determinado favoreclo, e que partissem

juntos para Santiago.

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

Foram para Santiago os trs, onde os receberam com hon

rarias. Seis meses depois, recebeu o bispo enviados do Papa que lhe oferecia o Arcebispado de Tolosa, deixando em suas mos a nomeao do sucessor. Quando Dom Illn

soube disso, recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe o ttulo para seu filho. O arcebispo fez-lhe saber que o havia reservado para seu prprio tio, irmo de seu

pai, mas que havia determinado favorec-lo, e que partissem juntos para Tolosa. Dom Illn no teve outro remdio seno concordar.

Foram para Tolosa os trs, onde os receberam com honrarias e missas. Dois anos depois, recebeu o arcebispo enviados do Papa que lhe oferecia o capelo de Cardeal,

deixando em suas mos a nomeao do sucessor. Quando Dom Illn soube disso, recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe esse ttulo para seu filho. O Cardeal fez-lhe

saber que havia reservado o arcebispado para seu prprio tio, irmo de sua me, mas que havia determinado favorece-lo, e que partissem juntos para Roma. Dom Eln

no teve outro remdio seno concordar. Foram para Roma os trs, onde os receberam com honrarias, missas e procisses. Quatro anos depois, morria o Papa e nosso

Cardeal foi eleito para o papado pelos demais. Quando Dom Illn soube disso, beijou os ps de Sua Santidade, recordou-lhe a antiga promessa e pediu-lhe o cardinalato

para seu filho. O Papa ameaou-o com o crcere, dizendo-lhe que bem sabia ele que no era mais do que um bruxo e que em Toledo tinha sido professor de artes mgicas.

O miservel Dom Illn disse que voltaria Espanha e lhe pediu alguma coisa para comer no caminho. O Papa no acedeu. Foi quando Dom Illn (cujo rosto havia remoado

de modo estranho) disse com uma voz sem tremor:

- Pois terei que comer sozinho as perdizes que para esta noite encomendei.

A criada apresentou-se a Dom Illn e este deu ordem para que as assasse. A essas palavras, o Papa se encontrou na cela subterrnea em Toledo, apenas deo de Santiago,

e to envergonhado de sua ingratido que no atinava como desculparse. Dom Illn disse que bastava essa prova, negou-lhe sua parte nas perdizes e o acompanhou at

a rua, onde lhe desejou feliz viagem e se despediu com grande cortesia.

(Do Livro de Patrnio do infante Dom Juan Manuel, que o derivou de um livro rabe: As Quarenta Manhs e As Quarenta Noites.)

ETCTERA

O ESPELHO DE TINTA

A histria sabe que o mais cruel dos governadores do

Sudo foi Icub, o Doente, que entregou seu pas iniqidade

dos arrecadadores egpcios e morreu em um aposento do pal

cio no dcimo quarto dia da lua de barmarrat, no ano de 1842.

Alguns insinuam que o feiticeiro Abderramen El Masmudi

(cujo nome se pode traduzir por Servidor-do-Misericordioso)

acabou com ele a punhal ou veneno, mas uma morte natural

mais verossmil - j que o chamavam o Doente. Contudo, o

capito Richard Francis Burton, que conversou com esse feiti

ceiro no ano de 1853, conta o que lhe narrou, e eu transcrevo:

" verdade que padeci cativeiro no alcar de Icub, o

Doente, por causa da conspirao que arquitetou meu irmo

Ibraim, com o fementido e vo socorro dos chefes negros do Cordofo, que o denunciaram. Meu irmo pereceu pela espada, sobre a pele de sangue da justia, porm eu

me atirei aos detestveis ps do Doente e lhe disse que era feiticeiro e que, se me concedesse a vida, mostrar-lhe-ia formas e aparncias ainda mais maravilhosas

que as do Fanussi khayal (a lanterna mgica). O opressor exigiu-me uma prova imediata. Pedi-lhe uma pena de vime, uma tesoura, uma grande folha de papel veneziano,

um chifre de tinta, um braseiro, algumas sementes de coentro e uma ona de benjoim. Recortei a folha em seis tiras, escrevi talisms e invocaes nas cinco primeiras

e, na restante, as seguintes palavras que esto no glorioso Quran: "Retiramos teu vu, e a viso de teus olhos penetrante". Depois desenhei um quadro mgico na

mo direita de Icub e pedi-lhe que a fizesse funda e verti um crculo de tinta no meio. Perguntei-lhe se percebia com clareza seu reflexo no crculo, e respondeu

que sim. Disse que no levantasse os olhos. Acendi o benjoim e o coentro, e queimei as invocaes no braseiro. Pedi-lhe que declinasse a figura que desejava ver.

Pensou e disse que um cavalo selvagem, o mais formoso que pastasse nos prados que bordejam o deserto. Olhou e viu o campo verde e tranqilo e depois um cavalo que

se aproximava, gil como um leopardo, com uma estrela branca na testa. Pediu-me uma tropilha de cavalos to perfeitos como o primeiro, e viu no horizonte uma alongada

nuvem de poeira e em seguida a tropilha. Compreendi que minha vida estava segura.

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

ETCTERA

"Apenas despontava a luz do dia, dois soldados entravam no crcere e me conduziam ao aposento do Doente, onde j me esperavam o incenso, o braseiro e a tinta. Assim

me foi exigido e fui mostrando a ele todas as aparncias do mundo. Esse homem morto, que detesto, teve em suas mos quanto os homens tm visto e vem os que esto

vivos: as cidades, climas e reinos em que se divide a terra, os tesouros ocultos no centro, as naves que atravessam o mar, os instrumentos de guerra, da msica e

da cirurgia, as graciosas mulheres, as estrelas fixas e os planetas, as cores que empregam os infiis para pintar seus quadros detestveis, os minerais e as plantas

com os segredos e virtudes que encerram, os anjos de prata cujo alimento o elogio e a justificativa do Senhor, a distribuio dos prmios nas escolas, as esttuas

de pssaros e de reis que existem no corao das pirmides, a sombra projetada pelo touro que sustenta a terra e pelo peixe que est debaixo do touro, os desertos

de Deus o Misericordioso. Viu coisas impossveis de descrever, como as ruas iluminadas a gs e a baleia que morre quando escuta o grito do homem. Uma vez me ordenou

que lhe mostrasse a cidade que se chama Europa. Mostrei-lhe a principal de suas ruas e creio que foi nesse caudaloso rio de homens, todos vestidos de negro e muitos

de culos, que viu pela primeira vez o Mascarado.

"Essa figura, s vezes com o traje sudans, s vezes de uniforme, mas sempre com um pano sobre o rosto, penetrou a partir da nas vises. No faltava nunca e jamais

conjeturamos quem fosse. No entanto, as aparncias do espelho de tinta, momentneas ou imveis a princpio, eram mais complexas agora; executavam sem demora minhas

ordens e o tirano as obedecia com clareza. certo que os dois costumvamos ficar extenuados. O carter atroz das cenas era outra fonte de cansao. No eram seno

castigos, cordas, mutilaes, deleites de verdugo e de crueldade.

"Assim chegamos ao amanhecer do dcimo quarto dia da lua de barmarrat. O crculo de tinta havia sido marcado na mo, o benjoim jogado no braseiro, as invocaes

queimadas. Estvamos a ss, os dois. O Doente disse-me que lhe mostrasse um inapelvel e justo castigo, porque a seu corao, esse dia, apetecia ver uma morte. Mostrei-lhe

os soldados com os

tambores, a pele de bezerro esticada, as pessoas felizes por estarem olhando, o verdugo com a espada da justia. Maravilhou-se ao ver isso e disse-me: " Abu Kir

o que justiou teu irmo lbraim: aquele que encerrar teu destino, quando me seja concedida a cincia de convocar essas figuras sem tua ajuda". Pediu-me que trouxessem

o condenado. Quando o trouxeram, perturbou-se, porque era o homem inexplicvel do pano branco. Ordenou que, antes de mat-lo, tirassem-lhe a mscara. Atirei-me a

seus ps e disse: rei do tempo e da substncia, suma do sculo, essa figura no como as demais, porque no sabemos seu nome nem o de seus pais nem o da cidade

que sua ptria, de modo que no me atrevo a toc-la para no incorrer em uma culpa da qual terei de prestar contas". Riu-se o Doente e acabou por jurar que ele

assumiria a culpa, se culpa houvesse. Jurou-o pela espada e pelo Quran. Ento, ordenei que desnudassem o condenado e que o prendessem sobre a esticada pele de bezerro

e que lhe arrancassem a mscara. Essas coisas foram feitas. Os espantados olhos de lcub puderam ver por fim esse rosto - que era o seu prprio. Cobriu-se de medo

e de loucura. Segurei-lhe a destra tremente com a minha, que estava firme, e lhe ordenei que continuasse olhando a cerimnia de sua morte. Estava possudo pelo espelho:

nem sequer tentou alar os olhos ou derramar a tinta. Quando a espada abateu-se, na viso, sobre a cabea culpada, gemeu com uma voz que no me apiedou, e caiu no

cho, morto.

"A glria esteja com Aquele que no morre e que tem em sua mo as duas chaves do ilimitado Perdo e do infinito Castigo."

(Do livro The Lake Regions of Equatorial Africa, de R. E Burton.)

UM DUPLO DE MAOM

J que na mente dos muulmanos as idias de Maom e de religio esto indissoluvelmente ligadas, o Senhor ordenou que no Cu sempre os presida um esprito que faz

o papel de Maom. Esse delegado nem sempre o mesmo. Um cidado

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFf1MIA

da Saxnia, a quem em vida aprisionaram os argelinos e que se converteu ao Isl, ocupou uma vez esse cargo. Como havia sido cristo, falou-lhes de Jesus e lhes disse

que no era o filho de Jos, mas o filho de Deus; foi conveniente substitu-lo. A situao desse Maom representativo est indicada por uma tocha, somente visvel

aos muulmanos.

O verdadeiro Maom que redigiu o Quran j no visvel a seus adeptos. Disseram-me que a princpio os presidia, mas que pretendeu domin-los e foi exilado para

o Sul. Uma comunidade de muulmanos foi instigada pelos demnios a reconhecer Maom como Deus. Para aplacar o distrbio, Maom foi trazido dos infernos e o exibiram.

Nessa ocasio eu o vi. Parecia-se aos espritos corpreos que no tm percepo interior, e seu rosto era muito escuro. Pde articular as palavras "Eu sou o vosso

Maom", e imediatamente desapareceu.

(De Uera Christiana Religio, 1771, de Emanuel SwedenborgJ

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HISTRIA UNIVERSAL DA INFMIA

NDICE DAS FONTES

O Atroz Redentor Lazarus Morell

Li fe on the Mississippi, by Mark Twain. New York, 1883. Mark Tzuain"s America, by Bernard Devoto. Boston, 1932.

O Impostor Inverossmil Tom Castro

The History of Piracy, by Philip Gosse. London, Cambridge, 1911.

A Viva Ching, Pirata

The History of Piracy, by Philip Gosse. London, 1932.

O Provedor de Iniqidades Monk Eastman

The Gangs of Nezu York, by Herbert Asbury. New York, 1927.

O Assassino Desinteressado Bill Harrigan

A Century of Gunmen, by Frederick Watson. London, 1931.

The Saga of Billy the Kid, by Walter Noble Burns. New York,1925.

O Incivil Mestre-de-Cerimnias Kotsuk no Suk Tales of Old Japan, by A. B. Mitford. London, 1912.

O Tintureiro Mascarado Hakim de Merv

A History of Persia, by Sir Percy Sykes. London, 1915.

Die Uernichtung der Rose. Nach dem arabischen Urtext bertragen von Alexander Schulz. Leipzig, 1927.

379

HISTRIA DA ETERNIDADE

1936

...Supplementum Lfv; Historia infinita temporis atque aeternitatis...

QuEVEDO: Perinola, 1632.

...nor promise that they would

beeome in general, by learning criticism, more useful, happier, or wiser.

JoxNSOty: Preface to Shakespeare, 1765.

PRLOGO

Pouco direi da singular "histria da eternidade" que d nome a estas pginas. No incio, falo da filosofia platnica; num trabalho que aspirava ao rigor cronolgico,

teria sido mais razovel partir dos hexmetros de Parmnides ("nunca foi nem ser, porque agora "). No sei como pude comparar a "imveis peas de museu" as formas

de Plato e como no entendi, lendo Schopenhauer e Ergena, que estas so vivas, poderosas e orgnicas. O movimento, ocupao de diferentes lugares em diferentes

momentos, inconcebvel sem tempo; tambm o a imobilidade, ocupao de um mesmo lugar em diferentes momentos do tempo. Como pude no sentir que a eternidade,

almejada com amor por tantos poetas, um artifcio esplndido que nos livra, mesmo que de maneira fugaz, da intolervel opresso da sucessividade?

Acrescentei dois artigos que complementam ou retificam o texto.- "A metfora", de 1952; "O tempo circular", de 1943.

O improvvel ou talvez inexistente leitor de "As kenningar" pode consultar o manual Literaturas Germnicas Medievales, que escrevi com Mara Esther Vzquez. Quero

no omitir a meno de duas aplicadas monogra fias: Die Kenningar der Skalden (Leipzig, 1921), de Rudolf Meissner, e Die Altenglischen Kenningar (Hale, 1938), de

Herta Marquardt.

"Aaproximao a Almotsim" de 1935; li h pouco The Sacred Fount (19O1), cujo argumento geral talvez anlogo. O narrador, no delicado romance de James, indaga

se em B influem A ou C; em "A aproximao a Almotsim", pressente ou adivinha por intermdio de B a remotssima existncia de Z, que B no conhece.

O mrito ou a culpa da ressurreio destas pginas no caber por certo a meu karma, mas ao de meu generoso e obstinado amigo Jos Edmundo Clemente.

J.L.B.

385

HISTRIA DA ETERNIDADE

I

Naquela passagem das Enadas que pretende interrogar e definir a natureza do tempo, afirma-se que indispensvel conhecer previamente a eternidade, que - como todos

sabem - o modelo e arqutipo dele. Essa advertncia preliminar, tanto mais grave se a considerarmos sincera, parece aniquilar toda esperana de nos entendermos

com o homem que a escreveu. O tempo um problema para ns, um terrvel e exigente problema, talvez o mais vital da metafsica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada

esperana. Lemos no Timeu de Plato que o tempo uma imagem mvel da eternidade; e isso apenas um acorde que a ningum distrai da convico de ser a eternidade

imagem feita de substncia de tempo. Essa imagem, essa tosca palavra enriquecida pelas discrdias humanas, o que me proponho historiar.

Invertendo o mtodo de Plotino (nica maneira de aproveit-lo), comearei por lembrar as obscuridades inerentes ao tempn~~~istrio metafsico, natural, que deve

preceder a eternidade, filha dos homens. Uma dessas obscuridades, no a mais rdua nem a menos bela, a que nos impede de precisar a direo do tempo. Que flui

do passado para o futuro a crena comum, mas no mais ilgica a contrria, aquela que Miguel de Unamuno gravou em verso espanhol:

Noturno, o rio das horas flui

de seu manancial, que o amanh eterno..."

1 O conceito escolstico do tempo como a fluncia do potencial no atual tem afinidade com essa idia. Cf. os objetos eternos de Whitehead, que constituem "o reino

da possibilidade" e ingressam no tempo.

387

HISTRIA DA ETERNIDADE

Ambas so igualmente verossmeis - e igualmente inve

rificveis. Bradey nega as duas e adianta uma hiptese pes

soal: excluir o futuro, que uma simples construo de nossa

esperana, e reduzir o "atual" agonia do momento presente

desintegrando-se no passado. Essa regresso temporal costu

ma corresponder aos estados de declnio ou insipidez, ao passo que qualquer intensidade nos parece avanar sobre o futuro... Bradey nega o futuro; uma das escolas

filosficas da ndia nega o presente, por consider-lo inapreensvel. "Ou a laranja est prestes a cair do galho, ou j est no cho", afirmam esses simplificadores

estranhos. "Ningum a v cair."

O tempo prope outras dificuldades. Uma, talvez a maior, a de sincronizar o tempo individual de cada pessoa com o tempo geral das matemticas, foi fartamente apregoada

pelo recente alarme relativista, e todos a recordam - ou lembram t-la recordado at bem pouco tempo. (Eu a retomo assim, deformando-a: Se o tempo um processo

mental, como podem milhares de homens, ou mesmo dois homens diferentes, compartilh-lo?) Outra a destinada pelos eleatas a refutar o movimento. Pode ser compreendida

nestas palavras: E impossvel que em oitocentos anos de tempo transcorra um prazo de catorze minutos, porque obrigatrio que antes tenham passado sete, e antes

de sete, trs minutos e meio, e antes de trs e meio, um minuto e trs quartos, e assim infinitamente, de modo que os catorze minutos nunca se completam". Russell

rebate esse argumento, afirmando a realidade e mesmo a vulgaridade dos nmeros infinitos que, entretanto, se do de uma s vez, por definio, no como termo "final"

de um processo enumerativo sem fim. Esses algarismos anormais de Russell so boa antecipao da eternidade, que tampouco se deixa definir pela enumerao de suas

partes.

Nenhuma das vrias eternidades que os homens planejaram - a do nominalismo, a de Ireneu, a de Plato - agregao mecnica do passado, do presente e do futuro.

E algo mais simples e mais mgico: a simultaneidade desses tempos. A linguagem comum e aquele dicionrio admirvel dont chague dtion fait regretter la prcdente

parecem ignor-la, mas os metafsicos a pensaram assim. "Os objetos da alma so sucessivos, agora Scrates e depois um cavalo" - leio no quin

HISTRIA DA ETERNIDADE

to livro das Enadas -, "sempre uma coisa isolada que se concebe e milhares que se perdem; mas a Inteligncia Divina abarca todas as coisas em conjunto. O passado

est em seu presente, assim como tambm o futuro. Nada transcorre neste mundo, no qual persistem todas as coisas, quietas na felicidade de sua condio".

Passo a considerar essa eternidade, da qual derivaram as subseqentes. verdade que Plato no a inaugura - num livro especial, fala dos "antigos e sagrados filsofos"

que o precederam -, mas amplia e resume com brilhantismo tudo Oque imaginaram os anteriores. Deussen o compara ao ocaso: luz apaixonada e final. Todas as concepes

gregas de eternidade convergem em seus livros, ora refutadas, ora tragicamente adornadas. Por isso fao-o preceder a Ireneu, que ordena a segunda eternidade: a coroada

pelas trs pessoas, distintas mas inextricveis.

Diz Plotino com notrio fervor: "Toda coisa no cu inteligvel tambm cu, e ali a terra cu, como tambm os animais, as plantas, os vares e o mar. Tm por

espetculo um mundo que no foi gerado. Cada um se v nos outros. No h nesse reino coisa que no seja difana. Nada impenetrvel, nada opaco e a luz encontra

a luz. Todos esto em toda parte, e tudo tudo. Cada coisa todas as coisas. O sol todas as estrelas, e cada estrela todas as estrelas e o sol. Ningum caminha

ali como sobre uma terra estranha". Esse universo unonime, essa apoteose da assimilao e do intercmbio, no contudo a eternidade; um cu limtrofe, no inteiramente

emancipado do nmero e do espao. Esta passagem , doo quinto livro quer exortar contemplao da eternidde, ao mundo das formas universais: "Que os homens a quem

maravilha este mundo - sua capacidade, sua beleza, a ordem de seu movimento contnuo, os deuses manifestos ou invisveis que o percorrem, os demnios, rvores e

animais - elevem o pensamento a essa Realidade, da qual tudo isto cpia. Vero a as formas inteligveis, no de eternidade emprestada mas eternas, e vero tambm

seu capito, a Inteligncia pura, e a Sabedoria inalcanvel, e a idade genuna de Cronos, cujo nome a Plenitude. Todas as coisas imortais esto nele. Cada intelecto,

cada deus e cada alma. Todos os lugares lhe so presentes; aonde ir? Est feliz, para que

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HISTRIA DA ETERNIDADE

experimentar mudana e vicissitude? No necessitou desse estado no incio e o atingiu depois. Numa s eternidade as coisas so suas: essa eternidade que o tempo

arremeda ao girar em torno da alma, sempre desertor de um passado, sempre cobioso de um futuro".

As repetidas afirmaes de pluralidade dispensadas pelos pargrafos anteriores podem induzir-nos a erro. O universo ideal a que nos convida Plotino tem menos afinidade

com a variedade que a plenitude; um repertrio seleto, que no tolera a repetio e o pleonasmo. o imvel e terrvel museu dos arqutipos platnicos. No sei

se foi visto por olhos mortais (fora da intuio visionria ou do pesadelo) ou se o grego remoto que o concebeu chegou a represent-lo alguma vez, mas pressinto

nele algo de museu: quieto, monstruoso e classificado... Trata-se de imaginao pessoal da qual pode prescindir o leitor; do que no convm que prescinda de alguma

informao geral sobre esses arqutipos platnicos, ou causas primordiais ou idias, que povoam e compem a eternidade.

impossvel aqui uma discusso detalhada do sistema platnico, mas no certas advertncias de inteno propedutica. Para ns, a ltima e firme realidade das coisas

a matria - os eltrons giratrios que percorrem distncias estelares na solido dos tomos -; para os capazes de platonizar, a espcie, a forma. No terceiro livro

das Enadas, lemos que a matria irreal: simples e oca passividade que recebe as formas universais como um espelho as receberia; estas a agitam e povoam sem alter-la.

Sua plenitude precisamente a de um espelho, que aparenta estar cheio e est vazio; um fantasma que nem sequer desaparece, porque no tem nem ao menos a capacidade

de cessar. O fundamental so as formas. Repetindo Plotino, disse delas Pedro Maln de Chaide, muito depois: "Deus faz como se tivsseis um sinete oitavado, de ouro,

tendo numa parte um leo esculpido; na outra, um cavalo; noutra uma guia, e assim nas demais; e num pedao de cera imprimsseis o leo; noutro, a guia; noutro,

o cavalo; claro que tudo o que est na cera est no ouro, e s podeis imprimir o que ali tendes esculpido. Mas h uma diferena, que, no final, o que est na cera

cera, e vale pouco; mas o que est no ouro ouro e vale muito. Nas criaturas esto estas perfeies finitas e de

HISTRIA DA ETERNIDADE

pouco valor; em Deus so de ouro, so o prprio Deus". Da podemos inferir que a matria nada.

Consideramos esse critrio mau e at inconcebvel, e no obstante o aplicamos continuamente. Um captulo de Schopenhauer no o papel nas grficas de Leipzig nem

a impresso, nem as delicadezas e perfis da escrita gtica, nem a enumerao dos sons que o compem nem sequer a opinio que temos dele; Miriam Hopkins feita de

Miriam Hopkins, no dos princpios nitrogenados ou minerais, hidratos de carbono, alcalides e gorduras neutras que formam a substncia transitria desse fino espectro

de prata ou essncia inteligvel de Hollywood. Essas ilustraes ou sofismas podem exortar-nos a tolerar de boa vontade a tese platnica. Vamos formul-la assim:

Os indivduos e as coisas existem na medida em que participam da espcie que os inclui, que sua realidade permanente. Procuro o exemplo mais conveniente: o de

um pssaro. O hbito de andar em bandos, a pequenez, a identidade de traos, a antiga ligao com os dois crepsculos, o do princpio dos dias e o de seu trmino,

a circunstncia de serem mais freqentes ao ouvido do que viso - tudo isso nos incita a admitir a primazia da espcie e a quase perfeita nulidade dos indivduos."-

Sem erro, Keats pode pensar que o rouxinol que o encanta o mesmo que Rute ouviu nos trigais de Belm de Jud; Stevenson erige um s pssaro que consome os sculos:

o rouxinol devorador do tempo. Schopenhauer, o apaixonado e lcido Schopenhauer, contribui com uma razo: a pura atualidade corporal em que vivem os animais, seu

desconhecimento da morte e das lembrana~,_,Logo acrescenta, no sem um sorriso: "Quem me ouvir afirmar que o gato cinzento a brincar no ptio agora o mesmo que

brincava e fazia travessuras h quinhentos anos pensar de mim o que quiser, mas loucura mais estranha imaginar que fundamentalmente seja outro". E depois: "Destino

e vida de lees exige a leonidade que, considerada no tempo, um leo imortal que se mantm mediante a infinita reposio dos indivduos, cuja gerao e cuja morte

formam a

2 Vivo, Filho de Desperto, o improvvel Robinson metafsico do romance de Abubeker Abentofail, resigna-se a comer as frutas e os peixes que so abundantes em sua

ilha, sempre cuidando para que nenhuma espcie se perca e, por sua culpa, o universo se empobrea.

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HtsrRtw ~a ETettrvtnA~E

fora dessa figura imperecvel". E antes: "Uma infinita durao precedeu meu nascimento; o que fui eu enquanto isso? Metafisicamente, poderia talvez responder-me:

"Eu sempre fui eu; ou seja, quantos disseram eu durante esse tempo no eram outros seno eu" ".

Presumo que a eterna Leonidade possa ser aprovada por meu leitor, que sentir grandioso alvio ante esse nico Leo, multiplicado nos espelhos do tempo. No espero

o mesmo do conceito de eterna Humanidade: sei que nosso eu o repele, e que sem medo prefere derram-lo sobre o eu dos outros. Mau sinal; formas universais muito

mais rduas nos prope Plato. Por exemplo, a Mesidade ou Mesa Inteligvel que est nos cus: arqutipo quadrpede que perseguem, condenados ao sonho e frustrao,

todos os marceneiros do mundo. (No posso neg-la totalmente: sem uma mesa ideal, no teramos chegado a mesas concretas.) Por exemplo, a Triangularidade: eminente

polgono de trs lados que no est no espao e que no quer rebaixar-se a eqiltero, escaleno ou issceles. (Tampouco o repudio; o das cartilhas de geometria.)

Por exemplo: a Necessidade, a Razo, a Postergao, a Relao, a Considerao, o Tamanho, a Ordem, a Lentido, a Posio, a Declarao, a Desordem. J no sei o

que opinar sobre essas comodidades do pensamento elevadas a formas; penso que homem algum as poder intuir sem o auxlio da morte, da febre ou da loucura. Esquecia-me

de outro arqutipo que abrange a todos e os exalta: a eternidade, cuja cpia despedaada o tempo.

Ignoro se meu leitor precisa de argumentos para descrer da doutrina platnica. Posso fornecer-lhe muitos: um, a incompatvel agregao de vozes genricas e de vozes

abstratas que coabitam sans gne na dotao do mundo arquetpico; outro, a reserva de seu inventor sobre o procedimento que as coisas utilizam para participar das

formas universais; outro, a conjetura de que esses mesmos arqutipos asspticos padecem de mistura e variedade. No so insolveis: so to confusos como as criaturas

do tempo. Fabricados imagem das criaturas, repetem essas mesmas anomalias que querem resolver. A Leonidade, digamos, como prescindiria da Soberba e da Ruividade,

da Jubidade e da Garrdade? A essa pergunta no h resposta e no pode haver: no esperemos do termo

HISTRIA DA ETERNIDADE

Leonidade uma virtude muito superior que tem essa palavra sem o sufixo."

Volto eternidade de Plotino. O quinto livro das Enadas inclui um inventrio muito geral das partes que a compem. Est ali a Justia, assim como os Nmeros (at

qual?) e as Virtudes e os Atos e o Movimento, mas no os erros e as injrias, que so enfermidades de uma matria em que se moldou uma Forma. A Msica est ali,

no como melodia, mas sim como Harmonia e Ritmo. Da patologia e da agricultura no h arqutipos, porque no so necessrios. Ficam excludas igualmente a fazenda,

a estratgia, a retrica e a arte de governar - ainda que, ao longo do tempo, retirem algo da Beleza e do Nmero. No h indivduos, no h uma forma primordial

de Scrates nem sequer de Homem Alto ou de Imperador; h, de modo geral, o Homem. Entretanto, esto ali todas as figuras geomtricas. Das cores, apenas as primrias:

no h Cinzento nem Purpreo nem Verde nessa eternidade. Em ordem ascendente, seus mais antigos arqutipos so estes: a Diferena, a Igualdade, o Movimento, a Quietude

e o Ser.

Examinamos uma eternidade que mais pobre que o mundo. Resta-nos ver como nossa igreja a adotou e lhe confiou um caudal superior a tudo o que os anos transportam.

3 No quero me despedir do platonismo (que parece glacial) sem transmitir esta observao, na esperana de que lhe dem prosseguimento e a justifiquem: "O genri~r7~de

ser mais intenso que o concreto". Casos ilustrativos no faltam. Quando menino, veraneando no norte da provncia, a plancie arredondada e os homens que tomavam

mate na cozinha me interessaram, mas minha felicidade foi incrvel quando soube que esse arredondado era o "pamp" e esses homens, "gachos". O mesmo ocorre com

o imaginoso que se apaixona. O genrico (o nome repetido, o tipo, a ptria, o destino admirvel que lhe atribui) prevalece sobre os traos individuais, que so toleraiios

graas no que fo dito anteriormente.

O exemplo extremo, o de quem se apaixona por ouvir falar, muito comum nas literaturas persa e rabe. Ouvir a descrio de uma rainha - a cabeleira semelhante s

noites da separao e da emigrao, mas o rosto como o dia da delcia, os seios como esferas de marfim que do luz s luas, o andar que envergonha os antlopes e

provoca o desespero dos salgueiros, os pesados quadris que a impedem de ficar de p, os ps estreitos como ponta de lana - e apaixonar-se por ela, at a placidez

e a morte, um dos temas tradicionais nas Mil e Uma Noites. Leia-se a histria de Badrbasim, filho de Sharim, ou a de Ibrahim e Yamila.

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HISTORIA DA ETERNIDADE

II

O melhor documento da primeira eternidade o quinto

livro das Enadas; o da segunda, ou crist, o dcimo primeiro

livro das Confisses de Santo Agostinho. A primeira no se

concebe fora da tese platnica; a segunda, sem o mistrio pro

fessional da Trindade e sem as discusses levantadas por pre

destinao e reprovao. Quinhentas pginas in-flio no

esgotariam o tema; espero que estas duas ou trs in-oitavo

no venham a parecer excessivas.

Pode-se afirmar, com suficiente margem de erro, que

"nossa" eternidade foi decretada poucos anos depois da

doena crnica intestinal que matou Marco Aurlio, e que o lugar desse vertiginoso mandato foi a barranca de Fourvire, que antes se chamou Forum vetus, clebre

hoje em dia pelo funicular e pela baslica. Apesar da autoridade de quem a ordenou - o bispo Ireneu -, essa eternidade coercitiva foi muito mais que intil paramento

sacerdotal ou luxo eclesistico: foi uma resoluo e foi uma arma. O Verbo engendrado pelo Pai, o Esprito Santo gerado pelo Pai e pelo Verbo, os gnsticos costumavam

inferir dessas duas inegveis operaes que o Pai era anterior ao Verbo, e os dois ao Esprito. Essa inferncia dissolvia a Trindade. Ireneu explicou que o duplo

processo - gerao do Filho pelo Pai, emisso do Esprito pelos dois - no aconteceu no tempo, mas que esgota de uma s vez o passado, o presente e o futuro. A explicao

prevaleceu e agora dogma. Assim foi promulgada a eternidade, antes apenas tolerada na sombra de algum desautorizado texto platnico. A correta conexo e distino

das trs hipstases do Senhor um problema hoje inverossmil, e essa futilidade parece contaminar a resposta; mas no h dvida da grandeza do resultado, ao menos

para alimentar a esperana: Aeternitas est merum hodie, est immediata et lucida fruitio rerum infinitarum.~ Tampouco, da importncia emocional e polmica da Trindade.

Atualmente, os catlicos laicos a consideram um corpo colegiado infinitamente correto, mas tambm infinitamente

4 "A eternidade um mero hoje, o fruir imediato e lcido das coisas infinitas." (N. da T.)

HISTRIA DA ETERNIDADE

aborrecido; os liberais, um intil Crbero teolgico, uma superstio que os muitos progressos da Repblica logo se encarregaro de abolir. A trindade, claro,

excede essas frmulas. Imaginada precipitadamente, sua concepo de um pai, um filho e um espectro, articulados num nico organismo, parece caso de teratologia intelectual,

deformao que s o horror de um pesadelo pde produzir. O inferno mera violncia fsica, mas as trs inextricveis Pessoas implicam horror intelectual, infinidade

asfixiada, ilusria, como a de espelhos opostos. Dante quis design-las com o signo de uma superposio de crculos difanos, de cores diferentes; Donne, com o de

complicadas serpentes, magnficas e indissolveis. "Toto coruscat trinitas mysterio", escreveu So Paulino; "Fulge em pleno mistrio a Trindade".

Desligada do conceito de redeno, a distino das trs pessoas em uma tem que parecer arbitrria. Considerada necessidade da f, seu mistrio fundamental no diminui,

mas sua inteno e sua utilidade despontam. Entendemos que renunciar Trindade - Dualidade, pelo menos - fazer de Jesus um delegado ocasional do Senhor, um

incidente da histria, no Oouvinte imperecvel, contnuo, de nossa devoo. Se o Filho no tambm o Pai, a redeno no obra divina direta; se no eterno,

tampouco o ser o sacrifcio de ter-se degradado a homem e ter morrido na cruz. "Nada menos que uma excelncia infinita pde resgatar uma alma perdida para idades

infinitas", insistiu Jeremy Taylor. Assim, pode-se justificar o dogma, ainda que os conceitos da gerao do Filho pelo Pai e da procedncia do Esprikc~-a partir

dos dois continuem insinuando uma prioridade, sem mencionar sua culpvel condio de simples metforas. A teologia, empenhada em diferenci-las, resolve que no

h motivo para confuso, uma vez que o resultado de uma o Filho, o da outra, o Esprito. Gerao eterna do Filho, provenincia eterna do Esprito, a soberba

deciso de Ireneu: criao de um ato sem tempo, de um zeitloses Zeitwort mutilado, que podemos descartar ou venerar, mas no discutir. Assim Ireneu se props salvar

o monstro, e o conseguiu. Sabemos que era inimigo dos filsofos; apoderar-se de uma de suas armas e volt-la contra eles deve ter-lhe causado um prazer belicoso.

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kimeiro segundo do tempo coincide I da Criao - fato que nos poupa o onstrudo por Valry) de um Deus

culos ermos na eternidade "ante

~g (Vera Christiana Religio, 1771) viu

ual uma esttua alucinatria pela

dos todos aqueles "que deliberam

_~"~umente sobre a condio do Senhor antes de

razer o mundo".

Desde que Ireneu a inaugurou, a eternidade crist comeou a diferir da alexandrina. Ao invs de um mundo parte, conformou-se em ser um dos dezenove atributos da

mente de Deus. Entregues venerao popular, os arqutipos ofereciam o perigo de se converter em divindades ou em anjos; no se negou por conseguinte sua realidade

- sempre maior que a das simples criaturas -, mas foram reduzidos a idias eternas no Verbo criador. A esse conceito dos universalia ante res chega Alberto Magno:

considera-os eternos e anteriores s coisas da Criao, mas s como inspiraes ou formas. Trata muito bem de separ-los dos universalia in rebus, que so as mesmas

concepes divinas j concretizadas de vrias maneiras no tempo, e - sobretudo - dos universalia post res, que so as concepes redescobertas pelo pensamento indutivo.

As temporais se distinguem das divinas em que carecem de eficcia criadora, mas no em outra coisa; a suspeita de que as categorias de Deus podem no ser precisamente

as do latim no se admite na escolstica... Mas percebo que estou me adiantando.

Os manuais de teologia no se detm na eternidade com dedicao especial. Limitam-se a prevenir que a intuio contempornea e total de todas as fraes do tempo,

e a esmiuar as Escrituras hebraicas em busca de fraudulentas confirmaes, em que parece ter o Esprito Santo dito muito mal o que o comentador diz bem. Com esse

propsito, costumam agitar esta declarao de ilustre desdm ou de simples longevidade: "Um dia diante do Senhor como mil anos, e mil anos so como um dia", ou

as grandes palavras que Moiss ouviu e que so o nome de Deus: Sou O que Sou, ou as que escutou So Joo

5 Uniz~ersalia grete res; universalia in rebus; universalia post res: os universais anteriores

s causas, durante e posteriores s causas. (N. da R.)

o Telogo, em Patmos, antes e depois do mar de cristal e da besta escarlate e dos pssaros que comem carne de capites: Eu sou o A e o Z, o princpio e o fim.e Costumam

copiar tambm esta definio de Bocio (concebida na priso, talvez s vsperas de ser executado): "Aeternitas est interminabilis vitae tota et perfecta possessio","

e que me agrada mais na quase voluptuosa repetio de Hans Lassen Martensen: "Aeternitas est merum hodie, est immediata et lueida fruitio rerum infinitarum". Em

lugar disso, parecem desprezar aquele obscuro juramento do anjo que estava de p sobre o mar e sobre a terra (Revelao, X, 6): "e jurou por Aquele que viver para

sempre, o qual criou o cu e as coisas que nele h, e a terra e as coisas que nela h, e o mar e as coisas que nele h, que no haveria mais tempo". vrdade que

tempo, neste versculo, deve equivaler a demora.

A eternidade permaneceu como atributo da ilimitada mente de Deus, e sabe-se muito bem que geraes de telogos tm trabalhado essa mente a sua imagem e semelhana.

Nenhum estmulo to vivo como o debate da predestinao ab aeterno. Quatrocentos anos depois da paixo e morte de Cristo, o monge ingls Pelgio incorreu no escndalo

de pensar que os inocentes que morrem sem o batismo alcanam a glria.R Agostinho, bispo de Hipona, refutou-o com uma indignao que seus editores aclamam. Observou

as heresias dessa doutrina, abominada pelos justos e pelos mrtires: a negao de que no homem Ado todos ns homens j pecamos e perecemos, o esquecimento abominvel

de que essa morte se transmite de pai a filho pela gerao carnal, o menosprezo pelo suor sanguinolento, pela agonia sobrenatural e pelo grito de

_~ -~

6 A noo de que o tempo dos homens no comensurvel ao de Deus destaca-se numa das tradies islmicas do ciclo do miraj. Sabe-se que o Profeta foi arrebatado

at o stimo cu pela resplandecente gua Alburak e que conversou, em cada cu, com os patricarcas e anjos que o habitam e que atravessou a Unidade e sentiu um frio

que lhe gelou o corao, quando a mo do Senhor lhe deu uma palmada no ombro. O casco de Alburak, ao deixar a terra, derrubou uma jarra cheia d"gua; ao voltar,

o Profeta levantou-a e dela no se havia derramado uma nica gota.

7 "A eternidade a possesso total e perfeita da vida interminvel" (N. da TJ

8 Jesus Cristo havia dito: "Deixai vir a mim os pequeninos"; Pelgio foi acusado, naturalmente, de se interpor entre as crianas e Jesus Cristo, livrando-as assim

do inferno. Seu nome, como o de Atansio (Satansio), permitia o trocadilho; todos disseram que Pelgio (Pelagius) tinha de ser um plago (pelagus) de maldades.

396

397

HISTRIA DA ETERNIDADE

Cn

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___sons de seus vares, de notvel

__ ~xctudos da glria. (Zwingli, 1523, mani

~.~u sua esperana pessoal de partilhar o cu com Hrcules,

Teseu, Scrates, Aristides, Aristteles e SnecaJ Uma amplificao do nono atributo do Senhor (o da oniscincia) bastou para afastar a dificuldade. Promulgou-se

que essa implicava o conhecimento de todas as coisas: quer dizer, no s das reais, como tambm das possveis. Procurou-se uma passagem nas Escrituras que permitisse

esse complemento infinito, e se encontraram duas: uma, aquela do primeiro Livro dos Reis, em que o Senhor diz a Davi que os homens de Kenlah vo entrega-lo se no

for embora da cidade, e ele vai; outra, aquela do Evangelho segundo Mateus, que impreca a duas cidades: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro

e em Sdon se tivessem feito os prodgios que em vs se fizeram, h muito que se teriam arrependido, com cilcio e com cinza". Com esse repetido amparo, os modos

potenciais do verbo puderam entrar na eternidade: Hrcules convive no cu com Ulrich Zwingli, porque Deus sabe que se tivesse observado o ano eclesistico, a Hidra

de Lerna ficaria relegada s trevas exteriores, pois consta que teria repelido Obatismo. Percebemos os fatos reais e imaginamos os possveis (e os futuros); no

Senhor no cabe essa distino, que pertence ao desconhecimento e ao tempo. Sua eternidade regis

tra de uma s vez (uno intelligendi acto) no apenas todos os instantes deste repleto mundo, como os que teriam seu lugar se o mais evanescente deles mudasse - e

os impossveis tambm. Sua eternidade combinatria e pontual muito mais abundante que o universo.

Ao contrrio das eternidades platnicas, cujo maior risco a insipidez, esta corre perigo de assemelhar-se s ltimas pginas de Ulisses, e ainda ao captulo anterior,

ao do enorme interrogatrio. Um grandioso escrpulo de Agostinho moderou esse detalhamento. Sua doutrina, ao menos verbalmente, refuta a condenao; o Senhor observa

os eleitos e passa por alto em relao aos rprobos. Tudo sabe, mas prefere deter sua ateno nas vidas virtuosas. Joo Escoto Ergena, mestre palatino de Carlos

o Calvo, deformou gloriosamente essa idia. Pregou um Deus indeterminvel; ensinou um mundo de arqutipos platnicos; ensinou um Deus que no percebe o pecado nem

as formas do mal, ensinou a deificao, a reverso final das criaturas (inclusive o tempo e o demnio) unidade primeira de Deus. "Divina bonitas consummabit malitiam,

aeterna vita absorbebit montem, beatitudo miseriam."9 Essa eternidade heterognea (que, ao contrrio das eternidades platnicas, inclui os destinos individuais;

que, ao contrrio da instituio ortodoxa, repele toda imperfeio e misria) foi condenada pelo snodo de Valncia e pelo de Langres. De Divisione Naturae, libri

V, a obra controversa que a pregava, ardeu na fogueira pblica. Medida acertada que despertou o favor dos biblifilos e permitiu que o livro de Ergena chegasse

a nossos dias.

C.a~u~iverso requer a eternidade. Os telogos no ignoram que se a ateno do Senhor se desviasse um nico segundo de minha mo direita que escreve, esta recairia

no nada, como se fulminada por um fogo sem luz. Por isso afirmam que a conservao deste mundo uma perptua criao e que os verbos conservar e criar, to inimizados

aqui, so sinnimos no Cu.

9 "A bondade divina destruir a maldade, a vida eterna absorver a morte, a felicidade, o infortnio." (N. da T.)

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399

HISTRIA DA ETERNIDADE

HISTRIA DA ETERNIDADE

III

At aqui, em sua ordem cronolgica, a histria geral da

eternidade. Ou melhor, das eternidades, j que o desejo

humano sonhou dois sonhos sucessivos e hostis com esse

nome: um, o realista, que anseia com estranho amor pelos

quietos arqutipos das criaturas; outro, o nominalista, que

nega a verdade dos arqutipos e quer congregarem um segun

do os pormenores do universo. Aquele se baseia no realismo,

doutrina to afastada de nosso ser que descreio de todas as

interpretaes, at da minha; este, em seu adversrio, o nominalismo, que afirma a verdade dos indivduos e o convencional dos gneros. Atualmente, semelhantes ao

espontneo e tolo prosador da comdia, todos praticamos nominalismo sans

le savoir: como uma premissa geral de nosso pensamento, um axioma adquirido. Da a inutilidade de coment-lo.

At aqui, em sua ordem cronolgica, o desenvolvimento debatido e curial da eternidade. Homens remotos, homens barbados e mitrados a conceberam, publicamente, para

confundir heresias e para justificar a distino das trs pessoas em uma, secretamente, para estancar de algum modo o curso das horas. "Viver perder tempo: nada

podemos recuperar ou guardar a no ser sob a forma de eternidad", leio no espanhol emersonizado Jorge Santayana. Ao qual basta justapor aquela terrvel passagem

de Lucrcio, sobre a falcia do coito: "Como o sedento que em sonhos quer beber e esvazia formas de gua que no o saciam e perece abrasado pela sede no meio de

um rio: assim Vnus engana os amantes com simulacros, e a viso de um corpo no os farta, e nada podem desprender ou guardar, ainda que as mos indecisas e mtuas

percorram todo o corpo. No final, quando h nos corpos pressgios de venturas e Vnus est prestes a semear os campos da mulher, os amantes se abraam com ansiedade,

dente amoroso contra dente; totalmente em vo, pois no conseguem perder-se no outro nem ser um mesmo ser". Os arqutipos e a eternidade - duas palavras - prometem

possesses mais firmes. O certo que a sucesso uma misria intolervel e os apetites magnonimos cobiam todos os minutos do tempo e toda a variedade do espao.

Sabe-se que a identidade pessoal reside na memria e que a anulao dessa faculdade comporta a idiotice. Cabe

pensar o mesmo do universo. Sem uma eternidade, sem um espelho delicado e secreto do que passou pelas almas, a histria universal tempo perdido, e nela nossa histria

pessoal - o que incomodamente nos torna fantasmas. No bastam o disco gramofnico de Berliner ou o perspcuo cinematgrafo, simples imagens de imagens, dolos de

outros dolos. A eternidade uma inveno mais abundante. verdade que noo concebvel, mas tampouco o o humilde tempo sucessivo. Negar a eternidade, supor

a vasta aniquilao dos anos carregados de cidades, de rios e de jbilos, no menos incrvel que imaginar sua salvao total.

Como teve incio a eternidade? Santo Agostinho ignora o problema, mas assinala um fato que parece permitir uma soluo: os elementos de passado e de futuro que h

em todo presente. Alega um caso especfico: a rememorao de um poema. "Antes de comear, o poema est em minha antecipao; mal o termino, em minha memria; mas

enquanto Odeclamo est estendendo-se na memria, pelo que j disse; na antecipao, pelo que me falta dizer. O que acontece com a totalidade do poema acontece com

cada verso e com cada slaba. Digo o mesmo da ao mais ampla de que faz parte o poema, e do destino individual, que se compe de uma srie de aes, e da humanidade,

que uma srie de destinos individuais." Essa evidncia de ntima ligao dos diversos tempos do tempo inclui, no obstante, a sucesso, fato que no condiz com

um modelo da eternidade unonime.

Penso que a nostalgia foi esse modelo. O homem enternecido e desterrado que relembra possibilidades felizes as v s~~specie aeternitatis, totalmente esquecido de

que a execuo de uma delas exclui ou posterga as outras. Na paixo, a lembrana se inclina ao intemporal. Juntamos as aventuras de um passado numa s imagem; os

poentes de diferentes vermelhos que vejo a cada entardecer sero na lembrana um s poente. Passa-se o mesmo com a previso: as esperanas mais incompatveis podem

conviver sem problema. Digamos com outras palavras: o estilo do desejo a eternidade. (E provvel que na insinuao do eterno - da immediata et lucida fruitio rerum

infinitarum - esteja a causa da satisfao especial que buscam as enumeraes.)

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HISTRIA DA ETERNIDADE

HISTRIA DA ETERNIDADE

w

fme apenas assinalar ao leitor minha teoria pessoal

fade. E uma pobre eternidade j sem Deus e ainda sem outro possuidor e sem arqutipos. Formulei-a no livro El Idioma de los Argentinos, em 1928. Transcrevo o que

publiquei ento; o texto se intitulava "Sentirse en muerte".

"Quero registrar aqui uma experincia que tive noites atrs: ninharia demasiado evanescente e enlevada para que a chame aventura; demasiado irracional e sentimental

para pensamento. Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra j antedita por mim, mas no vivida at ento com inteira dedicao de meu eu. Passo a histori-la,

com os acidentes de tempo e de lugar que a declararam.

"Lembro-me dela assim. Na tarde que precedeu a essa

noite, estive em Barracas: localidade que no costumo visitar e

cuja distncia das que percorri depois j deu estranho sabor a

esse dia. Sua noite no tinha destino algum; como era calma, aps o jantar, sa a caminhar e a recordar. No quis dar rumo a essa caminhada; procurei uma latitude

mxima de probabilidades para no cansar a expectativa com a anteviso obrigatria de s uma delas. Na medida do possvel, mal realizei isso que chamam caminhar

ao acaso; aceitei, sem outro prejulgamento consciente que o de deixar de lado as avenidas ou ruas largas, os mais obscuros convites da casualidade. Contudo, um tipo

de gravitao familiar afastou-me para alguns bairros, de cujo nome quero sempre lembrar e que meu peito reverencia. No quero significar com isso o meu bairro,

o preciso mbito da infncia, mas suas ainda misteriosas imediaes: confins que possu inteiro em palavras e pouco em realidade, vizinhos e mitolgicos a um s

tempo. O reverso do conhecido, suas costas, so para mim essas ruas penltimas, quase to efetivamente ignoradas como o alicerce soterrado de nossa casa ou nosso

invisvel esqueleto. A caminhada me deixou numa esquina. Aspirei noite, num serenssimo feriado ao pensamento. A viso, por certo nada complicada, parecia simplificada

por meu cansao. Sua prpria tipicidade a tornava irreal. A rua era de casas baixas, e embora sua primeira significao fosse de pobreza, a segunda era certamente

de felicidade. Era daquilo que havia de mais pobre e mais bonito. Nenhuma casa atrevia

se a chegar at a rua; a figueira se ensombrecia sobre a calada; os portezinhos - mais altos que as linhas alongadas das paredes - pareciam trabalhados com a mesma

substncia infinita da noite. A calada era mais alta que a rua; a rua era de barro elementar, barro da Amrica ainda no conquistado. Ao fundo, o beco, j agreste,

desmoronava-se em direo ao [arroio] Maldonado. Sobre a terra turva e catica, uma taipa rosada parecia no abrigar luz de lua, mas difundir luz ntima. No haver

maneira melhor de denominar a ternura que esse rosado.

"Fiquei olhando essa simplicidade. Pensei, certamente em voz alta: Isto o mesmo de trinta anos atrs... Considerei essa data: poca recente em outros pases, mas

j remota neste inconstante lado do mundo. Talvez um pssaro cantasse, e senti por ele um carinho pequeno, e de tamanho de pssaro; mas o mais certo que nesse

j vertiginoso silncio no houve outro rudo seno o tambm intemporal dos grilos. O fcil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser umas quantas

aproximativas palavras e se aprofundou na realidade. Senti-me morto, senti-me conhecedor abstrato do mundo: temor indefinido imbudo de cincia, que a melhor clareza

da metafsica. No, no acreditei ter remontado s presumveis guas do Tempo; antes imaginei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebvel palavra

eternidade. S depois consegui definir essa suposio.

"Escrevo-a, agora, assim: Essa pura representao de fatos homogneos - noite em serenidade, paredezinha lmpida, cheiro provinciano de madressilva, barro fundamental

- no apenas idntica que houve nessa esquina h tantos anos; , sem semelhanas nem repeties, a mesma. O tempo, se podemos intaair essa identidade, uma

iluso: a indiferenciao e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje basta para desintegr-lo.

" evidente que o nmero de tais momentos humanos no infinito. Os essenciais - os de sofrimento e prazer fsico, os de aproximao do sono, os da audio de uma

msica, os de muita intensidade ou muito fastio - so ainda mais impes

soais. Derivo antecipadamente esta concluso: a vida pobre

demais para no ser tambm imortal. Mas nem ao menos

temos a certeza de nossa pobreza, posto que o tempo, facil

mente refutvel n6sensvel, no o tambm no intelectual, de

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HISTRIA DA ETERNIDADE

cuja essncia parece inseparvel o conceito de sucesso. Fique, ento, no episdio emocional a idia vislumbrada e na confessa irresoluo desta pgina o momento

verdadeiro de xtase e a insinuao possvel de eternidade de que essa noite no me

foi avara."

O propsito de dar interesse dramtico a esta biografia da eternidade obrigoume a certas deformaes: por exemplo, a resumir em cinco ou seis nomes uma gestao

secular.

Trabalhei ao sabor de minha biblioteca. Entre as obras que mais servios me prestaram, devo mencionar as seguintes:

Die Philosophie der Griechen, von Dr. Paul Deussen. Leipzig, 1919.

Works of Plotinus. Translated by Thomas Taylor. London, 1817.

Passages Illustrating Neoplatonism. Translated with an introduction by E. R.

Dodds. London, 1932.

Ln Philosophie de Platon, par Alfred Fouille. Paris, 1869.

Die Welt als Wille und Uorstellunq, von Arthur Schopenhauer. Herausgegeben von Eduard Grisebach. Leipzig, 1892.

Die Philosophie des Mittelalters, von Dr. Paul Deussen. Leipzig, 192O.

Las Confesiones de Smz Agustn. Versin literal por el P ngel C Vega. Madrid, 1932. AMonument to Saint Augustine. London, 193O. Dogmatik, von Dr. R. Rothe. Heidelberg,

187O. Ensayos de Crtica Filosfica, de Menndez y Pelayo. Madrid, 1892.

AS KENNINGAR

Uma das mais frias aberraes que as histrias literrias registram so as menes enigmticas ou kenningar da poesia da Islndia. Propagaram-se at o ano 1OO, poca

em que os thulir ou rapsodos repetidores annimos foram destitudos pelos escaldos, poetas de inteno pessoal. comum atribu-las decadncia; mas essa sentena

deprimente, vlida ou no, corresponde a solucionar o problema, no a apresent-lo. Basta-nos reconhecer, por enquanto, que foram o primeiro prazer verbal deliberado

de uma literatura instintiva.

Comeo pelo mais insidioso dos exemplos: um verso dos muitos intercalados na Saga de Grettir.

O heri matou o filho de Mak;

Houve tempestade de espadas e alimento de corvos.

Em linha to ilustre, a adequada contraposio das duas metforas - uma tumultuosa, outra cruel e contida - engana com vantagem o leitor, deixando-o supor que se

trata apenas de forte intuio de um combate e do que restou. outra a desaiws verdade. Alimento de corvos - confessemo-lo de uma vez - um dos preestabelecidos

sinnimos de cadver, assim como tempestade de espadas o de batalha. Essas equivalncias eram precisamente as kenningar. Conserv-las e aplic-las sem repetio

era o ansioso ideal desses primitivos homens de letras. Bastante numerosas, permitiam salvar as dificuldades de uma mtrica rgida, que exigia muita aliterao e

rima interna. Pode-se observar seu emprego livre, incoerente, nestas linhas:

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HISTRIA DA ETERNIDADE

O aniquilados da prole dos gigantes

Quebrou o forte biso da pradaria da gaivota.

Assim os deuses, enquanto o guardio do sino se lamentava, Destroaram o falco da margem. De pouco valeu o rei dos gregos Ao cavalo que corre por recifes.

O aniquilados das crias dos gigantes o ruivo Thor. O guardio do sino um ministro da nova f, segundo seu atributo. O rei dos gregos Jesus Cristo, pela vaga

razo de ser esse um dos nomes do imperador de Constantinopla e de Jesus Cristo no lhe ser inferior. O biso da pradaria da gaivota, o falco da margem e o cavalo

que corre por recifes no so trs animais anmalos, mas uma s nave maltratada. Dessas penosas equaes sintticas a primeira de segundo grau, uma vez que a pradaria

da gaivota j um nome do mar... Desatados esses ns parciais, deixo ao leitor a elucidao total das linhas, certamente um pouco dcevante. A saga de Njal as coloca

na boca platnica de Steinvora, me de Ref o Skald, que narra, logo aps, em lcida prosa, como o terrvel Thor quis lutar com Jesus, e este no se animou. Niedner,

o germanista, venera o "humano-contraditri " dessas figuras e as prope ao interesse "de nossa moderna poesia, ansiosa por valores de realidad".

Outro exemplo, uns versos de Egil Skalagrimsson:

Os que tingem os dentes do lobo Esbanjaram a carne do cisne vermelho. O falco do orvalho da espada Alimentou-se de heris na plancie. Serpentes da lua dos piratas

Cumpriram a vontade dos Ferros.

Versos como o terceiro e o quinto proporcionam satisfao quase orgnica. O que procuram transmitir indiferente, o que sugerem nulo. No convidam a sonhar, no

provocam imagens ou paixes; no so ponto de partida, so concluses. O prazer - o suficiente e mnimo prazer - est em

sua variedade, no contato heterogneo de suas palavras." possvel que os inventores entendessem assim e que sua condio de smbolos fosse mero suborno a inteligncia.

Os Ferros so os deuses; a lua dos piratas, o escudo; sua serpente, a lana; orvalho da espada, o sangue; seu falco, o corvo; cisne vermelho, todo pssaro ensangentado;

carne do cisne vermelho, os mortos; os que tingem os dentes do lobo, os guerreiros afortunados. A reflexo repudia essas converses. Lua dos piratas no a definio

mais precisa que o escudo exige. Isso indiscutvel, mas no o menos o fato de lua dos piratas ser uma frmula que no se deixa substituir por escudo, sem. perda

total. Reduzir cada kenning a uma palavra no esclare

cer incgnitas: anular o poema.

Baltasar Gracin y Morales, da Companhia de Jesus, tem

em seu desfavor algumas laboriosas perfrases, de mecanismo

semelhante ou idntico ao das kenningar. O tema era o vero

ou a aurora. Em vez de prop-las diretamente, ele as foi justi

ficando e coordenando com receio condenvel. Eis aqui o pro

duto melanclico desse esforo:

Depois que no celeste Anfiteatro O ginete do dia

Sobre Flegetonte toureou valente O luminoso Touro

Vibrando como aguilhes raios de ouro, Aplaudindo suas sortes D belo espetculo de Estrelas - Turba de damas belas Que a gozar de seu talhe, alegre mora N~.~dto

das sacadas da Aurora -;

1 Busco o equivalente clssico desse prazer, o equivalente que nem o mais incorruptvel de meus leitores vai querer invalidar. Deparo com o insigne soneto de Quevedo

ao duque de Osuna, "horrendo em galeras e naves e infantaria armada".

fcil comprovar que em tal soneto a esplndida eficcia do dstico

Sua Turnba so de Flanrlres as Campa~ihas E seu Epitfio a sangrenta Lua

anterior a toda interpretao e no depende dela. Digo o mesmo da expresso subseqente: o pranto militar, cujo "sentido" no discutvel, mas sim trivial: o

pranto dos militares. Quanto sangrenta Lua, melhor ignorar que se trata do smbolo dos turcos, eclipsado por no sei que piratarias de Pedro Tllez Girn.

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HISTRIA DA ETEKNIDADE

Depois que em singular metamorfose Com calcanhares de pena E com crista de fogo

grande multido de astros luminosos (Galinhas dos campos celestiais) Presidiu Galo o boquirroto Febo Entre os frangos do tindrio Ovo, Pois a grande Leda por traio

divina Se incubou choca, concebeu galinha...

O frenesi taurino-galinceo do reverendo Padre no o maior pecado de sua rapsdia. Pior o aparato lgico: a aposio de cada substantivo e de sua metfora atroz,

a defesa impossvel dos disparates. A passagem de Egil Skalagrimsson um problema, ou ao menos uma adivinhao; a do inverossmil espanhol, uma miscelnea. O espantoso

que Gracin era bom prosador; escritor infinitamente capaz de artifcios hbeis. Testemunho disso o desenvolvimento desta frase, que de sua lavra: "Pequeno

corpo de Crislogo, encerra esprito gigante; breve panegrico de Plnio se mede com a eternidade".

O carter funcional predomina nas kenningar. Definem os objetos menos por sua figura que por seu uso. Costumam dar vida ao que tocam, sem prejuzo de inverter o

procedimento quando seu tema vivo. Constituram legio e esto suficientemente esquecidas: fato que me induziu a recolher essas desfalecidas flores retricas.

Aproveitei a primeira compilao, a de Snorri Sturluson - famoso como historiador, arquelogo, construtor de umas termas, genealogista, presidente de uma assemblia,

poeta, duplo traidor, decapitado e fantasma.z Empreendeu-a nos anos de 123O, com finalidades preceptivas. Queria satisfazer duas paixes de ordem diversa: a moderao

e o culto dos antepassados. Gostava das kenningar, sempre que no fossem muito intrincadas e que as confirmasse um exemplo clssico. Transcrevo sua declarao preliminar:

"Esta explicao se dirige aos principiantes que desejam adquirir destreza potica e melhorar sua proviso de figuras com metforas tradicionais, ou aos que procuram

a virtude de entender o que foi escrito com 2 Dura palavra traidor. Sturluson era - talvez - um mero fantico disponvel,

homem dilacerado at o escndalo por sucessivas e contrrias lealdades. Na ordem intelectual, sei de dois exemplos: o de Francisco Luis Bernrdez e o meu.

AS KENNINGAR

mistrio. Convm respeitar essas histrias que bastaram aos antepassados, mas convm que os homens cristos lhes retirem sua f". A sete sculos de distncia a discriminao

no intil: h tradutores alemes desse indolente Gradus ad Parnassttim boreal que o propem como Ersatz da Bblia e juram ser n uso repetido de casos noruegueses

o instrumento mais eficaz para alemanizar a Alemanha. O doutor Karl Konrad - autor de uma verso mutiladssima do tratado de Snorri e de um folheto pessoal de 52

"extratos dominicais" que constituem outras tantas "devoes germnicas", muito corrigidas numa segunda edio - talvez seja o exemplo mais lgubre.

O tratado de Snorri se intitula Edda Prosaica. Consta de duas partes em prosa e uma terceira em verso - a que inspirou sem dvida o epteto. A segunda narra a aventura

de Aegir ou Hler, versadssimo em artes de feitiaria, que visitou os deuses na fortaleza de Asgard, chamada Tria pelos mortais. Perto do anoitecer, Odin mandou

trazer umas espadas de to polido ao que no se precisava de outra luz. Hler tornou-se amigo de seu vizinho, o deus Bragi, exercitado na eloqncia e na mtrica.

Um enorme comode hidromel passava de mo em mo, e falaram de poesia o homem e o deus. Este foi dizendo as metforas que se devem empregar. Esse catlogo divino

est me assessorando agora.

No dice, o excluo as kenningar que j havia registrado. Ao com a-lo, conheci um prazer quase filatlico.

casa dos pssaros casa dos ventos

o ar

flechas de mar: os arenques porco do marulho: a baleia rvca~+e de assento: o banco bosque da queixada: a barba

assemblia de espadas tempestade de espadas encontro das fontes vo de lanas cano de lanas festa de guias

chuva dos escudos vermelhos festa de vikings

a batalha

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HISTRIA DA ETERNIDADE

As KE~rNtn.ena

fora do arco perna da omoplata

cisne sangrento galo dos mortos

sacudidor do freio: o cavalo

poste do elmo penhasco dos ombros castelo do corpo

forja do canto: a cabea do skald

onda do chifre mar do copo

elmo do ar

terra das estrelas do cu caminho da lua chvena dos ventos

ma do peito

dura bolota do pensamento

gaivota do dio gaivota das feridas cavalo da bruxa primo do corvo"

3 Definitum in definitione ingredi non debet ~O definido no deve entrar na definio, N. da T.] a segunda regra menor da definio. Infraes engraadas como

esta (e aquela que vem abaixo, drago da espada: a espada) lembram o artifcio daquele personagem de Poe que, na nsia de esconder uma carta curiosidade policial,

exibe

a com descuido numa carteira.

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gelo da luta

vara da ira fogo de elmos drago da espada roedor de elmos espinha da batalha peixe da batalha remo do sangue lobo das feridas ramo das feridas

granizo das cordas dos arcos gansos da batalha

sol das casas perdio das rvores lobo dos templos

delcia dos corvos avermelhador do bico do corvo alegrador da guia rvore do elmo rvore da espada tingidor de espadas

ogro do elmo

querido alimentador dos lobos

negro orvalho do lar: a fuligem

rvt~+e de lobos cavalo de madeira

orvalho da dor: as lgrimas

drago dos cadveres serpente do escudo

4 Ir em cavalo de madeira ao inferno, leio no captulo 22 da Ing&nga Saga. Viva, balano, borneio e~"ni6i~sterre foram os nomes da forca na gria; moldura (pich~re

frame), o que llre deram antigamente os marginais de Nova York.

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o brao

o abutre a cabea

a espada

a cerveja

as flechas

o cu

o fogo

o corao

o guerreiro

o corvo o escudo

o machado

penhascos das palavras: os dentes

terra da espada

lua da nave lua dos piratas teto do combate

grande nuvem do combate

a forcaa a lana

HISTRIA DA ETERNIDADE

espada da boca remo da boca

a lngua

assento do nebri

pas dos anis de ouro

AS KENNINGAR

neve da bolsa

gelo dos crisis orvalho da balana

senhor de anis distribuidor de tesouros distribuidor de espadas

sangue dos penhascos terra das redes

riacho dos lobos mar da matana orvalho do morto suor da guerra cerveja dos corvos gua da espada onda da espada

ferreiro das canes: o skald

irm da luas fogo do ar

mar dos animais piso das tormentas cavalo da nebli a

senhor dos currais: o touro

crescimento de homens animao das cobras

irt~ do fogo dano dos bosques lobo dos cordames

5 Os idiomas germnicos que tm gnero gramatical dizem a sol e o lua. Segundo Lugones (EI Imperio Jesutico, 19O4), a cosmogonia das tribos guaranis considerava

a lua macho e n sol fmea. A antiga cosmogonia do Japo registra tambm uma deusa do sol e um deus da lua.

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a prata

a mao

teto da baleia terra do cisne caminho das velas campo do viking prado da gaivota corrente das ilhas

o rei

o mar

o rio

rvore dos corvos aveia das guias trigo dos lobos

o morto

lobo das mars cavalo do pirata rena dos reis do mar patim de viking garanho da onda carro arador do mar falco da margem

o sangue

a nave

o sol

pedras do rosto luas da fronte

os olhos

a terra

fogo do mar

leito da serpente resplendor da mo bronze das discrdias

O ouro

o vero

repouso das lanas: a paz

casa do alento

nave do corao base da alma

assento das gargalhadas

o vento

o peito

412

HISTRIA DA ETERNIDADE

Omito as de segundo grau, as obtidas por combinao de um termo simples com uma kenning- por exemplo, a gua da vara das feridas, o sangue; o que farta as gaivotas

do dio, o guerreiro; o trigo dos cisnes de corpo vermelho, o cadver - e as de motivo mitolgico: a perdio dos anes, o sol; o filho de nove mnes, o deus Heimdall.

Omito tambm as ocasionais: o suporte do fogo fzo mar, uma mulher com um berloque de ouro qualquer. Das de maior potncia, que operam a fuso arbitrria dos enigmas,

indicarei s uma: os que detestam a neve do posto do falco. O posto do falco a mo; a neve da mo a prata; os que detestam a prata so os homens que a afastam

de si, os reis dadivosos. O mtodo, o leitor j ter notado, o tradicional dos esmoladores: o louvor da vagarosa generosidade que se trata de estimular. Da os

vrios apelidos da prata e do ouro, da as vidas menes ao rei: senhor de anis, distribuidor de riquezas, custdia de riquezas. Da tambm sinceras conversaes

como esta, do noruegus Eyvind Skaldaspillir:

Quero construir um louvor

Estvel e firme como uma ponte de pedra. Penso que no avaro nosso rei Dos carves acesos do cotovelo.

Essa identificao entre ouro e chama - perigo e resplendor - no deixa de ser eficaz. O metdico Snorri a esclarece: "Dizemos bem que o ouro fogo dos braos ou

das pernas, porque sua cor o vermelho, mas os nomes da prata so gelo ou neve ou pedra de granizo ou escarcha, porque sua cor o branco". E depois: "Quando os

deuses retriburam a visita de Aegir, este os hospedou em sua casa (que fica no mar) e os iluminou com lminas de ouro, que davam luz como as espadas no Walhalla.

Desde esse momento, ao ouro chamaram fogo do mar e de todas as guas e dos rios". Moedas de ouro, anis, escudos cravejados, espadas e machados eram a recompensa

do skald; rarssimas vezes, terras e naves.

Minha relao de kenningar no completa. Os cantores tinham o pudor da repetio literal e preferiam esgotar as variantes. Basta verificar as que o item nave registra

- e as que

6 Se as informaes de De Quincey no me enganam (WritinXs, tomo XI, pgina 269), o modo incidental dessa ltima o da perversa Cassandra, no sombrio poema de Licofronte.

AS KENNINGAR

uma evidente permuta, o sutil trabalho do esquecimento ou da arte, pode multiplicar. So tambm abundantes as de guerreiro. rvore da espada chamou-o um skald, talvez

porque rvore e vencedor fossem palavras homnimas. Outro Ochamou carvalho da lana; outro, basto do ouro; outro, espantoso pinheiro das tempestades de ferro;

outro, bosque dos peixes da batalha. Vez que outra a variao acatou uma lei: demonstra-o uma passagem de Markus, na qual um barco parece agigantar-se com a proximidade.

O terrvel javali da inundao Saltou sobre os tetos da baleia. O urso do dilvio fatigou O antigo caminho dos veleiros O touro do marulho quebrou

A corrente que amarra nosso castelo.

O culteranismo um delrio da mente acadmica; o estilo codificado por Snorri a exasperao e quase a reductio ad absurdum de uma preferncia comum a toda a literatura

germnica: a das palavras compostas. Os monumentos mais antigos dessa literatura so os anglo-saxes. No Beowulf - que dos anos 7OO -, o mar o caminho das velas,

o caminho do cisne,. a poncheira das ondas, a banheira do pelicano, a rota da baleia; o sol a candeia do mundo, a alegria do cu, a pedra preciosa do cu; a harpa

a madeira do jbilo; a espada o resduo dos martelos, o companheiro de luta, a luz da batalha; a batalha o jogo das espadas, o aguaceiro de ferro; a nave

a cruzadora do mar; o drago, a ameaa do anoitecer, o guardio do tesouro; o corpo a morada dos ossos; a rainha a tecel da paz; o rei o senhor dos anis,

o ureo amig dos homens, o chefe de homens, o distribuidor de riquezas. ambm as naves da Ilada so cruzadoras do mar - quase transatlnticos -, e o rei, rei de

homens. Nas hagiografdas oitocentistas, o mar tambm a banheira do peixe, o caminho das focas, o tanque da baleia, o reino da baleia; o sol a candeia dos homens,

a candeia do dia; os olhos so as jias do rosto; a nave o cavalo das ondas, o cavalo do mar; o lobo o morador dos bosques; a batalha o jogo dos escudos, o

vo das lanas; a lana a serpente da guerra; Deus a alegria dos guerreiros. No Bestirio, a baleia o guardio do oceano. Na

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415

HISTRIA DA ETERNIDADE

balada de Brunnaburh - j novecentista -, a batalha o trato das lanas, o trapejar das bandeiras, a comunho das espadas, o encontro de homens. Os skald manejam

precisamente essas mesmas figuras; sua inovao foi a ordem torrencial em que as esbanjaram e o fato de combin-las entre si como bases de smbolos mais complexos.

de presumir que o tempo colaborou. S quando lua de viking foi uma equivalncia imediata de escudo, pde o poeta formular a equao serpente da lua dos vikings.

Esse momento teve lugar na Islndia, no na Inglaterra. O prazer de compor palavras perdurou nas letras inglesas, mas de forma diversa. As Odissias de Chapman (ano

de 1614) esto repletas de estranhos exemplos. Alguns so belos (deliciousfingered Morning, through-swum the waves); outros, meramente visuais e tipogrficos (Soou

as the white-and-red-mixed fingered Dame); outros, curiosamente canhestros, the circularly-witted queen. A tais aventuras podem levar o sangue germnico e a leitura

grega. Cabe citar tambm certo germanizador total do ingls, que num Word-Book of the English Tongue props as emendas: lichrest por cemitrio, red-craft por lgica,

fourwinkled por quadrangular, ourganger por emigrante, fearnought por bonito, bit-vise por gradualmente, kinlore por genealogia, bask-jaw por rplica, wanhope por

desespero. A tais aventuras podem levar o ingls e um conhecimento nostlgico do alemo...

Percorrer todo o ndice das kenningar expor-se incmoda sensao de que muito raras vezes ocorreu to pouco Omistrio - e foi to inadequado e verboso. Antes

de condenlas, convm lembrar que sua transposio a um idioma que desconhece as palavras compostas tem que agravar sua inabilidade. Espinha da batalha ou ainda

espinha de batalha ou espinha militar uma perfrase deselegante; Kampfdorn ou battle-thorn o so menos." Assim tambm, at que as exortaes gramaticais de nosso

Xul Solar no sejam obedecidas, versos como Ode Rudyard Kipling:

In the desert where the dung fed camp-smoke curled

7 Traduzir cada kenning por um substantivo espanhol com adjetivo especificador (sol domstico em lugar de sol de las casas, resplai~dor manual em vez de resplandor

de Ia mano) talvez tivesse sido o mais fiel, mas tambm o menos sensacional e o mais difcil - por falta de adjetivos.

AS KENNINGAR

ou aquele outro de Yeats:

That dolphin-torn, that gong-tormented sea sero inimitveis e impensveis em espanhol...

Outras apologias no faltam. Uma evidente que essas menes inexatas eram estudadas uma aps a outra pelos aprendizes de skald, mas no eram propostas ao auditrio

desse modo esquemtico, e sim entre a agitao dos versos. (Talvez a descarnada frmula

gua da espada = sangue

j seja uma traio.) Ignoramos suas leis: desconhecemos as precisas objees que um juiz de kenningar faria a uma boa metfora de Lugones. Restam-nos apenas algumas

palavras. Impossvel saber com que inflexo de voz eram ditas, com que expresses faciais, individuais como uma msica, com que admirvel deciso ou modstia. O

certo que exerceram um dia sua funo de assombrar e que sua gigantesca inpcia cativou os ruivos vares dos desertos vulcnicos e dos fjords, assim como a profunda

cerveja e os duelos de garanhes." No impossvel que uma misteriosa alegria as produzisse. Sua prpria rusticidade - peixes da batalha: espadas - pode responder

a um antigo humour, a zombarias de homenzarres setentrionais. Assim, nessa metfora selvagem que tornei a destacar, os guerreiros e a batalha se fundem num plano

invisvel, onde se agitam as espadas orgnicas, e mordem e molestam. Essa imaginao tambm aparece na Saga de Njal, em uma de cujas pginas est escrito: "As espadas

sa m das bainhas, e machados e lanas voaram pelo ar e aram. As armas os perseguiram com tal ardor que prec aram proteger-se com os escudos, mas novamente muitos

foram feridos e um homem morreu

em cada nave". Este signo foi visto nas embarcaes do ,;,.,

apstata Brodir, antes da batalha que o derrotou.

8 Falo de um esporte especial dessa ilha de lava e gelo duro: a luta de garanhes. Enlouquecidos pelas guas no cio e pelo clamor dos homens, os garanhes lutavam

a cruentas dentadas - algumas vezes mortais. So numerosas as aluses a esse jogo. Diz o historiador, sobre um capito que se bateu com denodo diante de sua dama,

que como esse potro no iria lutar bem se a gua estava olhando para ele.

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~iISTRIA DA ETPRNIDADE

Na noite 743 do Livro das Mil e Uma Noites, leio esta advertncia: "No digamos que morreu feliz o rei que deixa um herdeiro como este: o comedido, o agraciado,

o mpar, o leo dilacerador e a clara lua". O smile, talvez contemporneo dos germnicos, no vale muito mais, porm a raiz diferente. O homem semelhante luz,

o homem semelhante fera, no so o resultado discutvel de um processo mental: so a verdade correta e momentnea de duas intuies. As kenningar ficam em sofismas,

em exerccios enganadores e lnguidos. Cabe aqui certa memorvel exceo, um verso que reflita o incndio de uma cidade, o fogo delicado e terrvel:

Ardem os homens; agora se en fureee a Jia.

Uma justificativa final. O signo perna da omoplata estranho, mas no menos estranho do que o brao do homem. Conceblo como simples perna que projetada pelas

cavas dos coletes e se desfia em cinco dedos de doloroso comprimento intuir sua estranheza fundamental. As kenningar impem-nos esse espanto, distanciam-nos do

mundo. Podem motivar essa lcida perplexidade que a nica honra da metafsica, sua recompensa e sua fonte.

Buenos Aires, 1933.

Post-Scriptum. Morris, o minucioso e forte poeta ingls, intercalou muitas kenningar em sua ltima epopia, Sigurd the Volsung. Transcrevo algumas, desconheo se

adaptadas ou pessoais ou dos dois tipos. Chama da guerra, a bandeira; mar da matana, vento da guerra, o ataque; mundo de penhascos, a montanha; bosque da guerra,

bosque de lanas, bosque da batalha, o exrcito; tecido da espada, a morte; perdio de Fafnir, tio da batalha; ira de Sigfrid, sua espada.

"Pai do perfume, jasmim!", apregoam os vendedores no Cairo. Mauthner observa que os rabes costumam derivar suas figuras da relao pai-filho. Assim: pai da manh,

o galo; pai da pilhagem, o lobo; filho do arco, a flecha; pai dos passos, uma montanha. Outro exemplo dessa preocupao: no Alcoro, a prova mais comum da existncia

de Deus o espanto de que o homem seja gerado por certas gotas de gua vil.

AS KENNLNGAR

Sabe-se que os nomes primitivos do tanque foram landship, landeruiser, barco de terra, couraado de terra. Mais tarde chamaram-no tanque para despistar. Akejming

original era evidente demais. Outra kenning leito comprido, o eufemismo guloso dado pelos canibais ao prato fundamental de sua dieta.

O ultrasta morto cujo fantasma continua sempre a me habitar aprecia esses jogos. Dedico-os a uma clara companheira: a Norah Lange, cujo sangue talvez os reconhea.

Post-Scriptum de 1962. Escrevi, certa ocasio, repetindo a outros, que a aliterao e a metfora eram os elementos fundamentais do antigo verso germnico. Dois anos

dedicados ao estudo dos textos anglo-saxnios me levam, hoje, a modificar essa afirmao.

Das aliteraes, entendo que eram antes um meio que um fim. Seu objetivo era marcar as palavras que deviam ser acentuadas. Prova disso que as vogais, que eram

abertas, quer dizer, muito diferentes uma da outra, aliteravam entre si. Outra que os textos antigos no registram aliteraes exageradas, do tipo a fair field

full of folk, que data do sculo XIV.

Quanto metfora como elemento indispensvel ao verso, entendo que a pompa e a gravidade existentes nas palavras compostas eram o que agradava e que as kenningar,

de incio, no foram metafricas. Assim, os dois versos iniciais do Beowul f incluem trs kenningar (dinamarqueses de lana, dias de antanho ou dias de anos, reis

do povo), que certamente no so metforas, e preciso chegar ao dcimo verso para deparar com uma expresso como hronrad (rota da baleia, o mar). A metfora no

teria sido, portanto, o fundamental e sim, como a comparao ulterior, uma descoberta tardia das literaturas.

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HISTRIA DA ETERNIDADE

Entre os livros que mais servios me prestaram, devo mencionar os seguintes:

The Prose Edna, by Snorri Sturluson. Translated by Arthur Gilchrist Brodeur. New York, 1929.

Die Jngere Edda mit dem sogennanten ersten grammatischen Traktat. Ueber

tragen von Gustav Neckel und Felix Niedner. Jena, 1925.

Die Edda. Uebersetzt von Hugo Gering. Leipzig, 1892.

Eddalieder, mit Grammatik, Uebersetzung und Erluterungen. Von Dr. Wilhelm

Ranisch. Leipzig, 192O.

V~Isung Saga, with certain songs from the Elder Edda. Translated by Eirkr Magnsson and William Morris. London, 187O.

The Story of Burnt Njal. From the Icelandic of the Njals Saga, by George Webbe Dasent. Edinburgh, 1861.

The Grettir Sagn. Translated by G. Ainslie Hight. London, 1913.

Die Geschiehte z~on Goden Snorri. Uebertragen von Felix Niedner. Jena, 192O. Islands Kultur zur Wikingerzeit, von Felix Niedner. Jena, 792O.

Anglo-Saxon Poetry. Selected and tanslated by R K. Gordon. London, 1931. The Deeds of Beowulf. Done finto modern prose by John Earle. Oxford, 1892.

A METFORA

O historiador Snorri Sturluson, que em sua intrincada vida fez tantas coisas, compilou no incio do sculo XIII um glossrio das figuras tradicionais da poesia da

Islndia onde se l, por exemplo, que gaivota do dio, falco do sangue, cisne sangrento ou cisne vermelho significam o corvo; e teto da baleia ou corrente das ilhas,

o mar; e casa dos dentes, a boca. Entretecidas no verso e por ele conduzidas, essas metforas proporcionam (ou proporcionaram) agradvel deslumbramento; logo sentimos

que no h emoo que as justifique e as julgamos laboriosas e inteis. Comprovei que o mesmo acontece com as figuras do simbolismo e do marinismo.

Benedetto Croce pde acusar os poetas e oradores barrocos do sculo XVII de "frialdade ntima" e de "engenhosidade pouco engenhosa"; nas perfrases recolhidas por

Snorri vejo algo assim como a reductio ad absurdum de qualquer propsito de elaborar metforas novas. Suspeito que Lugones ou Baudelaire no fracassaram menos que

os poetas cortesos da Islndia.

No livro III da Retrica, Aristteles observou que toda metfora surge da intuio de uma analogia entre coisas diferentes; Middeton Murry exige que a analogia

seja real e que at ento no tenha sido observada (Cotantries of the Mind, II, 4). Aristteles, como se v, baseia a metfora nas coisas e no na linguagem; os

tropos conservados por Snorri so (ou parecem) resultados de um processo mental, que no percebe analogias mas co bina palavras; a um o"~o"utro podem impressionar

(cisne ermelho, falco do sangue), mas nada revelam ou comunicam. o, por assim dizer, objetos verbais, puros e independentes como um cristal ou como um anel de

prata. Igualmente, o gramtico Licofronte chamou o deus Hrcules de leo da trplice

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HISTORIA DA ETERNIDADE

noite, porque a noite em que foi gerado por Zeus pareceu

trs; a frase memorvel, vai alm da interpretao dos glo

sadores, mas no exerce a funo prescrita por Aristteles."

No I Ching, um dos nomes do universo os Dez Mil Seres.

H talvez trinta anos, minha gerao se surpreendeu com o

fato de os poetas terem desprezado as mltiplas combinaes

que esse elenco possibilita e, de modo manaco, se limitado a

uns poucos grupos famosos: as estrelas e os olhos, a mulher e

a flor, o tempo e a gua, a velhice e o entardecer, o sono e a

morte. Assim enunciados ou despojados, esses grupos so

meras trivialidades, mas vejamos alguns exemplos concretos.

L-se no Antigo Testamento (I Reis 2, 1O): "E Davi dormiu

com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi". Nos naufrgios, ao afundar-se o navio, os marinheiros do Danbio rezavam: "Durmo, logo voltarei a remar"? Homero,

na Ilada, chamou o Sono de Irmo da Morte; desta irmandade, segundo Lessing, so testemunhos vrios monumentos funerrios. Macaco da Morte (Afie des Todes) chamou-o

Wilhelm Klemm, que escreveu tambm: "A morte a primeira noite tranqila". Antes, Heine escrevera: "A morte a noite amena; a vida, o dia tormentoso..." Sono da

terra foi como Vigny chamou a morte; velha cadeira de balano (old rocking-chair) a chamam nos blues: ela vem a ser o ltimo sono, a ltima sesta, dos negros. Schopenhauer

repete em sua obra a equao morte-sono; basta-me copiar estas linhas: "O que o sono para o indivduo, a morte para a espci" (Welt als Wille, II, 41). O leitor

j ter lembrado as palavras de Hamlet: "Morrer, dormir, talvez sonhar", e seu temor de que sejam atrozes os sonhos do sono da morte.

Igualar mulheres a flores outra eternidade ou trivialidade; tenho aqui alguns exemplos. "Eu sou a rosa de Saron e o lrio dos vales", diz a sulamita no Cntico

dos Cnticos. Na histria de Math, que o quarto "ram " dos Mabinogion de Gales, certo prncipe exige uma mulher que no seja deste mundo, e um feiticeiro "por

meio de conjuros e de iluso a faz com as flores do car

I Digo o mesmo de "guia de trs asas", que nome metafrico da flecha, na literatura persa (Browne: A Lteran~ Hishn"y of Persia, III, 262).

2 Tambm se conserva a ladainha final dos marinheiros fencios: "Me de Cartago, devolvo o remo". A julgar por moedas do sculo II a.C, por Me de Cartago devemos

entender Sdon.

A METFORA

valho e com as flores da giesta e com as flores da olmeira". Na quinta "aventur " do Nibelungenlied, Sigfrid v Kriemhild para no mais esquec-la e a primeira

coisa que nos diz que sua tez brilha com a cor das rosas. Ariosto, inspirado por Catulo, compara a donzela a uma flor secreta (Orlando, I, 42); no jardim de Armida,

um pssaro de bico purpreo exorta os amantes a no deixar que essa flor murche (Gerusalemme, XVI, 13-15). No final do sculo XVI, Malherbe quer consolar um amigo

pela morte de sua filha, e nesse consolo esto as famosas palavras: "Et, rose, elle a vcu ce que vivem les roses". Shakespeare, num jardim, admira o vermelho profundo

das rosas e a brancura dos lrios, mas para ele esses esplendores no passam de sombras de seu amor ausente (Sonnets, XCVIII). "Deus, ao fazer as rosas, fez meu

rost", diz a rainha de Samotrcia numa pgina de Swinburne. Este levantamento poderia no ter fim;" basta lembrar aquela cena de Weir of Hermiston - o ltimo livro

de Stevenson - na qual o heri quer saber se h uma alma em Cristina "ou se no mais que um animal da cor das flores".

Juntei dez exemplos do primeiro grupo e nove do segundo; s vezes a unidade essencial menos aparente que os traos diferenciais. Quem, a priori, suspeitaria que

"cadeira de balan " e "Davi dormiu com seus pais" procedem de mesma raiz?

O primeiro monumento das literaturas ocidentais, a Ilada, foi composto h cerca de trs mil anos; plausvel supor que nesse enorme transcurso de tempo todas as

afinidades ntimas, necessrias (sonho-vida, sono-morte, rios e vidas que transcorrem, etc.), foram alguma vez percebidas e escritas. Isso no significa, naturalmente,

que se tenha esgotado o nmero de metforas; as maneiras de indicar ou insinuar essas secretas simpatias dos conceitos resultam, de fato, ilimitadas. Sua virtude

ou fraqueza esto nas palavras, no curioso verso em que Dante (Purgatrio, I, 13), para definir o cu oriental, invoca uma pedra oriental, uma pedra lmpida em cujo

nome est, por feliz acaso, o Oriente: "bolce color d"oriental zaffiro" , fora de qualquer dvi

3 A imagem tambm aparece delicadamente nos famosos versos de Milton P. L. IV, 268-271) Vibre o rapto de Prosrpina,e nestes de Daro:

Mas apesar do tempo implacvel minha sede de amm no tem fim; com o cahelo grisalho me aproximo das roseiras do jardim.

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HISTORIA DA ETERNIDADE

da, admirvel; no o caso de Gngora (Soledad, I, 6): "Em campos de safiras apascenta estrelas", que , se no me engano, simples imagem grosseira, simples nfase.

Algum dia ser escrita a histria da metfora e saberemos a verdade e o erro que estas conjeturas encerram.

4 Ambos os versos derivam da Escritura, "E viram o Deus de Israel; e debaixo de seus ps havia como um lajeado de safira, semelhante ao cu quando est sereno".

(xodo 24, 1OJ

A DOUTRINA DOS CICLOS

I

Essa doutrina (que seu mais recente inventor chama do Eterno Retorno) formidvel assim:

"O nmero de todos os tomos que compem o mundo , embora desmedido, finito, e s capaz, como tal, de um nmero finito (embora tambm desmedido) de permutaes.

Num tempo infinito, o nmero das permutaes possveis deve ser alcanado, e o universo tem de se repetir. Novamente nascers de um ventre, novamente crescer teu

esqueleto, novamente chegar esta mesma pgina s tuas mos iguais, novamente percorrers todas as horas at a de tua morte inacreditvel." Esta a ordem habitual

desse argumento, do preldio inspido ao enorme desenlace ameaador. comum atribu-lo a Nietzsche.

Antes de refut-lo - obra que ignoro se sou capaz - convm conceber, ao menos de longe, as sobre-humanas cifras que invoca. Comeo pelo tomo. O dimetro de um tomo

de hidrognio foi calculado, salvo engano, em um centimilionsimo de centmetro. Essa pequenez vertiginosa no quer dizer que seja indivisvel: ao contrrio, Rutherford

o define segundo a imagem de um sistema solar, feito de um ncleo central e de um eltron giratrio, cem mil vezes menor que o tomo inteiro. Deixemos esse ncleo

e esse eltron e vamos conceber um universo frugal, composto de 1O tomos. (Trata-se, claro, de um modesto universo experimental: invisvel, uma vez que dele no

suspeitam os microscpios; impondervel, uma vez que nenhum~,:,balana o avaliaria.) Postulemos tambm - sempre de acordo com a conjetura de Nietzsche - que o nmero

de mudanas desse universo seja o dos modos em

HISTRIA DA ETERNIDADE

que se podem dispor os dez tomos, variando a ordem em que estiverem colocados. Quantos estados diferentes pode conhecer esse mundo, antes de um eterno retorno?

A indagao fcil: basta multiplicar 1x2x3x4x5x6x7x8x9x1O, excessiva operao que nos d a cifra de 3.628.8OO. Se uma partcula quase infinitesimal de universo

capaz dessa variedade, devemos depositar pouca ou nenhuma f numa monotonia do cosmos. Considerei 1O tomos; para obter dois gramas de hidrognio, precisaramos

de bem mais de um bilho de bilhes. Fazer o clculo das mudanas possveis nesse par de gramas - quer dizer, multiplicar um bilho de bilhes por cada um dos nmeros

inteiros que o antecedem - j uma operao muito superior minha pcincia humana.

No sei se meu leitor est convencido; eu no estou. O indolor e casto esbanjamento de nmeros enormes causa, sem dvida, esse prazer peculiar a todos os excessos,

mas a Regresso continua mais ou menos Eterna, mesmo a longo prazo. Nietzsche poderia replicar: "Os eltrons giratrios de Rutherford so novidade para mim, assim

como a idia - to escandalosa para um fillogo - de que se possa dividir um tomo. Todavia, jamais desmenti que as vicissitudes da matria fossem numerosas; declarei

apenas que no eram infinitas". Essa verossmil contestao de Friedrich Zaratustra me faz recorrer a Georg Cantor e a sua herica teoria dos conjuntos.

Cantor destri o fundamento da tese de Nietzsche. Afirma a perfeita infinidade do nmero de pontos do universo, e at de um metro de universo, ou de uma frao desse

metro. A operao de contar no para ele outra coisa seno comparar duas sries. Por exemplo, se os primognitos de todas as casas do Egito foram mortos pelo Anjo,

salvo os que moravam em casas com um sinal vermelho na porta, evidente que se salvaram tantos quantos sinais vermelhos havia, sem que isso importe enumerar quantos

foram. Aqui a quantidade indefinida; h outros agrupamentos em que infinita. O conjunto dos nmeros naturais infinito, mas possvel demonstrar que os mpares

so tantos quantos os pares.

Ao 1 corresponde o 2

Ao 3 corresponde o 4

Ao 5 corresponde o 6, etc.

426

A DOUTRINA DOS CICLOS

A prova to irrepreensvel quanto ftil, mas no difere da seguinte, de que h tantos mltiplos de trs mil e dezoito como h nmeros - sem excluir destes o trs

mil e dezoito e

seus mltiplos.

Ao 1 corresponde o 3.O18

Ao 2 corresponde o 6.O36 Ao 3 corresponde o 9.O54

Ao 4 corresponde o 12.O72, etc.

Cabe afirmar o mesmo de suas potncias, por mais que estas se ratifiquem medida que progredirmos.

Ao 1 corresponde o 3.O18

Ao 2 corresponde o 3.O182, ou seja, 9.1O8.324 Ao 3, etc.

Uma genial aceitao desses fatos inspirou a frmula de que uma coleo infinita - por exemplo, a srie natural de nmeros inteiros - uma coleo cujos elementos

podem desdobrar-se, por sua vez, em sries infinitas. (Ou melhor, para eludir qualquer ambigidade: conjunto infinito aquele conjunto que pode equivaler a um de

seus conjuntos parciais.) A parte, nessas elevadas latitudes da numerao, no menos abundante que o todo: a quantidade precisa de pontos que h no universo

a que existe em um metro, ou em um decmetro, ou na mais profunda trajetria estelar. A srie dos nmeros naturais est bem ordenada: quer dizer, os termos que a

formam so consecutivos; O28 precede o 29 e segue o 27. A srie dos pontos do espao (ou dos instantes do tempo) no assim ordenvel; nenhum nmero tem sucessor

ou predecessor imediato. como a srie dos fracionados segundo a magnitude. Que frao enumeraremos depois de 1 /2? No 51 / 1OO, porque 1O1 /2OO est mais prxima;

no 1O1 /2OO porque mais prxima 2O1 /4OO; no 2O1 /4OO porque mais prxima... O mesmo acontece com os pontos, segundo Georg Cantor. Podemos sempre intercalar

mais outros, em,.~amero infinito. Contudo, devemos procurar no

,~-~

conceber grandezas decrescentes. Cada ponto " la" o fina

de uma infinita subdiviso.

427

HISTRIA DA ETEIZNIDAUE

O atrito do belo jogo de Cantor com o belo jogo de Zaratustra mortal para este ltimo. Se o universo consta de um nmero infinito de termos, rigorosamente capaz

de um nmero infinito de combinaes - e a necessidade de um Regresso fica vencida. Resta sua mera possibilidade, com

putvel em zero.

II

Escreve Nietzsche, por volta do outono de 1883: "Esta

lenta aranha arrastando-se luz da lua, e esta mesma luz da

lua, e tu e eu cochichando no porto, cochichando sobre coisas

eternas, j no coincidimos no passado? E no voltaremos a

percorrer o longo caminho, esse longo e terrvel caminho, no

voltaremos a percorr-lo eternamente? Assim falava eu, e

sempre com voz mais baixa, porque temia meus pensamentos

e os que por trs deles se ocultavam". Escreve Eudemo, parafraseador de Aristteles, uns trs sculos antes da paixo e morte de Cristo: "A acreditar nos pitagricos,

as mesmas coisas voltaro pontualmente e estarei comigo outra vez e eu repetirei esta doutrina e minha mo brincar com este basto, e assim por diant". Na cosmogonia

dos esticos, Zeus se alimenta do mundo: o universo consumido ciclicamente pelo fogo que o gerou e ressurge da destruio para repetir uma histria idntica. Novamente

se combinam as diferentes partculas seminais, novamente daro forma a pedras, rvores e homens - e at virtudes e dias, j que para os gregos era impossvel um

nome substantivo sem alguma corporeidade. Novamente cada espada e cada heri, novamente cada minuciosa noite de insnia.

Como as outras conjeturas da escola do Prtico, essa da repetio geral propagou-se pelos tempos, e seu nome tcnico, apokatastasis, entrou nos Evangelhos (Atos

dos Apstolos III, 21), embora com inteno indeterminada. O livro XII da G~itas Dei de Santo Agostinho dedica vrios captulos a refutar to abominvel doutrina.

Esses captulos (que tenho vista) so emaranhados demais para um resumo, mas a fria episcopal de seu autor parece preferir dois motivos: um, a pomposa inutilidade

dessa roda; outro, a irriso de que o Logos morra

A DOUT2INA DOS CICLOS

na cruz como um acrobata em sesses interminveis. As despedidas e o suicdio perdem sua dignidade quando repetidos; Santo Agostinho devia pensar o mesmo da Crucificao.

Por isso repelira com escndalo o parecer dos esticos e pitagricos. Estes argiam que a cincia de Deus no pode compreender coisas infinitas e que essa eterna

rotao do processo mundial serve para que Deus o v aprendendo e se familiarize com ele; Santo Agostinho zomba de suas vs revolues e afirma que Jesus o caminho

reto que nos permite fugir do labirinto circular de tais enganos.

Naquele captulo de sua Lgica que trata da lei da causalidade, John Stuart Mill declara que concebvel - mas no verdadeira - uma repetio peridica da histria,

e cita a "cloga messinica" de Virglio:

Jam redit et virgo, redeunt Saturnia regna..."

Nietzsche, helenista, pde acaso ignorar esses "precursores"? Nietzsche, o autor dos fragmentos sobre os prsocrticos, pde desconhecer uma doutrina que os discpulos

de Pitgoras aprenderam?~ muito difcil acreditar - e intil. verdade que Nietzsche indicou, em pgina memorvel, o lugar exato em que a idia de um eterno retorno

lhe ocorreu: uma vereda nos bosques de Silvaplana, perto de um vasto bloco piramidal, em um meio-dia de agosto de 1881 - "a seis mil ps do homem e do tempo".

verdade que esse instante uma das glrias de Nietzsche. "Imortal o instant", deixar escrito, "em que criei o eterno regresso. Por esse instante suporto o Regresso"

(Unschuld des Werdens, II, 13O8). Sou de opinio, todavia, de que no devemos postular uma surpreendente ignorncia, nem tampouco uma confuso humana demasiado humana,

entre a inspirao e a lembrana, nem tampouco um delito de vaidade. Minha chave de carter gramatical, direi quase sinttico. Nietzsche sabia que o Eterno Retorno

das fbulas ou medos ou diverses que voltam eternamente, mas tambm sabia que a mais eficaz das

1 "J volta a em, e volta o reinado de Saturno..." (N. da TJ

2 Esta perplexidade infil. Nietzsche, em 1874, zombou da tese pitagrica de que a histria se repete ciclicamente (Vom Nutzen und Nnchteil der Historie). (Nota

de 1953.)

428

429

Htsrain DA ETERNIDADE

pessoas gramaticais a primeira. Para um profeta, cabe assegurar que seja a nica. Derivar sua revelao de um eptome, ou da Historia Philosophiae Graeco-Romanae

dos professores suplentes Ritter e Preller, era impossvel para Zaratustra, por questes de palavra e anacronismo - quando no tipogrficas. O estilo proftico no

permite o emprego das aspas nem a erudita citao de livros e autores...

Se minha carne humana assimila a carne brutal das ovelhas, quem impedir que a mente humana assimile estados mentais humanos? De muito repens-lo e padec-lo, o

eterno regresso das coisas j de Nietzsche e no de um morto que apenas um nome grego. No insistirei: Miguel de Unamuno tem sua pgina sobre essa perfilhao

dos pensamentos.

Nietzsche queria homens capazes de agentar a imortalidade. Digo-o com palavras que esto em seus cadernos pessoais, no Nachlass, onde tambm gravou estas outras:

"Se te afiguras uma longa paz antes de renascer, juro-te que pensas mal. Entre o ltimo instante da conscincia e o primeiro resplendor de uma vida nova h "nenhum

temp - o prazo dura o mesmo que um raio, ainda que no bastem para medi-lo bilhes de anos. Se falta um eu, a infinidade pode equivaler sucesso".

Antes de Nietzsche, a imortalidade pessoal era mero equvoco das esperanas, um projeto confuso. Nietzsche a prope como um dever e lhe confere a lucidez atroz de

uma insnia. "O no dormir (leio no antigo tratado de Robert Burton) crucifica demais os melanclicos", e nos consta que Nietzsche padeceu essa cruz e teve de procurar

salvao no amargo hidrato de cloral. Nietzsche queria ser Walt Whitman, queria apaixonar-se por seu destino nos mnimos detalhes. Seguiu um mtodo herico: desenterrou

a intolervel hiptese grega da eterna repetio e tentou eduzir desse pesadelo mental uma ocasio de jbilo. Procurou a idia mais horrvel do universo e a props

ao deleite dos homens. O otimista vacilante costuma imaginar que nietzschiano; Nietzsche o enfrenta com os crculos do eterno regresso e assim o cospe de sua boca.

Escreveu Nietzsche: "No ansiar por distantes venturas, favores e bnos, mas viver de modo a que queiramos voltar a viver, e assim por toda a eternidade". Mauthner

objeta que atribuir a menor influncia moral, isto , prtica, tese do eterno retorno negar a tese - pois equivale a imaginar que

43O

A DOUTRINA DOS CICLOS

algo pode acontecer de outro modo. Nietzsche responderia que a formulao do eterno regresso e sua larga influncia moral (isto , prtica) e as cavilaes de Mauthner

e sua refutao s cavilaes de Mauthner so outros tantos momentos necessrios da histria mundial, obra das agitaes atmicas. De direito, poderia repetir o

que j deixou escrito: "Basta que a doutrina da repetio circular seja provvel ou possvel. A imagem de uma simples possibilidade pode nos abalar e nos recompor.

Quanto efeito no produziu a possibilidade do castigo eterno!" E em outro lugar: "No instante em que se apresenta essa idia, variam todas as cores - e h outra

histria".

IIT

A sensao "de j ter vivido esse moment" por vezes nos

deixa pensativos. Os partidrios do eterno regresso nos juram

que assim e buscam corroborao de sua f nesses estados de

perplexidade. Esquecem que a lembrana implicaria uma

novidade que a negao da tese e que o tempo a iria aper

feioando - at o ciclo distante em que o indivduo j prev

seu destino e prefere agir de outro modo... Nietzsche, alm

disso, nunca falou de confirmao mnemnica do Regresso."

Tampouco falou - e isso tambm merece destaque - da

finitude dos tomos. Nietzsche nega os tomos; a atomstica

no lhe parecia seno um modelo do mundo, feito exclusiva

mente para os olhos e para o entendimento aritmtico... Para

fundamentar sua tese, falou de uma fora limitada, desenvol

vendo-se no tempo infinito, mas incapaz de um nmero ilimi

3 Sobre essa aparente confirmao, escreve Nstor Ibarra:

"Il arrive aussi que quelque perception nouvelle nous frappe comme un souvenir, que nous croyons reconnatre des objets ou des accidents que nous sommes pourtant

sGrs de rencontrer pour la premire fois. J"imagine q il s"agit ici d"un curieux comportement de notre mmoire. Une perception quelconque s"effectue d"abord, mais

soas le scniil du conscient. Un instant aprs, les excitations agissent, mais cette fois nous les recevons dans le conscient. Notre mmoire est dclanche, et nous

offre bien le sentiment du "dj vu"; mais elle localise mal ce rappel. Pour en justifier la faiblesse et le trouble, nous lui supposons un considrable recul dans

le temps; peut-tre le renvoyons-nou~p"lus loin de nous encore, dans le rdoublement de quelque vie antrieure. Il s"agit en ralit d"un pass inmdiat; et 1"abime

qui nous en spare est celui de notre distractio".

431

HISTRIA DA ETERNIDADE

A DOUTRINA DOS CICLOS

tado de variaes. No agiu sem perfdia: primeiro nos adverte contra a idia de uma fora infinita - "Cuidemo-nos de tais orgias do pensamento!" - e logo, generosamente,

admite que o tempo infinito. Agrada-lhe tambm recorrer Eternidade Anterior. Por exemplo: um equilbrio da fora csmica impossvel, pois se no fosse, j

teria ocorrido na Eternidade Anterior. Ou seno: a histria universal sucedeuse um nmero infinito de vezes - na Eternidade Anterior. A invocao parece vlida,

mas convm repetir que essa Eternidade Anterior (ou aeternitas a parte ante, segundo lhe disseram os telogos) no seno a nossa incapacidade natural de conceber

princpio ao tempo. Sofremos da mesma incapacidade no que se refere ao espao, de modo que invocar uma Eternidade Anterior to decisivo como invocar uma Infinidade

Mo Direita. Vou diz-lo com outras palavras: se o tempo infinito para a intuio, o espao tambm o . Nada tem que ver essa Eternidade Anterior com o tempo

real decorrido; retrocedamos ao primeiro segundo e veremos que este requer um predecessor, e esse predecessor mais outro, e assim infinitamente. Para estancar esse

regressus in infinitum, Santo Agostinho resolve que o primeiro segundo do tempo coincide com o primeiro segundo da Criao - "non in tempore sed cum tempore incepit

creatio".~

Nietzsche recorre energia; a segunda lei da termodinomica afirma haver processos energticos que so irreversveis. O calor e a luz no passam de formas da energia.

Basta projetar luz sobre uma superfcie negra para que se converta em calor. O calor, por sua vez, j no voltar forma de luz. Essa comprovao, de aspecto inofensivo

ou inspido, anula o "labirinto circular" do Eterno Retorno.

A primeira lei da termodinomica diz que a energia do universo constante; a segunda, que essa energia tende incomunicao, desordem, ainda que a quantidade

total no decresa. Essa gradual desintegrao das foras que compem o universo a entropia. Uma vez igualadas as diversas temperaturas, uma vez excluda (ou compensada)

toda ao de um corpo sobre outro, o mundo ser um fortuito encontro de tomos. No centro profundo das estrelas, esse difcil e mortal equilbrio foi alcana

4 "No no tempo mas com o tempo comeou a criao." (N. da T)

do. custa de intercmbios, o universo inteiro o alcanar e estar tpido e morto.

A luz se vai perdendo em calor; o universo, minuto por minuto, faz-se invisvel. Faz-se mais leve, tambm. Um dia, j no ser seno calor: calor equilibrado, imvel,

igual. Ento ter morrido.

Uma incerteza final, desta vez de ordem metafsica. Aceita a tese de Zaratustra, no chego a entender como dois processos idnticos deixam de se aglomerar em um.

Basta a mera sucesso, no verificada por ningum? falta de um arcanjo especial que faa o cmputo, o que significa o fato de que atravessamos o ciclo treze mil

quinhentos e catorze, e no Oprimeiro da srie ou o nmero trezentos e vinte e dois com o expoente dois mil? Nada, para a prtica - o que no causa danos ao pensador.

Nada, para a inteligncia - o que j grave.

Salto Oriental, 1934.

Entre os livros consultados para o artigo anterior, devo mencionar os seguintes:

Die Unschuld des Werdens, von Friedrich Nietzsche. Leipzig, 1931.

Also sprach Zarathustra, von Friedrich Nietzsche. Leipzig, 1892. hrtrodttction to Nlathernatical Philosophy, by Bertrand Russell. London, 1919. The A B C of Atorns,

by Bertrand Russell. London, 1927.

The Nnture of t}re Physicnl World, by A. S. Eddington. London, 1928. Die Philosophie der Griedten, von Dr. Paul Deussen. Leipzig, 1919. Wrterbuch der Philosophie,

von Fritz Mauthner. Leipzig, 1923.

La Ciudnd de Dios, por San Agustn. Versin de Daz de Beyral. Madrid, 1922.

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433

O TEMPO CIRCULAR

O TEMPO CIRCULAR

Costumo regressar eternamente ao Eterno Regresso; procurarei nestas linhas (com o auxlio de algumas ilustraes histricas) definir seus trs modos fundamentais.

O primeiro foi atribudo a Plato. Este, no trigsimo nono pargrafo do Timeu, afirma que os sete planetas, equilibradas suas diversas velocidades, voltaro ao ponto

inicial de partida: revoluo que constitui o ano perfeito. Ccero (Da Natureza dos Deuses, livro II) admite que no fcil o cmputo desse vasto perodo celestial,

mas que certamente no se trata de prazo ilimitado; em uma de suas obras perdidas, atribui-lhe doze mil novecentos e cinqenta e quatro "dos que ns chamamos anos"

(Tcito: Dilogo dos Oradores,l). Morto Plato, a astrologia judiciria propagou-se em Atenas. Essa cincia, como todos sabem, afirma ser o destino dos homens regido

pela posio dos astros. Um astrlogo que no havia examinado em vo o Timeu formulou este argumento irrepreensvel: se os perodos planetrios so cclicos, tambm

o ser a histria universal; ao fim de cada ano platnico renascero os mesmos indivduos e cumpriro o mesmo destino. O tempo atribuiu a Plato essa conjetura.

Em 1616, escreveu Luclio Vanini: "Novamente Aquiles ir a Tria; renascero as cerimnias e religies; a histria humana se repete; nada h hoje que no tenha sido;

o que foi ser; mas tudo isso em geral, no (como determina Plato) em particular" (De Admirandis Naturae Arcanis, dilogo 52). Em 1643, Thomas Browne declarou,

numa das notas do primeiro livro da Religio Medici: "Ano de Plato - Plat s year - um curso de sculos depois do qual todas as coisas recuperaro seu estado anterior

e Plato, em sua escola, novamente explicar esta doutrina". Neste primeiro modo de conceber o eterno regresso o argumento astrolgico.

O segundo est vinculado glria de Nietzsche, seu mais pattico inventor ou divulgador. Um princpio algbrico o justifica: a observao de que um nmero n de

objetos - tomos na hiptese de Le Bon, foras na de Nietzsche, corpos simples na do comunista Blanqui - incapaz de um nmero infinito de variaes. Das trs doutrinas

que enumerei, a mais bem fundamentada e a mais complexa a de Blanqui. Este, como Demcrito (Ccero: Questes Acadmicas, livro segundo, 4O), abarrota de mundos

fac-similares e mundos dessemelhantes no s o tempo como tambm o espao interminvel. Seu livro tem o belo ttulo L"Eternit par les Astres; de 1872. Muito anterior

uma lacnica mas suficiente passagem de David Hume; consta nos Dialogues Concerning Natural Religion (1779) que Schopenhauer se props traduzir; que eu saiba,

ningum lhe deu destaque at agora. Traduzo-a literalmente: "No imaginemos a matria infinita, como fez Epicuro; imaginemo-la finita. Um nmero finito de partculas

no suscetvel de transposies infinitas; numa durao eterna, todas as ordens e colocaes possveis ocorrero um nmero infinito de vezes. Este mundo, com todos

os seus detalhes, at os mais minsculos, foi elaborado e destrudo, e ser elaborado e destrudo: infinitamente" (Dialogues, VIII).

Observa Bertrand Russell sobre esta srie contnua de histrias universais idnticas: "Muitos escritores opinam que a histria cclica, que o estado atual do mundo,

com seus pormenores mais nfimos, cedo ou tarde voltar. Como se formula essa hiptese? Diremos que o estado posterior numericamente idntico ao anterior; no

podemos dizer que esse estado ocorre duas vezes, pois isso postularia um sistema cronolgico - since that would imply a system of dating - que a hiptese nos probe.

O caso equivaleria ao de um homem que d a volta ao mundo: no diz que o ponto de partida e o de chegada so dois lugares diferentes mas muito parecidos; diz que

so o mesmo lugar. A hiptese de que a histria seja cclica pode ser enunciada desta maneira: formemos o conjunto de todas as circunstncias contemporneas de uma

circunstncia determinada; em certos casos, todo o conjunto precede a si mesmo.~n Inquiry finto Meaning and Truth, 194O, p. 1O2).

Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repeties: o menos pavoroso e melodramtico, mas tambm

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435

HISTORIA DA ETERNIDADE

o nico imaginvel. Quero dizer a concepo de ciclos semelhantes, no idnticos. Impossvel formar o catlogo infinito de autoridades: penso nos dias e nas noites

de Brahma; nos perodos cujo imvel relgio uma pirmide, desgastada muito lentamente pela asa de um pssaro, que roa nela a cada mil e um anos; nos homens de

Hesodo, que degeneram do ouro ao ferro; no mundo de Herclito, gerado pelo fogo e que ciclicamente devora o fogo; no mundo de Sneca e de Crisipo, em sua destruio

pelo fogo, em sua renovao pela gua; na quarta buclica de Virglio e no esplndido eco de Shelley; no Eclesiastes; nos tesofos; na histria decimal que Condorcet

idealizou, em Francis Bacon e em Uspenski; em Gerald Heard, em Spengler e em Vico; em Schopenhauer, em Emerson; nos First Principies de Spencer e em Eureka de Poe...

Dentre tal profuso de testemunhos basta-me copiar um, de Marco Aurlio: "Ainda que os anos de tua vida sejam trs mil ou dez vezes trs mil, lembra-te de que ningum

perde outra vida seno a que vive agora, nem vive outra seno a que perde. O prazo mais longo e o mais breve so, portanto, iguais. O presente de todos; morrer

perder o presente, que um lapso brevssimo. Ningum perde o passado nem o futuro, pois a ningum podem tirar o que no tem. Lembra-te de que todas as coisas

giram e voltam a girar pelas mesmas rbitas e que para o espectador indiferente v-ias um sculo ou dois ou infinitament" (Reflexes, 14).

Se lermos com um pouco de seriedade as linhas anteriores (id est, se resolvermos no julg-ias mera exortao ou moralidade), veremos que expem, ou pressupem,

duas idias curiosas. A primeira: negar a realidade do passado e do futuro. E enunciada por esta passagem de Schopenhauer: "A forma de aparecimento da vontade

s o presente, no o passado nem o futuro: estes s existem para o conceito e pelo encadeamento da conscincia, submetida ao princpio da razo. Ningum viveu no

passado, ningum viver no futuro; o presente a forma de toda vida" (O Mundo como Vontade e Representao, primeiro tomo, 54). A segunda: negar, como o Eclesiastes,

qualquer novidade. A conjetura de que todas as experincias do homem so (de algum modo) anlogas pode, primeira vista, parecer simples empobrecimento do mundo.

436

O TE`vIPO CIKCULAR

Se os destinos de Edgar Allan Poe, dos z~ikings, de Judas Iscariotes e de meu leitor secretamente so o mesmo destino - o nico destino possvel -, a histria universal

a de um nico homem. A rigor, Marco Aurlio no nos impe essa simplificao enigmtica. (Imaginei h tempos um conto fantstico, maneira de Lon Bloy: um telogo

consagra toda a sua vida a confutar um heresiarca; vence-o em complicadas polmicas, denuncia-o, manda-o fogueira; no Cu descobre que para Deus o heresiarca e

ele formam uma nica pessoa) Marco Aurlio atesta a analogia, no a identidade, dos muitos destinos individuais. Afirma que qualquer lapso - um sculo, um ano, uma

nica noite, talvez o inapreensvel presente - contm integralmente a histria. Em sua forma extrema essa conjetura fcil de ser refutada: um sabor difere de outro

sabor, dez minutos de dor fsica no equivalem a dez minutos de lgebra. Aplicada a grandes perodos, aos setenta anos de idade que o Livro dos Salmos nos atribui,

a conjetura verossmil ou tolervel Limita-se a declarar que o nmero de percepes, de emoes, de pensamentos, de vicissitudes humanas, limitado, e que antes

da morte o esgotaremos. Repete Marco Aurlio: "Quem viu o presente viu todas as coisas: as que aconteceram no passado insondvel, as que acontecero no futuro" (Reflexes,

livro VI, 37).

Em pocas de apogeu, a conjetura de que a existncia do homem uma quantidade constante, invarivel, pode entristecer ou irritar: em tempos de decadncia (como

estes), a promessa de que nenhuma afronta, nenhuma calamidade, nenhum ditador nos poder empobrecer.

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OS TRADUTORES DAS M1L E UMA NOfTFS

o ni~ lha~ ~ ~ ~

~ES DAS MIL E UMA NOITES

1. O CAPITO BURTON

Em Trieste, no ano de 1872, num palcio com esttuas

midas e instalaes sanitrias deficientes, um cavalheiro com

o rosto marcado por uma cicatriz africana - o capito Richard

Francis Burton, cnsul ingls - comeou uma famosa traduo

do Quitab Alif Laila Ua Laila, livro que tambm os rumes

chamam das Mil e Uma Noites. Um dos objetivos secretos de

seu trabalho era aniquilar outro cavalheiro (tambm de barba tenebrosa de mouro, tambm de pele curtida) que estava compilando na Inglaterra um vasto dicionrio

e que morreu muito antes de ser aniquilado por Burton. Esse era Eduardo Lane, o orientalista, autor de uma verso excessivamente escrupulosa das Mil e Uma Noites,

que havia suplantado outra de Galland. Lane traduziu contra Galland, Burton contra Lane; para entender Burton preciso entender essa dinastia inimiga.

Comeo pelo fundador. Sabe-se que Jean Antoine Galland era um arabista francs que trouxe de Istambul uma paciente coleo de moedas, uma monografia sobre a difuso

do caf, um exemplar arbico das Noites e uma maronita suplementar, de memria no menos inspirada que a de Scherazade. A esse obscuro assessor - de cujo nome no

quero esquecer, e dizem que Hanna - devemos certos contos fundamentais, que o original desconhece: o de Aladim, o dos Quarenta Ladres, o do prncipe Ahmed e a

fada Peri Banu, o de Abulhasan, o adormecido acordado, o da aventura noturna de Harun Al Rashid, o das duas irms invejosas da irm caula. Basta a simples enumerao

desses nomes para deixar claro que Galland estabelece um cnone, incorporando histrias que o tempo tornar indispensveis e que os tradutores vindouros - seus inimigos

- no se atreveriam a omitir.

H outro fato inegvel. Os elogios mais oportunos e famosos das Mil e Uma Noites - o de Coleridge, o de Thomas de Quincey, o de Stendhal, o de Tennyson, o de Edgar

Allan Poe, o de Newman - so de leitores da traduo de Galland. Duzentos anos e dez tradues melhores se passaram, mas o homem da Europa ou das Amricas que pensa

nas Mil e Uma Noites pensa invariavelmente nessa primeira traduo. O epteto [em espanhol] milyunanochesco (milyunanochero padece de crioulismo, milyunanocturno

de divergncia) nada tem a ver com as eruditas obscenidades de Burton ou de Mardrus, e tudo tem a ver com as preciosidades e as magias de Antoine Galland.

Palavra por palavra, a verso de Galland a mais mal escrita de todas, a mais mentirosa e mais fraca, mas foi a mais bem lida. Quem nela se embebeu conheceu a felicidade

e o assombro. Seu orientalismo, que hoje nos parece frugal, deslumbrou a todos quantos aspiravam rap e tramavam uma tragdia em cinco atos. Doze volumes primorosos

apareceram de 17O7 a 1717, doze volumes lidos por incontveis leitores e que passaram a vrios idiomas, inclusive o hindustani e o rabe. Ns, meros leitores anacrnicos

do sculo XX, percebemos neles o gosto adocidado do sculo XVIII e no o soberbo aroma oriental, que h duzentos anos determinou sua inovao e sua glria. Ningum

tem a culpa do desencontro e, menos que ningum, Galland. s vezes, as mudanas da lngua o prejudicam. No prefcio de uma traduo alem das Mil e Uma Noites, o

doutor Weil deixou patente que os mercadores do imperdovel Galland se munem de uma "maleta com tmaras", cada vez que a histria os obriga a cruzar o deserto. Poderamos

argumentar que, por volta de 171O, bastava mencionar as tmaras para apagar a imagem da maleta, mas desnecessria valise, ento, era uma subclasse de alforje.

H outras agresses. Em certo panegrico desastrado que sobrevive nos Morceaux Choisis, de 1921, Andr Gide vitupera contra as licenciosidades de Antoine Galland,

para melhor apagar (com candura totalmente superior a sua reputao) a literalidade de Mardrus, to fin-de-sicle quanto aquele sculo XVIII, e muito ma,~.infiel.

- As restries de Galland so mundanas - inspiradas pelo decoro, no pela moral. Transcrevo umas linhas da terceira

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HISTRIA DA ETERNIDADE

pgina de suas Noites: "71 alla droit I"appartement de cette

prineesse, qni, ne s"attendant pas le revoir, avait reu dons son lit un

eles dernires officiers de sa maison". Burton concretiza esse nebu

loso "of ficier": "um negro cozinheiro, ranoso de gordura de

cozinha e de fuligem". Ambos deformam, de maneiras dife

rentes: o original menos cerimonioso que Galland e menos

ensebado que Burton. (Efeitos do decoro: na prosa comedida

daquele, a circunstncia reeevoir dans son lit torna-se brutal.)

Noventa anos aps a morte de Antoine Galland, nasce um tradutor diferente das Noites: Eduardo Lane. Seus bigrafos no cessam de repetir que filho do doutor Theophilus

Lane, prebendado de Hereford. Esse dado gensico (e a terrvel Forma que evoca) talvez seja suficiente. Cinco diligentes anos viveu o arabizado Lane no Cairo, "quase

exclusivamente entre muulmanos, falando e escutando sua lngua, conformando-se a seus costumes com o mais perfeito cuidado e recebido por todos eles como igual".

Contudo, nem as altas noites egpcias, nem o opulento e negro caf com semente de cardamomo, nem a freqente discusso literria com os doutores da lei, nem o venerado

turbante de musselina, nem o comer com os dedos, fizeram-no esquecer seu pudor britnico, a delicada solido central dos senhores do mundo. Da que sua verso eruditssima

das Noites seja (ou parea ser) uma simples enciclopdia da evaso. O original no declaradamente obsceno; Galland corrige as ocasionais baixezas, por consider-las

de mau gosto. Lane as procura com ateno e as persegue como um inquisidor. Sua probidade no pactua com o silncio: prefere um alarmado coro de notas em letra mida,

que murmura coisas como estas: "Passo por alto um episdio dos mais repreensveis", "Suprimo uma explicao repugnante", "Aqui uma linha grosseira demais para ser

traduzida", "Suprimo necessariamente outro episdio", "Daqui por diante dou curso s omisses", "Aqui a histria do escravo Bujait, totalmente incapaz de ser traduzida".

A mutilao no exclui a morte: h contos rejeitados na ntegra, "porque no podem ser purificados sem destruio". Esse repdio responsvel e total no me parece

ilgico: o que condeno o subterfgio puritano. Lane um virtuoso do subterfgio, um precursor incontestvel dos pudores mais estranhos de Hollywood. Meus apontamentos

OS TRADUTORES DAS MIL E UMA NOITE"S

me fornecem um par de exemplos. Na noite 391, um pescador mostra um peixe ao rei dos reis, e este quer saber se macho ou fmea e lhe dizem que hermafrodita.

Lane consegue amenizar esse colquio improcedente, traduzindo que o rei perguntou de que espcie o animal e que o astuto pescador lhe responde que de uma espcie

mista. Na noite 217, fala-se de um rei com duas mulheres, que dormia uma noite com a primeira e a noite seguinte com a segunda, e assim foram felizes. Lane esclarece

a felicidade desse monarca, dizendo que tratava suas mulheres "com imparcialidade..." Uma razo que destinava sua obra " mesinha da sala", centro da leitura sem

sobressaltos e da conversa recatada.

A mais oblqua e passageira aluso carnal suficiente para que Lane esquea sua honra e se torne abundante em contores e ocultaes. No h outra falta nele.

Sem o contato peculiar dessa tentao, Lane de uma veracidade admirvel. Faltam-lhe propsitos, o que positivamente uma vantagem. No se prope destacar o colorido

brbaro das Noites como o capito Burton, nem tampouco esquec-lo e atenu-lo, como Galland. Este domesticava seus rabes, para que no destoassem irremediavelmente

em Paris; Lane minuciosamente agareno. Galland ignorava toda preciso literal; Lane justifica sua interpretao de cada palavra duvidosa. Galland invocava um manuscrito

invisvel e um maronita morto; Lane fornece a edio e a pgina. Galland no se preocupava com anotaes; Lane acumula um caos de esclarecimentos que, organizados,

integram um volume independente. Diferir: tal a norma imposta a ele por seu precursor. Lane cumprir essa norma: bastar que no abrevie o original.

A bela discusso de Newman e Arnold (1861-1862), mais memorvel que seus dois interlocutores, documentou extensamente as duas formas gerais de traduzir. Newman defendeu

nela o modo literal, a reteno de todas as singularidades verbais; Arnold, a severa eliminao dos detalhes que distraem ou fazem com que se pare. Esta conduta

pode proporcionar os prazeres da uniformidade e da gravidade; aquela, dos contnuos e pequenos assombros. Ambas so menos irsYprtantes que o tradutor e que seus

hbitos literrios. Traduzir o esprito uma inteno to enorme e to

44O

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fi1STRIA DA ETERNIDADE

OS TRADUTORES DAS M11 E UMA NOITE"S

quimrica que bem pode acabar sendo inofensiva; traduzir

ao p da letra, uma preciso to extravagante que no h

perigo de que tentem faz-la. Mais grave que esses infinitos

propsitos a conservao ou supresso de certos pormenores; mais grave due essas preferncias e esquecimentos o movimento sinttico. O de Lane ameno, como

convm distinta mesinha. Em seu vocabulrio comum censurar-se um excesso de palavras latinas, no resgatadas por nenhum artifcio de brevidade. distrado:

na pgina inicial de sua traduo pe o adjetivo romntico, o que uma espcie de futurismo, numa boca muulmana e barbada do sculo XII. Por vezes, a falta de

sensibilidade lhe propcia, pois lhe permite a interpolao de palavras muito simples num pargrafo nobre, com involuntrio sucesso. O exemplo mais rico dessa

cooperao de palavras heterogneas deve ser este que transcrevo: "And in this palace is the last information respecting lords collected in the dust". Outro pode

ser esta invocao: "Pelo Vivente que no morre nem h de morrer, pelo nome d"Aquele a quem pertencem a glria e a permanncia". Na obra de Burton - ocasional precursor

do sempre fabuloso Mardrus - eu suspeitaria de frmulas to satisfatoriamente orientais; em Lane so to escassas que devo sup-las involuntrias, portanto genunas.

O escandaloso decoro das verses de Galland e de Lane provocou um tipo de fraude que tradicional repetir. Eu mesmo no faltei a essa tradio. Sabe-se muito bem

que no foram fiis ao desventurado que viu a Noite do Poder, s imprecaes de um lixeiro do sculo XIII enganado por um dervixe e aos hbitos de Sodoma. Sabe-se

muito bem que desinfetaram as Noites.

Os detratores argumentam que esse processo destri ou danifica a ingenuidade do original. Cometem um erro: o Livro das Mil Noites e Uma Noite no (moralmente)

ingnuo; uma adaptao de antigas histrias ao gosto aplebeado, ou grosseiro, das classes mdias do Cairo. Salvo nos contos exemplares do Sendebar, os impudores

das Mil e Uma Noites nada tm a ver com a liberdade do estado paradisaco. So especulaes do editor: seu objetivo uma gargalhada, seus heris nunca passam de

malandros, de mendigos ou eunucos. As antigas histrias amorosas do repertrio, as que narram casos

do Deserto ou das cidades da Arbia, no so obscenas, como no o nenhuma produo da literatura pr-islmica. So apaixonadas e tristes e um dos temas que preferem

a morte por amor, essa morte declarada por um parecer dos ulems no menos santa que a do mrtir que testemunha a f... Se aprovamos esse argumento, os acanhamentos

de Galland e de Lane podem nos parecer a recuperao de uma redao primitiva.

Sei de outro argumento melhor. Evitar as situaes erticas do original no uma culpa das que o Senhor no perdoa, quando o fundamental destacar o ambiente mgico.

Propor aos homens um novo Decameron uma operao comercial como tantas outras: propor-lhes um Ancient Mariner ou um Bateau Ivre j merece outra recompensa.

Littmann observa que as Mil e Uma Noites so, antes de tudo, um repertrio de maravilhas. A imposio universal desse parecer em todas as - mentes ocidentais obra

de Galland. Que no haja dvidas quanto a isso. Menos felizes que ns, os rabes dizem ter em pouca conta o original: j conhecem os homens, os costumes, os talisms,

os desertos e os demnios que essas histrias nos revelam.

Nalgum ponto de sua obra, Rafael Cansinos-Assns jura poder saudar as estrelas em catorze idiomas clssicos e modernos. Burton sonhava em dezessete idiomas e conta

que dominou trinta e cinco: semitas, dravdicos, indo-europeus, etipicos... Esse caudal no esgotava sua definio: um trao que concorda com os demais, igualmente

excessivos. Ningum menos sujeito repetida zombaria de Hudibras contra os doutores capazes de no dizer absolutamente nada em vrios idiomas: Burton era um homem

que tinha muitssimo a dizer, e os setenta e dois volumes de sua obra continuam a diz-lo. Destaco alguns ttulos ao acaso: Goa e as Montanhas Azuis, 1851; Sistema

de Exerccios de Baioneta, 1853; Relato Pessoal de uma Peregrinao a Medina, 1855; As Regies Lacustres da frica Equatorial, 186O; A Cidade dos Santos, 1861; Viagem

aos Planaltos do Brasil, 1869; Sobre um Hermafrodita das Ilhas de Cabo Verde, 1869; Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai, 187O; ltima emule ou um Vero na Islndin,

1875; Costa do Ouro em Busca de Ouro, 1883; O Livro da Espada (primeiro volume), 1884;

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HISTRIA llA ETERNIDADE

OS TRADUTORES DAS MIL E UMA NOITES

O Jardim Perfumado de Nafzau - obra pstuma, queimada por

Lady Burton, assim como uma Coletnea de Epigramas Inspira

dos por Prapo. O escritor se deixa transparecer nesse catlogo: o capito ingls que tinha a paixo da geografia e das inumerveis maneiras que os homens conhecem

de ser homem. No difamarei sua memria comparando-o a Morand, cavalheiro bilnge e sedentrio que sobe e desce infinitamente nos elevadores de um idntico hotel

internacional e que venera o espetculo de um ba... Burton, disfarado em afego, havia peregrinado s cidades santas da Arbia: sua voz tinha pedido ao Senhor

que negasse seus ossos e sua pele, sua dolorosa carne e seu sangue, ao Fogo da Ira e da Justia; sua boca, ressecada pelo simum, deixara um beijo no aerlito que

se adora na Caaba. Essa aventura clebre: o possvel rumor de que um incircunciso, um nazrani, estava profanando o santurio teria determinado sua morte. Antes,

em vestes de dervixe, exercera a medicina no Cairo - no sem mescl-la com a prestidigitao e a magia, para obter a confiana dos enfermos. Por volta de 1858, comandara

uma expedio s fontes secretas do Nilo: encargo que o levou a descobrir o lago Tanganica. Nessa misso foi acometido de febre alta; em 1855 os somalis atravessaram-lhe

os maxilares com uma lana (Burton vinha de Harrar, cidade vedada aos europeus, no interior da Abissnia). Nove anos depois, experimentou a terrvel hospitalidade

dos cerimoniosos canibais do Daom; ao voltar, no faltaram boatos (talvez propalados e certamente fomentados por ele) de que tinha "comido estranhas carnes" - como

O onvoro procnsul de Shakespeare." Os judeus, a democracia,

1 Refiro-me ao Marco Antnio invocado pela apstrofe de Csar:

.on the Afps

It c. reportetl, thou dulst ent strnii~c flesh Which some did ie to look mi...

Creio entrever nessas linhas algum reflexo invertido do mito zoolgico do basilisco, serpente de olhar mortal. Plnio (Fistria Nnhual, livro VIII, pargrafo 33)

nada nos diz das aptides pstumas desse ofdio, mas a conjuno das duas idias de olhar e morrer (vedi N~poli e poi mori) tem que haver infludo em Shakespeare.

O olhar do basilisco era venenoso; a Divindade, por sua vez, pode matar de puro esplendor-ou pura irradiao de nmna. A viso direta de Deus intolervel Moiss

cobre seu rosto no monte Horeb, yorgi~e tee~e medo de z~cr Deus; Hakim, profeta de Kurassan, usou um vu qudruplo de seda branca para no cegar os homens. Cf. tambm

Isaas 6, 5, e I Reis 19, 13.

o ministro das Relaes Exteriores e o cristianismo eram seus dios preferidos; Lord Byron e o Isl, suas veneraes. Do solitrio ofcio de escrever fizera algo

valoroso e plural: acometia-o desde o amanhecer, num vasto salo multiplicado por onze mesas, cada uma com material para um livro - e uma ou outra com um claro jasmim

num vaso com gua. Inspirou ilustres amizades e amores: das primeiras, basta-me mencionar a de Swinburne, que lhe dedicou a segunda srie de Poems and Ballads -

in recognition of a friendship which I must alu~ays count among the highest honours of my life - e que lamentou sua morte em muitas estrofes. Homem de palavras e

faanhas, bem pde Burton assumir o alarde do Div de Almotanabi:

O cavalo, o deserto, a noite me conhecem, D hspede e a espada, o papel e a pena.

Observa-se- que, do antropfago amateur ao poliglota adormecido, no evitei as caractersticas de Richard Burton que podemos chamar legendrias, sem que nosso entusiasmo

diminua. A razo clara: o Burton da lenda de Burton o tradutor das Noites. Suspeitei, certa feita, de que a diferena radical entre a poesia e a prosa est na

expectativa muito diversa de quem as l: a primeira pressupe uma intensidade que no se tolera na ltima. Algo parecido acontece com a obra de Burton: tem um prestgio

prvio com o qual nenhum arabista conseguiu competir. Possui os atrativos do proibido. Trata-se de uma nica edio, limitada a mil exemplares para mil subscritores

do Burton Club, e que h compromisso judicial de no repetir. (A reedio de Leonard C. Smithers "omite determinadas passagens de pssimo gosto, cuja eliminao

no ser lamentada por ningum"; a seleo representativa de Bennet Cerf - que finge ser integral - procede daquele texto purificado.) Arrisco a hiprbole: percorrer

as Mil e Lima Noites na traduo de Sir Richard no menos incrvel que percorr-las "vertidas literalmente do rabe e comentadas" por Simbad o Marujo.

Os problemas que Burton resolveu so inumerveis, mas uma conveniente fico pode reduzi-los a trs: justificar e ampliar s reputao de arabista; diferir ostensivamente

de Lane; interessar cavalheiros britnicos do sculo XIX pela ver

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HISTRIA DA ETERNIDADE

so escrita de contos muulmanos e orais do sculo XIII. O primeiro desses propsitos talvez fosse incompatvel com o terceiro; o segundo induziu-o a uma falta grave,

que passo a expor. Centenas de dsticos e canes figuram nas Noites; Lane (incapaz de mentir, salvo no que se refere carne) os havia traduzido com preciso, numa

prosa fcil. Burton era poeta: em 188O tinha mandado imprimir The Kasidah, rapsdia evolucionista que Lady Burton sempre julgou muito superior s Rubaiyat de FitzGerald...

A soluo "prosaica" do rival no deixou de indign-lo, e optou por uma traduo em versos ingleses - procedimento de antemo infeliz, j que transgredia sua prpria

norma de literalidade total. Alm do mais, o ouvido foi quase to ferido quanto a lgica. No impossvel que este quarteto seja dos melhores que armou:

A night whose stars refused to run their course, A night of those whieh never seem outworn: Like Resurrection-day, of longsome length To him that watehed and waited

for the morna

muito possvel que o pior no seja este:

A sun on wand in knoll of sand she showed, Clad in her cramoisy-hued chemisette: Of her lips" honey-dew she gave me drink And with her rosy cheeks quencht fite she

set.

Mencionei a diferena fundamental entre o primitivo auditrio das narrativas e o clube de subscritores de Burton. Aqueles eram pcaros, noveleiros, analfabetos,

infinitamente desconfiados do presente e crdulos na maravilha remota; estes eram senhores do West End, capacitados para o desdm e a erudio e no para o espanto

ou a gargalhada. Aqueles apreciavam que a baleia morresse ao escutar o grito do homem; estes, que houvesse homens que dessem crdito a

2 Tambm memorvel esta variante dos temas de Abulbeca de Ronda e Jorge Manrique:

Where is the u~ight zoho peopled in the pnst Hind-land ~nd Std; nnd there the tyrant played?...

Os TizAOUTOeES oAS Mis e UMa NoiTes

uma capacidade mortal desse grito. Os prodgios do texto - sem dvida suficientes no Cordofo ou em Bulak, onde os propunham como verdades - corriam o risco de parecer

muito pobres na Inglaterra. (Ningum exige da verdade que seja verossmil ou instantaneamente engenhosa: poucos leitores da Vida e Correspondncia de Karl Marx reclamam

indignados a simetria das Contrerimes de Toulet ou a severa preciso de um acrstico) Para que os subscritores no fugissem, Burton foi abundante em notas explicativas

"dos costumes dos homens islmicos". Cabe dizer que Lane j havia ocupado antes o terreno. Indumentria, regime cotidiano, prticas religiosas, arquitetura, referncias

histricas ou do Alcoro, jogos, artes, mitologia - isso j fora elucidado nos trs volumes do incmodo precursor. Faltava, previsivelmente, a ertica. Burton (cujo

primeiro ensaio estilstico fora um relato demasiado pessoal sobre os prostbulos de Bengala) era suficientemente atrevido para fazer tal acrscimo. Das deleitaes

morosas em que se deteve, bom exemplo certa nota arbitrria do stimo tomo, graciosamente intitulada no ndice capotes mlancoliques. A Ednburgh Review acusou-o

de escrever para o esgoto; a Enciclopdia Britnica resolveu que uma transcrio integral seria inadmissvel e que a de Eduardo Lane "continuava insuperada para

um uso realmente srio . No nos indignemos demais com essa obscura teoria da superioridade cientfica e documental do expurgo: Burton cortejava essas cleras. Alm

disso, as variantes muito pouco variadas do amor fsico no esgotam a ateno de seu comentrio. Este enciclopdico e covarde, e seu interesse est na razo inversa

de sua necessidade. Assim o volume 6 (que tenho vista) inclui umas trezentas notas, das quais cabe destacar as seguintes: uma condenao das prises e uma defesa

dos castigos corporais e das multas; alguns exemplos do respeito islmico pelo po; uma lenda sobre a capilaridade das pernas da rainha Belkis; uma declarao das

quatro cores emblemticas da morte; uma teoria e prtica oriental da ingratido; a informao de que a pelagem malhada a que os anjos preferem, assim como os gnios

preferem o douradilho; um resumo da mitologia da secreta Noite do Poder ou Noite das Noites; uma denncia da superfi~l7idade de Andrew Lang; uma diatribe contra

o regime democrtico; um levantamento dos nomes de Maom,

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HISTRIA DA ETERNfDADE

na Terra, no Fogo e no Jardim; uma meno do povo amalecita, longevo e de grande estatura; uma informao sobre as partes pudendas do muulmano, que no homem abarcam

do umbigo ao joelho e na mulher dos ps cabea; uma ponderao sobre o assado do gacho argentino; um aviso dos males da "equitao" quando tambm a cavalgadura

humana; um grandioso projeto de cruzar macacos cinocfalos com mulheres e obter assim uma sub-raa de bons proletrios. Aos cinqenta anos, o homem j acumulou

ternuras, ironias, obscenidades e incontveis histrias; Burton as descarregou em suas notas.

Permanece o problema fundamental. Como divertir os cavalheiros do sculo XIX com os romances em fascculos do sculo XIII? sobejamente conhecida a pobreza estilstica

das Noites. Burton fala, certa ocasio, do "tom seco e comercial" dos prosadores rabes, em contraposio ao excesso retrico dos persas; Littmann, o novssimo tradutor,

acusa-se de ter intercalado vocbulos como perguntou, pediu, respondeu, em cinco mil pginas que ignoram outra frmula alm de disse - invocada invariavelmente.

Burton esbanja amorosamente as substituies dessa ordem. Seu vocabulrio no menos dspar que suas notas. O arcasmo convive com a gria, o jargo carcerrio

ou marinheiro com o termo tcnico. No se envergonha da gloriosa hibridao do ingls: nem o repertrio escandinavo de Morris nem o latino de Johnson tm seu beneplcito,

mas sim o contato e a repercusso dos dois. O neologismo e os estrangeirismos so abundantes: castrato, inconsquenee, hauteur, in gloria, bagnio, langue fourre,

pundonor, vendetta, Wazir. Cada uma dessas palavras deve ser adequada, mas sua intercalao importa um falseamento. Um bom falseamento, uma vez que essas travessuras

verbais - e outras sintticas - distraem o curso s vezes opressivo das Noites. Burton as comete: no incio traduz gravemente Sulayman, Son of David (on the twain

be peace!); depois - quando essa majestade nos familiar - rebaixa-o a Solomon Davidson. Faz de um rei que para os demais tradutores "rei de Samarcanda, na Prsia",

a King of Samarcand in Barbarian-landa de um comprador que para os demais "colrico", a man of wrath. Isto no tudo. Burton reescreve integralmente - com acrscimo

de pormenores circunstanciais e traos fisiolgicos - a

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OS TRADUTORES DAS MfL. E UMA NOITES

primeira e a ltima histria. Inaugura assim, por volta de 1885, um procedimento cuja perfeio (ou cuja reductio ad absurdum) consideraremos depois em Mardrus.

Sempre um ingls mais intemporal que um francs: o estilo heterogneo de Burton tornou-se menos antiquado que o de Mardrus, de data notria.

2. O DOUTOR MARDRUS

Destino paradoxal o de Mardrus. A ele atribumos a virtude moral de ser o tradutor mais fiel das Mil e Uma Noites, livro de admirvel lascvia, antes escamoteada

aos compradores pela boa educao de Galland ou pelos melindres puritanos de Lane. Venera-se sua genial literalidade, bem demonstrada pelo inapelvel subttulo Verso

Literal e Completa do Texto Arabe e pela inspirao de escrever Livro das Mil Noites e Uma Noite. A histria desse nome edificante; podemos record-la antes de

revisar Mardrus.

As Pradarias de Ouro e Minas de Pedras Preciosas do Masudi descrevem uma coletnea intitulada Hezar Afsane, palavras persas cujo verdadeiro significado Mil Aventuras,

mas que o povo chama de Mil Noites. Outro documento do sculo X, o Fihrist, conta a primeira histria da srie: o juramento desolado do rei que a cada noite desposa

uma virgem, que manda decapitar ao amanhecer, e a resoluo de Scherazade, distraindo-o com histrias maravilhosas, at que sobre eles tenham passado mil noites

e ela lhe mostra seu filho. Dizem que essa fico - to superior s vindouras e anlogas da piedosa cavalgada de Chaucer ou da epidemia de Giovanni Boccaccio -

posterior ao ttulo e que foi tramada com o objetivo de justific-lo... Seja como for, a primitiva cifra de 1.OOO logo subiu a 1.OO1. Como surgiu essa noite adicional

que j imprescindvel, essa maquette da zombaria de Quevedo - e depois de Voltaire - contra Pico de la Mirndola: Livro de Todas as Coisas e Muitas Outras Mais?

Littmann sugere uma contaminao da frase turca bin bir, cujo sentido literal mil e um e usada como muitos. Lane, no comeo de 184O, acrescentou uma razo mais

bela: omor mgico pelos nmeros pares. O certo que as aventuras do ttulo no pararam a. Antoine Galland, desde

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~IISTRIA DA ETERNIDADE

17O4, eliminou a repetio do original e traduziu Mil e Uma Noites - nome hoje conhecido em todas as naes da Europa, salvo a Inglaterra, que prefere o de Noites

rabes. Em 1839, o editor da publicao de Calcut, W. H. Macnaghten, teve o singular escrpulo de traduzir Quitab Alif Laila Ua Laila por Livro das Mil Noites e

Uma Noite. Esse renovar por soletrao no passou despercebido. John Payne, a partir de 1882, comeou a publicar seu Book of the Thousand Nights and One Night; o

capito Burton, desde 1885, seu Book of the Thousand Nights and a Night; J. C. Mardrus, desde 1899, seu Livre des Mille Nuits et Une Nuit.

Procuro a passagem que me fez duvidar definitivamente da veracidade deste ltimo. Pertence histria doutrinal da Cidade de Lato, que abrange em todas as verses

o fim da noite 566 e parte da 578, mas que o doutor Mardrus remeteu (seu Anjo da Guarda saber por qu) s noites 338-346. No insisto; essa reforma inconcebvel

de um calendrio ideal no deve causar-nos demasiada estranheza. Conta Scherazade-Mardrus: "A gua seguia quatro canais traados no piso da sala com desvios encantadores,

e cada canal tinha um leito de cor especial: o primeiro canal tinha um leito de prfiro rosado; o segundo, de topzios; o terceiro, de esmeraldas; o quarto, de turquesas;

de modo que a gua tomava a cor do leito e, ferida pela branda luz que as sedas filtravam do alto, projetava sobre os objetos ambientes e os muros de mrmore uma

suavidade de paisagem marinh".

Como ensaio de prosa visual, maneira do Retrato de Dorian Gray, aceito (e at respeito) essa descrio; como verso "literal e completa" de uma passagem composta

no sculo XIII, repito que me alarma infinitamente. As razes so mltiplas. Uma Scherazade sem Mardrus descreve por enumerao das partes, no por reaes mtuas,

e no cita detalhes circunstanciais como o da gua que toma a cor de seu leito, e no define a qualidade da luz filtrada pela seda, e no alude ao Salo dos Aquarelistas

na imagem final. Outra pequena rachadura: desvios encantadores no rabe, notoriamente francs. Ignoro se as razes anteriores podem satisfazer; a mim no bastaram

e tive o indolente prazer de consultar as trs verses alems de Weil, de Henning e de Littmann, e as duas inglesas de Lane e de Sir Richard Burton. Nelas comprovei

que o original das dez linhas de Mardrus era este: "As quatro valas desembocavam num tanque, que era de mrmore de vrias cores".

OS TRADUTORES DAS MIL F UMA NOITES

As interpolaes de Mardrus no so uniformes. s vezes so descaradamente anacrnicas - como se de repente pusesse em discusso a retirada da misso Marchand. Por

exemplo: "Descortinavam uma cidade de sonho... At onde alcanava a viso fixa nos horizontes afogados na noite, cpulas de palcios, terraos de casas, serenos

jardins se escalonavam naquele recinto de bronze, e canais iluminados pelo astro passeavam em mil circuitos claros sombra das montanhas, enquanto l ao fundo um

mar de metal encerrava em seu frio seio os fogos do cu refletido". Ou esta, cujo galicismo no menos notrio: "Um tapete magnfico, de cores gloriosas, de destra

l, abria suas flores sem aroma num prado sem seiva, e vivia toda a vida artificial de suas florestas cheias de pssaros e animais, surpreendidos em sua exata beleza

natural e suas linhas precisas". (A, rezam as edies rabes: "Dos lados havia tapetes, com inmeros pssaros e feras, recamados em ouro vermelho e em prata branca,

mas com os olhos de prolas e rubis. Quem os viu no deixou de maravilhar-se".)

Mardrus nunca deixa de se maravilhar com a pobreza de "cor oriental" das Mil e Urna Noites. Com persistncia no indigna de Cecil B. de Mille, esbanja vizires, beijos,

palmeiras e luas. Ocorre-lhe ler na noite 57O: "Chegaram a uma coluna de pedra negra, na qual um homem estava enterrado at as axilas. Tinha duas enormes asas e

quatro braos: dois dos quais eram como os braos dos filhos de Ado e dois como as patas dos lees, com as unhas de ferro. O cabelo em sua cabea era semelhante

cauda dos cavalos e os olhos como brasas, e tinha na testa um terceiro olho que era como Oolho do linc". Traduz ricamente: "Um entardecer, a caravana chegou

diante de uma coluna de pedra negra, qual estava acorrentado um ser estranho do qual se via sobressair apenas metade do corpo, pois que a outra metade estava enterrada

no cho. Aquele busto que surgia da terra parecia alguma criatura monstruosa, encravada ali pela fora das potncias infernais. Era negro e do tamanho do tronco

de uma velha palmeira abatida, despojada de suas palmas. Tinha duas enormes asas negras e quatro mos, das quais duas, de longas unhas, eram semelhantes s patas

dos lees. Uma eriada cabeleira de crinas speras como cauda de onagro se movia selvagemente sobre o horrendo crnio. Sob os arcos orbitais ~ramejavam duas pupilas

vermelhas, enquanto a testa,

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HISTRIA DA ETERNIDADE

Os TRADUTORES uns Mu. e Utia,a Noi"rFs

com dois cornos, era perfurada por um nico olho, que se abria, imvel e fixo, lanando clares verdes como Oolhar dos tigres e das panteras".

Escreve mais adiante: "O bronze das muralhas, as pedrarias acesas das cpulas, os terraos brancos, os canais e todo o mar, assim como as sombras que se projetavam

para o Ocidente, uniam-se sob a brisa noturna e a lua mgica". Mgica, para um homem do sculo XIII, deve ter sido uma qualificao muito precisa, no o simples

epteto mundano do galante doutor... Suspeito que o rabe no seja capaz de uma verso "literal e completa" do pargrafo de Mardrus, assim como tampouco o o latim,

ou o castelhano de Miguel de Cervantes.

O livro das Mil e Uma Noites farto em dois procedimentos: um, puramente formal, a prosa rimada; outro; as prdicas morais. O primeiro, conservado por Burton e

por Littmann, corresponde exuberncia do narrador: pessoas agraciadas, palcios, jardins, operaes mgicas, menes Divindade, poresdo-sol, batalhas, auroras,

princpios e finais de contos. Mardrus, talvez misericordiosamente, o omite. O segundo exige duas faculdades: a de combinar com majestade palavras abstratas e a

de propor sem rubores um lugar-comum. Das duas carece Mardrus. Daquele versculo que Lane traduziu memoravelmente: "And in this palace is the last information respeeting

lords collected in the dust", nosso doutor extrai apenas: "Passaram, todos aqueles! Tiveram apenas tempo de repousar sombra de minhas torres". A confisso do anjo:

"Estou aprisionado pelo Poder, confinado pelo Esplendor e castigado enquanto assim o ordene o Eterno, a quem pertencem a Fora e a Glria", para o leitor de Mardrus:

"Aqui estou acorrentado pela Fora Invisvel at a extino dos sculos".

Tampouco a feitiaria tem em Mardrus um colaborador de boa vontade. incapaz de mencionar o sobrenatural sem um sorriso. Finge traduzir, por exemplo: "Um dia em

que o califa Abdelmelik, ouvindo falar de certas vasilhas de cobre antigo, cujo contedo era uma estranha fumaa negra de forma diablica, muito se maravilhava,

e parecia pr em dvida a realidade de fatos to notrios, precisou intervir o viajante Talib ben-Sahl". Nesse pargrafo (que pertence, como os demais que aleguei,

Histria da Cidade de Lato,

que de imponente Bronze em Mardrus), o candor voluntrio de to notrios e a dvida bastante inverossmil do califa Abdelmelik so dois obsquios pessoais do tradutor.

Continuamente, Mardrus quer completar o trabalho que os lnguidos rabes annimos descuidaram. Acrescenta paisagens art nouveau, fortes obscenidades, breves interldios

cmicos, fatos circunstanciais, simetrias, muito orientalismo visual. Um exemplo entre tantos: na noite 573, o guali Mussa Ben Nuseir ordena a seus ferreiros e carpinteiros

a construo de uma escada muito forte de madeira e ferro. Mardrus (em sua noite 344) reforma esse episdio inspido, acrescentando que os homens do acampamento

apanharam galhos secos, apararam-nos com os alfanjes e os faces e amarraram-nos com os turbantes, os cintures, as cordas dos camelos, as cilhas e os arreios de

couro, at construir uma escada muito alta que encostaram parede, firmando-a com pedras por todos os lados... De modo geral, cabe dizer que Mardrus no traduz

as palavras e sim as representaes do livro: liberdade negada aos tradutores, mas tolerada nos desenhistas - a quem permitem acrescentar traos desse tipo... Ignoro

se essas risonhas distraes so as que infundem obra esse ar to feliz, esse ar de patranha pessoal, no de trabalho de se mexer em dicionrios. Consta-me apenas

que a "traduo" de Mardrus a mais legvel de todas - depois da incomparvel de Burton, que tampouco fiel. (Nesta, a falsificao de outra ordem. Est no excessivo

emprego de um ingls tosco, carregado de arcasmos e barbarismos.)

Deploraria (no por Mardrus, mas por mim) que nas comprovaes anteriores se entendesse um propsito policial. Mardrus o nico arabista de cuja glria se encarregaram

os literatos, com xito to fora do comum que os prprios arabistas sabem quem . Andr Gide foi dos primeiros a elogi-lo, em agosto de 1899; no penso que Cancela

e Capdevilla sero os ltimos. Meu objetivo no derrubar essa admirao, document-la. Enaltecer a fidelidade de Mardrus omitir a alma de Mardrus, no aludir

sequer a Mardrus. Sua infidelidade, sua infidelidade criadora e feliz, o que d importar para ns.

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HISTRIA DA ETERNIDADE

OS TRADUTORES DAS MIL E UMA NOIT6S

3. ENNO LITTMANN

Ptria de uma famosa edio rabe das Mil e Uma Noites, a Alemanha pode-se (v) gloriar de quatro verses: a do "bibliotecrio embora israelita" Gustavo Weil - a

adversativa est nas pginas catals de certa Enciclopdia -; a de Max Henning, tradutor do Alcoro; a do homem de letras Flix Paul Greve; a de Enno Littmann, decifrador

das inscries etipicas da fortaleza de Axum. Os quatro volumes da primeira (1839-1842) so os mais agradveis, j que seu autor - desterrado da frica e da sia

pela disenteria - cuida de manter ou de suprir o estilo oriental. Suas interpolaes merecem todo meu respeito. Faz com que alguns intrusos numa reunio digam: "No

queremos parecer a manh, que dispersa as festas". De um generoso rei assegura: "O fogo que arde para seus hspedes traz memria o Inferno, e o orvalho de sua

mo benigna como o Dilvio"; de outro nos diz que suas mos "eram to liberais como o mar". Esses bons apcrifos no so indignos de Burton ou Mardrus, e o tradutor

os destinou s partes em verso - em que sua bela animao pode ser um Ersatz ou sucedneo das rimas originais. No que se refere prosa, entendo que a traduziu tal

qual, com certas omisses justificadas, equidistantes da hipocrisia e do impudor. Burton elogiou seu trabalho - "to fiel quanto pode ser uma traduo de ndole

popular". No era em vo judeu o doutor Weil "embora bibliotecrio"; creio perceber em sua linguagem certo sabor das Escrituras.

A segunda verso (1895-1897) prescinde dos encantos da preciso, mas tambm dos do estilo. Falo da feita por Henning, arabista de Leipzig, para a Universalbibliothek

de Philipp Reclam. Trata-se de uma verso expurgada, embora a editora diga o contrrio. O estilo inspido, repetitivo. Sua virtude mais indiscutvel deve ser a

extenso. As edies de Bulak e de Breslau esto representadas, assim como os manuscritos de Zotenberg e das Noites Suplementares de Burton. Henning tradutor de

Sir Richard literalmente superior a Henning tradutor do rabe, o que simples confirmao da primazia de Sir Richard sobre os rabes. No prefcio e na concluso

da obra so abundantes os elogios a Burton - quase desautorizados pela informao de que este empregou "a linguagem de Chaucer, equivalente ao rabe medieval". A

indicao de Chaucer como uma das fontes do

vocabulrio de Burton teria sido mais razovel. (Outra o tabelais de Sir Thomas Urquhart.)

A terceira verso, a de Greve, provm da inglesa de Burton e a repete, com excluso das notas enciclopdicas. A InselVerlag publicou-a antes da guerra.

A quarta (1923-1928) vem a suplantar a anterior. Abrange seis volumes, como aquela, e assinada por Enno Littmann: decifrador dos monumentos de Axum, enumerador

dos 283 manuscritos etipicos que h em Jerusalm, colaborador da Zeitschrift fr Assyriologie. Sem as demoras complacentes de Burton, sua traduo de uma franqueza

total. No o retraem as obscenidades mais indizveis: verte-as a seu tranqilo alemo, rara vez ao latim. No omite uma palavra, nem sequer as que registram - mil

vezes - a passagem de cada noite seguinte. Menospreza ou rejeita a cor local; foi preciso uma indicao dos editores para que conservasse o nome de Al e no o

substitusse por Deus. A semelhana de Burton e de John Payne, traduz em verso ocidental o verso rabe. Anota ingenuamente que, se depois da advertncia ritual "Fulano

pronunciou estes versos" viesse um pargrafo de prosa alem, seus leitores ficariam desconcertados. Fornece as notas necessrias boa compreenso do texto: umas

2O por volume, todas lacnicas. E sempre lcido, legvel, medocre. Segue (dizem) a prpria respirao do rabe. Se no h erro na Enciclopdia Britnica, sua traduo

a melhor de quantas circulam. Ouo dizer que os arabistas esto de acordo; nada importa que um simples literato - e esse, da Repblica simplesmente Argentina -

prefira discordar.

Minha razo esta: as verses de Burton e de Mardrus, e at mesmo a de Galland, s podem ser concebidas depois de uma literatura. Sejam quais forem seus vcios

ou seus mritos, essas obras caractersticas pressupem um rico processo anterior. De certo modo, o quase inesgotvel processo ingls est simbolizado em Burton

- a dura obscenidade de John Donne, o gigantesco vocabulrio de Shakespeare e de Cyril Tourneur, a tendncia ao arcaico de Swinburne, a crassa erudio dos tratadistas

dos 16OO, a energia e a vaguidade, o amor pelas tempestades e pela magia. Nos alegres pargrafos de Mardrus convivem Salammb e La Fontaine, o Manequim de Vime e

o ballet russo. Em Littmann, incapaz como Washington de mentir, no h seno a probidade da Alemanha. to pouco, louqussimo.

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HISTRIA DA ETERNIDADE

As relaes das Noites com a Alemanha deviam ter produzido algo mais.

Seja no terreno filosfico, seja no dos romances, a Alemanha tem uma literatura fantstica - ou melhor, s tem uma literatura fantstica. H maravilhas nas Noites

que gostaria de ver repensadas em alemo. Ao formular esse desejo, penso nos prodgios deliberados do repertrio - os escravos todo-poderosos de uma lmpada ou

de um anel, a rainha Lab, que transforma os muulmanos em pssaros, o barqueiro de cobre com talisms e frmulas no peito - e naqueles mais gerais, que procedem

de sua ndole coletiva, da necessidade de completar mil e uma partes. Esgotadas as magias, os copistas precisaram recorrer a notcias histricas ou piedosas, cuja

incluso parece afianar a boa-f do restante. Convivem num mesmo tom o rubi que sobe ao cu e a primeira descrio de Sumatra, as caractersticas da corte dos abssidas

e os anjos de prata cujo alimento a justificativa do Senhor. Essa mistura torna-se potica; digo o mesmo de certas repeties. No assombroso que na noite 6O2

o rei Shahriar oua da boca da rainha sua prpria histria? imitao da moldura geral, um conto costuma conter outros contos, de no menor extenso: cenas dentro

da cena, como na tragdia de Hamlet, o sonho elevado potncia. Um rduo e claro verso de Tennyson parece defini-los:

Laborious orient ivory, sphere in sphere.

Para maior espanto, essas cabeas adventcias da Hidra podem ser mais concretas que o corpo: Shahriar, fabuloso rei "das ilhas da China e do Industo", recebe notcias

de Trik Benzeyad, governador de Tnger e vencedor da batalha do Guadalete... As ante-salas se confundem com os espelhos, a mscara est por trs do rosto, j ningum

sabe qual o homem verdadeiro e quais seus dolos. E nada disso importa; essa desordem trivial e aceitvel como as invenes do devaneio.

O acaso brincou de simetrias, de contraste, de digresso. O que no faria um homem, um Kafka, que organizasse e acentuasse esses jogos, que os refizesse segundo

a deformao alem, segundo a Linheimlichkeit da Alemanha?

Adrogu, 1935.

nsu

Entre os livros cc ~iltados, devo enumerar os seguintes:

rlt+It~`

Les Mille et Un` ~n;s, contes arabes traduits par Galland. Paris, s.d.

The Thoneand AP~ n fr,Oe Ni hts, commonl called The Arabian Ni hts" Entertain~"s. A new transl2 Thousv1rom the Arabic, by E. W. Lane. London, 1839.

The Book of th+" den "and Nights and a Night. A plain and literal translation by a-9rd E Burton. LO~is ~(~) s.d. Vols. VI, VII, VIII.

The:Arabian N4 F B~ complete (sic) and unabridged selection fmm the famous h translation of ~"~s Np`urton. New York, 1932.

Le Livre des Mt~~d~uits et Une Nuit. Traduction littrale et complte du texte bem-, par le Dr. J. C. Nas rus. Paris, 19O6.

Taus"end und eitje -{tt. Aus dem Arabischen bertragen von Max Henning. p~"~ig, 1897. t+-d

Gv Die ErzhLungettOE Jak\en Tausendundein Niichten. Naeh dem arabischen Urtext der

ttaer Ausgabe ~ %re 1839 bertragen von Enno Littmann. Leipzig, 1928.

Os T~PD~~uTOaas Dns Mti e UMA NorTes

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457

HISTRIA DA

~roach to

~.nbaim, "

. ucner uncomfortable

_.`us do Isl que raras vezes

..adutor, e daqueles romances poli

. emente superam John H. Watson e aper

J horror da vida humana nas mais irrepreensveis

..~~ses de Brighton". Antes, Mr. Cecil Roberts denunciara no livro de Bahadur "a dplice, inverossmil tutela de Wilkie Collins e do ilustre persa do sculo XII,

Farid Eddin Attar" - pacfica observao que Guedalla repete sem novidade, mas num dialeto colrico. Essencialmente, ambos os escritores concordam: os dois indicam

o mecanismo policial da obra e seu undercurrent mstico. Essa hibridao pode levar-nos a imaginar certa semelhana com Chesterton; logo comprovaremos que no h

tal coisa.

A editio princeps da Aproximao a Almotsim apareceu em Bombaim, em fins de 1932. O papel era quase papel-jornal; a capa anunciava ao comprador que se tratava do

primeiro romance policial escrito por um nativo de Bombay City. Em poucos meses, o pblico esgotou quatro edies de mil exemplares cada. uma. A Bombay Quarterly

Review, a Bombay Gazette, a Calcutta Review, a Hindustan Review (de Alahabad) e o Calcutta Englishman dispensaram-lhe seu ditirambo. Ento Bahadur publicou uma edio

ilustrada que intitulou The Conversation with the Man Called Al-Mu"tasim e que subtitulou magnifica

1 Texto traduzido por Carlos Nejar.

mente: A Game with Shifting Mirrors (Um jogo com espelhos que se deslocam). Essa edio a que Victor Gollancz acaba de reproduzir em Londres, com prlogo de Dorothy

L. Sayers e com omisso - qui misericordiosa - das ilustraes. Tenho-a vista; no consegui obter a primeira, que pressinto muito superior. Autoriza-me a isso

um apndice, que resume a diferena fundamental entre a verso primitiva de 1932 e a de 1934. Antes de examin-la - e de discuti-la - convm que eu indique rapidamente

o curso geral da obra.

Seu protagonista visvel - nunca se nos diz seu nome - estudante de direito em Bombaim. Blasfematoriamente, descr da f islmica de seus pais, mas, ao declinar

a dcima noite da lua de muharram, encontra-se no centro de um tumulto civil entre muulmanos e hindus. noite de tambores e invocaes: entre a multido adversa,

os grandes plios de papel da procisso muulmana abrem caminho. Um ladrilho hindu voa de um terrao; algum afunda um punhal num ventre; algum - muulmano, hindu?

- morre e pisoteado. Trs mil homens lutam: basto contra revlver, obscenidade contra imprecao. Deus, o Indivisvel, contra os Deuses. Atnito, o estudante

livre-pensador entra no motim. Com as desesperadas mos, mata (ou pensa ter matado) um hindu. Atroadora, eqestre, semi-adormecida, a polcia do Sirkar intervm

com chibatadas imparciais. Foge o estudante, quase sob as patas dos cavalos. Procura os arrabaldes ltimos. Atravessa duas vias ferrovirias ou duas vezes a mesma

via. Escala o muro de um descuidado jardim, com uma torre circular no fundo. Uma chusma de ces cor de lua (a lean and evil mob of mooncoloured hounds) emerge dos

rosais negros. Acossado, procura amparo na torre. Sobe por uma escada de ferro - faltam alguns lances - e, no terrao, que tem um poo enegrecido no centro, d com

um homem esqulido, que est urinando vigorosamente, agachado, luz da lua. Esse homem lhe confia que sua profisso roubar os dentes de ouro dos cadveres trajados

de branco que os partes deixam nessa torre. Diz outras coisas vis e menciona que faz catorze noites que no se purifica com bosta de bfalo. Fala com evidente rancor

de certos ladres de cavalos de Guzerat,

"comedores de ces e lagartos, homens enfim to infames como ns dois". Est clareando: no ar h um vo pesado de

abutres gordos. O estudante, aniquilado, adormece; quando

459

As relaes das Noites com R algo mais. Seja no terreno filos~ -, ~~

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458

HISTRIA DA ETERNIDADE

desperta, j com o sol bem alto, desapareceu o ladro. Desapareceram tambm um par de charutos de Trichinpoli e umas rupias de prata. Diante das ameaas projetadas

pela noite anterior, o estudante resolve perder-se na India. Pensa que se mostrou capaz de matar um idlatra, mas no de saber com segurana se o muulmano tem mais

razo que o idlatra. O nome de Guzerat no o deixa, e o de uma malka-sansi (mulher da casta dos ladres) de Palampur preferida pelas imprecaes e pelo dio do

despojador de cadveres. Deduz que o rancor de um homem to minuciosamente vil importa em elogio. Decide - sem maior esperana - procur-la. Reza e empreende com

lentido firme o longo caminho. Assim acaba o segundo captulo da obra.

Impossvel traar as peripcias dos dezenove restantes.

H uma vertiginosa pululao de dramatis personae - para no falar de uma biografia que parece esgotar os movimentos do esprito humano (desde a infmia at a especulao

matemtica) e de uma peregrinao que compreende a vasta geografia do Industo. A histria comeada em Bombaim continua nas terras baixas de Palampur, demora-se

uma tarde e uma noite porta de pedra de Bikanir, narra a morte de um astrlogo cego numa cloaca de Benares, conspira no palcio multiforme de Katmandu, reza e

fornica no fedor pestilencial de Calcut, no Machua Bazar, contempla nascer os dias no mar, de um cartrio de Madras, v morrer as tardes no mar, de uma sacada no

estado de Travancor, vacila e mata em Indapur e conclui sua rbita de lguas e de anos na mesma Bombaim, a poucos passos do jardim dos ces cor de lua. O argumento

este: um homem, o estudante incrdulo e fugitivo que conhecemos, cai entre pessoas da classe mais vil e se acomoda a elas, numa espcie de certame de infmias.

Subitamente - como o milagroso espanto de Robinson ante a pegada de um p humano na areia - percebe certa mitigao dessa infmia: uma ternura, uma exaltao, um

silncio, num dos homens detestveis. "Foi como se tivesse cruzado armas no dilogo um interlocutor mais complexo." Sabe que o homem vil que est conversando com

ele incapaz desse momentneo decoro; da postula que este refletiu um amigo, ou amigo de um amigo. Repensando o problema, chega a uma convico misteriosa: "Em

algum ponto da terra h um homem de quem procede

Duas Noras

essa claridade; em algum ponto da terra est o homem que igual a essa claridad". O estudante resolve dedicar sua vida a encontr-lo.

J o argumento geral se entrev: a insacivel procura de uma alma atravs dos tnues reflexos que esta deixou em outras: no princpio, o leve rastro de um sorriso

ou de uma palavra; no fim, esplendores diversos e crescentes da razo, da imaginao e do bem. medida que os homens interrogados conheceram mais de perto Almotsim,

sua poro divina maior, mas se acredita que so simples espelhos. O tecnicismo matemtico aplicvel: o pesado romance de Bahadur uma progresso ascendente,

cujo termo final o pressentido "homem que se chama Almotsim". O imediato antecessor de Almotsim um livreiro persa de suma cortesia e felicidade; o que precede

esse livreiro um santo... Depois de anos, o estudante chega a uma galeria "em cujo fundo h uma porta e uma esteira barata com muitas contas e atrs um resplendor".

O estudante bate palmas uma e duas vezes e pergunta por Almotsim. Uma voz de homem - a incrvel voz de Almotsim - convida-o a passar. O estudante abre a cortina

e avana. Nesse ponto o romance acaba.

Se no me engano, a boa elaborao de tal argumento impe ao escritor duas obrigaes: uma, a variada inveno de traos profticos; outra, a de que o heri prefigurado

por esses traos no seja mera conveno ou fantasma. Bahadur satisfaz a primeira; no sei at que ponto a segunda. Em outras palavras: o inaudito e no contemplado

Almotsim deveria deixar-nos a impresso de um carter real, no de uma desordem de superlativos inspidos. Na verso de 1932, as notas sobrenaturais rareiam: "o

homem chamado Almotsim" tem seu bocado de smbolo, mas no carece de traos idiossincrsicos, pessoais. Infelizmente, essa boa conduta literria no persistiu.

Na verso de 1934 - a que tenho vista -, o romance decai em alegoria: Almotsim emblema de Deus e os pontuais itinerrios do heri so, de alguma forma, os progressos

da alma na ascenso mstica. H pormenores aflitivos: um judeu negro de Kochin, ao falar de Almotsim, diz que sua pele escura; um cristo Odescreve sobre uma

torre com os braos abertos; um lama vermelho recorda-o sentado "como essa imagem de manteiga de iaque que modelei e adorei no mosteiro de Tashilhunpo". Essas

46O

461

HISTRIA DA ETERNIDADE

declaraes querem insinuar um Deus unitrio que se acomoda s desigualdades humanas. A meu ver, a idia pouco estimulante. No direi o mesmo desta outra: a conjetura

de que tambm o Todo-Poderoso est procura de Algum, e esse Algum de Algum superior (ou simplesmente imprescindvel e igual) e assim at o Fim - ou melhor,

o Sem-Fim - do Tempo, ou em forma cclica. Almotsim (o nome daquele oitavo abssida, que foi vencedor em oito batalhas, gerou oito vares e oito mulheres, deixou

oito mil escravos e reinou durante o espao de oito anos, de oito luas e de oito dias) quer dizer etimologicamente O procurador de amparo. Na verso de 1932, o fato

de que Oobjeto da peregrinao fosse um romeiro justificava, de maneira oportuna, a dificuldade de encontr-1o; na de 1934, d margem teologia extravagante que

mencionei. Mir Bahadur Ali, vimo-lo, incapaz de passar por alto na mais comum das tentaes da arte: a de ser um gnio.

Releio o que se exps antes e temo no ter destacado suficientemente as virtudes do livro. H traos muito civilizados: por exemplo, certa disputa do captulo 19

na qual se pressente que amigo de Almotsim um contendor que no rebate os sofismas do outro, "para no ter razo de forma triunfal".

Entende-se ser honroso que um livro atual derive de um antigo; j que ningum gosta (como disse Johnson) de dever algo a seus contemporneos. Os repetidos mas insignificantes

contatos do Ulisses de Joyce com a Odissia homrica continuam escutando - nunca saberei por qu - a atordoada admirao da crtica; os do romance de Bahadur com

o venerado Colquio dos Pssaros de Farid ud-Din Attar conhecem o no menos misterioso aplauso de Londres, e ainda de Alahabad e Calcut. Outras derivaes no faltam.

Certo pesquisador enumerou algumas analogias da primeira cena do romance com a narrativa de Kipling On the City Wall; Bahadur as admite, mas alega que seria muito

anormal que duas pinturas da dcima noite de muharram no coincidissem... Eliot, com mais justia, recorda os setenta cantos da incompleta alegoria The Farie Queene,

nos quais no aparece uma nica vez a herona, Gloriana - como salienta uma censura de Richard William Church. Eu, com toda a humildade, assinalo um precursor distante

e possvel: o cabalista de

DUAS NOTAS

Jerusalm Isaac Luria, que no sculo XVI propagou que a alma de um antepassado ou mestre pode entrar na alma de um infeliz, para confort-lo ou instru-lo. Chama-se

Ibbr essa variedade da metempsicose.

ARTE DE INJURIAR

Um estudo preciso e fervoroso de outros gneros literrios fez-me crer que a injria e a zombaria valeriam necessariamente algo mais. O agressor (disse a mim mesmo)

sabe que o agredido ser ele e que "qualquer palavra que, pronuncie poder ser invocada contra si", como na honesta advertncia dos policiais da Scottland Yard.

Esse temor o obrigar a cuidados especiais, dos que costuma prescindir em outras ocasies mais cmodas. Desejar-se- invulnervel e em determinadas pginas o ser.

O cotejo das boas indignaes de Paul Groussac e seus confusos panegricos - para no citar os casos anlogos de Swift, Johnson e Voltaire - inspirou ou auxiliou

essa

2 No decurso desta notcia, referi-me a Mantiq al-Tayr (Colquio dos Pdssaros), do mstico persa Farid al-Din Abu Talib Muhammad ben Ibrahim Attar, a quem os soldados

de Tule mataram, filho de Zingis Jan, quando Nishapur foi espoliada. Talvez no consiga resumir o poema. O remoto rei dos pssaros, o Simurg, deixa cair no centro

da China uma pluma esplndida; os pssaros resolvem procur-lo, cansados de sua antiga anarquia. Sabem que o nome de seu rei quer dizer trinta pssaros; sabem que

sua fortaleza est no Kaf, a montanha circular que rodeia a terra. Empreendem a quase infinita aventura; superam sete vales, ou mares; o nome do penltimo Vertigem;

o ltimo se chama Aniquilao. Muitos peregrinos desertam; outros perecem. Trinta, purificados pelos trabalhos, pisam a montanha do Simurg. Enfim o contemplam: percebem

que eles so o Simurg e que o Simurg cada um deles e todos. (Tambm Plotino - Enadas, V, 8, 4 - descreve uma extenso paradisaca do princpio de identidade:

"Tudo, no cu inteligvel, est em todas as partes. Qualquer coisa todas as coisas. O Sol todas as estrelas, e cada estrela todas as estrelas e o Sol".) O

Mantiq alTayr foi vertido ao francs por Garcin de Tassy; ao ingls, por Edward FitzGerald; para esta nota, consultei o 1O volume das Mil e Uma Noites de Burton

e a monografia The Persan Mystics: Attar (1932), de Margaret Smith.

O pontos de contato desse poema com o romance de Mir Bahadur Ali no so excessivos. No 2O`-" captulo, certas palavras atribudas por um livreiro persa a Almotsim

so, talvez, a magnificao de outras que disse o heri; essa e outras ambguas analogias podem significar a identidade do procurado e de quem procura; tambm podem

significar que este influi naquele. Outro captulo insinua que Almotsim o "hind" que o estudante cr ter matado.

462

463

HISTRIA DA ETERNIDADE

fantasia. Ela se dissipou quando abandonei a leitura compla

cente desses escrnios pela pesquisa de seu mtodo.

Logo observei uma coisa: a justia fundamental e o erro delicado de minha conjetura. O burlador age com cuidado, efetivamente, mas com cuidado de trapaceiro que

admite as fices do baralho, seu corruptvel cu constelado de pessoas bicfalas. Trs reis mandam no pquer e no significam nada no troco. O polemista no menos

convencional. Ademais, j as frmulas de afronta da rua oferecem uma ilustrativa maquette do que pode ser a polmica. O homem de Corrientes e Esmeralda adivinha

a mesma profisso nas mes de todos, ou quer que se mudem em seguida para uma localidade muito geral que tem vrios nomes, ou arremeda um rudo grosseiro - e uma

insensata conveno resolveu que o afrontado por essas aventuras no ele, mas o atento e silencioso auditrio. No se necessita sequer de uma linguagem. Morder

o prprio polegar ou tomar o lado da parede (Sampson: "I will take the wall of any man or maid of Montague"s". Abram: "Do you bite your thumb at us, sir?") foram,

por volta de 1592, a moeda legal do provocador, na Verona fraudulenta de Shakespeare e nas cervejarias e lupanares e renhideiros de ursos em Londres. Nas escolas

pblicas, o gesto de caoada pito cataln - polegar no nariz, a mo espalmada frente - e a exibio da lngua fazem esse papel.

Outra difamao muito freqente o termo co. Na noite 146 do Livro das Mil Noites e Uma, os discretos podem aprender que o filho do leo foi encerrado num cofre

sem sada pelo filho de Ado, que o repreendeu deste modo: "O destino te derrubou e a astcia no te por de p, co do deserto".

Um alfabeto convencional da afronta define tambm os polemistas. O ttulo senhor, de omisso imprudente ou irregular nas comunicaes orais dos homens, ofensivo

quando Oimprimem. Doutor outra forma de aniquilao. Mencionar os sonetos cometidos pelo doutor Lugones equivale a medi-los mal para sempre, a refutar cada uma

de suas metforas. primeira aplicao de doutor, morre o semideus e resta um simples cavalheiro argentino que usa colarinhos postios de papel e se faz barbear

dia sim, dia no, e pode falecer de um bloqueio nas vias respiratrias. Resta a central e incurvel futilidade de todo ser humano. Mas ficam tambm os sonetos, com

msica que espera. (Um italiano, para livrar-se de Goethe, emitiu um

464

Duns Noras

breve artigo em que no se cansava de alcunh-lo il signore Wolfgang. Isso era quase uma adulao, pois equivalia a desconhecer que no faltam argumentos autnticos

contra Goethe.)

Cometer um soneto, emitir artigos. A linguagem um repertrio dessas convenientes afrontas, que so o principal sustento das controvrsias. Dizer que um literato

expeliu, cozinhou ou grunhiu um livro uma tentao fcil demais; caem melhor os verbos burocrticos ou comerciais: despachar, dar curso, expender. Essas palavras

ridas combinam-se com outras efusivas, e a vergonha do adversrio eterna. A uma pergunta sobre um leiloeiro que era, no obstante, declamador, algum inevitavelmente

comunicou que estava leiloando com energia a Divina Comdia. O epigrama no esmagadoramente engenhoso, mas seu mecanismo tpico. Trata-se (como em todos os epigramas)

de mera falcia de confuso. O verbo leiloar (reduplicado pelo adverbial com energia) d a entender que o incriminado senhor um irreparvel e srdido leiloeiro

e que seu esforo dantesco um disparate. O ouvinte aceita o argumento sem vacilar, porque no lhe proposto como argumento. Bem formulado, teria de no lhe dar

f. Primeiro, declamar e leiloar so atividades afins. Segundo, a antiga vocao de declamador pde orientar as tarefas do leiloeiro, pelo bom exerccio de falar

em pblico.

Uma das tradies satricas (no desprezada nem por Macedonio Fernndez nem por Quevedo nem por George Bernard Shaw) a inverso incondicional dos termos. Segundo

essa frmula famosa, o mdico inevitavelmente acusado de exercer a contaminao e a morte; o escrivo, de roubar; o verdugo, de fomentar a longevidade; os livros

de fico, de adormecer ou petrificar o leitor; os judeus errantes, de paralisia; o alfaiate, de nudismo; o tigre e o canibal, de no passar sem o ruibarbo. Uma

variante dessa tradio o ditado inocente. Por exemplo: "O festejado catre de campanha sob o qual o general ganhou a batalha". Ou: "Um encanto o ltimo filme do

engenhoso diretor Ren Clair. Quando nos acordaram..."

Outro mtodo til a mudana brusca. Por exemplo: "Um jovem sacerdote da Beleza, uma mente embebida em luz helnica, um refinado, um verdadeiro homem de gosto (de

rato)". Tambm esta quadra da Andaluzia, que num segundo passa da informao ao assalto:

465

HISTRIA DA ETERNIDADE

Vinte e cinco pauzinhos Tem uma cadeira. Queres que a quebre Nas tuas costelas?

Repito o formalismo desse jogo, seu contrabando obstinado de argumentos necessariamente confusos. Defender de fato uma causa e esbanjar os exageros trocistas, as

falsas cardades, as concesses traioeiras e o paciente desdm no so atividades incompatveis, mas sim to diferentes que ningum as associou at agora. Procuro

exemplos ilustres. Empenhado em arrasar com Ricardo Rojas, o que faz Groussac? Isto que transcrevo e que todos os literatos de Buenos Aires saborearam. "Assim

que, por exemplo, depois de ouvidos com resignao dois ou trs fragmentos em prosa pedante de certo calhamao, publicamente aplaudido pelos que mal o abriram, considero-me

autorizado a no prosseguir, atendo-me, por ora, aos sumrios ou ndices daquela copiosa histria do que organicamente nunca existiu. Refiro-me em especial primeira

e mais indigesta parte da mole (ocupa trs dos quatro volumes): balbucios de indgenas ou mestios..." Groussac, nesse exuberante mau humor, cumpre com o mais fervoroso

ritual do jogo satrico. Simula piedade pelos erros do adversrio ("depois de ouvidos com resignao"); deixa entrever o espetculo de uma clera brusca (primeiro

a palavra calhamao, depois a mole); vale-se de expresses laudatrias para agredir (essa histria copiosa); enfim, joga bem a seu modo. No comete pecados na sintaxe,

que eficiente, mas sim no argumento que indica. Reprovar um livro pelo tamanho, insinuar que ningum vai se animar a ler esse tijolo e acabar professando indiferena

pelas bobagens de uns ndios e mulatos parece resposta de compadrito, no de Groussac.

Transcrevo outra festejada severidade do mesmo escritor: "Sentiramos que a circunstncia de ter sido posto venda o arrazoado do doutor Pinero fosse um obstculo

srio para sua difuso, e que este amadurecido fruto de um ano e meio de andanas diplomticas se limitasse a causar "impress na casa de Coni. Tal no acontecer,

se Deus quiser, e, ao menos enquanto depender de ns, no se cumprir to melanclico

466

DUAS NOTAS

destino". Novamente o aparato da piedade; novamente a diabrura da sintaxe. Novamente, tambm, a banalidade portentosa da censura: rir-se dos poucos interessados

que pode reunir um escrito e de sua vagarosa elaborao.

Uma justificativa elegante dessas misrias pode invocar a tenebrosa raiz da stira. Esta (segundo a certeza mais recente) derivou-se das maldies mgicas da ira,

no de raciocnios. a relquia de um estado inverossmil, em que os danos causados ao nome recaem sobre quem o possui. Cortaram do anjo Satanail, rebelde primognito

do Deus que os bogomilos adoraram, a partcula il, que lhe assegurava a coroa, o esplendor e a previso. Sua morada atual o fogo, e seu hspede, a ira do Poderoso.

Os cabalistas narram o inverso, que a semente do remoto Abrao era estril at que intercalaram em seu nome a letra he, que o fez capaz de procriar.

Swift, homem de amargura essencial, props-se, na crnica das viagens do capito Lemuel Gulliver, a difamao do gnero humano. As primeiras - viagem diminuta

repblica de Liliput e desmedida de Brobdingnag - so o que Leslie Stephen admite: um sonho antropomtrico, que em nada se assemelha s complexidades de nosso

ser, seu fogo e sua lgebra. A terceira, a mais divertida, zomba da cincia experimental mediante o processo j mencionado da inverso: os desmantelados laboratrios

de Swift querem disseminar ovelhas sem l, usar gelo para fabricar plvora, amolecer mrmore para almofadas, martelar o fogo em lminas finas e aproveitar a parte

nutritiva contida na matria fecal. (Esse livro inclui tambm uma pgina importante sobre os inconvenientes da decrepitude.) A quarta viagem, a ltima, pretende

demonstrar que as bestas valem mais que os homens. Mostra uma virtuosa repblica de cavalos falantes, mongamos, isto , humanos, com um proletariado de homens quadrpedes,

que vivem em bando, escarvam a terra, agarram-se ao ubre das vacas para roubar o leite, descarregam seu excremento sobre os outros, devoram carne podre e cheiram

mal. A fbula contraproducente, como se v. O resto literatura, sintaxe. Diz na concluso: "No me cansa o espetculo de um advogado, de um ladro, de um coronel,

de um bobo, de um lorde, de um trapaceiro, de um poltico, de um rufio". Certas palavras, nessa variada enumerao, esto contaminadas pelas vizinhas.

467

HISTC)RIA DA ETERNIDADE

Dois exemplos finais. Um a clebre pardia de insulto que nos contam ter sido improvisada pelo doutor Johnson: "Sua esposa, cavalheiro, com o pretexto de trabalhar

num lupanar, vende artigos de contrabando". Outro a injria mais esplndida que conheo: injria tanto mais singular se considerarmos que o nico contato de

seu autor com a literatura: "Os deuses no consentiram que Santos Chocano desonrasse o patbulo, nele morrendo. A est vivo, depois de haver fatigado a infmia".

Desonrar o patbulo. Fatigar a infmia. fora de abstraes ilustres, a ofensa desfechada por Vargas Vila rejeita qualquer trato com o paciente e deixao ileso,

inverossmil, muito secundrio e possivelmente imoral. Basta a mais leve referncia ao nome de Chocano para que algum evoque a imprecao, obscurecendo com maligno

esplendor tudo quanto se refere a ele - at os pormenores e os sintomas dessa infmia.

Procuro resumir o que escrevi anteriormente. A stira no menos convencional que um dilogo entre namorados, ou que um soneto distinguido com a flor natural por

Jos Mara Monner Sans. Seu mtodo a intromisso de sofismas, sua nica lei a inveno simultnea de boas travessuras. Ia esquecendo: tem, alm disso, a obrigao

de ser memorvel.

Cabe aqui certa rplica varonil a que alude De Quincey (Writings, tomo XI, p. 226). Numa discusso teolgica ou literria, lanaram um copo de vinho ao rosto de

um cavalheiro. O agredido no se alterou e disse ao ofensor: "Isto, senhor, uma digresso; aguardo seu argumento". (O protagonista dessa rplica, um tal doutor

Henderson, faleceu em Oxford por volta de 1787, sem deixar-nos nenhuma lembrana a no ser essas exatas palavras: suficiente e bela imortalidade.)

Uma tradio oral que recolhi em Genebra durante os ltimos anos da Primeira Guerra Mundial conta que Miguel Servet disse aos juzes que o haviam condenado fogueira:

"Arderei, mas isso no passa de um fato. Logo continuaremos a discutir na eternidad".

Adrogu, 1933.

FIC~ES

1944

A Esther Zemborain de Torres

468

O JARDIM DE VEREDAS

QUE SE BIFURCAM

1941

PRLOGO

As sete obras deste livro no requerem maior elucidao. A stima ("O jardim de veredas que se bifurcam") policial; seus leitores assistiro execuo e a todos

os preliminares de um-crime cujo propsito no ignoram, mas que no compreendero, parece-me, at o ltimo pargrafo. As outras so fantsticas; uma - "A loteria

em Babilnia" - no totalmente isenta de simbolismo. No sou o primeiro autor da narrativa "A biblioteca de Babel"; os curiosos de sua histria e de sua pr-histria

podem examinar certa pgina do nmero 59 da revista Sur, que registra os nomes heterogneos de Leucipo e de Lasswitz, de Lewis Carroll e de Aristteles. Em "As runas

circulares" tudo irreal; em "Pierre Menard, autor do Quixote", irreal o destino que seu protagonista se impe. O rol de escritos que lhe atribuo no muito

divertido, mas no arbitrrio; um diagrama de sua histria mental...

Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas pginas uma idia cuja perfeita exposio oral cabe em poucos minutos.

Melhor procedimento simular que esses livros j existem e oferecer um resumo, um comentrio. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resartus; assim Butler em The Fair

Haven; obras que tm a imperfeio de serem tambm livros, no menos tautolgicos que os outros. Mais razovel, mais inepto, mais preguioso, preferi a escrita de

notas sobre livros imaginrios. Estas so "Tln, Ligbar, Orbis Tertius"; e o "Exame da obra de Herbert Quain".

J. L. B.

473

TLN, UQBAR, ORBIS TERTIUS

r

Devo conjuno de um espelho e de uma enciclopdia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa chcara da rua Gaona, em Ramos Meja;

a enciclopdia falazmente se chama The Anglo-American Cyclopaedia (New York, 1917) e uma reimpresso literal, mas tambm tardia, da Encyclopaedia Britannica de

19O2. O fato ocorreu faz uns cinco anos. Bioy Casares jantara comigo naquela noite e deteve-nos uma extensa polmica sobre a elaborao de um romance em primeira

pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradies, que permitissem a poucos leitores - a muito poucos leitores - a adivinhao

de uma realidade atroz ou banal. Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na alta noite essa descoberta inevitvel) que os espelhos

tm algo de monstruoso. Ento Bioy Casares lembrou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cpula so abominveis, porque multiplicam o nmero

dos homens. Perguntei-lhe a origem dessa memorvel sentena e ele me respondeu que The Anglo-American Cyclopaedia a registrava, em seu artigo sobre Uqbar. A chcara

(que havamos alugado mobiliada) possua um exemplar dessa obra. Nas ltimas pginas do volume XLVI demos com um artigo sobre Upsala; nas primeiras do XLVII, com

um sobre Ural-Altaic Languages, mas nem uma palavra a respeito de Ugbar. Bioy, um pouco perturbado, consultou os volumes do ndice. Esgotou em vo todos os verbetes

imaginveis: Ukbar, Ucbar, Ookbar, Oukbahr... Antes de ir embora, disse-me que era uma regio do Iraque ou da sia Menor. Confesso que assenti com certa incomodidade.

Conjeturei que esse pas indocumentado e

475

Fices

TLON, UQBAR, oRBIS TERTIUS

esse heresiarca annimo eram uma fico improvisada pela modstia de Bioy para justificar uma frase. O exame estril de um dos atlas de Justus Perthes fortaleceu

minha dvida.

No dia seguinte, Bioy me telefonou de Buenos Aires. Disseme que tinha vista o artigo sobre Ugbar, no volume XXVI da Enciclopdia. No constava o nome do heresiarca,

mas sim a informao de sua doutrina, formulada em palavras quase idnticas s repetidas por ele, ainda que - talvez - literariamente inferiores. Ele tinha recordado:

"Copulation and mirrors are abominable". O texto da Enciclopdia dizia: "Para um desses gnsticos, o visvel universo era uma iluso ou (mais precisamente) um sofisma.

Os espelhos e a paternidade so abominveis (mirrors and fatherhood are hateful) porque o multiplicam e o divulgam". Eu lhe disse, sem faltar verdade, que gostaria

de ver esse artigo. Em poucos dias ele o trouxe. O que me surpreendeu, porque os escrupulosos ndices cartogrficos da Erdkunde de Ritter ignoravam completamente

o nome de Uqbar.

O volume que Bioy trouxe era efetivamente o XXVI da Anglo-American Cyclopaedia. No ante-rosto e na lombada, a indicao alfabtica (Tor-Ups) era a de nosso exemplar,

mas em vez de 917 pginas constava de 921. Essas quatro pginas adicionais compreendiam o artigo sobre Uqbar; no previsto (como ter observado o leitor") pela indicao

alfabtica. Comprovamos depois que no havia outra diferena entre os volumes. Os dois (conforme creio haver indicado) so reimpresses da dcima Encyclopaedia Britannica.

Bioy adquirira seu exemplar num de tantos leiles.

Lemos com certo cuidado o artigo. A passagem recordada por Bioy era talvez a nica surpreendente. O restante parecia muito verossmil, muito ajustado ao tom geral

da obra e (como natural) um pouco maante. Relendo-o, descobrimos sob sua rigorosa escrita uma fundamental vaguidade. Dos catorze nomes que figuravam na parte

geogrfica, apenas reconhecemos trs - Kurassan, Armnia, Erzerum -, interpolados no texto de modo ambguo. Dos nomes histricos, um s: o impostor Esmerdis, o mago,

invocado mais como metfora. A nota parecia precisar as fronteiras de Ugbar, mas seus nebulosos pontos de referncia eram rios e crateras e cadeias dessa mesma regio.

Lemos, verbi grada, que as terras baixas de Tsai Jaldun e o delta do Axa definem a fronteira do Sul e

476

que nas ilhas desse delta procriam os cavalos selvagens. Isso, no comeo da pgina 918. Na seo histrica (pgina 92O) soubemos que, por causa das perseguies

religiosas do sculo XIII, os ortodoxos procuraram refgio nas ilhas, onde ainda perduram seus obeliscos e onde no raro exumar seus espelhos de pedra. A seo

idioma e literatura era breve. Um nico trao memorvel: anotava que a literatura de Uqbar era de carter fantstico e que suas epopias e suas lendas no se referiam

nunca realidade mas s duas regies imaginrias de Mlejnas e de Tln... A bibliografia enumerava quatro volumes que no encontramos at agora, embora o terceiro

- Silas Haslam: History of the Land Called Uqbar, 1874 - figure nos catlogos da livraria de Bernard Quaritch." O primeiro, Lesbare

und lesenswerthe Bemerkungen ber das Land Ukkbar in Klein

Asien, data de 1641 e obra de Johannes Valentinus Andre. O fato significativo; alguns anos depois, deparei com esse nome nas inesperadas pginas de De Quincey

(Writings, dcimo terceiro volume) e soube que era o de um telogo alemo que, em princpios do sculo XVII, descreveu a imaginria comunidade da Rosa Cruz - que

outros depois fundaram, imitao do prefigurado por ele.

Nessa noite visitamos a Biblioteca Nacional. Em vo esgotamos atlas, catlogos, anurios de sociedades geogrficas, memrias de viajantes e historiadores: ningum

estivera jamais em Ugbar. O ndice geral da enciclopdia de Bioy tampouco registrava esse nome. No dia seguinte, Carlos Mastronardi (a quem eu relatara o assunto)

reparou numa livraria de Corrientes e Talcahuano as pretas e douradas lombadas da Anglo-American Cyclopaedia... Entrou e consultou o volume XXVI. Naturalmente, no

deu com o menor indcio de Uqbar.

II

Alguma lembrana limitada e diluda de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel de Adrogu, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusrio

dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses;

l Haslam publicou tambm A General History of Labyrinths.

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esse heresiarca ann- modstia de Bioy po,~o um dos atlas de L~ ~- ~,

No dia sege N

me que tinha ~ ~~N %~,. ~ Enciclopdias ~~ ~ o~ `~~, informao ,~ ~ ~~_, Ny ~ " N

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inferio;~ ~ ~,~ ~ ~~ ~~ J nable~ ~~, wo ~~ ~ N

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TLN, UQBAR, ORBIS TERTIUS

~ era ento. Era alto e

alar fora ruiva. Acho

~s em tempos ia

tografias que nos

os. Meu pai tinha

dessas amizades

cia e que muito

ter intercmbio

~ xadrez, taci

~,om um livro

.tezes, as cores

.mos do sistema duode

~ se escreve 1O). Ashe disse

Trasladando no sei que tabelas

o~simais (nas quais sessenta se escreve 1O).

~ae esse trabalho lhe fora encomendado por um

Paes: no Rio Grande do Sul. H oito anos que o conhe

_~amos e nunca mencionara sua estada nessa regio...

Falamos de vida pastoril, de capangas, da etimologia

brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos orientais ainda

pronunciam gacho) e nada mais se disse - Deus me perdoe -

de funes duodecimais. Em setembro de 1937 (ns no est

vamos no hotel), Herbert Ashe morreu da ruptura de um

aneurisma. Dias antes, recebera do Brasil um pacote selado e

registrado. Era um livro em oitavo maior. Ashe deixou-o no

bar, onde - meses depois - o encontrei. Pus-me a folhe-lo e

senti uma ligeira vertigem de assombro que no descreverei,

porque esta no a histria de minhas emoes, mas de Ugbar

e Tln e Orbis Tertius. Numa noite do Isl, que se chama a

"Noite das Noites", abrem-se de par em par as secretas portas

do cu e mais doce a gua nos cntaros; se essas portas se

abrissem, no sentiria o que nessa tarde senti. O livro estava

redigido em ingls e o compunham 1OO1 pginas. Na amarela

lombada de couro li estas curiosas palavras que o ante-rosto

repetia: AFirst Encyclopaedia of Tln. Vol. XI. Hlaer to Jangr. No

havia indicao de data nem de lugar. Na primeira pgina e

numa folha de papel de seda que cobria uma das lminas co

loridas, estava impresso um valo azul com esta inscrio:

Orbis Tertius. Fazia dois anos que eu descobrira num tomo de

certa enciclopdia pirtica uma sumria descrio de um falso

pas; agora me proporcionava o acaso algo mais precioso e mais rduo. Agora tinha nas mos um vasto fragmento metdico da histria total de um planeta desconhecido,

com suas arquiteturas e seus naipes, com o pavor de suas mitologias e o rumor de suas lnguas, com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pssaros

e seus peixes, com sua lgebra e seu fogo, com sua controvrsia teolgica e metafsica. Tudo isso articulado, coerente, sem visvel propsito doutrinal ou tom pardico.

No "dcimo primeiro tomo" de que falo, h aluses a tomos ulteriores e precedentes. Nstor Ibarra, num artigo j clssico da N.R.F., negou a existncia de tais tomos;

Ezequiel Martnez Estrada e Drieu La Rochelle refutaram, qui vitoriosamente, essa dvida. O fato que at agora as investigaes mais diligentes tm sido estreis.

Em vo desordenamos as bibliotecas das Amricas e da Europa. Alfonso Reyes, saturado dessas fadigas subalternas de ndole policial, prope que todos empreendamos

a obra de reconstruir os muitos e macios tomos que faltam: ex ungue leonem. Calcula, entre srio e jocoso, que uma gerao de tlnistas pode bastar. Esse arriscado

cmputo nos faz voltar ao problema .fundamental: quem so os inventores de Tln? O plural inevitvel, porque a hiptese de um nico inventor - de um infinito Leibniz

trabalhando na treva e na modstia - fora descartada unanimemente. Conjetura-se que este brave new world obra de uma sociedade secreta de astrnomos, de bilogos,

de engenheiros, de metafsicos, de poetas, de qumicos, de algebristas, de moralistas, de pintores, de gemetras... dirigidos por um obscuro homem de gnio. Muitos

so os indivduos que dominam essas disciplinas diversas, mas no os capazes de inveno e menos os capazes de subordinar a inveno a um rigoroso plano sistemtico.

Esse plano to vasto que a contribuio de cada escritor infinitesimal. A princpio, acreditou-se que Tln era um mero caos, uma irresponsvel licena da imaginao;

agora se sabe que um cosmos e as ntimas leis que o regem foram formuladas, ainda que de modo provisrio. Basta-me recordar que as contradies aparentes do Dcimo

Primeiro Tomo so a pedra fundamental da prova de que existem os outros: to lcida e to justa a ordem que nele se observou. As revistas populares divulgaram,

com perdo

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Faces

vel excesso, a zoologia e a topografia de Tln; penso que seus tigres transparentes e suas torres de sangue no merecem, talvez, a contnua ateno de todos os homens.

Atrevo-me a pedir alguns minutos para seu conceito do universo.

Hume observou em definitivo que os argumentos de Berkeley no admitem a menor rplica e no causam a menor convico. Esse parecer totalmente verdico em sua aplicao

terra; totalmente falso em Tln. As naes desse planeta so - congenitamente - idealistas. Sua linguagem e as derivaes de sua linguagem - a religio, as letras,

a metafsica - pressupem o idealismo. O mundo para eles no um concurso de objetos no espao; uma srie heterognea de atos independentes. sucessivo, temporal,

no espacial. No h substantivos na conjetural Ursprache de Tln, da qual procedem os idiomas "atuais" e os dialetos: h verbos impessoais, qualificados por sufixos

(ou prefixos) monossilbicos de valor adverbial. Por exemplo: no h palavra que corresponda palavra lua, mas h um verbo que seria em espanhol lunecer

ou lunar. Surgiu a lua sobre o rio diz-se hlr u fang axaxaxas ml ou seja em sua ordem: para cima (upward) atrs duradourofluir luneceu. (Xul Solar traduz sinteticamente:

upa tras perfluyue lun. Upward, behind the onstreaming it moonedJ

O que antes foi dito se refere aos idiomas do hemisfrio austral. Nos do hemisfrio boreal (sobre cuja Ursprache h bem poucos dados no Dcimo Primeiro Tomo) a clula

primordial no o verbo, mas o adjetivo monossilbico. O substantivo se forma por acumulao de adjetivos. No se diz lua: diz-se

areo-claro sobre escuro-redondo ou alaranjado-tnue-do-cu ou

qualquer outro acrscimo. No caso escolhido, a massa de adjetivos corresponde a um objeto real; o fato puramente fortuito. Na literatura deste hemisfrio (como

no mundo subsistente de Meinong), so muitos os objetos ideais, convocados e dissolvidos num momento, conforme as necessidades poticas. Determina-os, s vezes,

a mera simultaneidade. H objetos compostos de dois termos, um de carter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pssaro. H alguns de

mltiplos: o sol e a gua contra o peito do nadador, o vago rosa trmulo que se v com os olhos fechados, a sensao de quem se deixa levar por um rio e tambm pelo

sonho. Esses objetos de segundo grau podem combinar-se

com outros; o processo, mediante certas abreviaturas, praticamente infinito. H poemas famosos compostos de uma nica enorme palavra. Essa palavra integra um objeto

potico criado pelo autor. O fato de que ningum acredite na realidade dos substantivos faz, paradoxalmente, com que seja interminvel seu nmero. Os idiomas do

hemisfrio boreal de Tln possuem todos os nomes das lnguas indo-europias - e muitos outros mais.

No exagero afirmar que a cultura clssica de Tln compreende uma nica disciplina: a psicologia. As outras esto subordinadas a ela. Disse que os homens desse

planeta concebem o universo como uma srie de processos mentais, que no se desenvolvem no espao, mas de modo sucessivo no tempo. Spinoza atribui a sua inesgotvel

divindade os atributos da extenso e do pensamento; ningum compreenderia em Tln a justaposio do primeiro (que apenas tpico de certos estados) e do segundo

- que sinnimo perfeito do cosmos. Antes, com outras palavras: no concebem que o espacial perdure no tempo. A percepo de uma fumaceira no horizonte e depois

do campo incendiado e depois do charuto meio apagado que produziu a queimada considerada exemplo de associao de idias.

Esse monismo ou idealismo total invalida a cincia. Explicar (ou julgar) um fato uni-lo a outro; essa vinculao, em Tln, um estado posterior do sujeito, que

no pode afetar ou iluminar o estado anterior. Todo estado mental irredutvel: o simples fato de nome-lo - id est, de classific-lo - implica falseio. Disso caberia

deduzir que no h cincias em Tln - nem sequer raciocnios. Mas a paradoxal verdade que existem, em quase inumervel nmero. Com as filosofias acontece o que

acontece com os substantivos no hemisfrio boreal. O fato de que toda filosofia seja de antemo um jogo dialtico, uma Philosophie des Als Ob, contribuiu para multiplic-las.

Sobram os sistemas inacreditveis, mas de arquitetura agradvel ou de tipo sensacional. Os metafsicos de Tln no procuram a verdade nem sequer a verossimilhana:

procuram o assombro. Julgam que a metafsica um ramo da literatura fantstica. Sabem que um sistema no outra coisa que a subordinao de todos os aspectos do

universo a qualquer um deles. At a frase "todos os aspectos" inaceitvel,

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Frcss

porque supe a impossvel adio do instante presente e dos pretritos. Nem lcito o plural "os pretritos", porque supe outra operao impossvel... Uma das

escolas de Tln chega a negar o tempo: argumenta que o presente indefinido, que o futuro no tem realidade seno como esperana presente, que o passado no tem

realidade seno como lembrana presente.z Outra escola declara que transcorreu j todo o tempo e que nossa vida apenas a lembrana ou reflexo crepuscular, e sem

dvida falseado e mutilado, de um processo irrecupervel. Outra, que a histria do universo - e nela nossas vidas e o mais tnue detalhe de nossas vidas - a escrita

que produz um deus subalterno para entender-se com um demnio. Outra, que o universo comparvel a essas criptografias nas quais no valem todos os smbolos e que

s verdade o que acontece a cada trezentas noites. Outra, que enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homm dois homens.

Entre as doutrinas de Tln, nenhuma mereceu tanto escndalo como o materialismo. Alguns pensadores o formularam,com menos clareza que fervor, como quem antecipa

um paradoxo. Para facilitar o entendimento dessa tese inconcebvel, um heresiarca do dcimo primeiro sculo3 ideou o sofisma das nove moedas de cobre, cujo renome

escandaloso equivale em Tln ao das aporias eleticas. Desse "raciocnio especioso" h muitas verses, variam o nmero de moedas e o nmero de achados; eis aqui

a mais comum:

"Tera-feira, X atravessa um caminho deserto e perde nove moedas de cobre. Quinta-feira, Y encontra no caminho quatro moedas, um pouco enferrujadas pela chuva de

quarta-feira. Sexta-feira, Z descobre trs moedas no caminho. Sexta-feira de manh, X encontra duas moedas no corredor de sua casa." O heresiarca queria deduzir

dessa histria a realidade - id est, a continuidade - das nove moedas recuperadas. " absurdo (afirmava) imaginar que quatro das moedas no existiram entre tera

e quinta-feira, trs entre tera-feira e a tarde de

2 Russel (The Analysis of Mind, 1921, pgina 159) supe que o planeta foi criado h poucos minutos, provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusrio.

3 Sculo, de acordo com o sistema duodecimal, significa um perodo de cento e quarenta e quatro anos.

TLON, UQBAR, ORBIS TERTIUS

sexta-feira, duas entre tera-feira e a madrugada de sextafeira. E lgico pensar que existiram - ainda que de algum modo secreto, de compreenso vedada aos homens

- em todos os momentos desses trs prazos."

A linguagem de Tln se opunha a formular esse paradoxo; os demais no o entenderam. Os defensores do sentido comum limitaram-se, no incio, a negar a veracidade

do episdio. Repetiram que era uma falcia verbal, baseada no emprego temerrio de duas palavras neolgicas, no autorizadas pelo uso e alheias a todo pensamento

severo: os verbos encontrar e perder, que comportam uma petio de princpio, porque pressupem a identidade das nove primeiras moedas e das ltimas. Recordaram

que todo substantivo (homem, moeda, quinta-feira, quarta-feira, chuva) somente tem valor metafrico. Denunciaram a prfida circunstncia um pouco enferrujadas pela

chuva de quarta feira, que pressupe o que se procura demonstrar: a persistncia das quatro moedas, entre quinta e tera-feira. Explicaram que uma coisa igualdade

e outra, identidade e formularam uma espcie de reductio ad absurdum, ou seja, o caso hipottico de nove homens que em nove sucessivas noites padecem de uma viva

dor. No seria ridculo - perguntaram - pretender que essa dor fosse a mesma?" Disseram que ao heresiarca no o movia seno Oblasfematrio propsito de atribuir

a divina categoria de ser a umas simples moedas e que, s vezes, negava a pluralidade e outras, no. Argumentaram: se a igualdade abrangesse a identidade, seria

necessrio admitir, do mesmo modo, que as nove moedas eram uma s.

Inacreditavelmente, essas refutaes no resultaram definitivas. Cem anos depois de ser enunciado o problema, um pensador no menos brilhante que o heresiarca, mas

de tradio ortodoxa, formulou uma hiptese muito audaz. Essa conjetura feliz afirma que h um nico sujeito, que esse sujeito indivisvel cada um dos seres do

universo e que estes so os rgos e mscaras da divindade. X Y e Z. Z descobre trs moedas, porque se lembra de que X as perdeu; X encontra

4 Hoje em dia, uma das igrejas de Tln sustenta, platonicamente, que tal dor, que tal matiz verdoso do amarelo, que tal temperatura, que tal som, so a nica realidade.

Todos os homens, no vertiginoso instante do coito, so o mesmo homem.

Todos os homens que repetem uma linha de Shakespeare so Wlliam Shakespeare.

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duas no corredor, porque se lembra de que foram recuperadas as outras... O dcimo primeiro tomo deixa entender que trs razes capitais determinaram a vitria total

desse pantesmo idealista. A primeira, o repdio do solipsismo; a segunda, a possibilidade de conservar a base psicolgica das cincias; a terceira, a possibilidade

de conservar o culto aos deuses. Schopenhauer (o apaixonado e lcido Schopenhauer) formula uma doutrina muito semelhante no primeiro volume de

Parerga und Paralipomena.

A geometria de Tln compreende duas disciplinas um pouco diferentes: a visual e a ttil. A ltima corresponde nossa e a subordinam primeira. A base da geometria

visual a superfcie, no o ponto. Essa geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam. A base de sua

aritmtica a noo de nmeros indefinidos. Acentuam a importncia dos conceitos de maior e menor, que nossos matemticos simbolizam por e por