Jorge Luis Borges - O Fazedor rev

Download Jorge Luis Borges - O Fazedor rev

Post on 09-Jul-2015

1.109 views

Category:

Documents

3 download

TRANSCRIPT

O

Fazedor*****

Jorge Luis Borges

Este livro: O fazedor, parte integrante da coleo:

JORGE LUIS BORGESOBRAS COMPLETAS VOLUME II1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A. 1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/OO Edio baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenao editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emec Editores Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge Schwartz Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparao de originais: Maria Carolina de Araujo Reviso de textos: Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguar, 1485 CEP O534(-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP

e-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica Crculo CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte - Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - So Paulo : Globo, 2OOO. Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) 1. Fico argentina 1. Ttulo. CDD-ar863.4 ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4 1. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4

O FAZEDOR El Hacedor Traduo de Josely Vianna Baptista

http://groups.google.com/group/digitalsource

Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros ttulos nos procure: http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

O Fazedor (1960) e Para Leopoldo Lugones O fazedor Dreamtigers Dilogo sobre um dilogo As unhas Os espelhos velados Argumentum ornithologicum O cativo O simulacro Delia Elana San Marco Dilogo de mortos A trama Um problema Uma rosa amarela A testemunha Martn Fierro Mutaes Parbola de Cervantes e de Quixote Paradiso, XXXI, 108 Parbola do palcio Everthing and nothing Ragnark Inferno, I, 32 Borges e eu Poema dos dons O relgio de areia Xadrez Os espelhos Elvira de Alvear Susana Soca A lua A chuva efgie de um capito dos exrcitos de Cromwell A um velho poeta O outro tigre Blind Pew Aluso a uma sombra de mil oitocentos e noventa tantos

Aluso morte do Coronel Francisco Borges (1835 - 1874) In memoriam A. R. Os Borges A Lus Cames Mil novecentos e vinte e tantos Ode composta em 1960 Ariosto e os rabes Ao iniciar o estudo da gramtica anglo-saxnica Lucas, 23 Adrogu Arte potica

Museu

Do rigor em cincia Quadra Limites O poeta declara seu renome O inimigo generoso Le Regret d'Hraclite In memoriam J.F.K. Eplogo

__________________________

O

Fazedor-1960-

__________________________

A

LEOPOLDO

LUGONES

Os rumores da praa ficam para trs e entro na Biblioteca. De modo quase fsico sinto a gravitao dos livros, o espao sereno de uma ordem, o tempo dissecado e conservado magicamente. esquerda e direita, absortos em seu lcido sonho, perfilam-se os rostos momentneos dos leitores, luz das lmpadas estudiosas, como na hiplage de Milton. Lembro-me de j haver lembrado essa figura, neste lugar, e depois aquele outro epteto que tambm define pelo contorno, o rido camelo do Lunrio, e depois aquele hexmetro da Eneida, que maneja e supera o mesmo artifcio: Ibant obscuri sola sub nocte per umbram.1 Estas reflexes me deixam porta de seu escritrio. Entro; depois de trocarmos algumas convencionais e cordiais palavras, entrego-lhe este livro. Se no me engano, voc no me queria mal, Lugones, e teria gostado de gostar de algum trabalho meu. Isso nunca ocorreu, mas desta vez voc vira as pginas e l com aprovao um que outro verso, talvez por reconhecer nele sua prpria voz, talvez porque a prtica deficiente lhe importe menos que a s teoria. Neste ponto meu sonho se desfaz, como a gua na gua. A vasta biblioteca que me rodeia est na rua Mxico, no na rua Rodrguez Pea, e voc, Lugones, se matou no incio de trinta e oito. Minha vaidade e minha nostalgia armaram uma cena impossvel. Pode ser (digo para mim mesmo), mas amanh eu tambm estarei morto e nossos tempos se confundiro e a cronologia se perder num orbe de smbolos e de algum modo ser justo afirmar que eu lhe trouxe este livro e que voc o aceitou. J. L. B. Buenos Aires, 9 de agosto de 196O.

1

"Iam obscuros, sob a noite s, pelas sombras." (N. da T.)

O

FAZEDOR

NUNCA SE HAVIA demorado nos gozos da memria. As imprecises deslizavam sobre ele, momentneas e vvidas; o vermelho de um oleiro, a abbada repleta de estrelas que tambm eram deuses, a lua, da qual havia cado um leo, a lisura do mrmore sob os lentos dedos sensveis, o gosto da carne de javali, que gostava de dilacerar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fencia, a sombra negra que uma lana projeta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o encorpado vinho cuja aspereza atenuava o mel, podiam envolver por inteiro o espao de sua alma. Conhecia o terror, mas tambm a clera e a coragem, e certa vez foi quem primeiro escalou a muralha inimiga. vido, curioso, casual, sem outra lei que a fruio e a indiferena imediata, andou pela variada terra e contemplou, em uma e em outra margem do mar, as cidades dos homens e seus palcios. Nos mercados populosos ou no sop da montanha de cume incerto, onde era bem possvel haver stiros, ouvira complicadas histrias, que recebeu como recebia a realidade, sem perguntar se eram verdadeiras ou falsas. Gradualmente, o aprazvel universo o foi abandonando; uma insistente nvoa apagou as linhas de sua mo, a noite se despovoou de estrelas, a terra era insegura sob seus ps. Tudo se afastava e se confundia. Quando soube que estava ficando cego, gritou; o pudor estico ainda no fora inventado e Heitor podia fugir sem menoscabo. "No verei mais (sentiu) nem o cu cheio de pavor mitolgico nem este rosto que os anos vo transformar." Dias e noites se passaram sobre esse desespero de sua carne, mas certa manh ele acordou, olhou (j sem assombro) para as coisas indistintas que o cercavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma msica ou uma voz, que tudo isso j lhe acontecera e que ele o enfrentara com temor, mas tambm com jbilo, esperana e curiosidade. Descendeu ento a sua memria, que lhe pareceu interminvel, e conseguiu extrair daquela vertigem a lembrana perdida que reluziu feito a moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, a no ser, talvez, em um sonho. A lembrana era assim. Outro rapaz o insultara e ele acorrera a seu pai para contar-lhe a histria. Este deixou-o falar como se no estivesse ouvindo ou entendendo e despendurou da parede um punhal de bronze, belo e poderoso, que o menino cobiara furtivamente. Agora estava com ele nas mos e a surpresa da posse anulou o ultraje sofrido, mas a voz do pai estava dizendo: "Que algum saiba que s um homem", e havia uma ordem na voz. A noite

ofuscava os caminhos; abraado ao punhal, em que pressentia uma fora mgica, desceu a ladeira ngreme que rodeava a casa e correu pela beira do mar, sonhando-se Ajax e Perseu e povoando de ferimentos e batalhas a obscuridade salobra. O gosto exato daquele instante era o que ele buscava agora; o resto no lhe era importante: as afrontas do desafio, o torpe combate, o retorno com a lmina sangrenta. Outra lembrana, em que tambm existia uma noite e a iminncia de aventura, brotou daquela. Uma mulher, a primeira que os deuses lhe depararam, o havia esperado na sombra de um hipogeu, e ele a procurou por galerias que eram como redes de pedra e por declives que afundavam na sombra. Por que o alcanavam essas lembranas e por que o alcanavam sem amargura, feito mera prefigurao do presente? Com grave assombro compreendeu. Nesta noite de seus olhos mortais, qual agora descendia, aguardavam-no tambm o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque j adivinhava (porque j o rodeava) um rumor de glria e de hexmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deuses no salvaro e de baixis negros que buscam no mar uma ilha querida, o rumor das Odissias e Iladas que era seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memria humana. Sabemos estas coisas, mas no as que sentiu ao descender ltima sombra.

DREAMTIGERS

Na infncia pratiquei com fervor a adorao do tigre: no o tigre oveiro dos camalotes do Paran e da confuso amaznica, mas o tigre rafado, asitico, real, que s homens aguerridos podem enfrentar, sobre um castelo em cima de um elefante. Eu costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas do Zoolgico; apreciava as vastas enciclopdias e os livros de histria natural, pelo esplendor de seus tigres. (Ainda me lembro dessas figuras: eu, que no consigo recordar sem engano a fronte ou o sorriso de uma mulher.) A infncia passou, caducaram os tigres e sua paixo, mas eles prosseguem em meus sonhos. Nessa tela submersa ou catica continuam prevalecendo, e deste modo: Adormecido, distrai-me um sonho qualquer, e de repente percebo que um sonho. Costumo pensar, ento: Isto um sonho, pura diverso de minha vontade, e, j que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre. Oh, incompetncia! Nunca meus sonhos sabem engendrar a almejada fera. O tigre aparece, sim, mas dissecado ou fraco, ou com impuras variaes de forma, ou de um tamanho inadmissvel, ou muito fugaz, ou tirante a co ou a pssaro.

DILOGO SOBRE DILOGO

UM

A. Distrados em discorrer sobre a imortalidade, tnhamos deixado que anoitecesse sem acender a lmpada. No vamos nossos rostos. Com uma indiferena e uma serenidade mais convincentes que o fervor, a voz de Macedonio Fernndez repetia que a alma imortal. Assegurava-me que a morte do corpo totalmente insignificante e que morrer deve ser o fato mais nulo que pode acontecer a um homem. Eu brincava com a navalha de Macedonio; a abria e a fechava. Um acordeom vizinho desfiava infinitamente La Cumparsita, essa cantilena consternada que agrada a muitas pessoas, porque lhes mentiram que antiga... Sugeri a Macedonio que nos suicidssemos, para discutirmos sem estorvo. Z (zombeteiro). Mas imagino que no fim no se resolveram. A (j em plena mstica). Francamente, no me lembro se naquela noite nos suicidamos.

AS

UNHAS

Dceis meias os afagam de dia e sapatos de couro pregados os fortalecem, mas os dedos de meus ps no querem saber. Nada mais lhes interessa alm de emitir unhas: lminas crneas, semitransparentes e elsticas para se defenderem; de quem? Brutos e desconfiados como eles s, no deixam nem por um segundo de preparar esse tnue arsenal. Renegam o universo e o xtase para seguir elaborando infindavelmente pontas inteis, que aparam e tornam a aparar as bruscas tesouradas de Solingen. Em noventa dias crepusculares de resguardo pr-natal estabeleceram essa nica indstria. Quando eu estiver sepultado em La Recoleta, em uma casa cinzenta guarnecida de flores secas e talisms, continuaro seu obstinado trabalho, at que os modere a decomposio. Eles, e a barba em meu rosto.

OS

ESPELHOS

VELADOS

O Isl assevera que, no dia inapelvel do Juzo, todo perpetrador da imagem de uma coisa viva ressuscitar com suas obras, e lhe ser ordenado que as anime, e ele fracassar, e ser entregue com ela ao fogo do castigo. Quando menino, conheci esse horror a uma duplicao ou multiplicao espectral da realidade, mas diante dos grandes espelhos. Seu infalvel e contnuo funcionamento, sua perseguio de meus atos, sua pantomima csmica eram ento sobrenaturais, desde que anoitecia. Um de meus instantes rogos a Deus e a meu anjo da guarda era o de no sonhar com espelhos. Sei que os vigiava com inquietude. Algumas vezes temi que comeassem a divergir da realidade; outras, ver neles meu rosto desfigurado por adversidades estranhas. Soube que esse temor est, outra vez, prodigiosamente no mundo. A histria muito simples. E desagradvel. Em mil novecentos e vinte e sete, conheci uma jovem sombria: primeiro por telefone (porque Jlia comeou sendo uma voz sem nome e sem rosto); depois, em uma esquina ao entardecer. Tinha os olhos assustadoramente grandes, os cabelos negros e escorridos, o corpo estrito. Era neta e bisneta de federalistas, como eu de unitrios, e essa antiga discrdia de nossos sangues era para ns um vnculo, uma melhor posse da ptria. Vivia com os seus em um desmantelado casaro de teto altssimo, no ressentimento e na insipidez da decncia pobre. De tarde raras vezes de noite saamos para caminhar por seu bairro, que era o de Balvanera. Margevamos o paredo da estrada de ferro; pela Sarmiento certa vez fomos at as clareiras do Parque Centenario. Entre ns no houve amor nem fico de amor: eu adivinhava nela uma intensidade que era totalmente estranha ertica, e a temia. comum contar s mulheres, para estabelecer intimidade, traos verdadeiros ou apcrifos do passado pueril; devo ter-lhe falado dos espelhos e sugeri, assim, em 1928, uma alucinao que floresceria em 1931. Agora, acabo de saber que ela enlouqueceu e que em seu quarto os espelhos esto velados, porque neles v meu reflexo, usurpando o seu, e treme e se cala e diz que eu a persigo magicamente. Infausta servido a de minha face, a de uma de minhas antigas faces. Esse odioso destino de minhas feies tem que me tornar odioso tambm, mas j no me importa.

ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM

Fecho os olhos e vejo um bando de pssaros. A viso dura um segundo, talvez menos; no sei quantos pssaros vi. Era definido ou indefinido seu nmero? O problema envolve o da existncia de Deus. Se Deus existe, o nmero definido, porque Deus sabe quantos pssaros vi. Se Deus no existe, o nmero indefinido, porque ningum conseguiu fazer a conta. Neste caso, vi menos de dez pssaros (digamos) e mais de um, mas no vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, trs ou dois pssaros. Vi um nmero entre dez e um, que no nove, oito, sete, seis, cinco, etctera. Esse nmero inteiro inconcebvel; ergo, Deus existe.

O

CATIVO

Em Junn ou em Tapalqun relatam a histria. Um menino desapareceu depois de um ataque indgena; disseram que os ndios o haviam roubado. Seus pais o procuraram inutilmente; anos depois, um soldado que vinha do interior falou-lhes de um ndio de olhos azuis que bem poderia ser seu filho. Por fim, deram com ele (a crnica perdeu as circunstncias e no quero inventar o que no sei) e pensaram reconhec-lo. O homem, trabalhado pelo deserto e pela vida brbara, j no sabia ouvir as palavras da lngua natal, mas deixou-se levar, indiferente e dcil, at a casa. A ele parou, talvez porque os outros parassem. Olhou para a porta, como se no a entendesse. De repente, abaixou a cabea, gritou, atravessou correndo o vestbulo e os dois longos ptios e se meteu na cozinha. Sem vacilar, enfiou o brao na enegrecida chamin e apanhou a faquinha com cabo de chifre que escondera a, quando menino. Seus olhos brilharam de alegria e os pais choraram porque tinham encontrado o filho. Talvez a esta lembrana tenham seguido outras, mas o ndio no podia viver entre paredes e um dia foi em busca de seu deserto. Gostaria de saber o que sentiu naquele instante de vertigem em que o passado e o presente se confundiram; gostaria de saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele xtase ou se conseguiu reconhecer, ao menos como uma criana ou um co, os pais e a casa.

O

SIMULACRO

Em um dos dias de julho de 1952, o enlutado apareceu naquele lugarejo do Chaco. Era alto, magro, com feies de ndio e rosto inexpressivo de tonto ou de mscara; as pessoas o tratavam com deferncia, no por ele, mas pelo que representava ou era agora. Escolheu um rancho prximo do rio; com a ajuda de algumas vizinhas armou uma tbua sobre dois cavaletes e sobre ela uma caixa de papelo com uma boneca de cabelos loiros. Alm disso, acenderam quatro velas em altos castiais e puseram flores ao redor. As pessoas no tardaram a chegar. Velhas desesperadas, meninos atnitos, pees que tiravam com respeito o chapu de palha desfilavam diante da caixa e repetiam: "Meus sentidos psames, General". Este, muito pesaroso, recebia-os junto cabeceira, as mos cruzadas sobre o ventre, feito mulher grvida. Esticava a direita para apertar a mo que lhe estendiam e respondia com inteireza e resignao: "Era o destino. Tudo que era humanamente possvel foi feito". Um mealheiro de lata recebia a quota de dois pesos e a muitos no bastou vir uma nica vez. Que espcie de homem (pergunto-me) planejou e executou essa fnebre farsa? Um fantico, um triste, um alucinado ou um impostor e um cnico? Pensaria ser Pern ao representar seu lastimoso papel de vivo macabro? A histria incrvel, mas aconteceu, e no uma nica vez, quem sabe, e sim muitas, com diversos atores e diferenas locais. Nela est a sntese perfeita de uma poca irreal, e como o reflexo de um sonho ou como aquele drama no drama que se v em Hamlet. O enlutado no era Pern e a boneca loira no era a mulher Eva Duarte, mas tampouco Pern era Pern nem Eva era Eva, e sim desconhecidos ou annimos (cujo nome secreto e cujo rosto verdadeiro ignoramos) que figuraram, para o crdulo amor dos arrabaldes, uma crassa mitologia.

DELIA

ELENA

SAN

MARCO

Despedimo-nos em uma das esquinas do Once. Da outra calada tornei a olhar; voc tinha-se virado e me acenou com a mo. Um rio de veculos e de gente corria entre ns; eram cinco horas de uma tarde qualquer; como eu podia saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o intransponvel? No nos vimos mais e um ano depois voc estava morta. E agora procuro essa memria e a observo e penso que era falsa e que por trs da despedida trivial estava a infinita separao. Ontem noite no sa depois do jantar e reli, para compreender essas coisas, o ltimo ensinamento que Plato pe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando a carne morre. E agora no sei se a verdade est na infausta interpretao ulterior ou na despedida inocente. Porque, se as almas no morrem, bom que em suas despedidas no haja nfase. Dizer adeus negar a separao, ou seja: "Hoje brincamos de nos separar, mas nos veremos amanh". Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, embora se julguem contingentes e efmeros. Delia: um dia reataremos margem de que rio? este dilogo incerto e nos perguntaremos se algum dia, em uma cidade que se perdia em uma plancie, fomos Borges e Delia.

DILOGO

DE

MORTOS

O homem chegou do sul da Inglaterra em um amanhecer do inverno de 1877. Corado, atltico e obeso, foi inevitvel que quase todos o acreditassem ingls, e a verdade que se parecia notavelmente com o arquetpico John Bull. Usava chapu de copa e uma curiosa manta de l com uma abertura no meio. Um grupo de homens, mulheres e crianas o esperava com ansiedade; em muitos uma linha vermelha riscava a garganta, outros no tinham cabea e andavam com receio, vacilantes, como quem caminha nas sombras. Foram cercando o forasteiro e, l do fundo, algum gritou um palavro, mas um terror antigo os detinha e no se atreveram a mais nada. Adiantou-se a todos um militar de pele citrina e olhos como ties; a cabeleira revolta e a barba soturna pareciam comer-lhe o rosto. Dez ou doze ferimentos mortais sulcavam seu corpo como as listras na pele dos tigres. O forasteiro, ao v-lo, alterou-se, mas logo avanou e estendeu-lhe a mo. Que aflio ver um guerreiro to notvel derrubado pelas armas da perfdia! disse em tom rotundo. Mas tambm que ntima satisfao ter ordenado que os vitimrios purgassem seus crimes no patbulo, na praa da Vitria! Se est falando de Santos Prez e dos Reinaf, saiba que j lhes agradeci disse com lenta gravidade o ensangentado. O outro fitou-o como se receasse uma zombaria ou uma ameaa, mas Quiroga prosseguiu: Rosas, voc nunca me entendeu. E como ia me entender, se foram to diversos nossos destinos? A voc coube mandar em uma cidade, que olha para a Europa e que ser das mais famosas do mundo; a mim, guerrear pelos ermos da Amrica, em uma terra pobre, de gachos pobres. Meu imprio foi de lanas e de gritos e de areais e de vitrias quase secretas em lugares perdidos. Que ttulos so esses para a lembrana? Eu vivo e seguirei vivendo por muitos anos na memria das pessoas porque morri assassinado em uma carroa, no lugar chamado Barranca Yaco, por homens com cavalos e espadas. Devo a voc esta ddiva de uma morte bizarra, que no soube apreciar naquela hora, mas que as geraes seguintes no quiseram esquecer. Voc no deve desconhecer umas litografias muito primorosas e a obra interessante que redigiu um valoroso San juanino.

Rosas, que retomara o prumo, olhou-o com desdm. Voc um romntico sentenciou. O favor da posteridade no vale muito mais do que o contemporneo, que no vale nada e que se consegue com algumas divisas. Conheo seu modo de pensar respondeu Quiroga. Em 1852, o destino, que generoso ou queria sond-lo at o fundo, ofereceu-lhe uma morte de homem, em uma batalha. Voc mostrou-se indigno desse presente, porque o combate e o sangue lhe deram medo. Medo? repetiu Rosas. Eu, que domei potros no Sul e depois todo um pas? Pela primeira vez, Quiroga sorriu. Eu sei disse com lentido que voc executou mais de uma lindeza a cavalo, segundo o testemunho imparcial de seus capatazes e pees; mas naquela poca, na Amrica e tambm a cavalo, executaram-se outras lindezas que se chamam Chacabuco e Junn e Palma Redonda e Caseros. Rosas ouviu-o sem se alterar e replicou deste modo: No precisei ser valente. Uma de minhas lindezas, como voc diz, foi conseguir que homens mais valentes que eu lutassem e morressem por mim. Santos Prez, por exemplo, que acabou com voc. A coragem uma questo de agente; uns agentam mais, outros menos, mas cedo ou tarde todos fraquejam. Pode ser disse Quiroga , mas eu vivi e morri e at hoje no sei o que o medo. E agora quero que me apaguem, que me dem outro rosto e outro destino, porque a histria se cansa dos violentos. No sei quem ser o outro, o que faro comigo, mas sei que no ter medo. A mim me basta ser o que sou disse Rosas e no quero ser outro. Tambm as pedras querem ser pedras para sempre disse Quiroga e durante sculos o so, at que se desfazem em p. Eu pensava como voc quando entrei na morte, mas aqui aprendi muitas coisas. Observe, j estamos mudando, os dois.

Mas Rosas no lhe deu ateno e disse, como se pensasse em voz alta: Vai ver no estou afeito a estar morto, mas estes lugares e esta discusso me parecem um sonho, e no um sonho sonhado por mim, e sim por outro, que ainda est por nascer. Pararam de falar porque, nesse instante, Algum os chamou.

A

TRAMA

Para que seu horror seja perfeito, Csar, acossado ao p de uma esttua pelos impacientes punhais de seus amigos, descobre entre os rostos e os aos o de Marco Jnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e j no se defende, exclamando: "At tu, meu filho!". Shakespeare e Quevedo recolhem o pattico grito. Ao destino agradam as repeties, as variantes, as simetrias; dezenove sculos depois, no sul da provncia de Buenos Aires, um gacho agredido por outros gachos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e lhe diz com mansa reprovao e lenta surpresa (estas palavras devem ser ouvidas, no lidas): "Pero, che!". Matam-no e ele no sabe que morre para que se repita uma cena.

UM

PROBLEMA

Imaginemos que em Toledo encontrado um papel com um texto arbico e que palegrafos o declaram um de punho e letra daquele Cide Hamete Benengeli de quem Cervantes derivou o Dom Quixote. No texto lemos que o heri (que, como se sabe, percorria os caminhos da Espanha, armado de espada e lana, e desafiava qualquer um por qualquer motivo) descobre, no final de um e seus muitos combates, que deu morte a um homem. Neste ponto cessa o fragmento; o problema adivinhar, ou conjeturar, como reage Dom Quixote. Que eu saiba, h trs respostas possveis. A primeira de ndole negativa; nada especial acontece, porque no mundo alucinatrio de Dom Quixote a morte no menos comum que a magia e ter matado um homem no tem por que abalar quem se bate, ou acredita bater-se, com endragos e encantadores. A segunda pattica. Dom Quixote jamais conseguiu esquecer que era uma projeo de Alonso Quijano, leitor de histrias fabulosas; ver a morte, compreender que um sonho o levou culpa de Caim, desperta-o de sua consentida loucura talvez para sempre. A terceira talvez seja a mais verossmil. Morto aquele homem, Dom Quixote no pode admitir que o ato tremendo obra de um delrio; a realidade do efeito o faz pressupor uma igual realidade da causa e Dom Quixote no sair nunca de sua loucura. Resta outra conjetura, que alheia ao orbe espanhol e mesmo ao orbe do Ocidente e requer um mbito mais antigo, mais complexo mais fatigado. Dom Quixote que j no Dom Quixote, mas um rei dos ciclos do Industo intui diante do cadver do inimigo que matar e gerar so atos divinos ou mgicos que notoriamente transcendem a condio humana. Sabe que o morto ilusrio, como tambm so a espada sangrenta que lhe pesa na mo e ele mesmo e toda sua vida pretrita e os vastos deuses e o universo.

UMA

ROSA

AMARELA

Nem naquela tarde nem na outra morreu o ilustre Giambattista Marini, que as bocas unanimes da Fama (para usar uma imagem que lhe foi cara) proclamaram o novo Homero e o novo Dante, mas o fato imvel e silencioso que ento ocorreu foi na verdade o ltimo de sua vida. Coberto de anos e de glria, o homem falecia em um vasto leito espanhol de colunas lavradas. No custa nada imaginar a poucos passos uma serena sacada que olha para o poente e, mais abaixo, mrmores e louros e um jardim que duplica suas gradarias em uma gua retangular. Uma mulher colocou em um copo uma rosa amarela; o homem murmura os versos inevitveis que a ele mesmo, para falar com sinceridade, aborrecem um pouco: Prpura do jardim, pompa do prado, boto de primavera, olho de abril... Ento deu-se a revelao. Marini viu a rosa, como Ado pde v-la no Paraso, e sentiu que ela estava em sua eternidade e no em suas palavras e que podemos mencionar ou aludir mas no expressar e que os altos e soberbos volumes que formavam em um ngulo da sala uma penumbra de ouro no eram (como sua vaidade sonhou) um espelho do mundo, mas uma coisa a mais acrescentada ao mundo. Esta iluminao Marini alcanou na vspera de sua morte, e Homero e Dante talvez tambm a tenham alcanado.

A

TESTEMUNHA

Em um estbulo situado quase sombra da nova igreja de pedra, um homem de olhos cinzentos e barba cinzenta, estendido entre o cheiro dos animais, humildemente procura a morte como quem procura o sonho. O dia, fiel a vastas leis secretas, vai deslocando e confundindo as sombras no pobre recinto; l fora esto as terras aradas e um fosso entulhado de folhas mortas e algum rastro de lobo no barro negro onde comeam os bosques. O homem dorme e sonha, esquecido. O toque de orao o desperta. Nos reinos da Inglaterra o som de sinos j um dos hbitos da tarde, mas o homem, quando criana, viu a cara de Woden, o horror divino e a exultao, o tosco dolo de madeira carregado de moedas romanas e de vestimentas pesadas, o sacrifcio de cavalos, ces e prisioneiros. Antes do alvorecer morrer e com ele morrero, sem retornar jamais, as ltimas imagens imediatas dos ritos pagos; o mundo ser um pouco mais pobre quando este saxo estiver morto. Fatos que povoam o espao e que chegam ao fim quando algum morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um nmero infinito de coisas, morre em cada agonia, a no ser que exista uma memria do universo, como conjeturaram os tesofos. No tempo houve um dia que apagou os ltimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junn e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. O que morrer comigo quando eu morrer, que forma pattica ou perecvel o mundo perder? A voz de Macedonio Fernndez, a imagem de um cavalo colorado no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma escrivaninha de mogno?

MARTN

FIERRO

Desta cidade saram exrcitos que pareciam grandes e que depois o foram pela magnificao da glria. Depois de anos, um dos soldados voltou e, com sotaque forasteiro, contou histrias que lhe tinham sucedido em lugares chamados Ituzaing ou Ayacucho. Estas coisas, agora, so como se no tivessem sido. Houve aqui duas tiranias. Durante a primeira, alguns homens, do pescante de uma carroa que saa do mercado do Prata, apregoaram pssegos brancos e amarelos; um menino levantou uma ponta da lona que os cobria e viu cabeas unitrias com a barba ensangentada. A segunda foi para muitos crcere e morte; para todos um mal-estar, um gosto de oprbrio nos atos de cada dia, uma humilhao incessante. Estas coisas, agora, so como se no tivessem sido. Um homem que sabia todas as palavras olhou com minucioso amor as plantas e os pssaros desta terra e os definiu, talvez para sempre, e escreveu com metforas de metais a vasta crnica dos tumultuosos poentes e das formas da lua. Estas coisas, agora, so como se no tivessem sido. Tambm aqui as geraes conheceram essas vicissitudes comuns e de certo modo eternas que so a matria da arte. Estas coisas, agora, so como se no tivessem sido, mas em um quarto de hotel, pelos anos de mil oitocentos e sessenta e tantos, um homem sonhou uma peleja. Um gacho levanta um negro com a faca, arremessa-o como a um saco de ossos, v-o agonizar e morrer, agacha-se para limpar o ao, desamarra seu cavalo e monta devagar, para que no pensem que est fugindo. O que aconteceu uma vez volta a acontecer, infinitamente; os visveis exrcitos se foram e resta um pobre duelo de facas; o sonho de um parte da memria de todos.

MUTAES

Em um corredor vi uma flecha que indicava uma direo e pensei que aquele smbolo inofensivo tinha sido algum dia uma coisa de ferro, um projtil inevitvel e mortal, que entrou na carne dos homens e dos lees e nublou o sol nas Termpilas e deu a Harald Sigurdarson, para sempre, sete palmos de terra inglesa. Dias depois, algum me mostrou uma fotografia de um ginete magiar; um lao enrodilhado rodeava o peito de sua cavalgadura. Soube que o lao, que antes andou pelo ar e prendeu os touros do pasto, no passava de um luxo insolente do arreio domingueiro. No cemitrio do Oeste vi uma cruz rnica, lavrada em mrmore vermelho; os braos eram curvos e se estendiam e os rodeava um crculo. Essa cruz restrita e limitada figurava a outra, de braos livres, que por sua vez figura o patbulo em que um deus padeceu, a "mquina vil" insultada por Luciano de Samsata. Cruz, lao e flecha, velhos utenslios do homem, hoje rebaixados ou elevados a smbolos; no sei por que me maravilham, quando no h na terra uma s coisa que o esquecimento no apague ou que a memria no altere e quando ningum sabe em que imagens o traduzir o futuro.

PARBOLA DE

DE CERVANTES QUIXOTE

E

Cansado de sua terra de Espanha, um velho soldado do rei procurou consolo nas vastas geografias de Ariosto, naquele vale da lua onde fica o tempo que os sonhos desperdiam e no dolo de ouro de Maom que Montalbn roubou. Em mansa zombaria de si mesmo, idealizou um homem crdulo que, perturbado pela leitura de maravilhas, deu de buscar proezas e encantamentos em lugares prosaicos que se chamavam El Toboso ou Montiel. Vencido pela realidade, pela Espanha, Dom Quixote morreu em sua aldeia natal por volta de 1614. Pouco tempo sobreviveu a ele Miguel de Cervantes. Para os dois, para o sonhador e o sonhado, toda essa trama foi a oposio de dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria, o mundo cotidiano e comum do sculo XVII. No imaginaram que os anos acabariam por limar a discrdia, no imaginaram que La Mancha e Montiel e a magra figura do cavaleiro seriam, para o futuro, no menos poticas que as jornadas de Simbad ou que as vastas geografias de Ariosto. Porque no princpio da literatura est o mito, e tambm no fim.

Clnica Devoto, janeiro de 1955.

PARADISO,

XXXI,

1O8

Diodoro Sculo narra a histria de um deus dilacerado e disperso. Quem, ao andar pelo crepsculo ou ao descrever uma poca de seu passado, no sentiu em algum momento que uma coisa infinita se perdera? Os homens perderam um rosto, um rosto irrecupervel, e todos queriam ser aquele peregrino (sonhado no empreo, sob a Rosa) que em Roma v o sudrio de Vernica e murmura com f: Jesus Cristo, meu Deus, Deus verdadeiro, era assim, ento, o teu rosto? Um rosto de pedra h em um caminho e uma inscrio que diz "O verdadeiro Retrato do Santo Rosto do Deus de Jan"; se realmente soubssemos como foi, seria nossa a chave das parbolas e saberamos se o filho do carpinteiro foi tambm o Filho de Deus. Paulo o viu como uma luz que o prostrou; Joo, como o sol quando resplandece em sua fora; Teresa de Jesus, muitas vezes, banhado em luz tranqila, e nunca pde definir a cor de seus olhos. Perdemos esses traos, como pode perder-se um nmero mgico, feito de cifras habituais; como se perde para sempre uma imagem no caleidoscpio. Podemos v-los e ignor-los. O perfil de um judeu no subterrneo talvez seja o de Cristo; as mos que nos do umas moedas em um postigo talvez repitam as que alguns soldados, certo dia, cravaram na cruz. Talvez um trao do rosto crucificado espreite em cada espelho; talvez o rosto tenha morrido, se apagado, para que Deus seja todos. Quem sabe no o veremos esta noite nos labirintos do sonho, sem saber disso amanh.

PARBOLA

DO

PALCIO

Naquele dia, o Imperador Amarelo mostrou seu palcio ao poeta. Foram deixando para trs, em longo desfile, os primeiros terraos ocidentais que, como degraus de um quase inabarcvel anfiteatro, declinam rumo a um paraso ou jardim cujos espelhos de metal e cujos intrincados cercos de zimbro j prefiguravam o labirinto. Alegremente perderam-se nele, de incio como se condescendessem com um jogo e depois no sem inquietude, porque suas avenidas retas sofriam uma curvatura muito suave mas contnua e secretamente eram crculos. Por volta da meia-noite, a observao dos planetas e o oportuno sacrifcio de uma tartaruga permitiram que se desligassem dessa regio que parecia enfeitiada, mas no do sentimento de estar perdido, que os acompanhou at o fim. Antecmaras e ptios e bibliotecas percorreram depois e uma sala hexagonal com uma clepsidra, e certa manh divisaram, de uma torre, um homem de pedra, que logo perderam para sempre. Muitos resplandecentes rios atravessaram em canoas de sndalo, ou um nico rio muitas vezes. Passava o squito imperial e as pessoas se prosternavam, mas um dia arribaram a uma ilha em que algum no fez isso, por nunca ter visto o Filho do Cu, e o carrasco teve de decapit-lo. Negras cabeleiras e negras danas e complicadas mscaras de ouro viram, indiferentes, seus olhos; o real se confundia com o sonhado, ou, melhor dizendo, o real era uma das configuraes do sonho. Parecia impossvel que a terra fosse algo mais que jardins, guas, arquiteturas e formas de esplendor. A cada cem passos uma torre cortava o ar; para os olhos a cor era idntica, mas a primeira de todas era amarela e a ltima escarlate, to delicadas eram as gradaes e to longa a srie. Ao p da penltima torre foi que o poeta (que parecia alheio aos espetculos que eram maravilha de todos) recitou a breve composio que hoje indissoluvelmente ligamos a seu nome e que, conforme repetem os historiadores mais elegantes, deparou-lhe a imortalidade e a morte. O texto se perdeu; h quem diga que constava de um verso; outros, de uma s palavra. O certo, o incrvel, que no poema estava inteiro e minucioso o palcio enorme, com cada ilustre porcelana e em cada desenho em cada porcelana e as penumbras e as luzes dos crepsculos e cada instante desventuroso ou feliz das dinastias de mortais, de deuses e de drages que habitaram nele desde o interminvel passado. Todos se calaram, mas o imperador exclamou:

Arrebataste-me o palcio! e a espada de ferro do verdugo segou a vida do poeta. Outros se referem de outro modo a histria. No mundo no pode haver dois iguais; bastou (dizem-nos) que o poeta pronunciara o poema para que o palcio desaparecesse, como que abolido e fulminado pela ltima slaba. Tais lendas, claro, no passam de fices literrias. O poeta era escravo do Imperador e morreu como tal; sua composio caiu no esquecimento porque merecia o esquecimento e seus descendentes ainda procuram, e no vo encontrar, a palavra do universo.

EVERYTHING

AND

NOTHING

Ningum existiu nele; por trs de seu rosto (que mesmo atravs das pinturas ruins da poca no se assemelha a nenhum outro) e de suas palavras, que eram copiosas, fantsticas e agitadas, no havia seno um pouco de frio, um sonho no sonhado por algum. No incio pensou que todas as pessoas fossem como ele, mas a estranheza de um companheiro com o qual comeara a comentar essa fatuidade revelou-lhe seu erro e fez com que sentisse, para sempre, que um indivduo no deve diferir da espcie. Certa vez pensou que nos livros encontraria remdio para seu mal e ento aprendeu o pouco latim e menos grego de que falaria um contemporneo; depois considerou que no exerccio de um rito elementar da humanidade bem poderia estar o que procurava, e deixou-se iniciar por Anne Hathaway, durante uma longa sesta de junho. Aos vinte e tantos anos foi a Londres. Instintivamente, adestrara-se no hbito de simular que era algum, para que no se descobrisse sua condio de ningum; em Londres encontrou a profisso para a qual estava predestinado, a de ator, que em um palco brinca de ser outro, diante da afluncia de pessoas que brincam de tom-lo por aquele outro. As tarefas histrinicas lhe ensinaram uma felicidade singular, talvez a primeira que conheceu; mas, aclamado o ltimo verso e retirado da cena o ltimo morto, o detestvel sabor da irrealidade recaa sobre ele. Deixava de ser Ferrei ou Tamerlo e voltava a ser ningum. Acuado, deu de imaginar outros heris e outras fbulas trgicas. Assim, enquanto o corpo cumpria seu destino de corpo, em bordis e tabernas de Londres, a alma que o habitava era Csar, que ignora o aviso do ugure, e Julieta, que se aborrece com a cotovia, e Macbeth, que conversa na plancie com as bruxas que tambm so as parcas. Ningum foi tantos homens como aquele homem, que semelhana do egpcio Proteu pde esgotar todas as aparncias do ser. s vezes, deixou em algum canto da obra uma confisso, certo de que no a decifrariam; Ricardo afirma que em sua nica pessoa faz o papel de muitos, e Iago diz com curiosas palavras no sou o que sou. A identidade fundamental do existir, sonhar e representar inspirou-lhe passagens famosas. Durante vinte anos persistiu nessa alucinao dirigida, mas certa manh o assaltaram o tdio e o horror de ser tantos reis que morrem pela espada e tantos amantes infelizes que convergem que convergem, divergem e melodiosamente agonizam. Naquele mesmo dia resolveu a venda do seu teatro. Antes de uma semana havia regressado cidade natal, onde recuperou as arvores e o rio da

infncia e no os vnculos queles outros celebrados por sua musa, ilustre de aluso mitolgica e de vozes latinas. Tinha de ser algum; foi um empresrio aposentado que fez fortuna e a quem interessa os emprstimos, os litgios e a pequena usura. Nesse personagem ditou o rido testamento que conhecemos, do qual deliberadamente excluiu todo trao pattico ou literrio. Costumavam visitar seu retiro amigos de Londres, e ele retomava para eles o papel de poeta. A histria acrescenta que, antes ou depois de morrer, soube-se diante de Deus e disse: Eu, que tantos homens fui em vo, quero ser um eu. A voz de Deus lhe respondeu, em um torvelinho: Eu tampouco o sou; sonhei o mundo como sonhaste tua obra, meu Shakespeare, e entre as formas de meu sonho est tu, que como eu s muitos e ningum.

RAGNARK

Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens figuram as impresses que pensamos que causam; no sentimos horror porque uma esfinge nos oprime, sonhamos uma esfinge para explicar o horror que sentimos. Se isso assim, como poderia uma mera crnica de suas formas transmitir o estupor, a exaltao, os alarmes, a ameaa e o jbilo que teceram o sonho dessa noite? Ensaiarei esta crnica, no entanto; talvez o fato de que uma nica cena tenha integrado aquele sonho apague ou atenue a dificuldade essencial. O lugar era a Faculdade de Filosofia e Letras; a hora, o entardecer. Tudo (como costuma ocorrer nos sonhos) era um pouco diferente; uma ligeira magnificao alterava as coisas. Elegamos autoridades; eu falava com Pedro Henrquez Urea, que na viglia morreu h muitos anos. Bruscamente atordoou-nos um clamor de manifestao ou de charanga. Gritos humanos e animais chegavam do Bajo. Uma voz clamou: "Esto vindo!". E depois "Os Deuses! Os Deuses!". Quatro ou cinco sujeitos saram da turba e ocuparam o estrado da Aula Magna. Todos ns aplaudimos, chorando; eram os Deuses que voltavam aps um desterro de sculos. Engrandecidos pelo estrado, a cabea jogada para trs e o peito para a frente, receberam com soberba nossa homenagem. Um deles segurava um galho, que se conformava, sem dvida, singela botnica dos sonhos; outro, com um gesto amplo, estendia a mo, que era uma garra; uma das faces de Jano olhava com receio o encurvado bico de Thot. Talvez excitado por nossos aplausos, outro, j no sei qual, prorrompeu em um cacarejo vitorioso, incrivelmente acre, com algo de gargarejo e de assovio. As coisas, desde aquele momento, mudaram. Tudo comeou com a suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses no sabiam falar. Sculos de vida fugitiva e feral haviam atrofiado neles o humano; a lua do Isl e a cruz de Roma tinham sido implacveis com esses prfugos. Testas muito baixas, dentaduras amarelas, bigodes ralos de mulato ou de chins e beios bestiais revelavam a degenerao da estirpe olmpica. Sua indumentria no correspondia a uma pobreza decorosa e decente, e sim ao luxo malvolo das casas de jogo e dos bordis do Bajo. Em uma lapela sangrava um cravo; em um palet ajustado adivinhava-se o vulto de uma adaga. Bruscamente sentimos que jogavam sua ultima cartada, que eram

matreiros, ignorantes e cruis como velhos animais carnvoros e que, se nos deixssemos levar pelo medo ou pela pena, acabariam destruindo-nos. Sacamos os pesados revlveres (de repente houve revlveres no sonho) e alegremente demos morte aos Deuses.

INFERNO,

I,

32

Do crepsculo do dia ao crepsculo da noite, um leopardo, nos anos finais do sculo XII, via umas tbuas de madeira, umas barras verticais de ferro, homens e mulheres cambiantes, um paredo e talvez um canalete de pedra com folhas secas. No sabia, no podia saber, que ansiava por amor e crueldade e pelo ardente prazer de dilacerar e pelo vento com cheiro de veado, mas algo nele se sufocava e se rebelava e Deus lhe falou em um sonho: "Vives e morrers nesta priso, para que um homem que conheo te olhe um nmero determinado de vezes e no te esquea e ponha tua figura e teu smbolo em um poema, que tem seu preciso lugar na trama do universo. Sofres o cativeiro, mas ters dado uma palavra ao poema". Deus, no sonho, iluminou a rudeza do animal e este compreendeu as razes e aceitou esse destino, mas s houve nele, ao despertar, uma obscura resignao, uma valorosa ignorncia, porque a mquina do mundo complexa demais para a simplicidade de uma fera. Anos depois, Dante morria em Ravena, to injustiado e to s como qualquer outro homem. Em um sonho, Deus lhe declarou o secreto propsito de sua vida e de seu labor; Dante, maravilhado, soube por fim quem era e o que era e abenoou suas amarguras. A tradio refere que, ao despertar, sentiu que tinha recebido e perdido uma coisa infinita, algo que no poderia recuperar nem mesmo vislumbrar, porque a mquina do mundo complexa demais para a simplicidade dos homens.

BORGES

E

EU

Ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez j mecanicamente, na contemplao do arco de um saguo e da cancela; de Borges tenho notcias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionrio biogrfico. Agra-dam-me os relgios de areia, os mapas, a tipografia do sculo XVIII, as etimologias, o sabor do caf e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferncias, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu-tos de um ator. Seria exagerado afirmar que a nossa relao hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. No me custa confessar que conseguiu certas pginas vlidas, mas essas pginas no me podem salvar, talvez porque o bom j no seja de algum, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradio. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen-te, e s algum instante de mim poder sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hbito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, no em mim (se que sou algum), mas reconheo-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. H anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora so de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida uma fuga e tudo perco, tudo do esquecimento ou do outro. No sei qual dos dois escreve esta pgina.

POEMA

DOS

DONS

Ningum rebaixe a lgrima ou rejeite Esta declarao da maestria De Deus, que com magnfica ironia Deu-me a um s tempo os livros e a noite. Da cidade de livros tornou donos Estes olhos sem luz, que s concedem Em ler entre as bibliotecas dos sonhos Insensatos pargrafos que cedem As alvas a seu af. Em vo o dia Prodiga-lhes seus livros infinitos, rduos como os rduos manuscritos Que pereceram em Alexandria. De fome e de sede (narra uma histria grega) Morre um rei entre fontes e jardins; Eu fatigo sem rumo os confins Dessa alta e funda biblioteca cega. Enciclopdias, atlas, o Oriente E o Ocidente, centrias, dinastias, Smbolos, cosmos e cosmogonias Brindam as paredes, mas inutilmente. Em minha sombra, o oco breu com desvelo Investigo, o bculo indeciso, Eu, que me figurava o Paraso Tendo uma biblioteca por modelo. Algo, que por certo no se vislumbra No termo acaso, rege estas coisas; Outro j recebeu em outras nebulosas Tardes os muitos livros e a penumbra.

Ao errar pelas lentas galerias Sinto s vezes com vago horror sagrado Que sou o outro, o morto, habituado Aos mesmos passos e nos mesmos dias. Qual de ns dois escreve este poema De uma s sombra e de um eu plural? O nome que me assina essencial, Se indiviso e uno esse antema? Groussac ou Borges, olho este querido Mundo que se deforma e que se apaga Numa empalidecida cinza vaga Que se parece ao sonho e ao olvido.

O

RELGIO

DE

AREIA

Est certo que se mea com a dura Sombra que uma coluna no estio Estende ou com a gua daquele rio Em que Herclito viu nossa loucura O tempo, j que ao tempo e sorte Se parecem os dois: a impondervel Sombra diurna e o curso irrevogvel Da gua que prossegue em seu norte. Est certo, mas o tempo nos desertos Outra substncia achou, suave e pesada, Que parece ter sido imaginada Para medir o tempo dos mortos. Surge assim o alegrico instrumento Das gravuras dos dicionrios, A pea que os grises antiqurios Relegaro a esse mundo cinzento do bispo sem seu par, da espada inerme, do apagado telescpio, do sndalo mordido pelo pio, do prprio p, do acaso e do nada. Quem no se demorou perante o rspido E ttrico instrumento que acompanha Na destra mo do deus uma gadanha, Com o risco por Drer repetido? Pelo pice aberto o cone inverso Deixa cair a cautelosa areia, Ouro gradual que se solta e recheia O cncavo cristal, seu universo.

agradvel observar a arcana Areia que desliza e que declina E, prestes a cair, se recombina Com uma pressa inteiramente humana. A areia dos ciclos imutvel, A histria da areia infinita; E, sob tuas venturas ou a desdita, Se abisma a eternidade invulnervel. No se detm jamais essa cada. Eu me dessangro, no o vidro. O rito De decantar a areia infinito E com a areia vai-se nossa vida. Nos minutos da areia o tempo csmico Acredito sentir: aquela histria Que guarda em seus espelhos a memria Ou a que dissolveu o Letes mgico. O pilar de fumaa e o que fumega, Cartago e Roma e a perigosa guerra, Simo, o Mago, os sete ps de terra Que o rei saxo oferta ao da Noruega, A tudo arrasta e perde este infalvel Fio sutil de areia numerosa. No vou salvar-me eu, fortuita coisa De tempo, que matria perecvel.

XADREZ I Em seu austero canto, os jogadores Regem as lentas peas. O tabuleiro Os demora at o alvorecer nesse severo Espao em que se odeiam duas cores. L dentro irradiam mgicos rigores As formas: torre homrica, ligeiro Cavalo, armada rainha, rei postreiro, Oblquo bispo e pees agressores. Quando os jogadores tiverem ido, Quando o tempo os tiver consumido, Certamente no ter cessado o rito. No Oriente acendeu-se esta guerra Cujo anfiteatro hoje toda a terra. Como o outro, este jogo infinito. II Tnue rei, oblquo bispo, encarniada Rainha, peo ladino e torre a prumo Sobre o preto e o branco de seu rumo Procuram e travam sua batalha armada. No sabem que a mo assinalada Do jogador governa seu destino, No sabem que um rigor adamantino Sujeita seu arbtrio e sua jornada. Tambm o jogador prisioneiro (A mxima de Ornar) de um tabuleiro De negras noites e de brancos dias. Deus move o jogador, e este, a pea.

Que deus detrs de Deus o ardil comea De p e tempo e sonho e agonias?

OS

ESPELHOS

Eu que senti o horror dos espelhos No s perante o vidro impenetrvel Onde acaba e comea, inabitvel, Um impossvel espao de reflexos Mas ante a gua especular que imita O outro azul em seu profundo cu Que sulca o ilusrio vo, ao lu, Da ave inversa ou que um tremor agita E ante a superfcie silenciosa Do bano sutil cujo fulgor Repete como um sonho o alvor De um vago mrmore ou uma vaga rosa, Hoje, ao fim de tantos e perplexos Anos errando sob a vria lua, Pergunto-me que acaso da fortuna Fez com que eu temesse os espelhos. Espelhos de metal, emascarado Espelho de caoba que na bruma De seu rubro crepsculo esfuma Esse rosto que olha e olhado, Infinitos os vejo, elementais Executores de um antigo pacto, Multiplicar o mundo como o ato Generativo, insones e fatais. Prolongam este intil mundo torto

Na vertigem de seus emaranhados; So s vezes de tarde embaados Pelo alento de algum que no est morto. O vidro nos espreita. Se entre as quatro Paredes do quarto existe um espelho, J no estou sozinho. H outro. H o reflexo Que arma na aurora um sigiloso teatro. Tudo acontece e na memria perda Dentro dos gabinetes cristalinos Onde, como fantsticos rabinos, Lemos livros da direita esquerda. Cludio, rei de uma tarde, rei sonhado, No sentiu que era um sonho at o dia Em que um ator mimou sua felonia Com arte silenciosa, em um tablado. Que haja sonhos estranho, que haja espelhos, Que o usual e gasto repertrio De cada dia inclua o ilusrio Orbe profundo que urdem os reflexos. O empenho de Deus (eu penso) assombra, Com essa inapreensvel arquitetura Que edifica a luz com a brunidura Do cristal e, com o sonho, a sombra. Deus inventou as noites que se armam De sonhos e as formas do espelho Para que o homem sinta que reflexo E vaidade. Por isso nos alarmam.

ELVIRA

DE

ALVEAR

Todas as coisas teve e lentamente Todas a abandonaram. Ns a vimos Armada de beleza. A manh E o claro meio-dia lhe mostraram, Desde seu znite, os formosos reinos Dessa terra. A tarde os foi apagando. Os favorveis astros (a infinita E ubqua rede causal) lhe haviam dado A fortuna, que dissipa as distncias Como o tapete do rabe e confunde O desejo, a posse e o dom do verso, Que transforma as penas verdadeiras Em msica, em rumor e em smbolo, E o fervor, e no sangue a batalha De Ituzaing e o peso dos louros, E o prazer de perder-se no errante Rio do tempo (rio e labirinto) E no lento colorido das tardes. Todas as coisas a deixaram, menos Uma. A generosa cortesia Acompanhou-a at o fim da jornada, Para alm do delrio e do eclipse, De modo quase angelical. De Elvira O que primeiro vi, h tantos anos, Foi o sorriso, e o que vejo por ltimo.

SUSANA

SOCA

Com lento amor fitava os dispersos Coloridos da tarde. E se perdia Com gosto na complexa melodia Ou na curiosa existncia dos versos. No o elementar vermelho mas Os grises Fiaram seu destino delicado, Apto a discernir e exercitado Tanto na oscilao como em matizes. Sem atrever-se a pisar este perplexo Labirinto, observava, sorrateira, As formas, o tumulto e a carreira, Como aquela outra dama do espelho. Deuses que moram para alm do rogo A abandonaram a esse tigre, o Fogo.

A

LUA

Conta a histria que naquele passado Tempo em que ocorreram tantos fatos Reais, imaginrios e inexatos Um homem concebeu o desmesurado Projeto de cifrar o universo Em um livro e com mpeto infinito Erigiu o alto e rduo manuscrito E limou e declamou o ltimo verso. J ia render graas fortuna Quando ao elevar os olhos viu um polido Disco no ar e entendeu, aturdido, Que se havia esquecido da lua. A histria que narrei, mesmo fingida, Bem pode figurar o malefcio De todos que exercemos o ofcio De mudar em palavras nossa vida. Sempre se perde o essencial. uma Lei de toda palavra sobre o nume. No a elude este enredo que resume O meu longo comrcio com a lua. No sei onde a avistei a vez primeira, Se foi no cu anterior da doutrina Do grego ou se na tarde que declina Sobre o ptio do poo e da figueira. Como se sabe, esta inconstante vida Pode bem ser, entre outras coisas, bela, E houve assim uma tarde em que com ela Te contemplamos, oh, lua compartida.

Mais que as luas das noites eu acedo Em recordar as do verso: a enfeitiada Dragon moon que d horror balada E a lua sangrenta de Quevedo. De outra lua de sangue e de escarlata Falou Joo em seu livro de ferozes Prodgios e de jbilos atrozes; Outras mais claras luas h de prata. Pitgoras com sangue (narra uma Tradio) escrevia num espelho E os homens ento liam o reflexo Naquele outro espelho que a lua. De ferro h uma selva onde mora O alto lobo cuja estranha sorte derrubar a lua e dar-lhe morte Quando avermelhe o mar a ltima aurora. (Isto o Norte proftico j sabe E tambm que nesse dia os profundos Mares do mundo destruiro a nave Que se faz com as unhas dos defuntos.) Quando, em Genebra ou Zrich, a fortuna Quis que eu tambm fosse poeta, Eu me impus, como todos, a secreta Obrigao de definir a lua. Com uma espcie de pena que tenteia, Esgotava modestas variantes, Temeroso de que Lugones antes J houvesse usado o mbar ou a areia. De longnquo marfim, fumaa, fria Neve foram as luas que alumbraram Versos que certamente no alcanaram A rdua honra da tipografia. Pensava que o poeta aquele homem

Que, como o rubro Ado do Paraso, Impe a cada coisa seu preciso E verdadeiro e no sabido nome. Ariosto me ensinou que a duvidosa Lua abriga os sonhos, o inapreensvel, O tempo que se perde, o possvel Ou o impossvel, que a mesma coisa. De Diana triforme Apolodoro Deixou-me divisar a sombra mgica; Hugo deu-me uma foice que era de ouro, E um irlands, sua negra lua trgica. E, enquanto eu sondava aquela mina Das luas todas da mitologia, Ali estava, na virada da esquina, A lua celestial de cada dia. Sei que entre todas as palavras uma H para lembr-la ou figur-la. O segredo, a meu ver, est em us-la Com humildade. a palavra lua. Eu no me atrevo a macular sua pura Apario com uma imagem ufana; Vejo-a indecifrvel e cotidiana E para alm de minha literatura. Eu sei que a lua ou a palavra lua uma letra inventada para A complexa escritura dessa rara Coisa que somos, numerosa e una. um dos vrios smbolos que ao homem D o fado ou o acaso para um dia De exaltao gloriosa ou de agonia Este escrever seu verdadeiro nome.

A

CHUVA

A tarde se aclarou de inesperado Porque j cai a chuva minuciosa. Cai ou caiu. A chuva uma coisa Que sem dvida ocorre no passado. Esta chuva que agora ofusca os vidros Vai alegrar em subrbios perdidos As pretas uvas de uma parra no horto Que deixou de existir. Esta molhada Tarde me traz a voz, a voz ansiada, De meu pai que retorna e no est morto.

EFGIE DE UM CAPITO DOS EXRCITOS DE CROMWELL

No rendero de Marte as muralhas A este, que salmos do Senhor inspiram; De outra luz (de outro sculo) miram Os olhos, que miraram as batalhas. A mo segura os ferros da espada. Pela verde regio caminha a guerra; Para l da penumbra est a Inglaterra, E o cavalo e a glria e tua jornada. Capito, os anseios so enganos, Intil o arns e intil a porfia Do homem cujo termo um dia; Tudo j teve fim h muitos anos. H de ferir-te um ferro enferrujado; Ests (como estamos) condenado.

A

UM

VELHO

POETA

O Caminhas pelo campo de Castela E quase no o vs. Um intrincado Versculo de Joo teu cuidado E mal notaste a luz amarela Do poente. A difusa luz delira E nos confins do Leste se dilata Essa lua de escrnio e de escarlata Que talvez seja o espelho da Ira. O olhar elevas e a contemplas. Uma Memria de algo que foi teu comea E se dissipa. A plida cabea Curvas e segues caminhando triste, Sem recordar o verso que escreveste: E seu epitfio a sangrenta lua.

O

OUTRO

TIGRE

And the craft that createth a semblance MORRIS: Sigurd the Volsung, 1876.

Penso em um tigre. A penumbra exalta A vasta Biblioteca laboriosa E parece afastar suas estantes; Forte, inocente, ensangentado e novo, Ele ir por sua selva e sua manh E deixar seu rastro na lodosa Margem de um rio cujo nome ignora (Em seu mundo no h nomes nem passado, E no h futuro, s um instante certo.) E vencer as brbaras distncias, Farejar no enleado labirinto Dos olores o olor da alvorada E o olor deleitvel do veado; Entre as riscas do bambu decifro Suas riscas e pressinto a ossatura Sob essa pele esplndida que vibra. Inutilmente interpem-se os convexos Mares e os desertos do planeta; Desta morada de um remoto porto Da Amrica do Sul, te sigo e sonho, Oh, tigre das ribeiras do rio Ganges. Corre a tarde em minha alma e pondero Que o tigre vocativo de meu verso um tigre de smbolos e sombras, Uma srie de tropos literrios E de memrias da enciclopdia, No o tigre fatal, jia nefasta Que, sob o sol ou a diversa lua, Vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala Sua rotina de amor, de cio e de morte.

A esse tigre dos smbolos opus O verdadeiro, o de sangue quente, O que dizima uma tribo de bfalos E hoje, 3 de agosto de 59, Estende sobre o prado uma pausada Sombra, mas s o fato de nome-lo E de conjeturar sua circunstncia Torna-o fico da arte e no criatura Animada das que andam pela terra. Procuraremos um terceiro tigre. Como os outros, este ser uma forma De meu sonho, um sistema de palavras Humanas, no o tigre vertebrado Que, para alm dessas mitologias, Pisa a terra. Sei disso, mas algo Me impe esta aventura indefinida, Insensata e antiga, e persevero Em procurar pelo tempo da tarde O outro tigre, o que no est no verso.

BLIND

PEW

Longe do mar e da formosa guerra, Que assim o amor todo o perdido louva, O bucaneiro cego fatigava Os terrosos caminhos da Inglaterra. Escorraado pelos ces das granjas, Caoada dos meninos do povoado, Dormia um enfermio e gretado Sono no enegrecido p das sanjas. Sabia que em remotas praias de ouro Era seu um recndito tesouro E isso serenava sua adversa sorte; A ti tambm, em outras praias de ouro, Te aguarda incorruptvel teu tesouro: A vasta e vaga e necessria morte.

ALUSO A UMA SOMBRA DE MIL OITOCENTOS E NOVENTA E TANTOS

Nada. Apenas a faca de Muraa. Na tarde cinza s o caso truncado. No sei por que nas tardes me acompanha Este assassino jamais avistado. Palermo era mais baixo. A muralha Amarela da priso dominava Subrbio e lamaal. Por essa brava Regio andou a srdida navalha. A navalha. O rosto se apagou E desse mercenrio cujo crasso Ofcio era a coragem no restou Mais que uma sombra e um fulgor de ao. Que o tempo, que os mrmores empana, Salve este firme nome, Juan Murava.

ALUSO MORTE DO CORONEL FRANCISCO BORGES (1833-1874)

Deixo-o no cavalo, nessa hora Crepuscular em que buscou a morte; Que de todas as horas de sua sorte Esta perdure, amarga e vencedora. Avana pelo campo a brancura Do cavalo e do poncho. A paciente Morte espreita nos rifles. Tristemente, Francisco Borges vai pela planura. Isto que o cercava, a metralha, Isto que v, o pampa sem medida, o que viu e ouviu por toda a vida. Est no cotidiano, na batalha. Alto o deixo em seu pico universo E quase intocado pelo verso.

IN

MEMORIAM

A.

R.

O vago acaso ou as precisas leis Que regem este sonho, o universo, Permitiram-me compartir um terso Trecho do curso com Alfonso Reyes. Soube bem essa arte que nenhum Outro abarcou, nem Simbad nem Ulisses, Que passar de um a outros pases E estar inteiramente em cada um. Se a memria lhe cravou sua flecha Alguma vez, lavrou com o violento Metal da arma o numeroso e lento Alexandrino ou a aflita endecha. Nos trabalhos o assistiu a humana Esperana e foi lume de sua vida Dar com o verso que no mais se olvida E renovar a prosa castelhana. Alm do Mio Cid de passo tardo E dessa grei que quer ser obscura, Rastreava a fugaz literatura At os arrabaldes do lunfardo. Entre os jardins, os cinco, de Marini Demorou-se, mas algo nele havia Imortal e essencial que preferia O rduo estudo e o dever divino. A bem dizer, preferiu os jardins Para a meditao, onde Porfrio Erigiu ante as sombras e o delrio A Arvore do Princpio e dos Fins. Reyes, a indecifrvel providncia

Que administra o prdigo e o parco Deu-nos, a alguns, o setor ou o arco, Mas a ti a total circunferncia. O ditoso buscavas ou o triste Que ocultam frontispcios e renomes; Como o Deus de Ergena, preferiste Ser ningum para ser todos os homens. Vastos e delicados esplendores Teu estilo alcanou, precisa rosa, E s guerras de Deus tornou gozosa A veia militar de antecessores. Onde anda o mexicano? ( minha questo.) Contemplar, com o horror de dipo Ante a estranha Esfinge, o Arqutipo Impassvel do Rosto ou da Mo? Ou errar, como Swedenborg queria, Por um orbe mais vvido e complexo Que o terreno, que apenas reflexo Daquela alta e celeste algaravia? Se (como esses imprios da laca E do bano ensinam) a memria Lavra seu ntimo den, j h na glria Outro Mxico e outro Cuernavaca. Conhece Deus as cores que a sorte Prope ao homem para alm do dia; Por estas ruas ando. Todavia Sei muito pouco a respeito da morte. S uma coisa sei. Que Alfonso Reyes (Onde quer que o mar o tenha lanado) Vai se aplicar feliz e desvelado Ao outro enigma e s outras leis. Ao mpar tributemos, ao diverso O clamor e os aplausos da vitria;

No profane minha lgrima este verso Que nosso amor inscreve em sua memria.

OS

BORGES

Bem pouco sei de meus antecessores Portugueses, os Borges: vaga gente Que prossegue em minha carne, obscuramente, Seus hbitos, rigores e temores. Tnues como se nunca houvessem sido E alheios aos trmites da arte, Indecifravelmente fazem parte Do tempo, dessa terra e do olvido. Melhor assim. Vencida a peleis, So Portugal, so a famosa gente Que forou as muralhas do Oriente E fez-se ao mar e ao outro mar de areia. So o rei que no mstico deserto Perdeu-se e o que jura no estar morto.

A

LUS

DE

CAMES

Sem pena e sem ira o tempo vela As hericas espadas. Pobre e triste A tua ptria saudosa preferiste Retornar, capito, morrendo nela, E com ela. No mgico deserto A flor de Portugal se havia perdido E o spero espanhol, antes vencido, Ameaava o seu flanco aberto. Quero saber se aqum dessa ribeira Extrema compreendeste humildemente Que todo o perdido, o Ocidente E o Oriente, o ao e a bandeira, Perduraria (alheio a toda humana Mutao) em tua Eneida lusitana.

MIL

NOVECENTOS E TANTOS

VINTE

E

A roda dos astros no infinita E o tigre uma das formas que retornam, Mas ns, longe do acaso e da aventura, Nos vamos desterrados para um tempo exausto, O tempo no qual nada pode ocorrer. O universo, o trgico universo, no estava aqui E era preciso procur-lo nos ontens; Eu tramava a humilde mitologia de taipas e de facas E Ricardo pensava em seus vaqueiros. No sabamos que o futuro encerrava o raio, No pressentimos a afronta, o incndio e a noite terrvel da Aliana; Nada nos disse que a histria argentina sairia andando pelas ruas, A histria, a indignao, o amor, As multides feito o mar, o nome de Crdoba, O sabor do real e do inacreditvel, o horror e a glria.

ODE

COMPOSTA

EM

1960

O claro acaso ou as secretas leis Que regem este sonho, meu destino, Querem, oh, necessria e doce ptria Que no sem glria e sem oprbrio abarcas Cento e cinqenta laboriosos anos, Que a gota, eu, fale contigo, o rio, Que o instante, eu, fale contigo, o tempo, E que o ntimo dilogo recorra, Como costume, aos ritos e sombra Que amam os deuses e ao pudor do verso. Ptria, eu te senti nos devastados Poentes dos vastos arrabaldes E nessa flor de cardo que o pampeiro Traz para o ptio e na serena chuva, Nos costumes vagarosos dos astros E na mo que afina uma guitarra E na gravitao dessa plancie Que desde longe nosso sangue sente, Como o breto o mar, e em piedosos Smbolos e jarres de uma abbada E no amor submisso dos jasmins, Na prata da moldura e no roar Suave de um mogno silencioso E em sabores de carnes e de frutas E na bandeira quase azul e branca De um quartel e em plidas histrias De faca e de esquina e nas tardes To iguais que se apagam e nos deixam E na vaga memria afortunada De ptios com escravos que levavam O nome dos senhores e nas pobres Folhas daqueles livros para cegos Que o fogo dispersou e no cair Dessas picas chuvas de setembro Que ningum esquecer, mas essas coisas So apenas teus modos e teus smbolos.

s mais que teu extenso territrio E que os dias de teu extenso tempo, s mais que essa soma inconcebvel De tuas geraes. Ns no sabemos Como s para Deus em meio ao vivo Interior dos arqutipos eternos, Porm por esse rosto vislumbrado Vivemos e morremos e ansiamos, Oh, inseparvel e misteriosa ptria.

ARIOSTO

E

OS

RABES

Ningum pode escrever um livro. Para Que um livro seja verdadeiramente, Se requerem a aurora e o poente, Sculos, armas e o mar que une e separa. Assim pensou Ariosto, que ao pausado Deleite deu-se, no cio de caminhos De claros mrmores e de negros pinhos, De voltar a sonhar o j sonhado. O ar de sua Itlia era opulento De sonhos, que com as formas da guerra Que em duros sculos cansou a terra Urdiram a memria e o esquecimento. Uma legio que se perdeu nos vales Da Aquitnia caiu numa emboscada; Assim nasceu o sonho de uma espada E do comoque clama em Roncesvalles. Seus dolos e exrcitos o rudo Saxo por sobre os hortos da Inglaterra Dispersou em severa e torpe guerra E um sonho Artur o que restou de tudo. Das ilhas boreais onde um cego Sol desvanece o mar, nos veio o sonho Da virgem adormecida que seu dono Aguarda, atrs de um crculo de fogo. Quem sabe se da Prsia ou do Parnaso Veio o outro sonho do corcel alado Que pelo ar o feiticeiro armado Urge e que afunda no deserto ocaso. Como sobre o corcel do feiticeiro, Ariosto viu os reinos de uma terra

Sulcada pelos festejos da guerra E do jovem amor aventureiro. Como atravs de tnue bruma de ouro, Viu no mundo um jardim que seus confins Expande em outros ntimos jardins Para o amor de Anglica e Medoro. Como esses ilusrios esplendores Que no Industo deixa entrever o pio, Pelo Furioso passam os amores Numa desordem de caleidoscpio. No ignorou o amor nem a ironia E assim sonhou, de pudoroso modo, O singular castelo que ele todo (Como de resto a vida) uma falsia. Como a todo poeta, a fortuna Ou o destino deu-lhe sorte rara; Ia pelos caminhos de Ferrara E ao mesmo tempo andava pela lua. Com a escria dos sonhos, indistinto Limo que o Nilo dos sonhos deixa, Com eles foi tecida a madeixa Desse resplandecente labirinto, Desse enorme diamante no qual um homem Pode perder-se venturosamente Por espaos de msica indolente, Para alm de sua carne e de seu nome. A Europa inteira se perdeu. Por obra Daquela ingnua e maliciosa arte, Milton pde chorar de Brandimarte O fim e de Dalinda a soobra. Perdeu-se a Europa, mas outros condes Deu o vasto sonho famosa gente Que habita os desertos do Oriente

E a noite repleta de lees. De um rei que entrega, ao despontar o dia, Sua rainha de uma noite implacvel Cimitarra, nos conta o deleitvel Livro que o tempo encanta todavia. Asas que so a brusca noite, cruis Garras que tm suspenso um elefante, Magnticas montanhas cujo amante Abrao faz destroos dos baixis, A terra sustentada por um touro E o touro por um peixe; abracadabras, Talisms e msticas palavras Que no granito abrem grutas de ouro; Isso sonhou a sarracena gente Que segue as bandeiras de Agramante; Isso, que vagos rostos com turbante Sonharam, apossou-se do Ocidente. E o Orlando agora uma risonha Regio que estende inabitadas milhas De indolentes e ociosas maravilhas Que so um sonho que ningum mais sonha. Por islmicas artes reduzido A pura erudio, a mera histria, Est s, se sonhando. (Toda glria somente uma das formas do olvido.) Pelo vidro j plido a tremente Luz de uma tarde mais roa o volume E ardem e se consomem, o costume, Os outros sobre a capa esvanecente. Nessa deserta sala o silencioso Livro viaja pelo tempo. Auroras Ficam para trs e as noturnas horas E minha vida, um sonho pressuroso.

AO INICIAR O ESTUDO DA GRAMTICA ANGLO-SAXNICA

No final de cinqenta geraes (Tais abismos a todos ns depara o tempo) Volto, na margem ulterior de um grande rio Que no alcanaram os drages do viking, s speras e laboriosas palavras Que, com uma boca tornada p, Usei nos dias de Nortmbria e de Mrcia, Antes de ser Haslam ou Borges. No sbado lamos que Jlio Csar Foi o primeiro a vir de Romeburg para desvelar a Bretanha; Antes que voltem os racimos eu terei ouvido A voz do rouxinol do enigma E a elegia dos doze guerreiros Que cercam o tmulo de seu rei. Smbolos de outros smbolos, variantes Do futuro ingls ou alemo me parecem estas palavras Que algum dia foram imagens E que um homem usou para celebrar o mar ou uma espada; Amanh voltarei a viver, Amanh fyr no ser fire e sim essa sorte De deus domesticado e cambiante Que a ningum est dado olhar sem um antigo assombro. Louvada seja a infinita Urdidura dos efeitos e das causas Que antes de mostrar-me o espelho Em que no verei ningum ou verei outro Concede-me essa pura contemplao De uma linguagem da alvorada.

LUCAS

23

Gentio ou hebreu ou simplesmente um homem Cujo rosto no tempo est perdido; J no resgataremos do olvido As silenciosas letras de seu nome. Da clemncia ele soube o que consegue Saber um malfeitor que no lenho Crava a Judia. Do tempo que antecede Nada sabemos hoje. Em seu empenho ltimo de morrer crucificado, Ouviu, por entre os escrnios da gente, Que o que estava morrendo a seu lado Era Deus, e lhe disse cegamente: "Lembra-te de mim quando vieres A teu reino", e a voz inconcebvel Que um dia julgar todos os seres Lhe prometeu de sua Cruz terrvel O Paraso. Nada mais disseram At que veio o fim, mas a histria No deixar que morra a memria Daquela tarde em que os dois morreram. Oh, amigos, a inocncia deste amigo De Jesus Cristo, o candor improviso Que o fez pedir e ter o Paraso A partir dos oprbrios do castigo, Era o que tantas vezes ao pecado Lanou-o e ao acaso ensangentado.

ADROGU

Ningum na noite indecifrvel tema Que eu me perca entre as negras flores Desse parque, onde tecem seu sistema Propcio aos nostlgicos amores Ou ao cio das tardes o secreto Pssaro que um s mesmo canto afina, A gua circular e o coreto, A vaga esttua e a duvidosa runa. Oca na sombra oca, a cocheira Marca (sei disso) os trmulos confins Deste mundo de p e de jasmins, Grato a Verlaine e grato a Julio Herrera. Concedem sombra os eucaliptos Seu olor medicinal: essa fragrncia antiga Que, para alm do tempo e da ambgua Linguagem, nomeia o tempo dos stios. Meu passo busca e encontra o esperado Umbral. Recorta o terrao sua beira Escura e no ptio axadrezado Goteja peridica a torneira. Repousam do outro lado das portas Aqueles que em virtude de seus sonhos So entre a sombra visionria donos Do vasto ontem e das coisas mortas. Cada objeto conheo deste velho Edifcio: as lminas de mica Sobre uma pedra gris que se duplica Continuamente no difuso espelho E essa cabea de leo que morde

Uma argola e os vidros com suas cores Que revelam ao menino os primores De um mundo rubro e de outro mundo verde. Para alm do acaso e da morte Sobrevivem, e cada qual tem sua histria, Mas tudo isso ocorre nessa sorte De quarta dimenso, que a memria. Nela e s nela permanecem agora Os ptios e jardins. E o passado Os guarda neste crculo vedado Que abarca a um tempo s Vsper e aurora. Como pude perder esse preciso Arranjo de coisas simples e amorosas, Inacessveis hoje como as rosas Que ao primeiro Ado deu o Paraso? O antigo estupor de uma elegia Ao pensar nessa casa me transpassa, E no entendo como o tempo passa, Eu, que sou tempo e sangue e agonia.

ARTE

POTICA

Fitar o rio feito de tempo e gua E recordar que o tempo outro rio, Saber que nos perdemos como o rio E que os rostos passam como a gua. Sentir que a viglia outro sonho Que sonha no sonhar e que a morte Que teme nossa carne essa morte De cada noite, que se chama sonho. No dia ou no ano ver um smbolo Dos dias de um homem e de seus anos, Transformar o ultraje desses anos Em msica, em rumor e em smbolo, Na morte ver o sonho, ver no ocaso Um triste ouro, tal a poesia, Que imortal e pobre. A poesia Retorna como a aurora e o ocaso. s vezes pelas tardes certo rosto Contempla-nos do fundo de um espelho; A arte deve ser como esse espelho Que nos revela nosso prprio rosto. Contam que Ulisses, farto de prodgios, Chorou de amor ao divisar sua taca Verde e humilde. A arte essa taca De verde eternidade, sem prodgios. Tambm como o rio interminvel Que passa e fica e cristal de um mesmo Herclito inconstante, que o mesmo E outro, como o rio interminvel.

__________________________

Museu__________________________

DO

RIGOR

NA

CINCIA

...Naquele Imprio, a Arte da Cartografia alcanou tal Perfeio que o mapa de uma nica Provncia ocupava toda uma Cidade, e o mapa do imprio, toda uma Provncia. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados no foram satisfatrios e os Colgios de Cartgrafos levantaram um Mapa do Imprio, que tinha o tamanho do Imprio e coincidia pontualmente com ele. Menos Afeitas ao Estudo da Cartografia, as Geraes Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era Intil e no sem Impiedade o entregaram s Inclemncias do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaadas Runas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o Pas no h outra relquia das Disciplinas Geogrficas.

(Surez Miranda: Viajes de varones Prudentes, livro quarto, cap. XIV, Lrida,1658.)

QUADRA

Morreram outros, mas isso aconteceu no passado, Que a estao (ningum o ignora) mais propcia morte. possvel que eu, sdito de Yacub Almansur, Morra como tiveram de morrer as rosas e Aristteles? (De Div de Almotsim El Magrebi, sculo XII)

LIMITES

H uma linha de Verlaine que no voltarei a lembrar, H uma rua prxima proibida a meus passos, H um espelho que me fitou pela ltima vez, H uma porta que fechei at o fim do mundo, Entre os livros de minha biblioteca (posso v-los agora) H um que no mais abrirei. Neste vero farei cinqenta anos; A morte me desgasta; incessante.

(De Inscripciones, de Julio Platero Haedo, Montevidu, 1923.)

O

POETA DECLARA RENOME

SEU

O crculo do cu mede minha glria, As bibliotecas do Oriente disputam os meus versos, Os emires me procuram para encher-me de ouro a boca, Os anjos j sabem de memria meu ltimo zjel. Meus instrumentos de trabalho so a humilhao e a angstia; Quem dera eu tivesse nascido morto.

(De Div de Abulcsim EI Hadrami, sculo XII)

O

INIMIGO

GENEROSO

Magnus Barfod, no ano 11O2, empreendeu a conquista geral dos reinos da Irlanda; diz-se que na vspera de sua morte recebeu esta saudao de Muirchertach, rei em Dublin: Que em teus exrcitos militem o ouro e a tempestade, Magnus Barfod. Que amanh, nos campos de meu reino, seja feliz tua batalha. Que tuas mos de rei team terrveis a teia da espada. Que sejam alimento do cisne rubro os que se opem a tua espada. Que te saciem de glria teus muitos deuses, que te saciem de sangue. Que sejas vitorioso na aurora, rei que pisas a Irlanda. Que de teus muitos dias nenhum brilhe como o dia de amanh. Porque esse dia ser o ltimo. Juro-te, rei Magnus. Porque, antes que se apague sua luz, eu te vencerei e te apagarei, Magnus Barfod.

(De Anhang zur Heimskringla, de H. Gering, 1893.)

LE

REGRET

DHRACLITE

Eu, que tantos homens fui, jamais fui Aquele em cujo abrao desfalecia Matilde Urbach.

(Gaspar Camerarius, em Deliciae Poetarum Borussiae, VII, 16.)

IN

MEMORIAM

J.

F.

K.

Esta bala antiga. Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevidu, Arredondo, que passara longo tempo sem ver ningum, para que o soubessem sem cmplices. Trinta anos antes, o mesmo projtil matou Lincoln, por obra criminosa ou mgica de um ator, que as palavras de Shakespeare tinham transformado em Marco Bruto, assassino de Csar. Em meados do sculo XVII, a vingana a usou para dar morte a Gustavo Adolfo da Sucia, em meio pblica hecatombe de uma batalha. Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigrao pitagrica no prpria apenas dos homens. Foi o cordo de seda que no Oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroaram os defensores do lamo, foi a lmina triangular que segou o pescoo de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi o veneno que o chefe cartagins guardava em um anel de ferro, foi a serena taa que em um entardecer Scrates bebeu. No alvorecer do tempo foi a pedra que Caim atirou em Abel e ser muitas coisas que hoje sequer imaginamos e que podero dar fim aos homens e a seu prodigioso e frgil destino.

EPLOGO

Queira Deus que a monotonia essencial desta miscelnea (que o tempo compilou, no eu, e que admite peas pretritas que no me atrevi a emendar, porque as escrevi com outro conceito de literatura) seja menos evidente que a diversidade geogrfica ou histrica dos temas. De todos os livros que fiz dar estampa, nenhum, creio, to pessoal como esta coletnea e desordenada silva de varia leccin, precisamente porque prdiga em reflexos e interpolaes. Poucas coisas me aconteceram e muitas coisas li. Ou melhor: poucas coisas me aconteceram mais dignas de memria que o pensamento de Schopenhauer ou a msica verbal da Inglaterra. Um homem se prope a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espao com imagens de provncias, de reinos, de montanhas, de baas, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traa a imagem de seu rosto.

J.L.B. Buenos Aires, 31 de outubro de 196O.

http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google.com/group/digitalsource