Jorge Luis Borges - Os Conjurados

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Os Conjurados*****

Jorge Luis Borgeshttp://groups.google.com/group/digitalsource

Traduo Pepe Escobar EDITORA TRS Primeira edio: Alianza Tres, 1985 (Espanha) ndice Segunda edio. Alianza Literatura, 1985 (Argentina) Primeira edio Brasileira: Editora Trs, 1985 Jorge Luis Borges, 1985 Alianza Editorial S.A. Madri, 1985

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NDICE Inscrio Prlogo Cristo na cruz Doomsday Csar Trade A trama Relquias So os rios A jovem noite A tarde Elegia Abramowicz Fragmentos de uma tabuleta de barro decifrada por Edmund Bishop em 1867 Elegia de um parque A suma Quem sonha Algum sonhar Sherlock Holmes Um lobo Midgarthormr Nuvens I Nuvens II On his blindness O fio da fbula Posse do passado Enrique Banchs Sonho sonhado em Edimburgo As folhas do cipreste Cinza Haydee Lange Outro fragmento apcrifo A longa busca Da diversa Andaluzia Gngora Todos os passados, um sonho Pedras e Chile Milonga do infiel Milonga do morto 1982 Juan Lpez e John Ward Os conjurados

InscrioEscrever um poema ensaiar uma magia menor. O instrumento dessa magia, a linguagem, assaz misterioso. Nada sabemos de sua origem. S sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um deles consta de um indefinido e mutante vocabulrio, e de uma cifra indefinida de possibilidades sintticas. Com esses inacessveis elementos formei este livro. (No poema, a cadncia e o ambiente de uma palavra podem pesar mais do que o sentido.) Seu este livro, Maria Kodama. Ser preciso que lhe diga que essa inscrio compreende os crepsculos, os cervos de Nara, a noite que est s e as populosas manhs, as ilhas compartidas, os mares, os desertos e os jardins, o que perde o olvido e o que a memria transforma, a alta voz do muezin, a morte de Hawkwood, os livros e as lminas? S podemos dar o que j foi dado. S podemos dar o que j do outro. Neste livro esto as coisas que sempre foram suas. Que mistrio uma dedicatria, uma entrega de smbolos! J.L.B.

PrlogoA ningum pode maravilhar que o primeiro dos elementos, o fogo, no predomine no livro de um homem de oitenta e tantos anos. Uma rainha, na hora de sua morte, diz que fogo e ar; eu chego a sentir que sou terra, cansada terra. Sigo, sem dvida, escrevendo. Que outra sorte me resta, que outra bela sorte me resta? O xtase de escrever no se mede pelas virtudes ou fraquezas da escritura. Toda obra humana perecvel, afirma Carlyle, mas sua execuo no o . No professo nenhuma esttica. Cada obra confia a seu escritor a forma que busca: o verso, a prosa, o estilo barroco ou simples. As teorias podem ser admirveis estmulos (recordemos a Whitman), mesmo assim podem engendrar monstros ou meras peas de museu. Recordemos o monlogo interior de James Joyce ou o sumamente incmodo Polifemo. No correr dos anos observei que a beleza, como a felicidade, freqente. No passa um dia em que no estejamos, por um instante, no

paraso. No h poeta, por medocre que seja, que no tenha escrito o melhor verso da literatura, mas tambm os mais infelizes. A beleza no privilgio de uns quantos nomes ilustres. Seria muito raro que este livro, que abarca umas quarenta composies, no entesourasse uma s linha secreta, digna de acompanhar-te at o fim. Neste livro h muitos sonhos. Aclaro que foram dons da noite ou, mais precisamente, do amanhecer, e no fices deliberadas . Apenas me atrevi a agregar um ou outro rasgo circunstancial, dos que exige nosso tempo, a partir de Defoe. Dito este prlogo em uma de minhas ptrias, Genebra. J.L.B 9 de Janeiro de 1985

Cristo na cruzCristo na cruz. Os ps tocam a terra. As trs vigas so de igual altura. Cristo no est no meio. o terceiro. A negra barba pende sobre o peito. O rosto no o rosto das lminas. E spero e judeu. No o vejo e o seguirei buscando at o dia ltimo de meus passos pela terra. O homem violado sofre e cala. A coroa de espinhos o lastima. No o alcana o escrnio da plebe que viu sua agonia tantas vezes. A sua ou a de outro. D no mesmo. Cristo na cruz. Desordenadamente pensa no reino que talvez o espera, pensa em uma mulher que no foi sua. No lhe dado ver a teologia, a indecifrvel Trindade, os gnsticos, as catedrais, a navalha de Occam, a prpura, a mitra, a liturgia, a converso de Guthrum pela espada, a Inquisio, o sangue dos mrtires, as atrozes Cruzadas, Joana DArc, o Vaticano que bendiz exrcitos. Sabe que no um deus e que um homem que morre com o dia. No lhe importa. Lhe importa o duro ferro dos cravos. No um romano. No um grego. Geme. Nos deixou esplndidas metforas e uma doutrina do perdo que pode anular o passado. (Essa sentena foi escrita por um irlands em um crcere.) A alma busca o fim, com urgncia. Escureceu um pouco. J morreu. Anda uma mosca pela carne quieta. Que pode me servir que aquele homem tenha sofrido, se eu sofro agora? Kyoto, 1984

DoomsdaySer quando a trombeta ressoe, como escreve So Joo o Telogo. Foi em 1757, segundo o testemunho de Swedenborg. Foi em Israel quando a loba cravou na cruz a carne de Cristo, mas no s ento. Ocorre em cada pulsao de teu sangue. No h um instante que no possa ser a cratera do Inferno. No h um instante que no possa ser a gua do Paraso. No h um instante que no esteja carregado como uma arma. Em cada instante podes ser Caim ou Sidarta, a mscara ou o rosto. Em cada instante pode te revelar seu amor Helena de Tria. Em cada instante o galo pode ter cantado trs vezes. Em cada instante a clepsidra deixa cair a ltima gota.

CsarAqui, o que deixaram os punhais. Aqui essa pobre coisa, um homem morto que se chamava Csar. Aberto; nas crateras da carne, os metais. Aqui o atroz, aqui a detida mquina usada ontem para a glria, para escrever e executar a histria e para o gozo pleno da vida. Aqui tambm o outro, aquele prudente imperador que declinou medalhas, que comandou barcos e batalhas

e que regeu o oriente e o poente. Aqui tambm o outro, o que vir cuja grande sombra o mundo inteiro ser.

TradeO alvio que ter sentido Csar na manh de Farsalia, ao pensar: Hoje a batalha! O alvio que ter sentido Carlos Primeiro ao ver o amanhecer no cristal e pensar: hoje o dia do patbulo, da coragem e do machado. O alvio que tu e eu sentiremos no instante que precede a morte, quando a sorte nos desate do triste costume de ser algum e do peso do universo.

A tramaAs migraes que o historiador, guiado pelas desafortunadas relquias da cermica e do bronze, trata de fixar no mapa, e que no compreenderam os povos que as executaram. As divindades do amanhecer que no deixaram nem um dolo nem um smbolo. O sulco do arado de Caim. O sereno na grama do Paraso. Os hexagramas que um imperador descobriu na carcaa de uma das tartarugas sagradas. As guas que no sabem que so o Ganges. O peso de uma rosa em Perspolis. O peso de uma rosa em Bengala. Os rostos que se ps uma mscara que guarda uma vitrine. O nome da espada de Hengist.

O ltimo sonho de Shakespeare. A pena que traou a curiosa linha: He met the Nightmare and her name he told. 1 O primeiro espelho, o primeiro hexmetro. As pginas que leu um homem cinzento e que lhe revelaram que podia ser Dom Quixote. Um ocaso cujo escarlate perdura em um vaso de Creta. Os brinquedos de um menino que se chamava Tibrio Graco. O anel de ouro de Polcrates que o Destino recusou. No h uma s dessas coisas perdidas que no projete agora uma extensa sombra, e que no determine o que fazes hoje ou o que fars amanh.

RelquiasO hemisfrio austral. Sob sua lgebra de estrelas ignoradas por Ulisses, um homem busca e seguir buscando as relquias daquela epifania que lhe foi dada, h tantos anos, do outro lado de uma numerada porta de hotel, junto ao perptuo Tmisa, que flui como flui esse outro rio, o tnue tempo elemental. A carne esquece seus pesares e seus xtases. O homem espera e sonha. Vagamente resgata umas triviais circunstncias. Um nome de mulher, uma brancura, um corpo j sem rosto, a penumbra de uma tarde sem data, a garoa, umas flores de cera sobre um mrmore e as paredes, cor rosa plido.

Em portugus: Ele encontrou o Pesadelo e disse seu nome. Em ingls, nightmare, pesadelo, significa gua da noite (the night mare). A frase tambm pode ser lida assim. Ele encontrou a gua da Noite e a nomeou.1

So os riosSomos o tempo. Somos a famosa parbola de Herclito o Obscuro. Somos a gua, no o diamante duro, a que se perde, no a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na gua do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o vo rio prefixado, rumo a seu mar. Pela sombra cercado. Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa. A memria no cunha sua moeda. E no entanto h algo que se queda e no entanto h algo que se queixa.

A jovem noiteJ as lustrais guas da noite me absolvem das muitas cores e das muitas formas. J no jardim as aves e os astros exaltam o regresso esperado das antigas normas do sonho e da sombra. J a sombra selou os espelhos que copiam a fico das coisas. Melhor disse Goethe: O prximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepsculo. No jardim as rosas deixam de ser as rosas e querem ser a Rosa.

A tardeAs tardes que vo ser e tero sido so uma s, inconcebivelmente. So um claro cristal, s e doente, inacessvel ao tempo e a seu olvido. So os espelhos dessa tarde eterna que em um cu secreto se entesoura. Naquele cu esto o peixe, a aurora, a balana, a espada e a cisterna. Um e cada arqutipo. Assim Plotino nos ensina em seus livros, que so nove; bem pode ser que o que a nossa vida move seja um reflexo fugaz do divino. A tarde elemental ronda a casa. A de ontem, a de hoje, a que no passa.

ElegiaTudo agora. Abramowicz, o singular sabor da morte, a ningum negado, que me ser oferecido nesta casa ou do outro lado do mar, s margens do teu Rdano, que flui fatalmente como se fosse esse outro e mais antigo Rdano, o Tempo. Tua ser tambm a certeza de que o Tempo

se esquece de seus passados e de que nada irreparvel, ou a contrria certeza de que os dias nada podem apagar, e de que no h um ato, ou um sonho, que no projete uma sombra infinita. Genebra te acreditava um homem de leis, um homem de ditames e de causas, mas em cada palavra, em cada silncio, eras um poeta. Talvez estejas folheando neste momento os diversos livros que no escrevestes, mas que prefixavas e descartavas, e que para ns te justificam e de alguma maneira so. Durante a primeira guerra, enquanto se matavam os homens, sonhamos os dois sonhos que se chamaram Laforgue e Baudelaire. Descobrimos as coisas que descobrem todos os jovens: o ignorante amor, a ironia, o desejo de ser Raskolnikov ou o prncipe Hamlet, as palavras e os poentes. As geraes de Israel estavam em ti quando me disseste sorrindo: Je suis trs fatigu. Jai quatre mille ans. Isto ocorreu na Terra; vo conjecturar a idade que ters no cu. No sei se todavia s algum, no sei se ests me ouvindo. Buenos Aires, quatorze de janeiro de 1984

AbramowiczEssa noite, no longe do cume da colina de Saint Pierre, uma valorosa e venturosa msica grega nos acaba de revelar que a morte e mais inverossmil que a vida e que, por conseguinte, a alma perdura quando seu corpo caos. Isto quer dizer que Maria Kodama, Isabelle Monet e eu somos trs, como ilusoriamente acreditvamos. Somos quatro, j que tambm est conosco, Maurice. Com vinho tinto brindamos sua sade. No fazia falta a tua voz, no fazia falta o roar de tua mo nem tua memria. Estavas a, silencioso e sem dvida sorridente, ao perceber que nos assombrava e maravilhava esse fato notrio que ningum pode morrer. Estavas a, ao nosso lado, e contigo as multides dos que dormem com seus pais, segundo se l nas pginas da Bblia. Contigo estavam as multides das sombras que beberam na tumba ante Ulisses e tambm Ulisses e tambm todos os que foram ou imaginaram os que foram. Todos estavam a, e tambm meus pais e tambm Herclito e Yorick. Como pode morrer uma mulher ou um homem ou uma criana, que foram tantas primaveras e tantas folhas, tantos livros e tantos pssaros e tantas manhs e noites.

Esta noite posso chorar como um homem, posso sentir que pelas mas do rosto as lgrimas resvalam, porque sei que na terra no h uma s coisa que seja mortal e que no projete sua sombra. Esta noite me disseste sem palavras, Abramowicz, que devemos entrar na morte como quem entra em uma festa.

Fragmentos de uma tabuleta de barro decifrada por Edmund Bishop em 1867... a hora sem sombra. Melkart o Deus rege desde o cume do meiodia o mar de Cartago. Anbal a espada de Melkart. As trs fnegas de anis de ouro dos romanos que perecerain na Apulia, seis vezes mil, chegaram ao porto. Quando o outono esteja nos racimos terei ditado o verso final. Louvado seja Baal, Deus dos muitos cus, louvada seja Tanith, a cara de Baal, que deram a vitria a Cartago e que me fizeram herdar a vasta lngua pnica, que ser a lngua da orbe, e cujos caracteres so talismnicos. No morri na batalha como meus filhos, que foram capites na batalha e que no enterrarei, mas ao longo das noites lavrei o cantar das duas guerras e da exultao. Nosso o mar. Que sabem os romanos do mar? Tremem os mrmores de Roma; ouviram o rumor dos elefantes de guerra. Ao fim de violados convnios e de mentirosas palavras, condescendemos com a espada. Tua a espada agora, romano; a tens cravada no peito. Cantei a prpura de Tiro, que nossa me. Cantei os trabalhos dos que descobriram o alfabeto e sulcaram os mares. Cantei a pira da clara rainha. Cantei os remos e os mastros e as rduas tormentas... Berna, 1984

Elegia de um parquePerdeu-se o labirinto. Perderam-se todos os eucaliptos ordenados, os toldos do vero e a viglia do incessante espelho, repetindo cada expresso de cada rosto humano, cada fugacidade. O suspenso relgio, a entretecida madressilva. o arvoredo, as frvolas esttuas, o outro lado da tarde, o trino, o belvedere e o cio da fonte so coisas do passado. Do passado? Se no houve um princpio nem haver um trmino, se nos aguarda uma infinita soma de brancos dias e de negras noites, j somos o passado que seremos. Somos o tempo, o rio indivisvel, somos Uxmal, Cartago e a apagada muralha do romano e o perdido parque que comemoram estes versos.

A sumaAnte a cai de uma parede que nada nos veda imaginar como infinita um homem se sentou e premedita traar com rigorosa pincelada na branca parede o mundo inteiro: portas, balanas, trtaros, jacintos, anjos, bibliotecas, labirintos, ncoras, Uxmal, o infinito, o zero. Povoa de formas a parede. A sorte, que de curiosos dons no avara, lhe permite dar fim sua porfia. No preciso instante da morte descobre que esta vasta algaravia de linhas a imagem de sua cara.

Quem sonhaQue ter sonhado o Tempo at agora, que , como todos os agoras, o pice? Sonhou a espada, cujo melhor lugar o verso. Sonhou e lavrou a sentena, que pode simular a sabedoria. Sonhou a f, sonhou as atrozes Cruzadas. Sonhou os gregos que descobriram o dilogo e a dvida. Sonhou a aniquilao de Cartago pelo fogo e o sal. Sonhou a palavra, esse torpe e rgido smbolo. Sonhou o xtase que tivemos ou que agora sonhamos ter tido. Sonhou a primeira manh de Ur. Sonhou o misterioso amor da bssola. Sonhou a proa do noruegus e a proa do portugus. Sonhou a tica e as metforas do mais estranho dos homens, o que morreu uma tarde em uma cruz. Sonhou o sabor da cicuta na lngua de Scrates. Sonhou esses dois curiosos irmos, o eco e o espelho. Sonhou o livro, esse espelho que sempre nos revela outra face. Sonhou o espelho em que Francisco Lpez Merino e sua imagem viram-se pela ltima vez. Sonhou o espao. Sonhou a msica, que pode prescindir do espao. Sonhou a arte da palavra, ainda mais inexplicvel que a da msica, porque inclui a msica. Sonhou uma

quarta dimenso e a fauna singular que a habita. Sonhou o nmero da areia. Sonhou os nmeros transfinitos, aos quais no se chega contando. Sonhou o primeiro que no trovo ouviu o nome de Thor. Sonhou as opostas caras de Jano, que nunca sero vistas. Sonhou a lua e os dois homens que caminharam pela lua. Sonhou o poo e o pndulo. Sonhou Walt Whitman, que decidiu ser todos os homens, como a divindade de Spinoza. Sonhou o jasmim, que no pode saber que o sonham. Sonhou as geraes das formigas e as geraes dos reis. Sonhou a vasta rede que tecem todas as aranhas do mundo. Sonhou o arado e o martelo, o cncer e a rosa, as campanadas da insnia e o xadrez. Sonhou a enumerao que os tratadistas chamam catica e que, de fato, csmica, porque todas as coisas esto unidas por vnculos secretos. Sonhou minha av Frances Haslam na guarnio de Junn, a um palmo das lanas do deserto, lendo sua Bblia e seu Dickens. Sonhou que nas batalhas os trtaros cantavam. Sonhou a mo de Hokusai, traando uma linha que logo ser uma onda. Sonhou Yorick, que vive para sempre em umas palavras do ilusrio Hamlet. Sonhou os arqutipos. Sonhou que ao longo dos veres, ou em um cu anterior aos veres, h uma s rosa. Sonhou os rostos de teus mortos, que agora so embaadas fotografias. Sonhou a primeira manh de Uxmal. Sonhou o ato da sombra. Sonhou as cem portas de Tebas. Sonhou os passos do labirinto. Sonhou o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha. Sonhou a vida dos espelhos. Sonhou os signos que traar o escriba sentado. Sonhou uma esfera de marfim que guarda outras esferas. Sonhou o caleidoscpio, grato aos cios do enfermo e do menino. Sonhou o deserto. Sonhou o amanhecer que espreita. Sonhou o Ganges e o Tmisa, que so nomes da gua. Sonhou mapas que Ulisses no teria compreendido. Sonhou Alexandre da Macednia. Sonhou o muro do Paraso, que deteve Alexandre. Sonhou o mar e a lgrima. Sonhou o cristal. Sonhou que Algum o sonha.

Algum sonharQuem sonhar o indecifrvel futuro? Sonhar que Alonso Quijano pode ser Dom Quixote sem deixar sua aldeia e seus livros. Sonhar que uma vspera de Ulisses pode ser mais prdiga que o poema que narra seus trabalhos. Sonhar geraes humanas que no reconhecero o nome de Ulisses. Sonhar sonhos mais precisos que a viglia de hoje. Sonhar que poderemos fazer milagres e que no os faremos, porque ser mais real imagin-los. Sonhar mundos to intensos que a voz de uma s de suas aves poderia te matar. Sonhar que o esquecimento e a memria podem ser atos voluntrios, no agresses ou ddivas do azar. Sonhar que veremos com todo o corpo, como queria Milton desde a sombra desses ternos orbes, os olhos. Sonhar um mundo sem a mquina e sem essa doente mquina, o corpo. A vida no um sonho mas pode chegar a ser um sonho, escreve Novalis.

Sherlock HolmesNo saiu de uma me nem soube de maiores. Idntico o caso de Quijano e de Ado. Est feito de azar. Imediato ao cerco o regem os vaivns de variveis leitores. No um erro pensar que nasce no momento em que o v aquele outro que narrar sua histria e que morre em cada eclipse da memria dos que o sonhamos. mais oco que o vento. casto. Nada sabe do amor. No fez caso. Esse homem to viril renunciou arte de amar. Em Baker Street vive s e parte. Alheio tambm a essa outra arte, o ocaso. O sonhou um irlands, que no o quis nunca e que tratou, nos dizem, de mat-lo. Foi em vo.

O homem solitrio prossegue, lupa na mo, sua rara sorte descontnua de coisa trunca. No tem relaes, mas no o perdoa a devoo do outro, que foi seu evangelista e que de seus milagres deixou a lista. Vive de um modo cmodo: em terceira pessoa. No desce mais ao banheiro. Tampouco visitava esse retiro Hamlet, que morre na Dinamarca e que no sabe quase nada dessa comarca da espada e do mar, do arco e da aljava. (Omnia sunt plena Jovis. Sem mais espera diremos daquele justo que d nome aos versos que sua inconstante sombra percorre os diversos domnios em que foi parcelada a esfera.) Atia no lar as acesas ramas ou d morte nos pramos a um co do inferno. Esse alto cavalheiro no sabe que eterno. Resolve tolices e repete epigramas. Nos chega de uma Londres de gs e de neblina uma Londres que se sabe capital de um imprio que lhe interessa pouco, de uma Londres de mistrio tranqilo, que no quer sentir que j declina. No nos maravilhemos. Depois da agonia, o destino ou o azar (que so do mesmo pote) depara com cada qual essa curiosa sorte de ser ecos ou formas que morrem a cada dia. Que morrem at um dia final em que o olvido, que a meta comum, nos olvide do todo. Antes que nos alcance brinquemos com o lodo de ser durante um tempo, de ser e de ter sido. De tarde em tarde Sherlock Holmes nos acua; das boas rotinas que nos restam. A morte e a sesta so outras. Tambm nossa sorte convalescer em um jardim ou mirar a lua.

Um loboFurtivo e cinzento na penumbra ltima, vai deixando seus rastros na margem deste rio sem nome que saciou a sede de sua garganta e cujas guas no repetem estrelas. Esta noite, o lobo uma sombra que est s e que busca a fmea e sente frio. o ltimo lobo da Inglaterra. Odn e Thor o sabem. Em sua alta casa de pedra um rei decidiu acabar com os lobos. Forjado j foi o forte ferro de tua morte. Lobo saxo, engendrastes em vo. No basta ser cruel. s o ltimo. Mil anos passaro e um homem velho te sonhar na Amrica. De nada pode servir-te esse futuro sonho. Hoje te cercam os homens que seguiram pela selva os rastros que deixaste, furtivo e cinzento na penumbra ltima.

MidgarthormrSem fim o mar. Sem fim o peixe, a verde serpente cosmognica que encerra, verde serpente e verde mar, a terra, como ela circular. A boca morde a cauda que lhe chega de longe, desde o outro confim. O forte anel que nos abarca tempestades, brilho, sombra e rumor, reflexos de reflexos.

E tambm a anfisbena. Eternamente miram-se sem horror os mesmos olhos. Cada cabea exala crassamente os ferros da guerra e os despojos. Sonhado foi na Islndia. Os abertos mares o divisaram e o temeram; voltar com o barco maldito que se arma com as unhas dos mortos. Alta ser sua inconcebvel sombra sobre a terra plida no dia de altos lobos e esplndida agonia do crepsculo aquele que no se nomeia. Sua imaginria imagem nos macula. Ao amanhecer o vi no pesadelo.

Nuvens INo haver uma s coisa que no d idia de uma nuvem. O so as catedrais de vasta pedra e bblicos cristais que o templo render. O a Odissia, que muda como o mar. Algo h distinto cada vez que a abrimos. O reflexo de teu rosto j outro no espelho e o dia um duvidoso labirinto. Somos os que se vo. A numerosa nuvem que se desfaz no poente nossa imagem. Incessantemente a rosa se converte em outra rosa. s nuvem, s mar, s olvido. s tambm aquilo que est perdido.

Nuvens IIPelo ar andam plcidas montanhas ou da sombra de cordilheiras trgicas que obscurecem o dia. So as mgicas nuvens. As formas podem ser estranhas. Shakespeare observou uma. Parecia um drago. Essa nuvem de uma tarde em sua palavra resplandece e arde e a seguimos vendo todavia. Que so as nuvens? Uma arquitetura do azar? Deus, talvez, as necessita para a execuo de Sua infinita obra e so fios da trama obscura. Talvez a nuvem seja no menos v do que o homem que a olha de manh.

On his blindnessAo fim dos anos me rodeia uma insistente neblina de luz que as coisas a uma coisa reduz sem forma nem cor. Quase a uma idia. A vasta noite elemental e o dia cheio de gente so essa neblina

de luz duvidosa e fiei que no declina e que espreita no amanhecer. Eu queria ver uma face alguma vez. Ignoro a inexplorada enciclopdia, o prazer de livros em minha mo reconhecer as altas aves e as luas de ouro. Aos outros resta o universo; minha penumbra, o hbito do verso.

O fio da fbulaO fio que a mo de Ariadne deixou na mo de Teseu (na outra estava a espada) para que este afundasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabea de touro ou, como quer Dante, o touro com cabea de homem, e lhe desse morte e pudesse, j executada a proeza, destecer as redes de pedra e voltar a ela, a seu amor. As coisas aconteceram assim. Teseu no podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que em algum lugar prefixado estava Media. O fio se perdeu; o labirinto se perdeu tambm. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ao azar. Nosso bonito dever imaginar que h um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontramos e o perdemos em um ato de f, em uma cadncia, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade. Cnossos, 1984

Posse do passadoSei que perdi tantas coisas que no poderia cont-las e que essas perdies, agora, so o que meu. Sei que perdi o amarelo e o negro e penso nessas impossveis cores como no pensam os que vem. Meu pai morreu e est sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, o fao, me dizem, com sua voz. S o que morreu nosso, s nosso o que perdemos. Ilion foi, mas Ilion perdura no hexmetro que a carpe. Israel foi quando era uma antiga nostalgia. Todo poema, como o tempo, urna, elegia. Nossas so as mulheres que nos deixaram, j no sujeitos vspera, que naufrgio, e aos alarmes e terrores da esperana. No h outros parasos a no ser os parasos perdidos.

Enrique BanchsUm homem cinza. A sorte nua fez que no o quisesse uma mulher; essa histria a histria de cores qualquer mas de quantas h sob a lua a que mais di. Ter pensado em se tirar a vida. No sabia que essa espada, essa amargura, essa agonia, eram o talism, que lhe foi dado para alcanar a pgina que vivia alm da mo que a escrevia e do alto cristal de catedrais. Cumprido seu labor, foi obscuramente um homem que se perde entre a gente; nos deixou coisas imortais.

Sonho sonhado em EdimburgoAntes do amanhecer sonhei um sonho que me deixou espantado e que tratarei de ordenar. Teus maiores te engendram. Na outra fronteira dos desertos h umas salas de aula empoeiradas ou, se se quiser, uns depsitos empoeirados, e nessas salas ou depsitos h filas paralelas de quadros-negros cuja longitude se mede por lguas, nos quais algum traou com giz letras e nmeros. Ignora-se quantos quadros-negros h em conjunto, mas entendese que so muitos e que alguns esto abarrotados e outros quase vazios. As portas das paredes so corredias, maneira do Japo, e esto feitas de um metal oxidado. O edifcio inteiro circular, mas to enorme que de fora no se percebe a menor curvatura, e o que se v uma reta. Os apertados quadros-negros so mais altos que um homem e alcanam at o teto de gesso, que esbranquiado ou cinzento. No flanco esquerdo do quadronegro h primeiro palavras e depois nmeros. As palavras se ordenam verticalmente, como em um dicionrio. A primeira Aar, o rio de Berna. Seguem-na os algarismos arbicos, cuja cifra indefinida mas seguramente no infinita. Indicam o nmero preciso de vezes que vers aquele rio, o nmero preciso de vezes que o descobrirs no mapa, o nmero preciso de vezes que sonhars com ele. A ltima palavra por acaso Zwingli e fica muito longe. Em outro desmedido quadro-negro est inscrita neverness e ao lado dessa estranha palavra h agora uma cifra. Todo o decurso de tua vida est nesses signos. No h um segundo que no esteja roendo uma srie. Esgotars a cifra que corresponde ao sabor do gengibre e seguirs vivendo. Esgotars a cifra que corresponde lisura do cristal e seguirs vivendo alguns dias. Esgotars a cifra das batidas que te foram fixadas e ento ters morrido.

As folhas do cipresteTenho um s inimigo. Nunca saberei de que maneira pde entrar em minha casa, na noite de quatorze de abril de 1977. Foram duas as portas que abriu: a pesada porta da rua e a de meu breve compartimento. Acendeu a luz e me despertou de um pesadelo que no recordo, mas tio qual havia um jardim. Sem aumentar a voz ordenou que me levantasse e me vestisse imediatamente. Havia-se decidido a minha morte e o lugar destinado execuo ficava um pouco longe. Mudo de assombro, obedeci. Era menos alto que eu porm mais robusto, e o dio lhe havia conferido sua fora. No correr dos anos no tinha mudado; s uns poucos fios de prata no cabelo escuro. Animava-o uma espcie de negra felicidade. Sempre me havia detestado e agora ia me matar. O gato Beppo nos olhava de sua eternidade, mas nada fez para me salvar. Tampouco o tigre de cermica azul que h no meu quarto, nem os feiticeiros e gnios de As Mil e Uma Noites. Quis que algo me acompanhasse. Pedi que me deixasse levar um livro. Escolher uma Bblia teria sido demasiado evidente. Dos doze tomos de Emerson minha mo tirou um, ao azar. Para no fazer rudo descemos pela escada. Contei cada degrau. Notei que evitava me tocar, como se o contato pudesse contamin-lo. Na esquina de Charcas e Maipu, em frente ao pequeno convento, esperava um cup. Com um gesto cerimonioso que significava uma ordem, fez com que eu subisse primeiro. O cocheiro 1 sabia nosso destino e fustigou o cavalo. A viagem foi muito lenta, e como era de se supor, silenciosa. Temi (ou esperei) que tambm fosse interminvel. A noite era de lua e serena, e sem um sopro de ar. No havia uma alma nas ruas. A cada lado da carruagem as casas baixas, que eram todas iguais, traavam uma guarda. Pensei: j estamos no Sul. Alto na sombra vi o relgio de uma torre; no grande disco luminoso no havia nem algarismos nem ponteiros. No atravessamos, que eu saiba, uma s avenida. Eu no tinha medo, nem sequer medo de ter medo, nem sequer medo de ter medo de ter medo, infinita maneira dos eleatas, mas quando a portinhola abriu e tive que saltar, quase ca. Subimos por uns degraus de pedra. Havia carneiros singularmente lisos e eram muitas as rvores. Me conduziu ao p de uma delas e ordenou que me estendesse na grama, de costas, com os braos em cruz. Desta posio divisei uma loba romana e soube onde estvamos. A rvore da minha morte era um cipreste. Sem me propor, repeti a famosa linha: Quantum lenta solent inter viburna cupressi.

Recordei que lenta, nesse contexto, quer dizer flexvel, mas nada tinham de flexveis as folhas da minha rvore. Eram iguais, rgidas e lustrosas, e de matria morta. Em cada uma havia um monograma. Senti asco e alvio. Percebi que um grande esforo poderia me salvar. Me salvar e por acaso perd-lo, j que, habitado pelo dio, no se havia fixado no relgio nem nos monstruosos galhos. Soltei meu talism e apertei a grama com as duas mos. Vi pela primeira e ltima vez o fulgor do ao. Acordei; minha mo esquerda tocava a parede do meu quarto. Que pesadelo estranho, pensei, e no tardei a mergulhar no sono. No dia seguinte descobri que na prateleira havia um buraco: faltava o livro de Emerson, que havia ficado no sonho. Dez dias depois me disseram que meu inimigo havia sado de sua casa uma noite e que no havia regressado. Nunca regressar. Encerrado no meu pesadelo, seguir descobrindo com horror, sob a lua que no vi, a cidade de relgios em branco, de rvores falsas que no podem crescer, e ningum sabe que outras coisas.

CinzaUm quarto de hotel, igual a todos. A hora sem metfora, a sesta que nos desagrega e perde. A frescura da gua elemental na garganta. A nvoa tenuamente luminosa que circunda os cegos, noite e dia. O endereo de quem por acaso morreu. A disperso do sonho e dos sonhos. A nossos ps um vago Reno ou Rdano. Um mal-estar que j se foi. Essas coisas demasiado inconspcuas para o verso.

Haydee LangeAs naves de alto bordo, as azuis espadas que partiram da Noruega, de tua Noruega e depredaram mares e deixaram ao tempo e a seus dias os epitfios das pedras rnicas, o cristal de um espelho que te aguarda, teus olhos que olhavam outras coisas, o marco de uma imagem que no vejo o gradil de um jardim junto ao ocaso, uma inflexo de Inglaterra na tua pa1avra, o hbito de Sandburg, umas diverses, as batalhas de Bancroft e de Kohler na tela silenciosa e lcida, as sextas-feiras compartidas. Essas coisas, sem te nomear te nomeiam.

Outro fragmento apcrifoUm dos discpulos do mestre queria falar a ss com ele, mas no se atrevia. O mestre disse: Diga-me que pesadelo te oprime. O discpulo replicou: Me falta valor. O mestre disse: Eu te dou o valor. A histria muito antiga, mas urna tradio, que bem pode no ser apcrifa, conservou as palavras que esses homens disseram, nos limites do deserto e do amanhecer. Disse o discpulo: Cometi h trs anos um grande pecado. No o sabem os outros mas eu o sei, e no posso olhar sem horror minha mo direita. Disse o mestre: Todos os homens pecaram. No dos homens no pecar. O que olhar um homem com dio j lhe ter dado a morte em seu corao. Disse o discpulo: H trs anos, na Samaria, eu matei um homem. O mestre ficou em silncio, mas seu rosto se alterou e o discpulo pde temer sua ira. Disse finalmente: H dezenove anos, na Samaria, eu engendrei um homem. J te arrependeste do que fizeste. Disse o discpulo: isso. Minhas noites so de prece e de pranto. Quero que tu me ds teu perdo. Disse o mestre: Ningum pode perdoar, nem sequer o Senhor. Se a um homem o julgaram por seus atos, no h quem fosse merecedor do inferno e do cu. Ests certo de ser ainda aquele homem que deu morte a seu irmo? Disse o discpulo: J no entendo a ira que me fez desnudar o ao. Disse o mestre: Costumo falar em parbolas para que a verdade grave-se nas almas, mas falarei contigo como um pai fala com seu filho. Eu no sou aquele homem que pecou; tu no s aquele assassino e no h razo alguma para que continues sendo seu escravo. Te incumbem os deveres de todo homem: ser justo e ser feliz. Tu mesmo tens que te salvar. Se algo sobrou de tua culpa, eu a carregarei. O restante daquele dilogo se perdeu.

A longa buscaAnterior ao tempo ou fora do tempo (ambas locues so vs) ou em um lugar que no do espao, h um animal invisvel, por acaso difano, que os homens buscam e que nos busca. Sabemos que no pode ser medido. Sabemos que no pode ser contado, porque as formas que o somam so infinitas. H quem o tenha buscado em um pssaro, que est leito de pssaros; h quem o tenha buscado em uma palavra ou nas letras dessa palavra; h quem o tenha buscado, e o busca, em um livro anterior ao rabe em que foi escrito, e ainda a todas as coisas; h quem o busque na frase Sou O Que Sou. Como as formas universais da escolstica ou os arqutipos de Whitehead, costuma baixar fugazmente. Dizem que habita os espelhos, e que quem se olha O olha. H quem o veja ou entreveja na bela memria de uma batalha ou em cada paraso perdido. Conjectura-se que seu sangue bate em teu sangue, que todos os seres o engendram e foram engendrados por ele e que basta inverter uma clepsidra para medir sua eternidade. Espreita nos crepsculos de Turner, no olhar de uma mulher, na antiga cadncia do hexmetro, na ignorante aurora, na lua do horizonte ou da metfora. Nos elude de segundo em segundo. A sentena do romano se gasta, as noites roem o mrmore.

Da diversa AndaluziaQuantas coisas. Lucano que amoeda o verso e aquele outro a sentena. A mesquita e o arco. A cadncia da gua do Isl na alameda. Os touros da tarde. A bravia msica que tambm delicada. A boa tradio de no fazer nada. Os cabalistas da Judera. Rafael da noite e das largas mesas da amizade. Gngora de ouro. Das ndias o vido tesouro. As naves, os aos, as adargas. Quantas vozes e quanta bizarria e uma s palavra. Andaluzia.

GngoraMarte, a guerra. Febo, o sol. Netuno, o mar que j no podem ver meus olhos porque o embaa o deus. Tais esplios desterram Deus, que Trs e Uno, de meu desperto corao. O fado me impe essa curiosa idolatria. Cercado estou pela mitologia. Nada posso. Por Virglio enfeitiado. Virglio e o latim. Fiz que cada estrofe fosse um rduo labirinto de entretecidas vozes, um recinto vedado ao vulgo, que apenas, nada.

Vejo no tempo que houve uma seta rgida e um cristal na corrente e prolas na lgrima doente. Tal meu estranho oficio de poeta. Que me importam as mofas ou o renome? Troquei em ouro o cabelo, que est vivo. Quem me dir se no secreto arquivo de Deus esto as letras de meu nome? Quero voltar s coisas airosas: a gua, o po, um cntaro, umas rosas...

Todos os passados, um sonhoNinharias. O nome do Muraa, uma mo moderando uma guitarra, uma voz, hoje pretrita que narra para a tarde uma perdida faanha de bordel ou de trio, uma porfia, dois ferros, j ferrugem, se chocaram e algum ficou estendido, me bastaram para erigir uma mitologia. Uma mitologia ensangentada que agora o passado. A sbia histria das classes no menos ilusria que essa mitologia do nada. O passado argila que o presente trabalha a seu capricho. Interminavelmente.

Pedras e ChilePor aqui terei passado tantas vezes. No posso lembr-las. Mais distante que o Ganges me parece o instante ou a tarde que foram. Os reveses da sorte no contam. J so parte dessa dcil argila, meu passado, que embaa o tempo ou que maneja a arte e que nenhum augrio ter decifrado. Talvez na treva houve uma espada, talvez houve uma rosa. Entretecidas sombras a guardam hoje em suas guaridas. S me resta a cinza. Nada. Absolvida das mscaras que tenho sido, serei na morte meu total olvido.

Milonga do infielDo deserto chegou em sua centurea o infiel. Era um pampa dos toldos de Pincn ou de Catriel. Ele e o cavalo eram um s, eram um e um muito veloz. Montado em plo o guiava com o assovio ou a voz.

Havia em seu toldo uma lana que afilava com esmero; pouco servia uma lana contra o fuzil certeiro. Sabia curar com palavras, coisa que no rasteira. Sabia os rumos que levam secreta fronteira. De terra adentro vinha e a terra adentro voltou; e no contou a ningum as coisas estranhas que olhou. Nunca havia visto uma porta, essa coisa to humana e to antiga, nem um ptio nem a cisterna e a roldana. No sabia que por trs das paredes h quartos com seus catres armados, cadeiras, objetos fartos. No o assombrou ver seu rosto repetido no que se espelha; o viu pela primeira vez nessa primeira centelha. Os dois ndios se olharam, nem ficaram cara medonha. Um - qual? - olhava o outro como o que sonha que sonha. Tampouco o assombraria saber-se morto de perto; sua histria chamamos a Conquista do Deserto.

Milonga do mortoEu o sonhei nesta casa entre paredes e portas. Deus permite aos homens sonhar com coisas no tortas. Eu o sonhei mar afora em umas ilhas glaciais. Que nos digam o restante a tumba e os hospitais. Uma de tantas provncias do interior foi sua terra. (No convm que se saiba que morre gente na guerra.) Tiraram-no do quartel, puseram em suas mos as armas e o mandaram a morrer com seus irmos. Trabalhou-se com muita prudncia, falou-se de um modo prolixo. Lhe entregaram a um s tempo o rifle e o crucifixo. Ouviu as vs arengas dos vos generais. Viu o que nunca tinha visto, o sangue nos areais. Ouviu vivas e ouviu morras. ouviu o clamor da gente. Ele s queria saber se era ou se no era valente. Soube naquele momento em que lhe entrava a ferida. Disse No tive medo quando lhe deixou a vida.

Sua morte foi uma secreta vitria. No se assombrem que me d inveja e pena o destino daquele homem.

1982Um acmulo de p formou-se no fundo da prateleira, de trs da fila de livros. Meus olhos no o vem. uma teia de aranha para meu tato. uma parte nfima da trama que chamamos a histria uni versa ou o processo csmico. parte da trama que abarca es trelas agonias, migraes, navegaes, luas, vaga-lumes, viglias, naipes, bigornas, Cartago e Shakespeare. Tambm so parte da trama esta pgina, que no acaba de ser um poema, e o sonho que sonhaste ao amanhecer e que j esqueceste. H um fim da trama? Schopenhauer a acreditava to insensata como os rostos ou os lees que vemos na configurao de uma nuvem. H um fim da trama? Esse fim no pode ser tico, j que a tica uma iluso dos homens, no das inescrutveis divindades. Talvez o acmulo de p no seja menos til para a trama do que as naves que carregam um imprio ou a fragrncia do nardo.

Juan Lpez e John WardA sorte lhes reservou uma poca estranha. O planeta havia sido parcelado em distintos pases, cada um provido de lealdades, de queridas memrias, de um passado sem dvida herico, de direitos, de agravos, de uma mitologia peculiar, de prceres de bronze, de aniversrios, de demagogos e de smbolos. Essa diviso, cara aos cartgrafos, auspiciava as guerras. Lpez havia nascido na cidade junto ao rio imvel; Ward, nos arredores da cidade por onde caminhou Father Brown. Havia estudado castelhano para ler o Quixote. O outro professava o amor de Conrad, que lhe havia sido revelado em uma sala de aula da rua Viamonte. Teriam sido amigos, mas viram-se uma s vez cara a cara, em umas ilhas demasiado famosas, e cada um dos dois foi Caim e cada um, Abel. Foram enterrados juntos. A neve e a corrupo os conhecem. O fato a que me refiro aconteceu em um tempo que no podemos entender.

Os Conjurados No centro da Europa esto conspirando. O fato data de 1291. Trata-se de homens de diversas estirpes, que professam diversas religies e que falam em diversos idiomas. Tomaram a extrema resoluo de ser racionais. Resolveram esquecer suas diferenas e acentuar suas afinidades. Foram soldados da Confederao e depois mercenrios, porque eram pobres e tinham o hbito da guerra e no ignoravam que todas as empresas do homem so igualmente vs. Foram Winkelried, que dava no peito as lanas inimigas para que seus camaradas avancem. So um cirurgio, um pastor ou um procurador, mas tambm so Paracelso e Amiel e Jung e Paul Klee.

No centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razo e de firme f Os cantes agora so vinte e dois. O de Genebra, o ltimo, uma das minhas ptrias. Amanh sero todo o planeta. Talvez o que digo no seja verdadeiro; talvez seja proftico.

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