Jorge Luis Borges-O Aleph (pdf)(rev)

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OO AAlleepphh JORGE LUIS BORGES http://groups-beta.google.com/group/digitalsource Este livro: O Aleph , parte integrante da coleo: JJOORRGGEE LLUUIISS BBOORRGGEESS OOBBRRAASS CCOOMMPPLLEETTAASS VOLUME 1 1923-1949 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras Completas 98-3272 Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1998 das tradues by Editora Globo S.A. 1 Reimpresso-9/98 2 Reimpresso-1/99 3 Reimpresso 12/99 Edio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha. Coordenao editorial: Carlos V. Fras Capa: Joseph Llbach / Emec Editores Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge Schwartz Preparao de textos: Maria Carolina de Arajo Reviso de textos: Flvio Martins, Levon Yacubian, Luciana Vieira Alves e Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: GraphBox Agradecimentos a Antonio Fernndez Ferrer, Maite Celada, Ana Cecilia Olmos, Blas Matamoro, Fernando Paixo, Daniel Samoilovich e Michel Sleiman Agradecimentos especiais a lida Lois Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguar, 1485 CEP O5346-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP E-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica Crculo CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges_ volume 1 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 1999. Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. V. 1. 1923-1949 / v. 2. 1952-1972 / v. 3. 1975-1985 / v. 4. 1975-1988 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) / ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) ISBN 85-25O-2879-7 (v. 3) / ISBN 85-25O-288O-O (v. 4.) 1. Fico argentina 1. Ttulo. ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4 2. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4 CDD-ar863.4 O ALEPH 1949 El Aleph Traduo de Flvio Jos Cardozo Reviso de traduo: Maria Carolina de Arajo A Leonor Acevedo de Borges NDICE O imortal O morto Os telogos Histria do guerreiro e da cativa Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829 1874) Emma Zunz A casa de Astrion A outra morte Deutsches Requiem A procura de Averris O Zahir A escritura do Deus Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto Os dois reis e os dois labirintos A espera O homem no umbral O Aleph Eplogo OO IIMMOORRTTAALL __________________________________________ Solomon saith: "There is no new thing upon the earth". So that as Plato had an imagination, "that all knowledge was but remembrance"; so Solomon giveth his sentence, "that all novelty is but oblivion". FRANCIS BACON: Essays LVIII. Em Londres, em princpios do ms de junho de 1929, o antiqurio Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu princesa de Lucinge os seis volumes em quarto-menor (1715-172O) da Ilada de Pope. A princesa adquiriu-os; ao receb-los, trocou algumas palavras com ele. Era; diz-nos, um homem muito magro e terroso, de olhos apagados e barba cinzenta, de traos singularmente vagos. Empregava com fluidez e ignorncia as diversas lnguas; em poucos minutos, passou do francs ao ingls e do ingls a uma conjuno enigmtica de espanhol de Salonica e de portugus de Macau. Em outubro, a princesa ouviu de um passageiro do Zeus que Cartaphilus havia morrido no mar, ao regressar a Esmirna, e que o haviam enterrado na ilha de Ios. No ltimo tomo da Ilada encontrou este manuscrito. O original est escrito em ingls e abundante em latinismos. A verso que oferecemos literal. I Que eu me lembre, meus trabalhos comearam em um jardim de Tebas Hekatmpylos, quando Diocleciano era imperador. Militei (sem glria) nas recentes guerras egpcias, sendo tribuno de uma legio que esteve aquartelada em Berenice, diante do mar Vermelho: a febre e a magia consumiram muitos homens que cobiavam com magnanimidade o ao. Os mauritanos foram vencidos; a terra, antes ocupada pelas cidades rebeldes, foi dedicada eternamente aos deuses plutnicos; Alexandria, debelada, implorou em vo a misericrdia de Csar; antes de um ano, as legies alcanaram o triunfo, mas eu mal consegui divisar a face de Marte. Essa privao me doeu e foi talvez a causa de eu ter me lanado, por temerosos e extensos desertos, a descobrir a secreta Cidade dos Imortais. Meus trabalhos, como disse, comearam em um jardim de Tebas. Toda essa noite no dormi, pois algo estava combatendo em meu corao. Levantei-me pouco antes do amanhecer; meus escravos dormiam, a lua tinha a mesma cor da infinita areia. Um cavaleiro vencido e ensangentado vinha do oriente. A uns passos de mim, caiu do cavalo. Com tnue voz insacivel, perguntou-me em latim o nome do rio que banhava os muros da cidade. Respondi-lhe que era o Egito, que as chuvas alimentam. "Outro o rio que persigo", replicou com tristeza, "o rio secreto que purifica da morte os homens". Escuro sangue brotava de seu peito. Disse-me que sua ptria era uma montanha que est do outro lado do Ganges e que nessa montanha se falava que, se algum caminhasse at o ocidente, onde o mundo se acaba, chegaria ao rio cujas guas do a imortalidade. Acrescentou que na margem ulterior se ergue a Cidade dos Imortais, rica em baluartes e anfiteatros e templos. Antes do amanhecer, morreu, mas determinei descobrir a cidade e seu rio. Interrogados pelo verdugo, alguns prisioneiros mauritanos confirmaram a informao do viajante; algum lembrou a plancie elsia, no fim da terra, onde a vida dos homens perdurvel; outro, os cumes onde nasce o Pactolo, cujos moradores vivem um sculo. Em Roma, conversei com filsofos que sentiram que prolongar a vida do homem era prolongar sua agonia e multiplicar o nmero de suas mortes. Ignoro se acreditei alguma vez na Cidade dos Imortais: penso que ento me bastou o trabalho de procur-la. Flvio, procnsul de Getlia, entregou-me duzentos soldados para a tarefa. Tambm recrutei mercenrios, que se disseram conhecedores dos caminhos e foram os primeiros a desertar. Os fatos posteriores deformaram at o inextricvel a lembrana de nossas primeiras jornadas. Partimos de Arsinoe e entramos no abrasado deserto. Atravessamos o pas dos trogloditas, que devoram serpentes e carecem do comrcio da palavra; o dos garamantes da Lbia, que tm as mulheres em comum e se nutrem de lees; o da tribo dos augilas, que s veneram o Trtaro. Fatigamos outros desertos, onde negra a areia, onde o viajante deve roubar as horas da noite, pois o fervor do dia intolervel. De longe divisei a montanha que deu nome ao Oceano: em suas ladeiras cresce o eufrbio, que anula os venenos; no cume, vivem os stiros, nao de homens cruis e rsticos, inclinados luxria. Que essas regies brbaras, onde a terra me de monstros, pudessem abrigar em seu seio uma cidade famosa, a todos nos pareceu inconcebvel. Prosseguimos na marcha, pois teria sido uma desonra retroceder. Alguns temerrios dormiram com o rosto exposto lua; a febre os queimou; na gua corrompida das cisternas outros beberam a loucura e a morte. Ento, comearam as deseres; muito pouco depois, os motins. Para reprimi-los, no vacilei no exerccio da severidade. Procedi corretamente, mas um centurio me advertiu que os sediciosos (vidos por vingar a crucificao de um deles) tramavam minha morte. Fugi do acampamento, com os poucos soldados que me eram fiis. No deserto, perdi-os entre os redemoinhos de areia e a vasta noite. Uma flecha cretense me lacerou. Por vrios dias, errei sem encontrar gua, ou por um s enorme dia multiplicado pelo sol, pela sede e pelo temor da sede. Deixei o caminho ao arbtrio de meu cavalo. Na aurora, a distncia encrespou-se de pirmides e de torres. Insuportavelmente, sonhei com um exguo e ntido labirinto: no centro havia um cntaro; minhas mos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas to intrincadas e confusas eram as curvas que eu sabia que ia morrer antes de alcan-lo. II Ao desenredar-me por fim desse pesadelo, vi-me atirado e manietado a um oblongo nicho de pedra, no maior que uma sepultura comum, superficialmente escavado no spero declive de uma montanha. Os lados eram midos, antes polidos pelo tempo que por labor. Senti no peito um doloroso latejo, senti que a sede me abrasava. Ergui-me e gritei debilmente. Ao p da montanha, estendia-se sem rumor um arroio impuro, entorpecido por escombros e areia; na oposta margem, resplandecia (sob o ltimo sol ou sob o primeiro) a evidente Cidade dos Imortais. Vi muros, arcos, frontispcios e foros: o alicerce era uma meseta de pedra. Uma centena de nichos irregulares, anlogos ao meu, sulcavam a montanha e o vale. Na areia havia poos de pouca profundidade; desses mesquinhos buracos (e dos nichos) emergiam homens de pele cinzenta, de barba desleixada, nus. Pensei reconhec-los: pertenciam estirpe bestial dos trogloditas, que infestam as margens do golfo Arbico e as grutas etopes; no me surpreendi que no falassem e que devorassem serpentes. A urgncia da sede me fez temerrio. Considerei que estava a uns trinta ps da areia: de olhos fechados, com as mos atadas s costas, atirei-me montanha abaixo. Afundei o rosto ensangentado na gua escura. Bebi como abeberam os animais. Antes de perder-me outra vez no sonho e nos delrios, inexplicavelmente repeti algumas palavras gregas: "Os ricos teucros de Zelia que bebem a gua negra do Esepo..." No sei quantos dias e noites rodopiaram sobre mim. Dolorido, incapaz de recuperar o abrigo das cavernas, despido na ignorada areia, deixei que a lua e o sol brincassem com meu aziago destino. Os trogloditas, infantis na barbrie, no me ajudaram a sobreviver ou a morrer. Em vo, roguei-lhes que me dessem a morte. Um dia, com o fio de um pedernal, parti minhas ligaduras. Em outro, levantei-me e pude mendigar ou roubar eu, Marco Flamnio Rufo, tribuno militar de uma das legies de Roma minha primeira detestada rao de carne de serpente. A nsia de ver os Imortais, de tocar a sobre-humana Cidade, quase me impedia de dormir. Como se penetrassem em meu propsito, no dormiam tambm os trogloditas: a princpio, inferi que me vigiavam; depois, que se haviam contagiado por minha inquietude, como poderiam contagiar-se os ces. Para afastar-me da brbara aldeia, escolhi a mais pblica das horas, o cair da tarde, quando todos os homens emergem das gretas e dos poos e olham o poente, sem v-lo. Orei em voz alta, menos para suplicar o favor divino que para intimidar a tribo com palavras articuladas. Atravessei o arroio que os bancos de areia entorpecem e dirigi-me Cidade. Confusamente, seguiram-me dois ou trs homens. Eram (como os demais dessa linhagem) de minguada estatura; no inspiravam temor, mas repulsa. Tive de contornar algumas ribanceiras irregulares que me pareceram pedreiras; ofuscado pela pedreiras; ofuscado pela grandeza da Cidade, eu a supusera prxima. Por volta da meia-noite, pisei, eriada de formas idoltricas na areia amarela, a negra sombra de seus muros. Deteve-me uma espcie de horror sagrado. To abominados pelo homem so a novidade e o deserto que me alegrei que um dos trogloditas me tivesse acompanhado at o fim. Fechei os olhos e aguardei (sem dormir) que rebrilhasse o dia. Disse que a Cidade estava construda sobre uma meseta de pedra. Essa meseta, comparvel a um alcantilado, no era menos rdua que os muros. Em vo esgotei meus passos; o negro embasamento no registrava a menor irregularidade, os muros invariveis no pareciam consentir uma nica porta. A fora do dia fez com que me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poo, no poo uma escada que se abismava at a treva inferior. Desci; por um caos de srdidas galerias cheguei a uma vasta cmara circular, a muito custo visvel. Havia nove portas naquele poro; oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma cmara; a nona (atravs de outro labirinto) dava para uma segunda cmara circular, igual primeira. Ignoro o nmero total de cmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silncio era hostil e quase perfeito; outro rumor no havia nessas profundas redes de pedra alm de um vento subterrneo, cuja causa no descobri; sem rudo, perdiam-se entre as gretas fios de gua enferrujada. Habituei-me com horror a esse duvidoso mundo; considerei inacreditvel que pudesse existir outra coisa alm de pores providos de nove portas e alm de longos pores que se bifurcavam. Ignoro o tempo que tive de caminhar sob a terra; sei que certa vez confundi, na mesma nostalgia, a atroz aldeia dos brbaros e minha cidade natal, entre as videiras. No fundo de um corredor, um no previsto muro me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre mim. Ergui os ofuscados olhos: no vertiginoso, no mais alto, vi um crculo de cu to azul que chegou a parecer-me de prpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansao me relaxava, mas subi, s me detendo s vezes para pesadamente soluar de felicidade. Fui divisando capitis e astrgalos, frontes triangulares e abbadas, confusas pompas do granito e do mrmore. Foi-me assim concedido ascender da cega regio de negros labirintos entretecidos resplandecente Cidade. Emergi numa espcie de pequena praa, ou melhor, de ptio. Circundava-o um s edifcio de forma irregular e altura varivel; a esse edifcio heterogneo pertenciam as diversas cpulas e colunas. Mais que qualquer outro trao desse monumento inacreditvel, causou-me admirao o antiqussimo de sua construo. Senti que era anterior aos homens, anterior terra. Essa evidente antigidade (embora, de algum modo, terrvel para os olhos) pareceu-me adequada ao trabalho de operrios imortais. Cautelosamente a princpio, com indiferena depois, com desespero por fim, errei por escadas e pavimentos do inextricvel palcio. (Depois averigei que eram inconstantes a extenso e a altura dos degraus, fato que me fez compreender a singular fadiga que me infundiram.) "Este palcio obra dos deuses", pensei primeiramente. Explorei os inabitados recintos e corrigi: "Os deuses que o edificaram morreram". Notei suas peculiaridades e disse: "Os deuses que o edificaram estavam loucos". Disse isso, bem sei, com incompreensvel reprovao que era quase remorso, com mais horror intelectual que medo sensvel. A impresso de enorme antigidade juntaram-se outras: a do interminvel, a do atroz, a do complexamente insensato. Eu havia cruzado um labirinto, mas a ntida Cidade dos Imortais me atemorizou e repugnou. Um labirinto uma casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, prdiga em simetrias, est subordinada a esse fim. No palcio que imperfeitamente explorei, a arquitetura carecia de fim. Abundavam o corredor sem sada, a alta janela inalcanvel, a aparatosa porta que dava para uma cela ou para um poo, as inacreditveis escadas inversas, com os degraus e a balaustrada para baixo. Outras, aderidas aereamente ao costado de um muro monumental, morriam sem chegar a nenhuma parte, no fim de dois ou trs giros, na treva superior das cpulas. Ignoro se todos os exemplos que enumerei so literais; sei que durante muitos anos infestaram meus pesadelos; j no posso saber se esse ou aquele trao transcrio da realidade ou das formas que desatinaram minhas noites. "Esta Cidade", pensei, " to horrvel que sua mera existncia e perdurao, embora no centro de um deserto secreto, contamina o passado e o futuro e, de algum modo, compromete os astros. Enquanto perdurar, ningum no mundo poder ser valoroso ou feliz". No quero descrev-la; um caos de palavras heterogneas, um corpo de tigre ou de touro, em que pululassem monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, rgos e cabeas, podem (talvez) ser imagens aproximadas. No recordo as etapas de meu regresso, entre os poeirentos e midos hipogeus. Sei apenas que no me abandonava o temor de que, ao sair do ltimo labirinto, me rodeasse outra vez a nefanda Cidade dos Imortais. Nada mais posso lembrar. Esse esquecimento, agora insupervel, foi talvez voluntrio; talvez as circunstncias de minha evaso tenham sido to ingratas que, em algum dia no menos esquecido tambm, jurei esquec-las. III Os que tiverem lido com ateno o relato de meus trabalhos lembraro que um homem da tribo me seguiu, como um co poderia seguir-me, at a sombra irregular dos muros. Quando sa do ltimo poro, encontrei-o na boca da caverna. Estava atirado na areia, onde desenhava grosseiramente e apagava uma fileira de sinais que eram como as letras dos sonhos, que se est a ponto de entender e logo se juntam. A princpio, pensei que se tratava de alguma escrita brbara; depois vi que absurdo imaginar que homens que no chegaram palavra cheguem escrita. Alm disso, nenhuma das formas era igual a outra, o que exclua ou afastava a possibilidade de serem simblicas. O homem as traava, olhava para elas e as corrigia. Subitamente, como se esse jogo o enfastiasse, apagou-as com a palma e o antebrao. Olhou-me, no pareceu reconhecer-me. Entretanto, to grande era o alvio que me inundava (ou to grande e medrosa minha solido) que me pus a pensar que esse rudimentar troglodita, que me olhava do cho da caverna, estivera me esperando. O sol escaldava a plancie; quando empreendemos o regresso aldeia, sob as primeiras estrelas, a areia era ardente sob os ps. O troglodita me precedeu; essa noite concebi o propsito de ensin-lo a reconhecer, e talvez a repetir, algumas palavras. O cachorro e o cavalo (refleti) so capazes do primeiro; muitas aves, como o rouxinol dos Csares, do ltimo. Por muito grosseiro que fosse o entendimento de um homem, sempre seria superior ao de irracionais. A humildade e a misria do troglodita trouxeram-me memria a imagem de Argos, o velho co moribundo da Odissia, e assim lhe pus o nome de Argos e tentei ensin-lo. Fracassei e tornei a fracassar. Os arbtrios, o rigor e a obstinao foram de todo inteis. Imvel, com os olhos inertes, no parecia perceber os sons que eu procurava inculcar-lhe. A alguns passos de mim, era como se estivesse muito longe. Deitado na areia, como uma pequena e arruinada esfinge de lava, deixava que sobre si girassem os cus, desde o crepsculo do dia at o da noite. Julguei impossvel que no se apercebesse de meu propsito. Lembrei-me de que se diz entre os etopes que os macacos deliberadamente no falam para que no os obriguem a trabalhar e atribu a suspiccia ou a temor o silncio de Argos. Dessa fantasia passei a outras ainda mais extravagantes. Pensei que Argos e eu participvamos de universos diferentes; pensei que nossas percepes eram iguais, mas que Argos as combinava de outra maneira e construa com elas outros objetos; pensei que talvez no houvesse objetos para ele, mas um vertiginoso e contnuo jogo de impresses brevssimas. Pensei em um mundo sem memria, sem tempo; considerei a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de indeclinveis eptetos. Assim foram morrendo os dias e com os dias os anos, mas algo parecido com a felicidade ocorreu uma manh. Choveu, com lentido poderosa. As noites do deserto podem ser frias, mas aquela tinha sido um fogo. Sonhei que um rio da Tesslia (a cujas guas eu restitura um peixe de ouro) vinha resgatar-me; sobre a vermelha areia e a negra pedra eu o ouvia aproximar-se; o frescor do ar e o rumor atarefado da chuva me despertaram. Corri para receb-la, despido. Declinava a noite; sob as nuvens amarelas, a tribo, no menos feliz que eu, oferecia-se aos vvidos aguaceiros numa espcie de xtase. Pareciam coribantes possudos pela divindade. Argos, olhos postos na abbada celeste, gemia; torrentes rolavam-lhe pelo rosto, no s de gua, mas (soube-o depois) de lgrimas. Argos, gritei, Argos. Ento, com mansa admirao, como se descobrisse uma coisa perdida e esquecida h muito tempo, Argos balbuciou estas palavras: "Argos, co de Ulisses". E depois, tambm sem olhar-me: "Este co atirado no esterco". Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada real. Perguntei-lhe o que sabia da Odissia. A prtica do grego lhe era penosa; tive de repetir a pergunta. "Muito pouco", disse. "Menos que o rapsodo mais pobre. J tero passado mil e cem anos desde que a inventei." IV Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de guas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto cidade cujo renome se havia espalhado at o Ganges, nove sculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relquias de sua runa ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espcie de pardia ou reverso e tambm templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que no se parecem com o homem. Aquela fundao foi o ltimo smbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando v qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulao. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas. Absortos, quase no percebiam o mundo fsico. Homero narrou essas coisas como quem fala com uma criana. Tambm me falou de sua velhice e da derradeira viagem que empreendeu, movido, como Ulisses, pelo propsito de chegar aos homens que no conhecem o mar, nem comem carne temperada com sal, nem suspeitam o que seja um remo. Viveu um sculo na Cidade dos Imortais. Quando a derrubaram, aconselhou a fundao da outra. Isto no nos deve surpreender; diz-se que, depois de cantar a guerra de lion, cantou a guerra das rs e dos ratos. Foi como um deus que criara o cosmos e em seguida o caos. Ser imortal insignificante; com exceo do homem, todas as criaturas o so, pois ignoram a morte; o divino, o terrvel, o incompreensvel saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religies, essa convico rarssima. Israelitas, cristos e muulmanos professam a imortalidade, mas a venerao que tributam ao primeiro sculo prova que s crem nele, j que destinam todos os demais, em nmero infinito, a premi-lo ou a castig-lo. Mais razovel me parece a roda de certas religies do Industo; nessa roda, que no tem princpio nem fim, cada vida efeito da anterior e gera a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada num exerccio de sculos, a repblica de homens imortais atingira a perfeio da tolerncia e quase do desdm. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem credor de toda bondade, mas tambm de toda traio, por suas infmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar, os nmeros pares e os nmeros mpares tendem ao equilbrio, assim tambm se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e talvez o rstico poema de Cid seja o contrapeso exigido por um nico epteto das clogas ou por uma sentena de Herclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisvel e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos sculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos j pretritos... Encarados assim, todos os nossos atos so justos, mas tambm so indiferentes. No h mritos morais ou intelectuais. Homero comps a Odissia; postulado um prazo infinito, com infinitas circunstncias e mudanas, o impossvel seria no compor, sequer uma vez, a Odissia. Ningum algum, um s homem imortal todos os homens. Como Cornlio Agripa, sou deus, sou heri, sou filsofo, sou demnio e sou mundo, o que uma fatigante maneira de dizer que no sou. O conceito do mundo como sistema de precisas compensaes influiu enormemente nos Imortais. Em primeiro lugar, tornou-os invulnerveis piedade. Mencionei as antigas pedreiras que sulcavam os campos da outra margem; um homem despenhou-se na mais funda; no podia lastimar-se nem morrer, mas a sede o abrasava; antes que lhe atirassem uma corda, passaram setenta anos. Tampouco interessava o prprio destino. O corpo era um submisso animal domstico e bastava-lhe, cada ms, a esmola de umas horas de sono, de um pouco de gua e de restos de carne. Que ningum nos queira rebaixar a ascetas. No h prazer mais complexo que o pensamento e a ele nos entregvamos. s vezes, um estmulo extraordinrio nos restitua ao mundo fsico. Por exemplo, naquela manh, o velho prazer elementar da chuva. Esses lapsos eram rarssimos; todos os Imortais eram capazes de perfeita quietude; lembro-me de um que jamais vi de p: um pssaro se aninhava em seu peito. Entre os corolrios da doutrina de que no existe coisa que no esteja compensada por outra, h um de muito pouca importncia terica, mas que nos induziu, em fins ou em princpios do sculo X, a dispersar-nos pela face da terra. Cabe nestas palavras: "Existe um rio cujas guas do a imortalidade; em alguma regio haver outro rio cujas guas a apaguem". O nmero de rios no infinito; um viajante imortal que percorra o mundo acabar, algum dia, tendo bebido de todos. Propusemo-nos descobrir esse rio. A morte (ou sua aluso) torna preciosos e patticos os homens. Estes comovem por sua condio de fantasmas; cada ato que executam pode ser o ltimo; no h rosto que no esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecupervel e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrrio, cada ato (e cada pensamento) o eco de outros que no passado o antecederam, sem princpio visvel, ou o fiel pressgio de outros que no futuro o repetiro at a vertigem. No h coisa que no esteja como que perdida entre infatigveis espelhos. Nada pode ocorrer uma s vez, nada preciosamente precrio. O elegaco, o grave, o cerimonioso no vigoram para os Imortais. Homero e eu nos separamos nas portas de Tnger; creio que no nos dissemos adeus. V Percorri novos reinos, novos imprios. No outono de 1O66, militei na ponte de Stamford, j no lembro se nas fileiras de Harold, que no tardou em encontrar seu destino, ou se nas daquele infausto Harald Hardrada, que conquistou seis ps de terra inglesa, ou um pouco mais. No stimo sculo da Hgira, no arrabalde de Bulaq, transcrevi com pausada caligrafia, em um idioma que esqueci, em um alfabeto que ignoro, as sete viagens de Simbad e a histria da Cidade de Bronze. Num ptio do crcere de Samarcanda joguei muitssimo o xadrez. Em Bikanir, professei a astrologia, e tambm na Bomia. Em 1638, estive em Kolozsvar e depois em Leipzig. Em Aberdeen, em 1714, assinei os seis volumes da Ilada de Pope; sei que os freqentei com deleite. Por volta de 1729, discuti a origem desse poema com um professor de retrica, chamado, creio, Giambattista; suas razes me pareceram irrefutveis. No dia 4 de outubro de 1921, o Patna, que me conduzia a Bombaim, teve que fundear em um porto da costa eritria.1 Desci; lembrei-me de outras manhs muito antigas, tambm diante do mar Vermelho, quando era tribuno de Roma e a febre e a magia e a inao consumiam os soldados. Nos arredores, vi um caudal de gua clara; provei-a, levado pelo costume. Ao subir margem, uma rvore espinhosa me lacerou o dorso da mo. A inusitada dor me pareceu muito viva. Incrdulo, silencioso e feliz, contemplei a preciosa formao de uma lenta gota de sangue. De novo sou mortal, repeti a mim mesmo, de novo me pareo com todos os homens. Nessa noite, dormi at o amanhecer. ...Revisei estas pginas, passado um ano. Parece-me que elas se ajustam verdade, mas nos primeiros captulos, e ainda em certos pargrafos dos outros, creio perceber algo falso. Isso efeito, talvez, do abuso de traos circunstanciais, procedimento que aprendi com os poetas e que tudo contamina de falsidade, j que esses traos podem ser freqentes nos fatos, mas no na memria deles... Creio, contudo, ter descoberto uma razo mais ntima. Vou escrev-la; no importa que me julguem fantstico. A histria que narrei parece irreal porque nela se mesclam os sucessos de dois homens diferentes. No primeiro captulo, o cavaleiro quer saber o nome do rio que banha as muralhas de Tebas; Flamnio Rufo, que antes dera cidade o epteto de Hekatmpylos, diz que o rio o Egito; nenhuma dessas locues adequada a ele, mas a Homero, que faz meno expressa, na Ilada, a Tebas Hekatmpylos, e na Odissia, pela boca de Proteu e de Ulisses, diz invariavelmente Egito por Nilo. No captulo segundo, o romano, ao beber a gua imortal, pronuncia algumas palavras em grego; essas palavras so homricas e podem ser encontradas no fim do famoso catlogo das naves. Depois, no vertiginoso palcio, fala de "reprovao que era quase remorso"; essas palavras correspondem a Homero, que havia projetado esse horror. Tais anomalias me inquietaram; outras, de ordem esttica, permitiram-me descobrir a verdade. O ltimo captulo as inclui; a est escrito que militei na ponte de Stamford, que transcrevi, em Bulaq, as viagens de Simbad, o Marinheiro, e que assinei, em Aberdeen, a Ilada inglesa de Pope. L-se, inter alia: "Em Bikanir, professei a astrologia, e tambm na Bomia". Nenhum desses testemunhos falso; significativo o fato de hav-los destacado. O primeiro de todos parece convir a um homem de guerra, mas logo se percebe que o narrador no repara no blico e sim no destino dos homens. Os que seguem so mais curiosos. Uma obscura razo elementar me obrigou a registr-los; fiz isso porque sabia que eram patticos. No o so, ditos pelo romano Flamnio Rufo. So, ditos por Homero; estranho que este copie, no sculo XIII, as aventuras de Simbad, de outro Ulisses, e descubra, muitos sculos depois, em um reino boreal e em um idioma brbaro, as formas de sua Ilada. Quanto frase que rene o nome de Bikanir, v-se que foi construda por um homem de letras, desejoso (como o autor do catlogo das naves) de mostrar vocbulos esplndidos.2 Quando se aproxima o fim, j no restam imagens da lembrana; s restam palavras. No estranho que o tempo tenha confundido as que alguma vez me representaram com as que foram smbolos do destino de quem me acompanhou, por tantos sculos. Eu fui Homero; em breve, serei Ningum, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto. Ps-escrito de 195O. Entre os comentrios que a publicao anterior despertou, o mais curioso, j que no o mais urbano, biblicamente se intitula A Coat of Many Colours (Manchester,1948) e obra da pena tenacssima do doutor Nahum Cordovero. Compreende umas cem pginas. Fala dos centes gregos, dos centes da baixa latinidade, de Ben Jonson, que definiu seus contemporneos com trechos de Sneca, do Virgilius Evangelizans de Alexander Ross, dos artifcios de George Moore e de Eliot e, finalmente, da "narrao atribuda ao antiqurio Joseph Cartaphilus". Denuncia, no primeiro captulo, breves interpolaes de Plnio (Historia Naturalis, V, 8); no segundo, de Thomas de Quincey (Writings,111, 439); no terceiro, de uma epstola de Descartes ao embaixador Pierre Chanut; no quarto, de Bernard Shaw (Back to Methuselah, V). Infere dessas intruses, ou furtos, que todo o documento apcrifo. No meu entender, a concluso inadmissvel. "Quando se aproxima o fim", escreveu Cartaphilus, "j no restam imagens da lembrana; s restam palavras". Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os sculos. Para Ceclia Ingenieros. ________________________________________ Notas: 1 H uma rasura no manuscrito; talvez o nome do porto tenha sido apagado. 2 Ernesto Sbato sugere que o "Giambattista" que discutiu a formao da Ilada com o antiqurio Cartaphilus seja Giambattista Vico; esse italiano sustentava que Homero um personagem simblico, maneira de Pluto ou de Aquiles. O MORTO __________________________________________ Que um homem do subrbio de Buenos Aires, que um triste compadrito sem mais virtude que a enfatuao da coragem, se interne nos desertos eqestres da fronteira com o Brasil e chegue a capito de contrabandistas, parece de antemo impossvel. Aos que assim o entendem, quero contar o destino de Benjamn Otlora, de quem talvez no reste nenhuma lembrana no bairro de Balvanera e que morreu, a seu modo, de um balao, nos confins do Rio Grande do Sul. Ignoro pormenores de sua aventura; quando me forem revelados, hei de retificar e ampliar estas pginas. Por ora este resumo pode ser til. Benjamn Otlora conta, por volta de 1891, dezenove anos. um rapago de fronte pequena, de sinceros olhos claros, com o vigor dos bascos; uma punhalada feliz revelou-lhe que homem valente; no o inquieta a morte do adversrio, tampouco a imediata necessidade de fugir da Repblica. O caudilho da parquia d-lhe uma carta para um tal Azevedo Bandeira, do Uruguai. Otlora embarca, a travessia tormentosa e rangente; no outro dia, vagueia pelas ruas de Montevidu, com inconfessada e talvez ignorada tristeza. No encontra Azevedo Bandeira; pela meia-noite, num armazm do Paso del Molino, assiste a uma discusso entre alguns tropeiros. Um punhal rebrilha; Otlora no sabe de que lado est a razo, mas o atrai o puro sabor do perigo, como a outros o baralho ou a msica. Segura, no entrevem, uma punhalada baixa que um peo desfere contra um homem de chapu escuro e de poncho. Este, depois, resulta ser Azevedo Bandeira. (Otlora, ao sab-lo, rasga a carta, porque prefere dever tudo a si mesmo.) Azevedo Bandeira, embora robusto, d a injustificvel impresso de aleijado; em seu rosto, sempre demasiado prximo, esto o judeu, o negro e o ndio; em sua afetao, o macaco e o tigre; a cicatriz que lhe atravessa a face mais um adorno, bem como o negro bigode cerdoso. Projeo ou erro do lcool, a disputa cessa com a mesma rapidez com que se produziu. Otlora bebe com os tropeiros e depois os acompanha a uma farra e depois a um casaro na Cidade Velha, j com o sol bem alto. No ltimo ptio, que de terra, os homens estendem os arreios para dormir. Obscuramente, Otlora compara essa noite com a anterior; agora j pisa terra firme, entre amigos. Inquieta-o algum remorso, isso sim, de no sentir saudades de Buenos Aires. Dorme at as seis, quando o desperta o paisano que, bbado, agrediu Bandeira. (Otlora se lembra de que esse homem participou com os outros da noite de tumulto e de alegria e que Bandeira o sentou sua direita e o obrigou a continuar bebendo.) O homem lhe diz que o patro o manda buscar. Numa espcie de gabinete que d para o vestbulo (Otlora nunca viu um vestbulo com portas laterais), Azevedo Bandeira o est esperando, com uma clara e desdenhosa mulher de cabelo ruivo. Bandeira examina-o, oferece-lhe um copo de aguardente, repete que ele parece um homem corajoso, prope-lhe ir ao Norte com os demais para trazerem uma tropa. Otlora aceita; de madrugada, esto a caminho, rumo a Tacuaremb. Comea ento para Otlora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que tm o cheiro do cavalo. Essa vida nova para ele, e s vezes atroz, mas j est em seu sangue, pois, assim como os homens de outras naes veneram e pressentem o mar, assim ns (tambm o homem que entretece estes smbolos) ansiamos pela plancie interminvel que ressoa sob os cascos. Otlora criou-se nos bairros de carreteiros e quarteadores; em menos de um ano se torna gacho. Aprende a montar, a entropilhar o gado, a carnear, a manejar o lao que subjuga e as boleadeiras que derrubam, a resistir ao sono, s tormentas, s geadas e ao sol, a tanger com o assobio e o grito. S uma vez, durante esse tempo de aprendizado, v Azevedo Bandeira, mas o tem muito presente, porque ser homem de Bandeira ser considerado e temido, e porque, diante de qualquer gesto valente, os gachos dizem que Bandeira o faz melhor. Algum opina que Bandeira nasceu do outro lado do Quara, no Rio Grande do Sul; isso, que deveria rebaix-lo, obscuramente o enriquece de selvas populosas, de lamaais, de inextricveis e quase infinitas distncias. Aos poucos, Otlora entende que os negcios de Bandeira so mltiplos e que o principal o contrabando. Ser tropeiro ser um criado; Otlora prope-se ascender a contrabandista. Dois dos companheiros, numa noite, cruzaro a fronteira para voltar com algumas partidas de aguardente; Otlora provoca um deles, fere-o e toma seu lugar. Move-o a ambio e tambm uma obscura fidelidade. "Que o homem", pensa, "acabe por entender que tenho mais valor que todos os seus orientais juntos". Outro ano passa antes que Otlora regresse a Montevidu. Percorrem os arredores, a cidade (que a Otlora parece muito grande); chegam casa do patro; os homens estendem os arreios no ltimo ptio. Passam os dias e Otlora no v Bandeira. Dizem, com temor, que ele est enfermo; um homem moreno costuma subir a seu dormitrio com a chaleira e o mate. Uma tarde, encarregam Otlora dessa tarefa. Ele sente-se vagamente humilhado, mas tambm satisfeito. O dormitrio desmantelado e escuro. H uma sacada para o poente, h uma longa mesa com uma resplandecente desordem de chicotes, de relhos, de cintos, de armas de fogo e de armas brancas, h um remoto espelho de cristal embaado. Bandeira est de boca para cima; sonha e se lamenta; uma veemncia de sol ltimo o define. O enorme leito branco parece diminu-lo e obscurec-lo; Otlora observa os cabelos brancos, a fadiga, a debilidade, as rugas dos anos. Revolta-o que esse velho os esteja mandando. Pensa que um golpe bastaria para dar conta dele. Nisso, v no espelho que algum entrou. a mulher de cabelo ruivo; est meio vestida e descala, e o observa com fria curiosidade. Bandeira recompe-se; enquanto fala de coisas da campanha e bebe um mate atrs do outro, seus dedos brincam com as tranas da mulher. Por fim, d licena a Otlora para ir embora. Dias depois, chega-lhes a ordem de irem para o Norte. Param em uma estncia perdida, situada em qualquer lugar da interminvel plancie. Nem rvores nem um arroio a alegram, o primeiro sol e o ltimo a golpeiam. H currais de pedra para o gado, que tem grandes chifres e est necessitado. EI Suspiro o nome desse pobre estabelecimento. Otlora ouve na roda de pees que Bandeira no tardar a chegar de Montevidu. Pergunta por qu; algum esclarece que h um forasteiro agauchado que est querendo mandar demais. Otlora compreende que um gracejo, mas lhe agrada que esse gracejo j seja possvel. Verifica, depois, que Bandeira se inimizou com um dos chefes polticos e que este lhe retirou seu apoio. Ele gosta dessa notcia. Chegam caixes de armas longas; chegam uma jarra e uma bacia de prata para o aposento da mulher; chegam cortinas de intrincado damasco; chega das coxilhas, numa manh, um cavaleiro sombrio, de barba cerrada e de poncho. Chama-se Ulpiano Surez e o capanga ou guarda-costas de Azevedo Bandeira. Fala muito pouco e de maneira abrasileirada. Otlora no sabe se atribui sua reserva a hostilidade, a desdm ou a mera barbrie. Sabe, isso sim, que para o plano que est maquinando tem de ganhar a amizade dele. Entra depois no destino de Benjamn Otlora um alazo de extremidades negras, que Azevedo Bandeira traz do sul e que ostenta arreios chapeados e carona com bordas de pele de tigre. Esse cavalo liberal smbolo da autoridade do patro e por isso o cobia o rapaz, que chega tambm a desejar, com desejo rancoroso, a mulher de cabelos resplandecentes. A mulher, os arreios e o alazo so atributos ou adjetivos de um homem que ele aspira a destruir. Aqui a histria se complica e se afunda. Azevedo Bandeira hbil na arte da intimidao progressiva, na satnica manobra de humilhar gradativamente o interlocutor, combinando seriedade e brincadeira; Otlora resolve aplicar esse mtodo ambguo dura tarefa que se prope. Resolve suplantar, lentamente, Azevedo Bandeira. Consegue, em jornadas de perigo comum, a amizade de Surez. Confia-lhe seu plano; Surez lhe promete sua ajuda. Muitas coisas vo acontecendo depois, das quais sei algumas poucas. Otlora no obedece a Bandeira; d para esquecer, corrigir, inverter suas ordens. O universo parece conspirar com ele e apressa os fatos. Num meio-dia, ocorre em campos de Tacuaremb um tiroteio com gente rio-grandense; Otlora usurpa o lugar de Bandeira e comanda os orientais. Uma bala atravessa-lhe o ombro, mas nessa tarde regressa a EI Suspiro no alazo do chefe e nessa tarde umas gotas de seu sangue mancham a pele de tigre e nessa noite dorme com a mulher de cabelos reluzentes. Outras verses mudam a ordem desses fatos e negam que eles tenham acontecido em um nico dia. Bandeira, entretanto, continua sendo nominalmente o chefe. D ordens que no se executam; Benjamn Otlora no toca nele, por um misto de rotina e de pena. A ltima cena da histria corresponde agitao da ltima noite de 1894. Nessa noite, os homens de EI Suspiro comem cordeiro recm-carneado e bebem um lcool pendenciador. Algum infinitamente zangarreia uma trabalhosa milonga. Na cabeceira da mesa, Otlora, bbado, ergue brinde atrs de brinde, em jbilo crescente; essa torre de vertigem smbolo de seu irresistvel destino. Bandeira, taciturno entre os que gritam, deixa que flua clamorosa a noite. Quando soam as doze badaladas, levanta-se como quem se lembra de uma obrigao. Levanta-se e bate com suavidade porta da mulher. Ela abre em seguida, como se esperasse o chamado. Sai meio vestida e descala. Com uma voz que se afemina e se arrasta, o chefe lhe ordena: J que tu e o portenho se querem tanto, agora mesmo vais dar um beijo nele, vista de todos. Acresce uma circunstncia brutal. A mulher quer resistir, mas dois homens a tomam pelo brao e a lanam sobre Otlora. Arrasada em lgrimas, beija-o no rosto e no peito. Ulpiano Surez empunha o revlver. Otlora compreende, na iminncia da morte, que o traram desde o princpio, que foi condenado morte, que lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo porque j o davam por morto, porque para Bandeira ele j estava morto. Surez, quase com desdm, abre fogo. OS TELOGOS __________________________________________ Arrasado o jardim, profanados os clices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monstica e rasgaram os livros incompreensveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e cdices, mas no corao da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intato o livro duodcimo da Civitas Dei, que narra que Plato ensinou em Atenas e, no fim dos sculos, todas as coisas recuperaro seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditrio, de novo ensinar essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de venerao especial e os que o leram e releram nessa remota provncia esqueceram que o autor s declarou tal doutrina para poder melhor refut-la. Um sculo depois, Aureliano, coadjutor de Aquilia, soube que s margens do Danbio a novssima seita dos montonos (chamados tambm anulares) professava que a histria um crculo e que nada que no tenha sido e que no ser. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que Joo de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o stimo atributo de Deus, ia impugnar to abominvel heresia. Aureliano deplorou essas notcias, sobretudo a ltima. Sabia que em matria teolgica no h novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissmil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer so as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a interveno a intruso de Joo de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temveis que a Serpente, os anulares... Nessa noite, Aureliano folheou o antigo dilogo de Plutarco sobre a cessao dos orculos; no pargrafo vinte e nove, leu uma burla contra os esticos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognstico favorvel; resolveu adiantar-se a Joo de Panonia e refutar os herticos da Roda. H quem procure o amor de uma mulher para esquecer-se dela, para no pensar mais nela; Aureliano, da mesma forma, queria superar Joo de Panonia para curar-se do rancor que ele lhe infundia, no para fazer-lhe mal. Temperado pelo mero trabalho, pela construo de silogismos e pela inveno de injrias, pelos nego e os autem e os nequaquam, pde esquecer esse rancor. Erigiu vastos e quase inextricveis perodos, entrecortados por incisos, em que a negligncia e o solecismo pareciam formas de desdm. Da cacofonia fez um instrumento. Previu que Joo ia fulminar os anulares com gravidade proftica; para no coincidir com ele, optou pelo escrnio. Agostinho tinha escrito que Jesus a via reta que nos salva do labirinto circular em que andam os mpios; Aureliano, laboriosamente trivial, comparou-os a Ixion, ao fgado de Prometeu, a Ssifo, quele rei de Tebas que viu dois sis, gaguice, a louros, a espelhos, a ecos, a mulas de carga e a silogismos bicornutos. (As fbulas gentlicas perduravam, rebaixadas a adornos.) Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de no conhec-la at o fim; essa controvrsia permitiu-lhe chegar a um acordo com muitos livros que pareciam censurar sua incria. Assim pde engastar uma passagem da obra De Principiis de Orgenes, na qual se nega que Judas Iscariotes voltar a vender o Senhor, e Paulo, a presenciar o martrio de Estvo em Jerusalm, e outra dos Academica Priora de Ccero, em que este zomba dos que sonham que, enquanto ele conversa com Lculo, outros Lculos e outros Cceros, em nmero infinito, dizem exatamente o mesmo, em infinitos mundos iguais. Alm disso, esgrimiu contra os montonos o texto de Plutarco e denunciou o escndalo de que a um idlatra valesse mais o lumen naturae que a eles a palavra de Deus. Nove dias lhe tomou esse trabalho; no dcimo, foi-lhe enviada uma cpia da refutao de Joo de Panonia. Era quase irrisoriamente breve. Aureliano olhou-a com desdm e depois com temor. A primeira parte glosava os versculos finais do nono captulo da Epstola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus no foi sacrificado muitas vezes desde o incio do mundo, seno agora uma vez na consumao dos sculos. A segunda alegava o preceito bblico sobre as vs repeties dos gentios (Mateus 6, 7) e aquela passagem do stimo livro de Plnio, que pondera no haver no vasto universo duas faces iguais. Joo de Panonia declarava que tampouco h duas almas e que o pecador mais vil precioso como o sangue que por ele verteu Jesus Cristo. O ato de um nico homem (afirmou) pesa mais que os nove cus concntricos, e imaginar que possa perder-se e voltar uma aparatosa frivolidade. O tempo no refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glria e tambm para o fogo. O tratado era lmpido, universal; no parecia redigido por uma pessoa especfica, mas por qualquer homem ou, talvez, por todos os homens. Aureliano sentiu uma humilhao quase fsica. Pensou em destruir ou reformar seu prprio trabalho; em seguida, com rancorosa probidade, mandou-o para Roma sem modificar uma letra. Meses depois, quando se reuniu o Conclio de Prgamo, o telogo encarregado de impugnar os erros dos montonos foi (previsivelmente) Joo de Panonia; sua douta e comedida refutao bastou para que Euforbo, heresiarca, fosse condenado fogueira. "Isto ocorreu e voltar a ocorrer", disse Euforbo. "No acendeis uma pira, acendeis um labirinto de fogo. Se aqui se unissem todas as fogueiras que eu tenho sido, no caberiam na terra e os anjos ficariam cegos. Isto eu falei muitas vezes." Depois gritou, porque as chamas o atingiram. Caiu a Roda diante da Cruz,1 mas Aureliano e Joo prosseguiram sua batalha secreta. Militavam os dois no mesmo exrcito, ansiavam pelo mesmo galardo, guerreavam contra o mesmo Inimigo, mas Aureliano no escreveu uma palavra que inconfessavelmente no pretendesse superar Joo. Seu duelo foi invisvel; se os numerosos ndices no me enganam, no figura uma nica vez o nome do outro nos muitos volumes de Aureliano que a Patrologia de Migne entesoura. (Das obras de Joo, s permaneceram vinte palavras.) Os dois desaprovaram os antemas do segundo Conclio de Constantinopla; os dois perseguiram os arianos, que negavam a gerao eterna do Filho; os dois testemunharam a ortodoxia da Topographia Christiana de Cosmas, que ensina ser a terra quadrangular, como o tabernculo hebreu. Desgraadamente, pelos quatro ngulos da terra difundiu-se outra tempestuosa heresia. Oriunda do Egito ou da sia (porque os testemunhos diferem e Bousset no quer admitir as razes de Harnack), infestou as provncias orientais e erigiu santurios na Macednia, em Cartago e em Trveris. Parecia estar em todas as partes; foi dito que nas dioceses da Bretanha tinham sido invertidos os crucifixos e que a imagem do Senhor, em Cesaria, viu-se suplantada por um espelho. O espelho e o bolo eram emblemas dos novos cismticos. A histria os conhece por muitos nomes (especulares, abismais, cainitas), mas de todos o mais aceito histries, dado por Aureliano e que eles com atrevimento adotaram. Na Frigia foram chamados de simulacros, e tambm na Dardnia. Joo Damasceno chamou-os de formas; justo advertir que a passagem tem sido repelida por Erfjord. No h heresilogo que, com espanto, no aluda a seus desmedidos costumes. Muitos histries professaram o ascetismo; um que outro se mutilou, como Orgenes; outros moraram debaixo da terra, nas cloacas; outros arrancaram os olhos; outros (os nabucodonosores de Nitria) "pastavam como os bois e seu cabelo crescia como as penas da guia". Da mortificao e do rigor passavam, muitas vezes, ao crime; certas comunidades toleravam o roubo; outras, o homicdio; outras, a sodomia, o incesto e a bestialidade. Todas eram blasfemas; no s maldiziam o Deus cristo como as arcanas divindades de seu prprio panteo. Maquinaram livros sagrados, cujo desaparecimento os doutos deploram. Sir Thomas Browne, por volta de 1658, escreveu: "O tempo aniquilou os ambiciosos Evangelhos Histrinicos, no as Injrias com que se fustigou sua Impiedade"; Erfjord sugeriu que essas "injrias" (que um cdice grego preserva) so os evangelhos perdidos. Isso incompreensvel, se ignoramos a cosmologia dos histries. Nos livros hermticos est escrito que o que existe embaixo igual ao que existe em cima, e o que existe em cima, igual ao que existe embaixo; no Zohar, que o mundo inferior reflexo do superior. Os histries fundaram sua doutrina sobre uma perverso dessa idia. Invocaram Mateus 6, 12 ("perdoa nossas dvidas, como ns perdoamos a nossos devedores") e 11, 12 ("o reino dos cus adquire-se fora") para demonstrar que a terra influi no cu, e I Corntios 13,12 ("vemos agora como que por um espelho, em enigma") para demonstrar que tudo o que vemos falso. Talvez contaminados pelos montonos, imaginaram que todo homem dois homens e que o verdadeiro o outro, o que est no cu. Tambm imaginaram que nossos atos projetam um reflexo invertido, de maneira que, se velamos, o outro dorme, se fornicamos, o outro casto, se roubamos, o outro generoso. Mortos, nos uniremos a ele e seremos ele. (Algum eco dessas doutrinas perdurou em Bloy.) Outros histries discorreram que o mundo acabaria quando se esgotasse o nmero de suas possibilidades; j que no pode haver repeties, o justo deve eliminar (cometer) os atos mais infames, para que estes no manchem o futuro e para acelerar a vinda do reino de Jesus. Esse artigo foi negado por outras seitas, que defenderam que a histria do mundo deve cumprir-se em cada homem. Os demais, como Pitgoras, devero transmigrar por muitos corpos antes de conseguir sua liberao; alguns, os proticos, "no termo de uma s vida so lees, so drages, so javalis, so gua e so uma rvore". Demstenes cita a purificao pela lama a que eram submetidos os iniciados nos mistrios rficos; os proticos, analogicamente, procuraram a purificao pelo mal. Entenderam, como Carpcrates, que ningum sair da priso at pagar o ltimo bolo (Lucas 12, 59), e costumavam ludibriar os penitentes com este outro versculo: "Eu vim para que os homens tenham vida e para que a tenham em abundncia" (Joo 10,10). Tambm diziam que no ser malvado soberba satnica... Muitas e divergentes mitologias urdiram os histries; uns pregaram o ascetismo, outros a licenciosidade, todos a confuso. Teopompo, histrio de Berenice, negou todas as fbulas; disse que cada homem um rgo que projeta a divindade para sentir o mundo. Os hereges da diocese de Aureliano eram dos que afirmavam que o tempo no tolera repeties, no dos que afincoavam que todo ato se reflete no cu. Essa circunstncia era estranha; em um relatrio s autoridades romanas, Aureliano mencionou-a. O prelado que receberia o relatrio era confessor da imperatriz; ningum ignorava que esse ministrio exigente lhe vedava as ntimas delcias da teologia especulativa. Seu secretrio antigo colaborador de Joo de Panonia, agora inimizado com ele gozava do renome de pontualssimo inquisidor de heterodoxias; Aureliano acrescentou uma exposio da heresia histrinica, tal como esta se dava nos conventculos de Gnova e de Aquilia. Redigiu alguns pargrafos; quando quis escrever a tese horrvel de que no existem dois instantes iguais, sua pena se deteve. No encontrou a frmula necessria; as admoestaes da nova doutrina ("Queres ver o que no viram os olhos humanos? Olha a lua. Queres ouvir o que os ouvidos no ouviram? Ouve o grito do pssaro. Queres tocar o que no tocaram as mos? Toca a terra. Digo, verdadeiramente, que Deus est por criar o mundo") eram bastante afetadas e metafricas para a transcrio. De repente, uma orao de vinte palavras apresentou-se a seu esprito. Escreveu-a, jubiloso; logo depois, inquietou-o a suspeita de que ela fosse de outro. No dia seguinte, lembrou-se de que a lera havia muitos anos no Adversus Annulares composto por Joo de Panonia. Verificou a citao; ali estava. A incerteza o atormentou. Alterar ou suprimir essas palavras era debilitar a expresso; deix-las era plagiar um homem que ele abominava; indicar a fonte era denunci-lo. Implorou o socorro divino. No princpio do segundo crepsculo, seu anjo da guarda ditou-lhe uma soluo intermdia. Aureliano conservou as palavras, mas lhes anteps este aviso: "O que ladram agora os heresiarcas para confuso da f, disse-o neste sculo um varo doutssimo, com mais irreflexo que culpa". Depois, aconteceu o temido, o esperado, o inevitvel. Aureliano teve de declarar quem era esse varo; Joo de Panonia foi acusado de professar opinies herticas. Quatro meses depois, um ferreiro de Aventino, alucinado pelos enganos dos histries, ps sobre os ombros de seu filhinho uma grande bola de ferro, a fim de que seu outro voasse. O menino morreu; o horror produzido por esse crime imps uma irrepreensvel severidade aos juzes de Joo. Este no quis retratar-se; repetiu que negar sua proposio era incorrer na pestilencial heresia dos montonos. No entendeu (no quis entender) que falar dos montonos era falar do que j estava esquecido. Com insistncia um tanto senil, desperdiou os perodos mais brilhantes de suas velhas polmicas; os juzes nem sequer ouviam aquilo que outrora os arrebatara. Em lugar de tratar de purificar-se da mais leve mcula de histrionismo, esforou-se em demonstrar que a proposio de que o acusavam era rigorosamente ortodoxa. Discutiu com os homens de cuja sentena dependia sua sorte e cometeu a mxima grosseria de faz-lo com talento e com ironia. No dia 26 de outubro, depois de uma discusso que durou trs dias e trs noites, sentenciaram-no a morrer na fogueira. Aureliano presenciou a execuo, porque no o fazer seria confessar-se culpado. O lugar do suplcio era uma colina, em cujo verde pico havia uma estaca, fincada profundamente no solo, e em torno dela muitas achas de lenha. Um ministro leu a sentena do tribunal. Sob o sol das doze, Joo de Panonia jazia com o rosto no p, lanando uivos bestiais. Arranhava a terra, mas os verdugos o ergueram, o despiram e por fim o amarraram ao pelourinho. Puseram-lhe cabea uma coroa de palha untada de enxofre; ao lado, um exemplar do pestilento Adversus Annulares. Chovera na noite anterior e a lenha ardia mal. Joo de Panonia rezou em grego e depois em um idioma desconhecido. A fogueira ia lev-lo quando Aureliano se atreveu a erguer os olhos. As chamas ardentes se detiveram; Aureliano, pela primeira e ltima vez, viu o rosto do odiado. Lembrou-lhe o de algum, mas no pde precisar de quem. Depois, as chamas o perderam; depois, gritou e foi como se um incndio gritasse. Plutarco conta que Jlio Csar chorou a morte de Pompeu; Aureliano no chorou a de Joo, mas sentiu aquilo que sentiria um homem curado de uma enfermidade incurvel que j fosse parte de sua vida. Em Aquilia, em feso, na Macednia, deixou que sobre si passassem os anos. Procurou os difceis limites do Imprio, os rudes lamaais e os contemplativos desertos, para que a solido o ajudasse a entender seu destino. Numa cela mauritana, na noite carregada de lees, repensou a complexa acusao contra Joo de Panonia e justificou, pela ensima vez, o veredicto. Custou-lhe mais justificar sua tortuosa denncia. Em Rusaddir pregou o anacrnico sermo Luz das Luzes Acesa na Carne de Um Rprobo. Em Hibrnia, em uma das cabanas de um monastrio cercado pela selva, surpreendeu-o, numa noite at a alvorada, o rumor da chuva. Lembrou-se de uma noite romana em que fora surpreendido, tambm, por esse minucioso rumor. Um raio, ao meio-dia, incendiou as rvores e Aureliano pde morrer como morrera Joo. O final da histria s pode ser narrado com metforas, j que se passa no reino dos cus, onde no h tempo. Talvez fosse oportuno dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa to pouco por diferenas religiosas que o tomou por Joo de Panonia. Isso, entretanto, insinuaria uma confuso da mente divina. Mais correto dizer que no paraso Aureliano soube que, para a insondvel divindade, ele e Joo de Panonia (o ortodoxo e o herege, o odiado e o que odeia, o acusador e a vtima) formavam uma nica pessoa. _______________________________________ Notas: 1 Nas cruzes rnicas os dois emblemas inimigos convivem entrelaados. HISTRIA DO GUERREIRO E DA CATIVA __________________________________________ Na pgina 278 do livro La Poesia (Bari, 1942), Croce, resumindo um texto latino do historiador Paulo, o Dicono, narra o destino e cita o epitfio de Droctulft; estes me comoveram singularmente, depois compreendi por qu. Droctulft foi um guerreiro lombardo que, no assdio de Ravena, abandonou os seus e morreu defendendo a cidade que antes havia atacado. Os ravenenses sepultaram-no num templo e compuseram um epitfio em que manifestavam sua gratido ("contempsit caros, dum nos amat ille, parentes") e o peculiar contraste observado entre a aparncia cruel daquele brbaro e sua simplicidade e bondade: Terribilis visu facies, sed mente benignus, Longaque robusto pectore barba fuit!1 Tal a histria do destino de Droctulft, brbaro que morreu defendendo Roma, ou tal o fragmento de sua histria que Paulo, o Dicono, pde resgatar. Nem sequer sei em que tempo ocorreu: se em meados do sculo VI, quando os longobardos desolaram as plancies da Itlia; se no VIII, antes da rendio de Ravena. Imaginemos (este no um trabalho histrico) o primeiro. Imaginemos Droctulft, sub specie aeternitatis, no como o indivduo Droctulft, que sem dvida foi nico e insondvel (todos os indivduos o so), mas como tipo genrico que dele e de muitos outros como ele tem feito a tradio, que obra do esquecimento e da memria. Atravs de uma obscura geografia de selvas e lodaais, as guerras o trouxeram Itlia, desde as margens do Danbio e do Elba, e talvez no soubesse que ia para o Sul e talvez no soubesse que guerreava contra o nome romano. possvel que professasse o arianismo, que sustenta ser a glria do Filho reflexo da glria do Pai, porm mais congruente imagin-lo devoto da terra, de Hertha, cujo dolo coberto ia de cabana em cabana num carro puxado por vacas, ou dos deuses da guerra e do trovo, que eram toscas figuras de madeira, envoltas em roupa tecida e recobertas de moedas e argolas. Vinha das selvas inextricveis do javali e do auroque; era branco, corajoso, inocente, cruel, leal a seu capito e a sua tribo, no ao universo. As guerras o trazem a Ravena e a v algo que jamais viu, ou que no viu com plenitude. V o dia e os ciprestes e o mrmore. V um conjunto que mltiplo sem desordem; v uma cidade, um organismo feito de esttuas, de templos, de jardins, de habitaes, de grades, de jarres, de capitis, de espaos regulares e abertos. Nenhuma dessas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorssemos mas em cujo desenho fosse adivinhada uma inteligncia imortal. Talvez lhe baste ver um nico arco, com uma incompreensvel inscrio em eternas letras romanas. Bruscamente, cega-o e renova-o essa revelao a Cidade. Sabe que nela ser um co, ou uma criana, e que no comear sequer a entend-la, mas sabe tambm que ela vale mais que seus deuses e que a f jurada e que todos os lodaais da Alemanha. Droctulft abandona os seus e peleja por Ravena. Morre, e, na sepultura, gravam palavras que ele no teria entendido: Contempsit caros, dum nos amat ille, parentes, Hanc patriam reputans esse, Ravenna, suam.2 No foi um traidor (os traidores no costumam inspirar epitfios piedosos); foi um iluminado, um convertido. No fim de umas quantas geraes, os longobardos que culparam o trnsfuga procederam como ele; fizeram-se italianos, lombardos e talvez algum de seu sangue Aldiger pde gerar aqueles que geraram Alighieri... Muitas conjeturas podem ser aplicadas ao ato de Droctulft; a minha a mais econmica; se no verdadeira como fato, ser como smbolo. Quando li no livro de Croce a histria do guerreiro, ela me comoveu de maneira inslita e tive a impresso de recuperar, sob forma diversa, algo que havia sido meu. Fugazmente pensei nos cavaleiros mongis que queriam fazer da China um infinito campo de pastoreio e depois envelheceram nas cidades que tinham desejado destruir; no era essa a lembrana que eu buscava. Encontrei-a, por fim; era um relato que ouvi uma vez de minha av inglesa, j morta. Em 1872, meu av Borges era chefe das fronteiras Norte e Oeste de Buenos Aires e Sul de Santa F. O comando estava em Junn; mais alm, a quatro ou cinco lguas um do outro, a cadeia dos fortins; mais alm, o que ento se denominava La Pampa e tambm Tierra Adentro. Uma vez, entre maravilhada e brincalhona, minha av comentou seu destino de inglesa desterrada nesse fim de mundo; disseram-lhe que no era a nica e lhe mostraram, meses depois, uma rapariga ndia que atravessava lentamente a praa. Vestia duas mantas vermelhas e ia descala; suas tranas eram loiras. Um soldado disse-lhe que outra inglesa queria falar com ela. A mulher assentiu; entrou no comando sem temor, mas no sem receio. Na face acobreada, borrada de cores ferozes, os olhos eram desse azul entediado que os ingleses chamam cinzento. O corpo era ligeiro, como de cora; as mos, fortes e ossudas. Vinha do deserto, de Tierra Adentro, e tudo parecia ficar-lhe pequeno: as portas, as paredes, os mveis. Talvez as duas mulheres, por um instante, se sentissem irms; estavam longe de sua ilha querida e num inacreditvel pas. Minha av enunciou qualquer pergunta; a outra respondeu com dificuldade, procurando as palavras e repetindo-as, como que assombrada por algum antigo sabor. Faria quinze anos que no falava o idioma natal e no era fcil recuper-lo. Disse que era de Yorkshire, que seus pais emigraram para Buenos Aires, que os perdera num ataque, que os ndios a levaram e que agora era mulher de um capitozinho a quem j tinha dado dois filhos e que era muito valente. Foi dizendo isso num ingls rstico, intercalado de araucano ou pampa, e por trs do relato se vislumbrava uma vida cruel: os toldos de couro de cavalo, as fogueiras de esterco, os festins de carne chamuscada ou de vsceras cruas, as sigilosas marchas ao amanhecer; o assalto aos currais, o alarido e o saque, a guerra, a caudalosa boiada tangida por cavaleiros desnudos, a poligamia, a hediondez e a magia. A tal barbrie se rebaixara uma inglesa. Movida pela lstima e pelo escndalo, minha av exortou-a a no voltar. Jurou ampar-la, jurou resgatar seus filhos. A outra lhe respondeu que era feliz e voltou, nessa noite, para o deserto. Francisco Borges morreria pouco depois, na revoluo de 74; minha av, ento, pde talvez perceber na outra mulher, tambm arrebatada e transformada por este continente implacvel, um espelho monstruoso de seu destino... Todos os anos, a ndia loira costumava chegar s tabernas de Junn, ou do Forte Lavalle, procura de miudezas e vidos; no apareceu desde a conversa com minha av. Entretanto, viram-se outra vez. Minha av tinha sado para caar; num rancho, perto dos banhados, um homem degolava uma ovelha. Como num sonho, a ndia passou a cavalo. Atirou-se ao solo e bebeu o sangue quente. No sei se o fez porque j no podia agir de outro modo ou como um desafio e um sinal. Mil e trezentos anos e o mar punham-se entre o destino da cativa e o destino de Droctulft. Os dois, agora, so igualmente irrecuperveis. A figura do brbaro que abraa a causa de Ravena, a figura da mulher europia que opta pelo deserto podem parecer antagnicas. No entanto, um mpeto secreto arrebatou os dois, um mpeto mais fundo que a razo, e os dois acataram esse mpeto que no souberam justificar. Talvez as histrias que contei sejam uma nica histria. Para Deus, o anverso e o reverso desta moeda so iguais. Para Ulrike von Khlmann. ______________________________________ Notas: 1 Tambm Gibbon (Decline and Fall, XLV) transcreve estes versos. [Ele tinha um rosto cuja viso provocava o terror, mas tinha um esprito benigno; uma longa barba cobria seu peito robusto. (N. da T)] 2 Ele desdenhava seus queridos pais, enquanto nos amava, considerando que Ravena era sua ptria. (N. da T.) BIOGRAFIA DE TADEO ISIDORO CRUZ (1829-1874) __________________________________________ Im looking for the face I had Before the world was made. YEATS: The Winding Stair. No dia 6 de fevereiro de 1829, os guerrilheiros que, fustigados por Lavalle, marchavam do Sul para incorporar-se s divises de Lpez, pararam em uma estncia cujo nome ignoravam, a trs ou quatro lguas do Pergamino; ao amanhecer, um dos homens teve um pesadelo tenaz: na penumbra do galpo, o confuso grito despertou a mulher que com ele dormia. Ningum sabe o que sonhou, pois no outro dia, s quatro, os guerrilheiros foram desbaratados pela cavalaria de Surez e a perseguio durou nove lguas, at os palhegais j sombrios, e o homem pereceu numa vala, partido o crnio por um sabre das guerras do Peru e do Brasil. A mulher chamava-se Isidora Cruz; o filho que teve recebeu o nome de Tadeo Isidoro. Meu propsito no repetir sua histria. Dos dias e noites que a compem, s me interessa uma noite; do resto no contarei seno o indispensvel para que essa noite seja entendida. A aventura consta de um livro insigne; quer dizer, de um livro cuja matria pode ser tudo para todos (I Corntios 9, 22), pois capaz de quase inesgotveis repeties, verses, perverses. Os que tm comentado, e so muitos, a histria de Tadeo Isidoro destacam a influncia da plancie em sua formao, mas gachos idnticos a ele nasceram e morreram nas selvticas margens do Paran e nas coxilhas orientais. Viveu, isso sim, num mundo de barbrie montona. Quando, em 1874, morreu de uma varola negra, no tinha visto nunca uma montanha nem um bico de gs nem um moinho. Tampouco uma cidade. Em 1849, foi a Buenos Aires com uma tropa do estabelecimento de Francisco Xavier Acevedo; os tropeiros entraram na cidade para esvaziar o cinto; Cruz, receoso, no saiu de uma hospedaria na vizinhana dos currais. Passou a muitos dias, taciturno, dormindo na terra, mateando, levantando-se ao alvorecer e recolhendo-se hora da prece. Compreendeu (alm das palavras e at do entendimento) que a cidade nada tinha a ver com ele. Um dos pees, bbado, zombou dele. Cruz no lhe respondeu, mas nas noites do regresso, junto fogueira, o outro amiudava as zombarias, e ento Cruz (que antes no demonstrara rancor, nem sequer desgosto) o estendeu com uma punhalada. Fugitivo, teve de refugiar-se num faxinai; noites depois, o grito de uma chaj advertiu-o que a polcia o havia cercado. Experimentou a faca num arbusto; para que no lhe estorvassem a caminhada, tirou as esporas. Preferiu lutar a entregar-se. Foi ferido no antebrao, no ombro, na mo esquerda; feriu gravemente os mais bravos da partida; quando o sangue lhe correu entre os dedos, lutou com mais coragem que nunca; ao amanhecer, tonto pela perda de sangue, desarmaram-no. O exrcito desempenhava, ento, uma funo penal; Cruz foi mandado para um fortim da fronteira Norte. Como soldado raso, participou das guerras civis; s vezes combateu por sua provncia natal, s vezes contra. Em 23 de janeiro de 1856, nas Lagunas de Cardoso, foi um dos trinta cristos que, a mando do sargento-mor Eusbio Laprida, lutaram contra duzentos ndios. Nessa ao, recebeu um ferimento de lana. Em sua obscura e valorosa histria so muitos os hiatos. Por volta de 1868, sabemos que estava de novo no Pergamino: casado ou amasiado, pai de um filho, dono de um pedao de campo. Em 1869, foi nomeado sargento da polcia rural. Corrigira o passado; naquele tempo, deve ter-se considerado feliz, embora no fundo no o fosse. (Esperava-o, secreta no futuro, uma lcida noite fundamental: a noite em que por fim viu sua prpria face, a noite em que por fim escutou seu nome. Bem entendida, essa noite esgota sua histria; ou melhor, um instante dessa noite, um ato dessa noite, porque os atos so nosso smbolo.) Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta da realidade de um nico momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem . Conta-se que Alexandre da Macednia viu refletido seu futuro de ferro na fabulosa histria de Aquiles; Carlos XII da Sucia, na de Alexandre. Tadeo Isidoro Cruz, que no sabia ler, esse conhecimento no lhe foi revelado por um livro; viu-se a si mesmo em um entrevero e num homem. Os fatos aconteceram assim: Nos ltimos dias do ms de junho de 187O, recebeu ordem de prender um malfeitor que devia duas mortes Justia. Era um desertor das foras que o coronel Benito Machado comandava na fronteira Sul; numa bebedeira, assassinara um homem mulato num bordel; noutra, um vizinho do partido de Rojas; o relatrio acrescentava que procedia de Laguna Colorada. Nesse lugar, fazia quarenta anos, haviam-se reunido os guerrilheiros para a desventura que entregou suas carnes aos pssaros e aos ces; da saiu Manuel Mesa, que foi executado na praa da Victoria, enquanto os tambores soavam para que no se ouvisse sua ira; da, o desconhecido que gerou Cruz e que pereceu numa vala, partido o crnio por um sabre das batalhas do Peru e do Brasil. Cruz esquecera o nome do lugar; com leve mas inexplicvel inquietude, reconheceu-o... O criminoso, acossado pelos soldados, armou a cavalo um extenso labirinto de idas e vindas; estes, entretanto, o encurralaram na noite de 12 de julho. Refugiara-se num palhegal. A treva era quase indecifrvel; Cruz e os seus, cautelosos e a p, avanaram em direo das matas em cuja fundura trmula espreitava ou dormia o homem secreto. Gritou uma chaj; Tadeo Isidoro Cruz teve a impresso de j ter vivido esse momento. O criminoso saiu do abrigo para combat-los. Cruz o entreviu, terrvel; a crescida cabeleira e a barba cinzenta pareciam comer-lhe a face. Um motivo evidente me impede de narrar a luta. Basta-me recordar que o desertor feriu gravemente ou matou vrios dos homens de Cruz. Este, enquanto combatia na escurido (enquanto seu corpo combatia na escurido), comeou a compreender. Compreendeu que um destino no melhor que outro, mas que todo homem deve acatar aquele que traz consigo. Compreendeu que as divisas e o uniforme j o estorvavam. Compreendeu seu ntimo destino de lobo, no de cachorro gregrio; compreendeu que o outro era ele. Amanhecia na imensa plancie. Cruz atirou por terra o quede, gritou que no ia consentir no delito de que se matasse um valente e ps-se a lutar contra os soldados, junto com o desertor Martn Fierro. EMMA ZUNZ __________________________________________ No dia 14 de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fbrica de tecidos Tarbuch e Loewenthal, encontrou no fundo do vestbulo uma carta, datada do Brasil, pela qual soube que seu pai tinha morrido. Enganaram-na, primeira vista, o selo e o envelope; depois, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas mal traadas quase enchiam a folha; Emma leu que o senhor Maier tinha ingerido por engano uma forte dose de veronal e tinha falecido a 3 do corrente no hospital de Bag. Um companheiro de penso de seu pai assinava a notcia, um tal Fein ou Fain, de Rio Grande, que no podia saber que se dirigia filha do morto. Emma deixou cair o papel. A primeira sensao foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; depois, de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; depois, quis j estar no dia seguinte. Imediatamente, compreendeu que essa vontade era intil, porque a morte de seu pai era a nica coisa que tinha sucedido no mundo e que continuaria sucedendo para sempre. Pegou o papel e foi para o quarto. Furtivamente, guardou-o na gaveta, como se, de alguma forma, j conhecesse os fatos ulteriores. Talvez j comeasse a vislumbr-los; j era a que seria. Na crescente escurido, Emma chorou at o fim daquele dia o suicdio de Manuel Maier, que nos velhos dias felizes fora Emanuel Zunz. Recordou veraneios numa chcara, perto de Gualeguay, recordou (procurou recordar) sua me, recordou a casinha de Lans que lhes arremataram, recordou os amarelos losangos de uma janela, recordou o auto de priso, o oprbrio, recordou as cartas annimas com o comentrio sobre "o desfalque do caixa", recordou (mas isso ela nunca esquecia) que seu pai, na ltima noite, jurara que o ladro era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fbrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ningum o revelara, nem sequer a sua melhor amiga, Elsa Urstein. Talvez evitasse a profana incredulidade; talvez acreditasse que o segredo fosse um vnculo entre ela e o ausente. Loewenthal no sabia que ela sabia; Emma Zunz tirava desse fato nfimo um sentimento de poder. No dormiu quela noite, e, quando a primeira luz definiu o retngulo da janela, j estava perfeito seu plano. Procurou fazer com que esse dia, que lhe pareceu interminvel, fosse como os outros. Havia na fbrica rumores de greve; Emma, como sempre, declarou-se contra qualquer violncia. As seis, concludo o trabalho, foi com Elsa a um clube para mulheres, com ginsio e piscina. Inscreveram-se; teve que repetir e soletrar seu nome e sobrenome, teve que achar graa das brincadeiras vulgares com que comentado o exame mdico. Com Elsa e com a mais moa das Kronfuss discutiu a que cinema iriam no domingo tarde. Depois, falou-se de namorados e ningum esperou que Emma falasse. Completaria dezenove anos em abril, mas os homens lhe inspiravam ainda um temor quase patolgico... Na volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira, dia 15, a vspera. No sbado, a impacincia despertou-a. A impacincia, no a inquietude, e o singular alvio de estar finalmente naquele dia. J no tinha que tramar e imaginar; dentro de algumas horas, atingiria a simplicidade dos fatos. Leu em La Prensa que o Nordstjrnan, de Malm, zarparia nessa noite do cais 3; telefonou para Loewenthal, insinuou que desejava comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritrio, ao anoitecer. Tremia-lhe a voz; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorvel ocorreu nessa manh. Emma trabalhou at as doze e marcou com Elsa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio de domingo. Deitou-se depois de almoar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que tramara. Pensou que a etapa final seria menos horrvel que a primeira e que lhe proporcionaria, sem dvida, o sabor da vitria e da justia. De repente, alarmada, levantou-se e correu gaveta da cmoda. Abriu-a; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a deixara na noite anterior, estava a carta de Fain. Ningum podia t-la visto; comeou a ler e rasgou-a. Narrar com alguma realidade os fatos dessa tarde seria difcil e talvez improcedente. Um atributo do infernal a irrealidade, um atributo que parece diminuir seus terrores e que talvez os agrave. Como tornar verossmil uma ao na qual quase no acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memria de Emma repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que nessa tarde foi ao porto. Talvez no infame Paseo de Julio se tenha visto multiplicada em espelhos, anunciada por luzes e despida pelos olhos famintos, porm mais razovel conjeturar que a princpio errou, inadvertida, pela indiferente galeria... Entrou em dois ou trs bares, viu a rotina ou os modos de outras mulheres. Por fim, deu com homens do Nordstjrnan. Temeu que um deles, muito jovem, lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, a fim de que a pureza do horror no fosse diminuda. O homem conduziu-a a uma porta e depois a um turvo saguo e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestbulo (em que havia uma vidraa com losangos idnticos aos da casa em Lans) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves esto fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica como que separado do futuro, seja porque no parecem consecutivas as partes que os formam. Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem catica de sensaes inconexas e atrozes, Emma Zunz pensou uma nica vez no morto que motivava o sacrifcio? Tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento correu perigo seu desesperado propsito. Pensou (no pde deixar de pensar) que seu pai tinha feito a sua me a coisa horrvel que lhe faziam agora. Pensou com dbil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlands, no falava espanhol; foi um instrumento para Emma como esta o foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justia. Quando ficou sozinha, Emma no abriu em seguida os olhos. Na mesa-de-cabeceira estava o dinheiro deixado pelo homem. Emma sentou-se e o rasgou como antes rasgara a carta. Rasgar dinheiro uma impiedade, como jogar fora o po; Emma arrependeu-se, to logo o fez. Um ato de soberba, e naquele dia... O medo perdeu-se na tristeza de seu corpo, no asco. O asco e a tristeza prendiam-na, mas Emma lentamente se levantou e comeou a vestir-se. No quarto no restavam cores vivas; o ltimo crepsculo se adensava. Ela pde sair sem que a percebessem; na esquina, pegou um Lacroze que ia para o oeste. Escolheu, conforme seu plano, o banco mais da frente para que no lhe vissem o rosto. Talvez a tenha consolado verificar, no inspido movimento das ruas, que o acontecido no contaminara as coisas. Passou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e esquecendo-os no ato, e desceu numa das esquinas de Warnes. Paradoxalmente, seu cansao vinha a ser uma fora, pois a obrigava a concentrar-se nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim. Aaron Loewenthal era, para todos, um homem srio; para seus poucos ntimos, um avarento. Vivia nos altos da fbrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado arrabalde, temia os ladres; no ptio da fbrica havia um grande cachorro e na gaveta do escritrio, ningum o ignorava, um revlver. Chorara com decoro, no ano anterior, a inesperada morte da mulher uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! , mas o dinheiro era sua verdadeira paixo. Com ntima vergonha, sabia ser menos apto para ganh-lo que para conserv-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de agir bem a troco de oraes e devoes. Calvo, corpulento, enlutado, de culos escuros e barba ruiva, esperava de p, junto janela, a informao confidencial da operria Zunz. Viu-a empurrar a grade (que ele deixara entreaberta, de propsito) e cruzar o ptio sombrio. Viu-a dar uma pequena volta quando o cachorro amarrado latiu. Os lbios de Emma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentena que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer. As coisas no ocorreram como previra Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, sonhara, muitas vezes, apontando o firme revlver, forando o miservel a confessar a miservel culpa e expondo o corajoso estratagema que permitiria justia de Deus triunfar sobre a justia humana. (No por medo, mas por ser um instrumento da Justia, ela no queria ser castigada.) Depois, um s balao no meio do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas no ocorreram assim. Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgncia de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje sofrido por isso. No podia deixar de mat-lo, depois dessa minuciosa desonra. Tampouco tinha tempo a perder com teatralidades. Sentada, tmida, pediu desculpas a Loewenthal, invocou ( maneira de delatora) as obrigaes da lealdade, pronunciou alguns nomes, deu a entender outros e calou-se como se o medo a vencesse. Conseguiu que Loewenthal sasse para buscar um copo dgua. Quando ele, incrdulo de tal agitao, mas indulgente, voltou da sala de jantar, Emma j tinha tirado da gaveta o pesado revlver. Apertou o gatilho duas vezes. O considervel corpo caiu como se os estampidos e a fumaa o tivessem rompido, o copo se partiu, o rosto olhou-a com assombro e clera, a boca injuriou-a em espanhol e em idiche. Os palavres no cessavam; Emma teve de fazer fogo outra vez. No ptio, o cachorro acorrentado ps-se a ladrar, e uma efuso de sangue repentino brotou dos lbios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusao que tinha preparada ("Vinguei meu pai e no me podero castigar..."), mas no a concluiu, porque o senhor Loewenthal j estava morto. No soube nunca se ele chegou a compreender. Os tensos latidos lembraram que ela no podia, ainda, descansar. Desordenou o div, desabotoou o palet do cadver, tirou-lhe os culos salpicados e deixou-os sobre o fichrio. Em seguida, pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: "Aconteceu uma coisa inacreditvel... O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve... Abusou de mim, eu o matei..." A histria era inacreditvel, de fato, mas se imps a todos, pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o dio. Verdadeiro tambm era o ultraje que padecera; s eram falsas as circunstncias, a hora e um ou dois nomes prprios. A CASA DE ASTRION __________________________________________ E a rainha deu luz um filho que se chamou Astrion. APOLODORO: Biblioteca, III, I. Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, talvez de loucura. Tais acusaes (que castigarei no devido tempo) so irrisrias. verdade que no saio de minha casa, mas tambm verdade que suas portas (cujo nmero infinito)1 esto abertas dia e noite aos homens e tambm aos animais. Que entre quem quiser. No encontrar aqui pompas femininas, nem o bizarro aparato dos palcios, mas sim a quietude e a solido. Por isso mesmo, encontrar uma casa como no h outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) At meus detratores admitem que no h um s mvel na casa. Outra afirmao ridcula que eu, Astrion, sou um prisioneiro. Repetirei que no h uma porta fechada, acrescentarei que no existe uma , fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei a rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mo aberta. J se tinha posto o sol, mas o desvalido pranto de um menino e as rudes preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava; alguns se encarapitavam no estilbato do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se no mar. No em vo que foi uma rainha minha me; no posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modstia o queira. O fato que sou nico. No me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filsofo, penso que nada comunicvel pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais mincias no encontram espao em meu esprito, que est capacitado para o grande; jamais guardei a diferena entre uma letra e outra. Certa impacincia generosa no consentiu que eu aprendesse a ler. s vezes o deploro, porque as noites e os dias so longos. Claro que no me faltam distraes. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra at cair no cho, atordoado. Oculto-me sombra de uma cisterna ou volta de um corredor e divirto-me com que me procurem. H terraos de onde me deixo cair, at me ensangentar. A qualquer hora posso brincar que estou dormindo, com os olhos fechados e a respirao forte. (s vezes durmo realmente, s vezes j outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro a de outro Astrion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes reverncias, digo-lhe: "Agora voltamos encruzilhada anterior" ou "Agora desembocamos em outro ptio" ou "Bem dizia eu que te agradaria o pequeno canal" ou "Agora vers uma cisterna que se encheu de areia" ou " l vers como o poro se bifurca". As vezes me engano e os dois nos rimos, amavelmente. No s criei esses jogos; tambm meditei sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar outro lugar. No h uma cisterna, um ptio, um bebedouro, um pesebre; so catorze [so infinitos] os pesebres, bebedouros, ptios, cisternas. A casa do tamanho do mundo; ou melhor, o mundo. Todavia, fora de andar por ptios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. No entendi isso at que uma viso da noite me revelou que tambm so catorze [so infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas h no mundo que parecem existir uma nica vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Astrion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas j no me lembro. Cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouo seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para procur-los. A cerimnia dura poucos minutos. Um aps o outro, caem, sem que eu ensangente as mos. Onde caram, ficam, e os cadveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles profetizou, na hora da morte, que um dia chegaria meu redentor. Desde esse momento a solido no me magoa, porque sei que vive meu redentor e que por fim se levantar do p. Se meu ouvido alcanassem todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. oxal me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como ser meu redentor? me pergunto. Ser um touro ou um homem? Ser talvez um touro com cara de homem? Ou ser como eu? O sol da manh reverberou na espada de bronze. J no restava qualquer vestgio de sangue. Acreditars, Ariadne? disse Teseu. O minotauro mal se defendeu. A Marte Mosquera Eastman. __________________________________ Notas: 1 O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Astrion, adjetivo numeral vale por infinitos. A OUTRA MORTE __________________________________________ H uns dois anos (perdi a carta), Gannon me escreveu de Gualeguaych, anunciando o envio de uma verso, talvez a primeira espanhola, do poema The Past de Ralph Waldo Emerson e acrescentando num ps-escrito que Dom Pedro Damin, de quem eu guardaria alguma lembrana, tinha morrido, noites atrs, de uma congesto pulmonar. O homem, arrasado pela febre, revivera em seu delrio a sangrenta jornada de Masoller; a notcia pareceu-me previsvel e at convencional, porque Dom Pedro, aos dezenove ou vinte anos, seguira as bandeiras de Aparicio Saravia. A revoluo de 19O4 encontrou-o em uma estncia de Ro Negro ou de Paysand, onde trabalhava como peo; Pedro Damin era entrerriano, de Gualeguay, mas foi para onde foram os amigos, to corajoso e to ignorante como eles. Combateu em algum entrevem e na batalha final; repatriado em 19O5, retomou com humilde tenacidade as tarefas do campo. Que eu saiba, no tornou a deixar sua provncia. Os ltimos trinta anos passou-os em um posto muito isolado, a uma ou duas lguas do ancay; naquele abandono, conversei com ele uma tarde (procurei conversar com ele uma tarde), por volta de 1942. Era homem taciturno, de poucas luzes. O som e a fria de Masoller esgotavam sua histria; no me surpreendeu que os revivesse, na hora da morte... Soube que no veria mais Damin e quis record-lo; to pobre minha memria visual que s recordei uma fotografia que Gannon lhe tirou. O fato nada tem de singular, se considerarmos que vi o homem em princpios de 1942, uma vez, e o retrato, muitssimas. Gannon mandou-me essa fotografia; eu a perdi e j no a procuro. Encontr-la me daria medo. O segundo episdio ocorreu em Montevidu, meses depois. A febre e a agonia do entrerriano sugeriram-me um conto fantstico sobre a derrota de Masoller; Emir Rodrguez Monegal, a quem contei o argumento, deu-me uma carta para o coronel Dioniso Tabares, que havia feito essa campanha. O coronel recebeu-me depois do jantar. De uma cadeira de balano, num ptio, lembrou-se com desordem e amor dos tempos passados. Falou de munies que no chegaram e de cavalhadas rendidas, de homens sonolentos e terrosos tecendo labirintos de marchas, de Saravia, que podia ter entrado em Montevidu e se desviou, "porque o gacho teme a cidade", de homens degolados at a base da nuca, de uma guerra civil que me pareceu menos o choque de dois exrcitos do que o sonho de um foragido. Falou de Illescas, de Tupamba, de Masoller. F-lo com perodos to cabais e de modo to vvido que compreendi ter ele muitas vezes j contado essas mesmas coisas, e temi que, por trs de suas palavras, quase no restassem lembranas. Numa pausa, consegui intercalar o nome de Damin. Damin? Pedro Damin? disse o coronel. Esse serviu comigo. Um tapezinho que os rapazes chamavam Daymn. Iniciou uma ruidosa gargalhada e cortou-a de repente, com fingida ou verdadeira incomodidade. Com outra voz, disse que a guerra servia, como a mulher, para que se provassem os homens, e que, antes de entrar em batalha, ningum sabia quem era. Algum podia supor-se covarde e ser um valente, e tambm o contrrio, como ocorreu com esse pobre Damin, que andou se exibindo nas tabernas com sua divisa branca e depois fraquejou em Masoller. Num tiroteio com os zumacos, comportou-se como homem, mas outra coisa foi quando os exrcitos se enfrentaram e comeou o canhoneio, e cada homem sentindo que cinco mil outros se reuniram para mat-lo. Pobre rapaz, passou a vida banhando ovelhas e, assim de repente, arrastou-o essa patriotada... Absurdamente, a verso de Tabares me envergonhou. Teria preferido que os fatos no ocorressem assim. Com o velho Damin, entrevisto numa tarde, h muitos anos, eu criara, sem me propor isso, uma espcie de dolo; a verso de Tabares o destrua. Subitamente, compreendi a reserva e a obstinada solido de Damin; no as ditara a modstia, mas a vergonha. Em vo, tentei me convencer de que um homem acossado por um ato de covardia mais complexo e mais interessante que um homem meramente corajoso. O gacho Martn Fierro, pensei, menos memorvel que Lord Jim ou que Razumov. Sim, mas Damin, como gacho, tinha obrigao de ser Martn Fierro sobretudo diante de gachos orientais. No que Tabares disse e no disse percebi o agreste sabor do que se chamava artiguismo: a conscincia (talvez irrefutvel) de que o Uruguai seja mais elementar que nosso pas e, portanto, mais bravo... Lembro-me de que, nessa noite, nos despedimos com exagerada efuso. No inverno, a falta de um ou dois pormenores para meu conto fantstico (que se obstinava, sem jeito, em no encontrar sua forma) fez com que eu voltasse casa do coronel Tabares. Encontrei-o com outro senhor de idade: o doutor Juan Francisco Amaro, de Paysand, que tambm tinha militado na revoluo de Saravia. Falou-se, como se podia prever, de Masoller. Amaro contou alguns fatos curiosos e depois acrescentou, com lentido, como quem est pensando em voz alta: Acampamos noite em Santa Irene, lembro-me, e juntaram-se a ns algumas pessoas. Entre elas, um veterinrio francs que morreu na vspera da ao, e um moo tosquiador, de Entre Ros, um tal Pedro Damin. Interrompi-o com aspereza. J sei disse-lhe. O argentino que fraquejou diante das balas. Detive-me; os dois me olhavam perplexos. O senhor est enganado disse, por fim, Amaro. Pedro Damin morreu como qualquer homem desejaria morrer. Deviam ser quatro da tarde. No alto da coxilha se fortalecera a infantaria colorada; os nossos a atacaram, a lana; Damin ia na ponta, gritando, e uma bala o acertou em cheio no peito. Firmou-se nos estribos, completou o grito e caiu por terra e ficou entre as patas dos cavalos. Estava morto e a ltima carga de Masoller lhe passou por cima. To valente e nem tinha completado vinte anos. Sem dvida, falava de outro Damin, mas algo me fez perguntar o que gritava o rapaz. Palavres disse o coronel , que o que se grita nos combates. Pode ser disse Amaro , mas tambm gritou "Viva Urquiza!" Ficamos calados. Por fim, o coronel murmurou: Como se no lutasse em Masoller, mas em Cagancha ou India Muerta, h um sculo... Acrescentou com sincera perplexidade: Eu comandei essas tropas, e juraria que a primeira vez que ouo falar de um Damin. No conseguimos que se lembrasse dele. Em Buenos Aires, o espanto que me causou seu esquecimento se repetiu. Diante dos onze deleitveis volumes das obras de Emerson, no poro da livraria inglesa de Mitchell, encontrei, numa tarde, Patrcio Gannon. Perguntei-lhe por sua traduo de The Past. Disse que no pensava em traduzi-lo e que a literatura espanhola era to tediosa que tornava Emerson desnecessrio. Lembrei-lhe que me havia prometido essa verso na mesma carta em que me escreveu sobre a morte de Damin. Perguntou quem era Damin. Disse-o, inutilmente. Com um princpio de terror, observei que me escutava com estranheza, e procurei amparo numa discusso literria sobre os detratores de Emerson, poeta mais complexo, mais hbil e sem dvida mais singular que o desditoso Poe. Alguns fatos mais devo registrar. Em abril, recebi carta do coronel Dionsio Tabares; j no estava to esquecido e agora se lembrava muito bem do pequeno entrerriano que esteve na ponta do ataque de Masoller e que seus homens enterraram naquela noite, ao p da coxilha. Em julho, passei por Gualeguaych; no encontrei o rancho de Damin, de quem j ningum se lembrava. Quis interrogar o posteiro, Diego Abaroa, que o viu morrer; mas este tinha falecido antes do inverno. Quis trazer memria os traos de Damin, meses depois, folheando alguns lbuns, comprovei que o rosto sombrio que eu conseguira evocar era o do clebre tenor Tamberlick, no papel de Otelo. Passo agora s conjeturas. A mais fcil, mas tambm a menos satisfatria, requer dois Damianes: o covarde que morreu em Entre Ros por volta de 1946, o valente que morreu em Masoller em 19O4. Seu defeito reside em no explicar o realmente enigmtico: os curiosos vaivns da memria do coronel Tabares, o esquecimento que anula em to pouco tempo a imagem e at o nome do que voltou. (No aceito, no quero aceitar, uma conjetura mais simples: a de eu ter sonhado o primeiro.) Mais curiosa a conjetura sobrenatural que Ulrike von Khlmann imaginou. Pedro Damin, dizia Ulrike, pereceu na batalha, e na hora da morte suplicou a Deus que o fizesse voltar a Entre Ros. Deus vacilou um segundo antes de outorgar essa graa, e quem a pedira j estava morto e alguns homens viram-no cair. Deus, que no pode mudar o passado, mas sim as imagens do passado, trocou a imagem da morte pela de um desfalecimento, e a sombra do entrerriano voltou a sua terra. Voltou, mas devemos recordar sua condio de sombra. Viveu na solido, sem uma mulher, sem amigos; amou e possuiu tudo, mas de longe, como do outro lado de um vidro; "morreu", e sua tnue imagem se perdeu, como a gua na gua. Essa conjetura errnea, mas me haveria de sugerir a verdadeira (a que hoje creio verdadeira), que, ao mesmo tempo, mais simples e mais inaudita. De modo quase mgico, descobri-a no tratado De Omnipotentia, de Pier Damiani, a cujo estudo me levaram dois versos do canto XXI do Paradiso, que propem justamente um problema de identidade. No quinto captulo daquele tratado, Pier Damiani sustenta, contra Aristteles e contra Fredegrio de Tours, que Deus pode fazer com que no tenha sido o que alguma vez foi. Li essas velhas discusses teolgicas e comecei a compreender a trgica histria de Dom Pedro Damin. Adivinho-a assim: Damin portou-se como covarde no campo de Masoller, e dedicou a vida a corrigir essa vergonhosa fraqueza. Voltou a Entre Ros; no levantou a mo contra nenhum homem, no marcou ningum, no procurou fama de valente, mas nos campos de ancay fez-se duro, lidando com o monte e o gado xucro. Seguramente sem o saber, foi preparando o milagre. Pensou no fundo de si mesmo: se o destino me traz outra batalha, saberei merec-la. Durante quarenta anos, esperou-a com obscura esperana, e o destino por fim a trouxe, na hora da morte. Trouxe-a em forma de delrio, e j os gregos sabiam que somos as sombras de um sonho. Na agonia, reviveu sua batalha, e conduziu-se como homem e encabeou o ataque final e uma bala acertou-o em pleno peito. Assim, em 1946, por obra de uma longa paixo, Pedro Damin morreu na derrota de Masoller, que ocorreu entre o inverno e a primavera de 19O4. Na Suma Teolgica nega-se que Deus possa fazer com que o passado no tenha sido, mas nada se diz da intrincada concatenao de causas e efeitos, to vasta e to ntima que talvez no fosse possvel anular um nico fato remoto, por insignificante que fosse, sem invalidar o presente. Modificar o passado no modificar um nico fato; anular suas conseqncias, que tendem a ser infinitas. Por outras palavras: criar duas histrias universais. Na primeira (digamos), Pedro Damin morreu em Entre Rios, em 1946; na segunda, em Masoller, em 19O4. Esta a que vivemos agora, mas a supresso daquela no foi imediata e motivou as incoerncias que narrei. No coronel Dionsio Tabares cumpriram-se as diversas etapas: a princpio, lembrou-se de que Damin agiu como covarde; depois, esqueceu-o por completo; em seguida, recordou sua impetuosa morte. No menos corroborativo o caso do posteiro, Abaroa; este morreu, assim penso, porque tinha demasiadas lembranas de Dom Pedro Damin. Quanto a mim, entendo no correr perigo anlogo. Adivinhei e registrei um processo no acessvel aos homens, uma espcie de escndalo da razo; mas algumas circunstncias mitigam esse privilgio temvel. Por ora, no estou seguro de ter escrito sempre a verdade. Suspeito que em meu relato existam falsas lembranas. Suspeito que Pedro Damin (se existiu) no se chamou Pedro Damin, e que eu me lembre dele com esse nome para crer algum dia que sua histria me foi sugerida pelos argumentos de Pier Damiani. Algo parecido acontece com o poema que mencionei no primeiro pargrafo e que versa sobre a irrevogabilidade do passado. Por volta de 1951, acreditarei ter composto um conto fantstico e terei historiado um fato real; tambm o inocente Virglio, h dois mil anos, acreditou anunciar o nascimento de um homem e vaticinava o de Deus. Pobre Damin! A morte o levou aos vinte anos numa triste guerra ignorada e numa batalha caseira, mas conseguiu o que seu corao desejava, e tardou muito a consegui-lo, e talvez no exista felicidade maior. DEUTSCHES REQUIEM __________________________________________ Ainda que ele me tire a vida, nele confiarei. J 13, 15 Meu nome Otto Dietrich zur Linde. Um de meus antepassados, Christoph zur Linde, morreu no ataque de cavalaria que decidiu a vitria de Zorndorf. Meu bisav materno, Ulrich Forkel, foi assassinado na floresta de Marchenoir por franco-atiradores franceses, nos ltimos dias de 187O; o capito Dietrich zur Linde, meu pai, distinguiu-se no cerco de Namur, em 1914, e, dois anos depois, na travessia do Danbio.1 Quanto a mim, serei fuzilado como torturador e assassino. O tribunal procedeu com retido; desde o princpio, eu me declarei culpado. Amanh, quando o relgio da priso der as nove, terei entrado na morte; natural que pense em meus antepassados, j que to perto estou de sua sombra, j que de algum modo sou eles. Durante o julgamento (que felizmente durou pouco) no falei; justificar-me, ento, teria perturbado o veredicto e parecido covardia. Agora as coisas mudaram; nesta noite que precede minha execuo, posso falar sem temor. No pretendo ser perdoado, porque no h culpa em mim, mas quero ser compreendido. Os que souberem ouvir-me compreendero a histria da Alemanha e a futura histria do mundo. Eu sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, sero muito em breve triviais. Amanh morrerei, mas sou um smbolo das geraes do futuro. Nasci em Marienburg, em 1908. Duas paixes, agora quase esquecidas, permitiram-me enfrentar com valor e at com felicidade muitos anos infaustos: a msica e a metafsica. No posso mencionar todos os meus benfeitores, mas h dois nomes que no me resigno a omitir: o de Brahms e o de Schopenhauer. Tambm freqentei a poesia; a esses nomes, quero juntar outro vasto nome germnico, William Shakespeare. Antes, a teologia me interessou, mas dessa fantstica disciplina (e da f crist) me desviou para sempre Schopenhauer, com razes diretas; Shakespeare e Brahms, com a infinita variedade de seu mundo. Quem se detiver, maravilhado, trmulo de ternura e gratido, ante qualquer parte da obra desses homens felizes, saiba que eu tambm me detive a, eu, o abominvel. Por volta de 1927, entraram em minha vida Nietzsche e Spengler. Observa um escritor do sculo XVIII que ningum quer dever nada a seus contemporneos; eu, para libertar-me de uma influncia que pressenti opressora, escrevi um artigo intitulado Abrechnung mit Spengler, no qual observava que o monumento mais inequvoco dos traos que o autor chama fusticos no o misto drama de Goethe2 mas um poema escrito h vinte sculos, o De Rerum Natura. Rendi justia, contudo, sinceridade do filsofo da histria, a seu esprito radicalmente alemo (Kerndeutsch), militar. Em 1929, entrei no Partido. Pouco direi de meus anos de aprendizagem. Foram mais duros para mim que para muitos outros, j que, apesar de no carecer de valor, me falta qualquer vocao para a violncia. Compreendi, entretanto, que estvamos beira de um tempo novo e que esse tempo, comparvel s pocas iniciais do Islamismo ou do Cristianismo, exigia homens novos. Individualmente, meus camaradas me eram odiosos; em vo, procurei raciocinar que, para o alto fim que nos congregava, no ramos indivduos. Asseveram os telogos que, se a ateno do Senhor se desviasse um s segundo de minha mo direita que escreve, esta recairia no nada, como se a fulminasse um fogo sem luz. Ningum pode ser, digo, ningum pode provar um copo dgua ou partir um pedao de po sem justificativa. Para cada homem, essa justificativa diferente; eu esperava a guerra inexorvel que iria provar nossa f. Bastava-me saber que eu seria um soldado de suas batalhas. Certa vez, temi que nos defraudassem a covardia da Inglaterra e da Rssia. O acaso, ou o destino, teceu de outra maneira meu futuro: em 1 de maro de 1939, ao escurecer, houve distrbios em Tilsit que os jornais no registraram; na rua detrs da sinagoga, duas balas me atravessaram a perna, que foi necessrio amputar.3 Dias depois, entravam na Bomia nossos exrcitos; quando as sirenas o anunciaram, eu estava no sedentrio hospital, tratando de perder-me e esquecer-me nos livros de Schopenhauer. Smbolo de meu vo destino, dormia no rebordo da janela um gato enorme e fofo. No primeiro volume de Parerga und Paralipomena reli que todos os fatos que podem ocorrer a um homem, desde o instante de seu nascimento at o de sua morte, foram prefixados por ele. Assim, toda negligncia deliberada, todo casual encontro, uma hora marcada, toda humilhao, uma penitncia, todo fracasso, uma misteriosa vitria, toda morte, um suicdio. No h consolo mais hbil que o pensamento de que escolhemos nossas desgraas; essa teleologia individual nos revela uma ordem secreta e prodigiosamente nos confunde com a divindade. Que ignorado propsito (meditei) me fez procurar esse entardecer, essas balas e essa mutilao? No foi o temor da guerra, eu o sabia; algo mais profundo. Por fim, pensei entender. Morrer por uma religio mais simples que viv-la com plenitude; lutar em feso contra as feras menos duro (milhares de mrtires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um ato menos que todas as horas de um homem. A batalha e a glria so facilidades; mais rdua que a ao de Napoleo foi a de Raskolnikov. Em 7 de fevereiro de 1941, fui nomeado subdiretor do campo de concentrao de Tarnowitz. O exerccio desse cargo no me foi grato; mas no pequei nunca por negligncia. O covarde se prova entre as espadas; o misericordioso, o piedoso, procura o exame dos crceres e da dor alheia. O nazismo, intrinsecamente, um fato moral, um despojar-se do velho homem, que est viciado, para vestir o novo. Na batalha, essa mutao comum, entre o clamor dos capites e o vozerio; no assim em um infame calabouo, onde nos tenta com antigas ternuras a insidiosa piedade. No em vo escrevo essa palavra; a piedade pelo homem superior o ltimo pecado de Zaratustra. Quase o cometi (confesso) quando nos mandaram de Breslau o insigne poeta David Jerusalm. Era um homem de cinqenta anos. Pobre de bens deste mundo, perseguido, negado, vituperado, consagrara seu gnio a cantar a felicidade. Creio lembrar que Albert Soergel, na obra Dichtung der Zeit, o compara a Whitman. A comparao no feliz; Whitman celebra o universo de modo prvio, geral, quase indiferente; Jerusalm alegra-se de cada coisa, com minucioso amor. Jamais emprega enumeraes, catlogos. Ainda posso repetir muitos hexmetros daquele profundo poema que se intitula Tse Yang, Pintor de Tigres, que est como que raiado de tigres, que est como que carregado e atravessado de tigres transversais e silenciosos. Tampouco esquecerei o solilquio Rosencrantz Fala com o Anjo, no qual um prestamista londrino do sculo XVI inutilmente trata, ao morrer, de vindicar suas culpas, sem suspeitar que a secreta justificativa de sua vida ter inspirado a um de seus clientes (que o viu uma nica vez e de quem no se lembra) o carter de Shylock. Homem de memorveis olhos, de pele citrina, de barba quase negra, David Jerusalm era o prottipo do judeu sefardim, embora pertencesse aos depravados e enfadonhos Ashkenazim. Fui severo com ele; no permiti que me abrandassem nem a compaixo nem sua glria. Eu havia compreendido h muitos anos que no existe coisa no mundo que no seja germe de um Inferno possvel; um rosto, uma palavra, uma bssola, um anncio de cigarros poderiam enlouquecer uma pessoa, se esta no conseguisse esquec-los. No estaria louco um homem que continuamente tivesse em mente o mapa da Hungria? Determinei aplicar esse princpio ao regime disciplinar de nossa casa e...4 Em fins de 1942, Jerusalm perdeu a razo; em 1 de maro de 1943, conseguiu matar-se.5 Ignoro se Jerusalm compreendeu que, se eu o destru, foi para destruir minha piedade. Diante de meus olhos, ele no era um homem, nem sequer um judeu; transformara-se no smbolo de uma detestada rea de minha alma. Eu agonizei com ele, eu morri com ele, eu de algum modo me perdi com ele; por essa razo, fui implacvel. Enquanto isso, giravam sobre ns os grandes dias e as grandes noites de uma guerra feliz. Havia no ar que respirvamos um sentimento parecido com o amor. Como se bruscamente o mar estivesse perto, havia um assombro e uma exaltao no sangue. Tudo, naqueles anos, era diferente, at o sabor do sonho. (Talvez eu nunca tenha sido inteiramente feliz, mas se sabe que a desventura requer parasos perdidos.) No h homem que no aspire plenitude, quer dizer, soma de experincias de que um homem capaz; no h homem que no tema ser defraudado em alguma parte desse patrimnio infinito. Mas minha gerao teve tudo, porque primeiro lhe foi proporcionada a glria e depois a derrota. Em outubro ou novembro de 1942, meu irmo Friedrich pereceu na segunda batalha de El Alamein, nos areais egpcios; um bombardeio areo, meses depois, destruiu nossa casa natal; outro, em fins de 1943, meu laboratrio. Acossado por vastos continentes, morria o Terceiro Reich; sua mo estava contra todos e as mos de todos contra ele. Ento, algo singular ocorreu, que agora creio entender. Eu me acreditava capaz de esgotar o copo de clera, mas nas fezes me deteve um sabor no esperado, o misterioso e quase terrvel sabor da felicidade. Ensaiei diversas explicaes; no me bastou nenhuma. Pensei: "A derrota me satisfaz porque secretamente sei que sou culpado e s o castigo pode redimir-me". Pensei: "A derrota me satisfaz porque um fim e estou muito cansado". Pensei: "A derrota me satisfaz porque ocorreu, porque est inumeravelmente unida a todos os fatos que so, que foram, que sero, porque censurar ou deplorar um nico fato real blasfemar contra o universo". Essas razes ensaiei, at dar com a verdadeira. Tem-se dito que todos os homens nascem aristotlicos ou platnicos. Isso equivale a declarar que no h debate de carter abstrato que no seja um momento da polmica de Aristteles e Plato; atravs dos sculos e latitudes, mudam os nomes, os dialetos, as faces, mas no os eternos antagonistas. Tambm a histria dos povos registra uma continuidade secreta. Armnio, quando decapitou num lamaal as legies de Varo, no se sabia precursor de um Imprio Alemo; Lutem, tradutor da Bblia, no suspeitava que seu fim era forjar um povo que destrusse para sempre a Bblia; Christoph zur Linde, morto por uma bala moscovita em 1758, preparou de algum modo as vitrias de 1914; Hitler acreditou lutar por um pas, mas lutou por todos, at por aqueles que agrediu e detestou. No importa que seu eu o ignorasse; sabiam-no seu sangue, sua vontade. O mundo morria de judasmo e dessa enfermidade do judasmo que a f em Jesus; ns lhe ensinamos a violncia e a f na espada. Essa espada nos mata e somos comparveis ao feiticeiro que tece um labirinto e que se v forado a errar nele at o fim de seus dias, ou a Davi, que julga um desconhecido e o condena morte e ouve depois a revelao: "Tu s aquele homem". Muitas coisas h que destruir para edificar a nova ordem; agora sabemos que a Alemanha era uma dessas coisas. Demos algo mais que nossa vida, demos o destino de nosso querido pas. Que outros maldigam e outros chorem; a mim me alegra que nosso dom seja orbicular e perfeito. Ameaa agora o mundo uma poca implacvel. Ns a forjamos, ns que j somos sua vtima. Que importa que a Inglaterra seja o martelo e ns a bigorna? O importante que reine a violncia, no as servis timidezes crists. Se a vitria e a injustia e a felicidade no so para a Alemanha, que sejam para outras naes. Que o cu exista, mesmo que nosso lugar seja o inferno. Olho meu rosto no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. Minha carne pode ter medo; eu no. __________________________________ Notas: 1 significativa a omisso do antepassado mais ilustre do narrador, o telogo e hebrasta Johannes Forkel (1799-1846), que aplicou a dialtica de Hegel cristologia e cuja verso literal de alguns dos Livros Apcrifos mereceu a censura de Hengstenberg e a aprovao de Thilo e Geseminus. (N. do E.) 2 Outras naes vivem com inocncia, em si e para si, como os minerais ou os meteoros; a Alemanha o espelho universal que a todas recebe, a conscincia do mundo (das Weltbewusstsein). Goethe o prottipo dessa compreenso ecumnica. No o censuro, mas no vejo nele o homem fustico da tese de Spengler. 3 Murmura-se que as conseqncias dessa ferida foram muito graves. (N. do E.) 4 Foi inevitvel omitir aqui algumas linhas. (N. do E.) 5 Nem nos arquivos nem na obra de Soergel figura o nome de Jerusalm. Tampouco o registram as histrias da literatura alem. No creio, entretanto, que se trate de personagem falso. Por ordem de Otto Dietrich zur Linde foram torturados em Tarnowitz muitos intelectuais judeus, entre eles a pianista Emma Rosenzweig. "David Jerusalm" talvez smbolo de vrios indivduos. Dizem-nos que morreu em 1 de maro de 1943; em 1 de maro de 1939, o narrador foi ferido em Tilsit. (N. do E.) A PROCURA DE AVERRIS __________________________________________ Simaginant que la tragdie nest autre chose que lart de louer... ERNEST RENAN: Averros, 48 (1861). Abulgualid Muhammad Ibn-Ahmad ibn-Muhmmad ibn-Rushd (este longo nome levaria um sculo para chegar a Averris, passando por Benraist e por Avenryz, e ainda por Aben-Rassad e Filius Rosadis) escrevia o undcimo captulo da obra Tahafut-ul-Tahafut (Destruio da Destruio), no qual se sustenta, contra o asceta persa Ghazali, autor de Tahafut-ul-Falasifa (Destruio de Filsofos), que a divindade s conhece as leis gerais do universo, o concernente s espcies, no ao indivduo. Escrevia com lenta segurana, da direita para a esquerda; o exerccio de formar silogismos e de encadear longos pargrafos no o impedia de sentir, como bem-estar, a fresca e ampla casa que o rodeava. No fundo da sesta arrulhavam amorosas pombas; de algum ptio invisvel se elevava o rumor de uma fonte; algo na carne de Averris, cujos antepassados procediam dos desertos rabes, agradecia a constncia da gua. Embaixo, estavam os jardins, a horta; embaixo, o atarefado Guadalquivir e depois a querida cidade de Crdoba, no menos clara que Bagd ou que o Cairo, como um complexo e delicado instrumento, e ao redor (isto Averris tambm sentia) se estendia at os confins a terra da Espanha, na qual existem poucas coisas, mas onde cada uma parece estar de modo substantivo e eterno. A pena corria sobre a folha, os argumentos se enlaavam, irrefutveis, mas uma leve preocupao empanou a felicidade de Averris. No a causava o Tahafut, trabalho fortuito, mas um problema de ndole filolgica vinculado obra monumental que o justificaria ante os povos: o comentrio sobre Aristteles. Esse grego, manancial de toda a filosofia, fora outorgado aos homens para ensinar-lhes tudo o que se pode saber; interpretar seus livros como os ulems interpretam o Alcoro era o rduo propsito de Averris. Poucas coisas mais belas e mais patticas registrar a histria alm dessa consagrao de um mdico rabe aos pensamentos de um homem de quem o separavam catorze sculos; s dificuldades intrnsecas devemos acrescentar que Averris, ignorando o siraco e o grego, trabalhava sobre a traduo de uma traduo. Na vspera, duas palavras duvidosas o detiveram no princpio da Potica. Essas palavras eram tragdia e comdia. Encontrara-as anos atrs no livro terceiro da Retrica; ningum, no mbito do Isl, atinava com o que queriam dizer. Inutilmente fatigara-se nas pginas de Alexandre de Afrodsia, inutilmente compulsara as verses do nestoriano Hunain ibn-Ishaq e de Abu-Bashar Mata. Essas duas palavras arcanas pululavam no texto da Potica; impossvel evit-las. Averris largou a pena. Disse a si mesmo (sem demasiada f) que costuma estar muito perto aquilo que procuramos, guardou o manuscrito do Tahafut e dirigiu-se prateleira onde se alinhavam, copiados por calgrafos persas, os muitos volumes do Mohkam do cego Abensida. Era irrisrio imaginar que no os tinha consultado, mas tentou-o o ocioso prazer de virar suas pginas. Dessa estudiosa distrao o desviou uma espcie de melodia. Olhou pela sacada gradeada; embaixo, no estreito ptio de terra, brincavam alguns meninos seminus. Um, de p nos ombros do outro, fazia-se evidentemente de almuadem; com os olhos bem fechados, salmodiava "No h outro deus alm de Deus". Aquele que o sustentava, imvel, fazia-se de minarete; outro, humilhado no p e ajoelhado, de congregao dos fiis. A brincadeira durou pouco: todos queriam ser o almuadem, ningum a congregao ou a torre. Averris ouviu-os discutir em dialeto grosem, ou seja, no incipiente espanhol da plebe muulmana da Pennsula. Abriu o Quitah-ul-ain de Jalil e pensou, com orgulho, que, em toda Crdoba (talvez em todo Al-Andalus), no existia outra cpia da obra perfeita alm dessa que o emir Yacub Almansur lhe remetera de Tnger. O nome desse porto lembrou-lhe que o viajante Abulcsim Al-Ashari, que regressara de Marrocos, jantaria com ele essa noite em casa do alcoranista Farach. Abulcsim dizia ter alcanado os reinos do imprio de Sin (da China); seus detratores, com essa lgica peculiar que o dio oferece, juravam que ele nunca havia pisado na China e que nos templos desse pas blasfemara contra Al. Inevitavelmente, a reunio duraria algumas horas; Averris, pressuroso, retomou a escrita do Tahafut. Trabalhou at o crepsculo da noite. O dilogo, na casa de Farach, passou das incomparveis virtudes do governador s de seu irmo, o emir; depois, no jardim, falaram de rosas. Abulcsim, que no as tinha visto, jurou que no existiam rosas como as que decoram os jardins andaluzes. Farach no se deixou subornar; observou que o douto Ibn Qutaiba descreve uma excelente variedade de rosa perptua, que d nos jardins do Industo e cujas ptalas, de um vermelho encarnado, apresentam caracteres que dizem: "No h outro deus como o Deus. Muhammad o Apstolo de Deus". Acrescentou que Abulcsim, com certeza, conheceria essas rosas. Abulcsim fixou-o com inquietao. Se respondesse que sim, todos o julgariam, com razo, o mais disponvel e casual dos impostores; se respondesse que no, seria julgado infiel. Optou por murmurar que com o Senhor esto as chaves das coisas ocultas e que no existe na terra uma coisa verde ou uma coisa murcha que no esteja registrada em Seu Livro. Essas palavras pertencem a uma das primeiras suratas; acolheu-as um murmrio reverenciai. Envaidecido por essa vitria dialtica, Abulcsim ia dizer que o Senhor perfeito em suas obras e inescrutvel. Ento Averris declarou, prefigurando as remotas razes de um ainda problemtico Hume: Menos me custa admitir um erro no douto Ibn Qutaiba, ou nos copistas, do que admitir que a terra d rosas com profisso de f. Assim . Grandes e verdadeiras palavras disse Abulcsim. Certo viajante lembrou o poeta Abdalmlik fala de uma rvore cujos frutos so verdes pssaros. menos difcil acreditar nele que em rosas com letras. A cor dos pssaros disse Averris parece facilitar o portento. Alm disso, os frutos e os pssaros pertencem ao mundo natural, mas a escrita uma arte. Passar de folhas a pssaros mais fcil que de rosas a letras. Outro hspede negou com indignao que a escrita fosse uma arte, j que o original do Quran a Me do Livro anterior Criao e est guardado no cu. Outro falou de Chhiz de Basra, segundo o qual o Quran uma substncia que pode tomar a forma de um homem ou de um animal, opinio que parece combinar com a dos que lhe atribuem duas faces. Farach exps longamente a doutrina ortodoxa. O Quran (disse) um dos atributos de Deus, como Sua piedade; copiado num livro, pronunciado com a lngua, lembrado no corao, e o idioma e os sinais e a escrita so obra dos homens, mas o Quran irrevogvel e eterno. Averris, que havia comentado a Repblica, podia ter dito que a Me do Livro algo assim como seu modelo platnico, mas percebeu que a teologia era um tema totalmente inacessvel a Abulcsim. Outros, que tambm o perceberam, instaram com Abulcsim para contar alguma maravilha. Ento, como agora, o mundo era cruel; os audazes podiam percorr-lo, mas tambm os miserveis, os que se sujeitavam a tudo. A memria de Abulcsim era um espelho de ntimas covardias. Que podia ele contar? Alm disso, exigiam-lhe maravilhas e a maravilha talvez incomunicvel: a lua de Bengala no igual lua do Imen, porm, deixa-se descrever com as mesmas palavras. Abulcsim vacilou; depois falou: Quem percorre os climas e as cidades proclamou com uno v muitas coisas dignas de crdito. Esta, por exemplo, que s contei uma vez ao rei dos turcos. Ocorreu em Sin Kalan (Canto), onde o rio da gua da Vida se derrama no mar. Farach perguntou se a cidade ficava a muitas lguas da muralha que Iskandar Zul Qarnain (Alexandre Bicorne da Macednia) levantou para deter Gog e Magog. Desertos a separam disse Abulcsim, com involuntria soberba. Quarenta dias demoraria uma cfila (caravana) para divisar suas torres e dizem que outros tantos para alcan-las. Em Sin Kalan no sei de nenhum homem que a tenha visto ou que tenha visto quem a viu. O medo do grosseiramente infinito, do mero espao, da mera matria, tocou Averris por um instante. Olhou o simtrico jardim; sentiu-se envelhecido, intil, irreal. Dizia Abulcsim: Uma tarde, os mercadores muulmanos de Sin Kalan me conduziram a uma casa de madeira pintada, na qual viviam muitas pessoas. No se pode contar como era essa casa, que mais parecia um nico quarto, com filas de armrios ou sacadas, umas sobre as outras. Nessas cavidades havia gente que comia e bebia, e tambm no cho, e tambm num terrao. As pessoas desse terrao tocavam tambor e alade, salvo umas quinze ou vinte (com mscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ningum via o crcere; cavalgavam, mas no se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam e logo estavam de p. Os atos dos loucos disse Farach excedem s previses do homem sensato. No estavam loucos teve de explicar Abulcsim. Estavam figurando, disse-me um mercador, uma histria. Ningum compreendeu, ningum pareceu querer compreender. Abulcsim, confuso, passou da escutada narrao s desajeitadas razes. Falou, ajudando-se com as mos: Imaginemos que algum mostre uma histria, em vez de cont-la. Seja essa histria a dos adormecidos de feso. Vemos retirarem-se para a caverna, vemos orarem e dormirem, vemos dormirem com os olhos abertos, vemos crescerem enquanto dormem, vemos despertarem depois de trezentos e nove anos, vemos entregarem ao vendedor uma antiga moeda, vemos despertarem no paraso, vemos despertarem com o co. Algo semelhante nos mostraram quela tarde as pessoas do terrao. Essas pessoas falavam? perguntou Farach. Claro que falavam disse Abulcsim, convertido em apologista de uma cena que mal recordava e que o enfadara bastante. Falavam e cantavam e peroravam! Nesse caso disse Farach , no eram necessrias vinte pessoas. Um s narrador pode contar qualquer coisa, por complexa que seja. Todos aprovaram essa opinio. Encareceram-se as virtudes do rabe, idioma usado por Deus para comandar os anjos; em seguida, as da poesia dos rabes. Abdalmlik, depois de examin-la devidamente, escarneceu por antiquados dos poetas que em Damasco ou em Crdoba se apegavam a imagens pastoris e a um vocabulrio beduno. Disse ser absurdo que um homem ante cujos olhos se estendia o Guadalquivir fosse celebrar a gua de um poo. Alertou para a convenincia de se renovarem as antigas metforas; disse que, quando Zuhair comparou o destino a um camelo cego, essa figura pode ter causado surpresa s pessoas, mas que cinco sculos de admirao a gastaram. Todos aprovaram essa opinio, que j haviam escutado muitas vezes, de muitas bocas. Averris calava-se. Por fim, falou, menos para os outros que para si mesmo. Com menos eloqncia disse Averris , mas com argumentos congneres, defendi algumas vezes a proposio que Abdalmlik sustenta. Em Alexandria, tem-se dito que s incapaz de uma culpa quem j a cometeu e j se arrependeu; para se estar livre de um erro, acrescentemos, convm hav-lo praticado. Zuhair, em seu "mualaca", disse que, no decurso de oitenta anos de dor e de glria, viu muitas vezes o destino atropelar de surpresa os homens, como um camelo cego; Abdalmlik entende que essa figura j no pode surpreender. A essa observao caberia contestar muitas coisas. A primeira que, se o fim do poema fosse o assombro, seu tempo no se mediria por sculos, mas por dias e por horas e talvez por minutos. A segunda que um famoso poeta menos inventor que descobridor. Para louvar Ibn-Sharaf de Berja, tem-se repetido que s ele pde imaginar que as estrelas, ao amanhecer, caem lentamente, como as folhas caem das rvores; isso, se fosse certo, evidenciaria que a imagem frvola. A imagem que um nico homem pode formar a que no toca ningum. Infinitas coisas existem na terra; qualquer uma pode equiparar-se a qualquer outra. Equiparar estrelas a folhas no menos arbitrrio que equipar-las a peixes ou a pssaros. Em compensao, ningum nunca sentiu que o destino forte e rude, que inocente e tambm inumano. Para essa convico, que pode ser passageira ou contnua, mas que ningum evita, foi escrito o verso de Zuhair. No se dir melhor o que ali se disse. Alm do mais (e isso talvez seja o essencial de minhas reflexes), o tempo, que despoja os alcceres, enriquece os versos. O de Zuhair, quando este o comps na Arbia, serviu para confrontar duas imagens, a do velho camelo e a do destino; repetido agora, serve para recordar Zuhair e para confundir nossos pesares com os daquele rabe morto. Dois termos tinha a figura e hoje ela tem quatro. O tempo amplia o mbito dos versos e sei de alguns que, como a msica, so tudo para todos os homens. Assim, atormentado h anos em Marrakech por lembranas de Crdoba, comprazia-me em repetir a apstrofe que Abdurrahman dirigiu, nos jardins de Ruzafa, a uma palmeira africana: Tu tambm s, palmeira!, Neste solo estrangeira... Singular benefcio da poesia; palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram a mim, desterrado na frica, para minha nostalgia da Espanha. Averris, depois, falou dos primeiros poetas, daqueles que no Tempo da Ignorncia, antes do Isl, j disseram todas as coisas, na infinita linguagem dos desertos. Alarmado, no sem razo, pelas futilidades de Ibn-Sharaf, disse que nos antigos e no Quran estava cifrada toda poesia e condenou por analfabeta e por v a ambio de inovar. Os demais o escutaram com prazer, pois ele defendia o antigo. Os muezins chamavam orao da primeira luz quando Averris voltou a entrar na biblioteca. (No harm, as escravas de cabelos negros haviam torturado uma escrava de cabelos ruivos, mas ele no o saberia seno tarde.) Algo lhe revelara o sentido das duas palavras obscuras. Com firme e cuidadosa caligrafia juntou estas linhas ao manuscrito: "Aristu (Aristteles) denomina tragdia os panegricos e comdias as stiras e os antemas. Admirveis tragdias e comdias so abundantes nas pginas do Coro e nos "mualacas" do santurio". Sentiu sono, sentiu um pouco de frio. Desenrolado o turbante, olhou-se num espelho de metal. No sei o que viram seus olhos, porque nenhum historiador descreveu as formas de seu rosto. Sei que desapareceu bruscamente, como se o fulminasse um fogo sem luz, e que com ele desapareceram a casa e o invisvel repuxo e os livros e os manuscritos e as pombas e as muitas escravas de cabelos negros e a trmula escrava de cabelos ruivos e Farach e Abulcsim e os roseirais e talvez o Guadalquivir. Na histria anterior quis contar o processo de uma derrota. Pensei, primeiro, naquele arcebispo de Canterbury que se props demonstrar que h um Deus; depois, nos alquimistas que procuraram a pedra filosofal; depois, nos inteis trissectores do ngulo e retificadores do crculo. Refleti, em seguida, que mais potico o caso de um homem que se prope um fim que no est vedado a outros, mas sim a ele. Lembrei-me de Averris, que, encerrado no mbito do Isl, nunca pde saber o significado das palavras tragdia e comdia. Contei o caso; medida que me adiantava, senti o que teve de sentir aquele deus mencionado por Burton, que se props criar um touro e criou um bfalo. Senti que a obra zombava de mim. Senti que Averris, querendo imaginar o que um drama sem ter suspeitado o que seja um teatro, no era mais absurdo que eu, querendo imaginar Averris, sem outro material alm de alguns adarmes de Renan, de Lane e de Asn Palacios. Senti, na ltima pgina, que minha narrativa era um smbolo do homem que eu fui enquanto a escrevia, e que, para escrever essa narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever essa narrativa, e assim at o infinito. (No instante em que deixo de acreditar nele, "Averris" desaparece.) O ZAHIR __________________________________________ Em Buenos Aires, o Zahir uma moeda comum, de vinte centavos; marcas de navalha ou de canivete riscam as letras N T e o nmero dois; 1929 a data gravada no anverso. (Em Guzerat, em fins do sculo XVIII, um tigre foi Zahir; em Java, um cego da mesquita de Surakarta, que os fiis apedrejaram; na Prsia, um astrolbio que Nadir Shah mandou atirar no fundo do mar; nas prises do Mahdi, por volta de 1892, uma pequena bssola que Rudolf Carl von Slatin tocou, envolta numa dobra de turbante; na mesquita de Crdoba, segundo Zotenberg, um veio no mrmore de um dos mil e duzentos pilares; entre os judeus de Tetuan, o fundo de um poo.) Hoje 13 de novembro; no dia 7 de junho, de madrugada, chegou s minhas mos o Zahir; no sou o que ento eu era, mas ainda me dado recordar, e talvez contar, o ocorrido. Se bem que, parcialmente, ainda sou Borges. Em 6 de junho morreu Teodelina Villar. Seus retratos, por volta de 193O, enchiam as revistas mundanas; essa abundncia contribuiu talvez para que a julgassem muito bonita, embora nem todas as imagens apoiassem incondicionalmente essa hiptese. Alm do mais, Teodelina Villar se preocupava menos com a beleza que com a perfeio. Os hebreus e os chineses codificaram todas as circunstncias humanas; na Mishnah se l que, iniciado o crepsculo do sbado, um alfaiate no deve sair rua com uma agulha; no Livro dos Ritos se l que um hspede, ao receber o primeiro copo, deve assumir um ar grave e, ao receber o segundo, um ar respeitoso e feliz. Anlogo, porm mais minucioso, era o rigor que Teodelina Villar exigia de si mesma. Procurava, como o adepto de Confcio ou o talmudista, a irrepreensvel correo de cada ato, mas seu empenho era mais admirvel e mais duro, pois as normas de seu credo no eram eternas, j que se rendiam s casualidades de Paris ou de Hollywood. Teodelina Villar mostrava-se em lugares ortodoxos, em hora ortodoxa, com atributos ortodoxos, com tdio ortodoxo, mas o tdio, os atributos, a hora e os lugares caducavam quase imediatamente e serviriam (na boca de Teodelina Villar) para definio do ridculo. Procurava o absoluto, como Flaubert, mas o absoluto no momentneo. Sua vida era exemplar e, no entanto, um desespero interior a roa sem trgua. Ensaiava contnuas metamorfoses, como para fugir de si mesma; a cor de seus cabelos e as formas de seu penteado eram famosamente instveis. Tambm variavam o sorriso, a tez, a obliqidade dos olhos. Desde 1932, foi estudadamente delgada... A guerra deu-lhe muito que pensar. Ocupada Paris pelos alemes, como seguir a moda? Um estrangeiro de quem ela sempre desconfiara permitiu-se abusar de sua boa-f para vender-lhe uma poro de chapus cilndricos; durante o ano, propagou-se que esses objetos extravagantes nunca haviam aparecido em Paris e, por conseguinte, no eram chapus, mas arbitrrios e desautorizados caprichos. As desgraas no vm sozinhas; o doutor Villar teve de mudar-se para a rua Aroz e o retrato de sua filha ilustrou anncios de cremes e de automveis. (Os cremes que ela tanto se aplicava, os automveis que j no possua!) Ela sabia que o bom exerccio de sua arte exigia grande fortuna; preferiu retirar-se a claudicar. Alm disso, doa-lhe competir com garotinhas insubstanciais. O sinistro distrito de Aroz mostrou-se demasiado oneroso; em 6 de junho, Teodelina Villar cometeu o solecismo de morrer em pleno Barrio Sur. Confessarei que, movido pela mais sincera das paixes argentinas, o esnobismo, estava apaixonado por ela e que sua morte me afetou at as lgrimas? Talvez j o tenha suspeitado o leitor. Nos velrios, o progresso da decomposio faz com que o morto recupere suas faces anteriores. Em algum momento da confusa noite do dia 6, Teodelina Villar foi magicamente a que fora havia vinte anos; seus traos recobraram a autoridade imposta pela soberba, pelo dinheiro, pela juventude, pela conscincia de coroar uma hierarquia, pela falta de imaginao, pelas limitaes, pela estupidez. Pensei mais ou menos assim: nenhuma verso dessa face que tanto me inquietou ser to memorvel como esta; convm que seja a ltima, j que pde ser a primeira. Rgida entre as flores deixei-a, aperfeioando seu desdm pela morte. Seriam duas da manh quando sa. Fora, as previstas fileiras de casas baixas e de casas de um pavimento tinham assumido esse ar abstrato que costumam assumir noite, quando a sombra e o silncio as simplificam. brio de uma piedade quase impessoal, caminhei pelas ruas. Na esquina das ruas Chile e Tacuar, vi um armazm aberto. Naquele armazm, para minha desgraa, trs homens jogavam o truco. Na figura que se chama oxmoro, aplica-se a uma palavra um epteto que parece contradiz-la; assim os gnsticos falaram de luz obscura, os alquimistas, de um sol negro. Sair de minha ltima visita a Teodelina Villar e tomar cachaa num armazm era uma espcie de oxmoro; sua grosseria e sua facilidade me tentaram. (A circunstncia de que se jogavam cartas aumentava o contraste.) Pedi uma aguardente de laranja; de troco, deram-me o Zahir; olhei-o por um instante; sa rua, talvez com um princpio de febre. Pensei que no existe moeda que no seja smbolo das moedas que resplandecem interminavelmente na histria e na fbula. Pensei no bolo de Caronte; no bolo que Belisrio pediu; nos trinta dinheiros de Judas; nas dracmas da cortes Las; na antiga moeda que ofereceu um dos adormecidos de feso; nas claras moedas do feiticeiro das Mil e Uma Noites, que depois eram crculos de papel; no denrio inesgotvel de Isaac Laquedem; nas sessenta mil peas de prata, uma para cada verso de uma epopia, as quais Firdusi devolveu a um rei por no serem de ouro; na ona de ouro que Ahab fez cravar no mastro; no florim irreversvel de Leopold Bloom; no lus cuja efgie denunciou, perto de Varennes, o fugitivo Lus XVI. Como num sonho, o pensamento de que toda moeda permite essas ilustres conotaes pareceu-me de imensa, se bem que inexplicvel, importncia. Percorri, com crescente velocidade, as ruas e as praas desertas. O cansao me deixou numa esquina. Vi uma gasta grade; por trs, vi os ladrilhos negros e brancos do trio da Concepcin. Errara em crculo; agora estava a uma quadra do armazm onde me deram o Zahir. Dobrei; a esquina escura me indicou, de longe, que o armazm estava fechado. Na rua Belgrano tomei um txi. Insone, possesso, quase feliz, pensei que no existe nada menos material que o dinheiro, j que qualquer moeda (uma moeda de vinte centavos, digamos) , a rigor, um repertrio de futuros possveis. O dinheiro abstrato, repeti, o dinheiro tempo futuro. Pode ser uma tarde nos arredores, pode ser msica de Brahms, pode ser mapas, pode ser xadrez, pode ser caf, pode ser as palavras de Epicteto, que ensinam o desprezo pelo ouro; um Proteu mais verstil que o da ilha de Faros. E tempo imprevisvel, tempo de Bergson, no duro tempo do Isl ou do Prtico. Os deterministas negam que haja no mundo um nico fato possvel, id est um fato que pde acontecer; uma moeda simboliza nosso livre-arbtrio. (No suspeitava eu que esses "pensamentos" eram um artifcio contra o Zahir e uma primeira forma de sua demonaca influncia.) Dormi aps tenazes cavilaes, mas sonhei que eu era as moedas que um grifo custodiava. No dia seguinte, decidi que tinha estado bbado. Tambm resolvi livrar-me da moeda que tanto me inquietava. Olhei-a: nada tinha de particular, a no ser algumas ranhuras. Enterr-la no jardim ou escond-la num canto da biblioteca teria sido o melhor, mas eu queria distanciar-me de sua rbita. Preferi perd-la. No fui ao Pilar, essa manh, nem ao cemitrio; fui, de metr, a Constitucin e de Constitucin a San Juan e Boedo. Saltei, impensadamente, em Urquiza; dirigi-me ao oeste e ao sul; baralhei, com desordem estudada, umas quantas esquinas e, numa rua que me pareceu igual a todas, entrei num botequim qualquer, pedi uma caninha e paguei-a com o Zahir. Entrecerrei os olhos, por trs das lentes esfumadas; consegui no ver os nmeros das casas nem o nome da rua. Essa noite, tomei uma pastilha de veronal e dormi tranqilo. At fins de junho, distraiu-me a tarefa de compor um conto fantstico. Ele encerra duas ou trs perfrases enigmticas em lugar de sangue, traz gua da espada; em lugar de ouro, leito da serpente e est escrito em primeira pessoa. O narrador um asceta que renunciou ao trato com os homens e vive numa espcie de pramo. (Gnitaheidr o nome desse lugar.) Dada a candura e a simplicidade de sua vida, h os que o julgam um anjo; isso um piedoso exagero, pois no existe homem que esteja livre de culpa. Sem ir mais longe, ele mesmo degolou seu pai; bem verdade que este era um famoso feiticeiro que se apoderara, por artes mgicas, de um tesouro infinito. Resguardar o tesouro da insana cobia dos humanos a misso a que dedicou sua vida; dia e noite vela sobre ele. Rpido, talvez demasiadamente rpido, essa viglia ter fim: as estrelas disseram-lhe que j se forjou a espada que a decepar para sempre. (firam o nome dessa espada.) Num estilo cada vez mais tortuoso, pondera o brilho e a flexibilidade de seu corpo; em algum pargrafo, fala distraidamente de escamas; em outro, diz que o tesouro que guarda de ouro fulgurante e de anis vermelhos. No final, entendemos que o asceta a serpente Fafnir e o tesouro em que jaz, o dos Nibelungos. A apario de Sigurd corta bruscamente a histria. Disse que a execuo dessa ninharia (em cujo decurso intercalei, pseudo-eruditamente, algum verso da Ffnisml) permitiu-me esquecer a moeda. Noites houve em que me acreditei to seguro de poder esquec-la que voluntariamente a recordava. O certo que abusei desses momentos; dar-lhes incio resultava mais fcil que lhes dar fim. Em vo repeti que esse abominvel disco de nquel no diferia dos outros que passam de uma para outra mo, iguais, infinitos e inofensivos. Impelido por essa reflexo, procurei pensar em outra moeda, mas no pude. Tambm me lembro de alguma experincia, frustrada, com cinco e dez centavos chilenos e com um vintm oriental. Em 16 de julho, adquiri uma libra esterlina; no a olhei durante o dia, mas nessa noite (e outras) coloquei-a sob uma lente de aumento e estudei-a luz de uma poderosa lmpada eltrica. Depois, desenhei-a com um lpis, atravs de um papel. De nada me valeram o fulgor e o drago e So Jorge; no consegui livrar-me da idia fixa. No ms de agosto, optei por consultar um psiquiatra. No lhe confiei toda a minha ridcula histria; disse-lhe que a insnia me atormentava e que a imagem de um objeto qualquer costumava perseguir-me; a de uma ficha ou a de uma moeda, digamos... Pouco depois, exumei em uma livraria da rua Sarmiento um exemplar de Urkunden zur Geschichte der Zahirsage (Breslau, 1899), de Julius Barlach. Naquele livro estava declarado meu mal. Segundo o prlogo, o autor se props "reunir em um nico volume em legvel oitavo-maior todos os documentos que se referem superstio do Zahir, inclusive quatro peas pertencentes ao arquivo de Habicht e o manuscrito original do relatrio de Philip Meadows Taylor". A crena no Zahir islmica e data, ao que parece, do sculo XVIII. (Barlach impugna as passagens que Zotenberg atribui a Abulfeda.) Zahir, em rabe, quer dizer evidente, visvel; em tal sentido, um dos noventa e nove nomes de Deus; a plebe, em terras muulmanas, chama-o de "os seres ou coisas que tm a terrvel virtude de ser inolvidveis e cuja imagem acaba por enlouquecer as pessoas". O primeiro testemunho incontrovertido o do persa Lutf Ali Azur. Nas derradeiras pginas da enciclopdia biogrfica intitulada Templo do Fogo, esse polgrafo e dervixe narrou que, num colgio de Shiraz, houve um astrolbio de cobre, "construdo de tal modo que quem o olhasse uma vez no pensava em outra coisa e assim o rei ordenou que o atirassem no mais profundo do mar, para que os homens no se esquecessem do universo". Mais extenso o relatrio de Meadows Taylor, que serviu ao soberano de Haidarabad e comps a famosa novela Confessions of a Thug. Por volta de 1832, Taylor ouviu nos arrabaldes de Bhuj a estranha locuo "Ter visto o Tigre" (Verily he has looked on the Tiger) para significar a loucura ou a santidade. Disseram-lhe que a referncia era a um tigre mgico, que foi a perdio de quantos o viram, mesmo de muito longe, pois todos continuaram pensando nele at o fim de seus dias. Algum disse que um desses desventurados fugira para Mysore, onde pintara num palcio a figura do tigre. Anos depois, Taylor visitou os crceres desse reino; no de Nithur, o governador lhe mostrou uma cela em cujo piso, em cujos muros e em cuja abbada um faquir muulmano desenhara (em brbaras cores que o tempo, em vez de apagar, delineava) uma espcie de tigre infinito. Esse tigre estava feito de muitos tigres, de vertiginosa maneira; atravessavam-no tigres, estava raiado de tigres, inclua mares e Himalaias e exrcitos que pareciam outros tigres. O pintor morrera, havia anos, nessa mesma cela; vinha de Sind ou talvez de Guzerat e seu propsito inicial fora traar um mapa-mndi. Desse propsito restavam vestgios na monstruosa imagem. Taylor narrou a histria a Muhammad Al-Yemeni, de Fort William; este lhe disse que no havia criatura no mundo que no se inclinasse para Zaheer,1 mas que o Todo-Misericordioso no deixa que duas coisas o sejam ao mesmo tempo, j que uma s pode fascinar multides. Disse que sempre existe um Zahir e que na Idade da Ignorncia foi o dolo que se chamou Yauq e depois um profeta do Kurassan, que usava um vu recamado de pedras ou uma mscara de ouro.2 Disse tambm que Deus inescrutvel. Muitas vezes li a monografia de Barlach. No decifro quais foram meus sentimentos; recordo o desespero quando compreendi que j nada me salvaria, o intrnseco alvio de saber que eu no era culpado de minha desdita, a inveja que me deram aqueles homens cujo Zahir no foi uma moeda mas um pedao de mrmore ou um tigre. Que empresa fcil no pensar num tigre, refleti. Tambm me lembro da inquietude singular com que li este pargrafo: "Um comentador do Gulshan i Raz diz que quem viu o Zahir logo ver a Rosa e cita um verso interpolado no Asrar Nama (Livro de Coisas que se Ignoram), de Attar: o Zahir a sombra da Rosa e a rasgadura do Vu". Na noite em que velaram Teodelina, surpreendeu-me no ver entre os presentes a senhora de Abascal, sua irm mais moa. Em outubro, uma sua amiga me disse: Pobre Julita, ficou to estranha que a internaram no Bosch. Como no estar estafando as enfermeiras que lhe do comida na boca! Continua obcecada pela moeda, idntica ao chauffeur de Morena Sackmann. O tempo, que atenua as lembranas, agrava a do Zahir. Antes, eu imaginava o anverso e depois o reverso; agora, vejo simultaneamente os dois. Isso no ocorre como se fosse de cristal o Zahir, pois uma face no se superpe outra; ocorre, isso sim, como se a viso fosse esfrica e o Zahir sobressasse no centro. O que no o Zahir me chega depurado e como que distante: a desdenhosa imagem de Teodelina, a dor fsica. Disse Tennyson que, se pudssemos compreender uma nica flor, saberamos quem somos e o que o mundo. Talvez quisesse dizer que no existe fato, por humilde que seja, que no implique a histria universal e sua infinita concatenao de efeitos e causas. Talvez quisesse dizer que o mundo visvel se d inteiro em cada representao, da mesma maneira que a vontade, segundo Schopenhauer, se d inteira em cada indivduo. Os cabalistas entenderam que o homem um microcosmo, um simblico espelho do universo; tudo, segundo Tennyson, o seria. Tudo, at o intolervel Zahir. Antes de 1948, o destino de Julia talvez j tenha me atingido. Tero de alimentar-me e vestir-me, no saberei se tarde ou manh, no saberei quem foi Borges. Qualificar de terrvel esse futuro uma falcia, j que nenhuma de suas circunstncias ter significado para mim. Tanto valeria sustentar que terrvel a dor de um anestesiado a quem abrem o crnio. J no perceberei o universo, perceberei o Zahir. Segundo a doutrina idealista, os verbos viver e sonhar so rigorosamente sinnimos; de milhares de aparncias, passarei a uma; de um sonho muito complexo a um sonho muito simples. Outros sonharo que estou louco, e eu com o Zahir. Quando todos os homens da terra pensarem, dia e noite, no Zahir, qual ser um sonho e qual uma realidade, a terra ou o Zahir? Nas horas desertas da noite ainda posso caminhar pelas ruas. A aurora costuma surpreender-me num banco da praa Garay, pensando (procurando pensar) naquela passagem do Asrar Nama, na qual se diz que o Zahir a sombra da Rosa e a rasgadura do Vu. Vinculo essa opinio a esta notcia: para perder-se em Deus, os sufis repetem seu prprio nome ou os noventa e nove nomes divinos at que eles j nada querem dizer. Eu desejo percorrer esse caminho. Talvez acabe por gastar o Zahir fora de pensar e repensar nele; talvez, por trs da moeda, esteja Deus. Para Wally Zenner. _______________________________________ Notas: 1 Assim escreve Taylor essa palavra. 2 Barlach observa que Yauq figura no Coro (71, 23) e que o profeta AI-Moqanna (O Velado) e que ningum, com exceo do surpreendente correspondente de Philip Meadows Taylor, vinculou-os ao Zahir. A ESCRITA DO DEUS __________________________________________ O crcere profundo e de pedra; sua forma, a de um hemisfrio quase perfeito, embora o piso (tambm de pedra) seja algo menor que um crculo mximo, fato que de algum modo agrava os sentimentos de opresso e de grandeza. Um muro corta-o pelo meio; este, apesar de altssimo, no toca a parte superior da abbada; de um lado estou eu, Tzinacan, mago da pirmide de Qaholom, que Pedro de Alvarado incendiou; do outro h um jaguar, que mede com secretos passos iguais o tempo e o espao do cativeiro. Ao nvel do cho, uma ampla janela com barrotes corta o muro central. Na hora sem sombra [o meio-dia], abre-se um alapo no alto e um carcereiro que foram apagando os anos manobra uma roldana de ferro e nos baixa, na ponta de um cordel, cntaros com gua e pedaos de carne. A luz entra na abbada; nesse instante posso ver o jaguar. Perdi o nmero dos anos que estou na treva; eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar por esta priso, no fao outra coisa seno aguardar, na postura de minha morte, o fim que me destinam os deuses. Com a profunda faca de pedernal abri o peito das vtimas e agora no poderia, sem magia, levantar-me do p. Na vspera do incndio da Pirmide, os homens que desceram de altos cavalos me castigaram com metais ardentes para que revelasse o lugar de um tesouro escondido. Abateram, diante de meus olhos, o dolo do deus, mas este no me abandonou e me mantive silencioso entre os tormentos. Laceraram-me, quebraram-me, deformaram-me e depois acordei neste crcere, que no mais deixarei em minha vida mortal. Premido pela fatalidade de fazer algo, de povoar de algum modo o tempo, quis recordar, em minha sombra, tudo o que sabia. Noites inteiras desperdicei em recordar a ordem e o nmero de algumas serpentes de pedra ou a forma de uma rvore medicinal. Assim fui debelando os anos, assim fui entrando na posse do que j era meu. Uma noite, senti que me aproximava de uma lembrana precisa; antes de ver o mar, o viajante sente uma agitao no sangue. Horas depois, comecei a avistar a lembrana; era uma das tradies do deus. Este, prevendo que no fim dos tempos ocorreriam muitas desventuras e runas, escreveu no primeiro dia da Criao uma sentena mgica, capaz de conjurar esses males. Escreveu-a de maneira que chegasse s mais distantes geraes e que no a tocasse o azar. Ningum sabe em que ponto a escreveu nem com que caracteres, mas consta-nos que perdura, secreta, e que a ler um eleito. Considerei que estvamos, como sempre, no fim dos tempos e que meu destino de ltimo sacerdote do deus me daria acesso ao privilgio de intuir essa escrita. O fato de que me rodeasse uma priso no me vedava essa esperana; talvez eu tivesse visto milhares de vezes a inscrio de Qaholom e s me faltasse entend-la. Essa reflexo me animou e logo me infundiu uma espcie de vertigem. No mbito da terra existem formas antigas, formas incorruptveis e eternas; qualquer uma delas podia ser o smbolo procurado. Uma montanha podia ser a palavra do deus, ou um rio ou o imprio ou a configurao dos astros. Mas no curso dos sculos as montanhas se aplainam e o caminho de um rio costuma desviar-se e os imprios conhecem mutaes e estragos e a figura dos astros varia. No firmamento h mudana. A montanha e a estrela so indivduos e os indivduos caducam. Procurei algo mais tenaz, mais invulnervel. Pensei nas geraes dos cereais, dos pastos, dos pssaros, dos homens. Talvez em minha face estivesse escrita a magia, talvez eu mesmo fosse o fim de minha procura. Estava nesse af quando recordei que o jaguar era um dos atributos do deus. Ento minha alma se encheu de piedade. Imaginei a primeira manh do tempo, imaginei meu deus confiando a mensagem pele viva dos jaguares, que se amariam e se gerariam eternamente, em cavernas, em canaviais, em ilhas, para que os ltimos homens a recebessem. Imaginei essa rede de tigres, esse quente labirinto de tigres, causando horror aos prados e aos rebanhos para conservar um desenho. Na outra cela havia um jaguar; em sua proximidade percebi uma confirmao de minha conjetura e um secreto favor. Dediquei longos anos a aprender a ordem e a configurao das manchas. Cada cega jornada me concedia um instante de luz, e assim pude fixar na mente as negras formas que riscavam a pelagem amarela. Algumas incluam pontos; outras formavam raias transversais na face interior das pernas; outras, anulares, se repetiam. Talvez fossem um mesmo som ou uma mesma palavra. Muitas tinham bordas vermelhas. No falarei das fadigas de meu labor. Mais de uma vez gritei abbada que era impossvel decifrar aquele texto. Gradualmente, o enigma concreto que me atarefava me inquietou menos que o enigma genrico de uma sentena escrita por um deus. Que tipo de sentena (perguntei-me) construir uma mente absoluta? Considerei que mesmo nas linguagens humanas no existe proposio que no implique o universo inteiro; dizer o tigre dizer os tigres que o geraram, os cervos e tartarugas que ele devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi me do pasto, o cu que deu luz terra. Considerei que na linguagem de um deus toda palavra enunciaria essa infinita concatenao dos fatos, e no de um modo implcito, mas explcito, e no de um modo progressivo, mas imediato. Com o tempo, a noo de uma sentena divina pareceu-me pueril ou blasfematria. Um deus, refleti, s deve dizer uma palavra e nessa palavra a plenitude. Nenhuma palavra articulada por ele pode ser inferior ao universo ou menos que a soma do tempo. Sombras ou simulacros dessa palavra, que equivale a uma linguagem e a quanto pode compreender uma linguagem, so as ambiciosas e pobres palavras humanas, tudo, mundo, universo. Um dia ou uma noite entre meus dias e minhas noites que diferena existe? sonhei que no cho do crcere havia um gro de areia. Voltei a dormir, indiferente; sonhei que despertava e que havia dois gros de areia. Voltei a dormir; sonhei que os gros de areia eram trs. Foram, assim, multiplicando-se at encher o crcere e eu morria sob esse hemisfrio de areia. Compreendi que estava sonhando; com enorme esforo, despertei. O despertar foi intil; a inumervel areia me sufocava. Algum me disse: "No despertaste para a viglia, mas para um sonho anterior. Esse sonho est dentro de outro, e assim at o infinito, que o nmero dos gros de areia. O caminho que ters de desandar interminvel e morrers antes de haver despertado realmente". Senti-me perdido. A areia me enchia a boca, mas gritei: "Nenhuma areia sonhada pode matar-me, nem existem sonhos dentro de sonhos". Um resplendor me despertou. Na treva superior desenhava-se um crculo de luz. Vi a face e as mos do carcereiro, a roldana, o cordel, a carne e os cntaros. Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem , afinal, suas circunstncias. Mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, eu era um encarcerado. Do incansvel labirinto de sonhos regressei, como minha casa, dura priso. Bendisse sua umidade, bendisse seu tigre, bendisse a fresta de luz, bendisse meu velho corpo dolorido, bendisse a treva e a pedra. Ento ocorreu o que no posso esquecer nem comunicar. Ocorreu a unio com a divindade, com o universo (no sei se estas palavras diferem). O xtase no repete seus smbolos; h quem tenha visto Deus num resplendor, h quem o tenha percebido numa espada ou nos crculos de uma rosa. Eu vi uma Roda altssima, que no estava diante de meus olhos, nem atrs, nem nos lados, mas em todas as partes, a um s tempo. Essa Roda estava feita de gua, mas tambm de fogo, e era (embora se visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam-na todas as coisas que sero, que so e que foram, e eu era um fio dessa trama total, e Pedro de Alvarado, que me atormentou, era outro. Ali estavam as causas e os efeitos e me bastava ver essa Roda para entender tudo, interminavelmente. Oh, felicidade de entender, maior que a de imaginar ou que a de sentir! Vi o universo e vi os ntimos desgnios do universo. Vi as origens que narra o Livro do Comum. Vi as montanhas que surgiram da gua, vi os primeiros homens feitos de pau, vi as tinalhas que se voltaram contra os homens, vi os ces que lhes destroaram os rostos. Vi o deus sem face que h por trs dos deuses. Vi infinitos processos que formavam uma s felicidade e, entendendo tudo, consegui tambm entender a escrita do tigre. uma frmula de catorze palavras casuais (que parecem casuais) e me bastaria diz-la em voz alta para ser Todo-Poderoso. Bastaria diz-la para abolir este crcere de pedra, para que o dia entrasse em minha noite, para ser jovem, para ser imortal, para que o tigre destroasse Alvarado, para afundar o santo punhal em peitos espanhis, para reconstruir a pirmide, para reconstruir o imprio. Quarenta slabas, catorze palavras, e eu, Tzinacan, regeria as terras que Montezuma regeu. Mas eu sei que nunca direi essas palavras, porque no me lembro de Tzinacan. Que morra comigo o mistrio que est escrito nos tigres. Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desgnios do universo no pode pensar num homem, em suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. Esse homem foi ele e agora no lhe importa. Que lhe importa a sorte daquele outro, que lhe importa a nao daquele outro, se ele agora ningum. Por isso no pronuncio a frmula, por isso deixo que os dias me esqueam, deitado na escurido. Para Ema Risso Platero. ABENJACAN, O BOKARI, MORTO EM SEU LABIRINTO __________________________________________ ...so comparveis aranha, que edifica uma casa. Alcoro, XXIX, 4O. Esta disse Dunraven com um grande gesto que no recusava as nubladas estrelas e que abarcava o negro pramo, o mar e um edifcio majestoso e decrpito que parecia uma cavalaria deteriorada a terra de meus antepassados. Unwin, seu companheiro, tirou o cachimbo da boca e emitiu sons modestos e aprovadores. Era a primeira tarde do vero de 1914; fartos de um mundo sem a dignidade do perigo, os amigos apreciavam a solido desses confins de Cornwall. Dunraven fomentava uma barba escura e se sabia autor de uma considervel epopia que seus contemporneos quase no poderiam escandir e cujo tema no lhe havia sido ainda revelado; Unwin publicara um estudo sobre o teorema que Fermat no escreveu margem de uma pgina de Diofanto. Ambos ser preciso que o diga? eram jovens, distrados e apaixonados. Far um quarto de sculo disse Dunraven que Abenjacan, o Bokari, chefe ou rei de no sei que tribo niltica, morreu no aposento central desta casa, pelas mos de seu primo Zaid. Com o passar dos anos, as circunstncias de sua morte continuam obscuras. Unwin perguntou por qu, docilmente. Por diversas razes foi a resposta. Em primeiro lugar, esta casa um labirinto. Em segundo lugar, vigiavam-na um escravo e um leo. Em terceiro lugar, desvaneceu-se um tesouro secreto. Em quarto lugar, o assassino estava morto quando o assassinato ocorreu. Em quinto lugar... Unwin, cansado, o deteve. No multipliques os mistrios disse. Estes devem ser simples. Lembra a carta roubada de Poe, lembra o quarto fechado de Zangwill. Ou complexos replicou Dunraven. Lembra o universo. Subindo colinas arenosas, haviam chegado ao labirinto. Este, de perto, pareceu-lhes uma direita e quase interminvel parede, de tijolos sem reboco, pouco mais alta que um homem. Dunraven disse que tinha a forma de um crculo, mas to extensa era sua rea que no se percebia a curvatura. Unwin lembrou-se de Nicolau de Cusa, para quem toda linha reta o arco de um crculo infinito... Por volta da meia-noite, descobriram uma arruinada porta, que dava para um cego e perigoso corredor. Dunraven disse que no interior da casa havia muitas encruzilhadas, mas que, dobrando sempre esquerda, chegariam em pouco mais de uma hora ao centro da rede. Unwin assentiu. Os passos cautelosos ressoaram no solo de pedra; o corredor se bifurcou em outros mais estreitos. A casa parecia querer asfixi-los, o teto era muito baixo. Tiveram de avanar um atrs do outro pela complicada treva. Unwin ia adiante. Embrutecido de asperezas e de ngulos, flua sem fim contra sua mo o invisvel muro. Unwin, lento na sombra, ouviu da boca de seu amigo a histria da morte de Abenjacan. Talvez a mais antiga de minhas lembranas contou Dunraven seja a de Abenjacan, o Bokari, no porto de Pentreath. Seguia-o um homem negro com um leo; sem dvida o primeiro negro e o primeiro leo que meus olhos viram fora das gravuras da Escritura. Eu era ento um menino, mas a fera da cor do sol e o homem da cor da noite me impressionaram menos que Abenjacan. Pareceu-me muito alto; era um homem de pele citrina, de entrecerrados olhos negros, de insolente nariz, de carnudos lbios, de barba aafroada, de peito forte, de andar seguro e silencioso. Em casa disse: "Chegou um rei num navio". Depois, com o trabalho dos pedreiros, ampliei esse ttulo e pus-lhe o de Rei de Babel. A notcia de que o forasteiro iria fixar-se em Pentreath foi recebida com agrado; a extenso e a forma de sua casa, com espanto e at mesmo com escndalo. Pareceu intolervel que uma casa constasse de um nico aposento e de lguas e lguas de corredores. "Entre os mouros so usadas tais casas, mas no entre cristos", diziam as pessoas. Nosso reitor, o senhor Allaby, homem de curiosa leitura, exumou a histria de um rei a quem a Divindade castigou por ter erguido um labirinto e a divulgou do plpito. Na segunda-feira, Abenjacan visitou a reitoria; os pormenores da breve entrevista no se conheceram ento, mas nenhum sermo ulterior aludiu soberba, e o mouro pde contratar pedreiros. Anos depois, quando pereceu Abenjacan, Allaby declarou s autoridades a substncia do dilogo. Abenjacan disse-lhe, de p, estas ou parecidas palavras: "Ningum mais pode censurar o que fao. As culpas que me infamam so tais que, mesmo que eu repetisse durante sculos o ltimo Nome de Deus, isso no bastaria para mitigar um s de meus tormentos; as culpas que me infamam so tais que, mesmo que eu o matasse com estas mos, isso no agravaria os tormentos que me destina a infinita justia. Em nenhuma terra desconhecido o meu nome; sou Abenjacan, o Bokari, e regi as tribos do deserto com um cetro de ferro. Durante muitos anos, despojei-as, com assistncia de meu primo Zaid, mas Deus ouviu seu clamor e permitiu que se rebelassem. Minha famlia foi rasgada e esfaqueada; eu consegui fugir com o tesouro arrecadado em meus anos de espoliao. Zaid guiou-me ao sepulcro de um santo, ao p de uma montanha de pedra. Ordenei a meu escravo que vigiasse a frente do deserto; Zaid e eu dormimos, exaustos. Nessa noite, acreditei que me aprisionava uma rede de serpentes. Despertei com horror; a meu lado, ao amanhecer, dormia Zaid; o roar de uma teia de aranha em minha carne me fizera sonhar aquele sonho. Desgostou-me que Zaid, um covarde, dormisse to tranqilamente. Considerei que o tesouro no era infinito e que ele podia reclamar uma parte. Em meu cinto estava a adaga com a empunhadura de prata; desnudei-a e atravessei-lhe a garganta. Em sua agonia, ele balbuciou algumas palavras que no pude entender. Olhei-o; estava morto, mas temi que se levantasse e ordenei ao escravo que lhe desfizesse o rosto com uma pedra. Depois erramos sob o cu e um dia divisamos um mar. Sulcavam-no navios muito altos; refleti que um morto no poderia andar pela gua e decidi procurar outras terras. Na primeira noite que navegamos, sonhei que eu matava Zaid. Tudo se repetiu mas eu entendi suas palavras. Dizia: "Como agora me apagas, eu te apagarei, onde quer que estejas". Jurei frustrar essa ameaa; ficarei oculto no centro de um labirinto para que seu fantasma se perca". Dito isso, foi embora. Allaby tratou de pensar que o mouro estava louco e que o absurdo labirinto era smbolo e claro testemunho de sua loucura. Depois refletiu que essa explicao condizia com o extravagante edifcio e com o extravagante relato, no com a enrgica impresso que deixava o homem Abenjacan. Talvez tais histrias fossem comuns nos areais egpcios, talvez tais estranhezas correspondessem (como os drages de Plnio) menos a uma pessoa que a uma cultura... Allaby, em Londres, reviu nmeros atrasados do Times; comprovou a verdade da rebelio e de uma subseqente derrota do Bokari e de seu vizir, que tinha fama de covarde. Aquele, to logo os pedreiros concluram a obra, instalou-se no centro do labirinto. No o viram mais no povoado; por vezes, Allaby temeu que Zaid j o tivesse encontrado e aniquilado. Durante as noites, o vento nos trazia o rugido do leo, e as ovelhas do redil se aconchegavam com um antigo medo. Costumavam ancorar na pequena baa, rumo a Cardiff ou a Bristol, navios de portos orientais. O escravo descia do labirinto (que ento, estou lembrado, no era rosado, mas de cor carmesim) e trocava palavras africanas com as tripulaes e parecia procurar entre os homens o fantasma do vizir. Dizia-se que tais embarcaes traziam contrabando, e se de lcoois ou marfins proibidos, por que no, tambm, de sombras de mortos? Aos trs anos da construo da casa, ancorou ao p das colinas o Rose of Sharon. No fui dos que viram esse veleiro e talvez na imagem que tenho dele influam esquecidas litografias de Aboukir ou de Trafalgar, mas acho que era desses barcos muito trabalhados que no parecem obra de armador mas de carpinteiro e menos de carpinteiro que de ebanista. Era (se no na realidade, em meus sonhos) polido, escuro, silencioso e veloz, e o tripulavam rabes e malaios. Ancorou ao amanhecer de um dos dias de outubro. Ao entardecer, Abenjacan irrompeu na casa de Allaby. Dominava-o a paixo do terror; apenas pde articular que Zaid j tinha entrado no labirinto e que seu escravo e seu leo haviam perecido. Perguntou com seriedade se as autoridades poderiam ampar-lo. Antes que Allaby respondesse, saiu, como se o arrebatasse o mesmo terror que o havia trazido a essa casa, pela segunda e ltima vez. Allaby, sozinho em sua biblioteca, pensou com espanto que esse temeroso oprimira no Sudo tribos de ferro, e sabia o que uma batalha e o que matar. Observou, no outro dia, que j havia zarpado o veleiro (rumo a Suakin, no mar Vermelho, averiguou-se depois). Refletiu que seu dever era comprovar a morte do escravo e dirigiu-se ao labirinto. O arquejante relato do Bokari pareceu-lhe fantstico, mas em um ngulo das galerias deu com o leo, e o leo estava morto, e em outro, com o escravo, que estava morto, e no aposento central com o Bokari, a quem haviam destroado o rosto. Aos ps do homem havia uma arca marchetada de ncar; algum forara a fechadura e no restava uma nica moeda. Os perodos finais, agravados por pausas oratrias, procuravam ser eloqentes; Unwin adivinhou que Dunraven os pronunciara muitas vezes, com idntico aprumo e com idntica ineficcia. Perguntou, para simular interesse: Como morreram o leo e o escravo? A incorrigvel voz respondeu com sombria satisfao: Tambm lhes destroaram o rosto. Ao rudo dos passos juntou-se o rudo da chuva. Unwin pensou que teriam de dormir no labirinto, no aposento central do relato, e que na lembrana essa longa incomodidade seria uma aventura. Guardou silncio; Dunraven no pde conter-se e perguntou, como quem no perdoa uma dvida: No inexplicvel esta histria? Unwin respondeu, como se pensasse em voz alta: No sei se explicvel ou inexplicvel. Sei que mentira. Dunraven prorrompeu em palavres e invocou o testemunho do filho mais velho do reitor (Allaby, parece, havia morrido) e de todos os vizinhos de Pentreath. No menos atnito que Dunraven, Unwin desculpou-se. O tempo, na escurido, parecia mais longo; os dois temeram haver perdido o caminho e estavam muito cansados quando uma tnue claridade superior lhes mostrou os degraus iniciais de uma estreita escada. Subiram e chegaram a um arruinado quarto redondo. Dois sinais perduravam do medo do malfadado rei: uma estreita janela que dominava os pramos e o mar e no cho um alapo que se abria sobre a curva da escada. O quarto, embora espaoso, tinha muito de cela carcerria. Menos instados pela chuva que pelo af de viver para rememorar e contar, os amigos passaram a noite no labirinto. O matemtico dormiu com tranqilidade, o que no aconteceu com o poeta, acossado por versos que sua razo julgava detestveis: Faceless the sultry and overpowering lion, Faceless the stricken slave, faceless the king. Unwin acreditava que no lhe interessara a histria da morte do Bokari, mas acordou com a convico de hav-la decifrado. Todo aquele dia esteve preocupado e esquivo, ajustando e reajustando as peas, e duas noites depois se reuniu com Dunraven em uma cervejaria de Londres e disse-lhe estas ou parecidas palavras: Em Cornwall disse que era mentira a histria que ouvi de ti. Os fatos eram certos, ou poderiam s-lo, mas contados como tu os contaste eram, de modo manifesto, mentiras. Comearei pela maior mentira de todas, pelo labirinto inacreditvel. Um fugitivo no se oculta num labirinto. No ergue um labirinto sobre um alto lugar da costa, um labirinto carmesim que os marinheiros avistam de longe. No precisa erguer um labirinto, quando o universo j o . Para quem verdadeiramente quer ocultar-se, Londres melhor labirinto que um observatrio para o qual se dirigem todos os corredores de um edifcio. A sbia reflexo que agora te submeto foi-me concedida anteontem noite, enquanto ouvamos chover sobre o labirinto e espervamos que o sono nos visitasse; advertido e esclarecido por ela, optei por esquecer teus absurdos e pensar em algo sensato. Na teoria dos conjuntos, digamos, ou numa quarta dimenso do espao observou Dunraven. No disse Unwin com seriedade. Pensei no labirinto de Creta. O labirinto cujo centro era um homem com cabea de touro. Dunraven, versado em obras policiais, pensou que a soluo do mistrio sempre inferior ao mistrio. O mistrio participa do sobrenatural e at mesmo do divino; a soluo, da prestidigitao. Disse, para retardar o inevitvel: Cabea de touro tem em medalhas e esculturas o minotauro. Dante imaginou-o com o corpo de touro e cabea de homem. Tambm essa verso me convm assentiu Unwin. O que importa a correspondncia da casa monstruosa com o habitante monstruoso. O minotauro justifica de sobra a existncia do labirinto. Ningum dir o mesmo de uma ameaa percebida em um sonho. Evocada a imagem do minotauro (evocao fatal num caso em que existe um labirinto), o problema, virtualmente, estava resolvido. No entanto, confesso no ter entendido que essa antiga imagem fosse a chave e, assim, foi necessrio que teu relato me oferecesse um smbolo mais preciso: a teia de aranha. A teia de aranha? repetiu Dunraven, perplexo. Sim. No me espantaria nada que a teia de aranha (a forma universal da teia de aranha, entendamos bem, a teia de aranha de Plato) tivesse sugerido ao assassino (porque h um assassino) seu crime. Lembrars que o Bokari, em uma tumba, sonhou com uma rede de serpentes e que, ao despertar, descobriu que uma teia de aranha lhe sugerira aquele sonho. Voltemos a essa noite em que o Bokari sonhou com uma rede. O rei vencido e o vizir e o escravo fogem pelo deserto com um tesouro. Refugiam-se em uma tumba. Dorme o vizir, de quem sabemos que um covarde; no dorme o rei, de quem sabemos que um valente. O rei, para no compartilhar o tesouro com o vizir, mata-o com uma facada; a sombra dele ameaa-o num sonho, noites depois. Tudo isto inacreditvel; entendo que os fatos ocorreram de outra maneira. Nessa noite dormiu o rei, o valente, e velou Zaid, o covarde. Dormir distrair-se do universo, e a distrao difcil para quem sabe que o perseguem com espadas nuas. Zaid, vido, inclinou-se sobre o sono de seu rei. Pensou em mat-lo (quem sabe at brincou com o punhal), mas no se atreveu. Chamou o escravo, ocultaram parte do tesouro na tumba, fugiram para Suakin e para a Inglaterra. No com o fim de ocultar-se do Bokari, mas para atra-lo e mat-lo, construiu vista do mar o alto labirinto de muros vermelhos. Sabia que os navios levariam aos portos da Nbia a fama do homem vermelho, do escravo e do leo, e que, cedo ou tarde, o Bokari viria procur-lo em seu labirinto. No ltimo corredor da rede esperava o alapo. O Bokari desprezava-o infinitamente; no se rebaixaria a tomar a menor precauo. O dia ansiado chegou; Abenjacan desembarcou na Inglaterra, caminhou at a porta do labirinto, atravessou os cegos corredores e j havia pisado talvez os primeiros degraus quando seu vizir o matou do alapo, no sei se com um balao. O escravo mataria o leo e outro balao mataria o escravo. Em seguida, Zaid desfez os trs rostos com uma pedra. Teve que agir assim; um s morto com a face desfeita teria sugerido um problema de identidade, mas a fera, o negro e o rei formavam uma srie e, dados os dois termos iniciais, todos postulariam o ltimo. No estranho que estivesse dominado pelo temor quando falou com Allaby; acabava de executar a horrvel tarefa e se dispunha a fugir da Inglaterra para recuperar o tesouro. Um silncio pensativo, ou incrdulo, seguiu-se s palavras de Unwin. Dunraven pediu outro copo de cerveja preta antes de opinar. Aceito disse que meu Abenjacan seja Zaid. Tais metamorfoses, vais dizer, so clssicos artifcios do gnero, so verdadeiras convenes cuja observncia exige o leitor. O que resisto a admitir a conjetura de que uma poro do tesouro ficasse no Sudo. Lembra que Zaid fugia do rei e dos inimigos do rei; mais fcil imagin-lo roubando todo o tesouro do que se demorando em enterrar uma parte. Talvez no se encontrassem moedas por no restarem moedas; os pedreiros teriam esgotado um caudal que, ao contrrio do ouro vermelho dos Nibelungos, no era infinito. Teramos assim Abenjacan atravessando o mar para reclamar um tesouro dilapidado. Dilapidado, no disse Unwin. Investido em armar em terra de infiis uma grande armadilha circular de tijolo destinada a prend-lo e aniquil-lo. Zaid, se tua conjetura correta, procedeu premido pelo dio e pelo temor e no pela cobia. Roubou o tesouro e depois compreendeu que no era o essencial para ele. O essencial era que Abenjacan perecesse. Simulou ser Abenjacan, matou Abenjacan e finalmente foi Abenjacan. Sim confirmou Dunraven. Foi um vagabundo que, antes de ser ningum na morte, recordaria ter sido um rei ou ter fingido ser um rei, algum dia. OS DOIS REIS E OS DOIS LABIRINTOS1 __________________________________________ Contam os homens dignos de f (porm Al sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilnia que reuniu arquitetos e magos e ordenou-lhes a construo de labirinto to surpreendente e sutil que os vares mais prudentes no se aventuravam a entrar, e os que entravam se perdiam. Essa obra era um escndalo, pois a confuso e a maravilha so operaes prprias de Deus e no dos homens. Com o correr do tempo, veio a sua corte um rei dos rabes, e o rei da Babilnia (para zombar da simplicidade de seu hspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso at o fim da tarde. Implorou ento o socorro divino e deu com a porta. Seus lbios no proferiram queixa nenhuma, mas disse ao rei da Babilnia que ele tinha na Arbia outro labirinto e, se Deus quisesse, lho daria a conhecer algum dia. Depois regressou Arbia, juntou seus capites e alcaides e arrasou os reinos da Babilnia com to venturosa sorte que derrubou seus castelos, dizimou sua gente e fez prisioneiro o prprio rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram trs dias, e lhe disse: "Oh, rei do tempo e substncia e smbolo do sculo, na Babilnia, quiseste que me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde no h escadas a subir, nem portas a forar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te vedem os passos". Em seguida, desatou-lhes as amarras e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glria esteja com Aquele que no morre. __________________________________ Notas: 1 Esta a histria que o reitor comentou do plpito. Ver em Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto. A ESPERA __________________________________________ A carruagem deixou-o no quatro mil e quatro dessa rua do Noroeste. No tinha dado as nove da manh; o homem percebeu com aprovao os manchados pltanos, o quadrado de terra ao p de cada um, as respeitveis casas com varandinha, a farmcia contgua, os desbotados losangos da loja de tintas e da ferraria. Um longo e compacto paredo de hospital fechava a calada da frente; o sol reverberava, mais ao longe, em algumas estufas. O homem considerou que essas coisas (agora arbitrrias e casuais e em qualquer ordem, como as que se vem nos sonhos) seriam com o tempo, se Deus quisesse, invariveis, necessrias e familiares. Na vitrina da farmcia lia-se em letras de frma: Breslauer; os judeus estavam deslocando os italianos, que tinham deslocado os nativos. Melhor assim; o homem preferia no alternar com gente de seu sangue. O cocheiro ajudou-o a descer o ba; uma mulher de ar distrado ou cansado abriu por fim a porta. De seu assento, o cocheiro lhe devolveu uma das moedas, um vintm oriental que estava em seu bolso desde essa noite no hotel de Melo. O homem entregou-lhe quarenta centavos, e no ato ele sentiu: "Tenho obrigao de agir de maneira que todos se esqueam de mim. Cometi dois erros: dei uma moeda de outro pas e deixei ver que esse equvoco me interessa". Precedido pela mulher, atravessou o vestbulo e o primeiro ptio. O quarto que lhe haviam reservado dava, felizmente, para o segundo andar. A cama era de ferro, que o artfice havia deformado em curvas fantsticas, representando ramos e pmpanos; havia, ao mesmo tempo, um alto guarda-roupa de pinho, uma mesa-de-cabeceira, uma estante com livros quase ao nvel do cho, duas cadeiras dspares e um lavatrio com sua bacia, sua jarra, sua saboneteira e um garrafo de vidro escuro. Um mapa da provncia de Buenos Aires e um crucifixo adornavam as paredes; o papel era vermelho, com grandes paves repetidos, de cauda desfraldada. A nica porta dava para o ptio. Foi necessrio mudar a posio das cadeiras para dar lugar ao ba. O inquilino aprovou tudo; quando a mulher lhe perguntou como se chamava, disse Villari, no como um desafio secreto, no para mitigar uma humilhao que, na verdade, no sentia, mas porque esse nome o perseguia, porque lhe foi impossvel pensar em outro. No o seduziu, certamente, o erro literrio de imaginar que assumir o nome do inimigo pudesse ser uma astcia. O senhor Villari, no incio, no deixava a casa; passadas algumas semanas, comeou a sair, por um instante, ao escurecer. Numa noite, entrou no cinema que havia a trs quadras. No passou nunca da ltima fila; sempre se levantava um pouco antes do fim da sesso. Viu trgicas histrias de bandidos; estas, sem dvida, incluam erros; estas, sem dvida, incluam imagens que tambm eram de sua vida anterior; Villari no os percebeu porque a idia de uma coincidncia entre a arte e a realidade lhe era alheia. Docilmente, procurava que as coisas lhe agradassem; queria adiantar-se inteno com que elas lhe eram mostradas. Ao contrrio dos que tm lido romances, ele no se via nunca a si mesmo como personagem da arte. Nunca lhe chegou uma carta, nem sequer uma circular, mas lia com confusa esperana uma das sees do jornal. tarde, encostava na porta uma das cadeiras e mateava com seriedade, de olhos postos na trepadeira do muro do contguo sobrado. Anos de solido haviam-lhe ensinado que os dias, na memria, tendem a ser iguais, mas que no h um dia, nem mesmo de priso ou de hospital, que no traga surpresas. Em outras recluses cedera tentao de contar os dias e as horas, mas esta recluso era diferente, porque no tinha fim a no ser que o jornal, numa manh, trouxesse a notcia da morte de Alejandro Villari. Tambm era possvel que Villari j tivesse morrido e ento esta vida seria um sonho. Essa possibilidade o inquietava, pois no chegou a entender se ela se parecia com alvio ou com desdita; disse a si mesmo que era absurda e a repeliu. Em dias longnquos, menos longnquos pelo passar do tempo que por dois ou trs fatos irrevogveis, desejara muitas coisas, com amor sem escrpulo; essa vontade poderosa, que movera o dio dos homens e o amor de alguma mulher, j no queria coisas particulares: s queria perdurar, no concluir. O sabor da erva, o sabor do tabaco negro, o crescente fio de sombra que ia ganhando o ptio. Havia na casa um cachorro-lobo, j velho. Villari fez amizade com ele. Falava-lhe em espanhol, em italiano e nas poucas palavras que lhe ficaram do rstico dialeto de sua infncia. Villari procurava viver no mero presente, sem lembranas nem previses; as primeiras lhe importavam menos que as ltimas. Vagamente acreditou intuir que o passado a substncia de que o tempo est feito; por isso que este se torna logo passado. Sua fadiga, algum dia, pareceu-se com felicidade; em momentos assim, no era muito mais complexo que o co. Numa noite, deixou-o assombrado e trmulo uma ntima descarga de dor no fundo da boca. Esse horrvel milagre ocorreu em poucos minutos e outra vez por volta do amanhecer. Villari, no dia seguinte, mandou buscar um carro que o deixou num consultrio dentrio do bairro do Once. A, arrancaram-lhe o molar. Nesse transe, no esteve mais covarde nem mais tranqilo que outras pessoas. Em outra noite, ao voltar do cinema, sentiu que o empurravam. Com ira, com indignao, com secreto alvio, encarou o insolente. Cuspiu-lhe uma injria soez; o outro, atnito, balbuciou uma desculpa. Era um homem alto, jovem, de cabelo escuro, e o acompanhava uma mulher de tipo alemo; Villari, nessa noite, repetiu a si mesmo que no os conhecia. Entretanto, quatro ou cinco dias se passaram antes que sasse rua. Entre os livros da estante havia uma Divina Comdia, com o velho comentrio de Andreoli. Menos premido pela curiosidade que por um sentimento de dever, Villari atirou-se leitura dessa obra capital; antes de comer, lia um canto, e a seguir, em ordem rigorosa, as notas. No julgou inverossmeis ou excessivas as penas infernais e no pensou que Dante o tivesse condenado ao ltimo crculo, onde os dentes de Ugolino roem eternamente a nuca de Ruggieri. Os paves do papel carmesim pareciam destinados a alimentar pesadelos tenazes, mas o senhor Villari no sonhou nunca com um caramancho monstruoso feito de inextricveis pssaros vivos. Nos amanheceres sonhava um sonho de fundo igual e de circunstncias variveis. Dois homens e Villari entravam com revlveres no quarto ou o agrediam ao sair do cinema ou eram, os trs ao mesmo tempo, o desconhecido que o havia empurrado, ou o esperavam tristemente no ptio e pareciam no o conhecer. No fim do sonho, ele tirava o revlver da gaveta da contgua mesa-de-cabeceira (e verdade que nessa gaveta guardava um revlver) e o descarregava contra os homens. O estrondo da arma despertava-o, mas sempre era um sonho e em outro sonho o ataque se repetia e em outro sonho tinha que tornar a mat-los. Numa escura manh do ms de julho, a presena de gente desconhecida (no o rudo da porta quando a abriram) despertou-o. Altos na penumbra do quarto, curiosamente simplificados pela penumbra (nos sonhos do temor sempre tinham sido mais claros), vigilantes, imveis e pacientes, com os olhos baixos como se o peso das armas os encurvasse, Alejandro Villari e um desconhecido tinham-no alcanado, finalmente. Com um sinal, pediu-lhes que esperassem e voltou-se contra a parede, como se retomasse o sono. Fez isso para despertar a misericrdia dos que o mataram? Ou porque menos duro suportar um acontecimento espantoso que imagin-lo ou aguard-lo indefinidamente? Ou e isto talvez seja o mais verossmil para que os assassinos fossem um sonho, como j o haviam sido tantas vezes, no mesmo lugar, mesma hora? Nessa magia estava quando o apagou a descarga. O HOMEM NO UMBRAL __________________________________________ Bioy Casares trouxe de Londres um curioso punhal de folha triangular e empunhadura em forma de H; nosso amigo Christopher Dewey, do Conselho Britnico, disse que tais armas eram de uso comum no Industo. Essa opinio animou-o a mencionar que trabalhara naquele pas, entre as duas guerras. ("Ultra auroram et gangem", lembro-me de que disse em latim, equivocando-se com um verso de Juvenal.) Das histrias que contou nessa noite, atrevo-me a reconstruir a que segue. Meu texto ser fiel: livre-me Al da tentao de acrescentar breves traos circunstanciais ou de agravar, com interpolaes de Kipling, o aspecto extico do relato. Este, alm do mais, tem um antigo e simples sabor que seria uma lstima perder, talvez o das Mil e Uma Noites. "A exata geografia dos fatos que vou contar importa muito pouco. Alm disso, que preciso conservam em Buenos Aires os nomes de Amritsar ou de Udh? Basta-me dizer, pois, que naqueles anos houve distrbios numa cidade muulmana e que o governo central enviou um homem forte para impor a ordem. Esse homem era escocs, de um ilustre cl de guerreiros, e no sangue levava uma tradio de violncia. Uma s vez o viram meus olhos, mas no esquecerei os cabelos muito negros, os pmulos salientes, o vido nariz e a boca, os largos ombros, a forte ossatura de viking. David Alexander Glencairn se chamar ele, nesta noite, em minha histria; os dois nomes convm, pois foram de reis que governaram com um cetro de ferro. David Alexander Glencairn (terei de me habituar a cham-lo assim) era, suspeito, um homem temido; o simples anncio de sua chegada bastou para apaziguar a cidade. Isso no impediu que decretasse diversas medidas enrgicas. Alguns anos passaram. A cidade e o distrito estavam em paz; sikhs e muulmanos haviam renunciado s antigas discrdias e de repente Glencairn desapareceu. Naturalmente, no faltaram rumores de que o tinham seqestrado ou matado. "Essas coisas eu soube por meu chefe, porque a censura era rgida e os jornais no comentaram (nem sequer registraram, que eu me lembre) o desaparecimento de Glencairn. Um provrbio diz que a ndia maior que o mundo; Glencairn, talvez onipotente na cidade que uma assinatura ao p de um decreto lhe destinou, era um simples nmero nas engrenagens da administrao do Imprio. As investigaes da polcia local foram de todo inteis; meu chefe pensou que um profissional poderia infundir menos receio e conseguir melhor xito. Trs ou quatro dias depois (as distncias na ndia so generosas), eu perambulava sem maior esperana pelas ruas da opaca cidade que escamoteara um homem. "Senti, quase de imediato, a infinita presena de uma conjurao para ocultar o destino de Glencairn. "No h uma alma nesta cidade", pude suspeitar, "que no saiba o segredo e que no tenha jurado guard-lo". A maioria, interrogada, professava ilimitada ignorncia; no sabia quem era Glencairn, no o tinha visto nunca, jamais ouviu falar dele. Outros, ao contrrio, tinham-no divisado h um quarto de hora falando com Fulano de Tal, e at me acompanhavam casa em que entraram os dois, e na qual nada sabiam deles, ou de onde acabavam de sair nesse momento. Num desses mentirosos precisos dei com o punho na cara. As testemunhas aprovaram meu desafogo, e fabricaram outras mentiras. No acreditei nelas, mas no me atrevi a deixar de ouvi-las. Uma tarde, entregaram-me um envelope com uma tira de papel em que havia algumas senhas... "O sol tinha declinado quando cheguei. O bairro era popular e humilde; a casa era muito baixa; da calada, entrevi uma sucesso de ptios de terra e prxima ao fundo uma claridade. No ltimo ptio, celebrava-se no sei que festa muulmana; um cego entrou com um alade de madeira avermelhada. "A meus ps, imvel como um objeto, encolhia-se no umbral um homem muito velho. Direi como era, pois parte essencial da histria. Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como as guas a uma pedra ou as geraes dos homens a uma sentena. Longos farrapos o cobriam, ou assim me pareceu, e o turbante que lhe envolvia a cabea era mais um pedao de pano. No crepsculo, ergueu em minha direo um rosto escuro e uma barba muito branca. Falei-lhe sem prembulos, porque j havia perdido toda esperana, a respeito de David Alexander Glencairn. No me entendeu (talvez no me ouvisse) e tive de explicar que era um juiz e que eu o procurava. Senti, ao dizer essas palavras, o irrisrio de interrogar aquele homem antigo, para quem o presente era apenas um indefinido rumor. "Notcias da Rebelio ou de Akbar poderia dar este homem", pensei, "mas no de Glencairn". O que me disse confirmou essa suspeita. " Um juiz! articulou com dbil espanto. Um juiz que se perdeu e o procuram. O fato aconteceu quando eu era criana. No sei de datas, mas no tinha morrido ainda Nikal Seyn (Nicholson) diante da muralha de Delhi. O tempo que se foi fica na memria; sem dvida, sou capaz de recuperar o que ento se passou. Deus tinha permitido, em sua clera, que o povo se corrompesse; cheias de maldio as bocas estavam e de enganos e de fraude. Entretanto, nem todos eram perversos, e quando se proclamou que a rainha ia mandar um homem que executaria neste pas a lei da Inglaterra, os menos maus se alegraram, porque sentiram que a lei melhor que a desordem. Chegou o cristo e no tardou a prevaricar e a oprimir, a encobrir delitos abominveis e a vender decises. No o culpamos, a princpio; a justia inglesa que administrava no era conhecida de ningum e os aparentes excessos do novo juiz correspondiam talvez a vlidas e arcanas razes. "Tudo ter justificativa em seu livro", queramos pensar, mas sua afinidade com todos os maus juzes do mundo era demasiado evidente, e por fim tivemos de admitir que era simplesmente um malvado. Chegou a ser um tirano e a pobre gente (para vingar-se da errnea esperana que alguma vez puseram nele) acalentou a idia de seqestr-lo e submet-lo a julgamento. Falar no basta; dos desgnios tiveram de passar s obras. Ningum, talvez, exceo dos muito simples ou dos muito jovens, acreditou que esse propsito temerrio pudesse ser levado a cabo, mas milhares de sikhs e de muulmanos cumpriram sua palavra e um dia executaram, incrdulos, aquilo que a cada um deles parecera impossvel. Seqestraram o juiz e lhe deram por crcere uma casa de campo num afastado subrbio. Depois, envolveram as pessoas prejudicadas por ele, ou (em alguns casos) os rfos e as vivas, porque a espada do verdugo no havia descansado naqueles anos. Por fim isto foi talvez o mais difcil , procuraram e nomearam um juiz para julgar o juiz. "Aqui o interromperam algumas mulheres que entravam na casa. "Depois, com lentido, prosseguiu: " Dizem que no h gerao que no inclua quatro homens honestos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor: um desses vares teria sido o juiz mais idneo. Mas onde encontr-los, se andam perdidos pelo mundo e annimos e no se reconhecem quando se vem e nem eles mesmos sabem do alto ministrio que cumprem? Algum ento opinou que, se o destino nos vedava os sbios, teramos de procurar os insensatos. Essa idia prevaleceu. Alcoranistas, doutores da lei, sikhs que levam o nome de lees e que adoram um Deus, hindus que adoram multides de deuses, monges de Mahavira que ensinam que a forma do universo a de um homem com as pernas abertas, adoradores do fogo e judeus negros, integraram o tribunal, mas a ltima sentena foi encomendada ao arbtrio de um louco. "Aqui o interromperam algumas pessoas que iam embora da festa. " De um louco repetiu para que a sabedoria de Deus falasse por sua boca e envergonhasse a soberba humana. Seu nome perdeu-se ou nunca se soube, mas andava nu por essas ruas, ou coberto de trapos, contando os dedos com o polegar e zombando das rvores. "Meu bom senso rebelou-se. Disse que entregar a um louco a deciso era invalidar o processo. " O acusado aceitou o juiz foi a resposta. Talvez compreendesse que, em vista do perigo que os conjurados corriam se o deixassem em liberdade, s de um louco podia no esperar sentena de morte. Ouvi que riu quando lhe disseram quem era o juiz. Muitas noites e dias durou o processo, pelo grande nmero de testemunhas. "Calou-se. Uma preocupao o agitava. Para falar alguma coisa, perguntei quantos dias. " Pelo menos dezenove replicou. Gente que ia embora da festa voltou a interromp-lo; o vinho est proibido aos muulmanos, mas as faces e as vozes pareciam de bbados. Algum lhe gritou algo, ao passar. " Dezenove dias, precisamente retificou. O co infiel ouviu a sentena, e a faca se saciou em sua garganta. "Falava com alegre ferocidade. Com outra voz ps termo histria. " Morreu sem medo; nos mais vis h alguma virtude. " Onde aconteceu o que contaste? perguntei. Numa casa de campo? "Pela primeira vez, olhou-me nos olhos. Em seguida, esclareceu com vagar, medindo as palavras. " Disse que numa casa de campo lhe deram priso, no que o julgaram a. Julgaram-no nesta cidade: numa casa como todas, como esta. Uma casa no pode diferir de outra: o que importa saber se est edificada no inferno ou no cu. "Perguntei-lhe pelo destino dos conjurados. " No sei disse-me com pacincia. Estas coisas ocorreram e foram esquecidas faz j muitos anos. Talvez os homens os condenaram, porm no Deus. "Dito isto, levantou-se. Senti que suas palavras me despediam e que eu cessara para ele, a partir daquele momento. Uma turba composta de homens e mulheres de todas as naes do Punjab espalhou-se, rezando e cantando, sobre ns e quase nos fez desaparecer: espantou-me que de ptios to estreitos, pouco mais que longos corredores, pudesse sair tanta gente. Outros saam das casas da vizinhana; sem dvida, haviam saltado os muros... fora de empurres e imprecaes, abri caminho. No ltimo ptio, cruzei com um homem despido, coroado de flores amarelas, a quem todos beijavam e agasalhavam, e com uma espada na mo. A espada estava suja, pois dera morte a Glencairn, cujo cadver mutilado encontrei nas cavalarias do fundo." O ALEPH __________________________________________ O God, I could be bounded in a nutshell and count myself a King of infinite space. Hamlet, II, 2. But they will teach us that Eternity is the Standing still of the Present Time, a Nunc- stans (as the Schools call it); which neither they, nor any else understand, no more than they would a Hic-stans for an Infinite greatnesse of Place. Leviathan, IV, 46. Na candente manh de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que no cedeu um s instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painis de ferro da praa Constitucin tinham renovado no sei que anncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo j se afastava dela e que essa mudana era a primeira de uma srie infinita. Mudar o universo mas eu no, pensei com melanclica vaidade; sei que, alguma vez, minha v devoo a exasperara; morta, eu podia consagrar-me a sua memria, sem esperana mas tambm sem humilhao. Considerei que em 3O de abril era seu aniversrio; visitar, nesse dia, a casa da rua Garay para saudar seu pai e Carlos Argentino Daneri, seu primo-irmo, era um ato corts, irrepreensvel, talvez iniludvel. De novo aguardaria no crepsculo da abarrotada salinha, de novo estudaria as circunstncias de seus muitos retratos. Beatriz Viterbo, de perfil, em cores; Beatriz, com mscara, no carnaval de 1921; a primeira comunho de Beatriz; Beatriz, no dia de seu casamento com Roberto Alessandra; Beatriz, pouco depois do divrcio, num almoo do Clube Hpico; Beatriz, em Quilmes, com Delia San Marco Porcel e Carlos Argentino; Beatriz, com o pequins dado por Villegas Haedo; Beatriz, de frente e em trs quartos de perfil, sorrindo, com a mo no queixo... No estaria obrigado, como outras vezes, a justificar minha presena com mdicas oferendas de livros: livros cujas pginas, finalmente, aprendi a cortar, para no comprovar, meses depois, que estavam intactos. Beatriz Viterbo morreu em 1929; a partir dessa data no deixei passar um 3O de abril sem voltar a sua casa. Eu costumava chegar s sete e quinze e ficar uns vinte e cinco minutos; a cada ano, aparecia um pouco mais tarde e ficava um pouco mais; em 1933, uma chuva torrencial me favoreceu: tiveram de me convidar para jantar. No desperdicei, como natural, esse bom precedente; em 1934, apareci, j dadas as oito, com um alfajor santafecino; com toda a naturalidade, fiquei para jantar. Assim, em aniversrios melanclicos e inutilmente erticos, recebi as graduais confidncias de Carlos Argentino Daneri. Beatriz era alta, frgil, ligeiramente inclinada; havia em seu andar (se for tolervel o oxmoro) uma como que graciosa lentido, um princpio de xtase; Carlos Argentino rosado, robusto, encanecido, de traos finos. Exerce no sei que cargo subalterno numa biblioteca ilegvel dos subrbios do Sul; autoritrio, mas tambm ineficiente; aproveitava, at h bem pouco, as noites e as festas para no sair de casa. A duas geraes de distncia, o "esse" italiano e a abundante gesticulao italiana sobrevivem nele. Sua atividade mental contnua, apaixonada, verstil e completamente insignificante. Excede em imprestveis analogias e em ociosos escrpulos. Tem (como Beatriz) grandes e afiladas mos formosas. Durante alguns meses, sofreu a obsesso de Paul Fort, menos por suas baladas que pela idia de uma glria irrepreensvel. " o Prncipe dos poetas da Frana", repetia com fatuidade. "Em vo te revoltars contra ele; no o atingir, nunca, a mais envenenada de tuas setas." No dia 3O de abril de 1941, permiti-me juntar ao bolo de Santa F uma garrafa de conhaque nacional. Carlos Argentino provou-o, julgou-o interessante e empreendeu, depois de alguns tragos, uma defesa do homem moderno. Eu o evoco disse com animao um tanto inexplicvel em seu gabinete de estudo, como se dissssemos na torre albarr de uma cidade, provido de telefones, de telgrafos, de fongrafos, de aparelhos de radiotelefonia, de cinematgrafos, de lanternas mgicas, de glossrios, de horrios, de pronturios, de boletins... Observou que, para um homem assim dotado, o ato de viajar era intil; nosso sculo XX tinha transformado a fbula de Maom e da montanha; as montanhas, agora, convergiam para o moderno Maom. To ineptas me pareceram essas idias, to pomposa e to extensa sua exposio, que logo as relacionei com a literatura; disse-lhe por que no as escrevia. Como era de prever, respondeu que j o fizera: esses conceitos, e outros no menos originais, figuravam no Canto Augurai, Canto Prologal ou simplesmente Canto-Prlogo de um poema em que trabalhava havia muitos anos, sem rclame, sem tumulto ensurdecedor, sempre apoiado nesses dois bculos que se chamam trabalho e solido. Primeiro, abria as comportas imaginao; depois, fazia uso da lima. O poema se intitulava A Terra; tratava-se de uma descrio do planeta, em que no faltavam, por certo, a pitoresca digresso e a galharda apstrofe. Roguei-lhe que me lesse uma passagem, mesmo que fosse breve. Abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou um mao volumoso de folhas de bloco impressas com o timbre da Biblioteca Juan Crisstomo Lafinur e leu com sonora satisfao: Vi, como o grego, as cidades dos homens, Os trabalhos, os dias de vria luz, a fome; No corrijo os fatos, no falseio os nomes, Mas le voyage que narro ... autour de ma chambre. Estrofe, sob qualquer ngulo, interessante opinou. O primeiro verso granjeia o aplauso do catedrtico, do acadmico, do helenista, quando no dos falsos eruditos, setor considervel da opinio; o segundo passa de Homero para Hesodo (toda uma implcita homenagem, na fachada do flamante edifcio, ao pai da poesia didtica), no sem remoar um procedimento cujo ancestral est na Escritura, a enumerao, congrie ou conglobao; o terceiro barroquismo, decadentismo, culto depurado e fantico da forma? consta de dois hemistquios gmeos; o quarto, francamente bilnge, assegura-me o apoio incondicional de todo esprito sensvel aos desenfadados impulsos da faccia. Nada direi da rima rara nem da ilustrao que me permite, sem pedantismo!, acumular em quatro versos trs aluses eruditas que abarcam trinta sculos de densa literatura: a primeira Odissia, a segunda aos Trabalhos e Dias, a terceira bagatela imortal que nos proporcionaram os cios da pena do saboiano... Compreendo, uma vez mais, que a arte moderna exige o blsamo do riso, o scherzo. Decididamente, tem a palavra Goldoni! Leu-me muitas outras estrofes, que tambm obtiveram sua aprovao e seu comentrio profuso. Nada de memorvel havia nelas; nem sequer as julguei muito piores que a anterior. Em sua redao haviam colaborado a aplicao, a resignao e o acaso; as virtudes que Daneri lhes atribua eram posteriores. Compreendi que o trabalho do poeta no estava na poesia; estava na inveno de razes para que a poesia fosse admirvel; naturalmente, esse ulterior trabalho modificava a obra para ele, mas no para outros. A dico oral de Daneri era extravagante; sua inpcia mtrica, salvo contadas vezes, impediu-o de transmitir essa extravagncia ao poema.1 Uma nica vez em minha vida tive ocasio de examinar os quinze mil dodecasslabos do Polyolbion, essa epopia topogrfica na qual Michael Drayton registrou a fauna, a flora, a hidrografia, a orografia, a histria militar e monstica da Inglaterra; estou certo de que esse produto considervel mas limitado menos tedioso que o vasto projeto congnere de Carlos Argentino. Este se propunha versificar toda a redondez do planeta; em 1941, j tinha dado conta de alguns hectares do estado de Queensland, mais de um quilmetro do curso do Ob, um gasmetro ao norte de Veracruz, as principais casas de comrcio da parquia de Concepcin, a chcara de Mariana Cambaceres de Alvear na rua Once de Setiembre, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos no longe do renomado aqurio de Brighton. Leu-me certas laboriosas passagens da zona australiana de seu poema; esses longos e disformes alexandrinos careciam da relativa agitao do prefcio. Copio uma estrofe: Saibam. A mo direita do poste rotineiro (Vindo, claro est, do nor-noroeste) Se entedia uma carcaa Cor? Branquiceleste Que d ao curral de ovelhas um aspecto de ossrio. Duas audcias gritou com exultao resgatadas, te ouo resmungar, para o sucesso! Admito, admito. Uma, o epteto rotineiro, que certeiramente denuncia, en passant, o inevitvel tdio inerente s fainas pastoris e agrcolas, tdio que nem as Gergicas nem nosso j laureado Don Segundo se atreveram jamais a denunciar assim, com descaramento. Outra, o enrgico prosasmo se entedia uma carcaa, que o melindroso querer excomungar com horror, mas que apreciar mais que a prpria vida o crtico de gosto viril. Todo o verso, de resto, de muito alto quilate. O segundo hemistquio trava animadssima conversa com o leitor; antecipa-se a sua viva curiosidade, coloca-lhe uma pergunta na boca e a satisfaz... na hora. E que me dizes desse achado, branquiceleste? O pitoresco neologismo sugere o cu, que fator importantssimo da paisagem australiana. Sem essa evocao, resultariam demasiado sombrias as tintas do esboo e o leitor se veria compelido a fechar o volume, ferida no mais ntimo a aluna, de incurvel e negra melancolia. Por volta da meia-noite me despedi. Dois domingos depois, Daneri me telefonou, penso que pela primeira vez na vida. Props que nos reunssemos s quatro, "para tomar leite juntos, no contguo salo-bar que o progressismo de Zunino e de Zungri os proprietrios de minha casa, estars lembrado inaugura na esquina; confeitaria que gostars de conhecer". Aceitei, com mais resignao que entusiasmo. Foi-nos difcil encontrar mesa; o "salo-bar", inexoravelmente moderno, era apenas um pouco menos infame que minhas previses; nas mesas vizinhas, o excitado pblico mencionava as somas investidas sem regatear por Zunino e por Zungri. Carlos Argentino fingiu assombrar-se com no sei que primores da instalao da luz (que, sem dvida, j conhecia) e me disse com certa severidade: Mesmo que no queiras, tens de reconhecer que este local no deve nada aos mais chiques de Flores. Releu-me, depois, quatro ou cinco pginas do poema. Corrigira-as de acordo com um depravado princpio de ostentao verbal: onde antes escreveu azulado, agora abundava em azulino, azulego e at mesmo azulilho. A palavra leitoso no era bastante feia para ele; na impetuosa descrio de um lavadouro de l, preferia lactrio, lacticinoso, lactescente, leital... Insultou com amargura os crticos; depois, mais benigno, equiparou-os a essas pessoas "que no dispem de metais preciosos nem tampouco de prensas a vapor, laminadores e cidos sulfricos para a cunhagem de tesouros, mas que podem indicar aos outros o lugar de um tesouro". Imediatamente, censurou a prologomania, "da qual j se fez mofa, no donairoso prefcio do Quixote, o Prncipe dos Engenhos". Admitiu, porm, que no frontispcio da nova obra convinha o prlogo vistoso, o respaldo firmado pelo plumfero de forte prestgio. Acrescentou que pensava publicar os cantos iniciais de seu poema. Compreendi ento o singular convite telefnico; o homem ia pedir-me que prefaciasse o seu pedante aranzel. Meu temor resultou infundado: Carlos Argentino observou, com admirao rancorosa, que no acreditava errar o epteto ao qualificar de slido o prestigio obtido em todos os crculos por lvaro Melin Lafinur, homem de letras que, se eu me empenhasse, prefaciaria com prazer o poema. Para evitar o mais imperdovel dos fracassos, eu tinha de me fazer porta-voz de dois mritos incontestveis: a perfeio formal e o rigor cientifico, "porque esse extenso jardim de tropos, de figuras, de elegncias no tolera um nico detalhe que no confirme a severa verdade". Acrescentou que Beatriz sempre se havia divertido com lvaro. Assenti, profusamente assenti. Esclareci, para maior verossimilhana, que no falaria com lvaro na segunda-feira, mas na quinta: no pequeno jantar que costuma coroar toda reunio do Clube de Escritores. (No existem tais jantares, mas irrefutvel que as reunies tm lugar s quintas-feiras, fato que Carlos Argentino Daneri podia comprovar nos jornais e que dotava a frase de certa realidade.) Disse, entre divinatrio e sagaz, que, antes de abordar o tema do prlogo, descreveria o curioso plano da obra. Despedimo-nos; ao dobrar a rua Bernardo de Irigoyen, encarei com toda imparcialidade os futuros que me restavam: a) falar com lvaro e dizer-lhe que aquele primo-irmo de Beatriz (esse eufemismo explicativo me permitiria mencion-la) elaborara um poema que parecia estender at o infinito as possibilidades da cacofonia e do caos; b) no falar com lvaro. Previ, com lucidez, que minha desdia optaria por b. A partir de sexta-feira, primeira hora, comeou a inquietar-me o telefone. Indignava-me que esse instrumento, que algum dia reproduziu a irrecupervel voz de Beatriz, pudesse rebaixar-se a receptculo das inteis e talvez colricas queixas desse equivocado Carlos Argentino Daneri. Felizmente, nada ocorreu salvo o rancor inevitvel que me inspirou aquele homem que me havia imposto uma delicada misso e depois me esquecia. O telefone perdeu seus terrores, mas em fins de outubro Carlos Argentino falou comigo. Estava agitadssimo; no identifiquei sua voz, no comeo. Com tristeza e com raiva, balbuciou que esses j ilimitados Zunino e Zungri, a pretexto de ampliar a desmedida confeitaria, iam demolir sua casa. A casa de meus pais, minha casa, a velha casa enraizada da rua Garay! repetiu, talvez esquecendo seu pesar na melodia da voz. No me foi muito difcil compartilhar de sua aflio. J completos os quarenta anos, qualquer mudana um smbolo detestvel da passagem do tempo; alm disso, tratava-se de uma casa que, para mim, aludia infinitamente a Beatriz. Quis esclarecer esse delicadssimo aspecto; meu interlocutor no me ouviu. Disse que se Zunino e Zungri persistissem nesse propsito absurdo, o doutor Zunni, seu advogado, os processaria ipso facto por danos e prejuzos e os obrigaria ao pagamento de cem mil nacionales. O nome de Zunni me impressionou; sua banca, na Caseros com a Tacuar, de uma seriedade proverbial. Perguntei se ele j se havia encarregado do assunto. Daneri disse que iria falar-lhe nessa mesma tarde. Vacilou e com essa voz plana, impessoal, qual costumamos recorrer para confiar algo muito ntimo, disse que para terminar o poema lhe era indispensvel a casa, pois num ngulo do poro havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph um dos pontos do espao que contm todos os pontos. Est no poro da sala de jantar explicou, com a dico aligeirada pela angstia. E meu, meu; eu o descobri na infncia, antes da idade escolar. A escada do poro empinada, meus tios me haviam proibido de descer, mas algum me disse que havia um mundo no poro. Referia-se, soube depois, a um ba, mas eu compreendi que havia um mundo. Desci secretamente, rolei pela escada proibida, ca. Ao abrir os olhos, vi o Aleph. O Aleph? repeti. Sim, o lugar onde esto, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ngulos. A ningum revelei minha descoberta, mas voltei. O menino no podia compreender que lhe fosse concedido esse privilgio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri no me despojaro, no e mil vezes no. De cdigo na mo, o doutor Zunni provar que inalienvel o meu Aleph. Procurei raciocinar. Mas no muito escuro o poro? A verdade no penetra num entendimento rebelde. Se todos os lugares da terra esto no Aleph, a estaro todas as luminrias, todas as lmpadas, todas as fontes de luz. Irei v-lo imediatamente. Desliguei, antes que ele pudesse emitir uma proibio. Basta o conhecimento de um fato para se perceber no ato uma srie de traos confirmatrios, antes insuspeitados; espantou-me no ter compreendido at esse momento que Carlos Argentino era louco. De resto, todos esses Viterbo... Beatriz (eu mesmo costumo repetir isso) era uma mulher, uma menina de uma clarividncia quase implacvel, mas havia nela negligncias, distraes, desdns, verdadeiras crueldades, que talvez reclamassem explicao patolgica. A loucura de Carlos Argentino encheu-me de maligna felicidade; no fundo, sempre nos detestamos. Na rua Garay, a criada me disse que tivesse a bondade de esperar. O menino estava, como sempre, no poro, revelando fotografias. Junto ao vaso sem flor, no piano intil, sorria (mais intemporal que anacrnico) o grande retrato de Beatriz, em pesadas cores. Ningum nos podia ver; num desespero de ternura, aproximei-me do retrato e disse-lhe: Beatriz, Beatriz Elena, Beatriz Elena Viterbo, Beatriz querida, Beatriz perdida para sempre, sou eu, sou Borges. Carlos entrou pouco depois. Falou com secura; compreendi que no era capaz de outro pensamento que o da perda do Aleph. Um clice do falso conhaque ordenou e mergulhars no poro. J sabes, o decbito dorsal indispensvel. Tambm o so a escurido, a imobilidade, certa acomodao ocular. Tu te deitas no piso de tijolos e fixas o olhar no dcimo nono degrau da pertinente escada. Saio, baixo o alapo e ficas sozinho. Algum roedor te mete medo no tem importncia! Em poucos minutos vs o Aleph. O microcosmo de alquimistas e cabalistas, nosso concreto amigo proverbial, o multum in parvo! J na sala de jantar, acrescentou: claro que, se no o vs, tua incapacidade no invalida meu testemunho... Desce; muito em breve poders iniciar um dilogo com todas as imagens de Beatriz. Desci com rapidez, farto de suas palavras insubstanciais. O poro, pouca coisa mais largo que a escada, tinha muito de poo. Com uma olhada, procurei em vo o ba de que Carlos Argentino me falara. Alguns caixes com garrafas e algumas sacolas de lona escureciam um ngulo. Carlos pegou uma sacola, dobrou-a e acomodou-a num lugar preciso. O travesseiro humildoso explicou , mas, se o levanto um centmetro, no vers nada e ficas confundido e envergonhado. Refestela esse corpanzil no cho e conta dezenove degraus. Cumpri suas ridculas instrues; por fim, saiu. Fechou cautelosamente o alapo; a escurido, embora houvesse uma fresta que depois distingui, deu a impresso de ser total. Subitamente, compreendi meu perigo: deixara-me soterrar por um louco, depois de tomar um veneno. As bravatas de Carlos evidenciavam o ntimo terror de que eu no visse o prodgio; Carlos, para defender seu delrio, para no saber que estava louco, tinha de matar-me. Senti um confuso mal estar, que tentei atribuir rigidez e no ao efeito de um narctico. Fechei os olhos, abri-os. Ento vi o Aleph. Chego, agora, ao inefvel centro de meu relato; comea aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem um alfabeto de smbolos cujo exerccio pressupe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memria mal e mal abarca? Os msticos, em anlogo transe, so prdigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pssaro que, de algum modo, todos os pssaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro est em todas as partes e a circunferncia em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (No em vo rememoro essas inconcebveis analogias; alguma relao tm com o Aleph.) possvel que os deuses no me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este relato ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central insolvel: a enumerao, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhes de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposio e sem transparncia. O que viram meus olhos foi simultneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o . Algo, entretanto, registrarei. Na parte inferior do degrau, direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de quase intolervel fulgor. A princpio, julguei-a giratria; depois, compreendi que esse movimento era uma iluso produzida pelos vertiginosos espetculos que encerrava. O dimetro do Aleph seria de dois ou trs centmetros, mas o espao csmico estava a, sem diminuio de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multides da Amrica, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi interminveis olhos prximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num ptio da rua Soler as mesmas lajotas que, h trinta anos, vi no vestbulo de uma casa em Fray Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de gua, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus gros de areia, vi em Inverness uma mulher que no esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cncer no peito, vi um crculo de terra seca numa calada onde antes existira uma rvore, vi uma chcara de Adrogu, um exemplar da primeira verso inglesa de Plnio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada pgina (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o fato de que as letras de um livro fechado no se misturassem e se perdessem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporneo, vi um poente em Quertaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitrio sem ningum, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mo, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartes-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblquas de algumas samambaias no cho de uma estufa, vi tigres, mbolos, bises, marulhos e exrcitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolbio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, inacreditveis, precisas, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relquia atroz do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulao de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificao da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vsceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebvel universo. Senti infinita venerao, infinita lstima. Tonto ficars de tanto bisbilhotar onde no te chamam disse uma voz enfadonha e alegre. Mesmo que esquentes a cabea, no me pagars num sculo esta revelao. Que observatrio formidvel, che Borges! Os sapatos de Carlos Argentino ocupavam o degrau mais alto. Na brusca penumbra, consegui levantar-me e balbuciar: Formidvel. Sim, formidvel. A indiferena de minha voz causou-me estranheza. Ansioso, Carlos Argentino insistia: Viste tudo bem, em cores? Nesse instante, concebi minha vingana. Benvolo, manifestamente apiedado, nervoso, evasivo, agradeci a Carlos Argentino a hospitalidade de seu poro e o instei a aproveitar a demolio da casa para afastar-se da perniciosa metrpole, que a ningum creia-me, a ningum! perdoa. Neguei-me, com suave energia, a discutir o Aleph; abracei-o, ao despedir-me, e repeti-lhe que o campo e a serenidade so dois grandes mdicos. Na rua, nas escadarias de Constitucin, no metr, pareceram-me familiares todos os rostos. Tive medo de que no restasse uma nica coisa capaz de surpreender-me, tive medo de que no me abandonasse jamais a impresso de voltar. Felizmente, depois de algumas noites de insnia, agiu outra vez sobre mim o esquecimento. Ps-escrito de primeiro de maro de 1943. Seis meses aps a demolio do imvel da rua Garay, a Editora Procusto no se deixou amedrontar pela extenso do considervel poema e lanou ao mercado uma seleo de "trechos argentinos". Vale a pena repetir o ocorrido; Carlos Argentino Daneri recebeu o Segundo Prmio Nacional de Literatura.2 O primeiro foi outorgado ao doutor Aita; o terceiro, ao doutor Mario Bonfanti; inacreditavelmente, minha obra Los Naipes del Tahur no conseguiu um nico voto. Uma vez mais, triunfaram a incompreenso e a inveja! J faz muito tempo que no consigo ver Daneri; os jornais dizem que em breve nos dar outro volume. Sua afortunada pena (no mais perturbada pelo Aleph) consagrou-se a versificar os eptomes do doutor Acevedo Daz. Duas observaes quero acrescentar: uma, sobre a natureza do Aleph; outra, sobre seu nome. Este, como se sabe, o da primeira letra do alfabeto da lngua sagrada. Sua aplicao ao cerne de minha histria no parece casual. Para a Cabala, essa letra significa o En Soph, a ilimitada e pura divindade; tambm se disse que tem a forma de um homem que assinala o cu e a terra, para indicar que o mundo inferior o espelho e o mapa do superior; para a Mengenlehre, o smbolo dos nmeros transfinitos, nos quais o todo no maior que qualquer das partes. Eu queria saber: Carlos Argentino escolheu esse nome, ou o leu, aplicado a outro ponto para onde convergem todos os pontos, em algum dos textos inumerveis que o Aleph de sua casa lhe revelou? Por incrvel que parea, acredito que exista (ou que tenha existido) outro Aleph, acredito que o Aleph da rua Garay era um falso Aleph. Dou minhas razes. Por volta de 1867, o capito Burton exerceu o cargo de cnsul britnico no Brasil; em julho de 1942, Pedro Henrquez Urea descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito seu que versava sobre o espelho que atribui o Oriente a Iskandar Zu al-Karnayn, ou Alexandre Bicorne da Macednia. Em seu cristal refletia-se o universo inteiro. Burton menciona outros artifcios congneres o stuplo clice de Kai Josru, o espelho que Tarik Benzeyad encontrou numa torre (Mil e Uma Noites, 272), o espelho que Luciano de Samsata pde examinar na lua (Histria Verdadeira, I, 26), a lana especular que o primeiro livro do Satyricon de Capella atribui a Jpiter, o espelho universal de Merlin, "redondo e oco e semelhante a um mundo de vidro" (The Faerie Queene, 111, 2, 19) e acrescenta estas curiosas palavras: "Mas os anteriores (alm do defeito de no existirem) so meros instrumentos de tica. Os fiis que acorrem mesquita de Amr, no Cairo, sabem muito bem que o universo est no interior de uma das colunas de pedra que rodeiam o ptio central... Ningum, claro, pode v-lo, mas os que aproximam o ouvido da superfcie declaram perceber, em pouco tempo, seu atarefado rumor... A mesquita data do sculo VII; as colunas procedem de outros templos de religies anteislmicas, pois como escreveu Abenjaldun: "Nas repblicas fundadas por nmades, indispensvel o concurso de forasteiros para tudo o que seja alvenaria". Existe esse Aleph no ntimo de uma pedra? Vi-o quando vi todas as coisas e o esqueci? Nossa mente porosa para o esquecimento; eu mesmo estou falseando e perdendo, sob a trgica eroso dos anos, os traos de Beatriz. Para Estela Canto. _________________________________________ Notas: 1 Lembro-me, no entanto, destas linhas de uma stira em que fustigou com rigor os maus poetas: Aqueste da al poema belicosa armadura De erudiccin; estoiro le da pompas y galas. Ambos bateu en vano Ias ridculas alas... iOlvidaron, cuidados, el factor HORMOSURA! [Este d ao poema belicosa armadura / De erudio; este outro lhe d pompas e galas. / Ambos batem em vo as ridculas asas... / Esqueceram, coitados, o fator FORMOSURA! (N. da T.)] S o temor de se criar um exrcito de inimigos implacveis e poderosos o dissuadiu (disse-me) de publicar sem medo o poema. 2 "Recebi tua aflita congratulao", escreveu-me. "Bufas, meu lamentvel amigo, de inveja, mas confessars mesmo que isso te sufoque! que desta vez pude coroar meu barrete com a mais vermelha das plumas, meu turbante com o mais califa dos rubis." EPLOGO __________________________________________ Com exceo de "Emma Zunz" (cujo argumento esplndido, to superior a sua tmida execuo, foi-me dado por Ceclia Ingenieros) e da "Histria do guerreiro e da cativa", que se prope interpretar dois fatos fidedignos, os contos deste livro correspondem ao gnero fantstico. De todos eles, o primeiro o mais trabalhado; seu tema o efeito que a imortalidade causaria nos homens. A esse esboo de uma tica para imortais, segue "O morto": Azevedo Bandeira, nesse relato, um homem de Rivera ou de Cerro Largo e tambm uma tosca divindade, uma verso mulata e selvagem do incomparvel Sunday, de Chesterton. (O captulo XXIX do Decline and Fall of the Roman Empire narra um destino semelhante ao de Otlora, mas bastante mais grandioso e mais inacreditvel.) De "Os telogos" basta escrever que so um sonho, um sonho bem mais melanclico, sobre a identidade pessoal; da "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz", que uma glosa de Martn Fierro. A uma tela de Watts, pintada em 1896, devo "A casa de Astrion" e o carter do pobre protagonista. "A outra morte" uma fantasia sobre o tempo, que urdi luz de certas propostas de Pier Damiani. Na ltima guerra, ningum pde desejar mais que eu a derrota da Alemanha; ningum pde sentir mais que eu a tragdia do destino alemo; "Deutsches Requiem" quer entender esse destino, que no souberam chorar, nem sequer suspeitar, nossos "germanfilos", que nada sabem da Alemanha. "A escrita do Deus" tem sido generosamente julgada; o jaguar obrigou-me a pr na boca de um "mago da pirmide de Qaholom" argumentos de cabalista ou de telogo. Em "O Zahir" e "O Aleph" creio notar alguma influncia do conto "The crystal egg" (1899), de Wells. J. L. B. Buenos Aires, 3 de maio de 1949. Ps-escrito de 1952. Incorporei quatro contos a esta reedio. "Abenjacan, o Bokari, morto em seu labirinto" no (asseguram-me) memorvel, apesar de seu ttulo terrvel. Podemos consider-lo uma variante de "Os dois reis e os dois labirintos", que os copistas intercalaram em As Mil e Uma Noites e que o prudente Galland omitiu. De "A espera" direi que foi sugerida por uma crnica policial que Alfredo Doblas me leu, h dez anos, enquanto classificvamos livros segundo o manual do Instituto Bibliogrfico de Bruxelas, cdigo do qual me esqueci por inteiro, salvo que a Deus corresponde o nmero 231. O personagem central da crnica era turco; tornei-o italiano para intu-lo com mais facilidade. A momentnea e repetida viso de um fundo cortio que existe ao redor da rua Paran, em Buenos Aires, propiciou-me a histria que se intitula "O homem no umbral"; situei-a na ndia para que sua inverosimilhana fosse tolervel. J. L. B. Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquer circunstncia. 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