Jorge Luis Borges e a teologia cristã ?· Eternidade, Jorge Luis Borges faz a seguin- ... significa…

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<ul><li><p>V. 7 - N. 14 - 2017 </p><p>* Professor Titular do Departamento de Filosofia </p><p>da Universidade Federal de Sergipe e dos Programas </p><p>de Ps-Graduao em Letras, Filosofia e </p><p>Cincias da Religio da UFS. Pesquisador </p><p>Produtividade PQ2/CNPQ. Contato: .</p><p>Arquivo enviado em 25/06/2017 </p><p>e aprovado em 06/12/2017.</p><p>DOI - 10.19143/2236-9937.2017v7n14p113-129</p><p>Jorge Luis Borges e a teologia crist</p><p>Jorge Lus Borges and Christian theology</p><p>Cicero Cunha Bezerra*</p><p> Resumo Nas primeiras linhas da sua Historia de la </p><p>Eternidade, Jorge Luis Borges faz a seguin-te observao: o tempo um problema para ns, um terrvel e exigente problema, talvez o mais vital da metafsica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperana (BORGES, 2005, p. 11). A questo que nos conduzir aqui nes-se artigo : se o tempo um problema, ou o problema metafsico por excelncia, o que significa uma histria da eternidade e como pensa-la frente aos elementos da teologia crist presentes na obra borgeana? Para esse artigo nos centraremos, alm da Historia de la Eternidad, particularmente, no Aleph, na cole-tnea de contos intitulada Siete noches e na Histria universal de la infamia. </p><p>Palavras-chaves: Borges, Literatura, Teologia, Tempo, Eternidade.</p><p>AbstractIn the first lines of his Historia de la </p><p>Eternidad, Jorge Lus Borges makes the follo-wing observation: time is a problem for us, a terrible and demanding problem, perhaps the most vital of metaphysics, the eternity, a game </p></li><li><p> 114 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>or a fatigued hope (BORGES, 2005, p.11). The question that will lead us here in this paper is this: if time is a problem, or the metaphysics problem by excellen-ce, and whats the meaning of a history of eternity and how do we think about it in front of the elements of Christian theology present in the Borgean work? For this paper well focus in addition to the Historia de la Eternidad, on the Aleph, on the collection of short stories entitled Siete Noches and on the Historia Universal de la Infamia.</p><p>Keywords: Borges, Literature, Theology, Time, Eternity.</p><p>Consideraes iniciais</p><p>No s qu opinar el lector, de tales conjeturas semiteosficas. Los catlicos (lase los catlicos argentinos) creen en un mundo ultraterreno, pero he notado </p><p>que no se interesan en l. Conmigo ocurre lo contrario; me interesa y no creo.(BORGES, 1974, p.282)1</p><p>J orge Luis Borges (1889-1986) um desses autores que no cabem em um nico campo de saber. Facilmente transita pela filosofia, como quem transita por bibliotecas. Do mesmo modo, mergulha na </p><p>literatura expondo complexas formulaes filosficas e teolgicas. Filho de pai agnstico e de me catlica a la manera argentina, como ele mesmo define, isto , mais por questo social que teolgica (MIGUEZ, 2006, s/p), Borges parece conciliar, em suas obras, a caracterstica de trnsito entre a herana, por parte de me, de catlicos e metodista, que sabiam a Bblia de cor, e um pai que ele definia como livre pensador. </p><p>Se a vida, para Borges, parecia no ter sentido ou pelo menos de-veria ser tomada como um inextricvel labirinto de destinos difcil de reduo uma lgica (LOPRETE, 1985, p.625), a literatura tudo que extrapola uma confisso biogrfica2. Nesse sentido, preciso encarar o </p><p>1.BORGES, J.L. Discursin Leshe D. Weatherhead: After Death (The Epworth Press London, 1942) in Obras completas, 1974, p. 282.2.Em nota que abre a edio de suas obras completas, publicada em 1974, Borges de-dica sua me Leonor Acevedo Borges, uma confisso memorialista de sua infncia e finaliza: Aqu estamos hablando los dos, et tout le reste est litterature, como escribi, con excelente literatura, Verlaine (1974, p.9).</p></li><li><p> 115 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>aspecto criador, inventivo e provocador que a obra de Borges permite. Com isso, queremos deixar claro que a anlise aqui empreendida tam-bm joga, em grande medida, com a tarefa interpretativa de leitor que, como diz Borges, mais civil e intelectual (1974, p. 289). Para uma apro-ximao ao tema da eternidade nos centraremos, de modo mais espec-fico, na sua Historia de la eternidad visando ressaltar, alm da conhecida capacidade de leitura do autor, sua faceta de historiador das ideias que, nessa obra, se evidencia de modo singular a partir das diversas refern-cias histria da filosofia, bem como, mediante passagens que figuram algumas das mais importantes recepes teolgica de problemas que delinearam os rumos do pensamento ocidental como o caso da relao entre tempo, eternidade e trindade.</p><p>Originalmente publicada em 1936, a Historia de la eternidad con-grega, alm do ensaio que d nome obra, o artigo La doctrina de los ciclos e outros dois, agregados posteriormente, que dizem respeito di-retamente temtica que so: La metfora (1952) e El tempo circular (1943), alm dos ensaios Las kenningar, Los traductores de Las mil y uma noches, El acercamiento a Almotsim. A anlise aqui realizada, pauta-se fundamentalmente na noo de Eternidade concentrando-nos na sua peculiar interpretao que associa filosofia e teologia ao campo do fantstico e do maravilhoso. </p><p>Filosofia, Literatura, Religio e intertextualidadeExiste um aspecto bastante destacado pela crtica, que se debru-</p><p>a sobre a obra de Borges, que consiste no seu aspecto intertextual. Borges, ao costurar textos, transporia o limite do individual colaboran-do com a ideia da literatura como um saber coletivo (GLANTZ, 2006)3. Nesse sentido, a Histria de la eternidad uma constatao do que aca-bamos de dizer. Afirma Glantz: </p><p>3.Artigo disponvel na Biblioteca Virtual Universal sem paginao. Conferir: GLANTZ, M, Borges, ficcin e intertextualidade, Editorial del Cardo, disponvel em: http://www.biblio-teca.org.ar/libros/300043.pdf </p></li><li><p> 116 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>A inteno de intertextualidade delirante e nos reve-lado pela vociferao implcita nos ttulos, nos contos, nos prlogos nas aluses falsas dos seus textos, no aparato crtico falaz e, no entanto, acadmico que os sustentam, nas minuciosas, mas, as vezes, rpidas in-cursos pelas erudies, em seu contnuo trnsito pelas enciclopdias que iniciam seus relatos e que encarnam seus laos, em sua pertinaz relao com autores do passado, em sua obsessiva visita filosofia. E mais, a intertextualidade o corpo da fico (idem)</p><p>Que a construo literria, enquanto tal, se define pela relao inter-textual no novidade, no entanto, o que importa observar, no caso da obra aqui analisada, a explcita estrutura intertextual que se apresenta como fundamento da escrita e, por sua vez, como caminho que conduz, pela mltiplas tramas, a uma experincia da verdade que , antes de tudo, criao. Nisso residiria, segundo Manuel Jess Muoz Merchn, a fora da liberdade criadora de Borges que suplanta as clssicas distin-es entre verdade e fico, verdade e realidade (MERCHN, 2009)4. Daniel Omar Perez, por sua vez, aponta para o trabalho de desarticula-o realizado por Borges dos argumentos filosficos. Afirma ele: </p><p>Borges desarticula os textos filosficos em vrios mo-mentos mostrando sua instncia ltima como metaf-rica. Essa a via da escrita que utilizou, por exemplo, na Historia de la Eternidad (1936), onde o tratamento dos argumentos filosficos chega a passar da ironia ao humor (2004, p. 14).</p><p>Natalia Gonzlez de la Llana Fernndez, em seu estudo Usos lite-rrios de la religin: cuatro cuentos de Borges destaca a impossibilida-de de uma definio segura sobre as crenas pessoais de Borges, no entanto, no Eplogo de Otras consideraciones o poeta afirma que seus interesses por ideias religiosas e filosficas alm de estticas, so mo-</p><p>4.Artigo disponvel na Biblioteca Virtual Universal sem paginao. Verso original publi-cada em: Espetculo. Revista de estdios literrios. Univesidad Complutense de Madrid, 2009. Disponvel em: http://www.biblioteca.org.ar/libros/150658.pdf .</p></li><li><p> 117 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>vidos pelo que elas possuem de singular e maravilhoso (1974, p. 775)5. Filosofia, teologia, metafsica e literatura compartem o campo do fants-tico6 como expresses convergentes em uma simbiose capaz de unir, sob um mesmo impulso criativo, o real e a fico (KAMEL, 2006, p. 09). Uma das passagens publicada na Notas reveladora para o que esta-mos aqui afirmando. Diz ele: </p><p>Compilei algumas vezes uma ontologia da literatura fan-tstica. Admito que essa obra uma das pouqussimas que um segundoNo deveria salvar de um segundo dilvio, mas delato a culpvel omisso dos insuspeit-veis e maiores mestres do gnero: Parmnides, Plato, Joo Escoto Erigena, Alberto Magno, Spinoza, Leibniz, Kant, Francis Bradley. Em efeito, o que so os prodgios de Well ou de Edgar Allan Poe uma flor que nos chega do porvir, um morto submetido hipnose confronta-dos com a inveno de Deus, com a teoria laboriosa de um ser que de algum modo trs e que solitariamente perdura fora do tempo? O que a pedra de bezoar ante a harmonia preestabelecida, quem o unicrnio ante a Trindade, quem Lucio Apuleio ante os multiplicadores de Budas do Grande Venculo, o que so todas as noites de Shahrazad prximo a um argumento de Berkeley? Venerei a gradual inveno de Deus; tambm o Inferno e o Cu (uma remunerao imortal, um castigo imortal) so admirveis e curisos desgnios da imaginao dos homens (1974, p.280).</p><p>Como se pode constatar, o trnsito entre filosofia, literatura e religio marcado, precisamente, pelos aspectos fantsticos de suas teorias. </p><p>5.Sobre a presena da Bblia na obra de Borges ver a Tese de Doutorado de Gonzalo Salvador Vlez intitulada Borges y la Biblia. Presencia de la Biblia en la obra de Jorge Luis Borges, Universitat Pompeu Fabra Barcelona, septiembre de 2008, disponvel em http://www.tdr.cesca.es/bitstream/handle/10803/7447/tgsv.pdf?sequence=1. Acesso em 23/07/16. O artigo de Lucas Martn Adur Nobile intitulado Simpatas y diferencias. Borges y la intelectualidade catlica argentina en la segunda mitad de la dcada del veinte bastante emblemtico no que tange s relaes de Borges para com o cristianismo, em particular, sua vertente Argentina. As duas fases, anos vinte (colaborador) e a partir dos anos trinta (crtico) so interessantes para se entender como o contedo dos textos cristos desempenhou papis importantes na biografia do poeta. Cf. NOBILE, L.M.A. Sociedad y Religion N38, Vol XXII (2012) pp. 14-456.Para uma definio da noo de literatura fantstica, conferir: TODOROV. T. Introduo literatura fantstica, trad. Maria Clara C. Castelo, So Paulo : Perspectiva, 2003.</p></li><li><p> 118 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>Essa mesma impresso temos quando lemos o conto El indigno no qual Borges afirma que os elementos euclidianos, presentes em Spinoza, do somente um ilusrio rigor narrativa fantstica (idem, p. 1029). Dito isso, temos assentado o terreno para que possamos adentrar, de modo mais detalhado, na sua exposio de uma histria da Eternidade. </p><p>Daniel Ramn Prieto Fernndez, ao analisar a ideia de uma meta-fsica do tempo em Borges, afirma que, em contraposio ao discurso de Paulo de Tarso de que morremos a cada dia, Borges prope uma ontologia em que o ser devir, isto , morte e nascimento contnuos (FERNNDEZ, 2013, p. 479).</p><p>Na tradio crist, Aurlio Agostinho foi quem melhor formulou a questo do tempo no Livro XI das suas Confisses. Para o Bispo de Hipona, todas as coisas repousam no eterno ato criador de Deus. Diz ele: Existem, pois, o cu e a terra e proclamam que foram feitos; pois esto sujeitos a mudanas e a alteraes (AGOSTINHO, 2001, p. 224). O tempo se reduz, desse modo, a um instante que eterno ato criador, enquanto aquilo que se repete infinitamente, mas transitrio, dado que sua permanncia implica, necessariamente, em seu fim. O instante passagem nunca espao ou lugar. Mais do que passagem, o instante, diria, presena. Presentificao da vida que repousa sobre a eterni-dade da criao. No captulo 17 das Confisses lemos: no podemos dizer com verdade que o tempo existe seno porque ele tende para o no existir (idem, p.232). </p><p>Dado o fato da anlise de Borges centrar-se muito mais na relao tempo-Trindade e eternidade, alguns aspectos radicais, que o texto das Confisses permitem, escapam aos olhos do poeta7. No entanto, Borges prefere retomar as ideias de tempo e eternidade a partir da sua origem mais remota. Os gregos so o foco privilegiado em sua anlise. Plato, </p><p>7.Nos referimos aqui, ao aspecto mstico que a anlise agostiniana, especialmente nas Confisses, permite a partir da associao entre a criao e o ato criador como coeter-nos e simultneos. Por no ser objeto da anlise de Borges, no desenvolveremos aqui esse tema.</p></li><li><p> 119 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>Plotino e, posteriormente, a tradio crist, que absorveu a intuio pla-tnica do tempo como imagem mvel da eternidade (Timeu, 37d), so questionados e refutados um a um no intuito de preparao para o que Borges chama de sua teoria particular da eternidade8. Cumpre obser-var que a anlise de Borges, mais do que teolgica, expressa sua con-cepo da literatura como uma experincia esttica e, nesse sentido, como bem destaca Julio Juan Ruiz, a cincias sagrada (teologia) possui beleza igual que a matemtica (RUIZ, 2013, p. 168)9.</p><p>A delimitao do tema da eternidade realizada por Borges condiz com o aspecto de detetive que sua literatura prope. Historiar como en-contrar pistas que, pese seus desvios, apontam para uma certa unidade interpretativa em que autores como Plotino, Irineu, Agostinho de Hipona </p><p>8. importante no perdermos de vista o fato de Borges, como bem observa Andra Padro, ser um autor inconfivel e sem pretenso de criar teorias como deixa claro nes-sa passagem: Yo no tengo ninguna teora del mundo. En general, como yo he usado los diversos sistemas metafsicos y teolgicos para fines literarios, los lectores han credo que yo profesaba esos sistemas, cuando realmente lo nico que he hecho ha sido apro-vecharlos para esos fines, nada ms. Adems, si yo tuviera que definirme, me definira como un agnstico, es decir, una persona que no cree que el conocimiento sea posible (Borges in Vzquez, 1977, p.107) apud PADRO, A. A teologia e a literatura de Borges: um dilogo, FERRAZ, S., et al.,orgs. Deuses em poticas: estudos de literatura e teologia [online]. Belm: UEPA; Campina Grande: EDUEPB, 2008. 364 p. ISBN 978-85-7879-010-3. Disponvel em: http://books.scielo.org/id/pdkdq/pdf/ferraz-9788578791186-06.pdf . Ainda sobre o carter transformador que Borges realiza de certas concepes teolgi-cas, ver: DAZ, P.N. Los hilos de la trama oscura: la diversidade teolgica en la poesia de Borges, EPOS, XXIX (2013) pgs. 227-236, disponvel em: http://e-spacio.uned.es/fez/eserv/bibliuned:Epos-2013-29-5060/Hilos_trama_oscura.pdf Acesso dia 23/07/16.9.H uma ampla discusso entre os crticos do pensamento de Borges sobre o valor real que a teologia e a filosofia teriam para o poeta. Seriam de fato objetos de interesse enquanto tais ou somente entendidas como literaturas fantsticas? Sobre o tema ver: HINCAPI, A.L. Borges... Filsofo? Creacin literria y filosofia na obra de Jorge Luis Borges (Tese de Doutorado), Cornell University, 2008, disponvel em: https://ecom-mons.cornell.edu/.../2/Borges%20--%20PDF%20Complete%2009-17.pdf . Acesso dia 23/07/16. Em entrevista concedida a Laurent Bouvier-Ajam, aps negar a possibilidade de uma crena em um Deus pessoal, Borges afirma que a teologia mais valsa e rica que a literatura fantstica: Quand on parle des petites inventions de Wells, de Poe ou de Kafka, on voit que la thologie est bien plus vaste et plus riche que la littrature fantasti-que. La Trinit, par exemple, est bien plus trange que la Licorne ou que la Chimre. Ces trois personnes qui sont une, cest trs trange. Cf. Entretien avec Jorge Luis Borges - Propos recueillis par Laurent Bouvier-Ajam le 25 dcembre 1982. Disponvel em: http://www.electre.com/widgets/Interview%20Borges%201982f0140c70-f933-4c10-adb6 c11f-caeeb3a7.pdf .Acesso em 23/06/2016. </p></li><li><p> 120 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>(trindade clssica quando nos reportamos s razes neoplatnicas), se misturam com Paulo de Tarso, Alberto Magno, Toms de Aquino, entre outros, compondo uma viso, ao mesmo tempo plural e singular, no que se refere sua tarefa de crtico. A inverso realizada, logo no incio da obra, denota sua perspiccia em demarcar a base terica sobre a qual se mover ao longo do texto, diz ele: comearei recordando as obscuri-dades inerentes ao tempo: mistrio metafsico, natural, que deve prece-der eternidade, que filha dos homens (idem, p.12). </p><p>Como se pode constatar, o problema metafsico, como dir ele, no a eternidade, mas o tempo enquanto realidade natural que condiz com a prpria condio humana de mortal. Estamos, assim, diante da inver-so do pensamento plotiniano, tambm anunciada nos primeiros par-grafos e, com isso, sua oposio a toda uma larga tradio herdeira do pensamento de Plato e sua distino, neoplatonizante, entre mundo sensvel e inteligvel atribudos, respectivamente, s coisas e s realida-de imutveis.</p><p>Mas, em que medida o tempo um problema vital para o homem? Sem sombra de dvida, se h uma questo que norteia a histria do pen-samento ocidental : como compreender a temporalidade de um mundo que, pese a sua aparente permanncia, se mostra fluido e em constante devir? Essa questo obteve diversas respostas em suas mltiplas verten-tes (religiosa, mtica, filosfica, literria, teolgica, etc), no entanto, todas parecem apontar para uma mesma perspectiva, a saber: para existncia de uma ordem eterna na qual as coisas, em sua temporalidade repousa-riam e, em sendo assim, obteriam sua estabilidade. Para a consolidao dessa viso, dois autores foram decisivos: Plato e Plotino.</p><p>Plato e sua herana plotinianaBorges parte da ideia de que o primeiro pensador a tomar a eterni-</p><p>dade como fundamento oposto ao mundo sensvel, foi Plato10. Plato, </p><p>10.Embora no Prlogo ele reconhea o papel de Parmnides de Elia.</p></li><li><p> 121 </p><p>Teoliterria V. 7 - N. 14 - 2017ISSN - 2236-9937</p><p>por uma questo que diramos, terica, foi obrigado a propor uma con-cepo do tempo que, necessariamente, no condizia com aquilo que lhe fundamentaria, isto , o eterno. A teoria do conhecimento platnica, baseada em ideias ou paradigmas que so em si mesmos imutveis, impunha ao pensador a exigncia de postular uma diviso entre dois nveis: o eterno ou o chamado mundo das ideias e o temporal ou o mundo da aparncia. </p><p>Segundo Borges, Plato, no dilogo Timeu, fundou uma concepo realista das ideias to afastada de nosso ser que se tornou impossvel crer em alguma interpretao sua. Ironiza o poeta afirmando no crer nem na sua prpria interpretao dos arqutipos verdadeiros de Plato. A consequncia do realismo platnico foi o fortalecimento do seu opos-to, isto , o nominalismo que se converteu em uma premissa geral, um axioma que todos praticam sem saber. O poeta, ao modo aristotlico de uma crtica teoria das ideias de Plato, afirma: examinamos uma eternidade que mais pobre que o mundo (2005, p.23). Como se pode observar, Borges reproduz uma crtica teoria da participao platnica j realizada por Aristteles em sua Metafsica quando o estagirita ques-tiona o fato de que, ao postular a duplicidade de mundo, Plato teria que sustentar a existncia, no mundo inteligvel, de tantas formas (paradig-mas) quantas realidades existentes no mundo inteligvel o que, ao que parece, no figuraria em sua teoria de modo explcito11.</p><p>Plotino, intrprete de Plato, como ele mesmo se define nas Enadas, elevou a estatuto supremo o modelo platnico. Sua concepo do Uno como absolutamente transcendente e do mltiplo como gerao cont-nua da unidade que permanece una, pese a multiplicidade das coisas, gerou um sistema hiposttico em que