JK - Porque Constru Braslia

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  • Coleo Brasil 500 Anos

    POR QUE CONSTRU BRASLIA Juscelino Kubitschek

    Braslia-2000

  • BRASIL 500 ANOS O Conselho Editorial do Senado Federal, criado pela Mesa Diretora em 31 de janeiro de 1997, buscar editar, sempre, obras de valor histrico e cultural e de importncia relevante para a compreenso da histria poltica, econmica e social do Brasil e reflexo sobre os destinos do pas.

    COLEO BRASIL 500 ANOS De Profecia e Inquisio (esgotado) - Padre Antnio Vieira Manual Bibliogrfico de Estudos Brasileiros - Rubens Borba de Morais e William Berrien Galeria dos Brasileiros Ilustres (Volumes I e II) S. A. Sisson O Brasil no Pensamento Brasileiro (Volume I) Djacir Meneses (organizador) R/o Branco e as Fronteiras do Brasil A. G. de Arajo Jorge Efemrides Brasileiras - Baro do Rio Branco Amap: a terra onde o Brasil comea, 2- edio - Jos Sarney e Pedro Costa Formao Histrica do Acre (Volumes I e II) - Leandro Tocantins Na Plancie Amaznica - Raimundo Morais Textos Polticos da Histria do Brasil (9 volumes) - Paulo Bonavides e Roberto Amaral (organizadores)

    Projeto grfico: Achilles Milan Neto Senado Federal, 2000 Congresso Nacional Praa dos Trs Poderes s/n - CEP 70168-970 - Braslia - D F CEDIT@senado.gov.br http://www.senado.gov.br/web/conselho/conselho.htm

    Kubitschek,Juscelino, 1902-1976. Por que constru Braslia / Juscelino Kubitschek.

    Braslia : Senado Federal, Conselho Editorial, 2000. XVI + 477 p. - (Coleo Brasil 500 anos)

    1. Braslia (DF), histria. 2. Capital (cidade), Brasil. I. Ttulo. II. Srie.

    CDD 981.74

  • POR QUE CONSTRU BRASLIA

  • !

    Mesa Diretora Binio 4999/2000

    Senador Antnio. Carlos Magalhes

    Presidente

    Senador Geraldo Melo

    1 Vice-Presidente

    Senador Ronaldo Cunha Lima

    1 Secretrio

    Senador Nabor Jnior

    3 Secretrio

    Senador Ademir Andrade

    2 Vice-Presidente

    Senador Carlos Patrocnio

    2Secretrio

    Senador Casildo Maldaner

    4 Secretrio

    Suplentes de Secretrio

    Senador Eduardo Suplicy

    Senador Jonas Pinheiro

    Senador Ldio Coelho

    Senadora Marluce Pinto

    Conselho Editorial

    Senador Lcio Alcntara

    Presidente

    Joaquim Campelo Marques Vice-Presidente

    Conselheiros

    Carlos Henrique Cardim Carlyle Coutinho Madruga

    Raimundo Pontes Cunha Neto

  • Sumrio

    APRESENTAO por Antonio Carlos Magalhes

    pg. XI

    UM SENHOR D O TEMPO por Mrcia Kubitschek

    pg. XIII

    MESTRA JLIA pg. 1

    COMEA O NOVO BRASIL pg. 5

    A corporificao da ideia, pg. 5 Em busca da integrao, pg. 10

    ANTECEDENTES HISTRICOS pg. 13

    Os trilhos da velha rotina,pg. 18 Assentamento da pedra fundamental, pg. 21

    A Comisso Poli Coelho,pg. 24 A Comisso Jos Pessoa, pg. 27

    ESTUDOS REALIZADOS EM 1955 pg. 31

    Na Prefeitura de Belo Horizonte,pg. 34 A igrejinha da Pampulha,pg. 37

    APROVAO DA LEI PELO CONGRESSO pg. 43

    Visita ao local da futura capital,pg. 47

    A CONSTRUO DO CATETINHO pg. 55

  • Concurso para o Plano Piloto, pg. 61 O que era, ento, o Brasil, pg. 64 O que deveria ser a cidade, pg. 66

    INCIO DA BATALHA pg. 73

    A ideia do cruzeiro rodovirio, pg. 82 A primeira missa, pg. 86 Construtores de catedral, pg. 92

    SURGE A IDEIA DA BELM-BRASLIA pg. 97

    Uma nova mentalidade no Pas,pg. 101 Braslia: meta-sntese,^?-105 Lances da campanha, pg. 109 O incio da Belm-Braslia,^

  • TENTATIVA DE PARALISAR AS OBRAS pg. 249

    A CPI contra a Novacap,^>. 252 A conferncia dos 21 em Buenos Aires, pg. 255 Plano de abastecimento cidade, pg. 260

    A UNIVERSIDADE DE BRASLIA pg. 263

    Primrdios da campanha sucessria,pg. 265 A indstria da construo rav,pg. 274 O drama da represa do Parano,^>g. 276

    CONVERSANDO COM A NAO pg. 285

    Resumo das 31 metas,pg. 288 Iniciava-se a mudana,pg. 297 O pior cego o que no quer vet,pg. 300 Surge a ideia da Braslia-Acre, pg. 304

    A visita do Presidente Eisenhower,^>. 310 Uma quase-tragdia em Furnas, pg. 331

    Uma etapa por ms, pg. 338

    O DESAFIO DA TELECOMUNICAO pg. 341

    Recrudesce a campanha contra Braslia, pg. 349 A ltima batalha contra a mudana, pg. 352

    DESPEDINDO-ME DO RIO pg. 359

    As festas da inaugurao de Braslia,^. 364 Vencido pela emoo,pg. 371

    PRIMEIRA REUNIO MINISTERIAL pg. 375

    Criao da Universidade de Braslia, pg. 378

    INSTALAO DO LEGISLATIVO E D O JUDICIRIO pg. 381

    Emoes... emoes... emoes...,pg. 384 A alegoria das trs capitais,jfczg. 388 A rebelio dos 19 senadores, pg. 391

  • A META DA LEGALIDADE pg. 395

    A aproximao da fronteira ocidental, pg. 401 A morte da sapopema,^ >

  • Apresentao

    Falar de Juscelino Kubitschek falar do novo Brasil que ele idealizou e comeou a construir. Falar de JK proclamar que foi ele, sem dvida, o grande homem de Estado do Brasil contemporneo.

    Com coragem, mas sem dios ou receios, ele enfrentou as foras mais diversas para alcanar seu ohjetivo maior, que era a Presidncia da Repblica, afim de servir o Brasil.

    Quem com ele conviveu pode afirmar que jamais guardou rancores ou ressentimentos dos mais ferrenhos adversrios, porque achava que seus deveres com o Brasil eram maiores do que questes pessoais ou polticas.

    JKfoi o grande responsvel pela industrializao brasileira; o homem do Brasil grande que, com o Plano de Metas como objetivo desen-volvimentista, mudou a face da Nao, criando as bases de um amanh

    feli^para o povo brasileiro. Fa^ia as alianas necessrias para obter xito no Congresso,

    transigindo algumas vezes para alcanar os fins maiores. Tinha amigos em todos os partidos polticos, mas sua grande fora era a simpatia hu-mana que despertava em seus concidados.

    Deus permitiu-me a honra de conviver com esta notvel figura humana, administrador competente e orgulhoso de seu Pas. Dele guardo as melhores recordaes do incio de minha carreira poltica; mas prefiro abster-me dos aspectos afetivos para julgar o homem que prometeu e cumpriu 50 anos em 5 de governo.

    Quando, no mbito dos festejos dos 40 anos de Braslia, o Se-nado Federal homenageia o grande Presidente, com a publicao de um de seus livros, a homenagem no dos senadores, mas sim do povo brasi-leiro, por seus intrpretes.

    Antonio Carlos Magalhes Presidente do Senado Federal

  • Um Senhor do Tempo

    Meu pai foi senhor do tempo. Ele era capaz de dar a cada dia todos os seus deveres. O dever do homem pblico, o dever do amigo, o de-ver de chefe de famlia.

    Se o seu tempo era pouco, seu afeto supria, na intensidade, as horas da ausncia. Sua famlia e amigos sempre ansiavam pela sua che-gada, que percebamos pela firmeza dos passos, pelo calor da voz pela ternura das mos e o brilho dos olhos.

    Ele nos amava no s com o carinho, as preocupaes, a pro-viso do lar. Ele nos amava tambm no amor que devotava ao povo, na misteriosa e singular identidade com o Brasil. Em sua alma, ele era o barro de nosso cho, o contorno de nossas montanhas, as estrelas do Cru-zeiro, a bravura de nossa gente.

    Sei disso hoje, quando ao amor de filha se acrescenta o reco-nhecimento da cidad. Vejo como ele foi capaz de dar ao povo a sua ale-gria, o seu entusiasmo, a sua incansvel disposio para trabalhar, a sua pacincia, a sua certeza de que o nosso pas no menor no mundo, e que, com a vontade de seus homens, ningum o vencer.

    Quando fez o seu caminho para o mundo, levou as imagens da infncia, vivida em Diamantina, como o seguro de viagem. Neto de um

    ' imigrante tcheco que buscara o Serro empurrado pelo sonho, rfo de pai muito menino, meu pai construiu o seu destino na obstinao de servir. Escolheu a medicina, e descobriu, ao formar-se, que o seu amor ao povo pedia-lhe mais ainda. Prefeito de Belo Horizonte entendeu que o povo tem direito aos espaos de beleza, e convocou Niemeyerpara desenhar os contornos da Pampulha. Governador de Minas, deu-lhe as bases do de-senvolvimento, com estradas e usinas hidreltricas. Presidente da Rep-blica, cumpriu o que prometera: convocou o futuro para o seu mandato, e, em cinco anos, construmos o que exigiria meio sculo. Braslia signifi-cou, para ele, mostrar ao mundo que, neste pas continental, a vontade sempre superou e sempre superar as dificuldades.

  • Considerado o Brasileiro do Sculo, estou certa de que ele s aceitaria esse ttulo com a convico de que ele foi um brasileiro do sculo, entre todos os brasileiros do sculo. Um brasileiro igual a tantos outros, annimos e patriotas.

    Meu pai, nosso amigo, foi o dedicado servidor de nossa ptria, o contemporneo do futuro. Muito obrigada, em nome da famlia, em nome dele, que me delegou essa misso com o seu sangue e o seu amor, pela reedio desta obra, no somente parte de nossa histria e, portanto, da nossa herana comum, como tambm do amor que ele dedicou nossa terra e nossa gente.

    Mrcia Kubitschek

  • ...e aparecer aqui a Grande Civilizao,

    a Terra Prometida, onde correr leite e mel.

    E essas coisas acontecero na terceira gerao.

    DOM BOSCO

  • A Mestra Jlia

    fiando pensei contar aos meus patrcios, na unidade expo-sitiva de um livro, as razes e o modo por que constru Braslia, refleti que o tema no me pertencia, e sim aos

    historiadores da cidade e do Pas. Embora j houvesse acumulado os fatos para esta narrativa,

    deixei-os de lado. Bastava-me o esforo para erguer a nova Capital do Brasil no Planalto Central.

    Entretanto, com o passar do tempo, pude sentir que talvez s eu pudesse contar por inteiro a origem e a formao de Braslia. Alm de seu fundador, seria tambm o seu cronista.

    Antes de ser construda, Braslia foi uma polmica. A mais longa que se travou no Brasil: viera da Colnia, atravessara todo o Imprio, entrara pela Repblica, e continuava a ser, at o incio do meu Governo uma controvrsia e um desafio.

    Quando lhe plantei os primeiros alicerces, a velha polmica, longe de atenuar-se tornou-se mais veemente. E de tal modo que hou-ve quem vaticinasse, no apenas o fracasso da iniciativa visionria, mas o de toda a minha obra administrativa.

    Depois, ao inaugurar a nova Capital da Repblica, no dia cer-to, na hora certa, com todas as coisas nos seus lugares, imaginei que a obra gigantesca, representando o esforo conjugado de toda a Nao,

  • 2 Juscelino Kubitschek

    teria o dom de calar para sempre os seus teimosos opositores. No tar-dei a reconhecer que me equivocava.

    A despeito de j se comear a sentir que Braslia mudava o Brasil, criando uma nova era para o seu progresso, ainda persistiam con-tra ela as vozes apaixonadas umas, de boa f; outras, por incompreen-so.

    Eu devia chamar a mim, na hora de todas as acusaes, a res-ponsabilidade do empreendimento. Mas no para alimentar a controvr-sia. Em vez do litgio - a explicao. No lugar da palavra exaltada - o depoimento sereno.

    Sempre tomei por norma, ao longo de minha vida pblica, esta recomendao de Joubert: No devemos cortar o n que podemos desatar.

    Enquanto no chega aquela hora neutra em que todos ns se-remos apenas memria, julgo ainda do meu dever explicar o que fiz. O Imperador Pedro II, no fecho de um soneto, dizia aguardar a justia de Deus na voz da Histria. A justia de Deus, no meu caso, tenho-a eu comigo, na intimidade de minha f. Por isso, com este livro, s aspiro a ver confirmado aquilo que j tenho: a benevolncia de meus contempo-rneos. Na verdade, ao verificar que minha obra maior teve o seu pros-seguimento natural, em benefcio exclusivo do Brasil, dou-me por bem pago de todas as lutas que travei. O importante, numa batalha, no so os mortos e os feridos, mas a praa conquistada.

    H ainda uma explicao para este livro: que ele constitui tambm um pretexto para agradecer. Agradecer a Oscar Niemeyer, a Lcio Costa e a Israel Pinheiro, intrpretes imediatos de uma aspirao nacional que eu lhes transmiti. Aos membros das duas Casas do Con-gresso que me proporcionaram os instrumentos legais de que eu neces-sitava para materializar Braslia. Aos candangos que amassaram com o suor de seu rosto o cimento e a areia de seus edifcios. Ao entusiasmo do povo, que nunca me faltou com o seu aplauso. E a amigos, e a com-panheiros, e a colaboradores, que vo nomeados no correr da narrativa. E ainda aos meus adversrios leais, a quem sou reconhecido pela funo fiscalizadora e estimulante que exerceram, na vigilncia de uma obra que marcaria o grande salto do Brasil para a complementao de sua auto-nomia como grande nao.

  • Por que constru Braslia 3

    Devo uma palavra de gratido, igualmente, a dois amigos, que tornaram possvel a publicao desta obra: Adolpho Bloch, cuja chama idealista me colocou a pena na mo para que a escrevesse; e Caio de Freitas, jornalista, pesquisador histrico, que reuniu o material de que necessitava para a elaborao do volume.

    Nunca hei de esquecer que, a 21 de abril de 1960, em Braslia, contemplando a cidade que estava sendo inaugurada, minha me alon-gou o olhar para o horizonte recortado de edifcios de concreto armado e fez este reparo, com o orgulho generoso que as mes sabem ter:

    S mesmo Nono seria capaz de realizar tudo isto! Na realidade, tudo o que sou, como cidado, como brasileiro,

    como homem pblico, minha Me o devo. Viva aos vinte e trs anos, ela s viveu para o seu trabalho e para a educao de seus dois filhos. Nunca teve uma palavra de desalento, mesmo nas horas mais difceis. Graas sua tenacidade, abri caminho na vida. E foi no seu exemplo que me inspirei para realizar o meu destino. Sem a sua lio diante dos olhos, eu no teria feito Braslia. A ela, este livro dedicado.

  • Comea o novo Brasil

    r ^ ^ ^ o m o nasceu Braslia? A resposta simples. Como todas

    as grandes iniciativas, surgiu quase de um nada. A ideia da interiorizao da Capital do Pas era antiga, remontando poca da Inconfidncia Mi-neira. A partir da, viera rolando atravs das diferentes fases da nossa Histria: o fim da era colonial, os dois reinados e os sessenta e seis anos da Repblica, at 1955. Pregada por alguns idealistas, chegou, mesmo, a se converter em dispositivo constitucional. No entanto, a despeito dessa prolongada hibernao, nunca aparecera algum suficientemente audaz para dar-lhe vida e convert-la em realidade.

    Coube a mim levar a efeito a audaciosa tarefa. No s promo-vi a interiorizao da Capital, no exguo perodo do meu Governo, mas, para que essa mudana se processasse em bases slidas, constru, em pouco mais de trs anos, uma metrpole inteira - moderna, urbanistica-mente revolucionria , que Braslia.

    A CORPORIFICAO DA IDEIA

    Tudo teve incio na cidade de Jata, em Gois, a 4 de abril de 1955, durante minha campanha como candidato Presidncia da Rep-blica. Os polticos que me antecederam realizavam sua pregao ao lon-

  • 6 Juscelino Kubitschek

    go das cidades e capitais, situadas na faixa litornea. S ocasionalmente quebravam a linha desse roteiro, concordando em fazer um comcio num centro populacional do interior. A conduta que adotei era indita, e revelou-se da maior eficincia possvel. Em vez das populaes do lito-ral, iria falar, em primeiro lugar, aos eleitores do Brasil Central.

    Da a razo por que o meu primeiro comcio foi realizado jus-tamente em Jata, cidade perdida nos sem-fins de Gois. No discurso que ali pronunciei, referindo-me agitao poltica que inquietava o Brasil e contra a qual s via um remdio eficaz o respeito integral s leis , declarei que, se eleito, cumpriria rigorosamente a Constituio. Contudo, era meu hbito, que viera dos tempos da campanha para a go-vernadoria de Minas Gerais, estabelecer um dilogo com os ouvintes, aps concludo o discurso de apresentao da minha candidatura. Pu-nha-me, ento, disposio dos eleitores para responder, na hora, a qualquer pergunta que quisessem formular-me.

    Foi nesse momento que uma voz forte se imps, para me in-terpelar: "O senhor disse que, se eleito, ir cumprir rigorosamente a Constituio. Desejo saber, ento, se pretende pr em prtica o disposi-tivo da Carta Magna que determina, nas suas Disposies Transitrias, a mudana da Capital Federal para o Planalto Central." Procurei identifi-car o interpelante. Era um dos ouvintes, Antnio Carvalho Soares - vul-go Toniquinho - , que se encontrava bem perto do palanque.

    A pergunta era embaraosa. J possua meu Programa de Me-tas e em nenhuma parte dele existia qualquer referncia quele proble-ma. Respondi, contudo, como me cabia faz-lo na ocasio: "Acabo de prometer que cumprirei, na ntegra, a Constituio e no vejo razo por que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova Capi-tal e farei a mudana da sede do Governo."

    Essa afirmao provocou um delrio de aplausos. Desde mui-to, os goianos acalentavam aquele sonho e, pela primeira vez, ouviram um candidato Presidncia da Repblica assumir, em pblico, to sole-ne compromisso. A ideia, como j disse, nascera em 1789 e viera se ar-rastando, sem que mais nada houvesse sido feito no sentido de concreti-z-la. A nica providncia tomada - alm das de carter aleatrio, que refletiam a atividade das comisses presididas por Lus Cruls, Poli Coe-lho e o Marechal Jos Pessoa - havia sido o acrscimo de um retngulo

  • Por que constru Braslia 7

    colorido no mapa do Brasil, assinalando a local2ao do futuro Distrito Federal.

    A afirmao do comcio em Jata fora poltica at certo ponto. At ento, eu no me havia preocupado com o problema. Entretanto, a partir dali, e no desdobramento da jornada eleitoral quando percorri o Pas inteiro - , deixei-me empolgar pela ideia. Havia visto o Brasil de cima a bordo de um avio e pude sentir o problema em todas as suas complexas implicaes. Dois teros do territrio nacional ainda es-tavam virgens da presena humana. Eram os "vazios demogrficos" de que falavam os socilogos.

    O grande desafio da nossa Histria estava ali: seria forar-se o deslocamento do eixo do desenvolvimento nacional. Ao invs do litoral - que j havia alcanado certo nvel de progresso - , povoar-se o Planal-to Central. O ncleo populacional, criado naquela longnqua regio, es-praiar-se-ia como uma mancha de leo, fazendo com que todo o interior abrisse os olhos para o futuro grandioso do Pas. Assim, o brasileiro po-deria tomar posse do seu imenso territrio. E a mudana da Capital se-ria o veculo. O instrumento. O fator que iria desencadear novo ciclo bandeirante.

    Fixei-me na ideia. E, como resultado dessa fixao, aos 30 itens, que integravam meu Plano de Metas, acrescentei mais um o da construo da nova Capital , ao qual denominaria, mais tarde, a "Me-ta-Sntese".

    Quando assumi o Governo, o Brasil acabava de viver uma das fases mais tempestuosas de sua Histria. Houve o suicdio do Presi-dente Getlio Vargas e dois outros chefes do Governo foram depostos. No deixei de herdar grande parte do ressentimento que conturbava o ambiente poltico. Em face disso, era grande e aguerrida a bancada opo-sicionista no Congresso. Uma lei, que determinasse a mudana imediata da Capital, certamente iria dar causa a profundas divergncias e acirraria contra mim, logo no incio do meu mandato, o dio dos oposicionistas mais intransigentes. A situao requeria cautela.

    Chamei o jurisconsulto San Tiago Dantas e lhe pedi que ela-borasse a mensagem e o respectivo projeto de lei. Expliquei-lhe, porm, o que desejava: uma lei que, uma vez aprovada, fosse um diploma legal completo, capaz de cobrir todas as fases da execuo da transferncia,

  • 8 Juscelino Kubitschek

    sem que me visse obrigado a recorrer, de novo, ao Congresso. O traba-lho que San Tiago Dantas me apresentou era perfeito. Nele, tudo havia sido previsto. Acusava apenas uma lacuna: a data da transferncia. A Constituio estabelecia, nas suas Disposies Transitrias, que essa data seria fixada pelo Congresso.

    Antes, porm, da remessa da mensagem ao Congresso, jul-guei que deveria tomar algumas providncias estas de natureza polti-ca. Naquele momento, a Oposio tudo vinha fazendo para impedir a aprovao de uma lei sobre o Imposto de Consumo, que era de grande interesse para o Governo. O mesmo iria acontecer certamente em rela-o ao anteprojeto de lei referente mudana da Capital. A soluo se-ria transferir o patrocnio da iniciativa para o Governo de Gois - o Estado mais estreitamente vinculado ao problema. Falei, a respeito, com o Governador Jos Ludovico, que aceitou, com entusiasmo, a sugesto. No s atuaria junto aos representantes do Estado inclusive os ude-nistas - no sentido de se criar um ambiente favorvel ideia, mas, tam-bm, promoveria a realizao de uma cerimnia em Goinia, que acen-tuaria ainda mais o carter regionalista da iniciativa. Tratava-se de um "ato pblico" a ter lugar na principal praa da Capital do Estado, duran-te o qual eu assinaria, na presena do povo, a mensagem que seria envia-da ao Congresso. Tudo combinado, anunciei a data da cerimnia: 18 de abril de 1956.

    Na poca, o nico avio de que dispunha a Presidncia era um DC-3 - aparelho ronceiro que levava dois dias do Rio a Belm do Par. Da o apelido que lhe era dado: "carroa area". Era nesse avio que eu iria fazer a viagem at Goinia, deixando o Rio pouco antes da meia-noite. O Brigadeiro Fleiuss, Ministro da Aeronutica, considerou uma temeridade o vo noturno. Iramos sobrevoar justamente a regio mais deserta e sem recursos do interior do Brasil. Alm disso faramos o percurso em plena escurido. Se houvesse uma pane, estaramos perdi-dos.

    Habituado aos azares das viagens areas, no levei em consi-derao as ponderaes do Ministro da Aeronutica. Deixamos o Rio s 11 horas da noite, com um cu sem estrelas e prenncios de tempesta-de. A viagem transcorreu normalmente at as 3 da madrugada, quando, sem qualquer presso, o avio perdeu a rota e se deixou levar, sem

  • Por que constru Braslia 9

    rumo. Vovamos s cegas, ora em crculos, ora em linha reta, na expec-tativa de um desastre iminente. Quando amanheceu, vimos uma locali-dade que o piloto reconheceu ser a cidade de Morrinhos, no muito dis-tante da Capital do Estado. Tomando-se como ponto de referncia, ori-entou o avio na direo que desejvamos.

    Sobrevoamos Goinia ainda muito cedo e, mesmo assim, pu-demos constatar que a cidade estava engalanada, com milhares de pes-soas nas ruas. Preparamo-nos, ento, para a descida, quando ocorreu um fenmeno curioso. O avio j havia sido colocado na posio ade-quada, e eis que uma nuvem branca e densa, como imenso floco de al-godo, estacionou exatamente em cima da pista, impedindo a aterrissa-gem. O mais surpreendente era que a nuvem ocultava apenas a pista, como se tivesse o propsito de evitar o pouso. Sobrevoando o local, podamos ver, com absoluta nitidez, a multido que superlotava as ime-diaes do aeroporto.

    Aps vrias tentativas de aterissagem e todas fracassadas, de-cidimos seguir para Anpolis, distante meia hora de vo. Ali o avio pousou sem novidade.

    Encontramos o aeroporto deserto. No havia vivalma nem no campo de pouso nem no edifcio da administrao. Deixando o apa-relho, atravessamos o edifcio da administrao. E entramos num pe-queno caf, que acabara de abrir suas portas. Sentamo-nos a um canto e pedimos "mdia com po e manteiga". Surgiram, pouco depois, quatro ou cinco pessoas, atradas certamente pelo rudo dos motores. Olha-ram-nos com surpresa e foram em busca do prefeito e do chefe poltico do municpio. Quando estes chegaram, expliquei-lhes o motivo da ines-perada visita e esclareci que, no podendo perder tempo - pois estava de viagem marcada para Manaus, onde me aguardava o Coronel Janari Nunes, ento presidente da Petrobrs, a fim de visitarmos, juntos, o poo pioneiro de Nova Olinda , havia resolvido realizar ali a cerimnia da assinatura da mensagem a ser enviada ao Congresso.

    Assim, o "ato pblico", que deveria ter tido lugar na principal praa pblica de Goinia e na presena de milhares de pessoas, acabou sendo realizado no interior de um botequim, ao lado do aeroporto de Anpolis, e assistido apenas por meia dzia de curiosos. Assinei ali a mensagem e solicitei que se redigisse uma ata, a ser subscrita por todos

  • 10 Juscelino Kubitschek

    os presentes, consignando, no seu texto, tudo quanto acontecera naquela manh. A mensagem e a ata tiveram a mesma data: 18 de abril de 1956.

    E M BUSCA DA INTEGRAO

    Yuri Gagarin, o famoso astronauta, disse-me ao ver Braslia pela primeira vez: "A ideia que tenho, Presidente, a de que estou de-sembarcando num planeta diferente, que no a Terra."

    De fato, o cenrio de Braslia tem aspectos realmente singula-res. As cpulas do Palcio do Congresso uma cncava e outra conve-xa; a imponncia da Praa dos Trs Poderes, refletindo o brilho de suas sucessivas fachadas de vidro; o Palcio do Supremo Tribunal da Justia, apoiado em alicerces to tnues que do a impresso de que o edifcio no toca o cho, mas flutua; a beleza do Palcio da Alvorada, concebido em linhas de uma harmonia to perfeita, que o traado de suas colunas sutgeneris j motivo ornamental at de certo tipo de loua sofisticada tudo ali diferente. Revolucionrio. Refiete uma esttica urbanstica nica no mundo. E, sobre o acmulo das maravilhas criadas pelo gnio humano, estende-se o infinito do horizonte rasgado do Planalto um horizonte baixo, que lembra as vastides marinhas, e que, sendo enor-me, serve de palco, pela manh e tarde, aos mais deslumbrantes jogos de luz de que capaz a natureza.

    Assim Braslia numa viso caleidoscpica, sem se recordar o seu todo urbanstico os blocos residenciais; o Eixo Monumental; a au-daciosa torre de telecomunicaes com seu restaurante panormico; as famosas "Quadras" auto-suficientes, recordando, numa feio moderna, as comunidades medievais; e, sobretudo, o lago artificial, com 600 mi-lhes de metros cbicos de gua, dotado de praias, iate clube, barcos a vela e toda natureza de esportes aquticos.

    No mundo existem algumas cidades artificiais, isto , no nas-cidas por imposies sociopolticas, mas erigidas por iniciativa de reis ou de governantes. A construo de todas elas arrastou-se atravs dos anos, e algumas, apesar do tempo passado, ainda no esto de todo con-cludas. Por outro lado, nenhuma delas possui uma histria prpria -uma histria de herosmo, audcia, determinao e esprito de pioneiris-

  • Por que constru Braslia 11

    mo pico, que representou sua construo, exibe uma insgnia que lhe empresta importncia mpar, quando posta em comparao com suas congneres. A nova Capital, descontada sua grandiosidade arquitetnica, permitiu que dois teros do nosso territrio que eram desalentadores "espaos vazios" fossem conquistados.

    Pode-se dizer assim, e com a maior segurana, que o Brasil s se tornou adulto depois da construo de Braslia. Durante toda a sua Histria - do Descobrimento at o meu Governo - vivemos, para apro-veitar aqui uma observao do nosso primeiro historiador, Frei Vicente do Salvador, "arranhando a areia das praias, como caranguejos". O lito-ral foi de fato uma monovidncia nacional. Vivia-se por ele. Agia-se em funo dele. E o que ocorria em relao ao resto do Brasil?

    A resposta simples: o deserto sem fim desdobrado nas suas caractersticas regionais a caatinga, no Nordeste; o cerrado, no Planal-to Central; o pantanal, nas regies alagadias de Mato Grosso; as pasta-gens, nas zonas de pecuria do Tringulo Mineiro e das coxilhas rio-grandenses; e a tenebrosa, indevassvel e misteriosa floresta amaz-nica, no extremo norte do Pas.

    Civilizao? Ncleos populacionais? Quistos de densidade de-mogrfica? Todos esses sintomas de progresso existiam, igualmente, e eram constatados ao longo da extensa fita litornea, cuja profundidade no ultrapassava uma faixa de duzentos quilmetros. O Brasil, como se sabe, um dos maiores pases do mundo, superado apenas, em terras contnuas, pela Unio Sovitica, a China e o Canad. Seu territrio cortado pelo Equador e pelo Trpico de Capricrnio e se prolonga at os contrafortes da Cordilheira dos Andes.

    A forma geogrfica do Brasil caracteristicamente triangular, a exemplo do Continente de que faz parte, e equivalem-se, em extenso, suas fronteiras martimas e terrestres, o que nos assegura uma projeo tanto continental quanto ocenica. Contudo, a populao era escassa pelo menos um pouco antes do incio do meu Governo , mal ultrapas-sando o ndice de 6 habitantes por quilmetro quadrado. Tratava-se, pois, de um mundo inexplorado. Dotado de riquezas fabulosas, mas praticamente virgem do trabalho humano.

    Em face dessa realidade, cruel para o nosso orgulho de brasi-leiros, impunha-se a realizao de uma nova e dinmica poltica no Pas.

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    O Brasil, voltado at ento para o mar, teria de assumir uma atitude dia-metralmente inversa, isto , voltar as costas para o oceano e empe-nhar-se em tomar posse efetiva do seu territrio, de cuja existncia s ti-nha conhecimento por meio dos mapas.

    Mas, para que esse objetivo pudesse ser atingido, uma revolu-o deveria ser feita. Revoluo, no de sangue, mas de mtodos admi-nistrativos. Em primeiro lugar, o Brasil deveria extinguir seus espaos va2os. Para que esse escopo fosse atingido, diversos tabus teriam de ser quebrados; processar-se a explorao dos seus imensos recursos naturais; proceder-se extino dos seus clamorosos desnveis sociais, por inter-mdio de uma disseminao uniforme do progresso; fazer-se a aproxi-mao dos ncleos populacionais pela abertura de estradas em todas as direes; dar-se energia abundante e barata aos Estados, providencian-do-se a construo de usinas hidreltricas onde elas se fizessem necess-rias e sem qualquer preocupao regional; atrair capitais externos, de forma a possibilitar a ereo de siderrgicas, tendo em vista uma indus-trializao nacional; irrigar-se, por meio de uma intensiva poltica de audagem, a terra seca do Nordeste, para estimular sua agricultura; de-vassar-se a floresta amaznica, de modo a incorpor-la ao territrio na-cional e, por fim, mudar-se a sede das decises governamentais, cons-truindo-se a nova Capital no centro geogrfico do Pas.

    Mal comearam os trabalhos, Osvaldo Orico realizou um es-tudo admirvel sobre todos os problemas atinentes nova Capital, abrangendo temas do mais alto interesse, como o valor geopoltico do empreendimento, a revoluo na arquitetura, as razes do Planalto, a Transbrasiliana, ou estrada da unidade nacional, isto , a BelmBraslia, a preferida de So Joo Bosco e outros itens que fazem do livro um pre-cursor de qualquer estudo a respeito de Braslia. Seu trabalho tem ainda o mrito de ter sido feito antes da inaugurao da Capital.

    Todas essas providncias, algumas de propores assustado-ras, deveriam constituir, ento, o que eu iria denominar, como Presiden-te da Repblica, a verdadeira Integrao Nacional.

  • Antecedentes histricos

    T ^ B L . udo isso, assim anunciado sucintamente, poderia ser consi-

    derado um sonho irrealizvel. No entanto, o slogan da minha campanha de candidato - 50 Anos em 5 - foi concretizado integralmente. ntida a linha divisria que separa duas fases antagnicas da nossa Histria. H um Brasil de antes de 1956, afundado no marasmo econmico, descren-te de si mesmo, e outro Brasil, confiante nas prprias energias, otimista, cioso da sua soberania e consciente do relevante papel que lhe compete representar no concerto das grandes naes. Qual o motivo da sbita mudana de mentalidade? As razes so diversas, mas sobressai-se, en-tre todas, a construo da nova capital.

    Vejamos, em traos rpidos, as distncias que separam Bras-lia de alguns dos principais plos do desenvolvimento nacional: 940 qui-lmetros do Rio de Janeiro; 725 quilmetros de Belo Horizonte; 890 quilmetros de So Paulo; 1.650 quilmetros de Porto Alegre; 925 qui-lmetros de Cuiab, no rumo oeste, na direo da fronteira com a Bol-via; 2.250 quilmetros de Rio Branco; 1.940 quilmetros de Manaus; 1.450 quilmetros de Belm; e 1.750 quilmetros de Natal. Comparan-do-se as distncias, medindo-se os meridianos e paralelos, verifica-se que no poderia ter sido mais adequada a localizao de Braslia. Cons-truda num ponto estratgico, as estradas que a servem um verdadeiro tecido conjuntivo de artrias e veias de intercomunicao interna reali-

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    zam, com perfeio, uma verdadeira costura do Brasil por dentro, aproxi-mando os Estados que, embora geograficamente limtrofes, viviam to distanciados, uns dos outros, como se pertencessem a pases diferentes. O governador em Rondnia, o capito Paulo Nunes Leal, disse-me, cer-ta vez, que uma mercadoria encomendada nos centros industriais do Rio e de So Paulo levava seis meses a transpor as distncias, a fim de poder ser utilizada pelos seus governados em Porto Velho.

    Como uma Nao poderia progredir, sujeita a essas limita-es? Braslia, entretanto, foi construda, e o pas, como por encanto, no curtssimo perodo de apenas trs anos e 10 meses, tornou-se uno. Intei-rio. Homogneo. Enfim, uma autntica unidade socioeconmica, em condies de realizar - quando muito numa dcada - seu destino de uma das grandes naes do mundo.

    No entanto, h fatos, ou melhor, imagens que devem ser re-compostas para que se possa compreender, em sua plenitude, a revolu-o que representou, para o futuro do Brasil, a construo de Braslia. Quem vai ao Planalto Central - a 1.100 metros de altitude - extasia-se, muito antes de chegar nova capital, com o cenrio que se lhe abre aos olhos. Alm da paisagem, que tpica do que se denomina chapado, v abrir-se, s suas pupilas, o esplendor da urbe majestosa. O trajeto do ae-roporto Praa dos Trs Poderes que o centro cvico da capital -constitui uma sucesso de surpresas.

    Bem em frente ao Palcio do Planalto, ergue-se o Museu da cidade um estranho monumento de forma retangular, em cujas pare-des lem-se diversas frases, referentes construo da nova capital. O que chama a ateno naquele conjunto arquitetnico, alm da sua bizar-ra conformao, um alto-relevo, em granito, reproduzindo uma fisio-nomia humana. Ao lado, est esculpida a seguinte frase:

    "A Juscelino Kubitschek de Oliveira, que desbravou o serto e ergueu Braslia, com audcia, energia e confiana, a homenagem dos pioneiros que o ajudaram na realizao da grande aventura" A frase, refletindo a gratido dos milhares de candangos que

    cooperaram comigo na gigantesca tarefa, no deixou de me sensibilizar. Contudo, nela fala-se em "aventura", o que poder dar a impresso de que a transferncia da sede do governo constituiu uma empresa temer-ria. Uma espcie de jogo, no qual tudo foi arriscado sem se saber, na rea-

  • Por que constru Braslia 15

    lidade, o que aconteceria no final. Mas a expresso "aventura", a que re-correram meus amigos, foi utilizada num sentido bem diferente. Para eles, a tarefa, que havamos realizado, era de tal grandiosidade que s existia uma palavra para defini-la: aventura.

    A verdade que, se houve tarefa meticulosamente planifica-da, esta foi justamente a construo de Braslia. O exguo prazo de exe-cuo da obra - motivo de acrrimos ataques da Oposio - foi impos-to pela antiga tradio administrativa de que nenhum governo, no Bra-sil, jamais deu prosseguimento a qualquer obra iniciada pelo que o ante-cedeu. Da a pressa, a determinao de conclu-la, ou melhor, no s inaugurando-a durante o ltimo ano do meu governo, mas providenci-ando, igualmente, a mudana dos servidores pblicos, de forma que a transferncia da faixa presidencial ao meu sucessor nela tivesse lugar.

    No houve, pois, qualquer feio de aventura na tarefa. Aven-tura houve, e com graves implicaes, na mudana de muitas capitais, registradas na histria. No antigo Egito, temos Mnfis, Tebas e Alexan-dria. Na China, o trono andou de norte a sul, ao sabor dos reveses di-nsticos. A partir do sculo XII, assistimos no Japo situao curiosa de um dualismo estatal corresponder duplicidade de capitais: em face de Quioto, residncia tradicional do Mikado, erguem-se Camacura e, mais tarde, ledo, centros administrativos e focos do poder militar do Xogun, o ditador militar. Houve, tambm, no velho Egito, a cida-de-fantasma de Akhetaton, residncia do fara herege Akhenaton, que a ergueu para op-la velha capital, onde pontificava o clero reacionrio do deus Amon. Seguiram-se os exemplos clssicos de construo de cidades artificiais: Constantinopla, Pequim, Madri, So Petersburgo, Washington, Otawa, Pretria, Ancara, Camberra e Nova Deli, para s falar das iniciativas de maior expresso.

    Em todos esses casos militaram, criando a motivao para a transferncia ou para a mudana, razes de natureza diversa, mas predo-minando, na maioria dos exemplos, ora motivos pessoais - relativos a hegemonias dinsticas ora imposies geopolticas ou socioeconmi-cas. Em relao a Braslia, fizeram-se sentir outros fatores, como muito bem acentuou o Embaixador J. O. de Meira Pena, no seu livro Quando Mudam as Capitais, publicado dois anos antes da inaugurao de Braslia, o que no o impediu de fazer uma anlise, com todas as implicaes,

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    do que iria significar, de fato, para o nosso futuro, a interiorizao do governo. Esse ilustre diplomata revelou, em bases realistas, a motivao da ciclpica tarefa: "Em primeiro plano, o que se deseja que o gover-no brasileiro abandone o litoral, essa luxuosa vitrina, til apenas para atrair a ateno ou iludir o exame do europeu e do americano. Em se-gundo lugar, para que os cuidados de um Estado mais realista, modesto, menos pedantemente socialista, se dirijam ao serto, s grandes flores-tas, aos campos gerais, aos rios caudalosos, s riquezas potenciais enor-mes e ao sertanejo - magro e forte, homem esquecido do interior - necessrio desviar o centro de gravidade do pas, estabelec-lo no cora-o dos dilatados territrios do Brasil, a fim de poder contemplar, ao al-cance de todas as classes e de todas as regies, o panorama social intei-ro. Assim, os objetivos da construo da nova capital so unidade, efi-cincia administrativa, descentralizao, aproximao das fronteiras con-tinentais, desenvolvimento econmico e social do interior e explorao das vastas, desertas e frteis reas de Gois e Mato Grosso, onde ama-durece o futuro da nacionalidade. Dir-se- que a funo de uma capital no ser pioneira. Por que no? No caso brasileiro, em que o Estado intervm ou pretende intervir em tudo, deixai-o, pelo menos uma vez derradeira, intervir num aspecto essencial da vida nacional, deixai-o pro-vocar aquilo que o povo tem hesitado em fazer espontaneamente - pio-neirismo!"

    A definio, acima transcrita, perfeitamente vlida. Nela se inclui quase a totalidade dos motivos que me levaram a construir Bras-lia, no se esquecendo mesmo de acrescentar, s razes expostas, dois aspectos da questo, que sempre considerei de relevncia: a) a necessi-dade que tinha o pas de sentir suas fronteiras com o Paraguai, a Bolvia, o Peru, a Colmbia e a Venezuela; e b) o objetivo prioritrio, justificati-vo da construo da nova cidade: a integrao nacional. A ideia, como ressaltei, era velha, de 166 anos. Nos Autos da Devassa, referentes Inconfidncia Mineira, h numerosos depoimentos, revelando que a in-teriorizao da capital constitua uma das preocupaes dos conjurados. A sugesto que faziam era, porm, de carter modesto: transferncia do Rio de Janeiro para a cidade mineira de So Joo d'el-Rei, to prxima do litoral que a providncia, s naquela poca, poderia ser considerada uma mudana. Apesar da feio da sugesto, a ideia no morrera. H

  • Por que constru Braslia 17

    uma referncia a ela - e desta vez vinha do exterior - guardada nos ar-quivos do Foreign Office, em Londres. Trata-se de uma carta de Lorde Strangford, embaixador ingls, a George Canning, primeiro-ministro do Reino Unido, datada de 24 de julho de 1808. Mais tarde, tambm o al-mirante ingls Sidney Smith fazia idntica sugesto ao ento prncipe re-gente, que seria o Rei D. Joo VI. Em 1813, o Jornalista Hiplito Jos da Costa, redator do Correio Bra^iliense, jornal editado em Londres, de-fendia e justificava a transferncia da capital para o interior, "junto s cabeceiras do rio So Francisco".

    Em 1821 - o Brasil achando-se s vsperas de se tornar inde-pendente Jos Bonifcio doutrinava, nas suas "Instrues do Governo Provisrio de So Paulo aos Deputados s Cortes de Lisboa": "Parece-nos tambm muito til que se levante uma cidade central no interior do Brasil para assento da Corte ou da Regncia, que poder ser na latitude, pouco mais ou menos, de 15 graus, em stio sadio, ameno, frtil e regado por al-gum rio navegvel." A sugesto, embora avanada para a poca, no cara em terreno sfaro. No dia 15 de junho de 1822, a Comisso de Deputados Brasileiros encarregada da redao dos artigos adicionais Constituio Portuguesa, referentes ao Brasil, recomendava: "O Congresso Brasileiro ajuntar-se- na capital, onde ora reside o Regente do Reino do Brasil, enquanto se no funda no centro daqueles uma nova capital."

    Nesse tempo, o Brasil ainda era dependente de Portugal. As su-gestes, referentes construo de uma nova capital, ficaram registradas apenas como um alvitre. Mesmo depois de fundado o Imprio, a ideia, embora muito discutida, nunca sara do papel. Em 1823, Jos Bonifcio reafirmara a necessidade dessa providncia, em sesso da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Imprio do Brasil, atravs de uma Memria, su-gerindo para a nova capital o nome de Braslia.

    Apesar desses esforos, a mudana da capital permanecera, como escreveu o historiador Otvio Tarqnio de Sousa, "no plano das belas imagens", e encarada "como uma utopia". Todavia, a despeito da descrena generalizada, iam surgindo, de tempos a tempos, novos idea-listas em seu favor: Francisco Adolfo Varhagem, o futuro Visconde de Porto Seguro; o Senador Holanda Cavalcanti e o famoso pintor Pedro Amrico. No plano mstico, fez-se ouvir, como uma advertncia prof-tica, o to citado sonho de So Joo Bosco.

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    O santo Becchi, na Itlia, era dado a vises, que constituam verdadeiras antecipaes do que iria ocorrer em futuro, s vezes, remoto. A 30 de agosto de 1883, passou ele por outra experincia desse gnero. Tratava-se de um sonho-viso - e desta vez referente ao Brasil - relatado numa reunio do Captulo Geral de sua congregao alguns dias depois, ou seja, a 4 de setembro. Dom Bosco revelou que "fora arrebatado pelos an-jos" e, durante a viagem, um dos guias celestiais disse-lhe de repente: "Olhai. Viajamos em direo das cordilheiras." O santo relatou, ento, que viu "as selvas amaznicas, com seus rios intrincados e enormes". Visitou as malocas dos ndios e assistiu, aterrorizado, ao sacrifcio de dois missionrios salesianos, abatidos a tacape pelos selvagens - fato que posteriormente se deu na Amaznia, em 1934, quando morreram, vtimas dos xavantes, os padres Pedro Sacillotti e Joo Fuchs. Mas no era tudo. E o santo prosse-guiu na sua narrativa: "Entre os paralelos 15 e 20, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago." Ento, uma voz lhe disse repetidamente: "Quando escavarem as minas es-condidas no meio destes montes, aparecer aqui a Grande Civilizao, a Terra Prometida, onde correr leite e mel. Ser uma riqueza inconcebvel. E essas coisas acontecero na terceira gerao."

    Quando li essas palavras nas suas Memrias Biogrficas, no dei-xei de me emocionar. Meditei sobre a Grande Civilizao que iria surgir entre os paralelos 15 e 20 - justamente a rea em que estava constru-indo, naquele momento, Braslia. O lago, da viso do santo, j figurava no Plano Piloto do urbanista Lcio Costa. E a Terra Prometida, anunci-ada repetidamente, pela misteriosa voz, ainda no existia de fato, mas j se configurava atravs de um anseio coletivo, que passara a constituir uma aspirao nacional. Ali, "correria leite e mel".

    A viso de Dom Bosco fora, de fato, uma antecipao, uma advertncia proftica sobre o que iria ocorrer no Planalto Central a par-tir de 1956.

    OS TRILHOS DA VELHA ROTINA

    Recordei, ento, a paisagem do local, onde Braslia estava sen-do construda. Em 1894, o Dr. Glaziou dissera dele, em relatrio envia-

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    do ao engenheiro Lus Cruls: "O aspecto das regies at hoje percorri-das de um pas ligeiramente ondulado. A leste, estende-se o belo e grandioso vale que vai se prolongando at aos pequenos montes do rio Parano, ramificando-se, em outros pontos, em todas as direes." E mais adiante: "Essas fontes, como os grandes rios que regam a regio, so protegidas por admirveis capes de mato, aos quais nunca deveria golpear o machado do homem, seno com a maior circunspeco. So magnficos de verdura os pastos, e certamente superiores a todos os que vi no Brasil-Central."

    Contudo, de 1894 a 1956, quase nada mudara na regio. O descampado sem fim l permanecera, tal qual a Natureza o criara. Mas a ideia, posta em germinao pelos Inconfidentes, prosseguira em sua marcha. A proclamao da Repblica com a deposio do velho sbio imperador Pedro II e seu consequente exlio - deu novo alento s espe-ranas dos idealistas. O novo governo logo voltou suas vistas para o an-tigo e sempre procrastinado problema, atravs do Decreto n2 914-A, que instituiu a Constituio Provisria da Repblica, e onde se lia: "Cada uma das antigas provncias formar um Estado, e o Municpio neutro constituir o Distrito Federal, enquanto outra coisa no deliberar o Congresso. Se o Congresso resolver a mudana da capital, escolhido para este fim o territrio mediante o consenso do Estado ou dos Esta-dos de que tiver de desmembrar-se, passar o atual Distrito Federal de per se a constituir um Estado."

    A promessa era vaga. Difusa. Urgia que as palavras formais fossem substitudas por uma proposio concreta. A alterao surgiu por iniciativa do Deputado Lauro Muller, integrante da Comisso de Ju-ristas, num projeto de emenda Constituio, estabelecendo, de forma irretratvel, a transferncia da capital para o Planalto Central do Brasil. O assunto apaixonou os deputados e foram acalorados os debates. Mas a emenda, assinada por Joaquim de Sousa Murta, Rodolfo Miranda, Filipe Schmidt, Lacerda Coutinho, Lauro Muller e mais 83 deputados foi aprovada na sesso de 22 de dezembro de 1890.

    A Constituio de 24 de fevereiro de 1891 ratificou a emenda aprovada, determinando expressamente a mudana da capital, no seu ar-tigo 32: "Fica pertencendo Unio, no Planalto Central da Repblica, uma zona de 14.400 quilmetros quadrados, que ser oportunamente

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    demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal." A localiza-o da nova capital, at ento indefinida, sujeita s imposies das pre-ferncias pessoais, fora, finalmente, fixada, situando-se na regio ade-quada e que, por coincidncia, era a mesma da profecia de Dom Bosco.

    Decidido o local, chegara a hora das resolues prticas. No dia 12 de maio de 1892, o chefe do governo, Marechal Floriano Peixoto, em sua Mensagem ao Congresso Nacional, por ocasio da abertura da segunda sesso ordinria, assim se expressou: "Reputando de NECESSIDADE INADIVEL a mudana da capital da Unio, o Go-verno trata de fazer seguir para o Planalto Central a Comisso que deve proceder demarcao da rea e fazer sobre a zona os indispensveis estudos." Completando a resoluo presidencial, o ministro da Agricul-tura de ento, Anto Gonalves de Farias, organizou a Comisso Explo-radora do Planalto Central do Brasil, confiando sua direo ao Dr. Lus Cruls, que, na poca, desempenhava as funes de diretor do Observa-trio Astronmico do Rio de Janeiro. Quase simultaneamente, a Cmara dos Deputados havia aprovado a concesso de um crdito, ao Poder Exe-cutivo, no montante de 250 contos, para mandar estudar, escolher e de-marcar, no Planalto Central da Repblica, a superfcie - j referida - de 14.400 quilmetros quadrados, para nela ser estabelecida a nova capital.

    A ideia, aos poucos, ia tomando corpo. No dia 9 de julho de 1892, a chamada Misso Cruls seguiu para o Planalto Central. O itiner-rio a que obedeceu foi tpico da caracterstica escassez de transportes do interior do Brasil. A Misso deixou o Rio, seguindo para Uberaba, pon-to terminal da Estrada de Ferro Mogiana. De Uberaba, a cavalo, seus membros se dirigiram para Pirenpolis, onde se dividiram em dois gru-pos: um deveria seguir direto at Fonseca, e o outro, que atingiria tam-bm Formosa, seguiria, linha quebrada, passando pela cidade de Santa Luzia, hoje Luzinia.

    No deixava de ser complexa a tarefa que caberia Misso Cruls, salientando-se, entre suas numerosas incumbncias, as seguintes: a) demarcao dos j referidos 14.400 quilmetros quadrados, limitada por dois arcos de paralelo e dois arcos de meridiano; b) levantamento dos itinerrios percorridos, numa extenso de cerca de 4.000 quilme-tros; c) levantamento das lagoas Feia, Formosa e Mestre dArmas; d) medio das despesas ou dbitos fluviais do Corumb e Congonhas, de

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    Ouro, Saia-Velha, Descoberto, Alegado, Santa Maria, Areia, Palmital, Mesquita, Santana, Papuda, Parano, Mestre d'Armas, Pipiripau, Preto e Jardim; e) declinao magntica em Pirenpolis, Entre-Rios, Santa Lu-zia, Formosa e Gois; f) diferena de longitude, pelo telgrafo eltrico, entre Gois, Uberaba, So Paulo e a Capital Federal; g) estudo de geolo-gia da regio; h) coleo mineralgica e botnica da mesma regio; e i) plantas das cidades de Catalo, Pirenpolis, Santa Luzia, Formosa, Gois e Mestre d'Armas.

    Resumindo suas observaes do local, Lus Cruls apresentou dois relatrios ao governo - em 1893 e 1894 - e, em ambos, existiam ensinamentos da mais alta expresso, trazendo a lume facetas at ento desconhecidas do Planalto Central - sua topografia, suas fontes de ener-gia, a fertilidade do seu solo, a abundncia de suas guas, sua geologia, sua fauna e flora, a salubridade da regio, seu clima, e, por fim, sua bele-za panormica.

    De fato, a ideia que se tinha do Planalto Central era bem dife-rente da revelada por Lus Cruls. Seu ltimo relatrio embora ainda hoje pouco conhecido, pois no teve a divulgao que merecia era conclusivo sobre o acerto da localizao da capital no Planalto Central. Referiu-se excelncia do clima, que era salubre, no exigindo esforo de adaptao por parte do emigrante europeu, que iria encontrar ali con-dies climticas anlogas s que ofereciam as regies mais salubres da zona temperada europeia. Abordou, em seguida, a importncia de se proceder mudana da capital para aquela regio, perguntando: "No conviria, pois, procurar dar quele imenso territrio a vida que lhe fal-ta?" Num desses relatrios, Lus Cruls referia-se ao perigo de "no se sair dos trilhos da velha rotina", caso se quisesse, de fato, proceder-se mudana da capital.

    ASSENTAMENTO DA PEDRA FUNDAMENTAL

    A despeito do carter oficial do relatrio de Lus Cruls, suas sugestes influenciaram alguns setores, e outros espritos passaram a se interessar pela ideia da mudana. Houve at quem propusesse construir a cidade sem nus para o governo, desde que este concedesse aos cons-

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    trutores prioridade, por noventa anos, na explorao dos servios pbli-cos, como gua, esgoto, luz, transportes e outros do mesmo gnero.

    Esse entusiasmo teve, porm, a existncia de um meteoro. Brilhou. Acendeu imaginaes. E, assim como surgiu, desapareceu. Du-rante o governo de Prudente de Morais, por falta de verba, foi dissolvi-da a Misso Cruls e o assunto "mudana da capital" s era tratado espo-radicamente por um nmero reduzido de "crentes". Em face disso a ideia permanecera viva, mas como uma brasa que ardesse, sem fagulhas, sob um monto de cinzas. Volta e meia, era discutida na imprensa e, en-tre a aluvio de palavras de descrena, sempre surgia algum que a de-fendesse. Assim aconteceu em 1919, quando o Senador Chermont apre-sentou um projeto de lei Cmara Alta, autorizando o governo a lanar a pedra fundamental do Palcio do Congresso, por ocasio das solenida-des comemorativas do centenrio da Independncia. O Senador Rego Monteiro, seu colega de representao, opinou pela aprovao do proje-to, fazendo o seguinte comentrio: "A mudana da Capital da Repblica est decretada por um dispositivo insofismvel do nosso pacto funda-mental: nenhuma discusso permitida em torno da necessidade dessa medida. A Constituio a consagrou. quanto basta para que no seja suscetvel de impugnao."

    Reforando a resoluo senatorial, acima referida, o Presiden-te Epitcio Pessoa assinou, no dia 18 de janeiro de 1922, um decreto le-gislativo, determinando que o "Poder Executivo tomar as necessrias providncias para que, no dia 7 de setembro de 1922, seja colocada, no ponto mais apropriado da zona a que se refere o artigo anterior, a pedra fundamental da futura cidade, que ser a Capital da Unio".

    Como se v, prosseguia o debate, com projetos de lei e at decretos presidenciais. De qualquer forma, um passo a mais havia sido dado. O Liceu de Artes e Ofcios de So Paulo fundiu a placa que seria colocada no Quadriltero Cruls no dia 6 de setembro de 1922. Coube ao diretor da Estrada de Ferro de Gois, o engenheiro Ernesto Balduno de Almeida, realizar essa tarefa em nome do presidente da Repblica. Assim, na data comemorativa da nossa Independncia, sobre um marco, ele colocou a placa, que continha os seguintes dizeres: "Sendo Presiden-te da Repblica o Senhor Doutor Epitcio da Silva Pessoa, em cumpri-mento ao dispositivo do Decreto n2 4.494, de 18 de janeiro de 1922, foi

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    aqui colocada, em 7 de setembro de 1922, ao meio-dia, a pedra funda-mental da futura Capital Federal dos Estados Unidos do Brasil."

    A cerimnia obedeceu ao ritual de praxe, caracterstico das solenidades dessa natureza: presena de diversas autoridades, discursos e hasteamento da Bandeira Nacional, sendo que esta ltima foi doada ao Museu do Ipiranga de So Paulo. A pedra fundamental ainda se encon-tra no mesmo local em que a colocaram, perto da cidade de Planaltina, no permetro do atual Distrito Federal, dentro do Quadriltero Cruls. Mas os anos passaram, e tudo foi esquecido.

    A Constituio em vigor, porm, era a mesma e o dispositivo, referente mudana, permanecia encravado no seu texto, sem que os governos, que vieram em seguida, tomassem qualquer providncia no sentido de dar-lhe execuo. A Carta Magna de 1891 seguiu-se a de 1934, que no negligenciou a questo, reavivando o problema no Artigo 4a das suas Disposies Transitrias: "Ser transferida a Capital da Unio para um ponto central do Brasil. O Presidente da Repblica, logo que esta Constituio entrar em vigor, nomear uma Comisso que, re-cebendo instrues do Governo, proceder aos estudos das vrias loca-lidades adequadas instalao da Capital."

    A ideia, ao invs de caminhar, havia retrocedido. Antes j es-tava determinado o local, que fora at assinalado com a afixao de uma placa, e, de repente, tudo voltara estaca zero, com vaga referncia es-colha de uma entre "as vrias localidades", como se o problema j no estivesse suficientemente equacionado.

    Em 1937, Getlio Vargas, que assumira o poder como chefe da Revoluo de 1930, instituiu o chamado Estado Novo, em cuja Constituio outorgada s vagamente se referia ao problema. O legisla-dor parecia no alimentar qualquer entusiasmo pela antiga cruzada, mui-to embora essa atitude se chocasse, mais tarde, com o propsito, anun-ciado pelo chefe do governo, de realizar o que se denominava, ento, A Marcha para o Oeste. Em 1940, ao lanar esse movimento, Getlio Var-gas declarara em discurso, no dia 7 de agosto, em Goinia: "O vosso planalto o miradouro do Brasil. Torna-se imperioso localizar no cen-tro geogrfico do pas poderosas foras capazes de irradiar e garantir a nossa expanso futura." A frase no consubstanciava um propsito cla-ro de que a transferncia devesse ser feita. Falava-se na localizao de

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    "foras poderosas" no centro geogrfico do pas. Mas que foras seriam essas? Na realidade, a concluso a que se chega que os lderes do Esta-do Novo nunca tiveram inteno de tomar qualquer providncia, ten-dente a retirar do Rio a sede do governo.

    A COMISSO POLI C O E L H O

    Entretanto, quando menos se esperava, a ideia ressurgiu com novo e desusado alento. Isso aconteceu em 1946, em face da elaborao da Constituio da chamada fase de redemocratizao do Brasil. Nas suas Disposies Transitrias figurava esta decisiva determinao: "A Capital da Unio ser transferida para o Planalto Central do Pas. l 2 -Promulgado este Ato, o Presidente da Repblica, dentro de sessenta dias, nomear uma comisso de tcnicos de reconhecido valor para pro-ceder ao estudo da localidade da nova capital. 2- - O estudo previs-to no pargrafo antecedente ser encaminhado ao Congresso Nacio-nal, que deliberar a respeito, em lei especial, e estabelecer o prazo para o incio da delimitao da rea a ser incorporada ao Domnio da Unio. 3 2 - Findos os trabalhos demarcatrios, o Congresso Nacio-nal resolver sobre a data da mudana da capital. 42 - Efetuada a transferncia, o atual Distrito Federal passar a constituir o Estado da Guanabara."

    A determinao era expressa. No s estabelecia um prazo para a nomeao da comisso, que deveria demarcar o terreno, mas, igualmente, legislava sobre o futuro do Rio de Janeiro, que passaria a constituir um novo Estado. Na poca, o General Eurico Gaspar Dutra era o presidente da Repblica. Sendo militar, e, portanto, afeito ao pron-to cumprimento das leis, no aguardou que se expirasse o prazo, nome-ando logo apenas transcorridos sessenta dias - a Comisso de Estu-dos Para a Localizao da Nova Capital. Esse grupo de trabalho, chefia-do pelo General Poli Coelho, era integrado por agrnomos, engenhei-ros, gegrafos, gelogos, higienistas, mdicos e militares.

    J eram bem mais favorveis as condies para a realizao daquele trabalho do que as que haviam prevalecido durante a atividade da Misso Cruls. A nova Comisso no deixou de desempenhar, com a

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    maior eficincia, a tarefa que lhe competia. Deu preferncia ao local de-marcado por Lus Cruls, ampliando-o, porm, para o norte e indicando, finalmente, uma rea irregular de 77.250 quilmetros quadrados. No desdobramento dos estudos da melhor localizao da nova capital, veri-ficaram-se, entretanto, algumas divergncias, com a formao de duas correntes: uma favorvel construo da cidade no Tringulo Mineiro; outra que se mantinha fiel linha histrica, isto , o Planalto Central. Postas em votao as opinies, saiu vitoriosa a soluo histrica, por 7 votos contra 5. No seu relatrio, enviado no dia 22 de julho de 1948 ao Presidente Dutra, o General Poli Coelho deu conta da sua misso, de-clarando, entre outras coisas, o seguinte: "Ampliamos consideravelmen-te essa rea para o norte, sobre a Bacia Amaznica, aproveitando uma srie de trechos fluviais para lhe dar limites demarcados pela Natureza, o que vem simplificar o problema da passagem das terras jurisdio do governo federal."

    Esse relatrio foi enviado pelo Presidente Dutra ao Congres-so, atravs da Mensagem n2 293, de 21 de agosto de 1948, e ali o assun-to permaneceu em discusso durante cinco anos, reavivando-se a mes-ma divergncia que havia dividido a Misso Poli Coelho: o Tringulo Mineiro ou o Planalto Central? Aps to demorado debate, a discusso chegou a termo com a sano, em janeiro de 1953, da Lei n2 1.803, que autorizava o Poder Executivo a realizar estudos definitivos sobre a loca-lizao da nova capital.

    Tanto trabalho para nada. Aps um quinqunio de debates no Congresso, o problema voltava quase sua fase inicial: novos estu-dos da questo da localizao, embora se determinasse que esses tives-sem incio dentro de 60 dias. Coube a Getlio Vargas, que voltara Pre-sidncia da Repblica, trazido pelo voto popular, assinar o Decreto n2 32.976, de 8 de junho de 1953, que criava a Comisso de Localizao da Nova Capital. Esse decreto previa que a Comisso seria constituda de um presidente, nomeado pelo chefe do governo, de um representante de cada ministrio, alm de representantes do Conselho de Segurana Nacional, do Estado de Gois, do IBGE, do DASP e da Fundao Bra-sil Central. O presidente nomeado foi o General Caiado de Castro, que exercia, na poca, as funes de chefe da Casa Militar da Presidncia da Repblica.

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    Um dos primeiros atos do presidente da Comisso - provi-dncia, alis, de alto alcance foi contratar com a Cruzeiro do Sul Aero-fotogrametria o levantamento aerofotogramtrico de todo o chamado Retngulo do Congresso - assim batizado o permetro de 52.000 quil-metros quadrados escolhidos pelo Congresso. Para se ter uma ideia da extenso desse retngulo basta dizer que nele estavam includas as cida-des de Anpolis e Goinia, assim como o centro mineiro de Una. A Cruzeiro completou seu trabalho em alguns meses, pois, j em janeiro de 1954, toda a rea estava aerofotografada.

    Completada essa primeira tarefa, o General Caiado de Castro, ciente de que a firma norte-americana Donald J. Belcher and Associates Incorporated, com sede em Ithaca, Nova Iorque, realizava estudos de pesquisas, baseados na interpretao de fotografias areas, assinou um contrato entre essa empresa e a Comisso do Vale do So Francisco, por delegao da Comisso de Localizao da Nova Capital Federal. De acordo com o contrato, a firma norte-americana se comprometeu a apresentar, alm dos mapas bsicos, overlays e relatrios especiais sobre cada uma das reas selecionadas, um Relatrio Geral, com todos os da-dos bsicos pertinentes aos vrios stios e acompanhado de modelos em relevo e fotografias oblquas, de forma a permitir um confronto dos atributos de cada stio e proceder, por fim, com o necessrio rigor, es-colha daquele que apresentasse melhores condies para a implantao da nova capital.

    Era da maior responsabilidade como se pode depreender o trabalho que seria levado a efeito pela firma norte-americana. Contu-do, mal assinado o contrato, os norte-americanos procederam a uma impressionante concentrao de esforos. Para os Estados Unidos, fo-ram mandados 540 mosaicos e 18 fotondices, para anlise e interpreta-o. Um grupo de especialistas embarcou para o Brasil para as primeiras observaes, testes e amostragens, com a misso de colher dados no terreno para complementao da fotoanlise. De Ithaca foram enviados para o Rio cpias das aerofotos analisadas e interpretadas e todo o ma-terial necessrio produo das sobrecapas transparentes usadas na apresentao do trabalho, alm da remessa, para o Planalto Central, de jipes, reboques, sondas perfuradoras e outros equipamentos de campo, para uso nos levantamentos e explorao da terra.

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    Entretanto, antes de a firma entregar o resultado de seus estu-dos, o General Caiado de Castro deixava a presidncia da Comisso, sendo substitudo pelo Marechal Jos Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. A substituio se dera em face do suicdio de Getlio Vargas, que alterou, por completo, a fisionomia poltica do Brasil. A UDN, que representava a oposio e sempre fora minoritria no Congresso, passara a liderar o novo governo, j que, com a ascenso do Vice-Presidente Caf Filho Presidn-cia da Repblica, o poder, por vias indiretas, lhe viera s mos. Nessa po-ca, eu era governador de Minas Gerais, mas circulavam rumores de que seria indicado por uma coligao de partidos - o PSD, o PTB e o PR -como candidato sucesso de Getlio Vargas.

    A COMISSO JOS PESSOA

    No desejo recordar aqui j que o assunto central deste li-vro a construo de Braslia o que ocorreu no Brasil para que eu, di-retamente eleito pelo povo, tomasse posse na chefia do governo.

    O Marechal Jos Pessoa, nomeado por Caf Filho para a pre-sidncia da Comisso de Localizao da Nova Capital, assumiu logo o seu cargo e decidiu fazer uma viagem ao Planalto Central, a fim de "sen-tir na prpria carne" a extenso das responsabilidades que haviam pas-sado a lhe pesar nos ombros. Essa viagem foi realizada em fevereiro de 1955, poca em que j eram mais ou menos conhecidos os estudos leva-dos a efeito pela firma norte-americana Donald J. Belcher, de Nova Ior-que. A empresa, aps a realizao de pesquisas preliminares, havia indi-cado os cinco melhores locais, de 1.000 quilmetros quadrados, dentro do chamado Retngulo do Congresso, para, entre eles, proceder-se es-colha definitiva do stio ideal para a construo da capital.

    A iniciativa da viagem do marechal ao Planalto no deixava de ser sensata. Alm de conhecer de visu o local, teria uma impresso global da regio, analisando o curso dos rios, observando a orografia, examinando a flora, enfim, tendo um conhecimento exato, pessoal, ob-jetivo de toda a zona planaltina. A excurso - como seria de esperar, dada a ausncia de vias de comunicao foi a mais penosa possvel. O marechal viajou, de avio, do Rio at Pirapora; desta cidade seguiu para

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    Formosa, j em Gois, onde pernoitou. Ali, teve a oportunidade de visi-tar o local, de onde todas as guas cadas se distribuem indistintamente para os trs grandes sistemas fluviais do Brasil: o do Amazonas, o do So Francisco e o do Paran-Paraguai. No dia seguinte, decolou para Planaltina e, ali, tomando um jipe, rumou para o local em que, segundo todas as indicaes, seria construda a nova capital. Depois de realizar vrias incurses atravs do chamado cerrado - vegetao mirrada, retor-cida, caracterstica da regio - , fez o jipe dirigir-se para o ponto mais elevado da regio, denominado Stio Castanho, com 1.172 metros de al-titude.

    Apesar da beleza do cenrio, principalmente no Stio Casta-nho, no se chegou a uma deciso sobre o local onde deveria ser erguida a nova cidade. As concluses tcnicas teriam de prevalecer sobre as im-presses pessoais. Da a razo por que o Marechal Jos Pessoa resolveu aguardar o que diria o relatrio da Donald J. Belcher, o qual lhe foi en-tregue, com a indispensvel presteza, em fins de fevereiro de 1955, me-nos de um ms aps a sua visita ao Planalto. Com base nesse relatrio, que um repositrio de ensinamentos sobre a rea geral do Retngulo do Congresso e particularmente sobre os stios escolhidos inicialmente como adequados para a construo da cidade, foi que a Comisso de Localizao da Nova Capital, aps comparao minuciosa das vanta-gens apresentadas por todos, pde fazer sua escolha definitiva. Isso se deu a 15 de abril de 1955, e o stio preferido foi o denominado Casta-nho, assim chamado porque no mapa, apresentado pela firma nor-te-americana, cada um dos cinco stios havia sido pintado numa cor di-ferente verde, vermelho, azul, amarelo e castanho.

    H uma frase no Relatrio Belcher que deve ser ressaltada. Declarava esse documento, na sua Introduo: "O corpo de planeja-mento da firma reconheceu, atravs do trabalho, que o crescimento da cidade se processar em estgios." Em vista disso, no seria prtico nem exequvel planejar prematuras facilidades para a capital que viessem a sa-tisfazer suas demandas finais. "O crescimento da cidade se processar em estgios..." eis a sugesto, que no dever ser esquecida. Foi por causa dessa recomendao, adotada integralmente pelo Marechal Jos Pessoa, que surgiu a primeira e ltima divergncia entre ns dois - eu, sendo o Presidente da Repblica, e ele, ocupando o cargo de chefe da Comisso

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    de Localizao da Nova Capital , da qual resultou seu afastamento do cargo em fins de maio de 1956.

    Durante a gesto do marechal algumas providncias foram tomadas, visando a fazer-se um levantamento racional da regio, antes que pudesse ser realizada qualquer obra. Logo que se tomara a resolu-o sobre o local, onde deveria ser construda a cidade, o marechal pro-curara o Presidente Caf Filho e, aps dar-lhe conta das atividades da Comisso que presidia, solicitou-lhe que assinasse um decreto, declaran-do de utilidade pblica, para fins de desapropriao, toda a rea escolhi-da, a fim de se evitar que, em face da prxima construo da capital, ali tivesse lugar desenfreada explorao imobiliria. Caf Filho, aps ouvir o Marechal Jos Pessoa, convocou o consultor-geral da Repblica para saber a opinio dessa alta autoridade sobre to relevante questo.

    O marechal aguardou, com pacincia, a providncia do chefe do governo. Entretanto, o que obteve foi a mais penosa desiluso. No dia 28 de abril, voltando ao palcio, j que Caf Filho at ento nada lhe comunicara, ouviu do prprio presidente a declarao de que, refletindo sobre o assunto, chegara concluso de que no lhe era possvel baixar qualquer, decreto, "declarando de utilidade pblica, para fins de desa-propriao, o permetro do futuro Distrito Federal".

    Coube essa tarefa - de to grande importncia para a construo de Braslia - ao governador de Gois, Jos Ludovico de Almeida, que assi-nou o respectivo decreto no dia 30 daquele mesmo ms de abril dois dias, portanto, aps a negativa do chefe do governo da Repblica.

  • Estudos realizados em 1955

    ^ ^ _ ^ r Marechal Jos Pessoa, no mesmo dia em que a Co-misso aprovou a seleo da rea definitiva onde seria construda a capi-tal, designou uma subcomisso, com a incumbncia de proceder aos es-tudos para a demarcao dos limites do Distrito Federal. Esse rgo era integrado pelos seguintes engenheiros: Alrio de Matos, Aureliano Lus de Farias e Lus Eugnio de Freitas Abreu estes dois ltimos oficiais superiores do Servio Geogrfico do Exrcito. Essa subcomisso con-cluiu sua tarefa no exguo perodo de onze dias.

    Paralelamente s providncias, tomadas pelo Marechal Jos Pessoa, sucederam-se as medidas administrativas do governo goiano, tendentes a facilitar a ao do Governo Federal, quando este se decidis-se a promover, como determinava a Constituio, a transferncia da ca-pital. De fato, Gois seria o melhor beneficirio daquela transferncia da sede da administrao. Ao invs de permanecer no isolamento, em que sempre vivera, distanciado de tudo e de todos j que antes da constru-o de Braslia levavam-se trs meses para se chegar ao Rio , Gois passaria a ser quase como que o centro administrativo do pas, ligado aos demais Estados por um extenso sistema areo e rodovirio. Alguns senadores goianos, que foram meus colegas na Cmara Alta, con-taram-me que, quando estudantes, nem as frias podiam passar em casa. As viagens eram feitas em grupos verdadeiras caravanas, no estilo do oeste

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    norte-americano - , passando-se por Uberlndia e Uberaba, no Tringu-lo Mineiro, Ribeiro Preto, no Estado de So Paulo, e s dali, ento, que se viajava com conforto, at o Rio. Como o percurso consumia trs meses, uma viagem, ida e volta, tomava metade do ano, e da a razo por que no lhes era permitido o gozo das frias anuais junto s suas famlias.

    Em 1955 - poca em que ocorreram os fatos aos quais esta-mos nos referindo a situao evolura sensivelmente para melhor, com o advento da era aeroviria. Mesmo assim, ainda continuava sendo mui-to precria a situao de Gois, no que diz respeito s vias de comunica-o. Era compreensvel, pois, que os goianos tudo fizessem para pro-mover a transferncia da capital e, nesse sentido, chegassem mesmo a antecipar o Governo Federal em providncias administrativas, que se encontrassem na esfera das atribuies estaduais.

    Assim que, em outubro de 1955, o governo goiano criou uma Comisso de Cooperao para a Mudana da Capital Federal, qual caberia, posteriormente, a responsabilidade pelas primeiras e princi-pais desapropriaes, realizadas a baixo preo, na rea do futuro Distri-to Federal, incluindo-se, entre elas, a mais importante de todas, pois os quase quatro mil alqueires desapropriados compreendiam a rea situada entre os rios Bananal e Torto, onde iriam ser edificados os principais prdios da nova cidade.

    Quando assumi a Presidncia da Repblica, a antiga Comis-so de Localizao da Nova Capital j havia mudado de nome. Atravs do Decreto n2 38.281, de 9 de dezembro de 1955, passara a se chamar Comisso de Planejamento da Construo e da Mudana da Capital Fe-deral. Trocava-se a designao, mas nenhuma obra era realizada, en-quanto a prpria capital, de que tanto se falava, nem ao menos nome ti-nha; o Marechal Jos Pessoa, preocupado com a situao, escolheu, por iniciativa prpria, um nome: "Vera Cruz".

    Tratar-se-ia de uma recorrncia ao primeiro nome da terra brasileira? Suponho que a denominao se vincule, de alguma forma, a outra iniciativa do marechal, relacionada com a sua formao religiosa. Trata-se da ereo de uma cruz de madeira no denominado Stio Casta-nho - o local mais alto de Braslia - , onde se encontra desde maio de 1955, e, hoje, conhecida como Cruzeiro. Essa cruz constitui a verda-

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    deira pedra fundamental da cidade. , sem dvida, seu marco histrico, e muito mais expressivo do que a placa, fundida no Liceu de Artes e Ofcios de So Paulo, e colocada perto da cidade de Planaltina, dentro do Quadriltero Cruls. Mais tarde, em 1957, j sendo eu o presidente da Repblica, ali foi rezada a primeira missa, oficiada por D. Carlos Carme-lo de Vasconcelos Mota, arcebispo de So Paulo.

    Quando assumi a Presidncia da Repblica, s o local havia sido escolhido. Tudo mais estava por se fazer no Planalto Central, que eu to bem conhecia. Durante a campanha eleitoral, sobrevoara-o in-meras vezes e, lanando o olhar atravs da vigia de bordo, deixava-me enlevar pela beleza panormica do lugar.

    Tudo era grande na regio. A plancie, infinita. Um carrascal que parecia no ter fim. O cerrado, cobrindo a terra vermelha, s inter-rompida pelos cursos d'gua, que corriam em diferentes direes. Aqui e ali surgiam tufos densos de rvores maiores, principalmente nas proxi-midades dos cursos d'gua, e cuja cor, de um verde mais escuro, con-trastava, de forma chocante, com a homogeneidade do cinzento sujo do cerrado.

    A impresso que eu tinha, contemplando aquele cenrio gran-dioso, mas rfo de tudo, era idntica que havia experimentado por ocasio de uma viagem que fizera cidade de Iturama, na ponta extrema do Tringulo Mineiro, logo que assumi o governo de Minas Gerais. A diferena entre os dois cenrios era apenas de natureza humana. Em Iturama, havia ruas, casas, igrejas, gente morando sob os telhados que ameaavam ruir. No Planalto Central, no se via vivalma. Era a terra e o cerrado. E, sobre ambos, o cu mais lindo do mundo. Entretanto, o es1 petculo de desolao nos dois locais era o mesmo. Pedaos perdidos do Brasil, sacrificados pela misria e falta de transportes. Da a execuo do binmio Energia e Transportes, que havia consubstanciado o meu programa administrativo no governo de Minas. Contemplando a desola-o, o isolamento, os imensos espaos vazios do Brasil-Central e da Amaznia que se estendiam por dois teros do territrio nacional concebi o Plano de Metas, o qual, se executado, como de fato iria fa-z-lo integralmente, no s promoveria nossa redeno econmica, como igualmente realizaria o milagre de colocar o Brasil em condio de tornar-se dono do seu prprio destino.

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    N A PREFEITURA D E B E L O H O R I Z O N T E

    Embora no fosse prolongada minha vida pblica - deputado em duas legislaturas, prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais , no me sentia temeroso da enorme responsabilidade que pas-sara a pesar nos meus ombros ao assumir a Presidncia. No exerccio dos cargos, que antecederam a chefia do governo nacional, no s havia realizado grandes obras, mas as realizara de maneira diferente, derruban-do muitos tabus que, desde a Proclamao da Repblica, prevaleciam nos crculos das atividades pblicas. Posso dizer, sem vaidade, que criei mesmo um novo estilo de administrao, tanto pela audcia dos meus empreendimentos como pela velocidade com que os levei a bom termo. Outro fator deve ser ressaltado, no julgamento das obras que realizei: a preocupao de um planejamento anterior, elaborado por uma equipe de tcnicos. E, por fim, pairando sobre tudo, a preocupao - indita na poca de ser, eu prprio, o fiscal, s vezes exigente em excesso, dos servios em andamento.

    Da o elevado ndice de produtividade das administraes de que fui responsvel, culminando com o verdadeiro recorde da constru-o de Braslia, erguida do nada e inaugurada - j uma metrpole com-pleta - no exguo perodo de trs anos e dez meses.

    Quando prefeito de Belo Horizonte remodelei a cidade, de fond en comble, reestruturando-a praticamente em todos os setores urba-nos. Na poca, Belo Horizonte era uma "cidade de funcionrios" -como geralmente a designavam - necessitada de tudo. Comecei por mo-dernizar-lhe o calamento, substituindo os obsoletos paraleleppedos e o denominado p-de-moleque - pedras fincadas no cho - por pistas de rolamento asfltico. Realizei esse trabalho minha moda: descalando de uma s vez a principal avenida da cidade - a Avenida Afonso Pena -e transformando-a, da noite para o dia, numa enorme vala, no interior da qual milhares de operrios trabalhavam, assentando nova rede de esgotos, substituindo a canalizao de gua, a fiao telefnica e construindo estaes de recalque.

    Antes mesmo de terminados os trabalhos na Avenida Afonso Pena, remodelei o Parque Municipal. Quase paralelamente, descalcei, de uma vez s, e de ponta a ponta, o bairro dos Funcionrios, asfaltando-o

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    todo. Rasguei novas avenidas e prolonguei as existentes, como aconte-ceu com a Avenida Amazonas, que levei at a Gameleira. Inaugurei a Avenida do Contorno, iniciada em administraes anteriores. Na poca a guerra impusera a decretao de drstico racionamento de gasolina e, em consequncia, os caminhes pararam e os tratores ainda no existiam. Decidi, ento, organizar um servio auxiliar, a ser levado a efeito em carroas de burro. Anunciei que a Prefeitura estava contratando carro-as, e logo se apresentaram os primeiros proprietrios desses obsoletos veculos. A notcia, circulando nos subrbios, fez com que a iniciativa tomasse vulto. Uma semana mais tarde, j estavam contratadas 10 mil carroas, com seus respectivos burros, e toda essa frota foi posta a trabalhar no servio de prolongamento da Avenida Amazonas, o que atraiu, desde logo, a curiosidade pblica. Os burrinhos, particularmente, eram alvo da ateno de todos. Trabalhavam com mansido, arrastando suas carroas, sem que algum precisasse tang-los. Interpelado por um jornalista, defini, pilheriando, o valioso trabalho que aqueles humildes animais vinham prestando: "So os dez mil servidores mais eficientes de que disponho na Prefeitura."

    Em junho de 1940 um ms e meio aps minha posse , o famoso urbanista francs, Professor Agache, esteve em Belo Horizonte a convite meu. Desejava que visse a represa da Pampulha um recanto turstico que pretendia construir e sugerisse um plano urbanstico que permitisse sua integrao no conjunto urbano. Agache se extasiou com a beleza da capital. Julgou o centro urbano perfeito, mas fez restries quanto zona suburbana, que se desenvolvia desordenadamente. E concluiu: "Esta cidade um paradoxo."

    De fato, Belo Horizonte crescera vertiginosamente e, en-quanto o seu centro ficara enquadrado no plano da construo elabo-rado pelo Engenheiro Aaro Reis, que promovera a transferncia da capital da antiga Ouro Preto para o ento Curral d'el-Rei - que era um arraial - , os subrbios, extravasando da planta inicial, foram surgindo ao deus-dar, sem fiscalizao nem planejamento. Da a expresso "um paradoxo", do Professor Agache. Desde que assumi o cargo de prefeito, eu estava preocupado com aquela situao e, depois de muito pensar, chegara a uma concluso: Belo Horizonte era servida, no que dizia respeito a vias de comunicao, apenas por estradas de ferro.

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    Mas j havamos entrado na era do automvel, que iria requerer, dentro em breve, uma rede de estradas de rodagem. Impunha-se, pois, a prepa-rao, com antecedncia, dos indispensveis terminais ou "bocas", como eu os denominava , a fim de que, no devido tempo, se proces-sassem, com facilidade, as necessrias conexes.

    A soluo seria o prolongamento das avenidas existentes alm da fronteira do primitivo plano de Aaro Reis, representada pela Aveni-da do Contorno. As estradas de rodagem existentes se assim se podiam chamar os verdadeiros trilhos que ligavam a capital s cidades vizinhas deixavam de ser rodovias e se transformavam em vielas, que eram as ruas dos subrbios, quando atingiam o permetro urbano. Em dois tempos, realizei essas obras, pondo a capital em condies de receber, sem qualquer dificuldade, as grandes rodovias que seriam construdas, quando a era rodoviria passasse a predominar, tambm, em Belo Horizonte.

    Desse modo, realizei obras de utilidade imediata e, igualmen-te, as que visavam ao futuro da cidade. Seria fastidioso recordar o que executei, durante a minha administrao como prefeito. Citarei apenas algumas: extingui a nica favela existente na cidade, a denominada Pe-dreira Prado Lopes; constru o Hospital Municipal; estabeleci uma rede de restaurantes populares para os operrios e humildes funcionrios, os chamados Restaurantes da Cidade; fiz surgir, completamente asfaltadas, as Avenidas Silviano Brando, Pedro II, Francisco S e Teresa Cristina; iniciei a construo do Teatro Municipal, com 3.500 lugares, no interior do Parque Municipal; ampliei o bairro de Lourdes e criei o do Sion e o da Cidade-Jardim; e, por fim, constru o recanto turstico da Pampulha, que, hoje, motivo de curiosidade internacional, e o liguei capital atra-vs de uma avenida, de 50 metros de largura e 11.000 metros de exten-so, que a Avenida da Pampulha. Criei a Escola de Arquitetura, hoje integrada na Universidade, e a Escola de Belas-Artes, para a qual trouxe o grande pintor Guignard, fundador, em Minas, de sua primeira gerao de pintores.

    Quanto Pampulha, propriamente dita, o Professor Agache havia sugerido que promovesse ali a construo de uma cidade-satlite, para servir como centro de abastecimento de Belo Horizonte. Discordei do ilustre urbanista. O que tinha em mente era capitalizar, em benefcio

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    de Belo Horizonte, a beleza daquele recanto, com a formao de um lago artificial, rodeado de residncias de luxo, com casas de diverses que se debruassem sobre a gua.

    Chamei o hoje famoso arquiteto Oscar Niemeyer, que ento iniciava sua atividade profissional, e levei-o ao local, a fim de que tivesse uma ideia do plano que pretendia executar. Ali, expus a preocupao que tinha no esprito: no fundo do vale, o terreno avanava numa sa-lincia, que seria uma espcie de promontrio, quando o lago estivesse concludo; pensava construir naquele ponto um restaurante, debruado sobre a gua; na curva formada pelo morro vizinho talvez pudesse cons-truir uma igreja, sob a invocao de So Francisco o mesmo patrono do velho templo de Diamantina, no interior do qual fora sepultado meu pai; ao longo das margens do futuro lago, outros edifcios poderiam ser construdos, arrematando o conjunto arquitetnico e imprimindo-lhe a indispensvel unidade.

    Oscar Niemeyer entregou-me, no prazo estipulado, o projeto definitivo da Pampulha. Era um conjunto arquitetnico, integrado por quatro unidades: o Iate Golf Clube, o Cassino, a Casa de Baile e a Igreja, sendo que a represa, a ser erguida, seria contornada por uma grande avenida de dezoito quilmetros. Pus mos obra e, em pouco tempo, tudo estava concludo. A Pampulha, considerada em conjunto, repre-sentou, na poca, uma verdadeira revoluo artstica. Constru uma re-presa, que armazena vinte milhes de metros cbicos de gua, e decorei suas margens, erguendo as quatro unidades arquitetnicas projetadas por Niemeyer. Tudo moderno, novo, no concebido por qualquer arquiteto. Depois, chamei o pintor Cndido Portinari e o escultor Ceschiatti e os incumbi da decorao da igrejinha de So Francisco.

    A IGREJINHA DA PAMPULHA

    Em relao ao trabalho de Portinari, houve um acidente que merece ser ressaltado. O grande pintor desenhara os azulejos da parte externa da igrejinha, realizando, de forma admirvel, os poemas pictri-cos, que consubstanciavam uma Via-Sacra, e que se distribuam, a espa-os, pelas paredes internas do templo.

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    Quando todo aquele trabalho j se encontrava no seu lugar -com as telas da Via-Sacra se sucedendo ao longo das paredes da peque-na nave , o escultor Ceschiatti surgira com o Batistrio ostentando a Tentao de Eva e Sua Expulso do Paraso um bronze magnfico, impreg-nado de poesia, que nada ficava a dever ao que Niemeyer e Portinari ha-viam realizado.

    A igrejinha da Pampulha estava terminada. Teve lugar, ento, a romaria de intelectuais, jornalistas, estrangeiros ilustres, escritores e homens do povo que iam admirar a concepo nova de um local reser-vado meditao religiosa. E havia razo para todo esse interesse. Quem entrava na igrejinha, aps a emoo provocada pelo Batistrio, o bronze de Ceschiatti e a sucesso de telas que compunham a Via-Sacra, extasiava-se, por fim, em face da doura do So Francisco de Assis, pin-tado por Portinari, atrs do altar. O mural inteiro refletia misticismo - o roxo do fundo; a postura humilde do santo; seu olhar envolvente; o gesto manso e acolhedor em relao ao co que lhe seguia os passos.

    Portinari no utilizou o lobo - tradicional alvo de afeio do poverello de Assis - para simbolizar a identificao do santo com os ani-mais. Como o lobo no um animal popular no Brasil, o irmo lobo foi substitudo pelo irmo co e, ao fazer essa transposio, valeu-se de um cachorro bem brasileiro, um vira-lata de rua. Como Pampulha logo se transformara em centro turstico, os que ali iam levavam a notcia da sua beleza aos amigos e conhecidos, fazendo com que, dentro de pouco tempo, ela se tornasse motivo de grande interesse para a imprensa nacional e estrangeira.

    Como era natural, as opinies variavam, j que se tratava de obra de uma nova feio artstica. Existiam os que consideravam a Pam-pulha a mais audaciosa experincia arquitetnica at ento realizada no mundo. Mas no escasseavam, por outro lado, os espritos que a conde-navam, considerando tudo aquilo uma experincia infeliz. Entretanto, de todas as unidades arquitetnicas, construdas naquele recanto, a que mais sofreu foi, incontestavelmente, a linda igrejinha de So Francisco. A campanha, que se desencadeou contra ela, foi promovida, principal-mente, pelo arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antonio Cabral.

    Recordarei, em palavras sucintas, o que foi essa campanha. Concluda a igrejinha, seria natural que desejasse v-la frequentada, no

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    somente por turistas, mas, principalmente, por fiis. Nesse sentido, en-trei em contato com o arcebispo, a fim de tentar que, sob a proteo desse alto prelado, ela pudesse desempenhar suas funes como casa de Deus.

    Ao conversar com D. Antnio Cabral, percebi que meu gesto no fora bem compreendido. Interpretei sua atitude como um reflexo da controvrsia que se estabelecera no pas sobre o verdadeiro valor ar-tstico da igrejinha. Convidei-o, ento, para ir comigo at Pampulha, e a visita foi combinada para o dia seguinte.

    Quando ali chegamos, D. Cabral sentiu-se deslumbrado com o que vira. A gua tranquila do lago. O renque de coqueiros-anes, circun-dando o vale. A forma bizarra dos edifcios, contrastando com o barroco da paisagem. Enfim, a poesia de que tudo estava impregnado. D. Cabral no se conteve: "De fato, a Pampulha honra a sua administrao, Sr. Pre-feito." Aquela atitude animou-me, e alterou minha expectativa pessimista em relao ao que pudesse ser sua opinio sobre a igrejinha.

    Entretanto, quando ali penetramos, D. Cabral contemplou o mural de So Francisco e tornou-se, subitamente, sombrio. Ignorou o Batistrio, a Via-Sacra, o bronze de Ceschiatti, para concentrar-se no exame da figura daquele suave So Francisco, que irradiava tanto misti-cismo. Voltando-se, ento, para mim, extravasou sua indignao: "Um cachorro atrs do altar, Sr. Prefeito! E inconcebvel!"

    Expliquei que se tratava de uma concepo revolucionria do artista: em vez do lobo, um cachorro humilde, bem brasileiro, que dei-xava transparecer, atravs de toda a sua figura, uma comovente expres-so de fidelidade ao santo. D. Cabral, porm, no pde conter sua indig-nao: "Um cachorro atrs do altar, Sr. Prefeito... Isto um escrnio Religio!" Despedindo-se de mim ali mesmo, tomou o carro, retornan-do a Belo Horizonte.

    A hostilidade de D. Cabral no se restringira, porm, des-cortesia com que me tratara durante aquela visita. Fora alm: negara-se publicamente a designar um padre para dizer missa na igrejinha. Alm disso, fizera declaraes imprensa, condenando o templo, que julgava imprprio para os servios do culto. A luta, em que tive de me empe-nhar, para fazer cessar aquela perseguio, prolongou-se por 17 anos. S em 1959, depois do afastamento de D. Cabral e da designao de D.

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    Jos de Resende Costa para o arcebispado de Belo Horizonte, que o problema pde ser resolvido.

    Nessa ocasio, estava no penltimo ano do meu mandato de presidente da Repblica. Logo aps a investidura de D. Jos de Resende Costa, enviei-lhe um telegrama solicitando-lhe procurar-me no Palcio Laranjeiras. No dia seguinte, j o arcebispo se encontrava no Rio, e logo nos avistamos. Expliquei-lhe o motivo por que desejava falar-lhe. D. Resende Costa mostrou-se profundamente compreensivo. Disse-me que no haveria qualquer dificuldade na sagrao da igrejinha, mas que, levando em conta a hierarquia eclesistica, solicitava-me vinte e quatro horas para me dar uma palavra definitiva a respeito.

    Antes de findo o prazo, D. Resende Costa procurou-me para dizer que tudo havia sido solucionado. A igreja seria sagrada e um padre deveria ser designado para ali oficiar missa. Aventou-se, ento, a ideia de uma doao do templo Mitra Arquidiocesana. Depois desse encontro, tomei as providncias necessrias para que tudo se fizesse de acordo com as sugestes do ilustre arcebispo. O Vereador Celso Melo Azevedo apresentou um projeto, na cmara Municipal de Belo Horizonte, autori-zando a doao da igreja Mitra, e a proposio no teve dificuldade de ser aprovada. Combinou-se, ento, a data da sagrao - 11 de abril de 1959 - e, durante a solenidade, o prefeito de Belo Horizonte, Amintas de Barros, assinaria o termo de transferncia da igreja para a Mitra Arquidiocesana.

    O espetculo que, no dia 11 de abril, teve lugar na Pampulha foi, de fato, inesquecvel. O povo de Belo Horizonte compareceu em massa, estando presentes mais de 20 mil pessoas, inclusive grande n-mero de intelectuais e artistas.

    Na solenidade do ambiente, ocorreu um fato que no deixou de me impressionar. Foi um fato simples, quase inexplicvel, e s com-preensvel, levando-se em conta a situao especial da Pampulha - um bairro novo, puramente residencial e afastado do centro urbano. Quan-do D. Resende Costa procedia elevao do Santssimo, um cachorro, vindo no se sabe de onde, penetrou na igreja, e, atravessando a peque-na nave, foi se postar bem em frente do altar, justamente onde eu me encontrava, ladeado pelas mais altas autoridades do Estado. Era um ca-chorro amarelo, com uma ferida no dorso. Imvel, ao meu lado, ergueu

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    a cabea, como se observasse o ambiente. Em seguida, talvez tocado pela msica do rgo que se fazia ouvir, assentou-se no cho, com a ca-bea sobre as patas dianteiras. Conservou-se quieto durante algum tempo. Mesmo deitado, percebia-se que tinha os olhos postos no seu irmo de raa, que se destacava na parede, ao lado da imagem de So Francisco.

    Foi uma cena tocante. O pobre animal, perdido no meio da multido, observando, com interesse, uma contrafao sua, concebida por Portinari. Devia estar intrigado com a similaridade - a mesma cor, idntica conformao fsica, os mesmos olhos grandes e compassivos. No entanto, o co, que via na parede, no deixava de ser diferente dos outros ces. O do mural era um smbolo e dava a impresso de que flu-tuava, j que seus ps mal tocavam no cho.

    O inesperado visitante assistiu a parte da cerimnia e saiu, como havia entrado - sem fazer rudo - , mas sua inslita presena que-le ato, justamente quando era sagrada a igrejinha, cuja entrega ao culto havia sido retardada por 17 anos s por causa daquele seu irmo de raa pintado atrs do altar tocou-me profundamente, e no s a mim mas a todos quantos ali se encontravam.

    Relembro esse fato para que se tenha uma ideia dos embara-os a que est sujeito um administrador, se deseja combater a rotina e introduzir um esprito novo no servio pblico. Se assim aconteceu em Belo Horizonte com uma humilde, mas linda igrejinha, o que se pensar, ento, do que me aguardava na chefia do governo da Repblica, j que, alm do Plano de Metas, de 30 itens que consubstanciavam todos os pontos de estrangulamento da economia brasileira, iria promover a construo de Braslia e transferir para ela, ainda durante o meu manda-to, a sede da administrao do pas?

  • Aprovao da lei pelo Congresso

    ^^^^^^e. qualquer forma, a mensagem e o respectivo projeto de lei, determinando a transferncia da capital, haviam sido assinados e en-caminhados ao Congresso. Na poca - incio do meu mandato eu es-tava empenhado na realizao, to rpida quanto possvel, de dois obje-tivos, que considerava fundamentais para o meu governo: a pacificao nacional e a execuo acelerada do meu Plano de Metas. Esses dois ob-jetivos se completavam, ou melhor, se interpenetravam, pois o bom xi-to de um dependeria do que ocorresse, favoravelmente, com o outro.

    A situao que eu havia herdado, decorrente das agitaes que convulsionaram o pas a partir do suicdio de Vargas, no era, de fato, animadora. Respirava-se uma atmosfera de profundos ressenti-mentos. Os elementos da Oposio haviam traado uma norma de con-duta que s poderia ser prejudicial ao pas: a de criar todas as dificulda-des possveis minha administrao.

    Em face disso, teria de agir com maior cautela. Se essa resis-tncia se evidenciava em relao at a simples atos de rotina burocrtica, certamente que se tornaria insuportvel em se tratando de um problema da maior importncia, como seria a mudana da capital para o Planalto Central.

    Preparei-me, pois, para a batalha, que no tardaria a ser de-sencadeada. Quando a mensagem e o projeto de lei deram entrada na

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    Cmara dos Deputados, foram encaminhados, de acordo com o regi-mento interno, Comisso de Justia, para apreciao e parecer. Nessa Comisso, aconteceu o que eu esperava: um lder udenista pediu vista do processo e o engavetou. Isso aconteceu no ms de abril. Maio, ju-nho, julho e agosto passaram sem que eu conseguisse obter a aprovao do projeto. Por diversas vezes, reuni a bancada de deputados de Gois, Estado em que seria localizada a capital, e lhes declarei que, se no obti-vesse a aprovao at outubro, desistiria do projeto. No iniciaria a construo da capital para deix-la, ao fim do meu governo, inacabada. Os meus sucessores a abandonariam e a ideia morreria de novo.

    Emival Caiado, deputado da UDN de Gois, ficou encarrega-do de obter do seu colega a devoluo do projeto para estudo e votao. Trabalhou com afinco e obteve xito no seu intento. Deixando a Co-misso de Justia, a mensagem e o projeto de lei foram encaminhados ao plenrio, onde tiveram uma tramitao mais ou menos rpida, sendo aprovados pela Cmara dos Deputados. Uma etapa fora vencida. Fal-tava a votao no Senado; mas ali o governo dispunha de esmagadora maioria e, dessa forma, a aprovao no sofreu contestao.

    A lei, que teve o nmero 2.874, foi sancionada por mim, numa quarta-feira, no dia 19 de setembro de 1956. Fi-lo aps o jantar, sem qualquer publicidade, tendo como testemunhas apenas os membros da minha famlia. Na realidade, seria contraproducente fazer alarde da iniciativa. Se assim agisse, iria alertar a Oposio sobre o significado do ato, e, ento, infindveis interpelaes passariam a ser feitas ao Executi-vo, dificultando o incio dos trabalhos no Planalto Central. Fiel a essa li-nha de conduta, dei ordens para que mesmo a publicao do decreto fosse levada a efeito com a maior reserva, incluindo-se o ato num con-junto de outras medidas administrativas, sem o menor destaque.

    A lei era simples, mas redigida com a clareza e a conciso ca-ractersticas do estilo de San Tiago Dantas. Em seu artigo primeiro, de-terminava: "A capital Federal do Brasil, a que se refere o art. 42 do Ato das Disposies Transitrias da Constituio de 18 de setembro de 1946, ser localizada na regio do Planalto Central, para esse fim esco-lhida." O artigo segundo autorizava o Poder Executivo a tomar provi-dncias para acelerar a construo da nova cidade, inclusive a de construir uma nova sociedade que se denominaria Companhia Urbanizadora da Nova

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    Capital do Brasil. O artigo terceiro discriminava as atribuies da nova companhia: a) planejamento e execuo do servio de localizao, urba-nizao e construo da futura Capital, diretamente ou atravs de rgos da administrao federal, estadual e municipal ou de empresas idneas com as quais contratar; b) execuo, alienao, locao e arrendamento de imveis na rea do Distrito Federal ou qualquer ponto do territrio nacional, pertinente aos fins previstos nesta lei; c) execuo, mediante concesso, de obras e servios de competncia federal, estadual e muni-cipal relacionados com a nova capital; d) prtica de todos os mais atos concernentes aos objetivos sociais previstos nos Estatutos ou autoriza-dos pelo Conselho de Administrao. O artigo nono fixava o capital da companhia e o dcimo segundo estabelecia as normas de administrao da empresa: administrada e fiscalizada por um Conselho Administrativo, um Conselho Diretor e um Conselho Fiscal, integrados, respectivamen-te, por 6, 4 e 3 membros. Um tero dos membros de cada um desses r-gos seria escolhido de uma lista trplice de nomes indicados pelo maior partido da Oposio.

    Como se v, o trabalho de San Tiago Dantas era perfeito. A diretoria da Novacap, a ser nomeada por mim, dispunha de poderes am-plos, assistindo-lhe o direito de tudo providenciar para a construo da nova capital, sem qualquer nova audincia do Congresso. Assim, no dia 24 de setembro de 1956, fiz as respectivas nomeaes: presidente, Israel Pinheiro; diretores, Ernesto Silva e Bernardo Sayo. Faltava apenas a apresentao da lista trplice dos nomes indicados pela Oposio, no caso a UDN, que era o maior partido poltico que a integrava.

    Os trs nomes indicados pela UDN foram os seguintes: Caf Filho, Jales Machado e ris Meinberg. Escolhi o Deputado ris Mein-berg. Israel Pinheiro era na ocasio o presidente da comisso de Finan-as na Cmara. Fui feliz na escolha. Homem de experincia e de ao, suportaria sobre os ombros, com galhardia e vigor, a imensa tarefa de dirigir os trabalhos da construo da nova capital, chefiando uma equipe de devotados engenheiros, tcnicos, funcionrios e candangos, tarefa qual se dedicou com ilimitado amor, energia e exemplar correo.

    Estava, assim, constituda a Novacap. Apesar disso era gene-ralizada a descrena na execuo do programa de construo da nova capital. Julgavam muitos que se tratava de uma medida demaggica, ten-

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    dente a anestesiar a opinio pblica, fazendo crer que a capital do Brasil, de fato, iria ser transferida para o Planalto Central. Uma jornalista che-gou a escrever, a propsito da criao da Novacap: "Mais uma empresa, organizada pelo governo, para dar polpudos empregos aos seus apani-guados no Rio."

    Entretanto, enquanto a lei de transferncia estava sendo boi-cotada pela UDN no Congresso, diversas medidas administrativas eu j havia tomado no Planalto, durante as gestes do Marechal Jos Pessoa e do seu substituto, o Coronel Ernesto Silva, no sentido de ir preparando o terreno para o incio das obras que, ali, seriam realizadas. Assim que, durante a gesto do marechal, foi dado incio s tarefas referentes a co-municaes, abastecimento de gua, energia eltrica, colonizao e pla-nejamento urbanstico. Em maio de 1956, porm, o Marechal Jos Pes-soa demitiu-se do cargo de presidente da ento Comisso de Planeja-mento da Construo e da Mudana da Capital Federal. Seu afastamen-to no teve por base qualquer atrito pessoal comigo. Motivou-o apenas uma questo de divergncia nossa no que dizia respeito maneira como Braslia deveria ser construda. O marechal, talvez influenciado pelo relatrio da firma J. Belcher, julgava que a capital deveria ser construda "por etapas", prolongando-se atravs de sucessivos go-vernos. Recordei-lhe a tradicional falta de continuidade administrati-va, que era uma caracterstica do Brasil. Quase todos os governos, que se iniciavam, logo revelavam a preocupao ou de paralisar ou de alterar as iniciativas tomadas por seus antecessores. Braslia era um assunto srio demais para ficar sujeito a oscilaes de tendncias per-sonalistas. Sendo assim, eu iria construir a nova capital e inaugur-la, s deixando, para quem viesse depois, a incumbncia de ampli-la e melhorar-lhe os servios.

    "Vossa Excelncia no conseguir realizar essa tarefa, pre-sidente!" - disse-me o marechal. "Realizarei, meu caro marechal, e terei cuidado de enviar-lhe um convite para a solenidade da inaugura-o" - repliquei. O marechal levantou-se e se despediu. No dia se-guinte, com grande surpresa, recebi uma carta sua, demitindo-se do cargo. Nomeei, ento, para substitu-lo, seu prprio assessor, o Co-ronel Ernesto Silva. Essa troca de presidentes da Comisso teve lugar no dia 7 de junho de 1956.

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    Ernesto Silva, embora sua gesto tivesse tido a durao de apenas trs meses, acelerou a desapropriao de muitas glebas no stio da nova capital; promoveu um convnio com o Estado de Gois para o financiamento dos servios de demarcao das fronteiras do Distrito Federal e tomou outras providncias, inclusive esta da maior importn-cia: iniciar os trabalhos para a realizao do concurso para o Plano Pilo-to da cidade.

    Na poca junho de 1956 - a lei da transferncia da capital ainda estava em tramitao no Congresso e, no entanto, antecipan-do-me ao que pudessem resolver os parlamentares, j tinha dado ordem ao presidente da Comisso de Planejamento da Construo e da Mu-dana da Capital Federal para estudar, com representantes do Instituto de Arquitetos do Brasil, os pontos principais do edital, para a realizao daquele concurso.

    O edital foi publicado no Dirio Oficial da Unio, e reproduzi-do, em seguida, pelos principais jornais do Pas, no dia 30 de setembro de 1956, apenas onze dias, portanto, aps a aprovao da lei da transfe-rncia pelo Congresso.

    VISITA AO LOCAL DA FUTURA CAPITAL

    O que ocorreu com a publicao do edital poder parecer uma demonstrao de pressa desusada. Mas no era bem pressa. Trata-va-se de um estilo de governo. Nunca deixei para amanh o que pudes-se resolver na hora. Ao iniciar a minha administrao, fiel aos dois obje-tivos prioritrios que me traara, suspendi a censura imprensa e aos r-dios e televises, vinte e quatro horas aps a posse, e enviei uma mensa-gem ao Congresso, aprovada em tempo recorde, extinguindo o estado de stio decretado pelo meu antecessor, Nereu Ramos.

    Alis, no poderia ser mais clara e objetiva a mensagem que enviei ao Congresso, no dia 15 de maro, por ocasio da instalao da segunda sesso legislativa da Terceira Legislatura, ao definir os propsi-tos do governo. "A obra que tenho de cumprir cheia de dificuldades e asperezas, bem o sei. Mas o Brasil exige que ela seja atacada com deci-so. E necessrio fazer a opo definitiva entre a marcha no rumo da

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    expanso, que situar o Pas, por maiores que sejam os sacrifcios do momento, entre as grandes naes modernas, e a permanncia na posi-o insatisfeita e frustrada de no ter sido capaz de conquistar o estgio de progresso a que o destinaram suas imensas possibilidades naturais."

    Era esta a poltica que iria realizar: a) execuo do Plano de Metas, incluindo-se nele a "Meta-Sntese", que era a construo de Bra-slia; e b) dissipar o ambiente de tenso que, desde agosto de 1954, pre-valecia no Pas. Assim, enquanto se discutia no Congresso o anteprojeto de lei para a transferncia da capital, entreguei-me, de corpo e alma, soluo dos problemas bsicos do Brasil.

    A experincia administrativa que acumulei, antes de ascender Presidncia da Repblica, dera-me uma viso dolorosamente realista do atraso material em que, na era atmica, se encontrava mergulhado o pas. Na esfera social, vinculava-se a penria das nossas populaes do litoral e do interior ao baixo nvel da renda nacional, por sua vez decor-rente de uma industrializao que mal explorava linhas tradicionais e nos deixava merc do suprimento externo dos bens que constituem a alavanca do progresso. Nossa economia no tinha acesso pleno s fon-tes desses bens por fora de um comrcio exterior baseado na exporta-o de produtos primrios, sujeitos instabilidade de preos e s limita-es prprias de um mercado onde competiam outros pases to vidos, quanto ns, de recursos em moeda estrangeira. Caracterizavam-se as nossas relaes externas pelos sobressaltos peridicos dos compromis-sos financeiros, rivalizando com as necessidades de importaes indis-pensveis ao simples funcionamento do nosso parque produtivo.

    A sada do impasse residia na montagem de um moderno par-que industrial, diversificado e amplo, capaz de desempenhar o papel de segura fonte interna dos bens essenciais da nossa economia. Ao mesmo tempo, dever-se-ia atribuir-lhe a funo de alterar a pauta das nossas ex-portaes pelo ingresso do Pas no grupo dos exportadores de produtos manufaturados, este, sim, o caminho certo para a realizao de um co-mrcio internacional mais equnime e produtivo.

    Diante de problemas nacionais de grande vulto, como eram os nossos, quando assumi a Presidncia da Repblica, cabia-me promo-ver um balano das necessidades do Pas, assim como dos recursos ma-teriais e humanos disponveis, para compor um programa de objetivos

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    prioritrios, de modo a atingi-los dentro de prazos certos, sem o risco das obras inacabadas. Sobretudo, a escolha das metas a alcanar deveria orientar-se pela conscincia do seu carter imprescindvel. Preocupa-va-me a tradicional soluo de continuidade administrativa, que nos era caracterstica. Teria de planejar e executar, e as obras, que por sua gran-deza no pudessem ser concludas definitivamente, iria procurar dei-x-las em tal estgio de funcionamento que se tornaria obrigatrio, para os governos que sucedessem ao meu, lev-las avante.

    Enquanto se processava a votao no Congresso do projeto de lei, que havia assinado em Anpolis, no deixei de tomar numerosas e importantes providncias, de natureza administrativa, na antecipao da ofensiva que iria ser desencadeada aps o pronunciamento do Legis-lativo. Doze diretores de Departamento do Ministrio da Agricultura haviam sido enviados ao Planalto Central, para realizar estudos prelimi-nares da regio. Aps o convnio, realizado pelo Coronel Ernesto Silva com o Estado de Gois, para financiamento das aquisies de glebas, solicitei ao Governador Jos Ludovico que fizesse instalar um escritrio na regio, de forma a acelerar as medidas pertinentes ao convnio. E nem ao menos fora esquecida a indispensvel mobilizao psicolgica do povo. No dia 4 de julho, por solicitao minha, o governador de Gois concedeu uma entrevista imprensa no Rio, na qual declarava: "Gois inteiro mobilizou-se em sadia campanha pela transferncia da capital, empreendimento a que todos os Estados, por seus representan-tes no Congresso, vm dando todo seu apoio. Como governador, cum-pro, com entusiasmo, o papel que me cabe no encaminhamento das providncias relacionadas com a interiorizao da sede do governo." Por fim, tendo em vista facilitar o acesso regio, autorizei o Departa-mento Nacional de Estradas de Ferro a planejar as ferrovias de interesse para a futura capital, inclusive a estudar a possibilidade de serem realiza-dos, ainda em 1956, estudos e projetos para o prolongamento da Estra-da de Ferro Gois at o local onde seria edificada a nova cidade.

    A Lei n2 2.874, que autorizara a transferncia da capital, da-va-me liberdade para agir como entendesse, ficando excludo do seu texto apenas a data em que se daria a mudana, sobre o que o Congresso deliberaria oportunamente. O nome de Braslia constou de uma emenda do Deputado Pereira da Silva, do Amazonas, o qual, recordando a sugesto

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    de Jos Bonifcio, de 1823, propusera essa designao, alis perfeita-mente adequada destinao integracionista da nova capital.

    Braslia no iria se situar em local "imediato s cabeceiras dos grandes rios", mas bem no corao do Planalto Central, o qual, por sua vez, o corao do Brasil. Era essa regio que eu iria visitar pela primei-ra vez, embora j houvesse sobrevoado o Planalto. A viagem foi marca-da para o dia 2 de outubro de 1956 cerca de duas semanas aps a san-o da lei que autorizava a mudana da capital. Mudana deveria signi-ficar a existncia de uma cidade - palcios, edifcios ministeriais, residncias para a populao, sede do Poder Legislativo e do Judicirio, energia el-trica, gua, ruas asfaltadas, rede de estradas, enfim, todo o complexo de utilidades que compe e faz funcionar um grande centro urbano. De tudo isso, porm, s existia mesmo naquela regio a planura do deserto e, comunicando certa vida paisagem de desolao, estendia-se at os sem-fins do horizonte o cerrado - um mar de rvores raquticas, retorci-das e quase rfs de folhas , que era o lado oposto, em feio agreste, do cu, que um dos mais belos do mundo.

    Na poca, o acesso do local obedecia ao seguinte roteiro: ia-se de avio a Goinia: dali, em teco-teco, a Planaltina; e, por fim, em jipe, atravs de trilhos abertos no cerrado, at o stio onde seria Braslia. Nada existia na regio, a no ser umas poucas barracas dos integrantes da Comisso de Planejamento e de Mudana. Viam-se ali, tambm, as runas do acampamento construdo por Lus Cruls, chefe da primitiva Comisso Exploradora do Planalto Central, situadas beira de um curso d'gua, o qual foi denominado, por isso, crrego do Acampamento.

    Na ocasio, a Presidncia da Repblica no dispunha de qual-quer helicptero, e a viagem teria de ser feita no velho DC-3, veterano das minhas arriscadas aventuras pelos cus do Brasil. Contudo, em lugar de seguir para Goinia, como era bem mais seguro, decidi rumar direta-mente para o local do futuro Distrito Federal e pousar num campo im-provisado, construdo em dois meses, por Bernardo Sayo - vi-ce-governador de Gois e, ento, nomeado por mim um dos diretores da Novacap. Era uma pista que no passava de uma fita de terra, des-bastada no cerrado, precariamente nivelada e cheia de buracos. Um car-taz ali havia sido fixado, com um enorme e pretensioso letreiro: "Aero-porto Vera Cruz."

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    s 7h45min do dia 2 de outubro, deixei o Aeroporto San-tos Dumont, no Rio, rumando para o local onde construiria Braslia. Acompanharam-me, nessa viagem, o General Teixeira Lott, ministro da Guerra, o General Nelson de Melo, chefe da minha Casa Militar, o governador da Bahia, Antnio Balbino, Israel Pinheiro, presidente da Novacap, Rgis Bittencourt, diretor do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, o Brigadeiro Araripe Machado, o Coronel Dilermando Silva, Oscar Niemeyer, e os aviadores, Coronel Lino Teixeira, Coronel Renato Goulart, o Coronel Celso Resende Neves, o Major Mcio Scorzelli e o Capito Gama e Sousa, alm de diversos tcnicos, integrantes do Conselho do Desenvolvimento rgo por mim criado, responsvel pelo planejamento e elaborao das metas do governo.

    Quando o avio sobrevoou o local da futura capital, concen-trei-me em observar a regio. Era um descampado infinito, com suaves ondulaes no terreno, que no ultrapassavam a altura de 200 metros. Tudo era chato e amplo a vastido desconcertante do vazio. L estava o cruzeiro, de braos abertos, como que saudando os intrusos que che-gavam pelo cu. Alm do cruzeiro, via-se a fita de terra vermelha da pis-ta de pouso. O saudoso Embaixador Otvio Dias Carneiro, ento inte-grante do grupo de tcnicos do Conselho do Desenvolvimento e que se encontrava a bordo, perguntou-em com apreenso, levando em conta a precariedade daquela pista: "Presidente, ali que vamos aterrissar?" Em face da afirmativa, chamou os demais passageiros e lhes mostrou a ras-pagem no cerrado, feita por Bernardo Sayo. Um silncio significativo fez-se sentir no interior do avio.

    A tomada de posio havia sido concluda e veio a ordem para que todos colocassem seus cintos de segurana. O DC-3 deu uma guinada e comeou a descer. De sbito, ouviu-se um choque, seguido de sucessivos sacolejos. Era o avio que havia tocado a pista e taxiava para perder a embalagem. No deslizava, mas corcoveava, aos trancos, sobre as asperezas do terreno. Eram llh40min, e o sol tinia, reverbe-rando nos metais do aparelho. O Governador Jos Ludovico, Bernar-do Sayo e outras autoridades de Gois esperavam-me sob um toldo de lona. As cerimnias que ali se realizaram foram tocantes pela simplicidade de que se revestiram. Em tosca mesa de madeira, colocada num galpo,

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    assinei o primeiro ato oficial no local da futura capital: a nomeao de Mrio Meneghetti para o cargo de ministro da Agricultura.

    De todos os presentes, o General Teixeira Lott era o que se mostrava mais desconcertado. Sentia-se preso de um sentimento, misto de curiosidade e descrena. Distanciando-se dos presentes, deixou-se fi-car beira da pista, observando a paisagem selvagem. Ao me aproximar dele, no se conteve e perguntou: "O senhor vai mesmo construir Bras-lia, presidente?" No pude conter um sorriso. Colaborando comigo h pouco tempo, o general ignorava as reservas de determinao de que sou dotado. Respondi de forma a dissipar, no seu esprito, qualquer res-qucio de dvida: "No s vou constru-la, general, mas irei transmitir a faixa presidencial ao meu sucessor com o governo j instalado aqui."

    Visitei, em seguida, o local onde se erguia o cruzeiro, o qual, sendo o ponto mais elevado da regio, permitia uma viso de conjunto do cenrio que emolduraria a futura capital. A vista era maravilhosa. Com Oscar Niemeyer, que se encontrava ao meu lado, examinamos ma-pas, assinalando os acidentes topogrficos e tomando conhecimento das distncias. At ento no tnhamos qualquer ideia de como seria a ci-dade. No dia 19 de setembro quase duas semanas atrs, portanto havia sido publicado o edital do concurso para o Plano Piloto, elabo-rado pelo prprio Niemeyer e pelos arquitetos Raul Pena Firme e Roberto Lacombe, professores de Urbanismo da Universidade do Brasil. Dessa forma, nada poderamos saber sobre as caractersticas da futura capital.

    Contudo, aps uma troca de ideias com Niemeyer, chegamos a uma concluso. Iramos demarcar, desde logo, uma rea prioritria, que serviria de base s obras que viriam depois. Localizamos, ento, o ncleo pioneiro na parte em que deveria erguer-se a residncia presiden-cial. E essa rea foi imediatamente demarcada, ficando Niemeyer in-cumbido de elaborar, com a maior urgncia possvel, os projetos do pa-lcio, que seria a residncia do presidente da Repblica e de um hotel de turismo, para alojar, desde o incio das obras, os que visitassem Braslia. Providenciou-se, igualmente, a construo do aeroporto definitivo, com uma pista concretada de 3.300 metros; melhoria das estradas para An-polis e Goinia; abertura de dezenas de estradas internas para comunica-o dos diversos canteiros de obras; construo dos prdios provisrios

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    para a administrao da Novacap; e instalao de olarias e serrarias para as demandas iniciais.

    Do cruzeiro segui para a Fazenda do Gama, onde se instalaria o ncleo pioneiro. Ao atravessar uma velha ponte sobre o ribeiro Vi-cente Pires, conversei com o engenheiro Saturnino de Brito sobre o problema do abastecimento de gua futura cidade. Falamos, ento, do projeto, j em estudo, de se construir uma barragem, que represaria a gua de vrios rios, a fim de se formar um lago artificial de dez quilme-tros quadrados. Lembrei-me da profecia de Dom Bosco: "Entre os pa-ralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde formava um lago."

    Descobri, depois, que havia, no local, um aviozinho mono-motor, que servira de conduo ao governador de Gois. Utilizei-o para sobrevoar o Planalto a baixa altitude, de forma a ter uma ideia dos stios, onde se ergueriam os primeiros edifcios programados. Vendo, do alto, a imensido do Planalto, reforcei minha convico de que, ao promover a mudana da capital, havia me colocado em face do mais perigoso de-safio que um chefe de Estado poderia enfrentar. Compreendi, ento, a malcia de alguns deputados oposicionistas que tinham votado pela transferncia da capital. Eles haviam dito, ao faz-lo, que agiam daquela forma porque "Braslia seria o meu tmulo poltico".

    Depois que o aviozinho pousou, sentei-me num toco de r-vore, beira de um crrego. Estvamos na mata do Gama e ao lado dos olhos de gua, dos quais jorrava, abundante e lmpida, a gua que abas-teceria, pouco depois, o Catetinho. Distra-me na conversa, quando o General Nelson de Melo, que se encontrava perto, segurou-me uma das mos, a fim de que pudesse observar o que se passava mesmo junto aos meus ps. Uma enorme jararaca coleava no capim, aproximando-se de mim numa atitude agressiva. S tive tempo de dar um salto, evitando, assim, seu bote, j armado, o que, se me atingisse, poderia ter sido mortal.

    Passado o susto, algum trouxe-me um caderno, pomposa-mente denominado Livro de Ouro de Braslia, e me pediu que deixasse consignada na sua primeira pgina minha impresso da regio. Escrevi:

    "Deste Planalto Central, desta solido que em breve se transformar em crebro das altas decises nacionais, lano os olhos mais uma ve% sobre o

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    amanh do meu Pas e antevejo esta alvorada, com f inquebrantvel e uma confiana sem limites no seu grande destinou Sentado naquele toco de rvore, prossegui conversando sobre

    os problemas de Braslia. Estvamos em face de um desafio. Iria enfren-t-lo com determinao e audcia. Tive a impresso de que minhas pala-vras caam no vazio. A descrena era geral. Sorrisos amarelos afloravam nos lbios contrados, aps uma das minhas afirmaes. Teria de dissi-par aquela atmosfera de pessimismo, e nada melhor para isso do que um choque. O choque veio em seguida: era o prazo para a concluso das obras - 3 anos e 10 meses.

    Braslia estava lanada. Era uma ideia em marcha. Para mim, nenhuma fora seria capaz de det-la.

  • A construo do Catetinho

    frase, que escrevi no Uvro de Ouro de Braslia, figura hoje, por sugesto de Oscar Niemeyer, numa das paredes do saguo do Palcio da Alvorada. Essa parede, por iniciativa renovadora do esprito de Niemeyer, foi revestida de placas de alumnio dourado, o que levou um jornalista de Oposio, preocupado em emprestar cunho faranico ao que se fazia, a declarar que era de ouro. A propsito, devo recordar um fato que no deixa de ser curioso. Um ano depois, numa recepo ao corpo diplomtico no Rio, comentvamos a beleza arquitetnica de Braslia e, de sbito, uma embaixatriz, que ouvia a palestra com o maior interesse, voltando-se para mim, perguntou com a mais absoluta sem-cerimnia: " verdade, presidente, que uma das paredes do Palcio da Alvorada de ouro macio?"

    Embora fosse uma ideia em marcha, Braslia, quela altura, no deixava de ser uma iniciativa abstrata. Nem ao menos dispunha eu ali de teto, sob o qual me abrigar. Nas minhas viagens de inspeo, ia e vinha, cobrindo um percurso de oito horas de vo e, por isso, s me restava uma estreita faixa de tempo para conversar com os pioneiros que ali j haviam comeado a trabalhar.

    Entretanto, o dia 10 de novembro de 1956 iria projetar-se como um marco histrico na evoluo da cidade. Nessa data, brilhou a primeira luz no Planalto Central. Era ainda uma luz tnue, com limitado

    A

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    poder de irradiao, produzida por um pequeno gerador, que fora leva-do da cidade de Arax. De qualquer forma, era uma luz criada pela mo do homem, que chegara para substituir o claro dos astros, o que signi-ficava que havia tido incio a conquista do corao do Brasil.

    At ento, o local onde iria ser Braslia no passava de um carrascal, infestado de cascavis, com a terra seca esturricada, aberta em fendas pela inclemncia do sol. O nico testemunho da passagem do homem por ali era um pardieiro, pretensiosamente denominado Fazenda do Gama, e que se resumia numa casa de telhado baixo, com um cercado no fundo, no qual viviam, confinados, uns cinco bois e uns trs leites.

    Tudo comeou numa conversa de bons amigos. Naquele pe-rodo, tinha toda a minha ateno concentrada nas obras para a transfe-rncia da capital. Apesar disso, o clima que se respirava no Pas era de descrena, por um lado, e de oposio, do outro. Mesmo assim, eu ia a Braslia umas duas vezes por semana; mas pouco demorava ali, por falta de alojamento. Foi a que Joo Milton Prates, aviador, e que fora meu piloto durante o meu tempo de governador de Minas Gerais, lanou esta ideia num grupo de amigos meus: "Vamos dar uma casa ao presi-dente?"

    A sugesto foi acolhida com entusiasmo. Discutiu-se o gne-ro de casa a ser construda, e todos concordaram: uma simples residn-cia de madeira, na qual eu pudesse passar a noite toda as vezes que dese-jasse permanecer em Braslia. Oscar Niemeyer, que fazia parte do grupo, prontificou-se a esboar, ali mesmo, o croqui do que seria a casa. Pediu tinta e papel, e, em dois tempos, o desenho estava concludo. Ali estava, em linhas toscas, o que iria ser a primeira construo de Braslia. Trata-va-se de um "palcio de tbuas", erguido sobre pilotis de madeira. Teria de ser construdo assim, pois no Planalto no existiam, na poca, tijolos nem pedras.

    Aprovada a ideia, cogitou-se da obteno do dinheiro para a realizao da obra. Arranjou-se uma promissria, emitida por Joo Mil-ton Prates e avalizada por Juc Chaves e Oscar Niemeyer. Valor do em-prstimo a ser feito: 500 contos. Mas onde conseguir a quantia? Csar Prates, um dos presentes, era irmo de Carlos Prates, gerente da filial do Banco do Brasil em Belo Horizonte a pessoa indicada para solucionar

  • Por que constru Braslia 57

    o problema. Emdio Rocha - o Rochinha - foi despachado na mesma hora para a capital mineira, a fim de se entender com Carlos Prates e descontar a promissria. Teria de ir e voltar no dia seguinte antes do al-moo, j com 500 contos em espcie.

    Emdio Rocha desempenhou, com xito, sua misso. Carlos Prates no pde descontar a promissria no Banco do Brasil, mas obte-ve que o Banco de Minas Gerais o fizesse.

    No dia seguinte, com o regresso de Emdio Rocha, providen-ciou-se a aquisio do material de construo no Rio e em Belo Hori-zonte. Entrementes, Niemeyer, com base no croqui, elaborava o projeto definitivo do Palcio de Tbuas. Havia ainda uma questo para ser re-solvida: o prazo para a construo. Meus amigos estabeleceram um tem-po recorde para a residncia presidencial: dez dias. Procurando evitar que o prazo fosse ultrapassado, enviaram-me um convite para que me hospedasse ali no dia l 2 de novembro.

    Teve incio, assim, a construo, em grande velocidade, do projetado Palcio de Tbuas. Roberto Pena, que trabalhava na Fertisa -fbrica de adubos qumicos que eu havia criado em Minas Gerais, quan-do governador - , telefonou ao diretor da empresa, Brets Bhering, soli-citando, de emprstimo, algumas mquinas, inclusive uma Patrol Cater-pillar, um grupo motor-gerador de 75 HP e um jipe. O material de cons-truo foi adquirido, como havia sido combinado, nas praas do Rio e de Belo Horizonte.

    No dia 18 de outubro, finalmente, partiram os caminhes do Rio e de Belo Horizonte, levando o material necessrio. A caravana mi-neira partira de Arax, sede da Fertisa, rumo a Santa Luzia, conduzindo a Patrol Caterpillar, o motor-gerador, alm do equipamento para a res-pectiva montagem. Acompanharam a expedio um cozinheiro e um operador de mquinas.

    Essa viagem me fez lembrar, de alguma forma, as entradas dos bandeirantes no sculo XVIII. No existiam estradas. Nem pontes sobre os rios. Nem ao menos um trilho contnuo que indicasse a direo a ser seguida. Os expedicionrios deixaram-se levar pelo instinto, carre-gando, nos prprios veculos, a gasolina de que iriam necessitar durante o percurso. A poca era de chuvas, e os caminhes, avanando por meio de terreno virgem, atolavam com frequncia nos lamaais, e era

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    um verdadeiro suplcio libert-los. No entanto, apesar de todos esses tropeos, a caravana prosseguia no seu roteiro.

    No dia 23 de outubro, os pioneiros, partidos de Minas Gerais, encontraram-se com Bernardo Sayo em Luzinia e seguiram, dali em diante, num s e grande comboio at o local onde seria Braslia. Gritos, risadas, exclamaes de desafio era o que se ouvia, revelando o bom-humor e o esprito esportivo dos novos bandeirantes. Assim, o chapado foi vencido. E numa clareira, aberta nas imediaes da deno-minada Fazenda do Gama, teve incio a preparao do terreno para a construo pioneira.

    Meus amigos estavam familiarizados com o ritmo de minhas obras. J me conheciam do governo de Minas Gerais e tinham diante dos olhos o que vinha sendo a abertura da rodovia RioBelo Horizonte, que, iniciada logo aps a minha posse na Presidncia, estava quase con-cluda, devendo ser inaugurada na comemorao do primeiro anivers-rio da minha administrao, ou seja, no prazo de um ano.

    J o comboio, que levava o material, batera recorde de veloci-dade para chegar a Braslia. Os operrios instalaram-se na Fazenda do Gama, que passara por uma limpeza em regra. A alimentao era forne-cida pelo que existia no curral: os bois e os leites. A sombra de um pau-de-vinho que rvore frondosa montou-se uma banca de car-pinteiro, para a preparao da madeira a ser utilizada na construo. Roou-se uma faixa do cerrado para a localizao da residncia presidencial. Um jipe fornecia energia para acionar a serra, que aparelhava as vigas e os caibros. E, arrematando aquela srie de providncias, foi instalada luz eltrica no acampamento, utilizando-se um gerador de 2 e meio HP, vindo do Rio, e que no dispunha de partida, a qual era dada por um trator. A noite, j estava montada uma estao de radioamador.

    Tudo isso fora feito no mesmo dia da chegada. Mais ou me-nos meia-noite, os pioneiros, exaustos, resolveram tomar um usque, antes de se recolherem para um descanso de umas poucas horas. Mas no havia gelo para refrescar a bebida, ainda morna da longa exposio ao sol do Planalto. Mal encheram os copos, o cu enfarruscou e uma violenta tempestade de granizo desabou sobre o acampamento. "Mila-gre!" "Milagre!" gritavam os construtores, recolhendo as pedras de gelo, maiores do que uma bola de gude, cadas das nuvens. E o usque,

  • Por que constru Braslia 59

    gelado com granizo, correu de mo em mo, festejando, com alvoroo, aquele primeiro dia de trabalho.

    No dia seguinte, ocorreu um fato que poderia parecer inacre-ditvel aos que conheciam o Brasil Central: a feitura do primeiro con-creto no Planalto. Esse concreto foi utilizado na fixao das vigas que sustentariam o "palcio". Na noite desse mesmo dia 24, instalou-se ou-tra estao radiotransmissora, sob o prefixo P.Y.V.A., e estabelece-ram-se comunicaes com o Palcio do Catete, no Rio, com Anpolis, Goinia, Arax e Belo Horizonte. O Planalto Central deixara de ser o grande mudo. A partir daquele momento, sua voz fazia-se ouvir - por meio de um equipamento precrio, era verdade - para anunciar ao Pas que a semente de uma metrpole ali havia sido plantada.

    Apesar da chuva constante, o trabalho prosseguia em ritmo acelerado. A 26, foi colocado o assoalho da casa. Instalaram-se, em se-guida, a gua, a luz e os aparelhos sanitrios. No dia 27, fabricou-se gelo pela primeira vez em Braslia, com a chegada de um refrigerador. J no havia necessidade pois do milagre de uma chuva de granizo para se gelar a bebida dos pioneiros. No dia 29, funcionaram os servios de radiotele-grafia e radiofonia, e os tcnicos da Panair ergueram o radiofarol no campo de pouso. No dia 30, assentou-se o piso de cermica So Caeta-no e, noite, teve incio a pintura da casa. No dia l 2 de novembro, como havia sido programado, o palcio estava concludo. Niemeyer, Juc Chaves e Csar Prates incumbiram-se da arrumao dos mveis. Discutiu-se, ento, o nome a ser dado ao edifcio. Dilermando Reis su-geriu: Catetinho uma rplica, em madeira, do que existia no Rio. A obra estava concluda, e havia sido respeitado o exguo prazo de dez dias, estabelecido pelos prprios construtores.

    Enquanto o Catetinho estava sendo construdo, elaborava-se, no Rio, o Canto da Nova Capital, com msica de Dilermando Reis e letra de Bastos Tigre. Providenciou-se, em seguida, uma placa com os seguin-tes dizeres: "Esta casa, a primeira construo de Braslia, executada em dez dias, de 22 a 31 de outubro de 1956, foi a residncia provisria do presidente da Repblica. Participaram desta obra pioneira: Joo Milton Prates, Oscar Niemeyer, Csar Prates, Jos Ferreira Chaves, Roberto Pena, Dilermando Reis, Emdio Rocha, Vivaldo Lrio, Osrio Reis e Agostinho Montandon."

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    Embora concludo no dia 31 de outubro, a inaugurao do Catetinho dependeria da minha presena. Na poca eu estava muito ocupado no Rio. Teria de presidir a trs cerimnias, a que no poderia faltar: a instalao do X Congresso Interamericano de Cirurgia; a posse do novo chefe da minha Casa Civil, Vtor Nunes Leal, e a reunio, com os lderes da Oposio, para exame da situao do Oriente Mdio, ten-do em vista a remessa de 500 soldados das nossas Foras Armadas para a fronteira entre Israel e o Egito, de acordo com uma resoluo da Assemblia-Geral das Naes Unidas. Assim, no pude estar em Braslia no dia 31 de outubro. No dia 9, de novembro, aps inspecionar a cons-truo da rodovia Juiz de Fora-Belo Horizonte, pernoitei na capital mi-neira e, na manh seguinte, s 10 horas, rumei, por via area, para Bras-lia, onde cheguei por volta do meio-dia.

    A recepo foi festiva. Do aeroporto provisrio, segui dire-tamente para o Catetinho, onde grande nmero de pioneiros me aguardava. Um temporal desabou sobre o local nesse momento, fazen-do com que a festa, que teria lugar ao ar livre, fosse realizada no interior do Palcio de Tbuas. Serviu-se um almoo, com mesinhas espalhadas pela casa inteira, inclusive na varanda. E, em seguida, realizei ali o meu primeiro despacho, assinando o volumoso expediente, com a presena do meu cunhado Jlio Soares, Cel. Lino Teixeira, Deputado Renato Azeredo, Cel. Dilermando Silva e o Jornalista Jos Morais. A noite, depois do jantar, teve lugar uma serenata, com os pioneiros a palavra candango ainda no havia sido criada entoando o Peixe-Vivo e o Canto da Nova Capital.

    O Catetinho constituiu, pois, um smbolo. Foi ele a flama ins-piradora que me ajudou a levar frente, arrostando o pessimismo, a descrena e a oposio de milhes de pessoas, a ideia de transferncia da sede do governo. Vi que, se um grupo de amigos fora capaz de erigir, sem qualquer auxlio oficial e levado apenas pelo idealismo, aquele Pal-cio de Tbuas em dez dias, o que eu no poderia fazer ento, sendo o presidente da Repblica e dispondo, j que o Congresso aprovara minha iniciativa, de todos os recursos governamentais?

    A mstica do Catetinho foi, pois, precursora dada a emula-o que provocou - da mstica de Braslia, consubstanciada em pionei-rismo, em esprito de criao e na determinao de enfrentar e vencer o

  • Por que constru Braslia 61

    que parecia impossvel. E a mstica de Braslia, por sua vez, contagiando o Pas inteiro, realizou o milagre da construo de uma metrpole revo-lucionria, em trs anos e dez meses.

    CONCURSO PARA O PLANO PILOTO

    O Catetinho foi o passo inicial de uma gigantesca escalada, que, at hoje, no terminou. Depois dele, a iniciativa de maior impor-tncia foi a elaborao do Plano Piloto. Entrementes, outras providncias, destinadas a criar condies de trabalho no Planalto, haviam sido toma-das: construo de barracos e alojamentos; balizamentos da rea; incio do represamento do rio Parano; abertura da Rodovia Braslia-Anpolis, e a construo de alojamentos para as primeiras levas de candangos.

    Um concurso, para a apresentao de um Plano Piloto da nova cidade, havia sido aberto e, naquele momento, corria o prazo para apresentao dos respectivos projetos. Minha ideia inicial havia sido a realizao de um concurso internacional, de forma a permitir que arqui-tetos e urbanistas de todo o mundo participassem do certame. Julgava que, ampliando a rea de concorrncia, criaria melhores condies de competio, dando origem a projetos mais originais. Realizaram-se, pois, diversas reunies no Rio, com o objetivo de se estabelecer o crit-rio a ser adotado e, aps longos debates, dos quais participaram Israel Pinheiro, Ernesto Silva, o arquiteto Oscar Niemeyer e os assessores ar-quitetos Raul Pena Firme e Roberto Lacombe, foi elaborado o texto do edital que regularia o concurso.

    O edital estabelecia que o concursos seria nacional e o Pla-no Piloto deveria abranger: a) traado bsico da cidade, indicando a disposio dos principais elementos da estrutura urbana; b) o jri, presidido pelo presidente da Novacap, seria integrado de dois repre-sentantes da companhia, um do Instituto dos Arquitetos do Brasil, um do Clube de Engenharia e dois urbanistas estrangeiros; c) os tra-balhos deveriam ser entregues dentro de 120 dias a partir da data das inscries; e d) o prmio concedido ao primeiro colocado seria de um milho de cruzeiros.

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    Foi sorte que os integrantes da comisso organizadora do concurso houvessem optado por uma soluo nacional, convencen-do-me a renunciar ideia de um concurso internacional. Caso minha su-gesto tivesse prevalecido - j que o jri seria integrado, tambm, por autoridades estrangeiras - , poderia ter ocorrido que os julgadores, influ-enciados pela beleza de um projeto, acabassem por premi-lo, sem aten-tar no carter peculiar da cidade que iria ser construda. Porque Braslia no seria um centro urbano nos padres convencionais, mas uma reali-zao diferente. Seria uma cidade vazada numa concepo nova, quer no que dizia respeito s intenes que nortearam sua localizao, quer em relao ao significado socioeconmico que deveria refletir-se no contexto urbanstico que lhe comporia a imagem.

    De qualquer forma, o concurso despertou enorme interesse. Arquitetos e urbanistas, assim como firmas de engenharia, apresentaram projetos de variados gneros, todos admirveis. Lembro-me de que quando fui ao Ministrio da Educao - onde os trabalhos estavam em exposio pude admirar em conjunto todos os projetos. Alguns im-pressionavam pelo arrojo; outros, pelo elaborado zelo com que haviam sido apresentados. O de M.M.M. Roberto, por exemplo, constitua uma deslumbrante obra de montagem. Tudo ali era bem feito, de forma a causar a melhor impresso nos julgadores. Outro, que me chamou a aten-o, foi o da Construtec firma de So Paulo , composto em diversos elementos, com maquetes e quadros de alumnios. Segundo me informa-ram, essa firma de engenharia despendera na elaborao do seu projeto cerca de 400 mil cruzeiros, o que era uma soma vultosa na poca.

    Como acontece em todos os concursos, srias divergncias tumultuaram o julgamento. Paulo Antunes Ribeiro, representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil, irritara-se sobre como a seleo fora feita. Os jurados, aps haverem examinado o conjunto, eliminaram 16 projetos, reservando 10 para um exame mais cuidadoso. Entre os classi-ficados, figuravam os maiores nomes da Arquitetura e do Urbanismo do Brasil, como Lcio Costa, Nei da Rocha e Silva, M.M.M. Roberto, Hen-rique Mindlin, Paulo Camargo e a firma Construtec.

    O jri era integrado por autoridades internacionais, como Sir William Holford, assessor de Urbanismo do Governo Britnico e plani-ficador da capital da Rodsia; Andr Sive, da Frana; e Stamo Papadaki,

  • Por que constru Braslia 63

    da Universidade de Nova Iorque. Dos trs, o de maior projeo era Sir William Holford, reconhecido internacionalmente como grande autori-dade em urbanismo. Fora dele a sugesto de se proceder a uma elimina-o prvia, para facilitar o julgamento dos poucos classificados. Feito isso, a escolha do melhor teve lugar quase imediatamente, e esta recaiu no projeto de Lcio Costa.

    O representante do I.A.B. no se conformou com o critrio adotado. E, formalizando seu desagrado, apresentou voto em separado, discordando da deciso do jri. Preconizava a seleo de dez trabalhos, que seriam encaminhados Novacap, para que esta, inspirando-se na-queles projetos, retirasse de cada um deles o que julgasse mais conveni-ente. A proposio no poderia ser aceita. Tratava-se de um concurso para se escolher um projeto que daria corpo e realidade capital de um pas - e, sobretudo, a uma cidade que se pretendia fosse revolucionria. Assim, como utilizar-se, para se fazer a escolha, o critrio da seleo pluralista?

    Em conversa com Sir William Holford, por ocasio da minha visita exposio, tive a oportunidade de conhecer as razes que deter-minaram aquela "pressa" no julgamento dos trabalhos. Disse-me ele que o assunto, de fato, no comportava delongas. Ou um projeto era bom ou no era, e isso tornava-se evidente primeira vista. Quando exami-nara os trabalhos, havia um que lhe chamara a ateno. Era o de Lcio Costa. Fora apresentado sem qualquer preocupao de obter destaque. Estava numa folha de papel comum, desenhado mo, com alguns ra-biscos, e acompanhado de uma exposio, guisa de defesa do projeto.

    Observando o que se encontrava na folha de papel surpreen-dera-se ao verificar que ali existia uma ideia, apresentada a ttulo de su-gesto. Tudo era pobre na apresentao desleixo aliado pobreza do material , mas havia grandeza na concepo. Compreendera, num re-lance, que estava em face de um projeto que revelava genialidade. Solici-tou que lhe traduzissem o texto da exposio e concluiu que o trabalho de Lcio Costa merecia ser premiado. Nele, tudo era coerente. Racional. E em face da sua essncia urbana, caso fosse executado, conferiria grande-za nova capital. Tratava-se, sem dvida, de uma verdadeira obra de arte, tanto pela clareza quanto pela hierarquia dos elementos integrantes do conjunto.

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    Eis o retrato da futura capital - uma srie de grandes quadra-dos que, cercados de plantas, impediram que ela, mesmo parcialmente construda, jamais lembrasse um deserto. Na realidade, o que iria ocor-rer seria justamente o contrrio. O deserto do cerrado seria por ela ab-sorvido. Passaria a integr-la, transformado em cenrio para realar-lhe, pelo contraste, o extraordinrio arrojo da concepo urbanstica. E tudo isso a mil quilmetros do litoral, localizado exatamente no centro geo-grfico de um pas continente.

    A Construtec despende 400 mil cruzeiros para apresentar seu projeto, desdobrado em maquetes, em grficos coloridos e em quadra-dos de alumnio. Lcio Costa, para fazer o mesmo, gastara 25 cruzeiros em papel comum, lpis, tinta, borracha, assim como 64 horas de traba-lho, e arrebatara o premio.

    O QUE ERA, ENTO, O BRASIL

    O contato direto que, desde a mocidade sempre mantive com o interior do pas, deu-me a noo precisa de um conjunto de proble-mas que no poderiam ser resolvidos se a evoluo da economia nacio-nal continuasse a ter, como traado predominante, uma forte dependn-cia das atividades primrias. Assumi a Presidncia da Repblica cnscio dessa realidade. Em 1950, as atividades agropecurias do pas ocupavam cerca de 10 milhes de brasileiros, representando uma quinta parte dos seus habitantes. Desse volumoso contingente de trabalhadores todos sujeitos a um sistema de remunerao identificado com os mais baixos rendimentos do setor primrio dependiam cerca de 20 milhes de pessoas economicamente inativas.

    Tratava-se, portanto, de quase 60% da nossa populao, vi-vendo num crculo vicioso de empobrecimento progressivo, resultante do latifndio improdutivo e da falta de tudo o que era necessrio me-lhoria da produtividade.

    Por outro lado, os 21 milhes de habitantes da zona urbana eram apenas menos pobres do que os habitantes do campo, pois o Bra-sil de 1950 tinha um parque manufatureiro ao extremo deficiente. Da fora de trabalho industrial, ento recenseada, mais de 80% se ocupavam em

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    atividades pouco exigentes do ponto de vista da formao profissional. Predominando, no conjunto do operariado urbano, o trabalho no qua-lificado, a remunerao do reduzido contingente de 1.300.000 trabalha-dores destina-se, em sua maior parte, aos gastos de alimentao, pouco sobrando para os bens durveis de consumo.

    Refletia-se esse grau de pobreza generalizada na renda nacio-nal de 1951, estimada pela Comisso Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econmico em apenas US$6.750 milhes, o que equivalia a uma renda per capita de to-somente 137 dlares da poca.

    Minha opo era clara e definitiva: o Brasil teria que produzir tudo aquilo que constitui o ncleo original do enriquecimento dos po-vos h mais tempo empenhados na industrializao de grande porte. Industrializar aceleradamente o pas; transferir do exterior para o nosso territrio as bases do desenvolvimento autnomo; fazer da indstria manufatureira o centro dinmico das atividades econmicas nacionais isto resumia o meu propsito, a minha opo.

    Lancei-me ao, impulsionado pela certeza de que todos os objetivos desenvolvimentistas do meu governo representavam a busca de solues economicamente acertadas para a superao dos pontos cr-ticos da nossa economia. Teria de concentrar meus esforos na monta-gem da infra-estrutura estradas, portos, navegao, usinas de energia eltrica, telecomunicaes e implantao das indstrias de base e inds-trias complementares da agricultura. Com esse objetivo, no meu gover-no foram reformuladas as legislaes que regulavam o Fundo de Reno-vao da Marinha Mercante, Imposto nico de Combustveis (petrleo, rodovias e ferrovias), Imposto nico de Energia Eltrica e Lei de Tari-fas. Essa reformulao foi concebida de forma a permitir que os recur-sos auferidos ficassem imunes ao processo inflacionrio e independen-tes de decises administrativas e, ou, polticas.

    Chefiando um governo disposto a trabalhar em regime de urgncia, criei o Conselho do Desenvolvimento um dia aps minha posse. rgo interministerial, diretamente subordinado Presidncia da Repblica, tinha por misso coordenar as medidas relacionadas com a poltica econmica e, desse modo, a promoo do desenvolvi-mento econmico.

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    No entanto, muitos dos objetivos, que seriam estabelecidos na-quele Programa, comearam a ser perseguidos desde a primeira semana da minha administrao. O tempo era curto e revelava-se imensa a tarefa que me competia executar. Assim como fizera em Minas Gerais, durante a campanha eleitoral, percorrendo o Estado inteiro, para tomar conheci-mento pessoal de suas deficincias e do seu atraso, repeti a experincia, em escala nacional, por ocasio da jornada para a sucesso presidencial.

    O QUE DEVERIA SER A CIDADE

    No incio de 1957, o deserto do Planalto Central j estava convertido num imenso canteiro de obras. Havendo sido difundida a notcia do que ali estava sendo feito, acorreram operrios de todos os quadrantes do Brasil, notadamente do Nordeste. Em fevereiro, acha-vam-se em atividade na regio cerca de trs mil trabalhadores. Mquinas iam e vinham, aplainando o terreno, abrindo valas para o assentamento das redes subterrneas de gua, esgoto, luz e telefone, e removendo ter-ra, para o incio das construes.

    Mesmo antes do Plano Piloto ser aprovado, diversas provi-dncias haviam sido tomadas naquele stio do Planalto Central. Promovi a organizao de uma subcomisso para fixar, dentro do polgono que estava sendo desapropriado, as reas destinadas horticultura, avicul-tura e produo leiteira. Como a Novacap no dispunha ainda de ver-bas, autorizei o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico a fa-zer-lhe um emprstimo, no valor de 113 milhes de cruzeiros, para a construo da usina de Cachoeira Dourada, nos limites de Minas Gerais e Gois, destinada a abastecer, na segunda etapa de funcionamento, aquela zona. E, por fim, enviei diversos tcnicos a Gois, com incum-bncia de realizar observaes na rea, para a elaborao imediata de uma carta geogrfica do local da futura capital, com vistas prospeco dos materiais de construo, ao reflorestamento da zona e fixao das variaes meteorolgicas, de forma a serem assinaladas, num determina-do perodo, as curvas de temperatura.

    Durante a campanha eleitoral, havia sobrevoado o Planalto Central em todas as direes e, olhando atravs da vigia de bordo, tenta-

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    ra, muitas vezes, visualizar o retngulo imaginrio que me habituara a ver em todos os mapas do Brasil. Era uma realidade apenas simblica, figurada nos mapas e referida nos livros, mas que, de fato, no existia. Expressava uma aspirao, vinda do passado, e que tivera como exem-plos de emulao Belo Horizonte e Goinia, inauguradas respectiva-mente em 1897 e 1942. Depois que assumi a Presidncia, porm, ao so-brevoar o local, tinha uma viso antecipada do que seria a cidade que pretendia construir. Imaginava as grandes crateras, que seriam abertas, para receber o cimento e os vergalhes, precursores das estruturas que sustentariam os edifcios. Via as grandes avenidas que iriam ser rasgadas; os palcios que se ergueriam para abrigar o governo; os monumentos que embelezariam e emprestariam um sentido revolucionrio ao com-plexo urbano.

    Entretanto, a partir de 2 de outubro de 1956, quando meu avio pousou, pela primeira vez, no Planalto, as viagens que fazia ao lo-cal j no continham mais qualquer resqucio de sonho. Eram visitas de inspeo, com o objetivo de estimular os operrios, fazendo com que eles batessem recordes de velocidade na execuo das obras de que esta-vam encarregados. A construo do Catetinho havia sido uma iniciativa pioneira. Pioneira em todos os sentidos. Seguiram-se as construes dos galpes de madeira, para acolher os primeiros trabalhadores. Chegaram, depois, as barracas militares, destinadas aos engenheiros. E tiveram in-cio, por ltimo, as obras da abertura da Rodovia Anpolis-Braslia.

    Tudo corria bem, e com a velocidade que eu costumava im-primir aos empreendimentos que levava a efeito. Contudo, para que aquele ritmo fosse mantido seria necessria minha presena frequente no Planalto. Todavia, com oito horas de vo ida e volta despendidas em cada viagem, teria de espaar minhas visitas. Da o interesse que concentrei na obteno de um meio de transporte mais rpido do que o ronceiro DC-3. Conversei com o Brigadeiro Fleiuss, ministro da Aero-nutica, e dei-lhe autorizao para a aquisio de dois Viscount, de fa-bricao inglesa marca que na poca liderava a corrida internacional pela supremacia area - , sendo um para a Presidncia da Repblica e outro para aquele ministrio. Enquanto aguardava a chegada dos Vis-count, providenciei para que se construsse o aeroporto de Braslia e se desse incio ao levantamento da barragem do Parano. Niemeyer, aten-

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    dendo minha solicitao por ocasio da nossa primeira visita ao Pla-nalto, j tinha desenhado o hotel de turismo, que recebeu o nome de Braslia Palace Hotel.

    Niemeyer trabalhava com incrvel velocidade. Poucos dias mais tarde, entregou-me o projeto do palcio presidencial. Examinei-o com a maior ateno e conclu que, apesar do seu esforo, ele no havia emprestado obra a monumentalidade que se impunha residncia do chefe do governo. Conquanto fosse uma obra-prima de concepo ar-tstica, o edifcio no refietia, no seu conjunto, o que eu, de fato, deseja-va. Disse-lhe, ento, com a franqueza permitida pela amizade que nos li-gava: "O que eu quero, Niemeyer, um palcio que, daqui a cem anos, ainda seja admirado." Niemeyer sorriu, dando a entender que havia cap-tado meu pensamento. Tomando o projeto, retornou ao seu barraco de madeira e comeou a desenhar outro modelo. A noite foi passada em claro. No dia seguinte, muito cedo, quando tomava o desjejum no Cate-tinho, Niemeyer me procurou, com um rolo de papel vegetal sob o bra-o. O novo projeto estava pronto. Estendeu a planta sobre a mesa, e no pude conter um gesto de admirao. Ali estava um edifcio que era uma revelao. Leveza, grandiosidade, lirismo e imponncia as quali-dades mais antagnicas se mesclavam, interpenetravam-se, para realizar o milagre da harmonia do conjunto. Aprovei com entusiasmo o projeto de lei e dei ordem para que a construo se iniciasse imediatamente. Tratava-se do Palcio da Alvorada, cujas colunas em formas de leques invertidos, emergindo da gua espelhante, constituem, hoje, o maravi-lhoso smbolo plstico de Braslia.

    No palcio, uma parte seria destinada aos trabalhos adminis-trativos do presidente; outra conteria biblioteca, sales de estar, salas de msica e recreio, alm de outra destinada s acomodaes necessrias famlia do chefe da Nao. De um lado do palcio, surgiria uma peque-na e formosa capela; do outro, um pavilho de servios gerais. O prdio de dois pavimentos formaria um conjunto nico, com suas colunas ex-ternas, separadas por espao de dez metros, ligadas umas s outras por elementos curvos, para mant-lo a l,30m acima do cho, e as termina-es em ponta, tanto no piso como na cobertura, que lhe dariam maior leveza e sugeriam a impresso de estar simplesmente pousando sobre o solo. Fixei a data para a concluso da obra: maro de 1958.

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    Apesar da intensa atividade que se observava no Planalto, os trabalhos ali realizados no deixavam de ser ainda preliminares. Trata-va-se de uma limpeza do terreno. Ou melhor, de preparao do local para se dar incio s edificaes que comporiam a fisionomia da nova capital. A despeito do entusiasmo com que me dediquei empresa, no tinha, no incio, uma ideia formada sobre o gnero da cidade que iria construir. Ocorriam-me expresses conceituais - "metrpole do futu-ro", "urbis interplanetria", "cidade do ano 2000" - as quais, sobrecarre-gadas de inegvel acento fantasmagrico, no se cristalizavam numa rea-lidade concreta de representar, em sntese, o que, desde muito, tinha em mente.

    Ao contemplar o Plano Piloto de Lcio Costa, verifiquei que se refletia nele a plenitude do que no conseguia traduzir em palavras. No entanto, o Plano Piloto, com o qual Lcio Costa havia ganho o con-curso no Rio, no passava de um traado simples, de um esboo, acom-panhado de uma exposio de motivos, em cujo texto ele desenvolvera a tese do que deveria ser a futura capital. O que estava ali era uma "ideia", como muito bem havia dito Sir William Holford, e essa ideia re-duzia, em linhas e em traos, o que imaginava deveria ser Braslia. Oua-mos o que escreveu Lcio Costa, no seu estilo admirvel, inconfundvel: "A liberao do acesso ao concurso o reduziu, de certo modo, consul-ta quilo que, de fato, importa, ou seja, a concepo urbanstica da cida-de propriamente dita, porque esta no ser, no caso, uma decorrncia do planejamento regional, mas a causa dele: a sua fundao que dar ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado da regio. Trata-se de um ato desbravador, nos moldes da tradio colonial. E o que se in-daga como, no entender de cada concorrente, uma tal cidade deve ser concebida."

    Aps essa introduo, que uma obra-prima de acuidade em relao s muitas significaes de Braslia, descreveu, sucintamente, o tipo de cidade que, na sua opinio, deveria ser a nova capital do Brasil: "Ela deve ser concebida no como simples organismo capaz de preen-cher, satisfatoriamente, sem esforo, as funes vitais, prprias de uma ci-dade moderna qualquer, no apenas como URBES, mas como CIVLTAS, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. E para tanto, a condi-o primeira achar-se o urbanista imbudo de uma certa dignidade e nobre-

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    %a de inteno, porquanto desta atitude fundamental decorrem a ordena-o e o senso de convenincia e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejvel carter monumental. Monumental no no sentido da ostentao, mas no sentido da expresso palpvel, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade para o trabalho ordena-do e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazvel, prpria ao devaneio e especulao intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, alm do centro de governo e administrao, um foco de cultura das mais lcidas do Pas."

    Lcio Costa, a par dessa lio de filosofia e sociologia, exps sua concepo desta maneira surpreendente: "a) - Nasceu do gesto pri-mrio de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzan-do-se em ngulo reto, ou seja, o prprio Sinal da Cruz; b) - Procurou-se depois a adaptao topografia local, ao escoamento natural das guas, melhor orientao, arqueando-se um dos eixos a fim de cont-lo no tringulo equiltero que define a rea urbanizada; c) - E houve o prop-sito de aplicar os princpios francos da tcnica rodoviria - inclusive a eliminao de cruzamentos - tcnica urbanstica, conferindo-se ao eixo arqueado, correspondente s vias naturais de acesso, a funo cir-culatria-tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais, para o trfego local, e dispondo-se ao longo desse eixo o grosso dos setores residenciais; d) Com a decorrncia dessa concentrao residencial, os centros cvicos e administrativos, o setor cultural, o centro de diverses, o centro esportivo, o setor administrativo municipal, os quartis, as zonas destinadas armazenagem, ao abastecimento e s pequenas indstrias locais e, por fim, a estao ferroviria, foram-se naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal que passou a ser, assim, o eixo monumental do sistema."

    E prosseguiu Lcio Costa, mais adiante: "Veja-se agora, como, nesse arcabouo de circulao ordenada, se integram e articulam os vrios setores. Destacam-se, no conjunto, os edifcios destinados aos poderes fundamentais que, sendo em nmero de trs e autnomos, en-contraram no tringulo equiltero, vinculado arquitetura da mais re-mota antiguidade, a forma elementar apropriada para cont-los. Criou-se, ento, um terrapleno triangular, com arrimo de pedra vista, sobrelevado na campina circunvizinha, a que se tem acesso pela prpria

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    rampa da auto-estrada que conduz residncia e ao aeroporto. Em cada ngulo dessa praa Praa dos Trs Poderes localizou-se uma das ca-sas, ficando as do governo e do Supremo Tribunal na base, a do Con-gresso no vrtice, com frente igualmente para uma esplanada ampla, dis-posta num segundo terrapleno, de forma retangular e nvel mais alto, de acordo com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo o seu permetro. A aplicao, em termos atuais, dessa tcnica oriental milenar dos terraplenos garante a coeso do conjunto e lhe confere uma nfase monumental imprevista. Ao longo dessa esplanada o mall dos ingleses, extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles -foram dispostos os ministrios e autarquias. Os das Relaes Exteriores e da Justia ocupando os cantos inferiores, contguos ao edifcio do Congresso e com enquadramento condigno; os ministrios militares constituindo uma praa autnoma, e os demais ordenados em sequncia - todos com reas privativas de estacionamento - sendo o ltimo o da Educao, a fim de ficar vizinho do setor cultural, tratan-do maneira de parque para melhor ambientao dos museus, da bi-blioteca, do planetrio, das academias, dos institutos, e tc , setor esse tambm contguo ampla rea destinada Cidade Universitria com o respectivo Hospital de Clnicas e onde tambm se prev a instala-o do Observatrio. A Catedral ficou, igualmente, localizada nessa esplanada, mas numa praa autnoma disposta lateralmente, no s por questo de protocolo, uma vez que a Igreja separada do Esta-do, como por questo de escala, tendo-se em vista valorizar o monu-mento e, ainda, principalmente por outra razo de ordem arquitet-nica; a perspectiva de conjunto da esplanada deve prosseguir desim-pedida at alm da plataforma, onde os dois eixos urbansticos se cruzam."

    A est, em linhas gerais, o que Lcio Costa julgava como Braslia deveria ser. Suas ideias coincidiam, exatamente, com o que eu sentia em relao ao problema. Braslia no poderia e no deveria ser uma cidade qualquer, igual ou semelhante a tantas outras que existiam no mundo. Devendo constituir a base de irradiao de um sistema desbravador que iria trazer, para a civilizao, um universo irrevelado, teria de ser, forosamente, uma metrpole com caracters-

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    ticas diferentes, que ignorasse a realidade contempornea e se voltas-se, com todos os seus elementos constitutivos, para o futuro.

    E foi esse, sem dvida, o pensamento que orientou a minha ao, na determinao de constru-la.

  • Incio da batalha

    ^J1L. J ^ ^ e a l i z a d o o concurso para o Plano Piloto, criaram-se di-versas comisses para, sob a coordenao de Lcio Costa, ser comple-mentada a obra urbanstica pioneira. Assim, organizaram-se equipes para a apresentao dos planos especficos o Plano Urbanstico, o M-dico-Hospitalar, o de Assistncia Social e o de Abastecimento.

    Quando o trabalho de Lcio Costa ficou concludo, Oscar Niemeyer, que j havia entregue os projetos do Palcio da Alvorada e do Braslia Palace Hotel, foi convocado, por mim, para projetar as edifi-caes da nova cidade. Para fazer frente a todas essas despesas, o gover-no tinha subscrito o capital de quinhentos milhes de cruzeiros, estabe-lecido pela Lei n2 2.874, que autorizava a mudana da capital. Essa quantia, conquanto vultosa para a poca, era insuficiente para atender a todos os compromissos que a Novacap iria assumir. Dei ordem, ento, aos rgos federais - notadamente a Caixa Econmica, o Banco do Bra-sil, os Institutos de Previdncia Social e o Servio de Alimentao da Previdncia Social que desviassem parte de seus respectivos oramen-tos, que seriam investidos em obras a serem realizadas no Planalto.

    O SAPS Servio de Alimentao da Previdncia Social -atendeu prontamente minha ordem. Inaugurou junto ao acampamento da Novacap um moderno restaurante, que passou a fornecer cerca de 1.500 refeies aos operrios e perto de oitenta desjejuns a crianas, fi-

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    lhos de trabalhadores. Entrementes, acelerava-se a atividade da Nova-cap, com incio da execuo de numerosas obras. Simultaneamente com as centenas de operrios que diariamente chegavam ao local, grandes fir-mas de construtores abriam seus escritrios na rea, levando mquinas e os indispensveis equipamentos.

    Em fevereiro de 1957, cerca de duzentas mquinas estavam em atividade na regio, trabalhando dia e noite, sem qualquer interrup-o. Eram ainda mquinas pequenas, dada a falta de estradas, mas, em julho, ali chegou o primeiro dos grandes tratores, que logo seriam cente-nas. Uma verdadeira batalha tivera incio no cerrado, o qual, retalhado pelos equipamentos de construo, foi sendo empurrado para as extre-midades da rea do Plano-Piloto. Em seu lugar surgiu a poeira - a famo-sa poeira de Braslia - vermelha, oleosa, que se infiltrava em tudo e no havia sistema de lavagem capaz de elimin-la. Os operrios, os engenheiros, os tcnicos j no eram os mesmos. Tornaram-se de uma cor averme-lhada, com as roupas e os cabelos apresentando a mesma tonalidade.

    Certa manh, eu estava na varanda do Catetinho, quando se aproximou de mim um homem alto e forte, segurando um enorme cha-pelo de feltro. "Ento, como vai sua mquina Singer?" - Perguntei-lhe com bom humor, a fim de deix-lo vontade. "Sempre costurando, presidente" respondeu, estendendo a mo para me cumprimentar. A manh era clara, e diante de ns abria-se o cenrio agreste de Braslia. A "mquina Singer" era o teco-teco de Bernardo Sayo, e quem responde-ra minha pergunta fora o prprio pioneiro.

    Sayo ali estava porque eu havia mandado cham-lo. Desejava fazer-lhe um apelo e, nessas condies, nada melhor do que uma con-versa a dois. Data: 10 de novembro de 1956. Braslia, naquela poca, s existia na minha imaginao. Quem olhasse da varanda do Catetinho poderia ter uma ideia da tarefa gigantesca que me aguardava. Estvamos no incio da construo ou, para ser realista, no incio do incio de tudo.

    A criao da Novacap no havia sido bem recebida por muita gente. A falta de um motivo melhor para combat-la, os adversrios da mudana criticavam o fato de a companhia ter sua sede no Rio e, no Rio, residirem todos seus diretores. Entretanto, a empresa no poderia, na poca, se transferir para Braslia... simplesmente porque no existia uma s casa ali construda, com exceo do Catetinho. Os adversrios,

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    porm, no tinham olhos para aquela realidade. Desejavam dificultar a mudana, e transformaram a sede da Novacap em bode expiatrio. Dos diretores da companhia, o nico que tinha residncia fixa em Gois era Bernardo Sayo. Da a razo por que mandara cham-lo.

    Sayo era um pioneiro nato. Muito antes de existir Braslia, j desbravara o serto goiano, fundando em Ceres uma colnia agrcola. Fizera surgir do cho uma cidade, e ela progredira, sendo alvo da admi-rao dos que se aventuravam por aquelas ermas paragens. Quando lan-cei a ideia da mudana da capital, fora dos primeiros a se alistarem na cruzada. Cooperou na construo do Catetinho e na ereo de muitas das barracas e galpes que abrigaram os primeiros engenheiros e traba-lhadores.

    Quem olhasse o local, onde estava sendo iniciada a constru-o de Braslia, sempre o veria: chapelo na cabea, rosto queimado de sol, suando em bica. Estava em toda parte, e sempre em atividade. Re-servava para si as tarefas mais rduas e perigosas, e as executava com seu inextinguvel bom humor. A beleza viril do fsico privilegiado alia-va-se invejvel formao moral. Era bom por natureza e bravo por ins-tinto. Terminada a faina do dia, tomava seu teco-teco e rumava para a fazenda, onde morava, nas imediaes de Anpolis.

    Naquele momento, ele estava diante de mim na varanda do Catetinho. O apelo que iria fazer-lhe era para que passasse a morar em Braslia. J que Israel Pinheiro e os demais diretores no poderiam ainda residir em Braslia, que ele o fizesse. Era filho adotivo de Gois, pois ha-via sido eleito vice-governador do Estado. Sua funo ali seria a de re-presentar a diretoria. Expliquei, ainda, que o sacrifcio que exigia dele seria temporrio. Duraria apenas o tempo que a Novacap necessitasse para se organizar. E resumi, numa pergunta, os argumentos antes ex-postos: "Voc topa vir para c?"

    Como todo pioneiro, Sayo era de resolues rpidas. Res-pondeu, fazendo uma pergunta: "Que dia o senhor quer que eu esteja aqui?" - "Ontem", respondi-lhe, parafraseando Churchill numa situao premente durante a Segunda Guerra Mundial. Sayo pegou o chapu e se despediu.

    No dia seguinte, s 6 horas da manh, aps haver tomado o meu desjejum, cheguei janela para contemplar o espetculo da ativida-

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    de dos diferentes canteiros de obras. Mal olhara e percebi que um cami-nho se aproximava a grande velocidade, levantando um mar de poeira. Aguardei para ver quem era, embora j desconfiasse de quem poderia ser. Era, de fato, Sayo que chegava, com a esposa e as duas filhas, vin-do de Anpolis. O caminho estacionou com violncia, fazendo ranger os freios. E, tirando o chapu, ele gritou, com entusiasmo. "Pronto, chefe. Aqui estou para cumprir suas ordens." Perguntei-lhe onde iria se instalar, e respondeu-me com o bom humor caracterstico dos bandei-rantes: - "Primeiro, debaixo daquela rvore, e, depois, armarei uma bar-raca." Fez um gesto largo de despedida, acionou o motor do caminho e rumou para a rvore apontada.

    A jornada da integrao prosseguia, e acusava cada ms um aumento de velocidade. Com Sayo testa dos trabalhos, a atividade ha-via sido redobrada. Braslia surgia do cho aos poucos, criada pelo es-foro de um punhado de pioneiros.

    Ao findar o ano de 1956, a cidade j dispunha de um aeropor-to para aeronaves de grande porte, com 3.000 metros de pista, achan-do-se em concluso o piso de concreto. As rodovias de intercomuni-caes com as cidades vizinhas estavam em execuo acelerada. A Braslia-Anpolis, com 120 quilmetros de extenso e toda asfaltada, deveria ficar concluda no prazo de um ano. Igualmente nesse prazo iria ser entregue ao trfego a rodovia Braslia-CristalinaParacatu, num percurso de 280 quilmetros, em direo a Belo Horizonte. O Catetinho vinha desempenhando a contento suas funes de residn-cia provisria do presidente da Repblica. No setor ferrovirio, pro-jetava-se a construo da Estrada de Ferro GoisBraslia, enquanto no setor hidreltrico prosseguia a construo da barragem do rio Pa-rano, destinada usina eltrica. No que dizia respeito s constru-es urbanas, desenvolviam-se em ritmo acelerado os projetos do edifcio para a sede da Novacap e de casas provisrias para engenhei-ros, funcionrios e operrios. Entretanto, o incio das construes particulares em grande escala estava dependendo dos estudos com-plementares do Plano Piloto, realizados pelas diferentes comisses, criadas por Lcio Costa. Mesmo assim, prosseguia em ritmo acelerado a construo de dois hotis, um definitivo e outro provisrio, nas imediaes do aeroporto.

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    O imenso espao vazio do Planalto j no se mostrava to deserto como antes. Operrios chegavam de todas as regies do pas em busca de trabalho. Eram os candangos, que derivavam do Nordeste, do interior de Gois e dos municpios das fronteiras de Minas e de Mato Grosso, a fim de "dar uma mo" na obra de desbravamento do Planal-to. Surgiam sem bagagem, apenas com a roupa do corpo. Acertavam as condies com os mestres-de-obra e, depois de alojados num barraco de madeira, faziam sua apario nas frentes de trabalho. No rastro dos candangos surgiram as atividades comerciais pioneiras.

    Formara-se o Ncleo Bandeirante, ou melhor, a Cidade Livre, onde era permitido iniciativa particular desenvolver-se fornecendo o necessrio aos moradores de Braslia. Hotis, penses, bancos, empresas de aviao, padarias, aougues, agncias de automveis, postos de gaso-lina foram surgindo, construdos de madeira, no atropelo caracterstico do formigueiro humano que se organizava. Era a saga do rush do ouro ocorrido no Oeste norte-americano, reproduzido em idnticas cores dramticas, no corao do Brasil.

    No setor da assistncia social, as primeiras iniciativas foram, alm da do SAPS com seu restaurante, a do IAPI, com a instalao de uma agncia, que constitua a etapa experimental de uma rede de prote-o mo-de-obra pioneira, em atividade no deserto. O candango, que antes corria o risco de morrer de fome ou ser dizimado por enfermida-des nas zonas de onde havia vindo, j tinha assistncia mdica e fre-quentava sua cantina. Proteo aos deserdados no mesmo local, pouco antes inacessvel, onde as onas ainda rondavam, noite, os acampa-mentos.

    Sobrevoando o Planalto que se tinha uma viso de conjunto dos trabalhos que ali estavam sendo realizados. Caminhes iam e vi-nham, levando ou trazendo material de construo. Bulldozers, s deze-nas, revolviam a terra, abrindo clareiras no cerrado. Estacas eram finca-das, para ereo dos andaimes que emprestavam paisagem o aspecto de um gigantesco canteiro de obras. Aqui e ali j se viam as torres met-licas das estaes de telecomunicaes, atravs das quais centenas de mensagens eram enviadas, pedindo cimento, cobrando remessas de material eltrico, exigindo jipes, caixas-d'gua, tambores de gasolina, gneros enlatados, peas de veculos.

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    Era um mundo que despertava no cerrado, ressoante de sons metlicos e estuante de energia humana. Os guinchos bracejavam junto aos andaimes, erguendo pedras e assentando vigas. Crateras eram aber-tas por toda parte, e, por elas, desapareciam toneladas de concreto. Mar-telos batiam, sirenas soavam, motores roncavam, enchendo o chapado de rudos estranhos. Ao longo das estradas de cho, ainda vermelhas da terra recm-cortada, enfileiravam-se as armaes de pinho que iriam re-ceber ou j haviam recebido os vergalhes de ferro que dariam consis-tncia s vigas de cimento armado. Por toda parte, homens trabalhando, engenheiros consultando plantas, veculos despejando material.

    Os servios de construo de Braslia foram praticamente ini-ciados em fevereiro de 1957. A celeridade que Israel Pinheiro pde im-primir Novacap e os resultados que coroaram seus esforos resulta-ram, de um lado, da flexibilidade administrativa que lhe foi outorgada e, de outro, do harmonioso funcionamento dos seus rgos soberanos: o Conselho Administrativo, o Fiscal e a Diretoria, todos integrados por um tero de elementos pertencentes Oposio.

    Esse detalhe deve ser ressaltado, para que se constate a feio democrtica e o escrpulo com que agi, ao assumir aquela assustadora responsabilidade. Sabia que os adversrios polticos poderiam embara-ar a ao do governo. Mas preferia que isso acontecesse a dar a impres-so de que me comportava ditatorialmente. A Democracia no vive de aparncia. A prtica que lhe compe a autenticidade.

    Havia outra razo, de natureza funcional, que impunha a ne-cessidade da criao de um ambiente democrtico na rea das atribui-es da Novacap. Somente a adoo de um regime de responsabilidade coexistente e dividida, aliado rapidez da tomada de decises, permitiria levar avante, com xito, empreendimento daquela magnitude. Seria a flexibilidade, caracterstica das sociedades annimas, posta a servio de uma obra a ser concluda no prazo que, por mim, lhe fora fixado.

    No competiria Novacap, porm, edificar todo o conjunto da nova capital. Suas atribuies eram limitadas. Ela realizaria a urba-nizao disposio geral das quadras, aberturas de ruas, instalaes de parques e playgrounds, servios bsicos de utilidade pblica, tais como gua, esgotos, fora e luz - e construiria o ncleo da adminis-trao federal: palcios presidenciais, edifcios ministeriais, casas do

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    Legislativo e do Judicirio. As demais edificaes seriam entregues ini-ciativa privada.

    Entretanto, nada poderia ser executado - com exceo natu-ralmente das obras prioritrias j em andamento - fora das especifica-es do Plano Piloto. Tratava-se de um esquema que havia fixado, em termos urbansticos e arquiteturais, o que deveria ser a futura capital.

    Oscar Niemeyer, convocado por mim, havia se transferido para o Planalto. Disse-lhe, quando lhe fiz o convite para ser o arquiteto da nova capital: "Vou lhe dar a mesma oportunidade que Jlio II pro-porcionou a Miguel Angelo, ao pedir-lhe que fizesse seu tmulo." Nie-meyer achou graa na frase, mas no deixou de meditar sobre a similari-dade das situaes.

    De fato, ele estava integrado, de corpo e alma, naquela obra, nica no gnero. Morava num barraco, num compartimento isolado, que converteu em estdio, colocando ali suas pranchetas. Trabalhava sem cessar pois o ritmo que prevalecia na execuo das obras no com-portava descanso. Sucediam-se, assim, os projetos. Niemeyer nunca re-velou a menor ambio pecuniria. Perguntei-lhe, um dia: "Quanto voc quer ganhar?" Respondeu-me, sorrindo: "O mesmo que o governo dar a um diretor de qualquer servio." E assim foi feito. Tudo o que foi construdo em Braslia, e que valeria milhes nas mos de um artista ambicioso, custou a insignificante soma de quarenta contos de ris men-sais, ou seja, quarenta cruzeiros atuais.

    Depois do Palcio da Alvorada e do Braslia Palace Hotel, chegara a vez dos edifcios governamentais, que obedeceram seguinte ordem: a) o projeto-padro para os Ministrios; b) o Palcio do Con-gresso; c) o Palcio do Planalto; d) o Palcio do Supremo Tribunal Fe-deral; e) a Catedral; e f) o Teatro Municipal. Para se ter uma ideia do tra-balho hercleo que ele realizou, basta dizer que s o Palcio do Con-gresso tinha 120 mil metros quadrados de rea a ser construda. Em face do desafio, com os empreiteiros e seus operrios j instalados no local das obras, muitas vezes ele no dispunha de tempo para elaborar um projeto completo. Para no atrasar o andamento das obras, entregava aos engenheiros simples rabiscos, com uma ideia sucinta do que seria o edifcio, de modo que, enquanto se faziam as fundaes para assenta-mento dos alicerces, pudesse elaborar o respectivo projeto.

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    Assim estava sendo construda Braslia. Velocidade. Esprito de pioneirismo. Audcia de fazer acordar um pas que vivera dormindo durante quatrocentos anos. No se pense, contudo, que, tendo minha ateno concentrada na mudana da capital, eu houvesse negligenciado os outros 30 itens do meu Programa de Metas.

    Por ocasio do primeiro aniversrio do meu governo - 31 de janeiro de 1957 - inaugurei, como havia prometido aos eleitores de San-tos Dumont, durante a campanha eleitoral, a Rodovia Belo Horizonte, com 245 quilmetros asfaltados. Em fevereiro, no segundo ms da mi-nha administrao, o pas havia batido um recorde na exportao de caf, vendendo 1.800.000 sacas, com rendimento superior a 110 milhes de dlares. Promovi entendimentos com o Expor-Import Bank, e o Brasil obteve um financiamento, a longo prazo, de 125 milhes de dla-res para renovao do equipamento ferrovirio e reaparelhamento e dra-gagem dos portos nacionais. Em junho de 1956, haviam chegado ao Brasil 27 carros eltricos e, em dezembro do mesmo ano, 99 outros car-ros. Fora assinado um contrato com a firma alem Forrestal A.G., de Essen, para se quadruplicar a produo da Companhia de Ferro e Ao de Vitria, pioneira da siderurgia no Estado do Esprito Santo.

    A par dessas providncias, preocupei-me com o problema da energia eltrica. Lucas Lopes, que fora o idealizador da Cemig durante o meu governo em Minas Gerais, elaborou o plano de expanso da usina de Paulo Afonso, notadamente no setor de distribuio de sua energia, o que foi feito no prazo prefixado. Iniciou-se, ento, a interiorizao das linhas de transmisso daquela usina, num total de 882 quilmetros, em diferentes direes, com a montagem de 15 subestaes., de forma a be-neficiar-se, no menor prazo possvel, a regio geoeconmica tributria daquele empreendimento.

    Em abril de 1956, autorizei a constituio da indstria auto-mobilstica e fixei o prazo de 30 dias para a concluso dos estudos. Esse meu despacho estourou como uma bomba no seio do governo. Trinta dias para a apresentao dos estudos e sugestes definitivas! Apesar das reclamaes, Lcio Meira cumpriu rigorosamente o prazo. Elaborou-se um projeto de decreto, atravs do qual eram criadas as condies cam-biais e financeiras que regulariam as inverses naquele setor e estimula-riam o rpido estabelecimento de fbricas de jipes e caminhes no pas.

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    Criei, ento, o GEIA - Grupo Executivo da Indstria Automobilstica -que logo se ps em ao. Em junho, chegou ao Brasil o Sr. E. Riley, di-retor-geral da General Motors Corporation, a fim de estudar a possibili-dade da instalao, em So Jos dos Campos, no Estado de So Paulo, de uma fbrica planejada para atingir, at 1963, a produo de 100 mil veculos anualmente. A Comisso do Vale do So Francisco havia con-cludo os estudos das obras da barragem de Trs Marias, cujo plano de financiamento j me fora encaminhado, a fim de que tivesse incio efeti-vo a construo da obra pela Cemig. Trs Marias acarretaria a inundao de uma rea dez vezes maior do que a baa de Guanabara e aproveita-ria um potencial de energia equivalente a 500 mil kW. Poucos dias mais tarde, aprovei a exposio de motivos do Conselho do Desen-volvimento sobre a barragem de Furnas, no rio Grande, destinada a produzir um milho e cem mil kW. E iniciei entendimentos com a misso nipnica, chefiada pelo superintendente da Companhia Side-rrgica de Yewata, para a construo, no Quadriltero Ferrfero de Minas Gerais, da grande empresa que seria, pouco depois, a Usimi-nas, com um capital, em princpio, de 6 bilhes de cruzeiros, e uma produo inicial de um milho de toneladas.

    Ao completar o primeiro semestre de governo, falei Nao, prestando conta dos meus atos: duplicao da produo da usina de Volta Redonda; o progresso alcanado na implantao da indstria au-tomobilstica, com o compromisso, assumido pela Willys-Overland, de produzir jipes, no pas, no prazo de trinta e seis meses; da Vemag, para produo de camionetas e furges, e da Mercedes-Benz, para a fabrica-o de caminhes de porte mdio, movidos a leo diesel; aquisio de doze navios nos Estados Unidos; e aumento de 200% nos trabalhos de construo rodoviria.

    Mends-France afirmou que governar escolher. De fato, o sentido das opes feitas que indica a profundidade de uma obra administrativa. Diante de mim, abriam-se inmeros caminhos, pois que, no Brasil, quase tudo estava por ser feito. Da a razo por que procurei agir com cautela, selecionando os setores com absoluta isen-o. Assim equacionei os problemas brasileiros no complexo estrutu-ral triangular, configurado pelos setores: indstria, transportes e co-municaes.

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    Teria de desencadear foras ou impulsos capazes de acelerar o progresso, e essas foras s poderiam provir dos plos de desenvolvi-mento, que seriam as siderrgicas, as centrais eltricas e a extensa rede de estradas, criadoras do indispensvel mdulo da industrializao. Ao lado dessas providncias, porm, teria de forar uma migrao interna, de for-ma a obter uma melhor distribuio da camada populacional. Em vez de densas concentraes na faixa litornea, melhor seria que se forasse um deslocamento das massas para o interior, atravs de incentivos relaciona-dos com a melhoria dos padres de vida no Planalto Central.

    A ideia teria um duplo significado: imporia uma correo aos desvios do processo evolutivo e representaria uma nova fora posta disposio da integrao nacional.

    A IDEIA DO CRUZEIRO RODOVIRIO

    Braslia, apesar das dificuldades de acesso, estava sendo construda num ritmo nunca verificado no pas. A estrada, que vinha de Anpolis, era um formigueiro humano. Tratava-se de uma obra prioritria pois, sem ela, estaria impedido o fluxo de materiais indis-pensveis s construes iniciadas. Alm do mais, com a abertura dessa rodovia, a futura capital ficaria ligada Estrada de Ferro Gois, o que representaria um respiradouro para os que exerciam suas ativida-des no Planalto.

    Alm dessa rodovia, que seria pavimentada, cuidava-se de ter-minar os estudos da ligao de Braslia com Belo Horizonte, atravs de Cristalina, no Estado de Gois, e Paracatu, em territrio mineiro, da qual o trecho at Paracatu j estava em construo, e providenciava-se o levantamento do traado de ligao da nova capital ao Nordeste, atravs de Barreiras, no Estado da Bahia. Quanto ao aeroporto definitivo de Braslia, a obra fora inaugurada no dia 20 de janeiro de 1957.

    A construo da nova capital e as frequentes viagens que eu empreendia, sobrevoando todos os quadrantes do nosso territrio, faziam com que se ampliasse o plano, que tinha em mente, de promover uma autntica integrao nacional. Braslia seria a base o ponto de irradi-ao dessa poltica. Entretanto, para que esse programa tivesse xito,

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    teriam de ser ligadas, umas s outras, as diferentes unidades da Federa-o, proporcionando-lhes, por fim, acesso fcil nova capital.

    Lembrava-me das muitas vezes que havia sobrevoado a Ama-znia. O avio parecia estar parado, dada a uniformidade do grandioso cenrio que o cercava. Em cima, era o cu este cu brasileiro, imenso, transparente, luminoso - , que dava a impresso de uma descomunal bola de vidro. Embaixo, o oceano da floresta tropical - cerrada, densa, ameaadora. Aquela floresta no constitua um adorno, uma franja da natureza, para emprestar maior definio ao cenrio. Era uma presena opressora, que se estendia por trs quartos do territrio do pas. Vista do alto, infundia medo e causava apreenso, e o que se ocultava sob a sua galharia era de afugentar o mais intrpido furador de mato. Trata-va-se de um verdadeiro tecido conjuntivo uma malha intrincada e fe-chada de cips - intransponvel at para os ndios. Estes, vencidos pela hostilidade da selva desde muito haviam se refugiado nas zonas da rare-fao vegetal, beira de certos rios e nas reas calcrias em que escasse-ava o humo. Como o homem branco, no afeito agressividade da sel-va, poderia conquistar aquela terra?

    A interrogao nunca estava ausente do meu esprito, e, for-a de condicionar meus pensamentos, ela se foi transformando aos pou-cos numa fixao de natureza subjetiva. Reli a histria dos bandeirantes. Anotei os roteiros desses desbravadores que, arrostando perigos e priva-es, haviam levado as fronteiras do Brasil at o mais recuado oeste. Foi uma saga de herosmo, expressa na demarcao de um pas, grande como um continente.

    Fixei o argumento de Ferno Dias, ao deixar Taubat: "Um pas se conquista pela posse da terra!" O problema que iria enfrentar era o mesmo. Uma conquista, porm mais larga, mais profunda, porque ti-nha por objetivo a posse da terra e a transformao de bens geogrficos em bens econmicos. Recordava, com frequncia, o exemplo dos Esta-dos Unidos que, em 1867, ligaram Nova Iorque e So Francisco, atravs de uma ferrovia. Era um avano de quase cem anos sobre a ideia que ento me verrumava o crebro. L, entretanto, no existia a floresta tro-pical. A terra se estendia por chapadas, vales e desertos, j transpostos sem maiores tropeos pelas diligncias dos que andavam em busca do ouro.

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    O desafio, que me aguardava, era bem mais complexo. Hum-boldt, que explorara a Amaznia, havia declarado que s num perodo de dois mil anos a regio seria conquistada para a civilizao. Conhecia perfeitamente o Inferno Verde, e sabia que o naturalista alemo racioci-nara, tendo por base os recursos tcnicos disponveis na poca. O mun-do, porm, progredira muito desde 1805, data da concluso daquela ex-pedio.

    Tive, ento, a viso do que deveria ser feito. Rasgaria um cru-zeiro de estradas, demandando dos quatro pontos cardeais, tendo por base Braslia. No se conquista uma terra se no se tem acesso a ela. E a estrada um elemento civilizador por excelncia. Concebi, pois, o plano das grandes longitudinais, cortadas, quase na perpendicular, pelas gran-des transversais. No centro do sistema ficaria Braslia, que seria uma tor-re para se contemplar o Brasil.

    A construo prvia de Braslia seria imprescindvel para o xito daquele ambicioso plano. Qualquer estrada deve ter um ponto de chegada, que justifique sua implantao. No poderia dirigi-la para o interior, faz-la rasgar a selva, sem um objetivo econmico. Seria insensato despender somas fabulosas apenas para se chegar a uma taba de ndios.

    Mas, alm da floresta, isolados do resto do Brasil, estavam os Territrios e os Estados que configuravam nossa fronteira norte-oeste. Eram unidades da Federao, filhos enjeitados da Unio, que s existiam para figurar nos mapas. Suas vias de acesso eram pelo mar, atravs de um litoral imenso e sem portos adequados, ou ao longo dos grandes rios, cujas corredeiras tornavam penosa a navegao. A ideia fermentava no meu esprito. Adquiria consistncia. Corporificava-se aos poucos.

    Havia o Programa de Metas, e, nele, os itens 8 e 9 refletiam os objetivos do governo, convertidos em cifras. O plano que tinha em mente, entretanto, extravasava da limitao numrica daquele Programa. As metas 8 e 9 condensavam as aspiraes nacionais, consideradas estas do ponto de vista apenas das necessidades urgentes do pas. Os enge-nheiros do DNER haviam trabalhado com a viso restrita ao seu setor especfico. Desconheciam que, fora e alm dos seus projetos, existiam os enormes problemas que configuravam a poltica desenvolvimentista do Governo. Da o espanto, e mesmo a resistncia do engenheiro Rgis

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    Bittencourt, diretor do DNER, quando lhe falei do plano de construir um cruzeiro de estradas, cujos braos teriam cinco mil quilmetros cada um, e que ligaria, pelo interior, as regies situadas nos quatro pontos cardeais do Brasil.

    A atitude do diretor do DNER era perfeitamente compreen-svel. Tratava-se de um homem de extraordinrias qualidades e que, cnscio das responsabilidades que lhe pesavam nos ombros, referentes execuo das Metas 8 e 9, temia ampliar desmesuradamente suas atri-buies. Receava que, no fim, dada a escassez de recursos, ficasse im-possibilitado de atend-las. O programa que recebera para executar j era o maior e o mais complexo que at ento havia sido imposto ao DNER. Teria que se desdobrar para cumpri-lo. Como se engajar, pois, num programa paralelo e preferencial, cujo volume de obras significaria praticamente a duplicao das Metas iniciais? Alm do mais, o plano de construo daquele cruzeiro de estradas vinha sendo considerado uma utopia. Diziam-no inexequvel. Quando se tentasse rasgar estradas pela Amaznia, os tratores e as motoniveladoras seriam imobilizados pelos gigantescos troncos de rvores que nenhuma fora mecnica at ento conseguira remover.

    Os argumentos dos adversrios da ideia eram ilgicos e auto-destruidores. Todos aceitavam como perfeitamente exequvel a constru-o da longitudinal BrasliaRio Grande do Sul. Julgavam impossvel, porm, a abertura da BelmBraslia e das suas congneres, a Bras-liaAcre e a BrasliaNordeste. O que preconizavam era uma soluo mais fcil: a construo de uma rodovia litornea que ligasse, nas pro-ximidades da costa, as capitais dos Estados do Norte. Rejeitavam o cruzeiro da integrao, propondo uma alternativa.

    Para mim, a litornea no representava uma alternativa. E isto pelo simples fato de que ela j estava includa nos meus planos. Desde muito, vivia impressionado com a falta de transporte entre as capitais estaduais, as quais s se comunicavam, umas com as outras, atravs de unidades da nossa precria Marinha Mercante. A implantao da inds-tria de construo naval iria resolver o problema. Tratava-se, porm, de um esquema de realizao a longo prazo. A soluo imediata seria a liga-o das capitais pelo interior, atravs da urdidura de um sistema rodo-virio.

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    A PRIMEIRA MISSA

    Durante o banquete que as classes conservadoras me oferece-ram, por ocasio da passagem do l 2 aniversrio do meu governo, apro-veitei a oportunidade para insistir na pregao desenvolvimentista. O que tinha em vista era obter uma gradual transformao da mentalidade do povo. Tir-lo do desnimo e da descrena, de forma a atra-lo para uma cooperao direta e efetiva com o governo. Da a razo por que no criei reas preferenciais na minha administrao. O Brasil era um s, e teria de v-lo, como o fazia de bordo do meu Viscount: uma na-o-continente, na qual faltava quase tudo, e que precisava ser desperta-da para o desenvolvimento econmico.

    Naquele primeiro ano de administrao, obras estavam em andamento em todas as regies do pas. Explorava-se petrleo na Ama-znia. Faziam-se audes no Nordeste. Plantavam-se as bases do que se-ria Braslia no Planalto Central. Construam-se estradas que ligariam o Rio maioria das unidades da Federao. E implantavam-se ferrovias que iriam despertar a economia de largas faixas do Rio Grande do Sul.

    O que eu tinha em mente, na realidade, era recuperar reas deserdadas, asfixiadas pela carncia de vias de comunicao, e enqua-dr-las no contexto da economia do pas. Braslia era um marco. O sm-bolo dessa jornada de integrao. Ali, embora tudo ainda estivesse no incio, pairava sobre o imenso canteiro de obras, e estimulando a bravu-ra dos pioneiros, um ideal. Estava em marcha uma determinao.

    E, de fato, tudo ali se desenvolvia a contento. O palcio pre-sidencial e o hotel de turismo j mostravam as colunas de cimento ar-mado. Cerca de 80 quilmetros de estradas haviam sido abertas no cer-rado, e por elas transitavam, dia e noite, caminhes carregados de mate-rial. Os alojamentos eram acrescidos, cada semana, de novas unidades. E em toda a extenso da rea do Plano Piloto via-se gente trabalhando.

    Naquela poca, eu ia a Braslia duas a trs vezes por semana. O Viscount fora adaptado para ser um verdadeiro gabinete de trabalho. Possua uma sala de despachos, um compartimento para os convidados e, na cauda, um quarto, com cama, guarda-roupa e toalete. E, alm de maior conforto, o Viscount oferecia a vantagem da velocidade: 450 qui-lmetros por hora, ao invs dos 200 do DC-3.

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    As maiores firmas de construo do Brasil j haviam aberto seus escritrios no Planalto. Eram toscos barraces de madeira, com o assoalho distante meio metro do cho por causa das enxurradas. Os temporais em Braslia eram devastadores, como, alis, ocorre nos luga-res altos. Devastadores, e desabavam quase de improviso. Uma nuvem negra se formava no cu; um vento frio varria o descampado e, em se-guida, o dilvio descia.

    A Cidade Livre era um microcosmo. Ali existia de tudo. Podia-se comprar o que s quisesse e os hotis e penses se sucediam, para abrigar, sem dificuldade, as sucessivas levas de pioneiros. Era uma espcie de Cingapura tupiniquim, com seus bares, seus restau-rantes misteriosos, suas residncias construdas de madeira, segundo o gosto do morador. Eu dera ordens Novacap para realizar ali um alinhamento provisrio de ruas, a fim de evitar que a cidade se con-vertesse em favela. Assim, existiam praas, bairros residenciais e se-tores comerciais. Em princpios de 1957, seis meses aps o incio do desbravamento do cerrado, a populao da Cidade Livre j era de cinco mil habitantes.

    Havendo estabelecido as bases materiais e humanas da cida-de, julguei que havia chegado o momento de proporcionar aos pionei-ros um pouco de conforto espiritual, promovendo a realizao da pri-meira missa no local onde se ergueria a nova capital. Escolhi a data de 3 de maio por me parecer a mais expressiva, j que recordava a missa mandada dizer por Pedro Alvares Cabral. As duas cerimnias se equiva-liam em simbolismo. A primeira assinalara o descobrimento da Nova Terra; e a segunda, quatrocentos anos mais tarde, lembraria a posse efe-tiva da totalidade do territrio nacional.

    Na manh de 3 de maio, cerca de 15 mil pessoas reuniram-se no Planalto. Durante vrios dias, centenas de caminhes e de jipes, as-sim como de avies de passageiros e "teco-tecos", despejaram na cidade milhares de visitantes. Eram goianos de todos os quadrantes do Estado, mineiros do Tringulo, criadores da zona de Paracatu e curiosos de mui-tas unidades da Federao que chegavam, para estar presentes cerim-nia histrica. Do Rio, seguiram, igualmente, numerosas pessoas inclu-sive figuras expressivas da sociedade carioca , o que emprestou uma nota de elegncia paisagem rstica do Planalto. Estava presente, tam-

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    bm, uma delegao de ndios carajs que os aviadores da FAB haviam levado de Bananal.

    Eu deixara o Rio, dois dias antes, tomando o Viscount, com toda a famlia, s 11 horas da noite, na base area do Galeo. O Minis-trio comparecera em peso e, tambm, numerosos jornalistas e fotgra-fos. Na manh de 3 de maio, surpreendi-me com a beleza do espetculo. No local, onde iria ser rezada a missa, fora estendido um enorme toldo, e em torno dele agitavam-se milhares de bandekinhas coloridas. Viam-se centenas de nibus, com letreiros indicando que pertenciam a empresas sediadas nos mais desencontrados municpios - Araguana, Goinia, So Lus, Araguari, Monte Belo, Uberaba e Uberlndia - e quase todos os-tentavam faixas, com slogans alusivos nova capital: "Nosso lema Bra-slia no Planalto", "50 Anos em 5, com Braslia em 3", "Alvorada no Planalto", "Com JK e os candangos, viva Braslia". Em torno, espraia-va-se um mar de cabeas. Na vspera, haviam chegado cerca de 3 mil pessoas. Sabiam que no tinham onde dormir e iriam lutar para obter o que comer. Mas, mesmo assim, haviam feito a viagem.

    s 10 horas chegou o Viscount, especialmente enviado a So Paulo para transportar o Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, que traria a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, sob cuja invocao seria celebrada a Missa. A imagem, guardada em redoma com guarnies de metal, fora oferta da cidade de So Paulo a Braslia e j havia visitado todos os Estados e Territrios brasileiros, na revoada nacional da aviadora Ada Rogato.

    Antes da missa foi batizada a primeira criana nascida na ca-pital, o menino Braslio Franklin, do qual fui padrinho, e minha esposa, Sarah, a madrinha. Ao se aproximar a hora da cerimnia, a enorme mul-tido passou a se concentrar sob o gigantesco toldo, esticado na ponta de estacas e sustentado por travesses horizontais. Quatro troncos de rvores serviram de base a uma pedra de mrmore, na qual se entroni-zou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A assistncia dispunha de bancos de madeira, com genuflexrios toscos, mas cmodos.

    Aproximei-me, em companhia da famlia, do local que me ha-via sido reservado, ao lado dos ministros e demais altas autoridades. Durante a missa, fez-se ouvir o magnfico coral feminino da Universida-de Mineira de Arte, e, em seguida, o Cardeal Mota dirigiu-me uma sau-

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    dao, na qual salientou a importncia de Braslia, que seria "o aconteci-mento mximo depois do Ipiranga" e "o trampolim mgico para a in-tegrao da Amaznia na vida nacional". E concluiu assim sua ora-o: "Na Bblia se l como Deus plantou, no meio do paraso terreal, a miraculosa Arvore da Vida. Braslia a rvore da vida nacional, providencialmente plantada no Planalto Central da nossa Ptria. Que as bnos de Deus e da Virgem Me de Deus faam com que Bras-lia cresa, floresa e frutifique em perene primavera da vida nova do Brasil: Incipit vita noval"

    Aps a missa, falei aos presentes. Era a primeira vez que fazia um discurso oficial na nova capital. "Estamos, todos ns, altos dignitrios da Igreja, militares, homens de Estado, todos ns aqui" declarei "reunidos, vivendo uma hora que a Histria vai fixar. Hoje o dia da Santa Cruz, dia em que a capital recm-nascida recebe o seu batismo cristo; dia em que a cidade do futuro, a cidade que representa o encon-tro da ptria brasileira com o seu prprio centro de gravitao, recolhe a sua alma eterna... Dia em que Braslia, ontem apenas uma esperana e hoje, entre todas, a mais nova das filhas do Brasil, comea a erguer-se, integrada no esprito cristo, causa, princpio e fundamento da nossa unidade nacional. Dia em que Braslia se torna automaticamente brasileira. Este o dia do batismo do Brasil novo. o dia da Esperana. o dia da cidade que nasce. Que Braslia se modele na conformidade dos altos desgnios do Eterno, que a Providncia faa desta nossa cidade terrestre um reflexo da cidade de Deus; que ela cresa sob o signo da Esperana, da Justia e da F!"

    Aps a cerimnia, teve lugar a homenagem que os ndios ca-rajs desejavam me prestar. Foi um espetculo tocante e digno de regis-tro. Os silvcolas ofertaram-me lanas, bordunas, tacapes e flechas. O cacique fez-me uma saudao, chamando-me "Grande Chefe", e, en-quanto a assistncia aplaudia, os demais ndios gritavam. Olhando em torno, deslumbrei-me com o contraste oferecido por aquela concentra-o humana. De um lado, os carajs de penas, e, do outro, as elegantes da sociedade carioca exibindo as ltimas criaes dos costureiros de Pa-ris. Braslia j nascia como um fator de aglutinao dos desnveis nacio-nais. Os dois plos da vida ali se encontravam, dando origem nova etapa na evoluo do pas. E, pairando sobre todos, uma projeo de-

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    mocrtica de nivelamento, enovelava-se a poeira vermelha - a caracte-rstica do mundo novo que estava em gestao.

    Braslia nascia, de fato, sob o signo da comunho social. E, tambm, sob a bno de Deus. Na noite de 3 para 4 de maio ocorrera um temporal na cidade, e o toldo gigantesco dez mil metros quadrados de lona pesada , vergastado pela ventania, desabara fragorosamente, destro-ando bancos e genuflexrios. Tivesse isso acontecido algumas horas antes, quando ali se encontravam 15 mil pessoas concentradas, e a Primeira Missa de Braslia teria figurado na Histria envolta num halo de catstrofe.

    Regressando de Braslia, estive em Minas Gerais, a fim de ins-pecionar o local, no rio Grande, onde seria construda a grande usina de Furnas, e rumei para o Rio. No dia seguinte, visitei So Paulo, para ver como estavam se desenvolvendo os trabalhos, realizados ali, para a im-plantao da indstria automobilstica. Dois fatos, ocorridos quase si-multaneamente, contriburam para que levasse a efeito aquela viagem: uma carta de Henry Ford II e a visita que recebi, no Catete, dos direto-res da Mercedes-Benz do Brasil.

    Henry Ford II anunciava que, havendo sido aprovado seu projeto para uma linha de produo de caminhes no Brasil, decidira fa-zer um investimento adicional em sua empresa, no pas, de 16 milhes de dlares, para equipamentos importados, alm de 377 milhes de cru-zeiros, para terrenos, edifcios e maquinaria a ser adquirida no Brasil. O total das obrigaes financeiras com a Ford, incluindo capital de giro, excedera a 50 milhes de dlares. Essa atitude refletia uma drstica mu-dana de comportamento. Significava que o grande industrial, aps ha-ver sido contra a fabricao de veculos no Brasil, voltara atrs em seu propsito, e aderira ideia, passando a participar, ao lado de grandes empresrios europeus, do esforo que, nesse sentido, vinha sendo reali-zado pelo meu governo.

    Quanto visita dos diretores da Mercedez-Benz, o que posso informar que ela teve por finalidade mostrar-me os modelos dos dois automveis de passeio que a empresa pretendia produzir em sua fbrica de So Bernardo do Campo, em So Paulo. Esclareceram ainda aqueles diretores que sua fbrica havia produzido, em fevereiro daquele ano, 425 caminhes, e que estava capacitada para produzir 1.000 unidades desse tipo mensalmente.

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    O que vi, em So Paulo, causou-me verdadeiro impacto. A in-dstria automobilstica realizara um imenso progresso no curto perodo daqueles quinze meses de Governo. Deixara de ser uma ideia, e j era uma realidade. Todos os planos, elaborados com o maior cuidado, esta-vam em processo de rpida execuo, fazendo prever que a meta esta-belecida para a produo de veculos no s seria atingida, mas, tam-bm, ultrapassada.

    O cenrio, que me fora dado contemplar em So Paulo, era de natureza a dissipar qualquer pessimismo. Sucediam-se as grandes instalaes das fbricas de veculos, e todas modernssimas e quase em condies de iniciar a produo em massa de automveis e cami-nhes no pas. Os nomes das empresas - Ford, General Motors, Mercedes-Benz, Volkswagen, Vemag-DKW, Willys-Overland -constituam um atestado de f nas imensas possibilidades do merca-do brasileiro.

    Depois de visitar aquelas fbricas, Lcio Meira, o supervisor eficiente e dinmico daquele setor, e os tcnicos do GEIA informa-ram-me que j estava assegurada a produo, em 1960, de 109.200 ve-culos automotores no Brasil, no sendo improvvel que esse total se elevasse a 130.000 unidades, e de acordo com o seguinte plano de produ-o: Caminhes - Ford, 30.000; General Motors, 25.000; Mercedes-Benz, 12.000; Fbrica Nacional de Motores, 7.200. Camionetas Volkswagen, 10.000; Vemag-DKW, 5.000; Jipes - Willys-Overland, 15.000; Ve-mag-DKW, 5.000. Pude constatar, na mesma ocasio, que as fbricas de peas e acessrios para os veculos desenvolviam-se por toda parte.

    Era o Brasil-pastoril-e-agrcola que, aos poucos, se trans-formava. Era o Brasil-pequena-indstria-manufatureira que adquiria maturidade, ingressando na era da intensa industrializao. verdade que ainda estvamos no comeo quinze meses ainda do incio da jornada.

    Mas as sementes plantadas j haviam comeado a germinar. Aqui e ali repontavam novas iniciativas. E, coroando aquele esforo gi-gantesco, uma mentalidade nova fermentava na conscincia nacional: a de que o Brasil romperia, com as prprias mos, a barreira do subdesen-volvimento e, dentro em breve, disputaria, com armas forjadas pelos seus filhos, seu lugar ao sol entre as grande naes do mundo.

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    CONSTRUTORES DE CATEDRAL

    O ano de 1957 foi de intensa atividade no Planalto. O regime de trabalho ali era contnuo. As turmas se sucediam, cada uma traba-lhando cerca de 16 horas. A Companhia Siderrgica Nacional havia pas-sado a fornecer as estruturas metlicas para os edifcios. Os padres sale-sianos tinham iniciado a construo de um ginsio, que tomou o nome de Dom Bosco, fundador da Ordem. Instalou-se em abril o primeiro ncleo policial da nova cidade. E as edificaes iam se espraiando, ex-pandindo em rea aproveitada, compondo gradativamente, embora em linhas toscas, a fisionomia de uma cidade diferente, revolucionria -quer no traado urbano, quer no estilo das construes.

    Em junho, o Presidente Craveiro Lopes, de Portugal, pernoitou em Braslia. Era o primeiro chefe de Estado a conhecer a nova capital.

    Hospedou-se no Catetinho e fez questo de percorrer toda a rea do Plano-Piloto, para ter uma ideia, ainda que superficial, do que seria a cidade.

    Em agosto, instalava-se nos arredores da capital o primeiro ncleo de japoneses, dando-se incio assim formao do cinturo ver-de zona agrcola destinada a abastecer a populao pioneira.

    Cada dois dias eu fazia uma viagem a Braslia, para fiscalizar as obras e estimular, com minha presena, a atividade dos candangos. Como no podia deixar o Rio durante o dia, esperava o fim do expedi-ente para tomar o avio que me levaria ao Planalto. Chegava l s 10 ou 11 horas da noite. Percorria, ento, as obras at s 3 horas da madruga-da, quando tomava, de novo, o avio e vinha acordar no Rio, para o in-cio de novo expediente. Durante dois anos, fiz 225 viagens desse gne-ro. Sentia-me bem, vivendo a emoo de assistir ao nascimento de uma metrpole, s tornada possvel pelo esprito de determinao que me caracterstico. O espetculo era, de fato, deslumbrante. Guindastes bra-cejavam, transportando material dos caminhes para os canteiros de obras. Polias giravam, fazendo andar as esteiras rolantes que levavam o cimento para as formas de madeira. Homens corriam. Buzinas ronca-vam. O prprio cho estremecia, rasgado pelas Estacas Franki. Os edif-cios iam surgindo da terra, perfurada em todas as direes. Cada obra ostentava uma tabuleta, com os dizeres: "Iniciada no dia tal. Ser

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    concluda no dia tal." Alm das tabuletas, existia a minha fiscalizao pes-soal. Conversava com os operrios, lembrando-lhes a necessidade de que a cidade ficasse pronta no prazo prefixado. A advertncia era positiva, mas cordial, e quase sempre levada a efeito atravs deste dilogo: "Como , meu velho, vai me dar esta obra na data marcada?" Um largo sorriso iluminava o rosto do operrio. E a resposta vinha pronta, como se j estivesse desde muito na ponta da lngua: " claro, presidente. Pra que a gente 't dando esse duro'?" Batia-lhe nas costas e fazia o teste, que era uma doutrinao de extraordinria eficincia: "Ento d nova olhadela na tabuleta." O candango olhava desconfiado e eu contempla-va o seu olhar, para verificar se se dirigia, de fato, para aquele tosco qua-drado de madeira. Em seguida, encerrava o teste, pedindo-lhe que repe-tisse a data, para ver se ela estava decorada.

    E vinha a resposta:"15 de setembro de 1957!" Sorria, baten-do-lhe de novo nas costas: "Isso, meu velho. Nesse dia, virei aqui para lhe dar um abrao."

    Divulgando-se a notcia de que havia trabalho para todos em Braslia, avolumavam-se cada semana as levas de trabalhadores que l chegavam. Vinha gente de todas as regies do pas. Era uma verdadeira torrente humana, que os caminhes canalizavam para o Planalto. Pobres de todas as latitudes em busca da Terra da Promisso. Fiz instalar um escritrio do Departamento de Imigrao e Colonizao em Braslia, para cuidar desses desprotegidos da sorte e da fartura.

    Os caminhes os despejavam e os funcionrios do Departa-mento davam-lhes comida e alojamento. As cantinas funcionavam dia e noite, pois as chegadas desconheciam o relgio. Muitas vezes, assisti cerimnia desses desembarques. O caminho era travado com violncia e arriava-se, quase automaticamente, a porta traseira. Surgiam os viajan-tes, trpegos pela imobilidade das pernas dias seguidos. A princpio, ca-minhavam com hesitao. Depois, aprumavam-se, olhando em torno. Sorriam satisfeitos, por fim. Ali estava a Cana, longamente sonhada. Apanhavam a trouxa, onde guardavam uma muda de roupa, e seguiam para os barraces de madeira. No dia seguinte, ainda cobertos de poeira, j estavam nas frentes de trabalho.

    A exortao, que fazia aos trabalhadores, era insistente, e ori-entada no sentido de integr-los no que denominei "o esprito de Bras-

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    lia". Procurava despertar em cada trabalhador, por muito humilde que fosse sua tarefa, um sentimento de solidariedade em relao cidade que estava construindo. Lembrava-me, com frequncia, da anedota que, lida numa revista, me ficou para sempre na memria. Referia-se a um grupo de operrios que trabalhava na construo de uma igreja num pas qualquer. Algum, que por ali passara, perguntou a um ope-rrio: "Que est fazendo, meu amigo?" O operrio respondera, com humildade: "No est vendo? Assentando estes tijolos." O estranho, curioso, fez a mesma pergunta a um segundo trabalhador, e a respos-ta veio pronta: "Ajeitando essas cantoneiras." Olhou em torno, para ter uma ideia do gnero de atividade que ali se desenvolvia. Cada operrio realizava uma tarefa especfica. Este quebrava uma pedra. Aquele tirava o prumo de um portal. Mais alm, um terceiro retocava o reboco de uma parede. Viu, por fim, um humilde servente que mis-turava areia e cal, para fazer a "massa" destinada ao pedreiro. Apro-ximou-se dele e fez a mesma pergunta: "E voc, que faz aqui?" O servente ergueu a cabea. Tratava-se de um espanhol e, como era de se esperar, a resposta veio envolta no entusiasmo caracterstico: "Una catedral, senori".

    O mais humilde dos operrios, um simples servente de pedreiro, fora o nico que acusara sentido de grandeza. No se circunscrevia tarefa de misturar a massa para o seu chefe imediato. Olhava distante, consi-derando a obra globalmente. Que importava que seu trabalho fosse hu-milde? Que sua tarefa se limitasse a fornecer material para a colher do pedreiro? O importante era o conceito de integrao que lhe iluminava o esprito. A audcia de rejeitar a pequenez do que suas mos faziam, para poder sonhar com as estrelas.

    Em Braslia, o que eu desejava era transformar todos aqueles candangos em "construtores de catedral". E, aos poucos, o consegui. A cidade, que se erguia no Planalto, no era minha. No era do governo. Nem mesmo do Brasil. Era a cidade do humilde operrio. Tratava-se de uma capital que ele - igual a milhares de outros, tambm chicoteados pelo sol e cobertos de poeira construa como se fosse para o seu uso exclusivo.

    A imprensa acusou-me acerbamente, alegando que fazia transportar por via area material de construo, destinado a Braslia. A

  • Porque construi'Braslia 95

    alegao era to inverdica quanto maliciosa. Tratava-se de mais uma de-turpao, visando a fins polticos. O que os avies da FAB levaram, na realidade, foram artigos de escritrios - papis, pastas e arquivos, para o trabalho dos engenheiros - e alguns itens prioritrios, como pequenos geradores, destinados a iluminar os primeiros barraces ali construdos. Seguiram, igualmente, componentes eletrnicos, para a instalao de um primitivo sistema de comunicaes. Foi s.

    O material de construo, propriamente dito, chegou a Braslia atravs dos azares das estradas esburacadas. Faziam-se verda-deiros comboios de caminhes para as longas e perigosas travessias de Belo Horizonte e de Anpolis at o local da futura capital. Eram autnticas caravanas de desbravadores. Vadeavam rios. Conquista-vam o Planalto antes que a primeira estrada fosse aberta. A Rodovia Anpolis-Braslia estava em construo acelerada, batendo recordes semanais. Mais um ano seria necessrio para que ficasse concluda. A Belo HorizonteBraslia, igualmente, vinha sendo rasgada, a partir de Sete Lagoas, mas existiam 700 quilmetros de cerrado para serem vencidos.

    Em face das circunstncias, teria de me adaptar realidade a realidade terrvel das misrias, que caracterizam o subdesenvolvi-mento. O depsito, construdo em Anpolis, estava abarrotado de materiais: toneladas de vergalhes de ferro; milhares de sacos de ci-mento; toras de madeira que se empilharam, formando verdadeiras montanhas. Existiam, ainda, aparelhos eltricos, equipamentos sani-trios, engradados de ladrilhos, foges, aquecedores, toneladas de te-lhas, esquadrias de todos os gneros. Todo aquele mundo, concebido para estruturar uma cidade, ali estava, exigindo transporte. Gritando por estradas que dispusessem de pontes. Ou de pontes que no cedes-sem ao peso dos caminhes.

    E, por fim, em Braslia, fervilhava o formigueiro humano, in-tegrado pelos candangos annimos que, impregnados da mstica que lhes havia inoculado, reclamava, com insistncia, maior velocidade nas construes. Os miserveis de caatinga, iluminados de uma nova f, j acreditavam na grandeza que se erguia aos seus olhos deslumbrados. Os desajustados de todo gnero haviam sido convertidos, por fim, em "construtores de catedral".

  • Surge a ideia da BelmBraslia

    T . ^ ^ L - ^ ^ a anadas as bases de Braslia, era tempo de estender o olhar pelo mapa e visualizar, mais uma vez, a presena do grande cruzei-ro de estradas, que faria a integrao nacional. Era a velha obsesso que me perseguia. A ligao do Brasil por dentro! Quando sobrevoava a Amaznia, figurava na mente a linha reta que vincularia Braslia a Be-lm. Seria uma linha, rasgada na floresta e estendida sobre rios caudalo-sos, que levaria a civilizao a regies s palmilhadas por ndios. Havia chegado a hora de se transformar a obsesso em realidade. Ia surgir a Belm-Braslia. Como os candangos de Braslia, eu, tambm, me consi-derava um "construtor de catedrais".

    Estava no Catetinho e eram sete horas da manh. O turno do dia j havia iniciado, desde muito, sua costumeira atividade. Quando me sentava mesa para examinar alguns papis que aguardavam despacho, Bernardo Sayo fez-se anunciar.

    Naquela manh, lembrara-me dele diversas vezes. E que a ve-lha obsesso vinha me verrumando o crebro e ningum, melhor do que ele, para realizar a arrojada tarefa. Sayo era o Ferno Dias de que necessitava - o bandeirante do sculo XX que, em vez de botas, usava um teco-teco. Audcia, coragem, determinao, eis as qualidades que lhe exornavam o carter. Alm disso, sob a capa do desbravador que no temia qualquer perigo, ocultava-se um corao de criana. Bondade e

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    bravura duas virtudes que nem sempre andam juntas. Em Sayo, po-rm, elas coexistiam. Interpenetravam-se. Formavam o cerne de sua ex-traordinria personalidade.

    H quem confunda pioneiro com bandeirante, j que ambos fazem do desbravamento sua atividade habitual. Entretanto, uma dife-rena enorme os distancia. O bandeirante descobre e passa frente. Sua sina avanar. Finca um marco. Poda uma rvore. Faz um monte de pedras. tudo que deixa, como sinal da sua passagem. Trata-se de uma imagem fugidia. Brilha, e desaparece.

    J o pioneiro influenciado pela atrao da terra. Descobre e fica. um smbolo que se projeta atravs de um nimo de permanncia. A jornada pode ser longa, mas a parada - quando ocorre - quase sem-pre mais longa ainda. Planta e espera pela colheita. No deixa sinal de sua passagem, porque ele prprio se detm. E do seu rastro, que por al-gum tempo foi efmero, brotam valores duradouros: povoados, que se transformam em vilas; vilas que se convertem em cidades; e cidades, que armam a estrutura de uma civilizao.

    Temos em nossa literatura um clssico, hoje de trnsito inter-nacional. Bandeirantes e Pioneiros, de Vianna Moog, foi um livro que muito me ensinou a compreender a tarefa histrica de uns e de outros, permi-tindo-me fix-los no gigantesco cinerama de nossa realidade amaznica.

    Bernardo Sayo era inquieto como qualquer bandeirante. Mas acusava o nimo de permanncia do pioneiro. A misso que pretendia entregar-lhe seria, na realidade, um misto de descobrimento e semeadu-ra. A selva, que se estendia entre Belm e Braslia, era misteriosa e cheia de insdia. Expedies ali haviam desaparecido. Furadores de mato, ha-bituados aos perigos, tinham sido tragados pelo oceano verde, sem que algum pudesse saber jamais o que lhes havia ocorrido.

    A misso, que tinha para Sayo, era justamente a de criar uma zona de segurana ao longo da floresta que separava as duas cidades. Uma zona de segurana filiforme, que se estenderia por 2.100 quilme-tros, e cujo objetivo fundamental seria introduzir o progresso e a civili-zao em regies nunca exploradas pelo homem civilizado.

    O Brasil, examinado do ponto de vista de sua fronteira noro-este, constitua, de fato, um mundo parte. Existia nos mapas. Figurava nos compndios de Geografia. Mas, na realidade, no passava de uma

  • Por que constru Braslia 99

    presena autnoma. Tratava-se de um organismo de vida prpria, existindo ao lado, mas independentemente, do corpo do Brasil. O Rio-Mar era o seu sistema venoso. A floresta sem fim, a parte slida desse organismo. gua e selva representavam os dois elementos, atravs dos quais se afirmava aquela tenebrosa realidade. Durante a ltima Guerra Mundial, o isolamento daquele "pas verde" tornara-se patente. Cerca de 40 navios haviam sido torpedeados ao largo da foz do Amazonas, e com o rompimento desse cordo umbilical - que era a navegao costeira - uma onda de privaes assolara a imensa re-gio. Faltaram gneros alimentcios. Escassearam os artigos essenciais. A populao, para no morrer de fome, tivera que recorrer ao que lhe proporcionava a selva.

    Por ocasio das numerosas vezes que visitei o Par e o Ama-zonas, percebi que o horror daquele isolamento persistia em muitas mentes. Todos se lembravam dos dias cruciais em que haviam ficado isolados do mundo. Se abrisse uma sada pelo interior da floresta, o pe-rigo de uma repetio daquela tragdia estaria conjurado. Para conse-gui-lo, porm, teria de enfrentar o maior desafio j feito, no Brasil, au-dcia do homem. A empresa, alm de perigosssima, poderia apresen-tar-se pontilhada de surpresas. Que haveria, na realidade, no interior da-quele universo vegetal?

    O mistrio das coisas invioladas excitante para os homens audazes. Eu estava na varanda do Catetinho e, quando disse a Sayo o projeto que tinha em mente, percebi que sua fisionomia se alterava. Olhava-me fixamente, para no perder uma s palavra do que proferia. A ideia era do tipo que se ajustava ao seu temperamento. Tratava-se de uma empresa s compatvel com homens excepcionais. O que Sayo ignorava, porm, era que a exposio que vinha fazendo iria desaguar, por fim, num convite. Da a surpresa e o espanto com que recebeu a convocao que acabei lhe fazendo: "Voc ser capaz de rasgar essa es-trada, Sayo?"

    O pioneiro deu um salto. O homem certo para a grande em-preitada tinha sido achado. Via-o diante de mim imponente na sua esta-tura gigante, mas constrangido em sua inata modstia pela honra que, de sbito, lhe era conferida. Passado o primeiro momento de estupefao, respondeu, com a habitual determinao: "Sempre sonhei com esta es-

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    trada, Presidente. Posso dizer que este o momento mais feliz da minha vida. Quando deseja que eu d incio construo?" Respondi sem hesi-tao: "Imediatamente." Bernardo Sayo deixou o Catetinho e, toman-do seu teco-teco, rumou pouco depois para Goinia.

    Entretanto, a abertura da Belm-Braslia exigia muito mais do que a simples disposio de constru-la. Envolvia a soluo de numero-sas questes tcnicas e de diversos problemas administrativos. Devia-se considerar, antes de tudo, a construo em si, isto , a necessidade de se emprestar obra um dinamismo, considerado impossvel dentro do sis-tema em funcionamento para os empreendimentos rodovirios conven-cionais. A estrada, por suas caractersticas singulares, repeleria qualquer tutela burocrtica. Em face disso, um rgo deveria ser criado. E esse rgo teria de revelar suficiente flexibilidade para atender multiplicida-de dos problemas que, durante a construo, certamente iriam surgir.

    Havia a considerar, em segundo lugar, o critrio a ser adota-do, no que dizia respeito diretamente s obras. Uma frente de trabalho apenas imporia aos servios uma limitao de rendimento, que seria inadmissvel em face da exiguidade do tempo para a sua concluso. Re-solvi, pois, que a estrada seria atacada nos dois sentidos: uma turma vin-da de Belm; e outra partindo de Braslia. Nessas condies, em Belm deveria funcionar um rgo que se encarregasse das obras no Setor Norte.

    Em maio, Bernardo Sayo viajou para Belm do Par, para discutir com Waldir Bouhid, superintendente do Plano de Valorizao Econmica da Amaznia, a assinatura de um convnio. Desses entendi-mentos, resultara um acordo de cooperao: a SPVEA encarregar-se-ia das obras na rea amaznica, e a Rodobrs o novo rgo ento criado - responsabiHzar-se-ia pelo Setor Sul.

    De acordo com os levantamentos feitos, a Belm-Braslia te-ria 2.240 quilmetros de extenso. Partindo de Braslia, ela se confundi-ria com a estrada que ia a Anpolis num trecho de cerca de 100 quil-metros e, em seguida, rumaria para o Norte, buscando o rio Tocantins, num percurso de 700 quilmetros. Ao deixar o municpio de Anpolis, a grande rodovia atravessaria uma das regies frteis do Brasil Central. Ali, na dcada de 1940, Sayo havia fundado a florescente colnia agr-cola de Ceres. A estrada atravessaria, ento, mais de duzentos quilme-

  • Por que constru Braslia 101

    tros de campos cultivados, numa regio de conformao topogrfica mais ou menos uniforme e que denominada o vale do So Patrcio.

    Depois desse vale, a Belm-Braslia, aps cortar longas exten-ses de cerrado, entremeadas de campos de criao, iria atingir o rio To-cantins, que atravessaria. O Tocantins, ali, oferece um deslumbrante es-petculo. Contido pelos afloramentos rochosos, sua largura se reduz, nesse trecho, a menos de um tero, e a torrente impetuosa, sentindo-se amordaada, reboja em remuos circulares, escavando as barrancas de calcrio. Ali, seria construda uma grande ponte, que ligaria, ento, a zona do babau, ao sul, floresta amaznica, que se estendia por todos os lados, at se perder no horizonte. A estrada penetraria cerca de 600 quilmetros, atravs da selva.

    At 1957, aquela era uma regio perdida e longnqua, em cuja orla alguns aventureiros haviam armado suas choupanas pioneiras. Entregues prpria sorte, num isolamento pattico, viviam de umas po-bres lavouras e da colheita de babau, vendido, a preo vil, a tropeiros vindos do Maranho, uma ou duas vezes por ano, em viagens perigosas e hericas. O resto era a caa, em que se entretinham, nos longos inter-valos entre as colheitas e a chegada dos compradores. As cidades mais prximas - as de Imperatriz e Uruau - ficavam a enormes distncias. E no havia estradas. Para alcan-las, era preciso vencer o cerrado do pla-nalto goiano ou a floresta do vale do Tocantins.

    Era este o desafio que a construo da Belm-Braslia iria nos obrigar a enfrentar. Diversas vezes, eu sobrevoara a regio por onde iria passar a estrada e, portanto, conhecia, em toda sua realidade, a gravida-de do passo que estava dando.

    UMA NOVA MENTALIDADE N O PAS

    A jornada da integrao comeara com Braslia. E teria de prosseguir. Era foroso unir o pas por dentro, rasgando, enfim, o cru-zeiro rodovirio, que iria ligar uns aos outros os quatro pontos cardeais do territrio nacional.

    A Belm-Braslia era apenas um brao daquela imensa cruz. Aberta a sada para o Norte, cuidar-se-ia simultaneamente dos outros

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    trs braos que faltavam. Tomadas as providncias administrativas, con-substanciadas no convnio com a SPVEA e na criao da Rodobrs, chegara a hora de pensar nas mquinas, requeridas peio ambicioso em-preendimento.

    Estando em Petrpolis, convoquei uma reunio a ser realiza-da no Palcio Rio Negro. O que tinha em mente era descobrir, entre os representantes de firmas que forneciam material rodovirio, o que pe-disse menor tempo para fazer entrega de uma encomenda. A esse en-contro, estiveram presentes Bernardo Sayo e Waldir Bouhid, os res-ponsveis pelas duas frentes de trabalho. O equipamento, requerido pe-los tcnicos, era de natureza especial, e deveria ser adequado s condi-es peculiarssimas daquela obra.

    Dos participantes da reunio, s um declarou-se capaz de atender encomenda. Foi justamente um mineiro, Oto Barcelos, por coincidncia meu amigo de mocidade e filho do Desembargador Barcelos, chefe de tradicional famlia de Belo Horizonte. Fiquei satisfeito que assim houvesse acontecido. Tratando-se de um amigo, teria liberdade de exigir ainda maior urgncia na entrega, sem receio de criar suscetibilidades.

    Infelizmente, nem as mquinas de Oto Barcelos estavam dis-ponveis no Rio. Teriam de ser importadas dos Estados Unidos e, se-gundo era possvel prever-se, levariam quatro meses para chegar ao Bra-sil. Ficara assentado, porm, que Sayo entregaria uma relao do equipamento necessrio a Oto Barcelos, para que este, de posse do documento, embarcasse imediatamente para os Estados Unidos a fim de tentar, atravs de entendimentos pessoais com os diretores da firma fornecedora, qualquer reduo no prazo de entrega. No havendo outra alternativa, concordei em esperar.

    Entretanto, o prazo de espera no significou qualquer retar-damento nas demais obras que estavam em andamento, nem alterou o objetivo poltico, que tinha em mira, e que era o de conseguir integral pacificao nacional. Alis, naquele ano e meio de governo j era outra a situao do cenrio poltico. Todas as aleivosias que haviam atirado con-tra mim foram se dissipando, uma aps a outra, em face do meu com-portamento frente do governo. Ao invs do que havia alegado a Opo-sio - e ainda o faziam alguns dos seus integrantes mais radicais - , a bandeira da Democracia, que empunhara e carregava por todo o territ-

  • Por que constru Braslia 103

    rio nacional, tornava-se cada vez mais visvel. O pas entrara numa nova fase da sua Histria.

    A firmeza e a determinao com que me empenhava na obra de desenvolvimento da Nao estavam mudando, aos poucos, a menta-lidade que prevalecia, quer nos crculos polticos, quer nos mais variados setores das atividades privadas. Constatava-se que o povo e o governo se uniam para uma tarefa de interesse nacional.

    Naquele ano e meio de governo, o esforo despendido havia sido enorme. Os trinta e um itens do Programa de Metas tinham mere-cido a maior ateno do Executivo. Apesar das dificuldades inerentes a qualquer incio de administrao, todos eles estavam sendo executados, e os primeiros frutos da farta semeadura no tardariam a aparecer.

    Convm ressaltar, porm, que as obras em andamento no poderiam acusar um ritmo uniforme de execuo. Cada setor, por ter caractersticas prprias, era tratado isoladamente, condicionando-se a ao desenvolvida s exigncias das suas peculiaridades. Assim, existiam itens de execuo prontos, como os referentes construo de estradas, de audes, de incremento agricultura, de criao de novos estabeleci-mentos educacionais, enfim, os que no acusavam a necessidade de um interregno entre a deciso e as providncias iniciais para a realizao. Outros, porm, demandavam tempo, no s para o planejamento, como para os estudos que antecediam a ao executiva. Inscreviam-se nessa categoria as obras de infra-estrutura, notadamente as relacionadas com a implantao de novas indstrias, a construo de centrais eltricas e a implementao dos planos regionais.

    Durante minha excurso pelos Estados Unidos e pela Europa, antes de assumir a Presidncia, sempre tive em mente uma preocupao de ordem comercial, no sentido de interessar figuras de projeo no mun-do financeiro para o desenvolvimento do pas. Como resultado desses entendimentos, muitas indstrias se transferiram para o Brasil, podendo citar, entre outras, as do grupo Schneider, da Frana, a Mercedes-Benz e a Krupp, da Alemanha, a Fiat e a Isota Frachini, da Itlia. E no era s o trabalho de trazer essas firmas para o Brasil. Deveria cuidar dos seus di-retores. Oferecer-lhes recepes. Mostrar-lhes o pas. Convenc-los, en-fim. Da a razo por que, nas viagens que fazia pelo interior, sempre leva-va embaixadores, capites de indstria, visitantes ilustres que, por acaso,

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    se encontrassem entre ns, no momento. Ao agir assim, o que tinha em vista era mostrar-lhes as riquezas em potencial do Brasil, de forma a tor-n-los entusiastas do nosso desenvolvimento.

    No setor interno, procurava despertar as extraordinrias vir-tudes dos nossos tcnicos, incentivando-os a vencer barreiras que pare-ciam intransponveis. Quantos processos novos de fabricao foram cri-ados por brasileiros, em face da impossibilidade de utilizao de paten-tes estrangeiras, s negociveis a preos de usura? Lembro-me do que ocorreu no setor das rodas de automveis. O Brasil j avanava, com determinao, na jornada da fabricao de veculos, quando surgiu um problema srio: a produo de rodas em escala industrial. At ento essas peas eram laminadas e, como se tratava de um perfil pesado, exigiam grande trem de laminao. O maior trem de laminao, existen-te no Brasil, era o da Belgo-Mineira, e mesmo este no se mostrou em condies de realizar a operao.

    Criou-se, pois, o problema - problema gravssimo porque no poderamos desenvolver, a indstria automobilstica se tivssemos de ficar na dependncia de importao de rodas. Enquanto os tcnicos discutiam e os industriais passavam por srias apreenses, uma firma de So Paulo a Fumagali solucionava a questo. E tudo fora conse-guido graas ao esprito de iniciativa e engenhosidade do operrio brasi-leiro. O raciocnio que levou a essa soluo era o menos ortodoxo pos-svel. O operrio agiu com lgica e acertou em cheio. Se o perfil, por ser pesado, no podia ser laminado, ento que se tentasse forj-lo. Vieram as prensas e o ao foi forjado. Fabricou-se, assim, a primeira roda de au-tomvel no Brasil. Da em diante, foi s multiplicar as prensas, e o fluxo dessa pea fundamental tornou-se abundante e o preo por unidade re-velou-se competitivo.

    Ao chegar ao fim do segundo ano de governo, senti-me re-confortado. Constatava que o esforo realizado no tinha sido vo. O caminho percorrido fora spero e no isento de ciladas. Entretanto, medida que as barreiras eram vencidas, o pas, inspirado por uma f, que era nova em suas reaes, comeara a acreditar em si mesmo. Ao des-nimo tradicional sucedera um otimismo contagiante. estagnao ou ao crescimento vegetativo seguira-se o desenvolvimento racionalmente impul-sionado. E o povo passara a viver a emoo de julgar-se capaz de tudo.

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    Nessa poca, o GEIA inaugurara uma exposio da indstria automobilstica no saguo do Aeroporto Santos Dumont. Viam-se ali caminhes leves e pesados, camionetas, furges e jipes, alm de peas e acessrios para automveis, j fabricados no Brasil. Nas paredes, sucediam-se quadros e grficos com explicaes detalhadas sobre os processos de fabricao e a respectiva cota de nacionalizao, bem como sobre o prazo necessrio para que a nacionalizao se tornasse integral. Entre as firmas expositoras destacavam-se a Fbrica Nacional de Motores, a Mercedes-Benz, a Ford, a General Motors, a Volkswagen, a Willys Overland e a Vemag. Um amigo meu, que estivera na exposio, contou-me um fato, de que fora testemunha, e que no deixa de ser curioso.

    O saguo do aeroporto estava repleto. Verdadeira multido se acotovelava diante dos stands. Era visvel a emoo de todos - principal-mente dos jovens - ao inteirar-se do que j se fabricava no Brasil. Os ra-pazes apalpavam os veculos. Faziam perguntas. Desejavam saber o pre-o de cada um. Entre eles havia um estudante, trajando uniforme de co-lgio secundrio, que nada perguntava, mas observava tudo. Era um menino inquieto, com grandes olhos perscrutadores. Correu a exposio toda, detendo-se amide, para examinar cada veculo. E, por fim, jun-tando-se aos companheiros, comentou: " legal a exposio..."

    E aps refletir um instante, completou o pensamento: "Que-ro ver, agora, o Juscelino fabricar sputniks no Brasil!"

    BRASLIA: META-SNTESE

    Por que denominei "Meta-Sntese" construo de Braslia? Os 30 itens do Programa de Metas eram especficos, e cada um objeti-vava a soluo de um determinado problema nacional. Ao lado do Pro-grama, mas representando sua implicao de maior relevncia, figuraria, pois, a interiorizao da sede do governo.

    Entretanto, para que Braslia pudesse existir e desempenhar, com xito, sua funo integracionista, seria necessrio que os outros 30 itens sofressem ligeiras reformulaes. Reformulaes de meios e no de objetivos. Os alvos a serem atingidos continuariam os mesmos, ex-

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    pressos atravs das cifras que resumiam o progresso que se buscava. As reformulaes empreendidas visavam to-somente ao entrosamento de cada Meta com a nova realidade a ser criada pelo deslocamento do eixo poltico e administrativo do pas para o Planalto Central.

    No incio de 1958, o Planalto era, na realidade, a mais movi-mentada frente de trabalho do Brasil. Todas as providncias, necessrias para a criao de uma grande cidade, j haviam sido tomadas e estavam em execuo acelerada. Existiam as obras da cidade propriamente dita e as correlatas, isto , as que se impunham para ligar a nova capital a to-dos os quadrantes do territrio nacional.

    No que dizia respeito a essas ligaes, construam-se, atravs de turnos, de forma que o trabalho nunca se interrompesse, duas rodo-vias-chaves: a Braslia-Anpolis e a Braslia-Belo Horizonte. Braslia, li-gada a essas duas cidades, consequentemente estaria articulada, atravs de rodovias de primeira classe, com os principais centros do pas.

    Assim, a Braslia-Anpolis era uma obra prioritria, em todos os sentidos.

    Entroncando-se com a BR-33, faria a ligao da nova capital com So Paulo e, consequentemente, com o maior centro industrial do pas. Sua concluso estava marcada para o dia 3 de maio de 1958 e, nela, seriam construdas sete pontes, sendo a maior delas sobre o rio Corum-b. Cinco firmas empreiteiras executavam os servios de terraplenagem e de pavimentao, e outras cinco, em ritmo acelerado, construam as pontes e demais obras de arte.

    Dando continuidade ligao de Braslia com So Paulo, ha-via o trecho So PauloMato, da rodovia BR-32, pavimentada e j en-tregue ao trfego; de Mato a Frutal existia a BR-33, que entroncava aci-ma de Frutal com a BR-14, a qual j atingia Anpolis. Os ltimos tre-chos, com extenses prontas para receberem pavimentao e outras em construo, deveriam ficar concludos em fins de 1958.

    Quanto ligao Braslia-Belo Horizonte, tendo como pon-tos de passagem obrigatria Luzinia, Cristalina, Paracatu, Joo Pinhei-ro, Trs Marias, Felixlndia e Sete Lagoas, os- trabalhos j haviam sido iniciados, com a abertura do trecho Braslia-Luzinia.

  • Por que constru Braslia 107

    A nova capital ficaria, assim, ligada por excelentes rodovias aos dois maiores centros de atividade do pas: So Paulo e Rio de Ja-neiro, sendo que este ltimo atravs da estrada de Belo Horizonte. Entre-tanto, esse sistema de comunicao no se cingia apenas s duas estra-das-troncos. Providenciava-se, simultaneamente, uma conexo ferroviria.

    O trecho do vale do Saia Velha at Braslia, comum s liga-es com So Paulo e Belo Horizonte, com 86 quilmetros, j estava em construo e deveria ter os servios de terraplenagem e obras de arte correntes concludos at 3 de maio daquele ano. A nica obra especial era o viaduto do cruzamento com a Rodovia Anpolis-Braslia, nesse trecho previsto para bitola mista. Inicialmente, seria implentada a bitola de 1 metro para possibilitar, com seu prolongamento at Pires do Rio, na Estrada de Ferro Gois, o entrosamento da nova capital com o siste-ma de bitola mtrica da Rede Mineira de Viao e da E.F. Mogiana. O percurso de Pires do Rio-Braslia seria de aproximadamente 230 km.

    Enquanto as ligaes rodovirias e ferrovirias eram provi-denciadas, na rea do Plano Piloto as obras se multiplicavam, comuni-cando dinamismo a todos os setores das edificaes urbanas. No incio de 1958, o Palcio da Alvorada j tinha terminada sua estrutura de con-creto e quase concluda a parte de alvenaria. Encontrava-se em fase de acabamento e impermeabilizao da cobertura. Haviam sido iniciadas as obras de revestimento externo e de pavimentao de mrmore. Por ou-tra parte, estavam j encomendados todo o servio de esquadrias, caixi-lharia de alumnio e madeira, instalaes especiais de refrigerao e vi-draaria, iluminao e tratamento de gua da piscina. A Rainha Eliza-beth, da Inglaterra, quando esteve em Braslia, quis saber a razo do nome: "Palcio da Alvorada". Escolhi-o, eu mesmo. O que era Braslia seno a alvorada de um novo dia para o Brasil? Ao palcio presidencial ajustava-se a expresso simblica. Ao outro palcio, que se chamava en-to dos Despachos, e que est situado na Praa dos Trs Poderes, dei o nome de Palcio do Planalto, designao que lembra a origem geogrfi-ca da sua localizao.

    O Hotel de Turismo tinha concluda, igualmente, a monta-gem da sua estrutura metlica e executado todo o servio de alvenaria. Achavam-se em final de execuo as instalaes eltricas e hidrulicas e haviam sido iniciados os servios de elevadores e forrao.

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    Iniciara-se, por esse tempo, a construo do Palcio do Con-gresso, cujas fundaes j haviam sido feitas, e armavam-se no local os respectivos acampamentos para os operrios e estocagem de material. Grandes tratores ali eram vistos, removendo terra, destocando o terreno e criando a concha artificial no interior da qual se ergueria o conjunto arquitetural do Parlamento.

    Em agosto, a Novacap assinara convnio com os Institutos de Previdncia, reservando-lhes uma rea no Plano Piloto, onde seriam construdos blocos de apartamentos destinados a seus funcionrios. Nas quadras erguer-se-iam construes diversas, assim projetadas: IAPI, 500 apartamentos de vrios tipos; IAPB, 30 apartamentos; IAPC, 108 apar-tamentos e 180 casas; e IPASE, 1.000 apartamentos. Alm disso, a Fun-dao da Casa Popular executava um largo programa habitacional, er-guendo numerosas residncias, de padro utilitrio, para os futuros mo-radores da cidade que percebessem modestos vencimentos.

    A cidade crescia rapidamente. Contudo, a despeito da pressa com que as obras vinham sendo executadas, havia um ponto de interro-gao, que no deixava de me preocupar: em que data seria inaugurada Braslia? Por ocasio da minha primeira viagem ao Planalto, no dia 2 de outubro de 1956, havia fixado um prazo para a construo 3 anos e 10 meses - , o que. significava que aquela data seria o dia 2 de maio de 1960. Tratava-se, porm, de uma resoluo minha, confidenciada a amigos, com o objetivo de dissipar a descrena deles na exequibilidade da obra, aps uma viso pessoal do que era o Planalto. No existia, portanto, qualquer lei a respeito. E era urgente que essa providncia fosse tomada. Voltei, ento, estratgia adotada para obter a aprovao, pelo Congres-so, de decreto que havia autorizado o Executivo a providenciar a trans-ferncia da capital. O deputado udenista Emival Caiado apresentou um projeto de lei, estabelecendo que a inaugurao da nova capital se daria no dia 21 de abril de 1960 - aniversrio do martrio de Tiradentes.

    O projeto foi aprovado e convertido na Lei n2 3.273, que san-cionei, no Palcio do Catete, em solenidade que contou com a presena de todo o Ministrio, de membros do Poder Judicirio e do Poder Le-gislativo, no dia l 2 de outubro de 1957. Assinado o documento com uma caneta oferecida por jornalistas goianos, disse: "Este ato representa

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    o passo mais viril, mais enrgico que a Nao d, aps sua independn-cia poltica, para sua plena afirmao."

    LANCES DA CAMPANHA

    Assim que se tornou evidente que Braslia seria, de fato, cons-truda durante o meu governo, os adversrios passaram a aliciar parla-mentares com o intuito de que dessem seus votos aprovao de uma lei, transferindo a data de inaugurao da cidade para o governo que su-cedesse ao meu. Isto significaria a liquidao de Braslia.

    Em relao rea do Plano Piloto, estvamos a braos, na-quele momento, com outro problema. Segundo instrues expressas, nenhuma alterao deveria ser introduzida no contedo urbanstico, concebido por Lcio Costa, j que tudo estava sujeito ao mais rigoroso planejamento, de forma a se evitar que, pela liberdade concedida ini-ciativa privada, surgissem construes que se chocassem com as caracte-rsticas da cidade.

    Esse ordenamento rgido, que impunha aos construtores a necessidade de se ajustarem s peculiaridades de cada zona urbana - j que Braslia era dividida em setores nitidamente diferenciados - , acabara por exasperar alguns inconformados. Desencadeou-se, pois, outra cam-panha contra a construo de Braslia, e esta levada a efeito justamente pelos que nela estavam integrados.

    Entretanto, a reao contra a disciplina urbanstica, imposta pela Novacap, acusava propsitos de certo modo inconfessveis. Trata-va-se de um inconformismo sui generis, determinado por preocupaes de especulao imobiliria. Como Braslia sofria, na poca, de enorme escassez de residncias, alguns aventureiros imaginaram amontoar fortu-nas, improvisando casas para os que no tinham onde morar.

    De fato, o plano era engenhoso. Cada dia crescia a populao de Braslia, com a chegada de sucessivas levas de trabalhadores. Apesar da velocidade com que os blocos de apartamentos e as casas populares estavam sendo construdos, sempre existia quem vivesse em barraces, em galpes de obra e, at mesmo, em barracas de lona, armadas no cer-rado. Os especuladores pensaram, ento, realizar excelentes negcios,

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    atendendo com presteza a essa escassez de moradias. Havia espao de sobra em Braslia e, nessas condies, era s construir. A Novacap im-pedira, porm, que o Plano Piloto fosse transformado num amontoado de favelas.

    Surgira, pois, a nova campanha. Alegava-se que, em Braslia, no existia areia nem pedra e que esses materiais bsicos chegavam ao Planalto transportados por avies. Tratava-se de mais uma invencionice, tendo por objetivo impopularizar a construo da cidade. Na realidade, Braslia dispunha de diversas fontes de produo de areia. Esse material podia ser obtido atravs da lavagem do cascalho, que se mostrava abun-dante na regio, ou encontrado em bolses ao longo do crrego do Ba-nanal. No primeiro caso, a operao era simples: passava-se o cascalho por peneiras vibratrias; mas no segundo caso empregavam-se dragas ou escavadeiras.

    No que dizia respeito ao fornecimento de pedras, existiam di-versas pedreiras num raio de um quilmetro da zona urbana. Na poca, porm, a Novacap dedicara-se somente explorao de uma delas, de produo mais econmica, e que ficava margem do crrego do Bana-nal, a 8 quilmetros da Praa dos Trs Poderes. Tinha 600 metros de frente e 40 de altura, permitindo e compensando a instalao de grandes grupos britadores. Alm disso, os 4 empreiteiros da estrada Bras-lia-Anpolis possuam pedreiras com instalaes de britagem.

    Como se v, ao invs de faltar areia e pedra, o que acontecia era justamente o contrrio. Ambas existiam em abundncia e em condi-es de produo econmica. Os aventureiros, que haviam divulgado a informao, sabiam muito bem daquelas reservas, mas j no acontecia o mesmo com quem no conhecesse Braslia. Consequentemente, basta-va que se pusesse em circulao a notcia para que logo obtivesse reper-cusso e fosse acolhida, com escndalo, pela imprensa.

    Apesar das resistncias, das campanhas derrotistas e tambm das dificuldades naturais que a construo teria de enfrentar, a nova ca-pital progredia a olhos vistos. O grande canteiro de obras de 1956 j era uma metrpole em estrutura no incio de 1958. Bairros inteiros surgiam do cho. Ruas e avenidas, j dotadas de rede de esgotos e de iluminao, eram compactadas, num trabalho preparatrio para o recebimento da capa asfltica. E, sobre aquele mundo de andaimes, de armaes metli-

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    cas, de florestas de guindastes, pontificava um elemento que, como erva daninha, desgastava os nervos, intoxicava os pulmes, provocava infla-maes nos olhos. Era a poeira - uma poeira, como s existia em Bras-lia - vermelha e fina, de extraordinria capacidade de impregnao, e sempre presente em tudo que se tocava. Estava na gua que se bebia, no ar que se respirava, no travesseiro em que se reclinava a cabea. Era di-tatorial e onipresente. E - por que no diz-lo? - tambm travessa e bomia. Era comum, quando se estendia o olhar ao longo do planalto, ver-se uma impressionante sucesso de redemoinhos. O vento, caracte-rstico das grandes altitudes, varria insistentemente a imensa plancie, agitando placas de edificaes, arrancando folhas de rvores, fazendo drapejar as bandeiras das cumeeiras erguidas. Assobiava atravs das es-truturas de cimento e quase gania, quando comprimido por entre as frestas das paredes de madeira dos acampamentos.

    A poeira, em face daquele espetculo de uma fora invisvel em choque com elementos erguidos pela mo do homem, no se dei-xava ficar inativa. Agitava-se tambm, j que em torno tudo era bulcio e palpitao. Erguia-se sorrateira do cho. Alava o solo. Expandia-se para receber melhor impacto. E, quando o vento a atingia, cavalgava-o, enovelando-se por ele, para ganhar altura. Tinha lugar no cu, ento, aquele show da natureza, uma das peculiaridades de Braslia: os rede-moinhos.

    Eram espirais de poeira que, brotando dos canteiros de obra, iam girando, torcicolando, dando voltas, inclinando-se - ora para a direita, ,ora para a esquerda , mas subindo sempre at que, j bem alto, abriam-se em repuxos espetaculares, irisados pelo sol. Era comum, ao cair da tarde, ver-se uma sucesso daquelas espirais. Cinco, dez e, s vezes, quinze da-queles repuxos vermelhos barravam o horizonte^ eretos no ar, dando im-presso de que fossem pilastras, mveis, varadas de luz, que sustentas-sem, apesar da sua visvel fragilidade, o cu infinito do Planalto.

    Durante muito tempo realizei a fiscalizao das obras de Bra-slia, utilizando um jipe. Era um trabalho penoso e exasperante. As ruas, transformadas numa sucesso de crateras, ofereciam uma superfcie ao trfego capaz de desanimar at mesmo a pees de potros chucros. O jipe ia por ali aos trambolhes, afundando aqui, subindo ali, como se estivesse numa montanha-russa. Todavia, em fins de 1957, indo a So

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    Paulo, inspecionei umas obras, realizando o trabalho de bordo de um helicptero. Quando sobrevoei o local, senti a maleabilidade do apare-lho e acordei, de repente, para uma realidade que, no sei por que, nun-ca me havia ocorrido. O helicptero. Sim. Era o veculo adequado para minhas excurses ao longo do Planalto. Resmunguei, de mim para mim: "Como no me lembrei disso antes?"

    Ao regressar ao Rio, telefonei ao ministro da Aeronutica e pedi-lhe que providenciasse a aquisio de dois daqueles aparelhos, recomendando-lhe que desejava o que houvesse de mais moderno no gnero. Quando os helicpteros chegaram, renunciei ao jipe e passei a contemplar a cidade do alto. Cedo, deixava o Catetinho, e, num instante, percorria todas as frentes de trabalho, obtendo de tudo uma viso bem mais ampla e detalhada. Durante as ventanias, quando os redemoinhos se erguiam e formavam pilastras de poeira, costumava sobrevoar o vrtice do que me parecia mais elevado e anotava sua altura pelo altme-tro de bordo. Constatei que alguns redemoinhos atingiam a altura de 300 e, s vezes, de 400 metros.

    O INCIO DA BELM-BRASLIA

    No incio de 1958, Braslia, olhada do alto, era um mar de an-daimes. Se o espetculo era empolgante luz do sol, tornava-se inspira-dor durante a noite. Nas quadras dos Institutos de Previdncia Social, havia um permanente desafio. Cada construtora disputava com as de-mais a primazia de apresentar maior volume de obras. A Fundao da Casa Popular havia erguido 200 das suas unidades, e todas estavam res-paldadas e vrias j cobertas. Um lactrio achava-se em concluso. O Grupo Escolar - considerado obra prioritria - estava pronto e funcio-nando. Fabricavam-se manilhas de concreto, as quais, logo que saam das formas, eram encaminhadas para a rede de esgotos. Abriam-se valas ao longo das ruas e, por elas, corriam canos, espera da gua que estava captada na barragem do rio Torto e que, dali, seguiria para o Reservat-rio R-l em construo no alto do Cruzeiro.

    Este era o espetculo que nos saltava aos olhos durante o dia. A noite, porm, tudo mudava. Embora as obras fossem as mesmas,

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    apresentavam-se, sob a luz dos refletores, revestidas de uma capa fosfo-rescente. As ferramentas cintilavam. Holofotes varavam as trevas como espadas de luz. Viam-se brilhos estranhos no horizonte. As estruturas de cimento, iluminadas por dentro, davam a impresso de gaiolas mgi-cas. Homens, transformados apenas em silhuetas, iam e vinham como autmatos, sem qualquer expresso humana. Fogos eram acesos nos canteiros de obras e as chamas, luzindo na escurido, formavam um halo incandescente, cujas bordas se desfaziam nas trevas, toucando-as de diferentes matizes.

    Todo aquele tumulto, que parecia desordenado, mas era har-monioso, falava de um Brasil diferente. De um novo pas que acordava de um sono centenrio e sacudia os msculos, preparando-se para seu grande futuro. Aquele tumulto significava renascimento, ou melhor, rea-firmao. O gigante encontrara-se, por fim, a si mesmo, e montava sua tenda no Planalto, de onde comandaria os movimentos do seu imenso corpo. Luzes, rudos, atividade eis as vozes que anunciavam uma nova era na existncia do Brasil.

    A ideia que fora posta em movimento, no comcio de Jata, j dispunha de velocidade prpria. Caminhava celeremente, e mesmo a mudana da sede do governo j tinha a sua data fixada por lei. O desafio estava lanado. Isso significava que eu disporia de dois anos e quarto meses apenas para concluir a assustadora tarefa. A responsabilidade, po-rm, no me atemorizava. Dali em diante, caberia a mim, pessoalmente, transformar em realidade a ideia pela qual tanto trabalhava. E isso seria feito. Ajudava-me, na tarefa, uma equipe ultradedicada de colaboradores engenheiros, arquitetos, mdicos, advogados, tcnicos de todas as es-pecialidades - que no poupava esforos, mal dormia, no dispunha de tempo para se vestir bem e no largava o trabalho a no ser por exaus-to. A frente dessa equipe encontrava-se Israel Pinheiro, que, com o seu temperamento s vezes rude, exercia um comando eficiente e lcido, e, ao seu lado, estavam sempre Oscar Niemeyer e Lcio Costa, para os quais Braslia era uma obra que realizavam com amor.

    As obras, em ritmo acelerado, j haviam atingido um ponto, do qual no se poderia mais voltar. Dado esse grande passo - esse "pas-so viril", como o denominei ao sancionar a lei que fixou a data da trans-ferncia da capital - julguei que deveria concentrar minha ateno na

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    obsedante preocupao de estabelecer o grande cruzeiro rodovirio, cujos braos ligariam o Norte ao Sul e o Leste ao Oeste, tendo Braslia como ponto de intercesso.

    Desse cruzeiro, o brao mais difcil de ser construdo era jus-tamente o que faria a vinculao da nova capital com o Norte. Trata-va-se da BelmBraslia. Relatei, pginas atrs, o pulo que Bernardo Sayo dera, quando o convidei para ser o responsvel pela frente-sul. Como disse, a estrada, para ser concluda no perodo do meu governo, teria de ser atacada pelos dois lados. Uma turma viria de Belm e outra partiria de Braslia e seria estabelecido um ponto imaginrio entre as duas cidades, onde as duas turmas um dia se encontrariam. Sayo, alma de pioneiro idealista, era o homem indicado para comandar aquela ar-rancada no rumo da Amaznia. Mas quem comandaria a turma que viria de Belm?

    Convoquei, ento, uma reunio, que se realizou no palcio do governador em So Lus, para resolver o problema. Estavam presentes, alm do governador do Maranho, o Almirante Lcio Meira, ministro da Viao, o Dr. Rgis Bittencourt, diretor do DNER, e o Dr. Waldir Bouhid, superintendente do Plano de Valorizao Econmica da Ama-znia, o Senador Vitorino Freire e o Deputado Renato Archer. Como ocorria nas reunies que convocava, fui direto ao assunto. Esclareci que desejava abrir a estrada no menor espao de tempo, de forma a poder eu mesmo inaugur-la.

    O Dr. Rgis Bittencourt, como autoridade em engenharia ro-doviria, manifestou-se contrrio ideia. E deu suas razes tcnicas.

    No me surpreendi com a opinio do diretor do DNER por-que, numa palestra anterior, ela me fora manifestada, com aquela mesma franqueza. Virei-me, ento, para o superintendente da SPVEA: "E voc, Bouhid, que me diz do projeto?" "Creio, presidente, que a estrada poder ser construda. Depender apenas de recursos e de disposio" - respon-deu com certo constrangimento, por estar contrariando a opinio de um grande engenheiro como era Rgis Bittencourt. Perguntei-lhe em seguida: "E quem voc acha que poderia se encarregar da tarefa?" Bouhid no ter-giversou: "Eu mesmo, presidente. Conheo, palmo a palmo, a regio. Te-nho prtica de lidar com mateiros. E, como filho do Par, sempre sonhei com essa estrada, e faria qualquer sacrifcio para v-la construda."

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    Minha deciso no se fez esperar: "Pois, ento, Bouhid, en-trego-lhe a responsabilidade pela frente norte. Vamos dar incio aos tra-balhos imediatamente." E encerrei a reunio.

    No aeroporto, quando me preparava para retornar ao Rio, disse a Waldir Bouhid, para espicaar-lhe seu j espontneo entusiasmo: "Voc est intimado, Bouhid, a encontrar-se comigo no dia 3 de abril de 1960 em Braslia. Entretanto, deve chegar ali j viajando pela Belm-Braslia." Sua disposio agradou-me: "No dia 3 l estarei, presidente. Combinaremos, depois, a hora exata da minha chegada." Abraamo-nos e eu tomei o avio que minutos depois deixava a capital maranhense.

    A ideia do cruzeiro rodovirio ia entrar em execuo imedia-ta, e no seu brao mais difcil - justamente a haste da cruz. Eram 2.240 quilmetros, dos quais cerca de 600 em plena floresta amaznica.

    Tratava-se, na realidade, da concretizao de um sonho anti-go, que remontava ao ano recuado de 1616 - em plena infncia do Bra-sil. Nesse ano, o Tenente Pedro Teixeira, cumprindo misso de Caldeira Castelo Branco que fundara a cidade de Santa Maria de Belm do Gro-Par, conduzira o Capito-mor Jernino de Albuquerque, atravs da flo-resta, at So Lus do Maranho. Essa viagem ficara na Histria como sendo o primeiro desafio floresta.

    O Tenente Pedro Teixeira subira o rio Guam, de canoa, a partir de Belm, at a atual localidade de Ourm, situada cerca de 150 quilmetros rio acima, e de Ourm penetrara na floresta, cruzando-a at s proximidades do local, onde existe hoje a cidade de Bragana. Dali, atravessando o rio Gurupi, cruzara a Baixada maranhense, chegando, por fim, a So Lus. Esse percurso iria balizar, grosso modo, j nos dias atuais, o traado da BR-22, construda no meu governo, cobrindo o tre-cho CapanemaBacabal.

    Entretanto, outra tentativa, nesse sentido, havia sido feita. Paulo de Frontin concebera, na poca das extensas ligaes ferrovirias, um plano de fazer a ligao de Pirapora, em Minas, a Belm, seguindo um traado que passaria por Ourm e Imperatriz, no Maranho, desen-volvendo-se para o Sul ao longo do vale do rio Capim. Essa ideia mor-rera no nascedouro. Aps um reconhecimento em planta, em territrio paraense, e mesmo depois de um incio de abertura da estrada na sua ponta norte, o projeto acabara abandonado.

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    Em 1934, a ligao Norte-Sul voltara a despertar, mais uma vez, a ateno das autoridades. Isso ocorreu, por ocasio da elaborao do Plano Geral de Viao Nacional, durante o governo de Getlio Var-gas. Constava desse plano um projeto de ligao do Norte com o Sul do pas, base do traado da Rodovia Transbrasiliana - a BR-14 - a qual, partindo de Belm, serviria aos Estados do Par, Maranho, Gois, Mi-nas Gerais, So Paulo, Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, numa extenso de quase 6.000 quilmetros.

    A Transbrasiliana chegara a ter alguns dos seus trechos 'cons-trudos. Tratava-se, porm, de uma obra que iria ser executada parcela-damente, segundo o plano rodovirio do DNER, o que tornaria, muito remota a possibilidade de que fosse cruzada a rea amaznica. No incio do meu governo, a Transbrasiliana - no trecho Anpolis-Belm - s ti-nha construda a estrada Belm-Guam, numa extenso de 140 quil-metros, pavimentados, e havia sido aberta a Anpolis-Gurupi, a leste da ilha do Bananal sem pavimentao e, mesmo assim, levada a efeito pelo DNER durante a minha administrao.

    Em 1958 a Belm-Braslia no passava, pois, de um projeto. Contudo, toda a minha ateno estava voltada para aquela estrada. Ha-via escolhido os homens certos e criara um rgo prprio, dotado de poderes especiais, para realizar a tarefa, e que era a Comisso Executiva da Rodovia Belm-Braslia, ou melhor, a Rodobrs.

    A orientao, adotada pela Rodobrs, foi a mais antiburocr-tica possvel. Dividiu-se a vasta extenso a atacar, de quase 2.200 quil-metros, em trs setores: o de Gois, com 1.439km; o do Maranho, com 258km; e o do Par, com 487km, cabendo a Sayo o primeiro e sendo entregues os dois ltimos a Waldir Bouhid. Imediatamente, foram lana-das ao campo as primeiras equipes de topografia, com a misso de defi-nir o traado e proceder abertura dos primeiros campos de pouso. Entretanto, logo se verificou que nada poderia ser feito sem um adequa-do apoio areo. Dei ordem FAB para que cooperasse, tanto quanto possvel, com os engenheiros, de forma a lhes facilitar as tarefas de liga-o e de abastecimento. Mais tarde, reforando esse auxlio, pus dispo-sio da Rodobrs at o helicptero de meu uso pessoal.

    Tomadas todas as providncias, ia ter incio o gigantesco em-preendimento. Sayo era um velho pioneiro e a tarefa no o assustava.

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    Bouhid, sendo mdico sanitarista, conhecia a regio em que iria exercer sua atividade, mas seu conhecimento estava restrito ao campo de sua es-pecializao profissional. Teria que trocar o avental branco pelo culote de desbravador.

    No obstante seu entusiasmo pela obra, Bouhid no ocultava sua preocupao, em face da magnitude da tarefa que lhe pesava nos om-bros. Teria que contar com a ajuda do povo paraense, pois, sem ele, no disporia do indispensvel material humano para levar a efeito a penetra-o na floresta. Para mobilizar a opinio pblica do Estado, num sentido favorvel ao empreendimento, convocou as figuras mais representativas de Belm para uma reunio. Objetivo: discutirem, juntos, o problema. Nesse encontro, Bouhid foi objetivo e realista. Disse aos paraenses que eu estava decidido a construir a Belm-Braslia - o velho sonho de todos eles - e que havia sido convidado para realizar a obra, chefiando a turma que partiria do Norte. Aceitara a incumbncia porque, como filho da re-gio, desejava aproveitar a determinao do presidente da Repblica para concretizar aquela antiga aspirao no s dos paraenses, mas de toda a populao da Bacia Amaznia. Precisava, pois, de apoio. Apoio moral e material. No desejava que o projeto fracassasse e que, depois, pudessem dizer que a BelmBraslia no se fizera, quer pela incapacidade realizado-ra, quer pela ausncia de esprito pblico dos paraenses.

    Essas palavras obtiveram a melhor repercusso possvel. Os presentes se animaram e prometeram tudo fazer para que o Estado no faltasse ao seu dever, em relao gigantesca obra. Outras reunies foram realizadas para coordenar os trabalhos. A imprensa realizou uma campanha de mobilizao da opinio pblica. E, fato indito no Par, a populao inteira disps-se a ajudar. Homens de todas as classes apre-sentaram-se, alistando-se na cruzada. Operrios e mateiros, mdicos e engenheiros, motoristas e trabalhadores braais, caadores e tcnicos agr-colas, britadores e serradores enfim, todas as categorias profissionais -congregaram-se para formar um verdadeiro exrcito de mo-de-obra, tendo por objetivo penetrar a floresta, rasg-la de Norte a Sul, de forma que a estrada se fizesse.

    Criou-se, pois, uma mstica. Um estado psicolgico. Uma conscincia coletiva. E a BelmBraslia, tendo sua construo alimenta-da da f de centenas de milhares de criaturas, no poderia fracassar.

  • 118 Juscelino Kubitschek

    A CAMPANHA CONTRA FURNAS

    A passagem do segundo aniversrio do governo deu origem, como no ano anterior, a grandes comemoraes. A iniciativa era geral-mente dos meus auxiliares. Eu a aprovava porque julgava que o povo deveria ser informado sobre o que se passava na administrao.

    No dia 15 de janeiro, fui a Belo Horizonte para inaugurar a nova Barragem da Pampulha. Tratava-se de outra promessa que havia feito e que era cumprida na data prefixada. No dia 31 de janeiro de 1957, prometera aos mineiros apressar as obras de reconstruo da bar-ragem, para entreg-la no perodo de doze meses. Quinze dias antes da data marcada, a obra estava concluda, e eu j me achava em Belo Hori-zonte para inaugur-la.

    Naquela poca, ainda estava acesa a polmica sobre a cons-truo de Furnas. Os adversrios procuravam incutir no esprito dos meus coestaduanos a ideia de que eu trabalhava para desenvolver as in-dstrias de So Paulo e do Rio, com prejuzo das que se montavam no Estado. O slogan de Bias Fortes "Minas no pode ser a caixa-d'gua do Brasil" vivia em todas as bocas.

    Julguei que a inaugurao daquela represa oferecia uma exce-lente oportunidade para colocar as coisas no seu justo lugar. Iria fazer o povo compreender que, embora presidente da Repblica, nunca deixara de ser mineiro. O que acontecera fora que, a partir de 31 de janeiro de 1956, eu passara a ver o Brasil como um todo, e no com a viso limita-da pelas divisas do Estado.

    No discurso que pronunciei na ocasio, referi-me ao proble-ma da energia eltrica, revelando que ele estava equacionado no pas, graas cooperao entre o Executivo Federal e a administrao esta-dual, e que, em face disso, Minas iria dispor de um potencial eltrico que satisfaria a todas as demandas do seu parque industrial. "Neste, como em outros setores" - esclareci - "tenho prestado a Minas toda a assistncia possvel. S em Trs Marias e ser desnecessrio enca-recer o que esta usina de 500 mil quilowatts significar para este Estado estamos fazendo um investimento global de cerca de 4 bi-lhes de cruzeiros, apenas na construo da barragem. J esto adian-tadas as obras preliminares de Furnas, que o maior empreendimen-

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    to hidreltrico jamais projetado no pas. Sua instalao final permitir a incorporao de 1.100.000 quilowatts no tringulo industrial do Brasil: Rio-So Paulo^Belo Horizonte. Neste grande projeto sero feitas inverses da ordem de 12 bilhes de cruzeiros. Mas no cessou a o nosso esforo para dar a Minas a energia que o seu destino in-dustrial reclama e impe. A Companhia Alto Rio Grande, a Compa-nhia Sul-Mineira de Eletricidade, a Companhia Mdio Rio Doce, a Companhia Fora e Luz de Cataguases e Leopoldina e a Companhia Prada de Eletricidade receberam subvenes que somaram mais de meio bilho de cruzeiros."

    E prossegui enumerando as obras realizadas em outros seto-res: "As indstrias de base, que decidiro do progresso do Estado e do pas, tm sido objeto de nossa constante diligncia. A Usiminas j se acha em fase de franca realizao. Doze bilhes de cruzeiros sero in-vestidos nesse extraordinrio empreendimento com a participao deci-siva do BNDE. Alm desse vultoso financiamento, outros foram con-tratados pelo mesmo Banco, no total de 69 milhes de cruzeiros, dos quais 44 milhes se destinaram Companhia Brasileira de Caldeiras, ambas localizadas em nosso Estado. O sistema ferrovirio no foi me-nos beneficiado, havendo a Rede Mineira de Viao recebido recursos no montante de 1 bilho, 153 milhes de cruzeiros, para cada um de seus projetos, 6 milhes e 600 mil cruzeiros para outro. A Central do Brasil couberam 3 bilhes e Leopoldina 760 milhes. A maior parte desses financiamentos ser aplicada no Estado de Minas. No setor ro-dovirio, mais de 1 bilho e 500 milhes de cruzeiros foram investidos em construo e pavimentao de estradas. O acelerado ritmo dos tra-balhos permitir que, em futuro prximo, seja entregue ao trfego a BR-55, que vos ligar a So Paulo, num percurso de 600 quilmetros de pista asfaltada. Em 1960, uma avenida pavimentada, de 750 quilme-tros, ligar Belo Horizonte a Braslia, e outra extensa rodovia ligar Belo Horizonte a Vitria. Dois bilhes de cruzeiros sero absorvidos, nessas duas grandes vias que demandam o corao do pas."

    Conclu recordando o cumprimento das promessas feitas: "S desejo assegurar-vos que as metas que tracei em 1955 esto sendo rigo-rosamente cumpridas. Deste encontro convosco levarei energias novas para as duras tarefas que ainda me esperam. Nossos esforos, somados,

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    nos faro venc-las uma a uma, galhardamente, e com a ajuda de Deus haveremos de realizar aquilo que reiteradamente tenho prometido: que o Brasil, em cinco anos, avance cinquenta."

    Foi constrangido que tive de dirigir tais palavras de esclareci-mento aos meus coestaduanos. A campanha, que se fazia contra a usina de Furnas e que, em ltima instncia, era contra mim, obedecia a pro-psitos polticos. Na poca, o ambiente era propcio a campanhas dessa natureza, pois existiam descontentamentos na rea, principalmente os que teriam suas propriedades inundadas. Contudo, no dei maior im-portncia ao fato. Recomendei ao Engenheiro John Cotrin, responsvel pela obra, que desse andamento aos trabalhos imprimindo-lhes a maior velocidade possvel, e regressei ao Rio.

    Em face das comemoraes do segundo aniversrio da minha administrao, minha presena era exigida nos mais diferentes quadran-tes do territrio nacional. Assim, mal descia do avio, j me preparava para embarcar de novo, rumo a um local onde outra obra havia sido ter-minada. Estive no municpio de So Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, para presidir inaugurao da nova barragem do Passo do Blang, no rio Santa Cruz; inaugurei um conjunto residencial de 186 ca-sas, construdas pelo Instituto de Aposentadoria e Penses dos Indus-tririos em Campo Grande; visitei o Territrio do Acre, onde inspecio-nei o desbastamento e o destocamento da estrada Rio BrancoBoca do Acre, no total de 208 quilmetros - servio realizado em vinte meses - , tendo o trecho final sido atacado para concluso dentro do programa de comemoraes daquele segundo ano de governo; fui ao Maranho, onde inaugurei o Hospital Presidente Dutra, do IAPC, em So Lus; e a Pernambuco, onde inaugurei a nossa primeira grande fbrica de adubos fosfatados, situada em Olinda.

    Seria ocioso enumerar todas as inauguraes. Eram silos e ar-mazns; viadutos e fbricas de cimento; explorao de novos poos de petrleo; estradas abertas e pavimentadas; audes e sistemas de irriga-o; fbricas de autopeas e de automveis; navios incorporados frota nacional e, sobretudo, grandes etapas vencidas no campo da siderurgia e do potencial hidreltrico do pas.

    A inaugurao da Fosforita constituiu, na realidade, o ponto alto das comemoraes daquele ano. Embora fruto da iniciativa privada,

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    tivera decisivo apoio governamental; mas o que importava era que ela re-presentava um empreendimento includo na meta nacional de fertilizan-tes. As jazidas de fosfato de Olinda, localizadas em stio denominado For-no da Cal, possuam uma reserva estimada em 45 milhes de toneladas. Quando assumi o governo, o Brasil estava produzindo cerca de 16 mil toneladas de fertilizantes fosfatados, quando o consumo nacional era de 60 mil toneladas, devendo o dficit ser compensado pelas importaes.

    Uma das minhas preocupaes, ao ser eleito, fora a de mo-dernizar a agricultura, libertando-a dos processos rotineiros que a con-denavam misria e os que a ela se dedicavam. Pretendia substituir um sistema arcaico e predatrio por outro, moderno e racional. Nessas con-dies, o problema de fertilizantes era da maior importncia.

    Como governador de Minas, havia criado, no Estado, a Fertisa. Em breve, Minas disporia de um enorme suprimento de fertilizantes, j que as jazidas de Arax, que seriam exploradas pelo novo empreendi-mento, possuam uma reserva estimada em 100 milhes de toneladas.

    . . Ao elaborar o Programa de Metas, tratei de incluir esse item no contexto dos objetivos a serem atingidos pelo meu governo. As Me-tas 17 - Mecanizao da Agricultura - e 18 - Fertilizantes - entrelaa-vam-se e se completavam. Constituam as duas bases em que se apoiaria todo o plano governamental de levar a produtividade aos campos. Da. a razo por que tudo fizera para que a Fosforita, situada no Municpio de Olinda, em Pernambuco, pudesse se converter, em realidade. A Meta 18 do meu governo previa um aumento da capacidade de produo de fer-tilizantes em mais de 300 mil toneladas.

    Minha administrao mal havia comeado. No entanto, via, com surpresa, que, aliando a produo da Fosforita da Fertisa e de outras indstrias menores, j poderia considerar ultrapassada a Meta 18, considera-da por muitos um alvo quase impossvel de ser atingido num quinqunio.

    COMBOIO DE MQUINAS

    A misso de Oto Barcelos nos Estados Unidos fora coroada de pleno xito. Tivera de vencer muitas resistncias, mas, afinal, coloca-ra as encomendas das mquinas que se faziam necessrias para a aber-

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    tura da Belm-Braslia. Total da transao: 3 milhes e 153 mil dlares. Tratava-se da maior compra, realizada pelo Brasil, de mquinas rodoviri-as. Entretanto a compra, apesar de sua relevante importncia, no era tudo. Havia, ainda, o problema do transporte. Como Oto Barcelos me prevenira, tive de intervir na soluo do caso, mobilizando o Consulado Geral em Nova Iorque, meu querido amigo Amaral Peixoto, embaixador em Washington, e mesmo o Consulado em Nova Orles. Todas essas re-parties trabalharam em conjunto, obtendo praa em navios, para que as mquinas chegassem ao Brasil no menor espao de tempo possvel.

    E tudo foi feito com admirvel preciso. A encomenda fora distribuda entre diversas firmas norte-americanas, das quais a que rece-bera o maior pedido havia sido a International Harvester Export Co., de Chicago, que forneceria 90 tratores e 25 carregadoras. De outras firmas, inclusive a Caterpillar e Allis^Chalmers, foram importadas 61 motonive-ladoras e mais 10 tratores e 50 carregadoras. Providenciei, igualmente, junto Superintendncia da Moeda e do Crdito, que fosse concedida importao inscrio prioritria, e a transao foi completada mediante um emprstimo pelo prazo de 5 anos, a juros de 6% ao ano, e saques com vencimentos semestrais. O BNDE, por sua vez, dera seu aval aos respectivos contratos, mediante a garantia do depsito, pelo DNER, dos recursos provenientes da cota do Fundo Rodovirio a ele destinado.

    Feita a compra, dividiram-se as mquinas em dois lotes: um seguiria para Belm; e o outro desembarcaria no porto de Santos, j que a construo de grande rodovia seria iniciada simultaneamente nas suas duas pontas. Quanto ao lote que seguiu para Belm, as dificuldades que tiveram de ser vencidas no representaram qualquer problema. As m-quinas seguiram da capital para Guam, passando por Santa Maria, via-jando por um trecho j asfaltado, numa extenso de 148 quilmetros. J no aconteceu o mesmo com o lote que desembarcou em Santos. Este teria que atravessar So Paulo, parte do Tringulo Mineiro, e penetrar em Gois at Anpolis. Milhares de quilmetros deveriam ser cobertos, atravs de regies nas quais no existia qualquer tipo de estrada. Tra-tava-se de uma verdadeira operao de guerra.

    Atento a essa particularidade, isto , que estvamos em face de uma operao de guerra, solicitei ao Ministro Teixeira Lott que pro-

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    videnciasse, junto Engenharia do Exrcito, o transporte daquelas m-quinas at Anpolis.

    Os engenheiros militares j estavam familiarizados com aque-las dificuldades. Um ano antes, eu havia providenciado a remessa de um transformador de 115 toneladas do Rio para Braslia, e a operao, ape-sar das dificuldades que tiveram de ser vencidas, fora levada a efeito com admirvel tenacidade. Esse transformador iria alimentar, no Planal-to, as primeiras lmpadas e proporcionar os quilowatts indispensveis s atividades iniciais dos trabalhos.

    O Engenheiro Quintilhano Blumenschein, das Centrais El-tricas de Gois, partiu de Santos, em agosto de 1959, comboiando o pe-sadssimo transformador, tentando conduzi-lo at o Planalto numa car-reta. Chovera muito naquele perodo. Quando o grande veculo, depois de 12 dias de viagem, chegou ao rio Paranaba, nas fronteiras do Estado de Gois, a situao logo se agravou.

    A carreta, com o transformador, foi colocada sobre uma grande prancha, na qual atravessaria aquele caudaloso rio. Entretanto, no meio do percurso, a prancha perdeu o equilbrio e virou. A carreta e o transformador afundaram no rio. Em face da situao, o engenheiro no sabia como arrancar aquelas 115 toneladas do fundo da gua.

    O governo solicitou, ento, ao 42 Batalho de Engenharia, se-diado em Itajub, sob o comando do Cel. Jos Sotero, a realizao de perigosa operao. Trinta soldados, trs tenentes, cinco sargentos, sob o comando do Capito Miranda, iniciaram a obstinada batalha. Tiveram de esperar trs meses para que as guas baixassem. Depois de desespe-rados esforos, e com o auxlio de um guincho, arrancaram a carreta so-bre a qual se encontrava o transformador. Levaram-no de volta para So Paulo, a fim de o abrirem para os consertos necessrios. Retomaram, depois, o mesmo caminho, passando por Minas. Nessa altura, a ponte de So Marcos, na divisa de Minas com Gois, j estava pronta.

    Levaram 60 dias na viagem. O motorista Antnio, que con-duzia o imenso veculo, trabalhou infatigavelmente, quase sem dormir. Lembro-me da emoo com que aguardamos, no Planalto, a chegada do gigantesco transformador. Dali em diante, teramos mais iluminao e mais energia para ativar a construo de Braslia.

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    Em face do antecedente, julguei que deveria caber ao Exrci-to a responsabilidade pelo transporte das mquinas rodovirias. A se-gunda operao era, sem dvida, bem mais difcil do que a primeira. Ao invs de uma unidade de 115 toneladas, diversas delas, e do mesmo peso, deveriam ser levadas - ora atravs de estrada, ora de trilhos; umas vezes sobre o asfalto, outras vezes ao longo de cerrados quase intrans-ponveis - sob a forma de um comboio imenso que, partindo da orla martima, deveria alcanar o corao do Planalto Central.

    Mesmo hoje, que j existem estradas por toda parte, uma tarefa dessa natureza exigiria esforos sobre-humanos. Que dizer-se, ento, da-quela poca, quando o Planalto Central era o "grande desconhecido", e uma viagem de Gois ao Rio tinha a durao de meses? Entretanto, os tratores, as carregadoras e as motoniveladoras realizaram a travessia em 1958. Em algumas regies, pequenas vilas tinham de ser atravessadas e, como as ruas eram estreitas em excesso, demoliam-se as casas para que uma passagem fosse aberta e indenizavam-se os proprietrios.

    Assim, o comboio chegou ao seu destino. O percurso fora coberto com sacrifcio indescritvel, e quando as grandes mquinas che-garam a Anpolis a populao saiu s ruas para saud-las. At ento, tudo lhe havia sido negado estradas, escolas, escoamento para a pro-duo e, mesmo, conforto espiritual da religio. At os padres temiam varar aqueles descampados, e as poucas igrejas que existiam improvisa-das por pioneiros ficaram ao abandono depois de concludas, sendo destrudas pelo tempo.

    A chegada do comboio de mquinas a Anpolis significou que a promessa que eu havia feito iria ser cumprida. Finalmente, a Be-lmBraslia comeava a ser concretizada. Desde alguns meses, o DNER j estava em grande atividade na regio. Rasgava a Anpo-lis-Braslia. No dia 15 de maio de 1958, convidei Bernardo Sayo para o cargo de supervisor da Rodobrs.

    Junho de 1958. Braslia est em festa. Ia ser inaugurada a igre-jinha de Nossa Senhora de Ftima. Niemeyer fizera o projeto - uma ca-pela em forma de chapu de freira. Pequeno e gracioso, no quebrava o esprito de monumentalidade, caracterstico das obras de Braslia. Impu-nha-se como um marco de f. Era um osis de recolhimento, encravado no tumulto da cidade que brotava do cho.

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    A igrejinha nascera como pagamento de uma promessa. Minha filha Mrcia, que estivera doente por quase dois anos, recupe-rara a sade. D. Berta Craveiro Lopes, esposa do presidente de Por-tugal, logo que regressara a Lisboa, fora ao santurio de Nossa Se-nhora, em Ftima, e comungara, implorando por sua sade. Sarah, minha esposa, secundando-a, fizera, tambm com a mesma inteno, uma promessa de construir em Braslia uma igrejinha, sob a invocao da milagrosa santa.

    O milagre se fizera e, no dia 28 de junho de 1958, a igrejinha foi sagrada. Para suportar a laje de cobertura, que o seu principal deta-lhe, foram plantados apenas trs pilares, oferecendo o conjunto uma ex-traordinria impresso de leveza^ Essa igrejinha fora a primeira obra ar-quitetnica definitiva erigida dentro do Plano Piloto, e sua construo se fizera em apenas 100 dias.

    Durante a cerimnia da inaugurao, Sarah descerrou a pla-ca comemorativa, com os seguintes dizeres: "Este Santurio, primeiro de Braslia, foi mandado erigir em honra de N. Sr2 de Ftima, por iniciativa da Sr2 Sarah Kubitschek, em cumprimento de uma promessa." Em seguida, o Nncio Apostlico, Dom Armando Lombardi, procedeu bno litrgica, lendo na ocasio a bno apostlica do Papa, nos seguintes termos: "Exm a Sr3 Sarah Kubitschek. Na certeza de que a Igreja de Nossa Senhora de Ftima de Braslia ser centro irradiador de intensa vida crist, concedemos a V. Ex e demais pessoas presentes nossa bno apostli-ca. Vaticano, 26 de junho de 1958. Pio XII, Papa."

    Frei Demtrio assistiu primeira orao de Bernardo Sayo na igrejinha. Informou que, prostrado, ele fez um pedido em voz alta santa milagrosa: "Que a estrada para Belm fosse, de fato, construda... Que ela o ajudasse..." O pioneiro do sculo vinte, como os bandeirantes do tempo dos "descobertos", pedia tambm o auxlio divino para que a aventura fosse coroada de xito.

    A floresta era, na realidade, traioeira e no bastavam cora-gem e determinao apenas para que ela pudesse ser vencida. Sayo, melhor do que ningum, pressentia os perigos, as ciladas, as surpresas que o aguardavam quando, frente dos seus mateiros, desse incio pe-netrao. Numa tomada de posio, para sentir os problemas, voara at

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    Guam, a fim de ver o trabalho de destocamento que se processava no prolongamento da estrada, depois daquela cidade.

    Ali estava Waldir Bouhid, o responsvel pela Frente-Norte, que tinha como auxiliar, e homem de sua confiana, o engenheiro Rui de Almeida. Entre as duas Frentes, estendiam-se mais de 2 mil quilme-tros de territrio inviolado. As duas turmas deveriam encontrar-se num ponto imaginrio,, ainda no localizado no mapa, mas que um dia, de fato, existiria. Chamavam-no Ligao.

    Sayo montou seu quartel-general em Porangatu. Como ad-ministrador da colnia de Ceres, ele havia avanado para o Norte, abrin-do uma picada de Uruau at Porangatu. Eis o que tivera de vencer para abrir a picada: terreno acidentado, rios cheios de corredeiras, elevaes duras de serem transportas. Ali, trabalhara "no rumo", segundo a ex-presso dos caboclos, o que queria dizer: sem qualquer levantamento topogrfico.

    Sayo avaliava, com os olhos, a regio. Depois, estendia o brao e ordenava: "Por ali! Este deve ser o rumo!" Tratava-se da linha que seria seguida at que o mesmo gesto se repetisse mais adiante. Assim, havia avanado at Porangatu. Naquela poca, dispunha apenas de dois tratores TD18, de algumas alto-Patrol e de meia dzia de caminhes aos pedaos. Como era de esperar, a estrada, aberta com esses refugos mecnicos, seria precria. Dava passagem. Era s. Mas dando passagem j era alguma coisa para quem, desde a fundao de Ceres, vivia ilhado.

    A construo da Belm-Braslia seria feita, entretanto, em no-vos padres. O comboio de mquinas rodovirias modernas havia che-gado a Gois e a Belm, e as obras, de acordo com instrues diretas minhas, deveriam desenvolver-se com o "ritmo de Braslia".

    Sayo pensava na espinha dorsal, da qual ramificariam as costelas. Minha ideia, embora sendo de idntico significado, era a do grande cru-zeiro rodovirio, ligando os pontos cardeais do territrio nacional. A di-ferena era apenas de dimenses, e no de objetivos. Ambos desejva-mos ligar o Brasil por dentro. Criar um sistema interno de comunica-es, cujo objetivo era a integrao nacional.

    Sayo desejava a Belm-Braslia porque na sua personalidade o pioneiro e o bandeirante se confundiam. Aspirava abrir a estrada para colonizar. Repetia com frequncia: "Consegui meu sonho, a Espinha

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    Dorsal. Vocs no imaginam a riqueza destas matas. Madeira de lei. Ter-ras de cultura. E tudo de primeirssima." Abria os braos de gigante, como se quisesse abraar o Planalto. Ningum, como ele, conhecia a re-gio1 em que iria trabalhar. Antes que s' obras se iniciassem, pra no perderem tempo, fazia inspees em voos rasantes sobre o topo das r-vores. Certa vez, numa dessas excurses, a hlice do motor parou, e o teco-teco comeou a dar guinadas. Era uma folha a mais que o vento do planalto fazia planar, ao sabor das suas correntes. Pouco depois, o que poderia ser previsto ocorreu. O aviozinho bateu num galho e ficou pre-so no emaranhado da fronde. Estava salvo. Desvencilhou-se do cinto de segurana, escorregou pelo tronco e ps o p na terra. No se inquietou,' porm, com o perigo porque passara. O que o preocupava era recuperar o teco-teco: "Como que vou tirar esse danado daquela galharia?"

    Numa carta ao seu amigo Mrio Braga, definiu, com preci-so, a natureza daquela floresta. "A selva to fechada e alta que nin-gum sabe o que est sob ela; e, se cair um avio, por maior que seja, ela abre o seio, recebe-o e torna a fechar-se, fazendo- desaparecer para sempre."

    Sayo estava pronto. Levou o trailer, em que habitualmente morava, para as imediaes de Porangatu e.o abrigou sob um majestoso p de pequi. Armou o fogo ao ar livre. Semeou uns caixotes em torno, guisa de sala de visitas. Ele mesmo, porm, ali pouco parava. Quem se aproximasse da mata, que comeava perto, logo o via alto; forte como uma rvore; rosto de linhas harmoniosas, como se fosse esculpido; olhos perscrutadores; trajando cala de brim caqui e camisa branca, aberta ao peito. Estava ali, na sua indumentria "de guerra", preparan-do-se para a grande arrancada.

    AMPLIAO DOS OBJETIVOS POLTICOS

    Enquanto prosseguiam as inauguraes comemorativas do segundo aniversrio do meu governo, tomei o avio e segui para Aragar-as. Atravessei o territrio de Gois e ordenei que o Douglas j que a regio era imprpria para as operaes do Viscount - aterrissasse em Barra do Garas. O que desejava era inspecionar as atividades da Fun-

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    dao Brasil-Central, cuja rea e atribuies se entrosavam na poltica de atrair para aquela regio levas de elementos colonizadores que pudes-sem fazer a redeno econmica de dois grandes Estados.

    Ao chegar a Barra do Garas, tive uma surpresa. A ponte, em concreto armado, que transpunha a confluncia do Araguaia e do Gar-as e que vinha sendo construda desde 1947, estava concluda. At 1955, isto , durante oito anos, s um tero daquela importante obra de arte havia sido construdo. Nos dois ltimos anos, ou seja, durante a mi-nha administrao, concluram-se os quilmetros restantes da estrada e a ponte respectiva, realizando-se, assim, naquele curto espao de tempo, quase o dobro do que fora feito em oito anos.

    Quem se der ao trabalho de fazer a anlise serena do meu Go-verno constatar que o seu primeiro ano foi o do lanamento das grandes obras de infra-estrutura: estradas, indstrias, energia eltrica, petrleo, ar-mazns e silos, visando modernizao da agricultura. No segundo ano, os projetos, j em execuo, comearam a se corporificar, compondo uma nova fisionomia para o Brasil. Em meados de 1958, concentrei mi-nha atividade na soluo do problema da integrao nacional.

    O que buscava, com essa poltica, era reunir as diferentes uni-dades federativas, aproxim-las, faz-las participar do progresso geral, em situao de igualdade com os grandes Estados. No era possvel que continuasse a existir um Nordeste que passava fome ao lado de um So Paulo, que era um exemplo de riqueza. Teria de deslocar o eixo do pas, recuando o meridiano das decises nacionais para o Oeste, de forma a situ-lo no centro geogrfico do territrio.

    Em face disso, 1958 transformou-se de sbito numa etapa nova do governo. Os problemas, que teria de enfrentar, seriam diferen-tes. No eram os de estimular o progresso, onde ele j existia. Mas cri-lo do nada, atravs de uma ao de natureza desbravadora. Tudo aquilo teria que ser recuperado para a civilizao. A Fundao Bra-sil-Central realizava uma admirvel obra de redescobrimento do Brasil. Entretanto, o que mais me preocupava no era propriamente a realiza-o daquelas obras, o que seria levado a efeito custasse o que custasse. Inquietava-me a possibilidade de que todo aquele esforo acabasse se tornando intil. Que adiantariam aquelas pontes, se a Fundao no fe-chasse o circuito desbravador, atraindo colonizadores para a regio? O

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    objetivo no era construir pontes ou abrir estradas. Mas povoar, criar ncleos geradores de progresso, civilizar, enfim.

    Naquela frente de batalha, situada a mais de mil quilmetros dos grandes centros urbanos, seriam diferentes os elementos que tenta-riam barrar a entrada do progresso. Relacionavam-se todos com a Natu-reza - a Natureza quase indomvel, cuja hegemonia se fazia presente em dois teros do territrio nacional. O avio permitia que a contemplsse-mos de cima, que a vssemos como numa viso de calidoscpio, numa velocidade de 400 quilmetros por hora. Uma civilizao, porm, no construda atravs de imagens. A realidade, que se pressentia l embai-xo, era aterradora. Isto, quanto ao avio. Que aconteceria ao homem, isolado, desprotegido, sob um regime de alimentao racionada? Da a minha preocupao. Desejava plantar carvalhos, e no couves.

    O esforo de governar amplia a viso e apura a sensibilidade do administrador, e por isso que, medida que o governo avanava, ia tendo uma noo cada vez mais ampla da realidade nacional, no s no mbito interno, mas igualmente no terreno do seu relacionamento com o que ocorria no cenrio internacional.

    Uma nao mais que uma unidade tnica, configurada atra-vs de projees sociais e econmicas. Como disse Renan: "Uma nao uma alma, um princpio espiritual. Possuir uma glria comum no pas-sado, uma vontade comum no presente. Ter feito grandes coisas con-juntamente, desejar faz-las de novo essas so as condies para a existncia de uma nao." O Brasil no poderia viver voltado para den-tro de si mesmo, deslumbrado com o imenso potencial das suas rique-zas, exaurindo-se num ufanismo que a nada conduzia. Alm das suas fron-teiras, existia na Amrica Latina uma constelao de povos irmos, afun-dados na mesma pobreza e vtimas das mesmas chagas dos desnveis sociais. E, mais adiante ainda em termos geogrficos, esplendia a grande civilizao ocidental a idade de ouro do mundo.

    Enquanto resolvssemos os nossos problemas internos, deve-ramos conservar a ateno desperta para o que estivesse ocorrendo na casa do vizinho, para socorr-lo - se ele necessitasse do nosso auxlio , mas, principalmente, para juntar nossas foras s dele, a fim de que, jun-tos, reivindicssemos um lugar condigno no banquete da prosperidade mundial.

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    A experincia que se ampliava, medida que os anos passa-vam, fizera com que, aos poucos, eu fosse alargando a esfera dos meus objetivos polticos. No plano interno, conseguiria pacificar os espritos, e a Oposio, embora ainda aguerrida, julgara mais prudente limitar-se a exercer severa vigilncia sobre os meus atos, mas sem descambar para os ataques pessoais. Quando me combatia - o que fazia com a maior frequncia evitava criar novas crises polticas, j que compreendera, por fim, ser intil insistir em ludibriar a opinio pblica, alegando inver-dades que se desfaziam como bolhas de sabo.

    Assoberbado pelos problemas que desafiavam o governo, e sentindo na carne as consequncias do descaso com que os Estados Unidos - nosso tradicional aliado - encaravam nossas reivindicaes, passei a me informar sobre o que ocorreria nos demais pases da Amri-ca Latina. Desejava verificar se existia, da parte de Washington, um pro-psito discriminatrio em relao ao Brasil ou se as nossas dificuldades eram iguais s que embaraavam o progresso das naes nossas vizi-nhas. Quando o General Stroessner estivera no Brasil, durante o ms de maio, trocara ideias com ele sobre a situao do continente. Verifiquei, com surpresa, que ele tambm se mostrava magoado com o quase ne-nhum interesse dos norte-americanos pela situao interna do Paraguai. A mesma impresso colhera atravs de entendimentos diplomticos rea-lizados com o Presidente Frondizi, da Argentina.

    Conclu que o ressentimento era geral e que alguma coisa deve-ria ser feita para se evitar que aquele sentimento se transformasse, aos poucos, num movimento de franca hostilidade poltica de Washington. Os problemas das diferentes Repblicas eram mais ou menos idnticos e, em face disso, julguei que um plano geral, calcado na realidade socioeco-nmica da Amrica Latina, talvez pudesse solucionar a questo. Seria da maior importncia, porm, que esse plano tivesse o apoio de todos os governos, pois, assim, transformar-se-ia numa reivindicao coletiva, o que lhe daria maior amplitude e lhe emprestaria slido contedo poltico.

    Durante minhas viagens, pensava nesse assunto. A ideia se enraizava no meu esprito, aprofundando-se e adquirindo consistncia. Entretanto, evitava precipitar-me. Embora considerasse aquele plano ir-reversvel, procurava aperfeio-lo e examin-lo bem, de forma que, quando a ideia se cristalizasse, ela pudesse resistir a qualquer crtica.

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    Entretanto, enquanto me preocupava com esse plano, no me descuida-va do setor interno. Os problemas que nele reclamavam minha ateno eram numerosos e complexos. Ademais, s me restavam trs anos de governo. Espicaado pela exiguidade do tempo, resolvi concentrar mi-nha ateno no Nordeste, cuja situao naquele momento, em face de uma nova seca, tornava-se cada dia mais dramtica.

    A META DO PETRLEO

    Em janeiro de 1958, diversos setores da administrao empe-nhavam-se na construo da Refinaria Rio de Janeiro, no quilmetro 10 da variante da Rodovia RioPetrpolis.

    A poltica do governo, no que dizia respeito indstria do pe-trleo, tinha em vista, sem mencionar as implicaes relacionadas com a segurana nacional, o duplo objetivo de influir, direta e indiretamente, no aumento do ritmo de desenvolvimento econmico do pas. Direta-mente, em virtude da elevada rentabilidade caracterstica dessa indstria, e tambm pelo fato de proporcionar amplas e novas oportunidades de apli-cao, em condies singularmente compensadoras, ao capital e mo-de-obra nacionais; e, indiretamente, em consequncia do alvio das presses que se faziam sentir sobre o balano de pagamentos pela dimi-nuio dos dispndios de dlares com as importaes de gasolina, o que permitira uma liberao de divisas para aquisio de outros bens de pro-duo, especialmente equipamentos destinados industrializao do pas.

    Havendo mantido o monoplio estatal da explorao do pe-trleo, estabeleci, logo que assumi o governo, nova tributao, em base ad valorem, sobre os combustveis lquidos e lubrificantes. Essa providn-cia proporcionou substancial reforo aos programas rodovirio e ferro-virio e deu novo impulso s atividades da Petrobrs, assegurando-lhe meios para rever seus planos iniciais e fixar metas adequadas sua ex-panso industrial.

    O programa de ao desse setor bsico foi dividido em duas partes: a explorao em busca de novas reservas comerciais de petrleo e desenvolvimento dos campos para o aproveitamento econmico des-sas reservas. Nesse sentido, foram ativados os trabalhos de pesquisas

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    nas bacias, onde a Petrobrs j tinha maior conhecimento da sua geolo-gia, isto , no mdio Amazonas, no litoral do Maranho, nas costas de Alagoas e Sergipe, no Recncavo Baiano.

    Os investimentos anuais foram estabelecidos em funo das capacidades operacionais, tcnicas e administrativas. Tomando-se por base o que havia sido executado nos dois primeiros anos do governo, as atividades de pesquisa deveriam acusar um acrscimo global de quase 500% em 1961.

    O custeio dessas atividades absorveria maior volume de re-cursos, cerca de 20 bilhes de cruzeiros, dos quais 40% para a cobertura dos gastos em moeda estrangeira, no montante estimado de 154 mi-lhes de dlares. A futura nfase recairia nas perfuraes pioneiras e es-tratigrficas, as quais seriam responsveis por mais de 50% desse pro-grama. O parque de sondagens, para esse fim, seria gradativamente qua-druplicado, j que no incio de 1957 contavam-se 12 unidades, e esta-vam previstas, para 1961, 48 sondas em operao de pesquisa.

    Independentemente de novos xitos que pudessem ocorrer nas pesquisas, as reservas j descobertas e os ento recentes sucessos no Recncavo Baiano j impunham um plano de investimentos no desen-volvimento dos campos petrolferos ali localizados. Ao encerrar-se o exerccio de 1956, os clculos conservadores das reservas recuperveis daqueles campos indicavam uma cifra de 311 milhes de barris. Em ju-nho de 1957, elas j haviam atingido os 344,7 milhes de barris. Supon-do-se uma explorao comercial adequada, na mdia de 20 anos para cada reservatrio, aquelas reservas poderiam assegurar uma capacidade produtiva de 17 milhes de barris anuais.

    O oramento quinquenal desse setor estava previsto em cerca de 9,5 bilhes de cruzeiros, dos quais aproximadamente 50% se destina-vam cobertura dos gastos em moeda estrangeira, estimados em 93 mi-lhes de dlares. Esses clculos haviam sido efetuados com certa mar-gem de exagero, em face da perspectiva de ser necessria a perfurao, em larga escala e em estruturas profundas, sobre a plataforma submarina da baa de Todos os Santos, o que exigira equipamentos mais onerosos do que os comumente empregados nesse gnero de trabalho, e de custeio de operao bem superior.

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    De qualquer forma, afigurava-se bem possvel o alcance da meta de produo de 40 milhes de barris, ou cerca de 110.000 barris dirios em 1961. Entretanto, a intensidade dos trabalhos programados autorizava prever-se que outras considerveis reservas seriam incorpora-das ao patrimnio da empresa, antes daquele prazo, e, se isso aconteces-se, ela poderia superar, com facilidade, a meta preestabelecida.

    Quanto refinao, a meta governamental previa a constru-o de duas novas refinarias no Sul do Pas e a ampliao das existentes, a fim de se elevar de 200 mil barris por dia a capacidade de refino da empresa em 1960. Com esse acrscimo, a capacidade total das refinarias nacionais atingiria, no ltimo ano do meu governo, a produo de 330 mil barris por dia. As novas refinarias seriam a do Rio de Janeiro - hoje denominada Duque de Caxias - , com capacidade de 90 mil barris dirios, e uma outra com 25 mil barris, a ser instalada em local que mais tarde seria fixado na regio central do Brasil, provavelmente em Minas Gerais. Quanto aos trabalhos de ampliao, seriam eles executados na refinaria de Mataripe, visando produo de 37 mil barris dirios ento j em processamento - na Presidente Bernardes, da ordem de 55 mil barris, e estudava-se a ampliao da de Cubato. Simultaneamente, providencia-va-se a expanso da Frota Nacional de Petroleiros, com um aumento de cerca de 330 mil toneladas deadweight. Nesse sentido, j haviam sido en-comendados quatro petroleiros, de 33 mil toneladas, a estaleiros holan-deses, e trs, de 34 mil toneladas, a estaleiros japoneses.

    No dia 29 de janeiro de 1958, segui, de automvel, com o Co-ronel Janari Nunes, presidente da Petrobrs, para o local onde se reali-zaria a cerimnia do incio da construo do grande empreendimento. Tratava-se, na realidade, de uma obra de benficas e profundas reper-cusses na economia brasileira. Quando concluda, proporcionaria no-vas oportunidades de trabalho a milhares de pessoas, alm de contribuir, de forma decisiva, para o aumento da renda nacional, j que, por volta de 1960, comearia a vender cerca de 15 bilhes de cruzeiros por ano, ou seja, aproximadamente 45 milhes de cruzeiros por dia.

    Imensas seriam igualmente as perspectivas que aquele empre-endimento iria abrir indstria qumica brasileira. Com a ampliao das atividades da Petrobrs, a nossa petroqumica entrava numa era nova em 1958. No primeiro semestre desse ano, estariam em regime de funcio-

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    namento industrial cinco grandes fbricas, todas alimentadas pela Refi-naria de Cubato: uma de fertilizantes nitrogenados, com a capacidade de produo de 110.00 toneladas anuais de nitrocal; uma de eteno, po-dendo produzir um mnimo de 20.000 toneladas anuais dessa mat-ria-prima, base do setor de maior amplitude da indstria petroqumica; uma de estireno, para 5.000 toneladas por ano; uma de polietileno, po-dendo produzir 4.300 toneladas anuais; e uma de negro-de-fumo, com capacidade de 15.000 toneladas por ano. Dessas cinco fbricas, as duas primeiras pertenciam Petrobrs e as trs restantes a organizaes privadas, que haviam obtido do Governo a ajuda e o estmulo necessrios para que se instalassem.

    No discurso, que pronunciei na ocasio, ressaltei o progresso realizado no setor petrolfero, desde que iniciara a minha administrao. "Quando assumi o governo" declarei "a meta prevista no Plano de Desenvolvimento, com que me apresentei como candidato, era de 40 mil barris por dia, para 1960. Encontrei, como Presidente, em 31 de ja-neiro de 1956, a produo mdia diria de 6.800 barris. Elevando-se, desde ento, em ritmo acelerado, a produo j atingiu, no ms de janei-ro corrente, a 42.000 barris por dia, ultrapassando, assim, em dois anos apenas, a meta inicial fixada, que corresponde a 20% do consumo do Pas. Transformado em termos de divisas, esses nmeros adquirem ain-da maior relevncia. Tambm quando assumi o governo, a produo, o refino e o transporte do leo nacional proporcionavam ao pas, no pla-no da liberao cambial, uma poupana de 33 milhes de dlares, cor-respondentes ao ano de 1955. J em 1956, a indstria de petrleo pde oferecer a nossa balana comercial uma economia de 80 milhes de d-lares, para fechar o balano de 1957 com uma contribuio prevista em 106 milhes."

    Dessa forma, j no segundo ano do governo a meta do petr-leo para 1960 havia sido ultrapassada. O mesmo iria ocorrer, dali em di-ante, com as demais.

  • Um dia novo que amanhecia

    ^^m^^^ ano de 1958 foi de tranquilidade politica. De fato, o horizonte estava desanuviado. As obras comeavam a aparecer e, com elas, iam surgindo as solues pelas quais desde muito o pas esperava. Por ocasio de uma exposio de Planos, Projetos e Maquetes de Bras-lia, realizada no edifcio do Ministrio da Educao, ressaltei, em discur-so, a pureza do ar que, desde algum tempo, j se respirava no Brasil: "O Governo que est mudando, agora, a capital" declarei "sabe que essa mudana necessita ser suplementada por uma srie de medidas que importem em melhoria da produo alimentcia em toda a zona que est sendo incrivelmente ativada neste momento. Sabe que procede a obser-vao do famoso jornalista francs, Cartier, quando ligou o sucesso de Braslia ao sucesso do problema agrcola da regio."

    Esta frase condensava um ideal realista. A mudana da capital era uma providncia administrativa, ditada por imperativos polticos, e que deveria ser complementada por numerosas medidas de carter socioeconmico. Enquanto eu levantava as edificaes do Plano Piloto, teria que prover a subsistncia da futura cidade. Criar-lhe condies de habitabilidade. Enfim, fazer surgir no Planalto os indispensveis ncleos de fontes abastecedoras, sem as quais Braslia no poderia sobreviver.

    Decidi, assim, cuidar de estimular o advento de uma srie de indstrias, necessrias existncia de qualquer grande cidade. Tomei a

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    iniciativa, convocando os capitalistas entusiastas da transferncia. Aps o impulso inicial dado pelo Governo, essas indstrias foram surgindo naturalmente. A crescente concentrao humana requeria, cada vez com maior urgncia, bens de consumo. No comeo, tudo vinha de fora, no bojo dos caminhes que faziam as arriscadas travessias de Belo Hori-zonte a Braslia ou de Anpolis a Braslia. Depois, com a ampliao do mercado local, esses bens passaram a ser produzidos na orla da cidade. Nas minhas excurses em helicptero podia sentir a fora do trabalho que se desenvolvia nas cercanias da nova capital.

    A transformao processava-se em ritmo uniforme e obede-cendo sempre s mesmas linhas. Abria-se um desvio de estrada e, pouco depois, j existia ali uma bomba de gasolina. Ao lado da bomba construa-se uma venda. Vinham, em seguida, as primeiras casas e, com estas, os pio-neiros que se dedicavam s mais variadas atividades. Eram ferreiros, me-cnicos, carpinteiros, comerciantes de secos e molhados. Com o primei-ro dinheiro ganho das transaes, um terreno era adquirido. Vinha, pois, a derrubada do cerrado, e, no cho vermelho do Planalto, iam surgindo aos poucos as hortas, os quintais, as plantaes de arroz e milho - en-fim, a pequena lavoura.

    Em 1958, as plantaes de gneros alimentcios j domina-vam a paisagem, humanizando-a. O deserto de antes j se apresentava como um arremedo de zona agrcola. Nos rastros dos pioneiros, chega-ram os que tinham ambies mais complexas. E as primeiras indstrias se misturavam com as primeiras culturas de subsistncia em larga escala.

    No seria suficiente criar Braslia, empurrando o meridiano das decises nacionais para o centro geogrfico do territrio. No litoral ainda havia muito o que fazer. As obras de infra-estrutura representa-vam um alicerce, uma base de apoio. Sobre elas, era indispensvel que se construsse a plataforma que seria utilizada pela nova gerao para seu ingresso definitivo na era tecnolgica.

    O progresso um fenmeno integrado. Quando se abre uma rodovia, a regio por ela beneficiada alarga imediatamente suas exigncias. O horizonte se abre para todos, e logo surgem novas necessidades de consumo. O homem, prisioneiro da acanhada realidade anterior, sen-te-se liberto e, estreitando seu contato com o mundo, passa a ser vtima de emulaes. Se no tinha geladeira, passa a desej-la, porque viu na

  • Por que constru Braslia 137

    casa dos seus amigos da cidade. Se no lia jornais, comea a l-los, inte-ressando-se pelo que ocorre alm das fronteiras da sua provncia.

    Ao mesmo tempo ia surgindo uma nsia nova de conhe-cimento, e esta, no sujeita a limitaes, impunha novas relaes intelectuais e ticas, que nos seria foroso atender.

    Meu programa, denominado Educao para o Desenvolvi-mento, levara em conta esses condicionamentos. Seu objetivo no era apenas dar educao, mas preparar a juventude que j reclamava mais amplos horizontes.

    PLANO EDUCACIONAL

    Braslia, de acordo com o Plano Piloto de Lcio Costa, seria integrada por diferentes setores, todos eles mais ou menos autnomos. Existiria o centro cvico da metrpole, representado pela Praa dos Trs Poderes, onde se ergueriam os palcios do Executivo, do Legislativo e do Judicirio, os edifcios ministeriais e a Catedral. Alm dessa praa, desdobravam-se, uns sucedendo a outros, os demais setores; o comercial; o bancrio; o das diverses; o dos apartamentos residenciais e o das casas populares.

    Poder-se- pensar que, ao promover a construo da cidade -concebida para abrigar uma populao de 500 mil habitantes , eu hou-vesse optado por atacar, de cada vez, um setor urbano e, quando este estivesse concludo, passar para outro, segundo uma escala de exigncias prioritrias. No foi esse o caminho seguido. Todos os setores foram atacados simultaneamente, de forma que, quando essas obras estivessem concludas, a nova capital j fosse uma realidade.

    Assim, a par das edificaes, cuidou-se dos servios urbanos: trfego, iluminao, comunicaes, assistncia social, educacional e hos-pitalar. Quanto ao lago, tratava-se de uma iniciativa no s de sentido ornamental, mas, igualmente, de fator de correo da secura do ar, ca-racterstica do Planalto Central.

    O lago de Braslia, decorrncia da barragem construda no rio Parano, envolve a cidade, formando um compasso curvo de mais de 40 quilmetros, de ponta a ponta, e armazenando cerca de 600 milhes de

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    metros cbicos de gua, com cinco quilmetros de largura e 35 metros de profundidade. A linha-d'gua atinge a cota de 1.000, o que quer dizer mil metros acima do nvel do mar.

    O urbanismo e a tcnica paisagstica se davam as mos para compor a coincidncia que nos levava a realizar, por motivos prprios, a profecia do sonho-viso do santo de Becchi. A ideia surgiu no Memorial Preliminar para a Futura Capital do Brasil, elaborado pelos urbanistas Raul Pena Firme, Roberto Lacombe e Jos de Oliveira Reis, em 1955, e foi aproveitada, pouco depois, pelo Coronel Ernesto Silva, ento presidente da Comisso de Planejamento da Construo e da Mudana da Capital Federal, na elaborao do edital, fixando as normas para a realizao do concurso para o Plano Piloto. Dizia o referido Memorial: "Projetou-se uma barragem a jusante do rio Parano, que o transforma num lago or-namental, destinado aos esportes nuticos, limitado pelas margens dos rios Bananal e Gama." V-se, assim, que Lcio Costa, ao fazer de um lago a base do seu Plano Piloto, procurou atender s exigncias do edital do concurso e o realizou de maneira admirvel, j que aquela imensa massa lquida iria emprestar um surpreendente encanto nova capital.

    A responsabilidade pela execuo das obras, nos diferentes setores que integravam o complexo urbano, fora distribuda, desde o incio, aos diretores da Novacap, o Coronel Ernesto Silva, o Deputado ris Meinberg e Bernardo Sayo, cabendo a Israel Pinheiro, presidente da empresa, a superintendncia geral dos trabalhos.

    Eu no poderia ter sido mais feliz na escolha dos homens que integravam essa cpula executiva. Toda a equipe trabalhava em harmo-nia, apresentando sugestes, fiscalizando obras, elaborando planos, e a Israel Pinheiro, como presidente, cabia a ltima palavra sobre as provi-dncias requeridas. Homem dinmico, e de larga experincia administra-tiva, Israel Pinheiro revelou-se o comandante ideal para a equipe de tc-nicos que trabalhava no Planalto. Mesmo o seu modo spero de tratar muitos dos que com ele conviviam, ao invs de um defeito, acabou-se transformando numa virtude, pois a tarefa, sendo assustadora e dispon-do de um prazo exguo para sua concluso, no permitia que o tempo fosse perdido. Assim, Israel era duro, inflexvel, rude por vezes, mas a enorme responsabilidade que lhe pesava nos ombros assim o exigia.

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    Uma das minhas preocupaes, desde o incio das obras, era a de dar assistncia escolar aos filhos dos candangos. Braslia, embora ain-da um imenso canteiro de obras, j requeria servios assistenciais no que dizia respeito instruo e sade. Em 1957, no rastro dos candangos, que haviam chegado apenas com a roupa do corpo, comearam a surgir os integrantes de suas respectivas famlias. Eram famlias do povo, e, como tal, sempre numerosas. Em face da crescente avalancha de mi-grantes, fundaram-se na Cidade Livre duas escolas particulares uma funcionando num barraco de madeira e a outra tendo por sede a som-bra de frondosa rvore, com as aulas ao ar livre; quando chovia, suspen-dia-se temporariamente o ensino.

    Conversei com Israel Pinheiro a respeito, e este me disse que a Novacap dispunha de um Departamento de Educao e Difuso Cul-tural, pelo qual era responsvel o Coronel Ernesto Silva. Tratava-se, po-rm, de um setor que teria inegvel importncia no futuro, isto , quan-do a metrpole j houvesse sido construda. Entretanto, o que desejava naquele momento era assistncia educacional aos filhos dos operrios, de forma a evitar que eles crescessem analfabetos, como os pais. Com-binamos ento - Israel Pinheiro, Ernesto Silva e eu - que, enquanto se providenciava a elaborao de um Plano Educacional, o que demandava tempo, a Novacap instalasse uma sala de aulas no pavilho da sua admi-nistrao, o que foi feito em dois dias. Contrataram-se dois professores Amabile Andrade Gomes e Mauro da Costa Gomes que se revezariam nos dois turnos: o do dia e o da noite.

    Entrementes, providenciamos, junto a Oscar Niemeyer, a ela-borao de projeto para o primeiro Grupo Escolar de Braslia. E no dia 18 de outubro de 1957 teve lugar a inaugurao do prdio, construdo em apenas vinte dias, assistindo ao ato o ministro da Educao, Clvis Salgado. O traado dessa primeira unidade escolar - que ficou conheci-da como GE-1 - causava excelente impresso. Constava de salas de aula, biblioteca, cozinha, refeitrio e recreio coberto. O mobilirio mesas de frmica no refeitrio, carteiras, estantes na biblioteca, tudo doao de firmas particulares ajustava-se perfeitamente s linhas mo-dernas do prdio. No dia da inaugurao, Israel Pinheiro mostrou-se surpreso com o que vira e, havendo sido perguntado se tinha gostado da escolinha, respondeu com visvel entusiasmo: "Est bom demais!"

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    Esse primeiro Grupo Escolar prestou relevantes servios populao da nascente capital. Com capacidade para 480 crianas, funcionava em dois turnos, mas as crianas permaneciam ali trs horas extras em atividades sociais. Em outubro de 1958, o GE-1 fez publicar o primeiro nmero do seu jornalzinho A. Vo% do Estudante, em cujo sub-ttulo se lia: " com os ps da criana que a Ptria caminha."

    Mas a atividade educacional da Novacap no se cingiu a esse Grupo Escolar. A medida que a cidade crescia, que os acampamentos se multiplicavam, novas escolas iam sendo construdas, de forma que, em todo o perodo da construo da nova capital, no existia uma s crian-a que no estivesse estudando. Alm dos estabelecimentos gover-namentais, funcionavam, na rea do Plano Piloto, algumas excelentes escolas particulares, entre as quais o Ginsio Dom Bosco e o Colgio Braslia, este inicialmente institudo sob a forma de Fundao e, poste-riormente, entregue aos Irmos Lassalistas.

    Os alunos, alm da alimentao que lhes era proporcionada no prprio local de seus estudos pelo SAPS, recebiam assistncia econ-mica, mediante facilidade para aquisio de vesturio e material escolar; assistncia social, participando de concentraes escolares, festividades, concursos e permanentes contatos com a famlia; e de ordem religiosa, observando-se a liberdade de culto e possibilitando aos catlicos, por serem em nmero muito maior, a preparao para a primeira comunho realizada na prpria escola.

    Apesar das resistncias opostas sempre contamos com a cola-borao do Ministro Clvis Salgado. O que muita gente no compreen-dia era que eu pretendesse converter Braslia, mesmo ainda em constru-o, num amplo campo de experimentao de tcnicas novas, as quais, se obtivessem xito, seriam aplicadas, mais tarde, em todos os setores da atividade nacional.

    Cito um exemplo, que ilustrativo. A qualidade da mo-de-obra em Braslia muito deixava a desejar. Era representada por pioneiros humildes que, antes, se dedicavam a atividades rotineiras, sem qualquer preparao profissional. Promovi uma reunio a fim de deba-termos a questo. Desse encontro, resultou a assinatura de um convnio com o Ministrio da Educao, a 30 de setembro de 1957, para a insta-lao e funcionamento da Escola de Ensino Industrial, destinada for-

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    mao de mo-de-obra qualificada. A Escola manteria os cursos de mar-cenaria, carpintaria, eletricista-instalador, bombeiro hidrulico, artes gr-ficas, alfaiataria e artes de couro. Foi inaugurada em 1959 em Taguatin-ga uma das cidades-satlites de Braslia.

    Ainda em 1958, a Novacap fez instalar, em duas casas gemi-nadas da Avenida W-3 - Setor Comercial - , uma biblioteca e discoteca pblicas, com o nome de Biblioteca e Discoteca Visconde de Porto Se-guro, em homenagem ao diplomata, sertanista e historiador Adolfo Var-nhagen, um dos mais exaltados defensores da interiorizao da capital federal. Esse estabelecimento, que dispunha de 3 mil volumes e de nu-merosos discos, possua uma sala de leitura e conferncia.

    Assim, ainda em 1959 um ano antes da inaugurao de Bra-slia a Novacap contava com mais de 100 professoras primrias, s quais cabia a tarefa de orientar o ensino de 4.682 crianas, atravs de 21 escolas governamentais e oito particulares, sem contar os 500 alunos matriculados no ensino mdio dos Ginsios Braslia e Dom Bosco.

    Entrementes, atravs de frequentes entendimentos com o Professor Ansio Teixeira e os tcnicos Paulo de Almeida Campos e Nair Duro Barbosa Prata, estruturava-se o Plano Educacional de Bras-lia, que seria posto em prtica aps a inaugurao da capital.

    Tratava-se de uma fascinante experincia, que tinha em vista, entre outros, os seguintes objetivos: a) distribuir equitativa e eqidistan-temente as escolas, quer na rea urbana, quer nas cidades-satlites, de modo que as crianas percorressem o menor trajeto possvel para atin-gi-las, sem interferncia com o trfego de veculos, assegurando-lhes, as-sim, maior comodidade e no causando intranquilidade aos pais; b) con-centrar crianas de todas as classes sociais na mesma escola, de forma a permitir que um filho de ministro de Estado estudasse, lado a lado, com o filho de um operrio; c) possibilitar o ensino a todas as crianas e ado-lescentes; d) romper a rotina do sistema educacional brasileiro, atravs da elaborao de mtodos novos que proporcionassem criana e ao adolescente uma educao integral; e) reunir num s Centro todos os cursos de grau mdio, permitindo-se maior sociabilidade aos jovens da mesma idade, os quais, embora frequentando classes diferentes, tives-sem em comum atividades na biblioteca, na piscina, nos campos de es-porte, nos grmios, no refeitrio, etc; e f) facilitar o ensino particular,

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    com fixao de reas para externatos e internatos, vendidas a preo muito baixo, com pagamento facilitado, inclusive at atravs de bolsas de estudo.

    Era novo, igualmente, o tipo de ensino recomendado no Pla-no. Seriam eliminados do curriculum os temas inadequados e o ensino pas-saria a ser ministrado atravs de meios audiovisuais, com os recursos da te-leviso, do rdio e do cinema. O dia letivo seria integral. A escola, como centro de preparao para a vida moderna, estimularia a afirmao de atitu-des, e cultivaria aspiraes, oferecendo oportunidades criana, ou ao ado-lescente, para se ajustar s exigncias de uma civilizao tcnica e industrial, sempre em mutao. Constituindo, igualmente, um centro de educao sa-nitria, a escola forneceria alimentao ao aluno e promoveria a profilaxia das doenas, protegendo-o contra a subnutrio e as molstias.

    Alm de tudo isso, a escola, no que dizia respeito ao ensino propriamente dito, seria dividida em dois setores: o da instruo, com o trabalho tradicional da classe; o da educao, com as atividades sociali-zantes, recreativas e artsticas (msica, teatro, dana, pintura, cinema, ex-posies, grmios e ginstica) e trabalho manual e artes industriais (cos-tura, bordado, encadernao, tapearia, cestaria, cartonagem, cermica, trabalhos em madeira, em metal e outros materiais).

    O Plano Educacional, embora elaborado por uma equipe de tcnicos em ensino, chefiados pelo Professor Ansio Teixeira, teve a co-laborao, tambm, de Lcio Costa, que se incumbiu de ajust-lo s pe-culiaridades urbansticas de Braslia. Assim que, sendo a cidade consti-tuda de quadras e como cada quadra abrigaria uma populao varivel de 2.500 a 3.000 habitantes, foi calculada a populao escolarizvel para os nveis elementar e mdio, ficando estabelecido o seguinte: 1) para cada superquadra: a) um jardim de infncia com quatro salas, para, em dois turnos de funcionamento, atender a 160 crianas (oito turmas de vinte crianas); b) uma escola-classe, com oito salas, para, em dois tur-nos, atender a 480 crianas (16 turmas de trinta alunos); e, 2) para cada grupo de quatro superquadras: a) uma escola-parque, destinada a aten-der em dois turnos a cerca de dois mil alunos das quatro escolas classes, em atividades de iniciao ao trabalho (para meninos e meninas de 10 a 14 anos) nas pequenas oficinas de artes industriais, alm da participao dirigida dos alunos de 7 a 14 anos em atividades artsticas, sociais e re-creao.

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    No que dizia respeito educao mdia, o objetivo procura-do era o seguinte: essa educao seria ministrada nos Centros de Educa-o Mdia, os quais seriam construdos na proporo de "um para cada grupo populacional de 45.000 habitantes, com capacidade para abrigar 2.700 a 3.000 alunos". Cada Centro de Educao Mdia seria constitu-do de dez edifcios e de uma rea para atividades esportivas ao ar livre.

    Alguns pontos importantes foram considerados no planeja-mento da educao mdia: a) a educao escolar da juventude seria rea-lizada, de preferncia, em Centros Educacionais, onde se reuniriam alu-nos de ambos os sexos e de vrios cursos, quer de formao geral, quer de preparao profissional. Cada Centro seria uma unidade administrati-va e pedaggica; b) o primeiro ciclo da escola mdia deveria funcionar num s prdio e o curso seria chamado "ginasial", para atender aos pre-conceitos da nossa tradio. As duas primeiras sries do curso seriam comuns a todos os alunos e as duas ltimas seriam diversificadas, com dis-ciplinas comuns e disciplinas de livre escolha, com o fim de atender aos in-teresses e tendncias dos alunos. Haveria atividades prticas de cunho in-dustrial, comercial, normal, em todo o curso, sendo estas comuns nas duas primeiras sries e diversificadas nas duas ltimas; c) os diversos cursos do segundo ciclo (clssico e cientfico, tcnico-comercial, tcnico-industrial e normal) deveriam funcionar como unidades independentes, dentro do Cen-tro, em prdio exclusivo. Cada curso teria sua fisionomia prpria, perma-nente; d) a previso das necessidades seria feita considerando-se a perma-nncia do aluno na escola em regime de tempo integral, muito embora sem ocupar todo o tempo em atividade de classe.

    Tratava-se de uma experincia educacional ousada, original e ajus-tada ao mundo em que vivemos. Apesar disso, ou talvez, por isso, foi alvo de crticas injustas, o que alis, acontecia a tudo quanto se fazia em Braslia.

    Entretanto, o Plano Educacional sofreu resistncias at mes-mo nos crculos da Novacap. Alguns de seus engenheiros alegavam que a construo das escolas era da competncia do governo federal, esca-pando, assim, rea de atribuies da empresa.

    Informado do que se passava, autorizei o ministro da Educa-o a incluir no oramento do seu Ministrio as verbas necessrias para a execuo daquela obra, o que permitiu dar-se incio, em 1958, cons-truo das primeiras escolas.

  • # # M A Bblia se l como Deus plantou, no meio do paraso terreal, a miraculosa rvore da Vida. Braslia a rvore da vida nacional, providencial mente plantada no Planalto Central de nossa Ptria." Essas foram as palavras do Cardeal Vasconcelos Mota por ocasio da primeira missa celebrada em Braslia. Como no Descobrimento, a Cruz marcou novamente uma era para o Brasil.

  • Lcio Costa e Oscar Niemeyer haviam projetado uma cidade fantstica. Cabia-me con-cretiz-la. Os planos, uma vez aprovados, eram obedecidos rigorosamente por todos. Durante as obras da Praa dos Trs Poderes, eu colocava o projeto minha frente e ia verificando o nascimento de cada detalhe.

    (3 barraco que passou histria com o nome de Catetinho. Foi sede do governo do Brasil em algumas ocasies.

  • %

    A realidade ali estava: a Praa dos Trs Poderes transformou-se num sm-bolo da cidade. N o mr-more, uma frase define a emoo daquela poca: "Deste Planalto Central, desta solido que em bre-ve se transformar em c-rebro das mais altas deci-ses nacionais, lano os olhos mais uma vez sobre o amanh do meu pas e

    antevejo esta alvorada com f inquebrantvel e uma confiana sem limites no seu gran-de destino. Braslia, 2 de outubro de 1956."

  • De todas as partes do pas chegavam levas de brasileiros que desejavam colaborar na construo da obra. Chamei-os, um dia, de construtores de catedral. Em tomo de Braslia foram surgindo as cidades-satlites, pioneiras da integrao nacional que comeava a se concretizar.

  • Bernardo Sayo foi um desbravador que aceitou o desafio da selva e por ela foi esma-gado. Esta foto, tirada nas vsperas de sua morte, mostra o bandeirante numa atitude tpica. A ele, o Brasil ficou devendo um exemplo de trabalho obstinado, que teve a marca do martrio. A rvore que o matou nos privou de um heri e de um amigo.

  • Ladeado por Israel Pinheiro e Oscar Niemeyer, examino uma maqueta do Palcio da Alvorada. Foi uma das primeiras obras a ser concluda. ( ) esforo de Israel na presi-dncia da Novacap, nunca ser louvado o suficiente. Quanto a Oscar Niemeyer, a construo de Braslia honrou o seu gnio, hoje reconhecido em todo o mundo.

  • Por entre os andaimes e formas de concreto, comeam a surgir as famosas colunas do Palcio da Alvorada, que se transformariam no logotipo da cidade e, mais tarde, no smbolo do Brasil novo que estava nascendo.

  • Como Secretrio de Estado do Vaticano, o Cardeal Montini, que seria o Papa Paulo VI, visitou Braslia. Na foto, tenho a honra de estar a seu lado. A minha esquerda, Renato Azeredo, o embaixador Alusio Napoleo e Israel Pinheiro.

  • O Imperador da Etipia, Hail Slassi, foi o segundo soberano reinante a visitar oficialmente o Brasil: o primeiro foi o Rei Alberto, da Blgica. O Negas estava em Braslia quando soube que havia sido deposto por um golpe de estado. Pronta-mente voltou a seu pas e retomou o poder.

    Como Ministro da Cultura do Presidente Charles De Gaulle, o escritor Andr Malraux esteve na nova capital e ali pro-nunciou um discurso que ficou conheci-do como a Orao de Braslia. Foi cie quem a batizou como a Cidade da Esperana.

    Presidente dos Esta-dos l nulos, o Genc-ral Dwight Eisenho WCt visitou Braslia durante as obras. Lanou a pedra fun-damental de um dos edifcios da Esplana-da dos Ministri( >s.

  • Nos momentos mais importantes da minha vida sempre contei, ao meu lado, com a presena da minha famlia. Maria Estela, Mrcia e Sarah formaram a poderosa retaguarda afetiva que me dava foras para prosseguir. Foi em companhia delas que assisti solene inaugurao da nova cidade, que se constitua na meta-sntese do meu governo.

  • No dia 21 de abril de 1960 inaugurava-se a nova capital do Brasil. Foi uma festa que marcou a vida nacional, criando uma euforia que se alastrou a todo os recantos do pas e incendiou o corao dos brasileiros.

  • No dia seguinte ao da inaugurao, reuni pela primeira vez o Ministrio em Braslia. No foi uma cerimnia simplesmente protocolar. Como chefe do Governo, fiz sentir aos meus colaboradores que o trabalho continuava. Braslia estava pronta. Precisva-mos, ento, continuar construindo o Brasil.

    Aqueles que estiveram em Braslia, a 21 de abril de 1960, no podero esquecer o grande espetculo que marcou um verdadeiro encontro e se constituiu numa autntica apoteose. Foi uma festa de carter nacional e patritico.

  • O povo nunca me abondonou durante a construo da cidade. Sempre contei com o seu apoio. No dia da inaugurao, milhares de pessoas encheram o ptio em frente ao Palcio do Planalto. Foi para elas que representavam o povo brasileiro - que disse o meu muito obrigado.

  • Vivendo aquele tumulto de emoes, no conseguia desfazer um aperto que sentia na garganta e que se refletia at na entonao da minha voz. Quando os ponteiros marcaram 20 minutos do dia 21 de abril e vi o espetculo de som e cores que armara no cu, e, olhando em torno, via a multido contrita e com l-grimas nos olhos, no consegui me conter. Cobri o rosto com as mos e, quando dei f de mim, as lgrimas corriam dos meus olhos.

  • Sarah e eu recebemos os convidados para a recepo que coroou os festejos da inau-gurao de Braslia. No foi uma festa apenas social. Todos sentiam a emoo de estar vivendo um momento histrico que transcendia natural alegria que reinava nos sales. Comentei para os amigos: "H trs anos, neste mesmo local, um lobo atravessou frente do meu carro. Seus olhos ficaram fosforescentes luz dos faris. Hoje, recebo aqui trs mil convidados de casaca."

  • r>>s,

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    A GRANDE SECA DO NORDESTE

    Em junho de 1957, o Embaixador Amaral Peixoto, chefe da representao diplomtica brasileira junto ao governo de Washington, anunciou que a companhia norte-americana Raymond Concrete Pile Company havia vencido a concorrncia para construir os alicerces de ao de onze ministrios, com dez andares cada um, alm de uma represa e de uma central eltrica, com capacidade para 25 mil kW, que fornece-ria gua e energia nova capital.

    Esse contrato com a Raymond Concrete Pile Company como no poderia deixar de acontecer - logo se transformou em moti-vo de exacerbao por parte dos meus adversrios polticos. Por que dar a obra a uma empresa norte-americana, quando dispnhamos da Side-rrgica de Volta Redonda, que muito bem poderia se encarregar da tare-fa? Esta era a pergunta, atravs da qual se passou a tentar agitar a opi-nio pblica. No Congresso, algumas vozes de protesto se fizeram ouvir e idntica atitude tomaram os jornais oposicionistas. Em face da atoar-da, foi preciso que Oscar Niemeyer - o arquiteto responsvel pelas obras de Braslia - viesse a pblico para explicar a razo daquele contra-to. "A encomenda de estruturas metlicas no estrangeiro" - informou Niemeyer - "visa a dois objetivos principais: economia e tempo. Pelo contrato, as estruturas sero entregues em tempo recorde e seu preo ser muito inferior ao do mercado corrente. Por outro lado, Volta Re-donda, que est executando uma encomenda, tambm, para Braslia, no poderia desincumbir-se de mais este pedido, sem prejuzo para o seu programa de produo."

    Devo ainda acrescentar o seguinte: na poca o Brasil havia obtido no Export-Import Bank um emprstimo de 10 milhes de dla-res, e, dispondo desses recursos, abriu uma concorrncia internacional, no s para a aquisio daquelas estruturas, mas, igualmente, para a construo de uma represa no rio Parano e da respectiva usina hidrel-trica. A Raymond Concret Pile venceu a concorrncia, entre numerosas firmas estrangeiras, tanto pelo preo quanto pelo prazo de entrega. As estruturas vieram e foram montadas por engenheiros brasileiros. Quan-to barragem e usina hidreltrica, foi assinado um contrato entre a Novacap e a Raymond Concrete Pile, para a realizao daquelas obras.

  • Por que constru Braslia 161

    Mesmo esse contrato foi como relatarei mais adiante rescindido por ordem minha, por que a firma norte-americana no vinha atendendo aos prazos que lhe marcava.

    Contudo, apesar dos contratempos, Braslia ia num crescendo vertiginoso. Em junho de 1957, j dispunha de quatro agncias de ban-cos, enquanto se desenvolviam satisfatoriamente suas atividades comer-ciais e industriais - todas concentradas no Ncleo Bandeirante, denomi-nado Cidade Livre. Ali j existiam, praticamente, seis meses aps o in-cio das obras, 93 estabelecimentos comerciais e 10 do ramo industrial e de prestao de servios. O Hospital Juscelino Kubitschek, do Instituto de Previdncia Social dos Industririos, j se encontrava em pleno fun-cionamento, dotado de 50 leitos.

    Tratava-se de um hospital feito de tbuas, verdade, mas completo em todos os sentidos, dispondo de duas salas de operaes, aparelhos de raios X, laboratrio de anlises, grande ambulatrio, sala de ortopedia, maternidade, berrio, farmcia, gabinete dentrio, alm de toda aparelhagem necessria, como esterilizadores, incubadora para nascimentos prematuros, ressuscitador, aparelho para fabricar oxignio, aparelho "AGA" para operaes e peas de copa e cozinha. O constru-tor foi o engenheiro Vicente Pais Barreto.

    A metrpole que Lcio Costa concebera "monumental, por ser simples e lquida no seu traado" ia deixando, aos poucos, o pa-pel, para se converter numa esplndida realidade.

    Entretanto, no s se cuidava de construir uma cidade, mas igualmente de faz-la funcionar, como qualquer organismo vivo. Nesse sentido, simultaneamente com as edificaes, providenciava-se, atravs do Departamento de Terras e Agricultura - DTA, o desenvolvimento da produo agropecuria e a organizao do abastecimento de Braslia. Para os agricultores, que chegavam ao Planalto em grande nmero, o DTA destinou, inicialmente, uma rea de 30.000 hectares. Essa rea, di-vidida em regies agrcolas, foi retalhada em lotes a serem arrendados aos interessados.

    Antes, porm, que medidas concretas fossem tomadas, no sentido de um planejamento racional, visando ao desenvolvimento agr-cola dos arredores de Braslia, Israel Pinheiro, atravs de entendimentos com os diretores da Cooperativa de Cotia, no Estado de So Paulo, pro-

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    videnciou a ida para o novo Distrito Federal de um grupo de japoneses. A terra, em toda a regio do Planalto Central, mais ou menos calcria, e, como tal, no muito prpria para a agricultura.

    Quando os japoneses chegaram outubro de 1956 nada ainda existia em Braslia. Instalados num barraco da Novacap, passa-ram o dia percorrendo a rea fora do Plano Piloto, verificando a possi-bilidade de ali se instalarem para a organizao de pequenas granjas e pomares. Um jornalista, que os acompanhou, no deixou de se mostrar alarmado com a escassa fertilidade do solo. O terreno era empedrado, seco, dando a impresso de que no ensejaria a germinao de qualquer semente.

    Pouco antes de regressar ao Rio, ele esteve com Israel Pinhei-ro, e, comentando a inspeo feita pelos japoneses, desabafou: "Dr. Israel, a terra muito ruim." O presidente da Novacap, embora apanha-do de surpresa, respondeu altura: "Olhe, moo, se a terra fosse boa, eu no teria tido o trabalho de ir buscar esses japoneses..."

    De fato, os japoneses foram rpidos na ao. Dentro de dois anos, no s abasteciam os habitantes de Braslia, como exportavam para So Paulo e Belo Horizonte os mais variados produtos de horticul-tura e de cereais.

    Nessa ocasio, ocorreu um fato curioso. O Brasil completava 50 anos de imigrao de japoneses, cujo nmero, no pas, se elevara a 700.000. Convidei o governo nipnico para participar das comemora-es e, em nome dele, chegou ao Brasil o Prncipe Mikasa, irmo do Imperador Hiroto. Figura simptica e culta, conhecedor de Histria e Arqueologia, tornamo-nos amigos desde logo. Longas palestras, sobre-tudo a respeito do seu pas, facilitaram uma amizade respeitosa.

    Os japoneses de Braslia haviam preparado uma festa em ho-menagem ao prncipe e que seria realizada aps o almoo que o governo lhe ofereceria. O embaixador do Japo, porm, vetou a reunio dos seus compatriotas, alegando velhas razes dinsticas que impediam a presen-a de um membro da famlia imperial entre elementos do povo. Os ja-poneses, profundamente decepcionados, me procuraram solicitando o meu comparecimento, mesmo sem o prncipe.

    Logo que terminou o banquete no palcio, disse ao prncipe que necessitava de sua companhia para um ligeiro passeio. Entramos no

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    meu carro e disse a Geraldo Ribeiro, meu velho motorista, que tocasse clere para o ponto da reunio dos japoneses. O espanto que a presena de um irmo imperador provocou imobilizou a assistncia. Os filhos do Sol Nascente encontravam-se s centenas, debaixo de uma gigantesca rvore, cujos galhos estavam decorados com bales e lanternas. Quebrei o gelo que prevalecia no ambiente, dizendo-lhes que, contra o protocolo obsoleto, o Prncipe Mikasa fora lhes levar a saudao do imperador. Ruidosas palmas acolheram minhas palavras e surpreendi-me vendo l-grimas rolando pelas faces de homens e mulheres.

    Se 1957 foi um ano de incio de obras, ou, como dizia Bernar-do Sayo, de "furaco de buracos", j o de 1958 seria o do comeo das inauguraes. Mesmo assim, em 1957, diversos fatos ocorreram em Bra-slia, que merecem ser recordados.

    No dia 30 de agosto, cerca de trezentos representantes das classes produtoras reafirmaram sua f e sua esperana na construo da nova capital. No dia l 2 de setembro, oitenta alunos da Escola Superior de Guerra chegaram a Braslia, sob o comando do Brigadeiro Alves Seco. Os congressistas da Stima Conferncia Nacional de Jornalistas visitaram a cidade a 15 de setembro. A 17 do mesmo ms, foi criada, por decreto, a Companhia de Guardas de Braslia, sendo fundado, na mesma data, o aeroclube da cidade. A 7 de novembro, em companhia de Bernardo Sayo e de Waldir Bouhid, sobrevoei o traado previsto para a rodovia BelmBraslia. No dia 16, ainda em novembro, o Minis-trio da Agricultura e o Estado de Gois firmaram convnio para o for-necimento de energia nova capital, por meio de construo da linha de transmisso Cachoeira DouradaAnpolis, na importncia de 35 milhes de cruzeiros. Alm desses fatos, as firmas empreiteiras j em nmero de 60 empenhavam-se numa porfia herica, cada qual procurando sobrepujar a outra no volume de metros quadrados construdos.

    Assim, o novo Distrito Federal aos poucos ia deixando de ser um imenso canteiro de obras recm-iniciadas. Muitos edifcios pblicos j estavam quase concludos, e providenciava-se, com a necessria ur-gncia, a execuo dos apartamentos de diversas quadras residenciais e de centenas de casas populares.

    O ano de 1958 foi, portanto, de intensa e polimorfa atividade. A cidade j no era mais uma "ideia inexequvel", como assoalhavam os

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    descrentes e os pessimistas, mas uma estrutura urbana em plena forma-o. Em consequncia dessa inverso de perspectiva, tiveram incio em 1958 as inauguraes. No dia 2 de maio, Braslia recebeu a visita do ilus-tre presidente do Paraguai, o General Alfredo Stroessner, que j se hos-pedou no Braslia Palace Hotel, ainda em fase de acabamento. Nesse dia inaugurou-se extra-oficialmente a Rdio Nacional de Braslia, cujo locu-tor, Leoni Mesquita, divulgou, para todo o pas, os detalhes da recepo ao chefe da nao vizinha e amiga. Teve lugar, igualmente nessa data, a inaugurao da iluminao da pista do aeroporto e foi iniciado o servio regular telegrfico entre Braslia e o Rio de Janeiro.

    Contudo, em maro - dois meses antes - , repetia-se no Nor-deste o fenmeno cclico de uma grande seca. Quem abrisse os jornais, s tomaria conhecimento de notcias trgicas. Durante algum tempo, a populao nordestina, percebendo a ausncia de qualquer chuva, estive-ra olhando o cu, num misto de terror e perplexidade. No se viam nu-vens, e o sol, como um braseiro errante, realizava seu curso, atravessan-do o firmamento de ponta a ponta.

    O campons, ilhado na sua casa, assistia ao dramtico espet-culo, sem nada poder fazer. O gado morria. As plantaes secavam. O celeiro ficava vazio. Para tornar ainda mais cruel aquela agonia, o fen-meno no era repentino. Tratava-se de uma desgraa, que era um supl-cio chins. Insinuava-se de mansinho, aumentando a poeira nas estra-das, reduzindo a gua das cisternas e emagrecendo aos poucos o gado. Aqueles sinais, que eram caractersticos de qualquer seca, poderiam no desaguar em tragdia. Talvez significassem veranico. Talvez constitus-sem apenas uma estiagem.

    Enquanto o nordestino esperava, via a paisagem, que o rode-ava, transformar-se aos poucos. As folhas caam. A caatinga assumia uma colorao cinzenta. Aqui e ali, viam-se reses mortas. E os crregos e rios? L estavam, torcicolando ao longo das chapadas. Nas suas mar-gens, ainda resistiam certos arbustos, buscando sofregamente a j no existente umidade do solo. O gado derivava para ali e tentava matar a sede, lambendo o barro que lhe dilacerava o focinho. No leito, propria-mente dito, no havia gua. Estava seco desde muito. .

    A medida que maro avanava, as populaes olhavam a fo-lhinha com inquietao. Havia uma data fatdica: 19 de maro - dia de

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    So Jos. At o dia de So Jos ainda poderia chover. Caso isso no acontecesse, seria a seca. Como qualquer regra, esta tambm apresenta-va excees. No perodo de alguns decnios, o inverno ocorrera duas vezes depois de 19 de maro. Todos tinham de memria aquelas exce-es. Constituam um escape psicolgico para ajudar a esperar. Em 1958, a situao era ainda bem mais grave. Naquele ano, haviam sido mofinas as colheitas. Se antes j era difcil suportar a seca, que se dizer ento do flagelo com os paiis vazios?

    Em face da situao, urgentes e complexas medidas foram to-madas pelo governo. Ordenei a remessa imediata de charque e feijo, cabendo Marinha Mercante assegurar o rpido transporte do carrega-mento. A Cofap passara a adquirir gneros nos mercados do Rio e de So Paulo, os quais, uma vez estocados, eram embarcados para o Norte. Foram chamados capital todos os presidentes das Comisses de Pre-os dos Estados do Nordeste, a fim de informar sobre os estoques de gneros alimentcios existentes nas respectivas reas de sua jurisdio. O ministro da Viao autorizou a admisso, como diaristas, de milhares de flagelados nas vrias rodovias que se construam na regio. A mesma or-dem fora dada ao diretor do DNOCS, Jos Cndido Pessoa, e, como seus estoques de ferramentas pudessem se revelar insuficientes, provi-denciou-se, simultaneamente, a aquisio de picaretas, de ps e de carri-nhos de mo em nmero suficiente para atender a sessenta mil trabalha-dores.

    Enquanto essas providncias eram tomadas, as notcias que chegavam do Nordeste eram inquietadoras. Em Pentecostes, n Cear, o comrcio fechara as portas, temeroso de que tivesse incio a pilhagem. Nas ruas da cidade, 10 mil flagelados vagueavam, pedindo gua e po. Outros 10 mil estavam concentrados em Iguatu, e imploravam trabalho. Em Quixad, 80% dos rebanhos j haviam sido perdidos. O que ocorria no Cear reproduzia-se no Rio Grande do Norte, na Paraba, no Piau e no interior de Pernambuco. Havia fome e desespero por toda a parte. Entretanto, o grande xodo ainda no tivera incio. O que ento se veri-ficava eram deslocamentos locais: a populao de uma zona assolada derivava, em conjunto, para outra que ainda dispunha de algum recurso.

    Finalmente, o dia de So Jos chegara. Chegara e se fora, sem que as chuvas cassem. A impassibilidade da natureza era um aviso. Em

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    seguida, uma ordem inaudvel, transmitida de ouvido em ouvido, per-correra todo o Nordeste. Era como um telgrafo sem fios que coman-dasse: "Salve-se quem puder!" De todos os cantos surgiram retirantes. Cada biboca, cada stio, cada morro contribua com uma leva. Os par-ticipantes eram todos iguais. Sandlias nos ps, roupas em frangalhos, faces encovadas. E o grande xodo, ento, teve incio.

    Quem visse aquela multido em movimento teria a impresso de um quadro bblico. Reproduzia-se, em pleno sculo XX, a fuga do povo de Israel que deixava o Egito, ao longo do deserto. A mesma multi-do esfarrapada. A mesma poeira a envolver as pessoas e a toldar o cu.

    Desde que se agravara a seca, minha inteno era ir ao Nor-deste. Desejava ver, com os prprios olhos, a situao e, por intermdio desse contato pessoal, coligir dados que servissem de subsdio para a so-luo do problema. Mas no me era possvel deixar o Rio naquele mo-mento. A razo: aguardava a visita do presidente eleito na Argentina, Arturo Frondizi, que, a convite meu, chegaria a 8 de abril.

    Entrementes, a situao no Nordeste apresentava-se cada vez mais confusa. Era difcil obter-se qualquer informao precisa sobre o que ali estava ocorrendo. Os chefes municipais, interessados nas verbas que eram anunciadas, dramatizavam a situao para serem melhor aquinhoados. As informaes locais j chegavam deturpadas aos lderes regionais, e estes, carregando nas cores por conta prpria, tentavam fazer crer que sua zona de influncia era a mais assolada de todas. Ajunte-se a isso a mistificao, comum s pocas de calamidade pblica, e ter-se- uma ideia da dificuldade em que me encontrava para poder agir com eficincia e iseno de esprito.

    No Rio, vrios representantes do Nordeste no contribuam, do seu lado, para facilitar a ao do governo. A calamidade era um exce-lente tema para discursos demaggicos e cada um procurava tirar parti-do da situao, credenciando-se junto aos seus distantes eleitores. No dia 22 de maro, o Deputado Afonso Arinos leu, no recinto da Cmara, uma carta do seu colega Joo Agripino, sobre o agravamento da seca. O representante paraibano anunciava o incio das depredaes no interior do seu Estado.

    Os primeiros vveres, enviados por via area, j haviam sido distribudos s principais concentraes de flagelados, no interior do

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    Cear e da Paraba. E mantimentos, que tinham seguido*pelo vapor ltai-t, deveriam chegar, naqueles prximos dias, em Fortaleza e Cabedelo. Outros navios encontravam-se em viagem, como o Lide Peru e o Rio Piabanha, com maiores carregamentos. A distribuio de gneros ali-mentcios fazia-se a contento, no se justificando, pois, qualquer alarma.

    Enquanto iam chegando os carregamentos de gneros ali-mentcios, as iniciativas do governo, para dar trabalho aos flagelados, prosseguiam em ritmo satisfatrio. Em matria de audagem, numero-sos proprietrios de terras e lavradores estavam recebendo emprsti-mos, auxlios e subvenes para a construo de audes em suas glebas. Alm disso o DNOCS fora autorizado a lavrar termos de acordos para a construo do aude particular Pacheco, no Municpio de Santana de Acara; do aude Itatiaia, no Municpio de Santa Quitria; do aude Co-mendador Garcia, em Quixeramobim; do aude municipal Manituba, na mesma localidade, e do aude municipal Professor Joaquim Pimenta, de propriedade da Prefeitura de Tau todos no Cear. E mais do aude estadual Umbuzeiro, no Municpio de Monteiro, no Estado da Paraba; do aude municipal Beberibe, no municpio do mesmo nome, no Cear; do aude particular Pimentel, no Municpio de Canind, no Cear; e do aude Mximo, em Maranguape, tambm no Cear.

    Estas eram obras de emergncia, para fazer frente calamida-de. Existiam, ainda, as definitivas, decorrentes de planos com objetivos prefixados, e que constituam esforos para minorar e, mesmo, evitar os efeitos da seca. Entre elas, destacavam-se duas da maior importncia e consideradas as maiores at ento realizadas no Nordeste; a barragem de Araras, no Cear, que estaria concluda dois meses mais tarde, e o aude Banabui, que represaria um bilho e meio de metros cbicos de gua.

    O auxlio prestado ao Nordeste era o maior que, na emergn-cia, seria dado ao governo proporcionar. Entretanto, apesar do enorme esforo, nem sempre os socorros chegavam ao seu destino. No dia 26 de maro, o General Lott, ministro da Guerra, procurou-me, para de-nunciar falhas e irregularidades na distribuio dos gneros alimentcios. As informaes de que dispunha lhe haviam sido fornecidas por co-mandantes de guarnies sediadas nos Estados nordestinos. Segundo aqueles militares, a eficincia dos servios de socorro estava sendo im-pedida pr interferncia dos chamados fornecedores. Tratava-se da indstria

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    da seca, que renascia com vigor, como era tradicional em todas as pocas da calamidade na regio. Pouco depois surgiram os agitadores, tentando sublevar os flagelados e atir-los contra as autoridades. Desta vez, o pre-texto utilizado era o salrio de 40 cruzeiros dirios, pago pelos rgos federais aos que estavam sem trabalho. De fato, a paga era pequena, mas representava o que se poderia fazer na emergncia, tendo em vista o volume da mo-de-obra disponvel.

    Todos esses fatos, sucedendo-se numa velocidade de cmara cinematogrfica, robusteciam no meu esprito a necessidade de se en-contrar, com urgncia, uma soluo definitiva para o Nordeste. No dia 10 de abril, o Presidente Frondizi regressou a Buenos Aires. Aps uma rpida viagem a Diamantina, onde teria de inaugurar diversas obras, re-tornei ao Rio, a fim de me dedicar, de corpo e alma, questo do Nor-deste. Enquanto, me preparava para a viagem, intensifiquei as remessas de equipamentos para as zonas flageladas. Eram instrumentos diversos, como foices, machados, picaretas, forjas, bigornas e carrinhos de mo. Um dos ltimos despachos destinados a localidades do Rio Grande do Norte, Cear e. Paraba, compreendia 1.500 carrinhos, 20.000 ps, 10.000 enxadas e 30.000 picaretas. Novas remessas estavam programa-das, atendendo-se s necessidades de cada zona.

    Alm dessas providncias, destinadas a dar trabalho aos flage-lados e fix-los terra, determinei que vinte avies da FAB, entre aero-naves do tipo C-47 e C-82 (vago voador), que prestavam servio ao Correio Areo Nacional, partisse da Base Area do Galeo, conduzindo considervel quantidade de vveres. A fim de que os socorros chegas-sem aos pontos de destino em tempo hbil, eles voariam dia e noite, es-tabelecendo, assim, uma verdadeira ponte.-area, para minorar o sofri-mento dos milhares de camponeses, castigados pela seca. A carga, uma vez chegada ao destino, era imediatamente levada para os pontos onde existiam maiores concentraes de flagelados, o que deveria ser feito em caminhes pertencentes a vrias instituies oficiais, especialmente as unidades militares ali sediadas. Onde a necessidade fosse mais imperiosa e existisse campo de pouso, os prprios avies da FAB, baseados em Recife, Natal e Fortaleza, transportariam os vveres e medicamentos.

    Tomadas essas providncias, no dia 17 de abril segui, por via area, bem cedo, com destino a Fortaleza, em viagem de inspeo s zo-

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    nas assoladas pela estiagem. Ao chegar a Fortaleza, rumei imediatamen-te para o interior do Cear, para visitar as obras do aude de Araras. Na-quela excurso pelo Estado, pude sentir, desde logo, a extenso da cala-midade que se abatera sobre a regio. Viam-se as propriedades abando-nadas; os rios estavam secos; misria e desolao faziam-se presentes em toda a parte.

    Durante o trajeto, o Governador Paulo Sarasate, que me acompanhava, lembrava as tragdias de secas anteriores. Em 1897, cerca de 20 mil pessoas haviam morrido de fome s portas de Fortaleza. E nada pudera ser feito para socorr-las. Naquela poca, as comunicaes eram difceis; os governos se mostravam insensveis ao sofrimento do povo; e os escassos auxlios que chegavam regio eram escamoteados pelos eternos exploradores.

    Das conversas que mantive com as autoridades locais, chega-ra concluso de que o ponto nevrlgico do problema continuava sen-do o abastecimento. Quanto aos sem trabalho, a situao estava sendo remediada. Em Araras, por exemplo, eu tivera a oportunidade de ver 10 mil retirantes empregados nas obras do aude. Entretanto, tudo aquilo eram paliativos, medidas de emergncia, providncias tomadas no calor da refrega. Cada vez me convencia mais de que deveria partir para ou-tras solues. Disseram-me que em Serra Talhada, em Pernambuco, os flagelados alimentavam-se de cozido de umbu com cinza.

    Quando passei por Quixad, vi a seca em toda a eloquncia de seu acento trgico. Nada restava do que ali fora plantado, com exce-o do herico algodo moc, que ainda resistia inclemncia do sol, conjugada com a falta de gua. Assemelhava-se a uma lavoura fantasma galhos secos e retorcidos, bracejando ao vento, sem uma folha sequer. E, ao longo dos caminhos, aquele caudal humano, gente faminta arras-tando-se na poeira.

    Muitos dos retirantes, desde muito, estavam descalos. San-gravam os ps no contato com a terra dura, mas no dispunham de um pedao de pano para proteger as laceraes. As roupas foram ficando pelo caminho, trocadas aqui e ali por um prato de farinha ou por uma caneca de gua. Os que tinham sorte alimentavam-se de qualquer vaca morta, encontrada beira de um lameiro. Tudo estava seco, esturricado, quase assado. As bocas, fora de serem molhadas pelo mesmo resto

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    de saliva, j haviam adquirido uma gosma, que lhes impossibilitava a ar-ticulao de palavras. Dessa forma, os retirantes no conversavam uns com os outros - grunhiam como porcos ou rosnavam como ces raivo-sos. O nico lquido de que dispunham era o suor que lhes alagava o corpo, desidratando-os irremediavelmente. A fome os corroa por den-tro, e o sol, dessorando-os nas reservas orgnicas, transformava-os em farrapos humanos.

    Na cidade de Sousa, na Paraba, pernoitei na casa do enge-nheiro do DNOCS. A residncia ficava no centro de uma imensa plan-cie caracterstica do Nordeste, na qual apenas medravam os cactos e os espinheiros da caatinga. A impresso que tinha era a de achar-me no in-terior de uma fornalha. O sol reverberava no cho e aquecia, por ao reflexa, a casa inteira. Quando me deitei, era como se algum houvesse passado a ferro os lenis. Rolei sobre o colcho sem poder conciliar o sono. Se a cama era insuportvel, havia ainda a tragdia, a que assistira naquele dia, para me preocupar o esprito.

    No dia seguinte, cerca das cinco horas da manh,, comecei a ouvir um rudo que me chegava aos ouvidos como um distante movi-mento de mar. Surpreendi-me. Estvamos bem no corao do Nordes-te, e no era possvel que por ali existissem ondas. Entretanto, aquele som cavo, soturno, a cada momento se fazia mais prximo. Abri a jane-la para ver o que era. O dia j estava claro, ou melhor, ofuscante, com um sol de fogo. Em frente casa, cerca de 20 mil retirantes aglomera-vam-se em desordem.

    Deixei o quarto e, ao chegar sala, encontrei a famlia reuni-da. Falei aos presentes sobre a necessidade de dizer algumas palavras queles infelizes. Tentaram dissuadir-me, alegando que um dilogo da-quela natureza seria perigoso. Os retirantes eram homens desesperados, que nada respeitavam. No dei importncia objeo, e perguntei se ali havia um caminho. "H, presidente, um caminho velho que no aguenta viagem" - respondeu-me o engenheiro, intrigado. Pedi-lhe en-to que mandasse traz-lo at porta, pois iria utiliz-lo como palanque.

    A famlia rodeou-me, tentando demonstrar a temeridade da-quela atitude. Tranqilizei-a, dizendo ser preciso que algum lhes falasT se, que lhes prometesse alguma coisa, que os convencesse de que o go-verno no os havia abandonado. Alm do mais, desejava saber para

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    onde iam, a fim de providenciar que encontrassem, adiante, o socorro de que necessitavam.

    Quando o caminho apareceu, subi no tablado e mandei que o levassem para o meio da multido. Aquele hora - cinco da manh -senti o sol no rosto como se fosse uma brasa. A medida que o caminho avanava, ia percebendo o sofrimento daquela gente. Homens, mulheres e crianas, irmanados na desgraa. J no tinham roupas, mas frangalhos sobre a pele queimada pela soalheira. Olhos cavados e brilhantes e fisio-nomias transtornadas pela inanio. Nas faces encovadas estampava-se aquela expresso, torva e aparvalhada, de quem j se resignara cruelda-de do destino. Ao me aproximar ainda mais, vi as feridas que o sol abri-ra nos corpos esqulidos. Quase todos estavam descalos, alguns ainda exibiam um resto de sandlia de couro, preso ao tornozelo. O que mais chocava, porm, era a expresso de desespero em todos os rostos. Tra-tava-se de um desespero diferente, sem rctus de dio, moldado em re-nncia e resignao.

    Perto do caminho, vi uma mulher cercada de quatro filhos. Havia fincado dois paus no cho e improvisara uma coberta de galhos secos. "O que vocs comem?" - perguntei. Ela olhou-me com grandes olhos compassivos e respondeu num riozinho de voz: "Feijo com ra-padura, uma vezinha s por dia." Tinha na mo uma cuia vazia, e aquela cuia servia de prato pra os cinco. "E quando acaba o feijo?" inda-guei j intrigado, ao verificar que estava oco o embornal que deveria conter aqueles mantimentos. "Bem, a, no se come, n..."

    Chocou-me aquela atitude de fatalismo. A aceitao da des-graa sem uma palavra de revolta. Acenei, ento, aos retirantes, convo-cando-os para perto do caminho. Quando os vi reunidos em torno de mim, falei-lhes, no em tom de discurso, mas conversando num diapa-so de voz que poderia ser ouvido por todos. Disse-lhes que, durante a viagem, vira as estradas atulhadas, as plantaes destrudas, os rios e os crregos e que aquele espetculo me compungia. Antes de sair do Rio, j dera ordens para que o socorro no lhes faltasse, e, de fato, ele estava chegando s cidades mais prximas dos grandes centros. Mais manti-mentos e remdios estavam a caminho, e que eles no desesperassem. Eu era o primeiro Presidente da Repblica que, deixando seus afazeres, visitava as zonas flageladas e, se o fazia, era porque desejava, de fato, re-

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    solver aquele problema. Haviam me recomendado que no me aproxi-masse deles, porque, estando desesperados, poderiam desacatar-me. No fizera caso da advertncia, e ali estava, para ouvir-lhes as queixas e atender-lhes os pedidos. Salientei que teria vergonha de ser Presidente da Repblica se no cicatrizasse aquela chaga. Iria tudo fazer para resol-ver aquele problema. O Nordeste era parte do Brasil. Ali viviam 30 mi-lhes de brasileiros, e no iria permitir que aquele sofrimento se repetis-se. E conclu: "Esta a ltima seca que assola o Nordeste! Assumo este compromisso com vocs e fao-o, no desfrutando o conforto de um palcio presidencial, mas aqui, sobre este caminho. Todos sero con-tratados imediatamente como diaristas nas obras do Governo. Em Ara-ras, 10 mil retirantes j esto trabalhando. Ganham o suficiente para co-mer, morar e vestir. O que vocs tm a fazer dirigirem-se para as cida-des e colocarem-se em filas. Quando l chegarem, ali j existiro ordens minhas para dar-lhes emprego. Peo-lhes apenas que tenham um pouco mais de pacincia, e confiem em mim."

    Aguardei a reao da multido, mas nada aconteceu. Nem uma voz se fez ouvir quer para agradecer as providncias, quer para dis-cutir a situao. Deitei o olhar sobre a multido. Tive a impresso de contemplar um quadro de Van Gogh. Vinte mil deserdados transforma-dos num imenso e trgico borro de amarelo. A poeira se misturara ao suor e ao sujo e compusera a tela agressiva. Todos queimados do sol, e uma s cor para identific-los. Junto ao caminho um velho apoiava-se num pedao de pau, coberto de poeira. "Onde mora?" - perguntei-lhe, numa tentativa de estabelecer qualquer dilogo. "Umas vinte lguas da-qui", balbuciou, com voz sumida. "Para onde vai?" - interroguei-o de novo. Olhou-me com uma expresso parva e torceu a boca, num arre-medo de sorriso: "Lugar nenhum. Vou sendo levado."

    NOVA ABERTURA POLTICA

    Ao regressar do Nordeste, chamei o atual Embaixador Jos Sette Cmara que, na poca, era o subchefe do Gabinete Civil e, aps relatar-lhe a impresso que tivera da seca, disse-lhe: "Aquilo no pode continuar. Temos que resolver o problema de uma vez. Desejo que con-

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    verse com os tcnicos que trabalham conosco e encontre uma soluo com urgncia. No quero uma providncia paliativa, mas uma soluo definitica, apoiada em bases tcnicas." E conclu nossa conversa neste tom imperativo: "Trata-se de uma questo de honra, Sette Cmara. Te-mos de fazer com que o pau-de-arara desaparea da histria do Brasil."

    No dia seguinte ao do meu regresso do Nordeste, assistira, das janelas do Catete, a uma cerimnia que me encheu de orgulho. Tra-tava-se do desfile da Bandeira Automobilstica Brasileira, organizada para a apresentao oficial do primeiro automvel brasileiro de passageiros - o Sedan Turismo DKW-Vemag - fabricado em So Paulo.

    Esse desfile representava a coroao de diversos atos pbli-cos daquele dia. Era integrado por oitenta carros, vindos de So Paulo, fabricados em Ipiranga, e que j haviam destilado pelo centro da cidade. No Salo do Copacabana Palace Hotel estavam expostas todas as peas do Sedan Turismo, revelando que cerca de cinquenta por cento delas j eram de fabricao nacional.

    Na inaugurao da exposio, aproveitei a oportunidade para fazer um retrospecto da luta para a implantao da indstria automobi-lstica no pas. "Aqui estamos" - declarei - "no para plantar uma se-mente, mas para festejar uma colheita."

    So Paulo dera uma enorme contribuio implantao da nova indstria. No perodo inicial, quando a descrena prevalecia em to-dos os setores nacionais, inclusive at em alguns crculos administrativos, os paulistas acudiram ao meu apelo. E quem mais lucrou com essa conju-gao de esforos governo e indstrias foi o prprio Brasil. Partindo praticamente da estaca zero, atingimos, no primeiro ano de administrao, uma produo de 6.087. veculos, entre jipes, caminhes, camionetas e furges, com a mdia de 35 e 40% de peas nacionais. J em 1957, hava-mos produzido efetivamente 30.700 veculos, com 40 a 70%, em mdia, de peas nacionais, o que bem demonstra o ritmo vertiginoso no s de crescimento da produo, como da nacionalizao dessa indstria. Em 1958 iramos completar o ciclo de instalao da indstria.

    Naquele momento, os que haviam comparecido solenidade no Copacabana Palace Hotel tinham diante dos olhos uma demonstra-o tangvel dos progressos conseguidos no setor da nova indstria. Alm de uma exposio das peas do Sedan Turismo j fabricadas no

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    Brasil, viam-se, tambm, as que ainda estavam sendo importadas e que, at 1960, seriam produzidas no Brasil. Nas paredes, pendiam quadros e grficos, referentes aos planos da DKW-Vemag, objetivando os seguin-tes alvos: 150 caminhes, a comear dentro de m ms, para 1958; 500 caminhes, 1.750 jipes, 1.100 camionetas e 2.500 automveis para 1959; e 54 nibus, 750 caminhes, 3.500 jipes, 1.200 camionetas e 6.000 auto-mveis para 1961.

    Estvamos ainda um pouco alm do segundo aniversrio do Governo, e as vitrias obtidas eram de tanta magnitude que, embora houvssemos fixado para 1960 a meta de produo de 60.000 unidades, o ritmo da produo j nos obrigava a revisar essa meta, elevando-a para 217.000 veculos.

    No obstante esse xito - e que me dera imensa satisfao -no se dissipara, no meu esprito, a impresso trgica da viso do que vi-nha ocorrendo no Nordeste. Sette Cmara, aps a conversa comigo, in-formara-me que, desde alguns dias, um grupo de trabalho estava em ati-vidade no BNDE estudando o problema, e que dele faziam parte, entre outros tcnicos, Israel Klabin, Lus Carlos Mancini e Celso Furtado. Assim, o problema da seca colocara-se bem alto na escala das priorida-des governamentais.

    Durante algum tempo, eu pensara que a audagem intensiva poderia constituir um remdio para o Nordeste, e dei incio a um vasto programa de construo de barragens e de represas. Conclu, depois, que a irrigao, por si s, no minoraria o sofrimento daqueles vinte mi-lhes de brasileiros. Que adiantaria a irrigao, em face de uma agricul: tura primitiva? Resultaria dessa providncia que os audes, ao invs de um fator de desenvolvimento agrcola, teriam sua utilidade reduzida, j que se converteriam, aos poucos, em simples reservatrios de gua po-tvel.

    No dia 29 de maio, acompanhado de altas autoridades e de diplomatas estrangeiros, inspecionei, mais uma vez, as obras da Barra-gem de Trs Marias, nas proximidades da embocadura do rio Borrachu-do, no So Francisco. Os trabalhos preliminares da represa tinham sido iniciados em junho do ano anterior. Com a instalao dos servios auxi-liares de gua, luz e esgotos, e tambm os de assistncia social, haviam sido atacadas, simultaneamente, a construo dos canteiros e a escava-

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    o para implantao dos condutos forados que alimentariam, quando concluda, a represa e suas oito turbinas. Em novembro haviam sido terminados os trabalhos de desvio do leito do rio e, em abril, ficara con-cluda a compactao do aterro da barragem.

    Naquele momento, fazia-se o levantamento em ritmo normal do macio da barragem e iniciava-se a fabricao dos condutos de ao. Dezesseis milhes de metros cbicos era o volume do aterro j compac-tado e 300.000 metros cbicos de concreto tinham.sido empregados at ento nas estruturas da tomada de gua, do vertedouro e da casa de for-a. Estavam trabalhando nas obras cerca de dezesseis mil operrios, vin-te engenheiros, sendo dezoito brasileiros e dois norte-americanos, em dois turnos de 10 horas cada um. Fiz a viagem para a regio de Trs Marias num avio turbolice holands, denominado Friendship, que esta-va sendo apresentado no Pas, naquela ocasio. Depois de inspecionar os servios, atravessei, de automvel, a ponte que ligava as duas mar-gens do grande rio, demorando-me na observao dos trabalhos, e, ao deixar o local, declarei aos engenheiros que daria - como j vinha dando - todo apoio ao grandioso empreendimento, para que ele ficasse con-cludo impreterivelmente em dezembro de 1960.

    Foi ento que ocorreu outro acontecimento este de carter internacional que me fez tomar importante deciso. Certa manh, ao ler os jornais, tomei conhecimento do que ocorrera com o Vi-ce-Presidente Nixon, dos Estados Unidos, no Peru. Em maio de 1958, ou seja, um ano e pouco aps sua triunfal excurso de 21 dias por oito pases africanos, Nixon resolvera fazer um visita de cortesia Amrica Latina. Iria comear pela costa do Pacfico, descendo ao longo dos Andes, para depois dirigir-se ao extremo sul do continente.

    Ao contrrio do que acontecera na Africa, fora mal recebido por toda parte. Em Lima, os universitrios e grande massa popular sa-ram s ruas para vai-lo. Quando Nixon dirigiu-se velha universidade de So Marcos, que desejava visitar, os estudantes cortaram-lhe o cami-nho. O vice-presidente norte-americano no recuou em face dos apu-pos. Interpretou aquela manifestao de hostilidade como um resultado da incompreenso da sua misso e deixou p carro para dialogar com os universitrios. O problema, porm, no era de dilogo, e Nixon viu-se envolvido pela multido, e ameaado at de agresso pessoal.

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    A bravura que demonstrou fez recuar os menos exaltados. No creio que a iniciativa dessa agresso deva ser atribuda aos estu-dantes. O ambiente tinha sido convenientemente preparado. Havia o ressentimento gerado pela viagem aos pases africanos, com o conse-quente pedido, ao governo de Washington, de que lhes fossem "con-cedidas prioridades". E, alm desse ressentimento, fermentava, como um caldo de cultura, o descaso com que os Estados Unidos encaravam os problemas da Amrica Latina. Esses dois fatores conjugados consti-turam as armas de que lanaram mo os extremistas para desacatar o ilustre visitante.

    O relato impressionou-me. Recordei-me de minha entrevista com Eisenhower no .Panam. Naquela poca, eu fizera uma advertncia. Apontara erros. Reclamara uma mudana de atitude dos Estados Uni-dos em relao aos seus irmos do Sul. Tudo, porm, havia sido feito de acordo com o protocolo. Tratava-se de um encontro casual, promovido pelo prprio presidente norte-americano, e, nessas condies, a oportu-nidade no comportava qualquer debate poltico. Eisenhower ouvira tudo com o maior interesse e prometera levar em considerao as mi-nhas advertncias.

    Agora, pesava um problema grave sobre a mesa do chefe do governo de Washington. Seu vice-presidente fora recebido com vaias em Lima e quase agredido. A opinio pblica peruana, embora repro-vando a ao dos extremistas, ficara solidria com os estudantes. Trata-va-se do primeiro ato positivo de condenao formal atitude dos Esta-dos Unidos em relao Amrica Latina.

    A verdade que o incidente de Lima fora apenas o comeo. Em Caracas, apesar das precaues tomadas pelo governo, a multido reproduziu as manifestaes do Peru. Nem mesmo a presena da Sra. Nixon no carro, que os levou do aeroporto da capital venezuelana ao hotel, conteve os amotinados em suas arremetidas. Nixon foi ligei-ramente ferido por uma pedra, atirada contra seu automvel, e, cance-lando o programa organizado para a visita, regressou imediatamente a Washington, onde teve uma estrondosa manifestao de desagravo.

    Numa entrevista imprensa, isentou os universitrios e a multi-do que o recebera nas duas capitais dos agravos por ele sofridos, tudo fa-zendo para minimizar o incidente. Suas palavras, conquanto serenas, no ti-

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    veram fora para desfazer o mal-estar. Uma situao de tenso se criara en-tre a grande nao do Norte e as numerosas.Repblicas do Sul.

    Desde muito, eu vinha observando a crescente deteriorao do prestgio dos Estados Unidos na Amrica Latina. A partir da Confe-rncia de Petrpolis, em 1947, e d a IX Conferncia Pari-Americana, reunida em Bogot em 1948, nas quais, malgrado as eternas incompre-enses, alguns resultados polticos haviam sido alcanados, o pan-americanismo cara em ponto morto. As reunies de consulta, que se realizaram a partir de ento, inclusive a X Pan-Americana, levada a efeito em Caracas, em 1954, j no chegaram a qualquer resultado positivo.

    Planos, projetos, esquemas de exploraes de algumas rique-zas tudo era devorado pela burocracia do Departamento de Estado, por meio de uma sucesso de estudos, de pareceres, de substitutivos, sem que jamais houvesse surgido uma soluo concreta. A usina de Vol-ta Redonda sara, no porque interessasse ao nosso desenvolvimento, mas como o resultado de barganha para que os Estados Unidos obtives-sem bases militares no Nordeste. Os projetos da Comisso Mista Bra-sil-Estados Unidos arrastavam-se em Washington desde o Governo de Getlio Vargas, sem que qualquer explicao fosse dada sobre a proba-bilidade de data em que iriam ser executados. No incio do meu Gover-no, o Conselho do Desenvolvimento desenterrara diversos projetos que, por sinal, eram excelentes e calcados na melhor tcnica - e, aps atualiz-los, submetera-os s autoridades de Washington, com o respec-tivo pedido de financiamento. O que havia acontecido ao tempo de Ge-tlio Vargas ocorreu, tambm, com as novas verses elaboradas pelo Conselho do Desenvolvimento. Foram sepultados em pastas que nunca seriam abertas.

    Da a razo por que, por ocasio da Conferncia do Panam, tive de agir da maneira como fiz. Neguei-me a atender convocao para uma reunio de chefes de Estado latino-americanos, alegando que estava muito ocupado. No iria ao Panam. Seria talvez o nico chefe de governo sul-americano a no atender convocao. Eisenhower es-creveu-me, ento, uma carta do prprio punho, fazendo-me um apelo pessoal, no sentido de que no deixasse de comparecer. E, numa de-monstrao de compreenso do ressentimento brasileiro, mandou libe-

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    rar, uma semana antes da Conferncia, cerca de 151 milhes de dlares para o financiamento de projetos especficos.

    A miopia poltica do Departamento de Estado havia atingido tal grau que j impunha atitudes dessa natureza. Vira-me obrigado a rea-gir de maneira contrria ao meu temperamento, para obter o justo que nos era negado. Depois, as advertncias que fizera a Eisenhower, no Pa-nam, sobre os erros da poltica norte-americana, embora houvessem impressionado o presidente, no tiveram a virtude de sensibilizar os res-ponsveis pela poltica americana em relao Amrica Latina. E surgi-ram, ento, os acontecimentos de Lima e Caracas.

    Telefonei a Augusto Frederico Schmidt, chamando-o Gvea Pequena. O assunto empolgava-me, e desejava tomar uma atitude. Expus a Schmidt o que tinha em mente, e o fiz com a maior veemncia, declarando que havia chegado a hora de o Brasil indicar o caminho de uma nova poltica. Iria mobilizar o continente inteiro para uma cruzada de redeno econmica. Schmidt concordou integralmente comigo. De fato, a oportunidade estava definida. Faltava, porm, a corporificao da ideia. Como seria exposta? Por intermdio de uma proclamao? De um relatrio? De uma conferncia? Rejeitei todas as sugestes por julg-las complexas em excesso. Optei, ento, por uma carta uma carta pessoal dirigida ao Presidente Eisenhower.

    Schmidt encaminhou-se para. uma mesa, a fim de redigi-la. O primeiro texto no me agradou. O que sugeria era.inexequvel, e ofere-cia a desvantagem de obedecer a uma tcnica de certo modo diplomti-ca. Faltava-lhe grandeza. Sim, a linha deveria ser esta: a grandeza. Est-vamos em face de um problema continental, e, para discuti-lo, o tom te-ria de ser impessoal, acima das fronteiras, ignorando os naturais desn-veis, falando de igual para igual.

    Passamos ento a redigir o segundo texto, mas j em conjun-to. Ao terminar, lemos, com ateno, o documento, e julgamo-lo ade-quado. A carta foi a seguinte:

    "Rio de Janeiro, 28 de maio de 1958. "Excelentssimo Senhor "Dwight D. Eisenhower, "Presidente dos Estados Unidos da Amrica.

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    "Venho levar a Vossa Excelncia, em nome do povo brasilei-ro e no meu prprio, a expresso de solidariedade e estima que se im-pe em face das agresses e dissabores sofridos pelo Vice-Presidente Nixon, ha sua recente viagem aos pases latino-americanos.

    "A reao - que se seguiu aos atos reprovveis contra a pes-soa do bravo e sereno Senhor Nixon, por parte dos governos e da opi-nio pblica das prprias naes que foram teatro de to lamentveis ocorrncias prova que partiram as referidas manifestaes de simples minorias.

    "Mas assim mesmo, Senhor Presidente, no possvel escon-der que, diante da opinio mundial, a ideia da unidade pan-americana sofreu srio prejuzo. No pode deixar de resultar - das desagradveis ocorrncias, que tanto deploramos - a impresso de que nos desenten-demos no nosso continente. A propaganda dos interessados rto ntia-mericanismo, naturalmente, procura agora converter esses supostos de-sentendimentos numa incompatibilidade, mesmo numa inimizade entre os pases livres da comunidade americana, o que, felizmente, est bem longe de se verificar.

    "Parece-me, Senhor Presidente, que no conveniente e, prin:

    cipalmente, que no justo que perdure essa impresso que enfraquece moralmente a causa da democracia, em cuja defesa estamos empenhados.

    "Neste momento em que escrevo Vossa Excelncia, no te-nho outro interesse que o de levar-lhe a minha convico de que algo necessita ser feito para recompor a face da unidade continental. No te-nho plano detalhado para esse objtivo, mas ideias que, posteriormente, poderei expor a Vossa Excelncia,; se ocasio se apresentar.

    "Permita-me Vossa Excelncia que lhe adiante, porm, que a hora soou de revermos fundamentalmente a poltica de entendimento deste hemisfrio e procedermos a um exame do que se esta fazendo em favor dos ideais pan-americanos em todas as suas implicaes. Estare-mos todos ns - a hora de perguntar - agindo no sentido de se esta-belecer a ligao indestrutvel de sentimentos e interesses que a conjun-tura grave aconselha e recomenda? , ,

    "Soldado que conduziu a democracia vitria,.homem de Estado experimentado e, mais do que isso, homem sensvel verdade, Vossa Excelncia estar em condies, como nenhum outro, de apreciar

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    a gravidade da pergunta que lhe formulo, na inteno exclusiva de deli-mitar, para logo depois extinguir, uma srie de incompreenses que, neste momento, so facilmente sanveis - mas que podem crescer, se no lhes dermos a devida ateno.

    "As contrariedades suportadas pelo Vice-Presidente Nixon devem ser utilizadas em favor de uma nobre tarefa no sentido de cri-armos algo de mais profundo e duradouro em prol de nosso destino comum.

    "Como j disse a Vossa Excelncia, aconselhvel corrigir-mos a falsa impresso de que no estamos vivendo fraternalmente nas Amricas; mas alm dessa operao corretiva e, para que ela seja duradoura e perfeita, devemos proceder a um verdadeiro exame de conscincia, em face do pan-americanismo e saber se estamos no bom caminho.

    "Estou certo de que Vossa Excelncia avaliar que esta carta eu a escrevo inspirado nos melhores e mais sinceros sentimentos frater-nos que sempre ligaram o meu Pas aos Estados Unidos e tambm apoi-ado em ideias que foram emitidas por Vossa Excelncia no nosso en-contro no Congresso Pan-Americano no Panam.

    "Deus guarde a pessoa de Vossa Excelncia e o povo nor-te-americano.

    (a) Juscelino Kubitscbek."

    Redigido e assinado o documento, a segunda operao seria faz-lo chegar, sem demora, s mos do Presidente Eisenhower. Ne-nhum tempo deveria ser perdido. Teria de agir enquanto ainda estivesse acesa a fogueira da indignao nos crculos polticos de Washington. Assim, chamei Vtor Nunes Leal, chefe da Casa Civil da Presidncia, e dei-lhe ordem para que seguisse, naquela mesma noite, para os Estados Unidos, levando a carta. Em seguida, fiz uma ligao telefnica interna-cional para Amaral Peixoto, nosso embaixador em Washington, ao qual dei conhecimento da atitude que havia tomado, 6 solicitando que tomas-se as providncias cabveis, no. sentido de que a carta fosse logo entre-gue ao chefe do governo norte-americano.

  • Inaugurao do Palcio da Alvorada

    ^ -"^"q"""+~ aguardava o resultado de que pudesse obter minha carta ao Presidente Eisenhower, concentrei minha ateno nas duas frentes de trabalho que, naquele momento, galvanizavam a im-prensa e a opinio pblica do Pas: a construo de Braslia e a abertura da rodovia Belm-Braslia.

    Em Braslia, era empolgante o espetculo de atividade que se abria aos olhos do visitante. Mesmo antes de se chegar cidade, j se podia ter uma ideia do que era o esforo do Governo no sentido de ina-ugurar a nova capital na data prefixada. Estradas se abriam em todas as direes e, antes de concludas, j os milhares de caminhes desloca-vam-se ao longo dos.trilhos abertos, transportando o que se fazia neces-srio s obras em andamento no permetro do Plano Piloto.

    Um mundo diferente de atividades diversas crispava as outrora tranquilas cidadezinhas do interior, fazendo-as viver uma era de vertigino-so progresso. Paracatu, com seus muros de pedra, desde muito em runa, renascia das prprias cinzas, com seus habitantes j antegozando a pros-peridade que lhes traria em breve a Belo HorizonteBraslia. Ao longo da faixa, j demarcada para a passagem da rodovia, valorizavam-se as ter-ras, plantaes surgiam, rebanhos eram separados para a recria.

    Anpolis vivia um ciclo diferente de sua economia. Grande centro de produo de arroz, deixara de limitar suas plantaes por te-

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    mor da falta de mercado. Em face da nova realidade, j no faltavam compradores para o que seus campos produzissem. Mquinas de bene-ficiamento de cereais sucediam-se, formando ruas, e porta de cada uma delas viam-se caminhes que chegavam, recebiam a mercadoria e arrancavam para atender aos comerciantes, com os estoques sempre baixos. Goinia, um pouco mais ao sul, convertera-se num entreposto de gneros e de material de construo que servia a uma rea cujos limites semanalmente eram ampliados.

    O que acontecia em Paracatu, em Anpolis, e em Goinia, re-petia-se em toda a extenso do Brasil Central. O Tringulo Mineiro, que custara a se recuperar da febre do zebu, criava vida nova, fornecendo tudo aos empreiteiros que trabalhavam em Braslia; Belo Horizonte, a meio caminho entre o Rio e a nova capital, transformara-se num centro de atendimento de encomendas. Os pedidos que chegavam eram sem-pre em nmero maior do que as mercadorias existentes nas lojas. So Paulo e o Rio socorriam Belo Horizonte, e uma corrente contnua de in-teresses e de negcios despertava o chapado do norte mineiro, trans-formando em riqueza tudo quanto at ento ali apodrecia por falta de compradores.

    Se esse era o espetculo de uma civilizao em transio, ten-do por palco o interior do Pas, que dizer-se, ento, do que ocorria na prpria Braslia - uma cidade sada do nada, brotando do cho pelo es-foro do gnio empreendedor de um povo? De longe, a futura metr-pole era um imenso canteiro de obras.

    Nada ainda estava pronto. Mas tudo obedecia a um mesmo ritmo nervoso de competio. Havia um plano de execuo - um plano complexo que implicava o atendimento de todas as necessidades de uma populao de 500 mil almas. Saltava da planta do engenheiro, onde era apenas trao e cor, e se convertia em realidade no cho vermelho do cerrado. Quando se batiam as estacas de um edifcio que deveria inte-grar um bloco de apartamentos, as estacas de todos os congneres eram batidas simultaneamente. Tudo subia a um tempo s.

    Poder-se- pensar que houvesse confuses e desperdcios. Nada disso acontecia. Quando os operrios das fundaes concluam suas tarefas, eram deslocados para a abertura de outras fundaes em outro bloco e, substituindo-os, surgiam os tcnicos das armaes de ci-

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    mento armado. Estes, por sua vez, concluda a concretagem, cediam lu-gar aos encarregados da alvenaria. Cada um no seu turno, e todos em funo de um nico objetivo: dar a cidade pronta na data fixada. Viam-se, disseminados por toda a rea do Plano Piloto, os elementos criados pela mo do homem, perfeitamente integrados no cenrio em que a metrpole fora plantada, porque conveniente sempre ressaltar Braslia a nica cidade do Brasil, e talvez do mundo, que no se di-vorciou da Natureza.

    Lcio Costa e Oscar Niemeyer, na concepo do que deveria ser a futura capital, tiveram em mente, antes de tudo, a necessidade de criar uma obra que fosse um prolongamento do cerrado. Assim, a cida-de e a paisagem, que lhe serve de fundo, se interpenetram. Confun-dem-se. Aglutinam-se. Em todos os grandes centros urbanos, medida que se se expandem os valores da civilizao, acentua-se a distncia que separa o que foi criado pelo homem e a Natureza que o rodeia.

    J em Braslia, o fenmeno se inverte. Os blocos de aparta-mentos, os palcios governamentais, os trevos que imprimem musicali-dade ao trnsito, nunca se desgarram da Natureza. O cerrado est ali a dois passos de cada janela. No houve o propsito de hostiliz-lo, de extingui-lo, mas de incorpor-lo ao contexto urbano. As rvores retorci-das que caracterizam a paisagem foram conservadas na sua prpria fei-o caricatural, sem que se tivesse a preocupao de modific-las para lhes comunicar a opulncia da floresta tropical. E as edificaes que.se ergueram em torno delas no as afugentaram, mas copiaram-lhes as li-nhas definidoras, de forma que umas e outras constitussem um todo uniforme.

    Em junho de 1958, preparvamo-nos para inaugurar o Pal-cio da Alvorada. Antes da cerimnia, tratei de fiscalizar, pela ltima vez, a obra que seria a residncia oficial do Presidente da Repblica. Enquanto o helicptero se aproximava, ia observando que, com a redu-o do campo de viso, tornava-se mais flagrante a identidade do que fora construdo pelo homem com o que ali sempre existira, como ex-presso da natureza local.

    As colunas do Alvorada pareciam caules das mesmas rvores que se viam nas imediaes, as quais j deixavam a terra inclinada, num capricho de sinuosidade que a secura do ar impe vegetao do Pia-

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    nalto. Aquelas colunas, surgindo quase flor da gua do lago, que as re-fletia, davam uma impresso de germinao das mesmas sementes que haviam dado origem ao cerrado.

    A Natureza , por excelncia, prdiga em tudo. Se h necessi-dade de que uma rvore seja curva, para fazer frente ao azorrague do vento, ela a faz retorcida desde as razes. Comunica-lhe sua preocupao de fech-la sobre si mesma, quer no tronco que sustenta a fronde, quer nas folhas, que se formam como conchas. O artista, porm, estiliza a forma que a natureza lhe oferece como inspirao. Poda os excessos. Suaviza os contornos. Comunica harmonia e equilbrio onde h desor-dem. E, assim, transforma o barroco, criado como uma defesa contra a intemprie, na diafanidade de um estilo linear, tendo como objetivo um xtase visual. Dentro dessa lgica de raciocnio, que fora concebido o Palcio da Alvorada.

    E, no dia 30 de junho, eu me encontrava em Braslia para inaugur-lo.

    A inaugurao do Palcio da Alvorada coincidiu com um acontecimento que, desde havia um ms, vinha empolgando a opinio pblica. Tratava-se do Campeonato Mundial de Futebol. O Brasil, aps sucessivas e brilhantes vitrias, chegara meta final, emparelhada com a Sucia. No dia anterior - 29 de junho - iria ter lugar a disputa decisiva.

    Desde cedo, todas as atividades nacionais estavam quase pa-ralisadas. Viam-se alto-falantes, instalados nas casas comerciais, e cada pessoa tinha na mo um rdio de pilha. As emissoras traziam a popula-o em permanente suspense, criando o ambiente psicolgico indispens-vel ao acontecimento de repercusso internacional. A disputa era dura, porque os suecos lutavam em terreno prprio. E, em face das dificulda-des que o nosso selecionado teria de vencer, mais tenso se fazia o ner-vosismo que contagiara toda a Nao.

    Foi sob esse ambiente de tenso que deixei o Rio, com a famlia, para presidir cerimnia de inaugurao do Alvorada. Em Braslia, respirava-se a mesma atmosfera de expectativa. Depois de atender aos assuntos que no poderiam ser adiados, cancelei os de-mais compromissos, constantes da minha agenda, e, como todos os brasileiros, preparei-me para viver, com intensidade, a emoo do de-senrolar daquela disputa.

  • Por que constru Braslia 185

    Numa poltrona do living-room do Braslia Palace Hotel, cerca-do pela famlia e por auxiliares diretos e jornalistas, acompanhei com emoo o desenrolar da peleja. Torci e me exaltei como todos os. can-dangos que se aglomeraram porta do hotel. Ao delinear-se a vitria, enviei um telegrama de saudao aos jogadores brasileiros, que finaliza-va com as seguintes palavras: "E o Brasil novo que comea a conquistar suas vitrias. o Brasil de Braslia que, plantado no corao da Ptria, tem agora um esprito novo a dirigir-lhe os destinos."

    Meu entusiasmo era natural. Ao analisar aquela vitria, no pude deixar de vincul-la ao despertar de uma conscincia nova no Pas. Braslia constitura um exemplo. Levas e levas de sertanejos das caatin-gas do Nordeste ou de mateiros das margens do Amazonas, que haviam passado fome nas regies em que haviam nascido, estavam transmuda-dos em operrios no Planalto.

    O candango era uma imagem nova no cenrio brasileiro. Sem saber ler, realizava com perfeio o trabalho que lhe competia na comu-nidade operria da nova capital. Este batia rebites; aquele carregava tijo-los; outro temperava o concreto. Cada um no seu setor, e todos ajusta-dos a um mesmo ritmo de produo. ,

    No dia 30, conforme estava programado, presidi a numerosas inauguraes e, entre elas, a de maior importncia. foi a do Palcio da Alvorada.

    A cerimnia teve incio com a bno de D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota* cardeal-arcebispo de So Paulo. Seguiu-se a missa solene, cantada, e que teve como oficiante D. Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goinia, cuja arquidiocese tinha jurisdio sobre Braslia.

    D. Fernando pronunciou um sermo gratulatrio, assinalando que aquele dia 30 era de excepcional importncia para o futuro do Pas. "A inaugurao das primeiras obras de Braslia" - declarou - "marca o incio de uma nova fase da Histria, nessa marcha rdua e dificlima para o interior. O Brasil deixa de contemplar o mar, por. onde vieram as caravelas do descobrimento e do progresso, para se voltar para si mes-mo, como a despertar de um grande sonho." Aps a missa solene, o Nncio Apostlico, Dom Armando Lombardi, leu a Bno Apostlica enviada pelo Papa Pio XII.

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    Constava do programa das solenidades a entrega das creden-ciais do novo embaixador de Portugal - o primeiro diplomata a faz-lo em Braslia. A respeito, ser conveniente recordar um episdio pitores-co. O Embaixador Manuel Rocheta j se encontrava no Brasil havia quase um ms, e de acordo com o protocolo, a entrega das credenciais deveria ter sido imediatamente aps sua chegada ao Pas. Eu lhe pedira que concordasse em retardar a cerimnia, pois desejava realiz-la na nova capital. Entretanto, essa cerimnia no poderia ser realizada num dia qualquer, como geralmente acontecia no Rio. Braslia ainda era um canteiro de obras e, nessas condies, para que o ato se revestisse da so-lenidade que desejava emprestar-lhe, seria conveniente esperar por uma oportunidade especial. E esta, segundo meus clculos, seria a da inaugu-rao do Palcio da Alvorada.

    Essa deciso, porm, criou uma situao embaraosa para o embaixador de Portugal. Como ele estava no Brasil havia quase um ms, a ainda no tinha entregue suas credenciais, estranhou-se a demora, nos crculos diplomticos, e surgiram - como comum em situaes dessa natureza - as inevitveis interpretaes tendenciosas. Diziam que o Embai-xador Rocheta no era persona grata e que estava tendo dificuldades em ser recebido pelo Presidente da Repblica. Felizmente, o dia 30 de junho che-gara, e com a cerimnia realizada no Palcio da Alvorada, o mal-entendido fora desfeito. Ao retardar a entrega de credenciais, o que eu queria era pres-tar uma homenagem especial a Portugal. Pretendia reatar o vnculo histri-co. Assim como devamos aos portugueses o nosso descobrimento, seria justo que seu representante diplomtico testemunhasse, em pleno sculo XX, aquele ato de posse da terra, o qual, em termos de desenvolvimento econmico, significava, sem dvida, outro 21 de abril.

    No dia 30 de junho de 1958, outras inauguraes tiveram lu-gar: a da Avenida das Naes, com doze e meio quilmetros de exten-so, onde se situariam as embaixadas; a de um Eixo Monumental, que seria a avenida de ligao com o Palcio; e, por fim, a da rodovia An-polisBraslia, construda segundo os mais avanados padres tcnicos da engenharia rodoviria, com uma plataforma de 13 metros, um raio mnimo de 225 metros e a rampa mxima de 6%. Nessa estrada, cujas obras tiveram incio em maio do ano interior, tinham sido escavados 2 milhes de metros cbicos de terra.

  • Por que constru Braslia 187

    noite desse mesmo dia 30 de junho, regressei, com a fam-lia, para o Rio.

    EM AO OS DESBRAVADORES

    A construo da BelmBraslia era outro grande problema depois da inaugurao do Palcio da Alvorada que me preocupava. A estrada teria 2.169 quilmetros, dos quais 815 j estavam prontos, 884 achavam-se em construo, restando por iniciar 470 quilmetros, em plena floresta amaznica.

    Trs mil operrios atacavam a obra nos dois sentidos. As van-guardas de topgrafos e gelogos eram assistidas por via rea, receben-do vveres e equipamentos de pequeno porte, lanados de pra-quedas. A FAB estudava, na ocasio, a possibilidade de construir, no trecho de penetrao da Amaznia, aeroportos de 100 em 100 quilmetros, a fim de assegurar apoio mais efetivo ao trabalho de desbravamento.

    Quando a Rodobrs fora criada, vrias firmas empreitaram trechos da rodovia. A turma do Norte, chefiada pelo Engenheiro Rui de Almeida e sob a superviso de Waldir Bouhid, havia partido de Guam, em direo ao Sul. E a turma do Sul, chefiada pessoalmente por Bernar-do Sayo, havia partido de Porangatu, em Gois, no rumo do Norte.

    O encontro das duas turmas se daria em plena floresta, em lo-cal j denominado: Ligao. Ningum tinha ideia onde seria esse lugar. Sabia-se apenas que estaria situado ao longo do trajeto da rodovia e num local onde existisse uma rvore gigantesca, que serviria de marco, assinalando o rompimento definitivo da floresta at ento impenetrada.

    Ainda no apareceu um Euclides da Cunha para fixar, em p-ginas que seriam imortais, a epopeia dessa luta contra a floresta. Tudo conspirava para frustrar a inteno dos desbravadores dificuldades de todo gnero, o mistrio da regio nunca explorada, a dureza da vida em condies subumanas, os perigos imprevistos, a sede, a fome, as febres, as cobras, os mosquitos e, sobretudo, os carrapatos e o formigo.

    Os vanguardeiros eram chamados cossacos. Iam na frente, como verdadeiros batedores. Dado o intrincado da selva verdadeiro tecido conjuntivo que impedia qualquer avano , caminhavam de ras-

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    tro, levando serrotes na boca. Este era um tipo de vanguardeiro. Existia, porm, outro - o dos que carregavam faces e machados. O instrumen-to utilizado dependia da natureza do trecho da selva que era atacado.

    Quando o mato era fechado demais, avanava a turma do ser-rote. Esses homens arfastavam-se como cobras a barriga contra o cho - serrando, na raiz, os cips gigantescos. Rompida essa primeira barreira, vinham os que possuam faces e machados. Cortavam arbustos e derru-bavam troncos, abrindo uma picada. Esse trabalho inicial de limpeza no era isento de perigos. Aberto o trilho, era necessrio que se observassem os galhos, que se vasculhasse a camada de folhas, que se revolvesse o entu-lho vegetal. que, em qualquer lugar, poderia estar uma cobra escondida, encontrr-se um formigueiro, haver um foco de carrapatos. Da a razo por que esses vanguardeiros eram chamados de 'o grupo suicida'.

    Os mateiros, cercados de perigos por todos os lados, julga-vam, entretanto, que os inimigos que mais se deviam temer eram apenas dois: o carrapato e o formigo. Para a mordida de cobra, existia a medi-cina dos curandeiros, com a aplicao de certa folha na ferida e o torni-quete, que paralisava a circulao. Contra o carrapato e o formigo, po-rm, no havia qualquer defesa. Um infeccionava e dava origem a cocei-ras que abriam o corpo em chagas; e o outro ferroava, e a dor, provoca-da pelo veneno instilado, quase levava loucura.

    A gua era obtida de certo tipo de cip, que, cortado, fornecia um lquido muito semelhante gua de coco. Quanto fome, recorriam s frutas silvestres, s castanhas e s razes comestveis. Por toda parte viam-se os cips gigantescos, alguns to grossos como troncos de rvo-res, e todos deveriam ser cortados para que os que viessem atrs pudes-sem passar. Como no se sabia o que iria ser encontrado adiante - se ala-gadio, brejo ou gua estagnada , as turmas avanavam na linha das ele-vaes. Sendo impraticvel qualquer balizamento, seguia-se "pelo rumo", acompanhando uma linha oblqua em relao agulha da bssola.

    Os vanguardeiros, medida que avanavam, iam abrindo cla-reiras e, ali, acendiam fogos. A fumaa, filtrando-se por intermdio das frondes, servia de indicao para os avies de reconhecimento, que jo-gavam gneros alimentcios de pra-quedas. A clareira, entretanto, s era aberta a razovel distncia, para no tornar muito lento o avano das turmas.

  • Por que constru Braslia 189

    No rastro dos vanguardeiros, seguiam as turmas com os tra-tores, para alargar a trilha. Essas mquinas tanto aterravam como cir-cundavam, atendendo s pecualiaridades do terreno. A estrada ia sendo aberta numa altitude de 200 a 300 metros, com exceo de alguns pon-tos, como ao norte de Aailndia, onde tinha 396 metros, e na serra do Gurupi, com 360.

    Quem sobrevoasse a regio, contemplaria uma plancie imen-sa, coberta de rvores que se estendiam de horizonte a horizonte. Da a generalizao - a Plancie Amaznica. Quando rasgamos a floresta, veri-ficamos que a designao era incorreta. O terreno ondulado, com de-presses nas regies mais midas; mas excetuadas essas partes, encres-pado numa sucesso de colinas. As rvores, atingindo a 40 e 50 metros de altura, nivelavam o cenrio pelas frondes.

    Assim, a estrada ia sendo aberta a serrote, a trator, a faco e a dinamite. Quando um cedro ou uma maaranduba gigante parecia irre-movvel, encaixavam-se bananas de dinamite em fendas, abertas nas ra-zes, e estrondava-se o tronco. A queda de um desses reis da floresta era um espetculo inesquecvel. Alm do rudo, que se assemelhava a uma trovoada seca, havia a devastao que era feita em redor. Depois, havia o trabalho ingente de remover o entulho, para que os tratores pudessem manobrar.

    Sayo tinha uma filosofia prpria para enfrentar o desafio da floresta. Sua palavra de ordem era uma s: avanar. Avanar, custasse o que custasse, deixando para depois a melhoria do traado. No seu cre-bro, estava acesa aquela luzinha que o fazia seguir sempre para adiante a ligao. A noite no acampamento, consultava o mapa. Fazia clculos, Tirava longitudinais. Mas todo aquele trabalho resultava intil. A estrada avanava e sempre havia um morrote, que parecia o ltimo. Entretanto, era apenas o penltimo.

    At Imperatriz, no Maranho, estrada apresentava-se como um Tocantins de terra a acompanhar esse rio, ora pela direita, ora pela esquerda. Era uma fita vermelha, aberta na floresta, torcicolando pelas grandes plancies. Havia ficado atrs o local onde se estudava a possibili-dade de ser construda a grande ponte - a maior .obra de arte da rodo-via. Alm da ponte de Estreito - a que iria transpor o Tocantins - existiam inmeros igaraps, que naturalmente exigiriam outras obras de arte.

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    quela altura, porm, nada se sabia sobre o que poderia estar pela fren-te. Mesmo assim, as turmas iam avanando. Os mantimentos, jogados de pra-quedas, muitas yezes no chegavam ao cho. Os embrulhos fi-cavam presos nos galhos e, quando isso acontecia, era difcil localiz-los, Sayo teve uma ideia para evitar aqueles extravios: que colocassem gatos nos embrulhos! Se estes ficassem retidos na galharia, tornar-se-iam fa-mintos e miariam em desespero. Seriam, assim localizados.

    Para se iniciar o trabalho de construo da ponte sobre o To-cantins, teria de ser feito um desmatamento de cerca de 60 quilmetros em linha reta. Esse trabalho vinha sendo realizado por Sayo, com di-versas turmas de empreiteiros. O processo era sempre o mesmo: os cos-sacos frente, abrindo a picada; depois, as turmas de faco e do macha-do, para a limpeza da trilha; e, por fim, os tratores e outras mquinas. Toda aquela frente estava em grande atividade. Acampamentos eram montados. Instalavam-se oficinas mecnicas provisrias, para atender aos caminhes. Abriam-se clareiras, que iriam servir, pouco depois, de campos. de pouso. Quando tudo estava pronto, a turma arrancava de novo, e, assim, ia se aproximado cada vez mais do Tocantins.

    Os estudos preliminares da ponte j haviam sido feitos. Sua extenso seria de 534,20 metros, com base assentada diretamente na ro-cha. O vo central teria 140 metros, a ser vencido por viga reta, executa-da em concreto protendido. Tratava-se de um dos maiores vos livres do mundo, a ser executado com aquele tipo de concreto.

    Com frequncia, eu sobrevoava o traado da rodovia, inspe-cionando, do alto, os trabalhos realizados. Sempre dei a maior impor-tncia abertura daquela estrada. Ela seria, na realidade, uma "espinha dorsal", segundo a definio de Sayo, das vastas regies Norte e Cen-tro-Oeste do Pas, beneficiando, direta ou indiretamente, uma rea de 4.800.000 quilmetros quadrados. Cerca de 70 municpios, situados numa faixa de 60 quilmetros para cada lado do seu eixo, sentiriam o impacto do progresso, no chegando aos poucos, no ritmo normal do crescimento de qualquer aglomerado humano, mas por meio de verda-deira agresso desbravadora, com o desenvolvimento invadindo as pro-priedades, melhorando as condies de vida dos mateiros, impon-do-lhes uma atitude dinmica em face da nova realidade, que chegava para faz-los trabalhar.

  • Por que constru Braslia 191

    Alm do progresso material, qe seria imediato e coincidindo cm a abertura do trfego nos trechos da rodovia j construdos, existiam outros aspectos do processo civilizador qu deveriam ser considerados. Estes, embora no repentinos nem d flagrante natureza promocional,' estavam diretament vinculados necessidade de se estimular a melho-ria dos ndices de sanidade da imensa regio ou seja, de cerca de mais da metade do territrio nacional.

    Na zona amaznica propriamente dita, o acesso floresta proporcionaria, de imediato, o estabelecimento da grande indstria ma-deireira, alm da explorao da produo extrativa (oleaginosas), abrin-do possibilidades cultura racional da seringueira, do cacau, da pimen-ta-do-reino, do dend, enquanto as turmas de prospeco estariam em condies de promover a pesquisa de minerais e a delimitao do po-tencial energtico do Tocantins, do Gufupi e do Araguaia.

    Com despertar daquela imensa regio, desbravada pelos ca-minhes que ligariam os extremos da rodovia, o porto de Belm seria convertido em importante entreposto comercial, com reflexos econmi-cos imediatos em toda a bacia Amaznica. Seriam navios que deixariam ou chegariam capital paraense, carregados de mercadorias, e desse in-tercmbio com o exterior a consequente intensificao do comrcio pe-las vias internas, quer no sentido sul, pela grande rodovia, quer no rumo do oeste, ao longo da imensa rede de navegao fluvial.

    E havia a considerar, por fim, o aspecto relevante, relaciona-do com o problema da segurana nacional, j que na Amaznia se situa-vam trs quartas partes das nossas fronteiras continentais, assumindo a rodovia BelmBraslia o carter de grande via estratgica da- Nao.

    Em julho de 1958, a rodovia estava em plena execuo. Acor-riam pioneiros de todos os quadrantes nacionais para se integrar no exrcito de desbravamento. Todos tinham orgulho de vincular seus no-mes grande obra. E o entusiasmo de muitos, o herosmo de alguns chefes, como Sayo, a fria determinao de outros, como Waldir Bou-hid, aliado tudo isso a uma admirvel equipe de engenheiros e de firmas empreiteiras, apoiada no trabalho annimo de milhares de mateiros, o que parecia irrealizvel se foi convertendo, aos poucos, em realidade.

    A construo de Braslia havia justificado e imposto quela arrancada, no rumo do Norte do Brasil. A Amaznia l estava som-

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    bria, aterradora, misteriosa - sempre envolta no manto verde da sua flo-resta impenetrvel. Aquela floresta era, a um s tempo, riqueza e sud-rio. Tudo poderia ser encontrado ali, se o acesso fosse fcil e vigorassem na regio condies de salubridade. Ao sul, e distanciada dela por mais de dois mil quilmetros, estava sendo construda Braslia - a Capital da Esperana, o marco de um Brasil adulto. No era possvel que continuassem existindo aqueles dois pases. Era urgente que se fizesse a unio das duas partes.

    Alm das razes de carter econmico, social, administrativo, militar e at cultural, que impunha aquela abertura para o Norte, a nova Capital viera tornar a providncia inadivel. Ela seria um foco irradiador de civilizao e, dadas as peculiaridades de seu crescimento, iria tornar possvel Amaznia um verdadeiro salto do seu estgio primitivo, con-figurado na satisfao apenas das necessidades primrias, para o esplen-dor da era eletrnica, caracterstica dos padres de vida inerentes civi-lizao que iria nascer no Planalto.

    Assim, a construo da grande rodovia justificava, mais uma vez, a frase de D. Carlos Carmelo Mota, arcebispo de So Paulo, segun-do a qual "Braslia era o trampolim para a conquista da Amaznia".

    EVOLUO DO PAN-AMERICANISMO

    Minha carta ao chefe do governo dos Estados Unidos, datada de 28 de maio, teve a melhor acolhida. J no dia 9 do ms seguinte, chegava ao Rio o Sr. Roy Rubottom, secretrio de Estado Assistente para os Assun-tos Interamericanos, trazendo a resposta do Presidente Eisenhower.

    Minha mensagem no constitua um programa de ao nem consubstanciava um anteprojeto de reviso do sistema poltico pan-americano. Tratava-se, apenas, de um convite para debate, tendo em vista os interesses dos povos do continente. Por que, ento, todo aquele rebulio, toda aquela movimentao nos crculos polticos de Washington? A explicao era simples: a carta fora escrita no momento oportuno e havia abordado a causa exata.

    Nos 132 anos de reunies continentais - de 1826 a 1958 -haviam sido parcos, se no negativos, os resultados dos entendimentos

  • Por que constru Braslia 193

    entre os Estados Unidos e a Amrica Latina. No diagrama da longa coe-xistncia poltica, apenas trs fatos, verdadeiramente dignos de registro, se destacaram: a carta proftica de Bolvar, a Doutrina Monroe e a atua-o latino-americana em Dumbarton Oaks, Chapultepec e So Francis-co, graas qual o mundo se salvou da ditadura do Conselho de Segu-rana das Naes Unidas e, para as naes do continente, fora restabele-cida a validade das organizaes regionais, que constituem a base do pan-americanismo.

    O pan-americanismo, na realidade, sempre foi mais do que uma ideia. Representava um estado de esprito, ou melhor, uma cons-cincia coletiva de autodefesa e de autopreservao econmica. Suas ra-zes - se desejarmos ser exigentes e estritos remontam ao Tratado de Madri, assinado entre Portugal e a Espanha no dia 13 de janeiro de 1750. Nessa poca, Alexandre de Gusmo, o negociador, j tinha em mente a preocupao de se estabelecer "uma poltica geral de paz e de harmonia" entre as duas potncias ibricas, o que significava que, seten-ta anos antes dos seus movimentos insurrecionais da independncia, j as colnias desta parte do mundo buscavam um denominador comum que lhes permitisse uma coexistncia pacfica. E o que no deixa de ser curioso a expresso utilizada numa das clusulas daquele tratado, com vistas a uma definio desse anseio coletivo de entendimento, mais tarde iria ficar famosa no continente: a expresso "boa vizinhana".

    O impulso inicial, embora amortecido pelos supervenientes acontecimentos polticos, que afastaram aquelas potncias ibricas da rea continental, no morreu ou perdeu sua significao. Sessenta e cin-co anos mais tarde, Bolvar iria acion-lo de novo, por meio da sua fa-mosa carta escrita na Jamaica, no dia 6 de setembro de 1815, e na qual o Libertador preconizava a transformao do "Novo Mundo numa s na-o, e com um s vnculo ligando suas partes entre si e com o todo", lanando ento as bases do que seria, nos tempos modernos, o "bloco latino-americano".

    Bolvar retomava, assim, a linha indicada por Alexandre de Gusmo, emprestando-lhe, porm, um contedo particularista. Seu ideal tinha por base no um ambiente de compreenso entre as grandes po-tncias, mas o estabelecimento de um sistema continental de autopre-servao, levado a efeito por meio de um apelo ntido em favor da unio

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    especfica, sancionada pela Geografia e ratificada pela identidade dos processos de formao.

    A Doutrina Monroe, enunciada em 1823, constituiu, sem d-vida, um avano sobre a idi de Bolvar: reafirmou a solidariedade con-tinental, mas adicionou um elemento de desafio aspirao primitiva. A solidariedade deveria ser. mantida, ho em sua forma esttica, fechada sobre si mesma, sem assumir um carter de contestao - ns, unidos, contra os que tentassem nos agredir.

    Tratava-se, na realidade, de um passo frente, mas sem qual-quer vinculao aos problemas econmicos. Embora James Monroe emprestasse seu nome nova Doutrina, o verdadeiro autor da ideia ha-via sido John Quincy Adams, seu secretrio de Estado. Monroe, sob a influncia do velho sentimentalismo que ligava a nascente nao me-ptria, pensara em enunciar a Doutrina, numa declarao conjunta com a Inglaterra. Adams, porm, ao redigir o texto, escoimara-o de vin-culaes extracontinentais, emprestandp-lhe um cunho nitidamente americanista: as naes do Novo Mundo "no devem ser consideradas como um domnio suscetvel de colonizao por uma potncia euro-peia".

    Na poca, os Estados Unidos j tinham certa importncia po-ltica internacional. A Federao contava om 25 Estados, e sua popula-o era calculada em 11 milhes, enquanto o restante do continente de-veria ter cerca de 20 milhes de habitantes. No caso de um conflito, seriam portanto 31 milhes de americanos contra 100 milhes de europeus, o que no deixava de ser inquietador, j que, na poca, o peso do ele-mento humano era decisivo para a soluo de qualquer guerra.

    A Doutrina Monroe fora concebida tendo em vista dois obje-tivos bem definidos: um, de natureza psicolgica, referente necessida-de de uma integrao continental; e outro patente, configurado na ur-gncia de uma tomada de posio em face das intenes absolutistas da Santa Aliana. Monroe preocupava-se mais com o ltimo objetivo, por-que era imediatista, e da seu interesse em obter o apoio da Inglaterra, ento em luta contra a Santa Aliana. Adams, porm, tentava plantar para o futuro. O ideal, a ser realizado, era a rpida unificao do conti-nente, o que seria obra duradoura, j que a Santa Aliana poderia se des-fazer - como de fato se desfez - e os problemas do Novo Mundo -

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    quer os da poca, quer os do futuro - s poderiam ser equacionados no contexto dessa unio.

    Doze anos depois de sua carta proftica, Bolvar, j ento Presidente da Repblia da Gr-Colmbia, fez realizar o famoso Con-gresso do Panam. Nessa reunio, qual no estiveram presentes nem o Brasil nem os Estados Unidos, nasceu, de fato, o pan-americanismo. A ideia vaga da carta da Jamaica evolura sensivelmente, recebendo subs-dios de San Martin, de Rodrigo Pinto Guedes, de Silvestre Pinheiro e de Jos Bonifcio, e, depois de haver tomado corpo, transformada numa aspirao coletiva, fora submetida, sob a forma de propostas, ao exame de todos os pases continentais.

    Bolvar fora na realidade b criador e o inspirador do pan-americanismo. O que acontecera depois no passara de aperfeioa-mento da sua primitiva ideia. Tudo que existiria at 1958 estava direta ou indiretmente vinculado filosofia poltica pregada pelo Libertador. Infelizmente, essas ideias, conquanto generosas e dignas de meditao, viviam no limbo, sem possibilidade de qualquer execuo prtica. O grande passo a ser dado era justamente este: tirar o pan-americanismo do terreno terico, ajust-lo s exigncias dos problemas que requeriam soluo, tornando-o, em consequncia, prtico e exequvel. Esta foi a ideia que tive em mente,' ao escrever ao Presidente Eisenhower.

    A primeira conferncia do Sr. Roy Rubottom comigo teve a durao de duas horas. Antes que tivessem incio as conversaes, to-mei conhecimento da seguinte carta de Eisenhower, de que ele havia sido portador.

    "Em 5 de junho de 1958 "Caro Senhor Presidente: "Hoje de manh, seu embaixador entregou-me a carta escrita

    por Vossa Excelncia na data de 28 de maio. Achei-a de extremo inte-resse. Na minha opinio, Vossa Excelncia caracterizou, de maneira exata, tanto a situao atual como a convenincia de medidas corretivas. Estou, por isso mesmo, encantado de que Vossa Excelncia haja toma-do a iniciativa nesse assunto.

    "Como Vossa Excelncia no adiantou um programa espe-cfico para fortalecer a compreenso pan-americana, parece-me que nossos dois Governos devam entrar em entendimentos, no mais breve prazo

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    possvel, no tocante s consultas a serem dirigidas aos demais membros da comunidade pan-americana e a adoo imediata de medidas que de-terminem, por intermdio de todo o continente, uma reafirmao do devotamento ao pan-americanismo e um melhor planejamento na pro-moo dos interesses comuns e do bem-estar de nossos diferentes pa-ses. Existe uma vasta gama de assuntos a serem discutidos e analisados, inclusive, por exemplo, o problema de uma execuo mais completa da Declarao de Solidariedade da Dcima Conferncia Interamericana, re-al2ada em Caracas em 1954.

    "Considero este assunto to importante que estou dando ins-trues ao Senhor Roy Richard Rubottom Jr., secretrio de Estado Adjunto para Assuntos Americanos, para entregarrlhe pessoalmente mi-nha carta no Rio de Janeiro e, em conversa com Vossa Excelncia, me-lhor colher o seu pensamento sobre esses problemas. Suas ideias e pen-samentos, assim registrados em primeira mo, podero ser objeto de nossos entendimentos, por meio das vias diplomticas ordinrias, antes da futura visita do secretrio de Estado ao Brasil. Caso Vossa Exceln-cia esteja de acordo, o Senhor Rubottom acertar com o seu Governo a poca mais propcia para a viagem do Secretrio Dulles.

    "Com a segurana de minha mais alta considerao e com os melhores votos pela felicidade pessoal de Vossa Excelncia e pelo bem-estar do povo brasileiro, sou, de Vossa Excelncia.

    Sinceramente, (a) Dwight Eisenhoiver."

    A carta no deixou de me surpreender, Eisenhower, alm de haver enviado o secretrio do Estado Adjunto para conversar comigo, anunciava que essa visita era apenas uma preparao de terreno para en-tendimentos de muito maior importncia a serem realizados com o prprio titular da Secretaria de Estado, Foster Dulles. Tudo indicava que Eisenho-wer estava realmente disposto a reformular o pan-americanismo, dando-lhe a feio prtica capaz de convert-lo num largo programa de ajuda continental. Entretanto, apesar da boa vontade do presidente, percebi que inmeras dificuldades teriam de ser vencidas. E tudo era devido

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    interpretao que os tcnicos do Departamento de Estado davam aos acontecimentos na Amrica Latina. Rubottom espelhava, com perfei-o, a mentalidade que vigorava naquele Departamento.

    Aps ler a carta de Eisenhower, fiz uma exposio, to objeti-va quanto me permitiam as circunstncias j que a conversa fora a dois e no dispunha da assessoria de tcnicos , sobre o que ocorria na Amrica Latina. Revelei-lhe a insatisfao generalizada, da qual os desa-catos ao Vice-Presidente Nixon constituam exemplos expressivos. Che-gara a hora de os Estados Unidos pensarem um pouco na Amrica Lati-na e estudarem uma frmula de fazer frente aos seus problemas. Esses problemas eram simples e caractersticos dos povos subdesenvolvidos: pobreza, doena, analfabetismo, escassez de recursos para explorao de suas riquezas e, sobretudo, falta de oportunidade de trabalho para a grande maioria da populao.

    Rubottom discordava inteiramente do meu ponto de vista. Para ele, os problemas da Amrica Latina eram de natureza puramente policial. As massas eram exploradas pelos comunistas e esses promoviam os distr-bios. O que acontecera a Nixon constitua exemplo frisante. Os povos da-quelas duas capitais no haviam participado das manifestaes, promovidas exclusivamente pelos comunistas.

    Em resposta, procurei fazer-lhe ver que a generalizao era perigosa. De fato, os comunistas haviam liderado as manifestaes; mas, se o povo da Venezuela e do Peru estivesse satisfeito com os Estados Unidos, o apelo dos comunistas teria cado no vazio. O que se vira fora justamente o contrrio: uma enorme massa popular deixar-se levar por uma reduzida minoria comunista. E por que isto acontecera? Justamen-te porque o apelo dessa minoria encontrara as massas psicologicamente indispostas em relao aos Estados Unidos. O mal no estava no comu-nismo, que era incipiente no hemisfrio, e sim na deteriorao social, que se tornara tpica em todas as naes latino-americanas. O que era necessrio fazer-se, declarei com veemncia, seria promover-se a apro-ximao dos Estados Unidos com a Amrica Latina, por meio da execuo de um programa de desenvolvimento econmico multilateral, a longo prazo. Sugeri, ento, que esse movimento tivesse a designao de Operao Pan-Americana, de forma a refletir o carter global de suas implicaes, envolvendo todos os povos do hemisfrio ocidental.

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    O Sr. Rubottom regressou aos Estados Unidos e, apesar da divergncia dos nossos pontos de vista, levara ao Presidente Eisenho-wer a smula do meu pensamento poltico. A ideia fora lanada, com o plantio de uma semente em terreno que julgava sfaro. Eu confiava, po-rm, no interesse do Presidente dos Estados Unidos. Assim, enquanto aguardava o desenvolvimento dos acontecimentos, decidi mobilizar a opinio pblica do Brasil e as chancelarias de todas as naes do conti-nente para transformar em realidade, por meio de um esforo coletivo, aquele nascente movimento.

    No dia 20 de junho, dei incio pregao pan-americanista, por intermdio de uma cadeia de rdio e televiso, fazendo um pronun-ciamento sobre assuntos da nossa poltica externa, esclarecendo o que era, efetivamente, a Operao Pan-Americana. Estavam presentes no Catete todos os ministros de Estado, o vice-presidente da Repblica e todos os chefes das misses diplomticas dos pases da Amrica Latina. "J no nos possvel continuarmos em atitude prxima ao alheamen-to" - declarei - "mais como assistente do que participantes no desenro-lar de um drama em cujas consequncias estaremos envolvidos, como se nele tivssemos atuado de forma ativa. O no compartilharmos, seno simbolicamente, da direo de uma poltica, o no sermos muitas vezes ouvidos nem consultados - mas ao mesmo tempo estarmos sujeitos aos riscos dela decorrentes - , tudo isso j no conveniente ao Brasil."

    Nessa frase, procurava situar, de maneira franca e objetiva, a posio de nosso Pas em face do que vinha ocorrendo na Amrica. Chegara a hora de reivindicar o lugar que nos competia na responsabili-dade pela conduo e soluo dos nossos prprios problemas. Existiam condies de natureza interna que nos impunham aquela atitude. "Ape-sar das dificuldades de carter econmico ligadas ao nosso processo de crescimento" - afirmei - , "j atingiu este pas um grau, no plano espiri-tual e material, que foroso reconhecer-se-lhe no apenas o direito, mas a obrigao de fazer-se ouvido. No pode ele continuar aceitando passivamente as orientaes e os passos de uma poltica com a qual no cabvel esteja apenas solidrio de modo quase automtico, solidrio por hbito ou simples consequncia de posio geogrfica. Reclamamos o direito de opinar e colaborar efetivamente o que um imperativo de

  • Por que constru Braslia 199

    Nao que se sabe adulta e deseja assumir a plenitude de suas responsa-bilidades numa poltica que a sua prpria."

    Eu procurava falar, no em tom de quem pedia, mas com a firmeza de quem expunha , reclamava. E no mesmo tom, continuei: "Verifico que no Brasil e creio que nos demais pases do continente -amadureceu a conscincia de que no convm formarmos um mero conjunto coral, uma retaguarda incaracterstic, um simples fundo de quadro. Este tipo de representao no drama do mundo no interessa a ningum, menos grande democracia norte-americana. Uma participa-o dinmica nos problemas de mbito mundial - este pelo menos o pensamento do meu governo -*- deve ser precedida de uma rigorosa an-lise da poltica continental. Foi.este o exato sentido de minha interven-o junto ao Presidente Eisenhower."

    Expliquei, ento, o que era a Operao Pan-Americana: "O Brasil deseja apenas colaborar, na medida de suas foras, para um enten-dimento geral e efetivo entre os pases irmos do continente. Nada plei-teia para si, isoladamente, nem haver, nas gestes especficas da Opera-o iniciada, cabimento para conversaes bilaterais. No h, nesta co-munidade de naes livres, pretenso a liderana que logre resultados fecundos e duradouros."

    Revelando que no medravam na Amrica "competies de prestgio", esclareci: "Sei bem - e no necessito de nenhum novo ele-mento de convico que a fora e, mesmo, a possibilidade de xito de uma empresa to grande como esta, que pretende a reviso de toda uma poltica, se concentram na energia pertinaz e no desprendimento dos egosmos. A indagao, amiga e oportuna, que dirigi ao Presidente Eise-nhower foi um grito de alerta contra a guerra-fria que j comea a apre-sentar seus primeiros sintomas em nosso continente: que fizemos, de real, pela causa do pan-americanismo?"

    Indicando a chaga do subdesenvolvimento, que enfraquecia a cadeia de defesa do Ocidente, apontei o caminho a seguir: "Para atingir-mos esse alto objetivo, poderamos valer-nos de corretivos h muito preconizados, mas cuja aplicao plena no deve ser mais retardada. Assim, deveria ser intensificado o investimento pioneiro em reas eco-nomicamente atrasadas do continente, a fim de contrabalanar a carn-cia de recursos financeiros internos e a escassez do capital privado. Si-

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    multaneamente, para melhorar a produtividade e, por conseguinte, a rentabilidade desse investimento, desdobrar-se-iam os programas de as-sistncia tcnica. De igual significao e de grande urgncia seria a ado-o de medidas capazes de proteger o preo dos produtos de base das excessivas e danosas flutuaes que o caracterizam. Finalmente, deve-ramos atualizar os organismos financeiros internacionais, mediante am-pliao de seus recursos e liberalizao de seus estatutos, com o objetivo de facultar-lhes maior amplitude de ao. Esses assuntos; e outros que merecem ser propostos, deveriam encontrar seu foro prprio em reu-nio do mais alto nvel poltico do continente, na qual, ao contrrio do que tem acontecido, fossem dadas solues prticas, eficazes e positivas. A luta contra o subdesenvolvimento, sem excluir a justia e a lei moral, que condenam como impiedosa a coexistncia da misria e do excesso de riquezas, representa investimento a longo prazo, de rentabilidade se-gura, para a defesa das Amricas. Consentir que se alastre o empobreci-mento neste hemisfrio enfraquecer a causa ocidental. No recuperar, para um nvel de vida compatvel com os foros da dignidade humana, criaturas que englobamos na denominao de povos irmos, semear males em terreno propcio para as mais perigosas germinaes."

    Este discurso condensava mais ou menos o que eu havia con-versado com Roy Rubottom, durante sua estada no Rio. O que tinha em mente era apenas isto: tirar a Amrica Latina da retaguarda incaracters-tica a que me referia, procurando incentivar o progresso de todas as suas naes e, por meio desse desenvolvimento, despertar-lhe a cons-cincia poltica.

    Minha advertncia, alm da repercusso que obteve nos Esta-dos Unidos, sensibilizou, igualmente, os governos latino-americanos. Logo que foi conhecida minha mensagem ao Presidente Eisenhower, Arturo Frondizi, pela Argentina, o General Stroessner, pelo Paraguai, e Manuel Prado, pelo Peru, manifestaram sua solidariedade Operao Pan-Americana. Reforando essas iniciais demonstraes de apoio, os chefes das misses diplomticas latino-americanas, credenciados junto ao governo brasileiro, homenagearam-me com um grande almoo, que se realizou no Copacabana Palace Hotel, saudando-me na ocasio, em nome de seus colegas, o Embaixador Juan Manuel Alvarez dei Castillo, representante do Mxico.

  • Por que constru Braslia 201

    No plano interno, foram numerosas as manifestaes de aplauso iniciativa, quer nos crculos polticos, quer no seio das classes conservadoras, e, na avalancha de cartas que recebi felicitando-me pela ideia, recordo-me de duas que muito me sensibilizaram: uma do Mare-chal Mascarenhas de Moraes, ex-comandante da FEB e tradicionalmen-te avesso a incurses fora da rea estritamente militar, e outra, do ex-Chanceler Osvaldo Aranha, brasileiro que exerceu a presidncia da Assembleia Geral das Naes Unidas em 1947, nestes termos:

    "Meu caro presidente: com a emoo de um velho servidor do pan-americanismo que venho juntar os meus aplausos aos dos que ti-veram a honra pessoal de ouvir sua notvel exposio sobre as bases de uma reviso poltica continental, sugerida e, agora, exposta, em nome do Brasil, como necessria e j inadivel vida americana e sobrevivncia ocidental. A sua iniciativa e, agora, a sua orao marcam a retomada de posio continental e mundial que cabia ao Brasil. Nada pode aspirar mais o chefe de uma Nao do que interpretar e expressar o seu senti-mento e o pensamento, no somente de seu povo como dos demais po-vos irmos. Receba pela sua palavra e pela sua atitude, as felicitaes do amigo e os aplausos do cidado. Muito seu,

    (a) Osvaldo Aranha."

    VISITA DE FOSTER DULLES

    Junho de 1958 foi um ms de grande movimentao nos cr-culos governamentais. Em face das exigncias da lei eleitoral, diversos ministros deixaram seus cargos, desincompatibilizando-se, a fim de con-correr s eleies de outubro.

    Dado o interesse que tinha na formulao da Operao Pan-Americana, julguei que deveria nomear para o cargo de ministro do Exterior um homem com quem tivesse liberdade, de forma a evitar a possibilidade de qualquer atrito, j que, em face do lanamento daquele movimento, iria intervir, com a maior frequncia, na rea das atribuies daquela secretaria de Estado. Minha escolha recaiu em Francisco Ne-gro de Lima, mineiro, ex-chefe da minha campanha eleitoral e que

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    exercia, na poca, o cargo de prefeito do Distrito Federal, ainda a Cida-de do Rio de Janeiro.

    Enquanto aguardava a chegada do secretrio de Estado, Fos-ter Dulles, prossegui.na campanha de explicar aos brasileiros o que sig-nificava, em termos de poltica externa, a Operao Pan-Americana.

    Uma das. caractersticas do meu estilo de governo sempre foi a de fazer sancionar, pelo sentimento popular, minhas iniciativas polti-cas. Lanava uma ideia, mas, antes de execut-la, saa pregando-a pelo pas afora, at que toda a populao a compreendesse e a aprovasse. Assim fiz com o Programa de Metas, com a Poltica de Desenvolvimen-to, com o Movimento de Pacificao Nacional e, finalmente, estava re-petindo a tcnica no lanamento da Operao Pan-Americana.

    No dia 4 de agosto, chegou ao Rio o Sr. Foster Dulles. Ao desembarcar, fez uma declarao imprensa, dando a entender a razo da sua visita: discutir comigo a sugesto contida na minha carta de 28 de maio, dirigida ao chefe do governo de Washington.

    No dia seguinte pela manh, depois de haver estado no Ita-marati, em visita ao seu colega brasileiro, seguiu diretamente para o La-ranjeiras a fim de se avistar comigo. Nessa ocasio, entregou-me outra carta do Presidente Eisenhower na qual, entre outros itens de natureza poltica, declarava: "Solicitei ao Secretrio Dulles que lhe assegurasse meu constante interesse pelas suas recentes propostas construtivas, no sentido de buscar, justamente com as outras Repblicas americanas, meios de fortalecer e unificar ainda mais a comunidade do hemisfrio ocidental."

    Eisenhower teye ainda a gentileza de se referir a Braslia, que denominou "um atestado eloquente do vigor e da imaginao do povo brasileiro, agora no limiar de uma conquista maior do vasto interior de seu abenoado pas", e anunciava que o Sr. Foster Dulles tinha a inten-o de visitar a capital, em construo.

    Foster Dulles permaneceu no Rio trs dias. Nesse perodo, sucessivas reunies foram realizadas no Itamarati, das quais participa-ram o Chanceler Negro de Lima, Roberto Campos, Lucas Lopes e Se-bastio Pais de Almeida. Os entendimentos foram morosos, difceis e desencorajadores. Havia uma ntida linha divisria entre o que pretendia o Brasil e a doutrina exposta pelos Estados Unidos. Foster Dulles,

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    como j o havia feito Roy Rubottom, apegava-se questo do comunis-mo. Este era o item principal, o grande problema prioritrio. Desejava promover a assinatura de um convnio, visando extirpao dos focos de fermentao ideolgica na Amrica Latina. Expliquei-lhe, em respos-ta, que os focos existem e que tenderiam a se ampliar se no combats-semos, imediatamente, a verdadeira causa da agitao no continente, que era o subdesenvolvimento.

    Em face das divergncias, as conversaes se arrastaram, mas, mesmo assim, foram discutidos os seguintes e importantes assuntos: maior participao da Amrica Latina no encaminhamento da soluo dos proble-mas internacionais; valorizao econmica dos pases ltino-americanos como ponto fundamental na defesa do Ocidente; processamento da Ope-rao Pan-Americana, tendo em vista o fortalecimento da unidade conti-nental; e alguns aspectos das relaes BrasilEstados Unidos.

    Foster Dulles mostrav-se um argumentador tenaz, intransi-gente, quase incapaz de um entendimento. Plantara-se ns seus pontos de vista, e dali no se deixara sair. Depois de trs dias de discusso com os diplomatas do Itamarati, chegara a hora de se redigir a nota conjunta. Dulles, no havendo obtido xito em impor seus pontos de vista por ocasio da elaborao desse documento, resolvera decidir o assunto co-migo pessoalmente. Solicitara que lhe marcasse uma audincia se poss-vel bem cedo, e esta fora combinada para as oito horas da manh.

    Nosso encontro representou uma repetio do que ocorrera no Itamarati. Em face das divergncias, resolvemos redigir dois textos separadamente e, depois, os confrontamos, procurando ajustar um ao outro, por meio da eliminao dos pontos sobre'os quais no era poss-vel qualquer acordo.

    Concluda a nota, Foster Dulles levantara a questo das assinatu-ras. Desejava que eu assinasse com ele o documento, o que recusei pronta-mente. Aceder a essa solicitao seria renunciar s minhas prerrogativas de chefe da Nao, equiparando-me a um ministro de Estado. A nota seria assinada por ele, como titular do Departamento de Estado, e por Negro de Lima, como ministro das Relaes Exteriores. Esse trabalho durou das oito da manh at o meio-dia, quando ele pediu licena para se retirar.

    Nessa mesma tarde seguimos para Braslia. Quando chega-mos nova capital, tomamos um helicptero e sobrevoamos toda a rea

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    panhia do ilustre visitante, assentaram-se as primeiras colunas de estru-turas metlicas do futuro edifcio do Ministrio das Relaes Exteriores, situado na Praa dos Trs Poderes.

    Realizou-se igualmente nesse dia a cerimnia da entrega ao governo norte-americano do terreno - reservado pela Novacap - onde seria construda a Embaixada dos Estados Unidos. Uma placa foi afixa-da no local.

    . A respeito desse terreno, vale a pena recordar um episdio. Quando da escolha dos lotes para as embaixadas, a Novacap reservou o nmero 1 para os Estados Unidos, que pediram uma exceo: deseja-vam que o seu terreno fosse maior do que o dos outros pases. Para evi-tar cimes ou discriminao, ficou resolvido que nem os Estados Uni-dos teriam um lote maior nem deveriam ter o nmero 1. A Novacap achou por bem estabelecer o seguinte critrio: o lote n2 1. pertenceria Santa S, por ser nosso pas essencialmente catlico; o lote n2 2 seria destinado a Portugal, nosso descobridor; e o de n2 3 caberia, ento aos Estados Unidos. As demais embaixadas tiveram os nmeros que lhes couberam na proporo em que procuraram a Novacap, tendo em vista a legalizao da respectiva doao. Algumas desejavam saber as que seriam suas vizinhas e, nesse sentido, vrias alteraes foram feitas na distribuio dos terrenos.

    Aps a partida do Secretrio Foster Dulles, promovi mais uma das frequentes sabatinas a que submetia os construtores da Nova Capital. Estiveram presentes reunio, que se realizou no Palcio da Alvorada, Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer, ris Meinberg e diretores dos diversos departamentos da Novacap. Nesse encontro, que foi o pri-meiro do gnero realizado no novo palcio, foram acertadas diversas providncias, de ordem tcnica e administrativa, com o objetivo de asse-gurar-se que todas as obras no ultrapassariam os prazos previstos. Nes-sa reunio, autorizei Novacap promover estudos para a construo e a instalao de uma rede de telecomunicaes entre Braslia e as cidades de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e So Paulo. As instalaes, uma vez em funcionamento, seriam incorporadas ao patrimnio do Departamen-to Federal dos Correios e Telgrafos.

    No dia 31 de agosto, estava eu de novo em Braslia, desta vez para inaugurar o ncleo residencial de 500 casas, construdo pela Funda-

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    o da Casa Popular em apenas um ano. Este seria seguido pela constru-o de outro, tambm integrado por 500 unidades, as quais, como as pri-meiras, teriam trs quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda, rea de servi-o e pequeno quintal. Na ocasio, pronunciei as seguintes palavras: "Digo e repito: para se trabalhar em Braslia preciso pr de lado o esprito bu-rocrtico, deixando que prevalea o esprito pioneiro. Os homens que lu-tam aqui tm que vir animados da mentalidade bandeirante."

    Logo no incio de setembro, enviei o subchefe do meu Gabi-nete Militar, o Coronel-Aviador Lino Teixeira, para inspecionar, como meu observador pessoal, as obras da rodovia Belm-Braslia. Ao retor-nar, deu-me conta do que constatara. As obras estavam sendo atacadas em diversos pontos simultaneamente. Cerca de mil quilmetros j ti-nham sido entregues ao trfego, devidamente recobertos de cascalho e com as obras de arte indispensveis segurana dos caminhes em qualquer poca do ano.

    Por toda parte onde passava a rodovia, iam surgindo povoa-dos, cujos habitantes se dedicavam lavoura e ao comrcio. Um exem-plo desse surto de progresso poderia ser verificado na localidade deno-minada Gurupi, a setecentos quilmetros de Braslia, e que j contava com uma populao de 8.000 almas, produzindo, naquele ano, 60.000 sacas de arroz. Alm de Gurupi, existia em formao outro grupo popu-lacional, denominado Cercadinho, que era o acampamento do Engenheiro Jorge Yunes, a quem estava entregue a tarefa de desbravamento mar-gem do Tocantins. Entrando no Maranho, as obras se desenvolviam, igualmente, em vrias frentes. A primeira, de 100 quilmetros, entre Porto Franco e Imperatriz para o norte, entrando ha hilia amaznica pela serra Gurupi e as cabeceiras do rio do mesmo nome, havia sido confiada a engenheiro Carlos Teles. Essa era a frente de trabalho mais rude e difcil, pois tinha de vencer agressividade da selva amaznica. Mesmo assim, os trabalhadores j tinham avanado cerca de 70 quil-metros atravs da floresta e, na ponta da trilha, estava sendo ultimada a construo de um campo de pouso, pois a aviao se revelara indispen-svel na execuo do empreendimento.

    Na regio, batizada com o nome de Aailndia, haviam sido encontrados vestgios de trs tribos de ndios. Para evitar incidentes en-tre brancos e silvcolas, dois ndios gavies acompanhavam a turma de

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    penetrao, sob a fiscalizao de um representante do Servio de Prote-o aos ndios. Os trabalhadores dessas linhas avanadas eram abasteci-dos por meio de pra-quedas, lanados de avies.

    No outro lado da hilia, caminhando de Belm na direo de Imperatriz, havia outra frente de trabalho a cargo do engenheiro Rui de Almeida. As duas cidades distam, uma da outra, cerca de 500 quilme-tros. No rio Guam seria construda outra grande obra-de-arte - uma ponte de cerca de 400 metros de extenso. Essa ponte e outra sobre o Tocantins eram as duas maiores obras previstas, ignorando-se ainda se haveria necessidade de outras mais na floresta at ento virgem, numa reta de 300 quilmetros entre os pontos avanados das frentes de traba-lho no Guam e a de Imperatriz.

    Disse-me o Coronel Lino Teixeira que, segundo ouvira dos responsveis pela construo da rodovia, as duas turmas pioneiras a que vinha do Norte e a que seguia do Sul em maro de 1959 deveriam se encontrar, atravessando, de lado a lado, e pela primeira vez na Hist-ria, a selva amaznica.

    Assim, o Brasil ia sendo rasgado pelo meio ligando-se, pelo interior, ao Norte at ento quase inacessvel. A base dessa obra de des-bravamento era naturalmente Braslia. Em outubro, o Governo passara a estudar o problema da transferncia dos funcionrios federais para a Nova Capital. "Mas como?" - poder-se-ia perguntar, levando em conta que as obras de construo da cidade haviam tido incio, efetivamente, em maro de 1957 um ano e meio antes, portanto. A razo: j existiam condies de habitabilidade no Planalto Central.

    Naquela poca - outubro de 1958 - estavam em construo 143 blocos de seis andares, num total aproximado de 6 mil apartamen-tos. A rea desses apartamentos variava de 90 a 200 metros quadrados, havendo os de 2, 3 e 4 quartos. A construo desses blocos estava sob a responsabilidade dos diferentes Institutos de Previdncia Social. A Fun-dao da Casa Popular havia terminado 500 casas de 80 metros quadra-dos e ia iniciar a construo de, pelo menos, 2 mil pequenos apartamen-tos, que deveriam ficar concludos at 1960. A Caixa Econmica estava construindo 222 casas duplex, com 109 metros quadrados cada uma. Firmas particulares erguiam mais de 100 residncias de diversos tipos, para aluguel e venda, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ-

  • Porque construi'Braslia 209

    mico acabava de adquirir 80 lotes para neles edificar residncias para funcionrios.

    O Grupo de Trabalho", criado por mim para estudar a transfe-rncia do funcionalismo pblico, iniciara suas tarefas, estabelecendo que a mudana se faria por etapas, a fim de evitar atropelos. No primeiro es-calo, alm dos deputados e senadores, seriam transferidos 5.301 servi-dores pblicos, compreendidos os dos ministrios, da Presidncia da Repblica, do Supremo Tribunal Federal, Supremo Tribunal Militar, Su-perior Tribunal do Trabalho, Tribunal de Contas, DASP e os da Cmara dos Deputados e do Senado.

    PLANO MDICO-HOSPITALAR

    Simultaneamente com as construes de edifcios, para abri-gar a populao da cidade, cuidava-se de organizar os servios assisten-ciais, preferencialmente os de sade e de abastecimento. Em fins de ou-tubro, determinei ao Ministrio da Sade que atacasse imediatamente as obras do primeiro hospital definitivo de Braslia pois j existia um provisrio, o do Instituto de Previdncia dos Industririos, todo de t-bua - que teria capacidade de 260 leitos e seria de mbito distrital, de-vendo integrar, mais tarde, a rede hospitalar da Nova Capital. Essa primeira unidade havia sido planejada para atender a uma populao cal-culada em 40.000 pessoas.

    Alis, preocupado com o problema da sade em Braslia, pro-videnciei, em fins de 1956, para que o Departamento Nacional de Endemias, Rurais ali se instalasse, passando a prestar servios na profila-xia da verminose, do tifo, das endemias. Pouco depois, era criado o Hospital do Instituto de Previdncia dos Industririos e que desempe-nhou, com admirvel eficincia, sua funo.

    No incio de 1957, j estava em funcionamento o Departamento Mdico da Novacap. Nessa ocasio, foi elaborado pelo Departamento Nacional de Endemias Rurais um programa de ao, a ser executado imediatamente, e que tinha por finalidade fazer o levantamento epide-miolgico das endemias rurais na rea do Distrito Federal. Esse levan-tamento foi estendido populao pioneira, de forma a se conhecer

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    o grau de prevalncia de algumas enfermidades. Pouco depois, a Nova-cap iniciou a vacinao de toda a populao e instituiu a obrigatoriedade da Carteira de Sade. Ningum poderia ser admitido em qualquer em-presa sem sua carteira, aps ter-se vacinado contra a varola, o tifo e a febre amarela. As crianas eram vacinadas, tambm, contra a difteria, o ttano e a coqueluche e, a partir de 1958, passou a ser de rotina a vacina Sabin.

    Em 1958, teve incio, ento, a elaborao do Plano Mdi-co-Hospitalar a ser executado em Braslia. O Ministro da Sade, profes-sor Maurcio de Medeiros, designou um tcnico, o Dr. Henrique Bandeira de Melo, para, em colaborao com a Novacap, encarregar-se dessa tarefa. Em quatro meses, o trabalho ficou concludo.

    Tratava-se de uma obra diferente de qualquer sistema em vigor no campo da tcnica de assistncia mdica. O princpio bsico, que lhe norteou o planejamento, foi o de dispensar ampla e eficiente assistncia a grupos populacionais que, pelo nmero, no viessem a exigir constru-es de grande porte, difceis de administrar e. manter em regime de funcionamento. econmico. Assim, foram criadas zonas distritais de 45.000 a 50.000 habitantes, dotando-se cada uma de seu hospital pr-prio, denominado Hospital Distrital, para servir a uma populao de 4 unidades de vizinhana.

    O Hospital Distrital objetivava dispensar assistncia de rotina mdica, cirrgica e obsttrica, alm de incorporar atividades de socorros de emergncia, servio de ambulatrio e medicina preventiva, esta lti-ma por intermdio da incorporao ao hospital da Unidade de Sade tipo de unidade hospitalar tambm dotada de instalaes para assistir aos doentes de neuropsiquiatria, julgados de possvel recuperao a curto prazo. '

    A assistncia mdica seria oferecida, pois, segundo a seguinte escala: um Hospital de Base; Hospitais Distritais; Hospitais Rurais - um em cada cidade-stlite; unidades-satlites uma em cada pequeno gru-po populacional; e Colnia Hospitalar. O Hospital de Base era o ncleo central do sistema, pois, nele, estariam concentradas todas as especiali-dades e equipamentos de alta preciso, facilitando, pela concentrao de especialistas e respectivos meios, uma assistncia de alto padro e efi-

  • Por que constru Braslia 211

    cincia, envolvendo os campos da cirurgia torcica, cirurgia cardiovascu-lar, cirurgia plstica, neurocirurgia, cancerologia, centro de prematuros.

    O desenvolvimento do plano seria fcil atravs de programas peridicos, pois que a construo das diversas unidades se faria pro-poro que os grupos populacionais fossem se constituindo e na razo direta da densidade. Em outubro de 1958, determinei que fossem ataca-das imediatamente as obras do primeiro Hospital Distrital, na superqua-dra 101 do Plano Piloto.

    Enquanto prosseguiam as obras de Braslia, recrudescia, no Rio, a campanha da imprensa e da oposio contra a transferncia da Capital. As razes apresentadas eram diversas: inexequibilidade da iniciati-va; exausto do Tesouro Nacional; e o esvaziamento do Rio, que perderia sua importncia poltica, passando a ser uma cidade de turismo. Alguns jornalistas chegaram a transformar a tese da mudana num verdadeiro caso pessoal. Um deles enumerara, entre as razes que o levavam a com-bater a ideia, a de que "no gostava da cara de Israel Pinheiro..."

    Apesar dessas reaes, no recuei no propsito de eftivar, ainda no meu governo, a interiorizao da Capital. Com a inaugurao das primeiras edificaes, radicalizaram-se as opinies. Travou-se, pois, uma grande batalha, desdobrada em dois campos de luta. Um, situado no Planalto, onde a natureza teria de ser vencida; e outro, no cenrio poltico, com o embate das foras conflitantes. A Unio Democrtica Nacional o mais forte partido que combatia o meu governo depois de aprovar a lei, estabelecendo a transferncia, j se mostrava arrependi-da dessa atitude. Percebera que Braslia seria, de fato, construda e que, ao contrrio de vir a ser a "minha sepultura poltica", seria um instru-mento de projeo para o meu nome. Em face disso, voltara atrs na sua atitude, inscrevendo-se tambm entre os que criticavam, com viru-lncia, a denominada "obra faranica".

    Em face das divergncias, que se acentuavam medida que as obras iam aparecendo, recrudesceram, no Pas, por outro lado, as mani-festaes de apoio construo de Braslia. Trataya-se, sem dvida, de um fenmeno psicolgico, vinculado ao despertar da conscincia nacio-nal. O povo, ao qual nunca havia sido proporcionada uma participao em qualquer das opes nacionais, sentira-se, de sbito, responsvel por aquela. Braslia deixara de ser um empreendimento do Governo, para se

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    converter numa cruzada nacional. E essa massa humana, fragmentada em diferenciadas caractersticas sociais, fundiu-se, por fim, dando ori-gem a um novo espcime o candango.

    Essa expresso havia sido aplicada, a princpio, ao grupo ini-cial de trabalhadores que, indiferentes a qualquer preocupao de con-forto e bem-estar, foram contratados pela Novacap. A designao tinha um sentido pejorativo, significando um homem sem qualidade, analfa-beto, enfim, um pria da sociedade. O vocbulo havia vindo da frica, por ser com ele que os nativos daquele continente indicavam os portu-gueses. Tratava-se de uma corruptela de canelando, palavra do quimbun-do, lngua banto de Angola. Em Braslia, j que esses migrantes procediam, em sua maioria, do Norte e do Nordeste, passaram a ter, pouco depois, uma designao que correspondia a pau-de-arara. Por fim, a palavra per-deu seu sentido ofensivo e se transformou em significado de bande-irante moderno, dotado de esprito de luta, tenaz, resistente, enfim, do homem pioneiro de Braslia.

    Em fins de 1958, ia adiantada a obra de integrao nacional, tendo Braslia por base. O grande cruzeiro rodovirio, que ligaria os quatro pontos cardeais do territrio nacional, j se tornava visvel no mapa do Brasil. A estrada Braslia-Belo Horizonte estava quase conclu-da, com setecentos quilmetros de pista asfaltada, cortando de norte a sul o cerrado do Brasil Central. No dia 14 de novembro, inaugurei a li-gao rodoviria BrasliaSantos, outra audaciosa ponta da lana no rumo da integrao. Essa ligao abriria aos brasileiros a imensa faixa de territrio situada entre os vales dos rios Grande e Paranaba. A rodovia daria apoio a Braslia, completando a ligao da Nova Capital com o porto de Santos, numa extenso de 1.175 quilmetros, e constitua, igualmente, trecho importante da denominada TransbrasiUana, que se completaria com a ligao Belm-Braslia em plena execuo.

    A nova estrada, alm da sua integrao no j famoso cruzeiro, constituindo seu brao oriental, iria desempenhar importante misso de semeadora de progresso, j que tinha elevado sentido econmico. Daria acesso a uma das mais promissoras regies brasileiras, representada pelo Tringulo Mineiro, sul e sudoeste de Gois e vasta zona tributria de Mato Grosso, onde se localizam terras muito frteis para a lavoura le-

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    vando-se em conta o j impressionante volume de sua safra de cereais, sobretudo arroz, milho e feijo.

    O percurso total da Santos-Braslia - 1.175 quilmetros -equivalia a dois teros da ligao rodoviria Rio-Porto Alegre, ou trs quartos da distncia do Rio a Salvador. Ela se desenvolvia numa orien-tao estratgica, passando por trs de Braslia, que era, assim, contorna-da, e seguindo at Goinia, para dali, retornando no rumo norte, alcan-ar Anpolis.

    Alm disso, prosseguia, em ritmo acelerado, o asfaltamento da RioBahia, outra estrada-tronco, destinada, igualmente, a costurar o Brasil por dentro, ligando o Rio a Salvador e beneficiando largos tre-chos da Zona da Mata mineira, rea de lavouras de caf e de acar. E, por fim, havia a BelmBraslia.

    No dia 9 de outubro, fiz uma visita de inspeo a essa rodovia, acompanhado de vrios embaixadores estrangeiros. Por diversas vezes ha-via sobrevoado o traado, vendo das nuvens a risca vermelha que se ia es-tendendo atravs do at ento indevassado corao do Brasil. Naquele dia, porm, fiz a primeira inspeo direta das obras, em contato com os enge-nheiros e com os prprios furadores de mato, os hericos cossacos. Para isso, eu havia determinado que diversos campos de pouso fossem abertos em plena floresta. Realizei a viagem num avio Douglas da FAB.

    Ao aterrissar no primeiro campo de pouso, segui, em compa-nhia dos embaixadores do Equador, da Alemanha, da Gr-Bretanha e da Tchecoslovquia, em caminhonetes de fabricao nacional, at a ponta da estrada, no local onde se efetuavam os servios de desmata-mento. Ali, em plena floresta, tivemos a oportunidade de assistir der-rubada de rvores gigantescas, por meio de tratores, para a abertura das picadas, atravs das quais penetrariam, em seguida, as outras mquinas de terraplenagem.

    O segundo campo de pouso ainda no dava acesso por terra. Situado a cerca de 250 quilmetros de Belm, fora aberto por uma tur-ma de cossacos que penetrara na selva, abrindo picadas, pelas quais s se podia caminhar em fila indiana. Feita a clareira inicial, o campo j permitia a descida de pequenos aparelhos. O nosso Douglas sobrevoou aquele campo e prosseguiu viagem para o sul numa extenso de outros 250 quilmetros.

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    Em Imperatriz, fui encontrar Bernardo Sayo, na direo ge-ral dos trabalhos naquela frente. Antes mesmo que o avio pousasse, pude v-lo - a figura de gigante, destacando-se no meio da multido que se aglomerava ao lado da pista. Percebi que estava comovido. Seu antigo sonho estava sendo concretizado: naquele momento, ele recebia, no prprio local do seu trabalho de desbravador, a visita do Presidente da Repblica. Abraou-me, emocionado. Quando lhe perguntei como ia, recomps-se num minuto, retomando seu natural de homem afeito luta contra a Natureza. "A Ligao no demora, Presidente" - respon-deu com determinao.

    Atravs daquela viagem, pude constatar, de visu, o acordar para a civilizao de toda a imensa regio. A proporo que a rodovia avanava, iam surgindo, nas suas margens, povoaes, ncleos huma-nos, arremedos de vilas, que logo se transformariam em localidades flo-rescentes. Os dois Brasis finalmente se encontravam - o civilizado e o selvagem - e se fundiam, sem que a fuso importasse em derramamento de sangue, como acontecera nos Estados Unidos. Ao invs de armas, os conquistadores do vale amaznico levavam tratores e sementes. Os tra-tores derrubavam as rvores gigantescas e, nas clareiras, ia-s semeando o grande Brasil do futuro.

    Ao concluir a viagem de inspeo, dirigi ao Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, de Braslia, um telegrama relatan-do o que vira, e conclura: "S Braslia poderia possibilitar um empreen-dimento de tamanho arrojo, estando, assim, plenamente confirmadas as palavras profticas d Vossa Eminncia quando, ao celebrar a primeira missa neste Planalto, ainda deserto, afirmou que Braslia seria o trampo-lim para a conquista da Amaznia."

    PROSSEGUEM AS OBRAS DE BRASLIA

    Aps uma rpida viagem ao Rio, retornei, no dia 9 de novem-bro, a Braslia. Minha presena se associava passagem, no dia seguinte, do segundo aniversrio da construo do Catetinho.

    A cerimnia foi simples. Inaugurei uma placa de bronze co-memorativa da data e recordei num discurso como aquela casa de madeira

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    havia nascido. Estavam presentes apenas os diretores da Novacap, com Israel Pinheiro frente, uns poucos dos idealistas que haviam tido a ideia da obra; entre os quais Csar Prates e Joo Milton Prates, e os qua-tro operrios que tinham erguido a casa: Joaquim dos Santos, pernam-bucano; Antenor Soares, mineiro; Sebas.tio Calazans, tambm mineiro; e. Francisco Martins, portugus.

    Finda a cerimnia,-passei a inspecionar, em companhia de Israel Pinheiro e de Oscar Niemeyer, as obras em andamento. N oca-sio, a Praa dos Trs Poderes surgia do cho, na-imponncia de sfeu traado urbanstico, para se converter no corao administrativo do Pas. Estavam sendo construdos os palcios do Congresso, do Judici-rio e os Ministrios. Do outro lado da Praa, erguia-se o palcio presi-dencial, denominado dos Despachos e que depois balizei de Palcio do Planalto. Os trs poderes da Repblica ali estavam, frente a frente.

    Durante a visita, inaugurei oito cumeeiras de blocos residenciais do Instituto de Aposentadoria e Penso dos Bancrios (trs), do Instituto de Aposentadoria e Penso, dos Industririos (quatro) e dos Comercirios (um). Presidi, igualmente, inaugurao de um poo semi-artesiano, destinado a abastecer o conjunto residencial dos bancrios com gua potvel da melhor qualidade, e da sala de Coordenao e Controle das Obras das Instituies de Previdncia.

    Na sala de Coordenao e Controle foi firmado um convnio entre os Institutos de Previdncia e vrias fbricas de cimento, a fim de se garantir um fluxo permanente do material, cabendo Rede Ferrovi-ria Federal a responsabilidade pelo transporte respectivo. Esse acordo seria o primeiro de uma srie de outros, referentes ao ferro, s madeiras e aos demais materiais de construo, tendo como objetivo evitar qual-quer atraso nas construes de Braslia.

    Para que a Nova Capital pudesse ser concluda no prazo pre-fixado era indispensvel o estabelecimento dessa escala de prioridades, j que os mercados fornecedores ficavam no litoral, distante do Planalto mais de mil quilmetros. Desses mil quilmetros, s existiam estradas na metade do percurso. A Rede Ferroviria auxiliaria um pouco, pois Anpolis estava ligada a So Paulo pela Estrada de Ferro Mogiana. Tra-tava-se, entretanto, de uma ferrovia de bitola estreita, com reduzida ca-pacidade de trao.

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    De qualquer forma, as prioridades governamentais, assegura-das atravs do novo convnio, passaram a incidir sobre a ferrovia, cujos vages seriam reservados dali em diante para os suprimentos indis-pensveis s obras no Planalto. O grosso do fornecimento, porm, con-tinuaria sendo levado a efeito ao longo das rodovias e pelos trilhos das antigas tropas na maior parte do percurso.

    Ao encerrar-se o ano de 1958, dei conta ao povo do que ocorria no Brasil Central. As estruturas metlicas dos ministrios esta-vam sendo montadas e tivera incio a construo do edifcio, de vinte e oito andares, anexo ao Palcio do Congresso. Haviam sido concludas as fundaes do Palcio do Supremo Tribunal Federal. A pavimentao de ruas e avenidas prosseguia em ritmo acelerado, estando quase terminada a do Eixo Monumental, a de acesso ao Palcio da Alvorada e ao Braslia Palace Hotel, a da Avenida das Naes e da ligao Zona Sul-Aeropor-to, a do Eixo Rodovirio Sul e a das ruas transversais, prevendo-se a concluso definitiva para fins de fevereiro de 1958.

    Alm dos edifcios de apartamentos dos Institutos de Previ-dncia e da Fundao da Casa Popular, concludos ou em concluso, as construes particulares j chegavam a quase uma centena. Por outro lado, despertava o maior interesse possvel a venda de terrenos na Nova Capital. Em fins de 1958, j haviam sido adquiridos oitocentos e doze terrenos comerciais, onze para edifcios de apartamentos, excludos os cento e quarenta e trs destinados aos institutos e caixas; trinta e um para edifcios bancrios; alm de vrias reas para escolas e colgios. A receita prevista era de cerca de vinte bilhes de cruzeiros, mais que sufi-cientes para as obrigaes da Novacap, tornando-se Braslia, assim, um empreendimento cujos gastos seriam perfeitamente cobertos com a venda de suas reas disponveis.

    No que dizia respeito opinio pblica nacional, Braslia dei-xara de ser a cidade do "ali vai ser", para se converter na cidade do "aquilo que ". No incio da construo, era comum apontar-se uma imensa cratera e esclarecer-se que ali seria erguido o Palcio do Con-gresso ou o edifcio do Supremo Tribunal Federal ou a gigantesca Plata-forma Rodoviria. Essa fase desde muito estava ultrapassada.

    O Plano Piloto, que fora uma cruz riscada a lpis na planta de Lcio Costa, perdera seu carter irreal de concepo artstica no papel,

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    para se projetar concretamente, com vida prpria e j integrado no cenrio do Planalto Central. Para qualquer lado que se olhasse, viam-se obras em concluso, cumeeiras assentadas, ruas j asfaltadas e entregues ao trfego. A cidade, que "seria a minha sepultura poltica", havia se transformado em menos de dois anos numa esplndida realidade. Cada semana, uma inau-gurao era feita. O comrcio expandia-se com a abertura de novas casas e lojas. Vinte mil operrios trabalhavam s no permetro urbano.,

    Dado o prestgio de que j gozava a Nova Capital, diariamen-te numerosos avies comerciais partiam do Rio, levando turistas que de-sejavam conhecer Braslia. No Braslia Palace Hotel tornara-se difcil conseguir um apartamento, e as reservas eram feitas com duas semanas de antecedncia. As refeies, no hotel, constituam espetculos de ele-gncia e bom gosto.

    Embora a cidade ainda se ressentisse de muitas deficincias, como luz, eletricidade, servio de transportes, sua populao crescia verti-ginosamente. Os pioneiros moravam como lhes era permitido, improvi-sando tudo. Em fins de 1958, Braslia j dispunha de 25 mil habitantes, todos alojados em casas de madeira. Esse ncleo populacional, desconta-da a massa dos contratados pelas firmas construtoras - que possuam gal-pes-alojamentos nos seus canteiros de obras , concentrava-se na chamada Cidade Livre, que era o primitivo Ncleo Bandeirante.

    A Cidade Livre, consequncia da construo de Braslia, sur-gira, tambm, do nada, sem dispor do apoio de uma aldeia sequer. Imaginou-se, na poca, a criao de um ncleo populacional, fora do Plano Piloto, com um comrcio regular, que pudesse atender aos traba-lhadores que chegassem para a construo da Capital. Surgiu, assim, a denominada Cidade Livre autntica concentrao humana, alojada em casas de madeira, no gnero de Dodge City e de outras cidades do mesmo tipo, caractersticas do Velho Oeste norte-americano.

    No incio, eu temia que a construo da Cidade Livre viesse favorecer a criao de um aglomerado de favelas, de difcil erradicao. Entretanto, com a intensificao das obras de Braslia, impusera-se a ampliao do Ncleo. De fato, como os milhares de candangos poderiam viver sem casas comerciais? Como poderiam passar sem bancos, sem

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    hotis, sem penses, sem oficinas mecnicas e sem farmcias? Todos es-ses estabelecimentos existiriam, um dia, na rea do Plano Piloto, mas somente quando Braslia j estivesse construda. Seria necessrio criar um comrcio provisrio, e da a minha concordncia em que fosse am-pliado o inicial Ncleo Bandeirante.

    Concedidas pela. Novaap as primeiras licenas para a cons-truo de casas de madeira, verificou-se verdadeira avalancha de novos pedidos. Chegava gente de toda parte, e no era possvel que no dispu-sesse de um abrigo. Havia quem morasse sob rvores, debaixo de pon-tes e at mesmo dentro de caminhes abandonados. A situao agra-vou-se tanto que julguei melhor ir ver, com os prprios olhos, o que ali estava ocorrendo.

    Quando desci do carro, os forasteiros me cercaram. Eram mi-lhares, possuindo apenas a roupa do corpo. Muitos tinham mulheres e filhos. Queriam trabalhar; fazer alguma coisa; ganhar dinheiro para sus-tentar a famlia. E, como era natural, tinham necessidade de casas. Os prprios moradores da Cidade Livre se mostravam a favor da liberao das licenas. Diante de mim, um deles fez este apelo: "Vamos deixar o povo construir, Presidente?" E ficou me olhando. Contemplei aquela massa humana; avaliei o volume dos sem-casas; e respondi tambm feio dos pioneiros: "Est bem, pessoal. Que cada um faa sua casa, mas nada de invadir o Plano Piloto."

    SURGE A PRIMEIRA CIDADE-SATLITE

    A Cidade Livre fez-se, ento, em poucos meses. Em 1958, j havia 2.600 casas comerciais e sete agncias bancrias. Abriam-se restau-rantes e bares. Instalaram-se hotis e penses. Surgiram bilhares. Um mercado municipal fornecia gneros e artigos hortigranjeiros populao. Vieram os aougues e os armarinhos. Um candango, com o qual con-versei numa das minhas inspees Cidade Livre, resumiu nesta frase expressiva o que era aquele formigueiro humano: "Isto aqui no pra mais, Presidente."

    De fato, a cidade improvisada no iria parar. Pior ainda: iria se transformar num problema social, e que surgiu, quando menos se es-

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    perava, no dia 28 de maio de 1958. Foi uma situao dramtica. Cerca de 5 mil flagelados, tangidos pela seca no Nordeste, chegaram a Braslia e invadiram a Cidade Livre. Concentraram-se, depois, ao longo da estra-da BrasliaAnpolis, direita de quem se dirigia para a cidade goiana. Moravam da maneira mais precria possvel barraces de madeira ve-lha, de lata, de folhas de zinco, de sacos de cimento. No havia gua no local e eram impressionantes a promiscuidade e a falta de higiene.

    Formara-se, assim, a primeira favela de Braslia. Aqueles refu-giados, depauperados como estavam, no podiam trabalhar. Teriam de ser assistidos, como o Governo vinha fazendo com os seus irmos no Nordeste. No Polgono das Secas, porm, existiam os rgos prprios para aquela assistncia. Em Braslia ho. E a Novacap no poderia assu-mir a responsabilidade de aliment-los. O pouco que aqueles flagelados haviam trazido uns restos de farinha e uns pedaos de rapadura - logo fora consumido. E os cinco mil homens passaram, ento, a exigir comi-da das autoridades da Novacap de forma ameaadora.

    No foi fcil a remoo dos cinco mil homens. Ernesto Silva, subindo num caixote, falou multido. Mostrou-lhes a planta do que seria a nova cidade-satlite, expondo-lhes a vantagem de j se instalarem em seus prprios lotes, onde, mais tarde, poderiam construir a casa defi-nitiva. Prometeu que a Novacap se encarregaria de dar transporte a to-dos e que construiria os barraces provisrios, onde iriam alojar-se.

    Embora desconfiados, os invasores concordaram com a mudan-a. E teve incio, ento, a operao-transferncia. As assistentes sociais ca-dastraram os migrantes e, indo de casa em casa, cerrado adentro, aproveita-ram a oportunidade para convencer os recalcitrantes. Depois, chegaram os caminhes, que quase nada conseguiram transportar. Permanecia a descon-fiana. Em resumo, no primeiro dia, s uma famlia foi transferida.

    Ernesto Silva e Mrio Meireles, porm, no desanimaram. No segundo dia, l estavam eles s 8 horas da manh. Novo trabalho de persuaso. Depois de muito esforo, conseguiram fazer a transferncia de uma dezena de famlias. Um hospital volante das Pioneiras Sociais, enviado por sua presidente, Sarah Kubitschek, foi estacionado no local onde seria a cidade-satlite. A Novacap comprou madeira, prego, folhas de zinco, e os barraces, construdos em Taguatinga, apresentavam bom aspecto. Afinal, em dez dias, foram transferidos todos os invasores.

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    Concentrados os flagelados na rea, a Novacap providenciou as indispensveis obras: quase mil fossas construdas; demarcao dos respectivos lotes; instalao do servio de gua; organizao de uma fro-ta de caminhes para o transporte dirio para Braslia e vice-versa; e ins-tituio da assistncia mdica.

    Vencida essa etapa inicial, foi construda, na nova cidade, uma escola primria em alvenaria, seguida, pouco depois, da primeira Escola Profissional de Braslia. As Pioneiras Sociais, de que era fundadora e presidente minha esposa, Sarah Kubitschek, iniciaram a construo do Hospital So Vicente de Paula, e o subprefeito, designado, providenciou as obras de terraplenagem.

    A cidade-satlite organizou-se, pois, como Braslia. Saiu do nada, e abriu os olhos para a existncia, contemplando o cenrio desola-do do Planalto Central. Para a aquisio de lotes, era necessria autoriza-o do subprefeito e a regularizao se fazia no Departamento Imobili-rio da Novacap. No era permitido que algum possusse mais de um lote, e os compradores s poderiam ser os trabalhadores e servidores modestos da Novacap. Os lotes comerciais eram distribudos a comerci-antes de parcos recursos, e um lote s a cada um, mesmo assim se fosse dono do negcio nele instalado.

    Em seis meses, Taguatinga j era uma realidade. A cidade ha-via sido construda, e estavam em funcionamento a escola, o hospital, as casas para as professoras, os estabelecimentos comerciais pioneiros, e, em meados de 1959, inaugurou-se a Escola Industrial. Surgira, assim, a primeira cidade-satlite de Braslia.

  • A morte do bandeirante

    ^ ano de 1958 chegara ao fim. Olhando o caminho per-corrido, cheguei concluso de que deveria estar satisfeito. Durante o ano, atendendo s exigncias do Cdigo Eleitoral, diversos ministros se demitiram. Aproveitei a oportunidade para fazer uma profunda reforma ministerial. Em seguida, presidi s eleies de outubro, para renovao da representao no Congresso. O pleito decorreu em ambiente de per-feita ordem, sem que se fizesse sentir qualquer presso sobre o eleitora-do. E, por fim, os resultados das urnas no alteraram a composio das foras que se digladiavam no cenrio partidrio.

    Assim, minha posio poltica, naquele momento, era perfei-tamente satisfatria. Ao contrrio do que acontecera a Getlio Vargas, que chegara ao Governo fortssimo e fora se enfraquecendo com o pas-sar dos anos, eu conquistava terreno medida que me aproximava do fim do quinqunio. Uma prova disso fora justamente a reforma ministe-rial, realizada no segundo um critrio poltico mas de acordo com mi-nhas preferncias pessoais. Escolhera elementos meus para as diferentes Pastas, e essa tomada de posio no tivera qualquer efeito no esquema de sustentao poltica da administrao.

    Braslia j havia deixado de ser uma obra do meu governo para se converter num smbolo nacional. No existia quem no se admi-rasse do que estava sendo realizado no Planalto.

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    Contudo, so desconcertantes os desgnios da Providncia. Em face de to encorajadores acontecimentos, eis que, logo no incio de 1959, um fato trgico enluta toda a Nao: a,morte de Bernardo Sayo, a 15 de janeiro de 1959.

    Vi-o pela ltima vez, dois meses antes. Foi em Imperatriz, por ocasio de uma viagem de inspeo.

    Depois dessa viagem, regressei ao Rio. Sentia-me tranquilo,, no que dizia respeito quele front de trabalho. Ele comandava a turma do Sul e Rui de Almeida, a do Norte. Avanavam, um ao encontro do outro, para realizar a to sonhada ligao, com data marcada para a jun-o: 31 de janeiro de 1959. Trinta quilmetros apenas separavam as duas frentes.

    Uma semana antes de 15 de janeiro, Sayo enviara um bilhete ao acampamento de Aailndia, dizendo: "Se no mandarem mantimentos, es-tamos com os dias contados." Um avio Cessna sobrevoava a frente de tra-balho, e, dele, caram os pra-quedas com os mantimentos pedidos.

    "Estamos com os dias contados" - era assim que se jogava a vida na BelmBraslia. Bastava que uma remessa se atrasasse para que os trabalhadores ficassem ameaados de morte. Morte pela fome. Mas existiam outros gneros de morte espreita dos que violavam o santu-rio da floresta. Sayo dera um balano nos sacos vazios de proviso e mandara o bilhete. Mal sabia que o Anjo Negro, sentado ao lado de sua barraca, j havia comeado a tecer-lhe o sudrio.

    Durante o dia, era aquela luta herica contra tudo. Quando havia sol, um calor de 40 graus. Se chovia, a terra recm-descoberta transformava-se em terrvel lamaal, no qual os tratores chapinhavam e mergulhavam as lagartas. Mesmo assim, a abertura da estrada nunca era retardada. Dois quilmetros eram vencidos diariamente. Os avies da FAB encarregavam-se do suprimento de gneros alimentcios. Cada p-ra-queda que caa trazia uma pequena bomba que explodia ao tocar o solo. Essa ideia fora um avano sobre a primitiva iniciativa de Sayo, de colocar gatos nos pacotes.

    Enquanto a estrada avanava, campos de pouso iam sendo construdos. De cem em cem quilmetros, um era aberto. Contudo, es-ses campos de pouso no passavam de clareiras na floresta, para que os avies no se embaraassem na galharia.

  • Por que constru Braslia 223

    No Nordeste, dizia-se: "Por onde passa a vaca, passam o va-queiro e seu cavalo." Na Amaznia, a frase deveria ser alterada. Onde houvesse um claro na selva, o herico piloto descia com o seu te-co-teco. Havia uma escala de precedncia na conquista gradual da flo-resta. Primeiro, vinham os teco-tecos - espcie d Fords-bigode areos - que desciam em qualquer lugar. Depois dos teco-tecs, surgiram os Gessns' caixas de fsforos voadoras, mas dotados de alguma seguran-a de vo. A medida que os campos de pouso se alargavam e iam ficando batidos, passavam a chegar os avies maiores. ltimo era o famoso Douglas carroa area que enormes servios prestou ao desbrava-mento d interior do Brasil. "''' ' ' ' ' ' '

    Desse modo, a Belm-Braslia ia avanando no rumo da to falada Ligao, a qual significaria que Belm estaria ligada Braslia. De-pois de aberto ss sulco, estehdr-se-i a urdidura de nervuras brancas, que seria o mapa rodovirio da regio, fazendo respirar municpios at ento estrangulados pela selva. O monoextrativismo da borracha, no Norte, e a monotonia ds lavouras d" arroz, no Sul, teriam fim, substi-tudos pr toda uma srie d atividades agropecurias indstrias que iriam valr-se da estrada, para fazer a civilizao penetrar no interior.

    Sayo sempre sonhara, no s com a Belm-Braslia, que era a espinha dorsal, mas, tambm, com as rodovias laterais, que seriam as cos-telas. Numa antecipao da segunda arrancada, que j projetava, havia sobrevoado, muitas vezes, a floresta, na direo do oeste, visualizando o que seria, dois anos depois, a Braslia-Acre. Naquele momento, porm, sua ateno estava concentrada na Ligao. Duas semanas apenas o se-paravam da data fixada para o grande acontecimento.'

    O ltimo bilhete de Sayo fora escrito com visvel nervosis-mo, o que era contrrio ao seu temperamento. Ao redigi-lo, porm, tre-mia-lhe a mo, que sempre fora firme. Por isso, rasgou-o duas vezes. A terceira redao que iria constituir a.sua ltima mensagem. V-se o ho-mem, num retrato, de corpo inteiro, neste simples recado, reclamando provises. "Desde tera-feira, 13 prximo passado, aqui estamos na imi-nncia de parar o servio por falta de alimentao para o pessoal. Ama-nh no teremos recursos para o almoo, e estranho o silncio, a indi-ferena de quem est na retaguarda, devidamente abastecido, pelos que aqui esto fazendo uma coisa necessria no momento: o campo." E

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    enumerava os gneros alimentcios de que tinha necessidade, pedindo que os jogassem na clareira do campo, valendo-se de todos os meios de transporte disponveis. E conclua seu dramtico apelo: "Julgo q u e a

    nica coisa necessria o campo, a tempo e a hora. A picada de relati-va importncia. Sem aquele, no adianta fazer esta."

    Ameaado de morrer de fome, Bernardo Sayo pensava, com determinao, na construo do campo de pouso. Era o objetivo imediato, importante, porque o Presidente da Repblica deveria ali descer no dia 31 de janeiro. Tudo ficara combinado, quando nos avistamos, pela ltima vez, em Imperatriz. No acampamento do Gacho, em Cercadinho, situado num recanto pitoresco da mata, ofereceram-me, na ocasio, um almoo simples e delicioso: couve-mineira, quiabo e angu. A mesa fora um enorme tronco de rvore. Nesse almoo, os planos ficaram assentados.

    Alm do destocamento que faltava, Sayo teria de construir, com urgncia, o campo de pouso no local, onde se daria o encontro das duas turmas. Durante trs dias, Sayo estivera acampado no Estreito. Era comum j estar dormindo s oito horas da noite. Naquele dia, porm - vspera de sua morte - , j eram onze e meia, e ele ainda estava acordado. O prazo era, de fato, curto, e da o nervosismo. No dia seguin-te, cedo, seguiu para o local da Ligao, onde estava em curso intenso desmatamento. Era ensurdecedor o barulho das rvores caindo. A barra-ca do acampamento estava beira de um crrego, no muito perto das obras.

    Enquanto as rvores eram derrubadas, ele, Gilberto Salgueiro e Jorge Dias discutiam debaixo da barraca. Gilberto saiu, por um mo-mento, para conferir uma informao. Nesse momento, ouviu-se um es-trondo. "A rvore! A rvore!" - gritaram os trabalhadores. Jorge Dias fi-cara machucado no brao. A barraca fora amassada pelo peso do enor-me galho desprendido. E Sayo? Ningum via o chefe, o comandante, o Anhanguera daquela penetrao na floresta.

    De sbito, sua figura herclea destacara-se entre a galharia deitada. Estava de p. Mas mortalmente ferido. Uma enorme fratura exposta na perna esquerda e o brao do mesmo lado esmigalhado. Tinha, tambm, o crnio fraturado. Mas continuava de p. Esvaindo-se em sangue. Era a tragdia que se fazia presente no acampamento, para ceifar a vida do bandeirante.

  • Por que constru Braslia 225

    Naquele local no existia mdico nem qualquer tipo de socor-ro. Que fazer? Houve desespero e pnico entre os integrantes da Frente. Sayo, ainda de p, caminhou at um tronco derrubado e, sentando-se nele, pediu que lhe descalassem a bota do p esquerdo. Fazia tudo com calma, como lhe era caracterstico. Apesar da dor e de estar mortalmen-te ferido, ainda era quem dava as ordens. Continuava sendo o chefe - o comandante daquele pugilo de bravos.

    Ante o espanto dos que o cercavam, repetiu a ordem: "Ti-rem-me a bota!" Um mateiro curvou-se e deu incio ao penoso trabalho. A tarefa era difcil, por causa da fratura exposta. Sayo continuava cal-mo, mas a dor lhe crispava a fisionomia. Deram-lhe, ento, uma dose de coramina, que ele prprio havia levado para seus homens. O remdio pouco adiantou. Quando conseguiram tirar-lhe a bota, dava a impresso de que iria ter um colapso. Pediu, ento, que o deitassem. Puseram-no numa rede. Parecia estar sofrendo muito e, a todo instante, levava a mo cabea. A fratura doa. Sua camisa estava empapada de sangue. Estendi-do na rede, deixou-se ficar quieto os olhos semicerrados - respirando profundamente. Verificaram, com espanto, que havia entrado em coma.

    Os trabalhadores entreolharam-se, sem saber o que fazer. s trs horas da tarde, porm, ouviu-se o rudo do motor de um avio. So-brevoou o local, atirando vveres. Eram os vveres que ele havia recla-mado, atravs do seu ltimo bilhete. O piloto parecia estar nervoso, pois atirava os embrulhos para todos os lados e um deles atingiu um tra-balhador, ferindo-o na cabea. Os que se encontravam em terra grita-ram, gesticularam, tentando fazer com que o piloto compreendesse o que havia ocorrido. Por fim, algum teve a ideia de cruzar dois paus e cobri-los com as camisas dos trabalhadores. O piloto achou estranho e reduziu a altura para observar. Viu, ento, um homem deitado, com a roupa vermelha de sangue.

    Em seguida, o avio partiu, sem que os que se encontravam em terra pudessem saber se o piloto havia compreendido o sinal. Con-tudo, ele o entendera. Mais tarde, veio um helicptero. Com grande sa-crifcio, puseram Sayo no interior do aparelho e um dos seus auxiliares Kel foi junto. Kel sentou-se no cho do helicptero e fez com que a cabea de Sayo ficasse apoiada no seu colo. Seguiram, ento, para o povoado mais prximo - Aailndia.

  • 226 Juscelino Kubitschek

    Pilotando o helicptero, estava o Major Toms, amigo de Bernardo Sayo. Conduzia o aparelho com cuidado, evitando solavan-cos. Eram sete horas da noite. L embaixo, a floresta se fechara, como um s e imenso lenol preto. De vez em quando, o Major Toms volta-va a cabea e observava Syo o corpo estirado no cho, e a cabea apoiada nas pernas do Kel.

    Pouco depois das sete horas, o que se temia aconteceu. O gi-gante no resistira aos ferimentos. Expirou sem um gemido. Apenas respirara mais fundo - e s.

    O helicptero aterrissou em Aailndia e os moradores da lo-calidade acorreram, julgando que poderiam prestar algum socorro. Tudo, porm, estava acabado. Levaram o corpo para uma pequena cho-a e deitaram-no numa espcie de maca, apoiada sobre dois tambores de gasolina. E, assim, ali ficou o bandeirante cercado da gente simples, que ele tanto amara, enquanto se tentava comunicao, pelo rdio, com Bra-slia e com Belm, para transmitir-se a trgica notcia.

    A VINGANA DA FLORESTA

    Entretanto, antes mesmo que o rdio o contasse, j se sabia, em Belm e em Braslia, o que havia acontecido. A notcia correra. Pe-netrara a floresta. Vencera distncias. Como? Ningum poderia diz-lo. Em Belm, a repercusso foi intensa, como alis em todo o Norte, por-que o nome do bandeirante j se firmara ali como o de um heri. Em Braslia, a cidade parou de repente. Durante dois anos, a febre de traba-lho nunca havia registrado ali qualquer interrupo.

    Naquele dia, porm, tudo foi diferente. Pela primeira vez na sua histria, Braslia sustou a respirao, sentindo que lhe faltava ar nos pulmes. Havia tristeza e ansiedade. Respirava-se silncio e consterna-o.

    Cruzes de crepe comearam a surgir nas janelas da Cidade Li-vre. As casas de comrcio foram se fechando. Surgiram, por fim, panos pretos nos pra-choques dos caminhes.

    Eu estava no Palcio Rio Negro em Petrpolis, mergulhado num oceano de papis. Na mesma sala encontrava-se o Embaixador

  • Por que constru Braslia 227

    Hugo Gouthier, casado com Las, filha de Bernardo Sayo. Deram-me um radiograma. Era a notcia do acidente. Li-a, quase sustando a respi-rao. Bernardo Sayo era para mim muito mais do que um amigo. Nos-sa amizade tinha um significado que ultrapassava o carter rotineiro das relaes afetivas que aproximam duas criaturas. O escritor Antnio Ca-lado surpreendeu, com rara lucidez, o sentido mgico dos vnculos que nos prendiam, um ao outro: "Olhe-se como se olhar o plano de Braslia, inegvel que o encontro de Juscelino Kubitschek com Bernardo Sayo foi histrico para este Pas."

    De fato, sempre considerei Sayo uma espcie de prolon-gamento de mim mesmo. Minha imaginao criadora, meu impulso pio-neirista, a audcia dos sonhos que sonhei pensando no futuro do Brasil, encontraram perfeita ressonncia na sua alma generosa.

    Deixei tudo que estava fazendo e, meia hora depois, j voa-va para Braslia. O avio, que trazia o corpo de Sayo, aterrissou no ae-roporto da Nova Capital s oito horas da noite do dia 16. Era enorme a multido que aguardava a chegada. Num raio de 100 quilmetros, no havia ficado uma s pessoa em casa. Homens, mulheres e crian-as, utilizando os transportes que puderam conseguir, concentraram-se em Braslia.

    O corpo foi retirado do avio e levado para a capela Dom Bosco. Uns 400 carros, jipes e caminhes engrossaram o cortejo que se deslocou, vagarosamente, atravs da cidade. Na capela, Sayo foi velado a noite inteira, revezando-se o reduzido nmero de pessoas que cabiam no interior do pequeno santurio. L fora, estava a multido.

    No dia seguinte, sbado, foi a romaria ao cemitrio de Bras-lia. To virgem era que dois quilmetros de estrada tiveram de ser cons-trudos, durante a noite, para dar passagem ao fretro. Um candango, que trabalhava na abertura da via de acesso, limpando o suor do rosto, comentou: "O doutor Sayo marcou este cemitrio. Quando terminou a marcao, perguntou: quem ser o infeliz que vai batizar esta terra? Mal sabia que seria ele mesmo..."

    Em Braslia, no existiam velhos, reduzindo-se, portanto, as probabilidades de morte. O cemitrio, por isso, transformara-se num ornamento urbanstico. Havia quem o visitasse, no para render home-nagem a qualquer morto, mas para colher flores silvestres. Sayo, que o

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    marcara, iria inaugur-lo. Entretanto, a ele, que fora pioneiro em tudo, seria negada essa penosa honra. A inaugurao acabou sendo dupla. Be-nedito Segundo, o motorista do jipe e seu companheiro de correrias pe-las estradas do Brasil Central, quando teve notcia do que acontecera ao patro, exclamara estarrecido: "No pode ser... Deus no podia fazer isso com o Dr. Sayo..." E morreu, tambm. Levou a mo ao peito, suspirou fundo, e caiu morto.

    Assim, os dois inauguraram o cemitrio. E, em torno, a cida-de inteira. Os candangos atiraram flores sobre o caixo. Um deles pediu que Sayo fosse enterrado de p, "de p como soube viver, de p como recebia o Presidente da Repblica e a mais humilde criatura que o pro-curasse".

    Enquanto o caixo esteve em Braslia, a famlia no permitiu que ele fosse aberto. Desejava guardar do seu chefe a impresso de vida exuberante, que havia sido a sua caracterstica. O povo, na sua humilda-de, compreendeu a manifestao daquele sentimento familiar. Assim, ningum vira com exceo dos seus companheiros de trabalho na sel-va - o gigante, pela primeira vez, deitado, sem ao.

    Fiz questo de participar de todas as cerimnias fnebres. Assisti missa de corpo presente na capelinha de Nossa Senhora de F-tima e, depois, acompanhei o fretro at o cemitrio. Falei, por fim, beira do tmulo. "Ali estava como Presidente da Repblica e como ami-go. Naquele momento, porm, talvez at mais do que Presidente da Re-pblica e do que amigo. que representava ali a totalidade do povo bra-sileiro, que, de fato, se mostrava consternado" declarei. E prossegui: "Vim aqui dizer adeus a Bernardo Sayo, morto no campo da honra, morto na batalha em favor do novo Brasil. Mas a glria comea exata-mente na hora em que ele deixa este mundo. At ento, ns todos, que com ele lidvamos, sabamos que era um batalhador excepcional, um homem de f e de energia fora do comum. Hoje, seu nome se inscreve na legenda. um dos heris da nacionalidade. S nos consola de sua perda essa glria que j comea a iluminar o seu vulto, pois Sayo con-sumou o supremo sacrifcio em benefcio do futuro Brasil. Morreu de p, no meio das mltiplas resistncias da floresta, quando j estava vis-ta o trmino do seu rduo trabalho. Quem o feriu foi justamente uma rvore - uma das numerosas que ele teve de abater, para que o Brasil to-

  • Por que constru Braslia 229

    masse posse do seu prprio territrio. Mais de uma vez, ele me disse: no dia em que a Belm-Braslia estiver concluda, posso partir para sempre. No viveu para assistir a esse espetculo. Mas deixou tudo pronto, para que a cerimnia se realizasse na data marcada."

    Falaram, em seguida, diversos outros oradores e, por fim, um candango - Jos de Sousa. Este tinha a voz trmula e os olhos rnidos. Falou em nome dos humildes construtores de Braslia. Jos de Sousa foi simples e tocante, no desempenho de sua misso. "Apanhei no campo, no qual viveste pisando dia a dia" - declarou, com a voz embargada "duas flores, e elas esto aqui, uma amarela e outra roxa. Flores singelas, Sayo, como a lembrana natural daqueles que te prezaram - os traba-lhadores. Esta flor roxa significa luto, e esta amarela simboliza o nosso desespero pela tua falta." Em seguida, Jos de Sousa atirou as duas flo-res sobre o caixo.

    Bernardo Sayo, o comandante da batalha na frente sul, mor-reu no dia 15 de janeiro de 1959. Uma semana mais tarde, o engenheiro Rui de Almeida, comandante da batalha na frente norte, morria tam-bm, vtima de um choque de veculos. Dois acidentes fatais com os l-deres da grande arrancada, quinze dias antes do encontro das duas tur-mas de desbravadores.

    Na tosca mesa de trabalho, fincada no cho da barraca de Bernardo Sayo, encontraram, depois, a ltima carta que ele havia escri-to e que no chegara a terminar. Era dirigida a sua irm Dulce. Nela di-zia: "Ando, agora, bem equipado, com helicptero e avio-correio, de grande capacidade, para toda a semana, mais 54 mquinas que esto de-sembarcando em Santos." O destino no quis que ele chegasse a ver esse equipamento. A floresta j havia selado a sua morte. Assim como a Vupabau azul havia se vingado de Ferno Dias, nos primrdios da nossa Histria, a selva amaznica fizera o mesmo, em pleno sculo XX, com Bernardo Sayo.

    COMPLETADA A LIGAO BELM-BRASLIA

    A morte de Bernardo Sayo, a despeito do enorme pesar a que deu origem, no alterou o ritmo dos trabalhos de abertura da Be-

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    lm-Braslia. A partir daquele dia a estrada passou a chamar-se Rodovia Bernardo Sayo, por fora de um decreto do governo. Houve uma ligei-ra interrupo das atividades na frente sul, dada a ausncia do coman-dante. Entretanto, Waldir Bouhid, responsvel pela Superintendncia da Valorizao Econmica da Amaznica, transportou-se para o local, onde se encontravam os trabalhadores, e incumbiu-se, pessoalmente, da tarefa de promover a concluso das obras na data prefixada.

    Viajando de um lado para outro, e utilizando toda espcie de veculo, ele emagreceu 12 quilos em poucos dias, mas obteve xito na sua misso. A palavra empenhada seria cumprida: havia uma data para o encontro das duas turmas: 31 de janeiro de 1959. Conforme havia sido combinado, nesse dia eu estaria em Aailndia, para assistir ao encontro.

    Contudo, no me foi possvel deixar o Rio no dia 31 de janei-ro, por causa das festividades comemorativas do terceiro aniversrio do meu governo, s quais deveria estar presente. No dia seguinte - l 2 de fevereiro - deixei o Rio, bem cedo, viajando num avio Douglas da FAB, em companhia de minha famlia, de vrios ministros de Estado e de embaixadores estrangeiros.

    Em Aailndia, o ambiente era de intenso entusiasmo. Alm dos avies da FAB, postos disposio das autoridades, para ali havia afludo cerca de uma dezena de pequenos aparelhos os famosos te-co-tecos levando pessoas do Par, do Maranho e do norte de Gois. O cenrio, no qual iria ter lugar a cerimnia do encontro, era o da flo-resta amaznica. Havia uma clareira, com o recm-aberto campo de pouso, e, para todos os lados, estendia-se a selva densa, misteriosa e aterradora. O calor era insuportvel. Num canto, o General Teixeira Lott, ministro da Guerra, imperturbvel na sua postura, enxugava o ros-to com um leno. Minha esposa Sarah e minhas filhas Mrcia e Maria Estela inspecionavam a clareira, andando com dificuldade no cho, cheio de altos e baixos, ainda com os sulcos dos tratores. O Reitor Pedro Calmon conversava com o Embaixador Hugo Gouthier. As mais altas autoridades do pas misturavam-se aos humildes e hericos mateiros, em tocante cordialidade. Depois de um churrasco servido num imenso galpo de madeira, realizou-se uma missa campal num altar improvisado, oficiando os frades capuchinhos Frei Demtrio do Encantado e Frei

  • Por que construi Braslia 231

    Bernardino Vilasboas, ambos do Santurio de Nossa Senhora de Ftima de Braslia.

    Esses dois sacerdotes, examinando a floresta em torno, encon-traram um grupo de pequenas rvores, cobertas de cips e orqudeas, cuja silhueta lembrava a imagem da Virgem Maria, com o Menino Jesus ao colo. O achado despertou entusiasmo, sendo considerado bom augrio. Aproximei-me para ver a formao vegetal. De fato, era Nossa Senhora que ali estava, esculpida pela mo da Natureza. As lianas haviam-se cruza-do com os ramos; as folhas tinham sido dobradas de forma caprichosa; os cips, indo e vindo, urdiram um bizarro desenho; e tudo isso, combi-nado com a presena de tufos de folhagem, do emaranhado denso de taquaris, havia criado a figura da santa - perfeita, ntida, destacando-se no fundo verde da floresta, como se estivesse num nicho.

    Algum sugeriu dar-se-lhe o nome de Nossa Senhora da Flo-resta e a ideia foi aprovada por todos. O Reitor Pedro Calmon viu na-quela descoberta uma revelao da presena divina e, subindo num tra-tor, fez um vibrante discurso, invocando a proteo da Virgem para os bravos mateiros que, arrostando perigos e renunciando a qualquer esp-cie de conforto, haviam rasgado a rodovia.

    Entretanto, o encontro das duas turmas - cerimonia qual fora assistir - exigia um ato concreto, que o simbolizasse. Requeria um protocolo prprio, expressivo, caracterstico. Um enorme jatob havia sido deixado de p para que eu, como presidente da Repblica e ideali-zador daquela ligao norte-sul, o derrubasse. L estavam os dois sulcos abertos - o que viera de Belm e o que partira de Braslia e, impedin-do a ligao, bem no centro que assinalava o leito da estrada, a rvore imensa.

    Media-a com os olhos. O caule projetava-se contra o cu qua-se sem galhos e abria-se, l em cima, a fronde majestosa. Pedro Calmon, no seu discurso, havia-se referido, com eloquncia, quele jatob, dizen-do que ele iria tombar como o ltimo tamoio do poema clebre, sacrifi-cado para que fosse cumprido o solene compromisso, tendo-se em vista o engrandecimento do Brasil e a felicidade das futuras geraes. De fato, o que havia parecido impossvel estava acontecendo. A rodovia significaria a abertura de uma nova etapa da TransbrasiJiana, que iria li-gar o vaqueiro dos pampas ao caboclo dos seringais beira do rio-mar.

  • 232 Juscelino Kubitschek

    Num canto, via-se um trator amarelo. Era a arma de que me utilizaria para a batalha contra o ltimo guerreiro. O mateiro Gacho ensinou-me o manejo das alavancas. Sentei-me na boleia e pus em mar-cha o veculo. Sentia-me orgulhoso da tarefa que me fora reservada. Dera a ordem para derrubar a primeira rvore do traado da rodovia, e eu prprio iria fazer tombar a ltima.

    Teve incio ento a operao-derrubada. Os mateiros haviam escavado o caule do lado oposto, de forma a facilitar minha tarefa. Che-gando junto ao jatob, encostei nele a barra dianteira do trator e acelerei o motor. Ouviu-se um ronco cavernoso que ecoou ao longo da floresta. O tronco, porm, conservou-se de p.

    Recuei um pouco, em busca de uma base mais slida, e fiz uma segunda investida. As lagartas mordiam o cho; espadanando terra, mas o veculo no avanava. O gigante resistia, impassvel .na sua verti-calidade centenria. Reuniram-se os mateiros, cada um fazendo uma su-gesto, alvitrando uma providncia. Cavou-se de novo o tronco, redu-zindo-lhe a fortaleza. Algum sugeriu que se conjugassem os empuxos de dois tratores, j que a tarefa era superior capacidade de uma nica mquina. Veio, ento, o segundo trator, pilotado por Darci Vieira Ma-tos, veterano tratorista da floresta e integrante da vanguarda que viera do norte.

    O ataque foi desfechado, em duas frentes. Ouviu-se um estron-do subterrneo de razes que se desprendiam. A terra, junto ao p da rvo-re, alteou-se como um dorso de dromedrio. E o imenso jatob, impassvel at ento, balanou no ar, indo e vindo, ameaadoramente, mas no caiu.

    Sentado na boleia do meu trator, mandei que escavassem a base mais profundamente. Em seguida, engrenei as lagartas e avancei com f e determinao. O jatob oscilou ainda, mas desta vez de forma dife-rente. Era um cambaleio que prenunciava a queda. E, de fato, ela sobre-veio. Houve um estalo maior. Ouvia-se o rasgar de fibras vegetais. E o gi-gante comeou a se inclinar para a frente a princpio, suavemente; de-pois com violncia - , descreveu meia circunferncia no ar e desabou, por fim, sobre as rvores prximas, abrindo enorme clareira na floresta.

    O ltimo tamoio cara, e, com sua morte, desfizera-se a su-perstio da inviolabilidade da selva. As duas pontas da grande rodovia estavam ligadas. A derrubada do jatob durara duas horas.

  • Por que constru Braslia 233

    Aps a derrubada do jatob, demorei-me no local, em pales-tra com o filho do Marechal Rondon, o topgrafo Benjamin Rondon, que me exps o desenvolvimento do servio de explorao da regio, com a cooperao do Servio de Proteo aos ndios. Ali tomei conhe-cimento do episdio vivido por um auxiliar do servio de topografia, o trabalhador Lus Gonzaga, que se perdeu na floresta, na regio do rio Cajuaper, um dos formadores do Gurupi. Esse trabalhador ficou pri-sioneiro da selva durante quase trs meses. Foi salvo pelos ndios uru-bus, que o deixaram em ponto onde pde, afinal, alcanar o acampa-mento mais prximo das turmas em operaes, a cerca de 80 quilme-tros ao norte de Aailandia, nas proximidades do local onde morreu Bernardo Sayo.

    A to ansiosamente esperada Ligao, sonho de Bernardo Sayo e Rui Almeida, estava feita. A grande rodovia havia sido rasgada, atravs de perigos e de dificuldades sem conta. Agora, quem sobrevoasse a regio poderia v-la, na sua extenso ininterrupta, estabelecendo a vin-culao da capital do Par com Braslia, ainda em construo. Nada menos de cinco campos de pouso haviam sido abertos ao longo do per-curso a partir de Guam, nos quilmetros 14, 92, 163, 300, 370 -dando-se incio, assim, escalada, tornada inadivel, de se promover, por terra, a verdadeira integrao nacional. O intenso trfego que hoje anima os 2.200 quilmetros da Belm-Braslia desmentiu as afirmaes de que a grande rodovia, to importante para o Brasil, no seria mais do que um simples caminho de onas.

    INCIO DA COLONIZAO DO OESTE

    Em fevereiro de 1959, o Prncipe Bernard, dos Pases-Baixos, fez uma visita a Braslia e, durante sua estada ali, foram inauguradas 74 casas e 28 lojas, construdas pela Caixa Econmica Federal e destinadas ao funcionalismo pblico e ao comrcio local. Tive a oportunidade de inaugurar, igualmente, os servios telefnicos do centro urbano de Bra-slia, integrado por 250 aparelhos. As demais obras apresentavam adian-tamentos: o edifcio do Congresso j tinha pronta a cpula do Senado e estava sendo armada a da Cmara dos Deputados; os ministrios, com

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    quatro unidades completamente armadas, j haviam entrado na fase de revestimento e encontrava-se no 6 pavimento o anexo do Congresso; os palcios do Planalto e do Supremo Tribunal j tinham a primeira laje assentada, e havia sido concluda a pavimentao das ruas e avenidas. No que concernia barragem do Parano, o canal para o desvio, a em-bocadeira do desvio, a escavao do vertedouro e a segunda fase da im-permeabilizao estavam igualmente terminados. As construes da ini-ciativa privada cresciam, semanalmente, e, naquele ms, a firma ECEL havia concludo 37 casas duplex, e vrios bancos, inclusive o Banco do Brasil, tinham iniciado a construo de suas sedes.

    O desenvolvimento de Braslia no afetava, porm, a dinmi-ca geral da administrao, que se desdobrava ao longo de numerosos e diversos setores. Em 1959, a meta prioritria era a da construo naval, a ltima das trinta e uma que consubstanciavam o programa de governo, tendente a fazer o Brasil progredir 50 anos em um quinqunio. O atraso, verificado na execuo dessa meta, fora devido necessidade de se prepa-rar o terreno para a implantao da indstria. A meta compreendia dois amplos e complexos setores: a) remodelao da Marinha Mercante, com a aquisio de novas unidades; b) instalao da prpria indstria.

    Quanto ao item a, a Marinha Mercante j dispunha de dezenas de novas unidades, adquiridas no exterior, e processava-se, em ritmo ace-lerado, o reaparelhamento dos portos. No que se relacionava com o item b, os problemas no poderiam ter solues precipitadas. Cuidei de provi-denciar, antes de mais nada, a legislao respectiva, estabelecendo incenti-vos fiscais, capazes de atrair investidores estrangeiros.

    Para fazer, aprovar a lei que criava o Fundo da Marinha Mer-cante, tive de me empenhar em renhida batalha no seio do Congresso. Da a razo por que a criao do Fundo se arrastou por trs anos e s em fins de 1958 foi aprovado.

    Em dezembro de 1958, presidi cerimnia do lanamento da pedra fundamental dos estaleiros da empresa Ishikawajima, na ponta do Caju, nos arredores do Rio. Eram capitais e know-how japoneses que ha-viam atravessado o oceano, para cooperar na obra de libertao econ-mica do Brasil. Nesse dia - 13 de dezembro - o representante da Ishika-wajima declarou ter a esperana de bater a quilha da primeira unidade de 5.600 toneladas dentro de um ano.

  • Por que constru Braslia 235

    Era janeiro de 1959, outro decisivo passo foi dado para a rea-lizao desse objetivo. No dia 8, presidi, na Ponta da Areia, em Niteri, cerimnia do incio da ampliao dos estaleiros ali existentes e cujo conjunto iria constituir o estaleiro Lahmeyer. Um ms depois, j presi-dia, em Jacuecanga, no litoral fluminense, instalao dos estaleiros da Verolme, firma que congregava capitais e tcnicos nacionais e holande-ses. O primeiro navio a ser construdo nesses estaleiros deveria deslocar 10 mil toneladas e estava programado para ser lanado ao mar em fins de 1960.

    Assim, pela terceira vez em trs meses, o governo dava incio s operaes preliminares de mais um estaleiro e a cravao daquelas es-tacas proporcionava a anteviso d que seria, em futuro prximo, o nosso parque de construo naval. Ser justo ressaltar que no fazia tal esforo tendo em vista exclusivamente ampliar o acervo das realizaes do meu governo. O que objetivava era proporcionar ao pas a indispen-svel estrutura tcnica, para que ele pudesse arriscar-se no mar tempes-tuoso da competio internacional. Sabia que aquelas iniciativas eram de execuo demorada, e que, por isso, s iriam dar frutos em outras admi-nistraes. Mesmo assim, empenhei-me, de corpo e alma, na realizao da meta.

    Apesar dos desajustamentos internos, provocados pelas difi-culdades de crdito, o Brasil vivia, de fato, um momento decisivo de sua evoluo. O rompimento com o Fundo Monetrio Internacional, ocor-rido pouco antes, no significaria um propsito isolacionista. Nenhum pas - e muito menos o Brasil, que estava em fase de plena expanso -poderia se dar ao luxo de enclausurar-se atrs de uma muralha chinesa. O mundo, que se abria alm das nossas fronteiras, era, sem dvida, uma eloquente negao do individualismo, consideradas as naes como au-tnomas. O nacionalismo ortodoxo cedera lugar poltica de blocos. Havia o bloco oriental e o bloco ocidental, cada um com fisionomia prpria, mas ambos empenhados na realizao de um objetivo, que lhes era comum - o desenvolvimento.

    A formao desses blocos, se, por um lado, representara uma garantia de sobrevivncia, trouxera, no seu bojo, por outro lado, um fa-tor de espoliao que no poderia e no deveria ser ignorado. O rompi-mento com o Fundo Monetrio Internacional representou, pois, uma

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    impostergvel manifestao de intransigncia nacionalista, muito embora a poltica que eu vinha realizando no terreno econmico-financeiro houvesse sido concebida tendo por base justamente o participacionismo.

    Sabia que o Brasil no poderia enfrentar o desafio tecnolgico apenas com seus prprios e escassos recursos. Teria de aceitar a coopera-o da tcnica e do capital estrangeiros, condicionando essa participao aos imperativos de preservao da soberania nacional. Da a escala de na-cionalizao que impus s indstrias que se transferiram para o Brasil.

    Entretanto, quando menos esperava, deu-se o rompimento com o Fundo Monetrio Internacional. Sua consequncia imediata: to-das as portas se fecharam s nossas aspiraes de crdito para o desen-volvimento. Lembrava-me, com frequncia, da sombria advertncia do magazine Time: "O presidente do Brasil est num beco sem sada."

    A despeito da advertncia, prossegui no roteiro traado. O povo, compreendendo a extenso da discriminao de que o Brasil esta-va sendo vtima, cerrou fileiras, impulsionando, por meio de uma decisi-va cooperao da iniciativa privada, o esforo desenvolvimentista do governo.

    As metas passaram, ento, a acusar avanos em relao aos ob-jetivos prefixados. Foram substanciais os progressos verificados nos seto-res da indstria automobilstica, da explorao do petrleo e do aumento do potencial hidroeltrico do pas. A construo de estradas batia recor-des sucessivos. Convm assinalar, igualmente, que a abertura da Be-lm-Braslia, representando uma escalada de desbravamento, passou a despertar enorme entusiasmo e a gerar emulaes. Milhares de famlias, que viviam no Nordeste ou nas regies inspitas do Amazonas, comea-ram a deixar seus lares, a fim de se fixarem ao longo da rodovia. Os mo-toristas de caminho - esses denodados bandeirantes do sculo XX, cujo patriotismo ainda no foi suficientemente exaltado - deram incio, desde logo, ao intercmbio de mercadorias entre o Norte e o Centro-Oeste e vi-ce-versa. No rastro dos caminhes, iam surgindo os povoados, os ncleos populacionais, as vilas humildes perdidas na floresta.

    Estimulando esse espontneo surto de pioneirismo, provi-denciei para que alguns setores do governo colaborassem diretamente com os desbravadores, de forma a facilitar-lhes a herica tarefa de inte-grao nacional que estavam realizando. Assim, entrei em entendimento

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    com o Ministro Teixeira Lott, no sentido de que o Ministrio da Guerra providenciasse o povoamento inicial das terras margem da rodovia, no trecho compreendido entre Guam, no Par, e Gurupi, em Gois, medi-ante convnio com a Superintendncia do Plano de Valorizao Econ-mica da Amaznia.

    Nesse trecho, a rodovia atravessa uma regio desprovida de qualquer recurso, com centenas de quilmetros quadrados de terras inteiramente despovoadas. Ao Exrcito caberia promover o povoamento e preservar o valioso patrimnio que constituam a flora e a fauna da regio. Outras incumbncias foram tambm atribudas ao Exrcito, como, por exemplo, a de proteger e assimilar as populaes indgenas que viviam na rea, e a de estabelecer a segurana indispensvel ma-nuteno do trfego.

    Enquanto o Ministrio da Guerra agia nesses setores vitais, o titular da Pasta da Sade, Ministro Mrio Pinotti, inaugurava o Servio de Assistncia Mdica e Pesquisas da Rodobrs, no quilmetro 14 daquela rodovia, com a finalidade de socorrer os trabalhadores e as famlias pobres que haviam passado a habitar o recesso da mata, em cabanas totalmente isoladas e desprotegidas.

    Assim, a ligao com o Norte processava-se em ritmo veloz. E no apenas a ligao, tambm o povoamento do solo e a colonizao da rea, de forma a incorpor-la ao territrio nacional. Entretanto, ao mesmo tempo que se conclua a Belm-Braslia, eu me antecipava nas providncias destinadas a costurar por dentro do Brasil; procedendo, em grande velocidade, construo da Fortaleza-Braslia, que ligaria o Nor-deste nova capital do Pas.

    Nessa rodovia j haviam sido abertas dezesseis frentes de tra-balho. A obra estava a cargo do Departamento Nacional de Obras Con-tra as Secas. Seriam outros 1.709 quilmetros de rodovia, beneficiando quatro Estados: Piau, Cear, Bahia e Gois. Naquela poca - 1959 - es-tavam em ao ali 14.000 trabalhadores, e da nova capital j podiam ser utilizados, com o traado pronto em terra batida, 220 quilmetros, os quais tinham incio em Fortaleza e se estendiam at a localidade deno-minada Boa Viagem. O plano dessa importante via de comunicao in-terna deveria.estar concludo em dezembro de 1960, com o seu leito em condies de receber asfaltamento.

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    Enquanto se procediam aos trabalhos de engenharia, o DNOCS, visando melhoria dos ndices sanitrios das regies desbra-vadas, construa hospitais e ambulatrios, a fim de que pudessem ser as-sistidas as populaes das localidades situadas margem ou nas proxi-midades da rodovia. Em 1959, funcionavam residncias de servio e ele-mentos de ajuda sanitria nos locais denominados: Picos, Simplcio Mendes, So Joo do Piau e So Raimundo Nonato, todos no Piau. Assim, enquanto Braslia crescia e ia adquirindo sua definitiva estrutura urbana, o Norte e o Nordeste ligavam-se a ela, atravs de vias de comu-nicao, cuja construo honrava e dignificava a capacidade de realiza-o do nosso povo.

    Alm da abertura para o Norte e para o Nordeste, outras obras estavam sendo levadas a efeito - algumas j em concluso - para que a interiorizao da sede do governo pudesse atender s exigncias econmicas, polticas, sociais e estratgicas do novo Brasil, que Braslia iria criar.

    Assim, em abril de 1959, fora entregue ao trfego a ponte me-tlica sobre o rio So Francisco e ficara concluda a Rodovia Ferno Dias, para So Paulo. Essas obras eram de extraordinria importncia. A ponte sobre o rio So Francisco estabeleceu a ligao rodoviria ininter-rupta entre o Nordeste, o Leste, o Sul e o Centro-Oeste do Brasil, elimi-nando-se a ltima travessia com utilizao de balsas.

    O rio So Francisco seccionava a interligao rodoviria dos grandes eixos do Norte e do Sul, e da a razo de a construo dessa ponte ter sido includa no Plano Quinquenal de Obras Rodovirias 1956/1960. Tratava-se de uma providncia administrativa que, embora reconhecida como da maior relevncia para o desenvolvimento do pas, vinha se arrastando a passo de cgado desde 1948, quando sua estrutura de ao fora construda na Frana. Governos entraram e saram, e a pon-te permanecia sem ser construda. Durante a campanha eleitoral, tomei conhecimento do que vinha ocorrendo, e prometi constru-la. Em abril de 1959, dois meses depois de haver comemorado o segundo anivers-rio do meu governo, a ponte era aberta ao trfego.

    A ponte sobre o rio So Francisco constitua mais um passo dado no sentido da integrao que eu tinha em vista. As capitais dos Estados do Norte, a partir de Teresina, no rumo Leste, ligaram-se, as-

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    sim, ao sistema rodovirio nacional. Cessara o isolamento em que se en-contravam e ficaram diretamente vinculadas ao grande eixo do Sul, que as punha em comunicao com a nova capital do Brasil.

    Ampliava-se o leque de estradas que, partindo de Braslia, ou ali terminando, ia compondo a urdidura de comunicaes, por meio da qual se estruturava a unidade nacional. A Belm-Braslia estava rasgada. Em 1959, encontravam-se em concluso as seguintes ligaes: Bras-lia-Belo Horizonte; Braslia-So Paulo at a BR-14, com asfaltamento alm de Anpolis; complementao de estudos e execuo da ligao de Braslia, via Barreiras, na Bahia, com toda a rede do Nordeste; e ligao com a BR-14, na altura de Ceres, para juno com a Belm-Braslia.

    Todas essas estradas eram diretas, mas existiam as comunica-es que se faziam por via indireta. Uma dessas era a Rodovia Ferno Dias, que ligou Belo Horizonte a So Paulo. Ela se vinculava indireta-mente nova capital, porque seria continuao da Belo HorizonteBra-slia. Em face de sua concluso, ficou o chamado Tringulo Econmico So Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte, de enorme importncia para o desenvolvimento do pas, representando mais um pilar para a susten-tao da grande estrutura que o governo vinha montando.

    Como essa ampla estrutura tinha como ponto de apoio Bras-lia, julguei que havia soado a hora de se cuidar do que Bernardo Sayo havia denominado as costelas, isto , as rodovias que ligariam a espinha dorsal, j abertas, s regies desconhecidas do Nordeste brasileiro.

    Como esse trabalho era de natureza pioneira, antes que os grupos de engenharia entrassem em ao, o terreno deveria ser explora-do, por sertanistas. Coube Fundao Brasil-Central realizar essa obra de verdadeiro descobrimento de largas reas do interior brasileiro. Assim, foi aberto um campo em Creputi, s margens do rio Caruru, afluente do Tapajs. Esse campo serviria de apoio rota RioManaus, constituindo-se numa das etapas da marcha desbravadora, empreendida pelo sertanista Cludio Villas Boas, cuja expedio, partindo da serra do Cachimbo e, depois de romper a densa selva amaznica, prosseguia rumo a Jacareacanga, ligando por terra as bacias do Xingu e Tapajs.

    Feita essa primeira penetrao, a Fundao providenciaria a instalao de postos mdicos - que j estavam em funcionamento - em Garapu, Culuene, Javaru e Xingu, nos quais eram distribudos gratuita-

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    mente vermfugos, antibiticos e vitaminas. Os doentes que necessitas-sem de cuidados especiais eram transportados por avies da FAB para o Hospital de Xavantina.

    A assistncia, prestada por esses postos e ambulatrios, esten-dia-se, principalmente, aos indgenas naquelas reas e era levada a efeito no s mediante tratamento dos males generalizados entre os silvcolas, como, tambm, por intermdio de intervenes de conciliao, nas emergncias de conflitos entre as diferentes tribos.

    Independentemente desse esforo de desbravamento e de as-sistncia mdico-hospitalar, a Fundao Brasil-Central j havia passado ao segundo estgio de suas atividades, isto , a dos trabalhos de enge-nharia, concluindo tambm, em tempo recorde, os 620 quilmetros de rodovia entre Caiapnia, Aragaras, Xavantina e Xingu, na serra do Ca-chimbo. Fora ali que se iniciara a arrancada de Villas Boas, rumo a Jaca-reacanga, e que estava devassando novas reas dos sertes do pas. A ideia, que tinha em mente, era a de prolongar essa estrada, atravs da selva inexplorada, at Manaus.

    Enquanto isso, Braslia progredia, adquiria projeo no cen-rio internacional e se afirmava como um empreendimento audacioso e revolucionrio. Ao se encerrar o primeiro ano de sua construo, ela j se havia transformado em motivo de curiosidade por parte de estadistas, de escritores, de polticos das mais variadas tendncias e de arquitetos de diferentes nacionalidades. J tinham visitado a cidade o Presidente Craveiro Lopes, de Portugal; o Presidente Gronchi, da Itlia; o Presidente Alfredo Stroessner, do Paraguai; a Duquesa de Kent, da Inglaterra; o Prncipe Mikasa, do Japo; e iriam visit-la, nos meses que se se-guiram, o Primeiro-Ministro Fidel Castro, de Cuba; Antoine Pinay, Ministro das Finanas da Frana; o Sr. Vulmanovic, Vice-Presidente da Iugoslvia; Arne Skaus, Ministro do Comrcio da Noruega; Igncio Lus Arcaya, Carlos Tovar Zaldumbide, Jlio Csar Turbay Ayala, respectivamente Ministros das Relaes Exteriores da Venezuela, Equador e Colmbia, sem me referir s presenas sumamente honro-sas do Presidente Eisenhower, dos Estados Unidos; de Lopes Mateo, Presidente do Mxico; e do escritor ingls Aldous Huxley. Quanto ao ltimo, proporcionei-lhe a oportunidade de conhecer Ouro Preto e Braslia, de forma a poder confrontar aquelas duas faces do Bra-

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    sil. Em telegrama, que me enviou aps a excurso, externou o entusi-asmo de que estava possudo: "Vim diretamente de Ouro Preto para Braslia. Que jornada atravs do tempo e da Histria. Uma jornada do ontem para o amanh, do que terminou para o que vai comear, das ve-lhas realizaes para as novas promessas."

    A VISITA DE ANDR MALRAUX

    Nesse perodo - ou precisamente em fins de agosto de 1959 Braslia foi honrada com a visita de Andr Malraux, Ministro da Cul-tura do governo francs, e que viera ao Brasil no desempenho de uma misso da maior significao intelectual: assistir ao lanamento da pedra fundamental da Maison de France, a ser construda em terreno doado pela Novacap.

    Malraux havia desembarcado no Rio no dia anterior - 25 de agosto e fora portador da seguinte carta autografa do Presidente da Frana: "Senhor Presidente, solicitei ao Sr. Andr Malraux, Ministro de Estado para Assuntos Culturais, que transmitisse a Vossa Excelncia a saudao amiga da Frana. Sua visita manifestar a simpatia que a Na-o francesa nutre por seu grande e belo pas, que tantos laos, e, mais do que tudo, um ideal comum, unem ao nosso. Ela testemunhar igual-mente o interesse com que o povo francs e eu mesmo seguimos os grandes empreendimentos que se realizam no Brasil, em todos os seto-res. O governo francs considera com especial interesse o desenvolvi-mento das relaes culturais que se consolidaram entre nossos pases. A este respeito, no duvido que as conversaes que o Senhor Andr Mal-raux ter com Vossa Excelncia, como tambm com as personalidades brasileiras, se revelaro teis e proveitosas. Queira aceitar, Senhor Presi-dente, a certeza da minha mais alta considerao, (a) Charles De Gaulle."

    Nossa viagem para Braslia, realizada no dia seguinte, consti-tuiu um verdadeiro deleite espiritual. Entre outras pessoas achava-se presente Augusto Frederico Schmidt. Malraux falou durante todo o per-curso, revelando suas extraordinrias qualidades de causeur.

    Logo que chegamos nova capital, e aps um ligeiro descan-so, levei-o, juntamente com sua esposa, num vo de helicptero, rea

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    em que estava construda a cidade. Em seguida, teve lugar um almoo no Palcio da Alvorada.

    A nota alta da visita, entretanto, ocorreu na parte da tarde, ao realizar-se a cerimnia do lanamento da pedra fundamental da Maison de France, quando Malraux, respondendo ao discurso com que eu o ha-via saudado, pronunciou uma primorosa orao que, alm de admirvel obra literria, iria tornar-se histrica por haver feito a mais lcida anlise do significado de Braslia, como elemento aglutinador da nacionalidade e fator determinante de abertura de uma nova fronteira na Histria do Brasil.

    Lembro-me de um trecho desse discurso que causou a mais profunda impresso: "Quase todas as grandes cidades haviam-se desen-volvido por si mesmas, em volta de um lugar privilegiado. Que hoje a Histria contemple conosco o despontar das primeiras edificaes de uma cidade feita pela vontade de um homem e pela presena de uma Nao. Se renascer a velha paixo das inscries nos monumentos, gra-var-se- sobre os que aqui vo nascer: Auda, energia, confiana. No se trata de vossa divisa oficial, Senhor Presidente, mas talvez da que vos dar a posteridade."

    E concluiu desta maneira pattica: "Quando, por minha vez, contemplo este lugar que j no uma solido, acodem-me ao esprito as bandeiras que o General De Gaulle entregou, em 14 de julho, aos chefes dos Estados da comunidade franco-africana, e o solene cortejo de sombras dos mortos ilustres da Frana, que amais, porque seus nomes pertencem generosidade do mundo. E em sua grande noite fnebre, um murmrio de glria acompanha o bater das forjas que sadam vossa au-dcia, vossa confiana e o destino do Brasil, enquanto se vai erguendo a Capital da Esperana."

    Aps a cerimonia, regressamos ao Palcio da Alvorada. Mal-raux era o centro de todas as atenes, sempre alegre, comunicativo, aliando simplicidade e inteligncia. Percebi, em dado momento, que ele se afastara de todos e se deixara ficar junto a uma das janelas do salo, contemplando o cenrio de Braslia. Na poca, quase tudo ainda estava no comeo. A cidade, apesar da grandiosidade das construes em an-damento, continuava sendo, e to-somente, um imenso e impressio-nante canteiro de obras. Surpreendi a emoo de que estava possudo.

  • Por que constru Braslia 243

    Depois de olhar demoradamente aquele cenrio, ele, segurando-me o brao, disse-me quase com uno: "Como o senhor conseguiu construir tudo isso, Presidente, em pleno regime democrtico? Obras como Bra-slia s so possveis sob uma ditadura..."

    E M CURSO A OPERAO PAN-AMERICANA

    O perodo que se estendeu do segundo semestre de 1958 aos primeiros meses de 1959, que fora de preocupaes no setor interno, em face das dificuldades decorrentes da crise do caf, no deixou de ser satisfatrio no campo internacional, dado o xito obtido pela Operao Pan-Americana.

    Tudo se processou como uma sucesso cinematogrfica. Em face da minha carta de 28 de maio de 1958, o Presidente Eisenhower acudira prontamente ao meu apelo. Os Presidentes Frondizi, da Argen-tina, Stroessner, do Paraguai, e Villeda Moralles, de Honduras, manifes-taram, pessoalmente, quando se encontravam no Brasil, seu apoio ideia. Foster Dulles estivera no Brasil, e dos nossos entendimentos re-sultara a Declarao de Braslia. Dois dias depois desse documento, o Itamarati entregava s misses diplomticas latino-americanas, no Rio, um aide-memoire, definindo o ponto.de vista brasileiro, e que propunha, no seu prembulo, a constituio de um comit de representantes dos 21 pases participantes da OEA "destinados a assentar as bases do acor-do a serem consagradas em uma reunio final".

    Uma vez aceita a proposta brasileira por todos os governos do continente, ficara resolvida a instalao, do Comit dos 21 no dia 17 de novembro de 1958, em Washington.

    Entre minha carta a Eisenhower e a primeira reunio em Washington o tempo decorrido foi de apenas pouco mais de seis meses. A ideia fora lanada. Elabora-se a Declarao de Braslia. E as chancela-rias latino-americanas haviam passado a agir como se se tratasse de uma equipe que buscava um nico objetivo.

    Como tudo isso foi conseguido em to reduzido tempo? Enquanto discutia com os representantes do Presidente Eisenhower, no Rio e em Braslia, procurei entrar em entendimento direto com as na-

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    es latino-americanas, atravs de cartas pessoais aos seus respectivos chefes de governo, levadas em mo por emissrios especiais. A recepti-vidade idia foi grande. A Argentina, o Paraguai, o Chile e a Venezuela apoiaram, sem restries, o movimento. A Colmbia mostrava-se reser-vada, no porque discordasse, mas porque fora surpreendida pelo meu apelo - o primeiro que recebera do Brasil em qualquer tempo. O nico pas que se mostrou difcil de ser convencido foi o Mxico, em face do seu passado de lutas contra os EUA.

    Se o movimento despertou entusiasmo entre os lderes lati-no-americanos, no deixou de ter repercusso, igualmente, no cenrio poltico dos Estados Unidos, onde diversas vozes, das mais autorizadas, logo se fizeram ouvir, denunciando os erros do Departamento de Esta-do em relao Amrica Latina. Lyndon Johnson, democrata e lder da maioria do Senado, discursando em El Paso, no Texas, no dia 7 de no-vembro, declarara que o abandono das Repblicas latino-americanas ti-nha sido uma das principais debilidades da poltica exterior dos EUA, e acrescentara: "H ocasies em que os americanos cometem o infortuna-do erro de medir a fora de outras naes por meio do seu poderio mili-tar." Referindo-se a auxlios, frisou que "com toda honestidade deve-mos admitir que os Estados Unidos no ajudam a Amrica Latina". Tambm John Kennedy, ento destacado senador do Partido Democra-ta, no deixara de comentar aquela situao. Numa conferncia, realiza-da em So Joo do Porto Rico, no dia 15 de dezembro, fizera diversas afirmaes calcadas nas mensagens que enviei a Eisenhower - chegando mesmo a citar trecho de uma delas.

    Kennedy, ao analisar o problema das relaes interamerica-nas, fora veemente: "Se damos como estabelecida a amizade de nossos vizinhos do continente; se os consideramos pouco dignos de ateno a no ser em caso de emergncia; se nos referimos a eles condescendente-mente como habitantes do fundo do nosso quintal; se persistimos em fazer ouvidos moucos a todas as suas propostas de cooperao econ-mica e enviamos soldados da infantaria da Marinha ao primeiro sinal de complicao, no est longe o dia em que nossa segurana se ver em maior perigo nessa zona do que em rinces mais distantes da terra, aos quais dedicamos nossa ateno." E concluiu: "Sabemos, ou certamente deveramos saber, que a Amrica Latina , naturalmente, to essencial

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    para a nossa segurana como o Sudeste da sia; que a Amrica Latina tambm est repleta de pobreza, de instabilidade e da guerra poltica e econmica do comunismo, e que o neutralismo e o antiamericanismo so to fortes ali como em outras partes do mundo. Contudo, nossos vizinhos latino-americanos receberam sempre menos de 3 a 5 por cento de nosso oramento, destinado ajuda externa."

    Palavras candentes. Advertncia que deveria ser meditada por todos. O Departamento de Estado, porm, permanecia surdo s pala-vras de bom-senso. Era, justamente, essa barreira de incompreenso que eu estava tentando remover, por meio da Operao Pan-Americana. Mesmo as impresses pessoais das autoridades do Departamento de Estado no tinham fora para fazer com que se modificasse essa atitude.

    A reunio do Comit dos 21, realizada em Washington, apre-sentou, realmente, um saldo positivo, apesar do ambiente de frieza que prevaleceu nos primeiros dias de discusso. Essa frieza, porm, era arti-ficial, ou melhor, encomendada. Desde o incio da reunio, tornou-se patente que havia um trabalho por trs dos bastidores, tendente a fazer malograr a Operao Pan-Americana. E, por incrvel que parea, esse motivo era apoiado justamente por elementos do Departamento de Estado. A ao tivera incio na reunio dos ministros do Exterior, reali-zada dois meses antes em Nova Iorque. O que alguns pretendiam, feliz-mente bem poucos mas entre eles se encontravam os nor-te-americanos , era entregar exclusivamente OEA a execuo da Operao Pan-Americana. A razo para tal atitude? Por que arranjar no-vas preocupaes para o Departamento de Estado se, como iria afirmar pouco depois o Sr. Thomas Mann, em Buenos Aires, "os Estados Uni-dos j tm demasiados problemas?"

    Este argumento foi que serviu de base ao propsito daquela manobra, apesar da inteno, em contrrio, manifestada pelo Presidente Eisenhower. A tentativa fracassou. E fracassou porque a Operao Pan-Americana era um movimento que havia chegado reunio de Washington com velocidade adquirida para vencer todos os obstculos, quer os criados pela burocracia, quer os gerados pela estreiteza de vista de alguns delegados.

    Da a razo por que os debates foram acalorados. Havia in-compreenso e, principalmente, uma inteno secreta de sabotagem.

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    Contudo, os obstculos, naturais e provocados, foram logo removidos, graas firmeza e elevao demonstrada pela delegao do Brasil no encaminhamento das discusses sobre os diversos temas da agenda. Entre as oraes proferidas, uma das mais lcidas foi incontestavelmen-te a do Embaixador Jos Chiriboga, do Equador, que refletiu, com exa-tido, o que era, na realidade, a Operao Pan-Americana.

    "Estamos no perodo que se poder chamar de etapa dos continentes" - disse o Embaixador Chiriboga. "Terminou a era dos na-cionalismos fechados e estamos assistindo a um fenmeno de comple-mentao continental. A esto a Commonwealth britnica, o Mercado Comum Europeu, o Bloco Comunista, o Plano Colombo. E a Amrica, como continente, p que tem feito? Do ponto de vista jurdico e poltico, j avanou satisfatoriamente. Mas quanto complementao ou coo-perao econmica continental, somente agora comea a responder s so-licitaes das ideias novas." E referindo-se especialmente Operao Pan-Americana, ajuntou: "O grande mrito do Presidente Kubitschek, ao lanar a tese da Operao Pan-Americana, consistiu em plasmar em um apelo, em um documento, uma exigncia que estava latente em todos os nossos pases. A Operao Pan-Americana, como afirmou o presidente do Brasil, no um programa, uma poltica, e eu me atrevi a dizer que no apenas uma poltica, e sim uma filosofia. E, como toda filosofia, est fundamentada em princpios, em slidas bases. Esta nova filosofia continental, que se est chamando Operao Pan-Americana, tem funda-mentos sociolgicos, geogrficos, jurdicos, sociais, econmicos, polticos. No uma filosofia artificial, nem tampouco uma filosofia para um pe-rodo de emergncia, nem para ser usada somente em momento de crise. E uma filosofia para o presente e para o futuro; no tem durao de tem-po porque responde a uma esperana que no conhece limitaes, pois a luta pelo desenvolvimento dos povos dever ser permanente."

    Contudo, a reunio, ao se encerrar no dia 12 de dezembro, pde apresentar resultados concretos. Alm de diversas recomendaes todas vlidas e de grande alcance, o Comit dos 21 criou um Grupo de Trabalho do Programa de Desenvolvimento das Amricas, incumbido de elaborar um estudo, quanto possvel documentado, sobre providn-cias a serem tomadas objetivamente. Esse grupo teria trs meses - de 15 de janeiro a 15 de abril para desempenhar-se de sua tarefa.

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    O grupo, que foi dividido depois em quatro subgrupos estu-dou os problemas relacionados com os seguintes temas: l2) financia-mento do desenvolvimento econmico; 2) mercados regionais; 32) pro-dutos de base; 42) cooperao tcnica. Dos estudos procedidos pelos subgrupos resultaram 24 projetos de resoluo que constituram a agen-da da segunda reunio do Comit dos 21, a ser instalada, no dia 28 de abril de 1959, em Buenos Aires.

    Configurava-se, assim, o grande drama da Amrica Latina, que os EUA nunca compreenderam: os que a constituam ansiavam por bem-estar e progresso, mas, sem investimentos externos, viam-se obri-gados a lanar mo das emisses para o financiamento de seu prprio desenvolvimento. Da o crculo vicioso que asfixiava suas potencialida-des. A Operao Pan-Americana havia sido concebida com o objetivo justamente de fazer cessar essa contradio.

  • Tentativa de paralisar as obras

    . ^ . . ^ f f l abril de 1959, a bancada do PSD, no Senado e na C-mara dos Deputados, compareceu incorporada ao Catete, a fim de me manifestar seu apoio e solidariedade, em face da acirrada campanha que a Oposio vinha fazendo, no Congresso e pela imprensa, contra o go-verno. Aproveitei a oportunidade para definir meu pensamento poltico, no que dizia respeito sucesso presidencial. Declarei que no tinha preferncias pessoais, mas julgava que um candidato do PSD, quem quer que ele fosse, deveria ser um homem animado do "propsito de continuar a batalha pelo desenvolvimento". Manifestei, igualmente, mi-nha inteno de no intervir nas eleies, comportando-me em relao ao pleito como um magistrado.

    Em face desse discurso, movimentaram-se os partidos, ten-tando cada um, se no indicar desde logo seu candidato, pelo menos de-finir o sentido de suas preferncias. Jnio Quadros, deixando o governo de So Paulo e havendo sido eleito deputado pelo Paran, iniciara sua campanha como candidato sucesso presidencial. No se apresentava como representante de qualquer partido, mas a cada dia tornava mais evidente que se colocaria em oposio ao governo. A Frente Parlamen-tar Nacionalista, integrada por 180 deputados e senadores, agitava uma bandeira exclusivamente doutrinria. A aliana PSD-PTB, qual eu de-via minha eleio, estava sendo mantida, apesar dos crescentes atritos

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    entre alguns dos seus lderes, o que fazia prever a possibilidade de um rompimento por ocasio da escolha do meu sucessor.

    Todos esses fatos no deixavam de me preocupar. O que te-mia era que a campanha sucessria, radicalizando-se com o tempo, con-vulsionasse o pas e acabasse por me impedir de levar a bom termo mi-nha obra administrativa. Teria de agir com cautela. Nesse perodo, ou melhor, em junho, ocorreu um incidente entre o Deputado Meneses Cortes, da UDN, e o meu chefe de Polcia, o General Amaury Kruel, que resultou num desforo pessoal entre ambos. Minha interveno no caso foi no sentido de dar plena liberdade UDN para realizar uma in-vestigao sobre supostas irregularidades no Departamento Federal de Segurana Pblica e, em face da agresso de que havia sido vtima o seu representante, concedi exonerao ao General Amaury Kruel. A calma que se seguiu a esse desagradvel episdio no chegou a ser um armist-cio. Representou apenas uma pausa de tomada de posio, para que nova ofensiva fosse desfechada contra o governo. Dessa vez, o objetivo visado era Braslia.

    Desde algum tempo, eu sentia no ar que alguma coisa estava sendo tramada. No sabia, porm, do que se tratava. Pouco depois tudo se esclareceu. Em face da velocidade com que a nova capital estava sen-do construda, no permitindo qualquer dvida de que seria inaugurada na data prefixada, os oposicionistas articularam um plano para embara-ar o andamento das obras. Contudo, dada a popularidade que gozava Braslia, eles vinham chegando concluso de que uma campanha con-tra a cidade no sensibilizaria a opinio pblica. Em face disso, outra t-tica deveria ser adotada. Ao invs de se combater Braslia frontalmente, poderiam obter o mesmo resultado se conseguissem evitar que coubesse a mim a honra de fazer a transferncia do governo. E teve incio, ento, uma campanha, tendente a impedir o prosseguimento das obras em tempo recorde. Nesse sentido, nada melhor do que uma Comisso Par-lamentar de Inqurito.

    Ningum ignora o que uma investigao dessa natureza, quando o objetivo dos seus promotores no o de apurar alguma coisa, mas o de retardar tanto quanto possvel o desfecho da investigao. O procedimento conhecido: sucedem-se as inquiries de testemunhas; prolongam-se indefinidamente os debates sobre detalhes sem qualquer

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    importncia; requisitam-se livros de contabilidade; e exige-se a presena de quantos funcionrios forem julgados necessrios. E, enquanto isso estivesse ocorrendo no Rio, tudo estaria paralisado em Braslia - os di-retores da Novacap ausentes; os tesoureiros sem autorizao para fazer pagamentos; os empreiteiros sem saber como dar andamento s tarefas que lhes competiam. Seria, ento, a desordem. A confuso. A paralisa-o das obras. E, em face de tudo isso, a fuga do tempo e o consequen-te adiamento sitie die da inaugurao da nova capital.

    A campanha foi muito bem planejada. Tratava-se da mesma e antiga ideia, apenas apresentada sob nova verso. Ela teve incio logo que decidi construir a nova capital. Sua primeira verso fora consubs-tanciada num slogan, que parecia de fcil absoro pela massa: a inopor-tunidade. O Brasil atravessava um perodo de dificuldades, e seria me-lhor que se aguardasse poca mais oportuna para se fazer a transferncia da sede do governo. Entretanto, esse slogan no impressionara a opinio pblica. As obras tiveram incio, e Braslia j estava quase pronta. Em face do fracasso dessa primeira verso, alterou-se a ttica, adotando-se o critrio do contracondicional. Diziam os udenistas e suas palavras eram divulgadas pelos jornais engajados: "No somos contra Braslia. Somos contra a maneira como ela vem sendo construda." E reforavam a opi-nio, insinuando que at os tijolos, para as construes, eram transpor-tados por via area.

    O povo, fazendo mentalmente os clculos, compreendeu des-de logo o absurdo do que era veiculado. Cada avio poderia levar no mximo 300 tijolos e, em face disso, quantas frotas areas no avies isolados seriam necessrias s para a construo dos edifcios que se erguiam na Praa dos Trs Poderes? Havendo fracassado as duas primeiras verses da campanha, a UDN saiu, ento, para uma soluo mais con-creta, positiva: a Comisso Parlamentar de Inqurito. Forjaram-se de-nncias de irregularidades na Novacap e tiveram incio os entendimen-tos, nos bastidores do Congresso, para se obter o nmero regimental necessrio para a instalao da CPI.

    Assim, Braslia, com menos de dois anos de idade, j se trans-formara em objeto de uma batalha a ser travada entre a esmagadora maioria governista e uma pequena, mas aguerrida, Oposio. Ao contrrio do que se poderia prever, dada a desigualdade das foras em choque, as

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    perspectivas, contudo, no eram animadoras. E isso porque em face dos sucessivos atritos entre o PSD e o PTB - os dois partidos de sustenta-o do governo nas duas casas do Congresso era de se temer que as divergncias ocasionais, surgidas na apreciao de questes isoladas, pu-dessem transformar-se, com o tempo, em atitudes de franca hostilidade, fendendo, de alto a baixo, a aliana que me levara Presidncia da Re-pblica.

    Como no ignorava o intenso trabalho, realizado pela UDN, no sentido de aliciar o nmero regimental de membros para a instalao da CPI, dei instrues ao lder da maioria, o Deputado Abelardo Jure-ma, para que no s ficasse atento s manobras udenistas, mas, igual-mente, se esforasse por manter, sob rgida disciplina, a bancada situa-cionista. Entretanto, nem sempre as coisas acontecem como se deseja.

    A CPI CONTRA A NOVACAP

    Certo dia estava eu no meu gabinete e, para relaxar o esprito, liguei um rdio que possua sobre a mesa. A estao transmitia a realiza-o de uma sesso da Cmara. Ouvi, estupefato, o final de um discurso do Deputado Osvaldo de Lima Filho, lder do PTB, no qual era anunciada a adeso do seu partido constituio daquela CPI. O lder petebista esclarecera que tomava aquela atitude porque o governo no temia sin-dicncias e que, dada a insistncia do deputado udenista Carlos Lacerda, julgava melhor que se examinassem, de uma vez, as contas da Novacap, de forma a ficar provada, em definitivo, a lisura com que vinha agindo aquele rgo.

    Apesar do trabalho de coordenao, realizado pelo lder da maioria, Abelardo Jurema, tornava-se evidente que existiam dissenses no seio do bloco situacionista. Evitando ser pessimista, interpretei a atitude do Deputado Osvaldo de Lima Filho como de incompreenso do que signifi-cava, na realidade, a proposio da UDN. Em face disso, ordenei que fizes-sem uma ligao telefnica para o Palcio Tiradentes, a fim de que pudesse falar, imediatamente, com o Deputado Carlos Murilo, de Minas Gerais.

    Carlos Murilo demorou a ser encontrado; por fim, consegui falar-lhe. Disse-lhe o que havia ouvido pelo rdio e solicitei-lhe que

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    trouxesse ao telefone o Deputado Osvaldo de Lima Filho. Minha con-versa com o lder do PTB foi rpida. Osvaldo de Lima Filho descul-pou-se, declarando que agira daquela maneira por delegao do partido e que, se havia algum reparo a ser feito ao discurso, seria melhor que eu me entendesse, pessoalmente, com Joo Goulart, que era o presidente do PTB.

    Pela maneira como ele reagira minha advertncia, pude constatar que se tratava de uma atitude tomada com ntidos propsitos polticos. Embora no o confessasse publicamente, o PTB, na sua maio-ria, sempre fora contrrio mudana da capital. Julgava que a localiza-o do governo numa cidade ainda em formao seria um desastre para a agremiao que no poderia dispor, como acontecia no Rio, de volu-mosa massa de trabalhadores para mobiliz-la, a fim de pressionar as au-toridades e o Congresso, quando estivesse em jogo qualquer uma de suas habituais reivindicaes.

    Fiz uma ligao imediata para o apartamento do Vi-ce-Presidente Joo Goulart, que morava no Posto 6, em Copacabana. Disse-lhe que havia ouvido o discurso de Osvaldo de Lima Filho e que no poderia concordar, de forma alguma, com aquela atitude do PTB. Ningum, melhor do que ele - acrescentei - , sabia do meu interesse em fazer a mudana da capital no dia 21 de abril de 1960 e nisso estava em-penhado todo o Governo. O que Carlos Lacerda tinha em vista, na rea-lidade, no era a apurao de qualquer irregularidade, mas impedir, por meio da CPI, que a transferncia se fizesse na data marcada. Esclareci ainda que, quanto CPI propriamente dita, no tinha qualquer objeo a fazer. Sempre aceitara, e at estimulara, a fiscalizao da Oposio. Mas no iria me deixar envolver por uma manobra da UDN. E tanto no fazia objeo a uma sindicncia que assumia o compromisso de fa-zer com que o PSD assinasse um requerimento para a constituio de uma CPI, com o mesmo objetivo, mas no dia 22 de abril de 1960 - vin-te e quatro horas aps a transferncia da capital. Antes, lutaria contra a aprovao de qualquer medida, cujo objetivo seria o de forar um adia-mento da sua inaugurao.

    Fui veemente na minha explicao. Joo Goulart tentou mini-mizar o problema, esforando-se por me convencer de que a CPI no tinha aquela finalidade. Tratava-se, segundo afirmou, de mais uma atitu-

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    de demaggica de Carlos Lacerda, ditada por seu af de estar sempre na crista dos acontecimentos. O PTB havia concordado com a providncia - informou - porque julgara que seus resultados seriam benficos ao governo. Em face, porm, do que eu dissera, reformava sua opinio so-bre as finalidades daquela sindicncia; infelizmente, j era tarde para que o PTB pudesse voltar atrs.

    Percebi que Joo Goulart estava disposto a resistir. O Deputado Osvaldo de Lima Filho havia pronunciado seu discurso alguns momentos antes e as assinaturas para o requerimento s passariam a ser colhidas, naturalmente, no dia seguinte. Havia tempo de sobra, portanto, para uma contramarcha. No entanto, Joo Goulart alegava que era tarde demais para um recuo. Em face da sua atitude, fui franco e incisivo.

    Enquanto eu parlamentava com Joo Goulart, lanando mo at de ameaa de rompimento caso o PTB no voltasse atrs, outras d-marches tinham lugar no recinto da Cmara dos Deputados. O Deputado Carlos Murilo, aps nossa conversa pelo telefone, entendera-se com o lder da maioria, Abelardo Jurema, revelando-lhe o estado de.esprito em que me encontrava. Promoveram ento uma reunio para a discusso do assunto. Alm de Carlos Murilo e do lder Abelardo Jurema, estavam pre-sentes, entre outros, os deputados petebistas Osvaldo de Lima Filho, Almino Afonso e Srgio Magalhes. Por meio da discusso estabelecida, tornara-se patente a razo principal e oculta da rebeldia do PTB - o convite que eu havia feito a San Tiago Dantas, integrante daquele parti-do, para ocupar a Pasta da Agricultura.

    San Tiago Dantas, apesar de ser a mais expressiva figura do PTB, por sua inteligncia invulgar, por sua cultura jurdica e pela eleva-o da sua conduta no cenrio poltico, no afinava ideologicamente com aqueles seus correligionrios, e da o veto sua indicao. Trata-va-se, como se v, de uma desprimorosa barganha poltica e, portanto, difcil de ser contornada.

    Carlos Murilo, entretanto, tomou a peito enfrentar a situao. Procurou San Tiago Dantas e exps a situao com franqueza, dizen-do-lhe que o fazia por iniciativa prpria, adiantando, porm, que eu, em face do convite que j lhe havia feito, manteria a minha palavra, prefe-rindo romper com o PTB a tornar sem efeito o convite feito. San Tiago Dantas ouviu tudo com a fleugma que lhe era caracterstica, solicitando

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    apenas a Carlos Murilo para me comunicar que desejava me falar dentro de duas horas. Nesse encontro, San Tiago Dantas, dando mais uma prova da sua grandeza, entregou-me uma carta, agradecen-do o convite que lhe havia feito, e enumerando as razes que o obri-gavam a recusar a distino, entre elas; a de que seria candidato a vice-governador de Minas, o que iria obrig-lo a deixar a pasta num perodo inferior a um ano.

    Resolveu-se assim, em entendimentos em duas frentes, a gra-ve questo da CPI contra a Novacap. Apesar da ordem expressa de Joo Goulart, alguns petebistas recalcitrantes assinaram o documento. Ou-tros, que j haviam aposto suas assinaturas, reconsideraram sua atitude. A maioria, porm, negou-se a assinar, apesar do apoio do partido constituio da CPI, empenhado, em discurso no plenrio, pelo Depu-tado Osvaldo de Lima Filho. .

    Resultou dessa contramarcha que a CPI teve um voto a menos do total necessrio 109 assinaturas - para a sua constituio autom-tica. Jnio Quadros, candidato indireto da UDN sucesso presidencial, e ento deputado pelo Estado do Paran, encontrava-se em viagem pela Europa. Ao regressar, encontrou a referida situao na Cmara. Como o ex-governador de So Paulo j havia feito declaraes contrrias construo de Braslia, julgava-se que ele no se negaria a dar a sua assi-natura para completar aquele total regimental. Jnio Quadros, porm, no agiu de acordo com o desejo dos udenistas, e, em face da sua atitude, evi-tou-se uma nova crise poltica que poderia transtornar, contra o governo, o j ento conturbado cenrio da sucesso presidencial.

    A CONFERNCIA DOS 21 EM BUENOS AIRES

    Em abril de 1959 - no obstante continuar exercendo uma fiscalizao rigorosa sobre tudo o que se fazia no Planalto eu acompa-nhava, com o mais vivo interesse, o que ocorria na reunio da Comisso dos 21, em Buenos Aires. A razo desse interesse: o objetivo da confe-rncia era a estruturao da Operao Pan-Americana.

    A composio das delegaes apresentou, de modo geral, n-vel hierrquico bem mais elevado. Alm de Fidel Castro, primei-

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    ro-ministro de Cuba, ali estavam presentes dois ministros de Relaes Exteriores (Uruguai e Venezuela); dois ex-chanceleres (Colmbia e Guatemala); um presidente de Senado (Chile); um ministro da Economia (Cuba); e trs subsecretrios de Relaes Exteriores (Argentina, El Sal-vador e Paraguai); o que dava a medida da crescente significao da Operao Pan-Americana.

    O Presidente Frondizi, inaugurando a conferncia, analisou a situao da Amrica Latina e ressaltou que a desigualdade de nvel entre os povos da parte norte e da do sul do Hemisfrio constitua um pro-blema cuja gravidade transcendia o mbito do continente e punha em jogo "o destino da democracia".

    O chefe da delegao do Brasil, Augusto Frederico Schmidt, depois de recordar os motivos essenciais da Operao Pan-Americana, isto , a necessidade de se dar ao pan-americanismo um contedo eco-nmico, capaz de sustentar um arcabouo poltico, projetado de longa data, sem nunca haver passado para o terreno das realizaes concretas, afirmou: "Nunca ser demais reafirmar que a natureza da Operao Pan-Americana eminentemente poltica e que o pensamento poltico deve sempre informar a nossa ao."

    Salientou, contudo, que a OPA no poderia ser considerada vi-toriosa sem que se estabelecesse a natureza dos males econmicos do con-tinente e se apontassem os remdios para san-los. E acrescentou com n-fase, arrancando aplausos do plenrio: "No h povos predestinados sujeio, pobreza, como no h povos eleitos para a prosperidade."

    Thomas Mann, delegado norte-americano, enumerou, em se-guida, as providncias, adotadas pelo seu pas, em apoio da Operao Pan-Americana: completa adeso criao do Banco Interamericano de Desenvolvimento; aumento de dois bilhes de dlares no capital do Ban-co de Exportao e Importao; aumento substancial dos recursos do Fundo Monetrio Internacional; proposta de duplicao da capacidade de emprstimo do Banco Internacional; criao do Fundo de Emprstimos para Desenvolvimento; apoio aos esforos latino-americanos para esta-belecimento do mercado comum; cooperao ativa com os pases pro-dutores de caf; concordncia, atravs do GATT, com propostas de algu-mas naes do continente, para restringir a importao de certas merca-dorias, a fim de proteger suas indstrias incipientes; maior volume de

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    emprstimos pblicos e privados; maior contribuio nos planos de as-sistncia tcnica, e, finalmente, elaborao de um programa de garantia para os investimentos, que j haviam beneficiado mais da metade das re-pblicas latino-americanas.

    Todas essas medidas, e outras mais, segundo o Sr. Thomas Mann, seriam tomadas pelos Estados Unidos, no porque "o seu pas temesse o Bloco Sovitico, mas porque o governo norte-americano de-sejava verdadeiramente participar, com toda sua capacidade, na concre-tizao do nosso apelo pelo ideal comum de que a Amrica - a Amrica toda se convertera numa regio de paz e progresso".

    Fidel Castro causou verdadeiro impacto na conferncia, dan-do a dimenso do auxlio financeiro que deveria ser proporcionado Amrica Latina: 30 bilhes de dlares.

    O que conclu era que se tratava de um idealista amargurado, que sofrera na carne as consequncias do apoio dado pelos Estados Unidos s ditaduras militares na Amrica Latina. Nesse tempo, Fidel Castro no revelara ainda sua adoo do credo marxista-leninista. Vivia o drama de se definir, de optar entre a democracia e o totalitarismo. A Cuba que lhe chegara s mos era um pas marcado por uma longa tra-dio de tirania. O povo, que sofrera o garrote do regime de Batista, no conseguia separar a trgica realidade da situao interna do apoio irres-trito de Washington ao opressor do pas. A indstria aucareira, a gran-de riqueza da ilha, estava nas mos dos norte-americanos, e todo o co-mrcio de exportao fazia-se atravs de um esquema de espoliao, que s proporcionava aos "nativos" como os milionrios dos EUA cha-mavam os cubanos - as migalhas do banquete imperialista.

    Os EUA, preservando sua falta de tato, acabaram perdendo no s as usinas, como o bom negcio da exportao do acar. E, no que dizia respeito sua tradicional rea de influncia, provocaram a fragmentao da unidade poltica do continente. Lnin costumava dizer que os norte-americanos, em face de um problema, pensam apenas no lucro da venda da corda, esquecidos de que ela seria utilizada para en-forc-los... Devo recordar, aqui, minha entrevista com Fidel Castro, o que no deixa de ser pitoresco. Fui receb-lo no aeroporto e o levei para ver a nova capital. Extasiou-se em face do que lhe foi dado contemplar. Viu tudo. Examinou tudo. Fez mil perguntas. Quando a excurso che-

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    gava ao fim, deixou-se ficar calado, os olhos postos na paisagem cinzen-ta do Planalto.

    Quando chegamos ao Palcio da Alvorada, senti que j se ha-via reencontrado e que, outra vez, era o dono de si mesmo. Sentados na biblioteca do palcio, tentei um dilogo, a fim de atra-lo para a Opera-o Pan-Americana. Mas no consegui. Fidel Castro no compreende o dilogo. homem de monlogo. Falou durante horas seguidas, quase sem tomar flego. A uma hora da tarde, tentei interromp-lo para orde-nar que servissem o almoo. Impossvel. A todo gesto que fazia, ensai-ando levantar-me, segurava-me pelo brao e falava com maior veemn-cia. Um garom, que entrou por acaso na biblioteca, salvou, porm, a si-tuao.

    Passamos para a sala de almoo. Os convivas eram numero-sos, pois ele viajava com uma grande comitiva. Entre os presentes, esta-va uma guerrilheira que o acompanhara desde a Sierra Maestra at Ha-vana. O monlogo prosseguiu. Eu havia convocado Negro de Lima, que era o ministro do Exterior, para enfrentarmos juntos aquela batalha diplomtica. Negro tentou uma ou duas vezes entrar na conversa, mas Fidel Castro no lhe deu ouvidos.

    O almoo s terminou trs horas depois. Sentia-me exausto. Tambm estvamos em cima da hora, para seguirmos para o aeroporto. Tomamos o helicptero outra vez. Mal ganhamos altura, a paisagem de Braslia, agindo como um agente catalisador, fez com que ele voltasse de sbito realidade. At ali, era um iluminado que falava. Pregava o que lhe parecia justo, sem se preocupar com o efeito do que dizia.

    Braslia, contudo, tivera o efeito de traz-lo de volta ao meio ambiente. Contemplou-a outra vez longamente. Demoradamente. E dis-se-me, quase com uno na voz: "E uma felicidade ser jovem neste pas, Presidente." Fez-se ento um longo silncio entre ns. Enquanto as h-lices do helicptero giravam, s o futuro falava l embaixo.

    Na poca, Fidel Castro era apenas uma expresso do incon-formismo latino-americano em face da insensibilidade dos EUA. A dita-dura de Batista desempenhara o papel que Washington lhe prescrevera: suprimir as liberdades internas, de forma que fossem melhor atendidos os interesses dos EUA. Fidel Castro diagnosticou o mal, e fez supurar o tumor.

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    Poderia haver sido recuperado para a democracia, mas Washington, insistindo em mostrar-se surdo s reivindicaes de Havana, criou as condies para a germinao e posterior formao do primeiro Estado comunista no continente.

    Na sesso de encerramento, Augusto Frederico Schmidt vol-tou a falar sobre a evoluo dos acontecimentos em torno da Operao Pan-Americana e sobre as solues preconizadas para os muitos proble-mas continentais.

    Suas palavras j acusavam um acento de angstia. Refletiam a apreenso de quem, informado sobre o que se comentava nos bastido-res, sabia que, contra a vontade do Presidente Eisenhower e do Secret-rio de Estado Foster Dulles, j se tramava nos altos crculos do Gover-no de Washington o congelamento da Operao Pan-Americana.

    O movimento desencadeado por mim e que, em pouco tem-po, se convertera numa verdadeira cruzada, congregando e empolgando todas as naes latino-americana, no era do agrado dos defensores da tradicional poltica de conservar a Amrica Latina apenas como o "quin-tal dos Estados Unidos", segundo a expresso de Kennedy. O que falta-va para torpedear-se a OPA era um motivo. Um pretexto. Uma razo que, por si mesma, se justificasse, dispensando explicaes.

    E esta surgira com a revoluo de Fidel Castro. Em face dela, o esquema de espoliao, desde muito em funcionamento, fora quebrado. Acusara uma brecha que era imprescindvel reparar-se. A OPA, considera-da na sua expresso verdadeira, era um movimento de rebeldia, integrado no apenas pelos habitantes de uma ilha, como fora a revoluo de Cuba, mas por todas as naes do continente. A soluo seria o congelamento, o adiamento indefinido das solues, o imobilismo pela burocratizao.

    Em Buenos Aires, o Comit dos 21 aprovara 24 projetos de resoluo e ficara decidido que se realizaria uma terceira conferncia em Bogot em setembro de 1960. Estabeleceu-se o longo perodo de dezes-seis meses para que os delegados das naes do continente se reunissem de novo - tempo mais do que suficiente para que fosse executado o pla-no, j tramado em Washington, de se desfazer no esprito dos lati-no-americanos a preocupao por seu bem-estar e, sobretudo, o anseio por seu desenvolvimento.

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    Em face do desafio de Cuba o Departamento de Estado ado-tou, em relao OPA, a poltica ditada pelos grupos financeiros da Wall Street: j que havia uma ovelha tresmalhada, ao invs de se tentar recuper-la, que se sacrificasse o rebanho inteiro.

    Da o acento de apreenso - que era um misto de interpela-o enrgica e dvida - do discurso de Schmidt: "De qualquer maneira, com ou sem auxlio dos que esto em condio de ajudar-nos, no nos conformamos, no aceitamos a estagnao econmica e a misria para milhes de americanos. Falamos em nome de um mundo livre, que de-seja continuar livre; falamos em nome de muitas angstias, mas tambm de muitas esperanas."

    PLANO DE ABASTECIMENTO CIDADE

    Em maro de 1959 - dois anos justos aps a chegada do pri-meiro grande trator rea do Plano Piloto - Braslia j era uma cidade. Todos os seus componentes urbanos estavam em concluso, dependen-do apenas das demoradas obras de acabamento. A nova capital, porm, no constitua, to-somente, uma sucesso de edifcios erguidos ao longo das ruas e avenidas j inteiramente pavimentadas. Passara a funcionar, igualmen-te, j que havia sido elaborada e se encontrava em concluso a execuo do seu Plano Educacional, do seu Plano Mdico-Hospitalar e do seu Plano de Comunicaes. Alm disso, a rea do Plano Piloto j dispunha de uma popu-lao superior a algumas das capitais dos Estados nordestinos.

    De acordo com elementos preliminares do Censo Experi-mental de Braslia, realizado nos trs primeiros meses de 1959, a cidade j contava com 65.288 habitantes, o que demonstrava que a nova capital revelava surpreendente crescimento demogrfico.

    Braslia crescia dobrando anualmente sua populao. Na po-ca esse desenvolvimento demogrfico tinha por base apenas os traba-lhadores nas obras, os pequenos comerciantes estabelecidos na Cidade Livre, enfim, os verdadeiros pioneiros que haviam escolhido o Planalto Central, para nele iniciarem uma vida nova. Esse crescimento populaci-onal era espontneo, tendo por motivao o aproveitamento das opor-tunidades de trabalho que as obras ofereciam.

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    A nova capital, como j disse, estava localizada numa regio no muito prpria para a agricultura, de terra semi-rida, calcria, difcil de ser cultivada. O solo frtil s aparecia nas proximidades de Anpolis, quando a altitude cai de mais de mil metros acima do nvel do mar, como acontece em Braslia, para seiscentos metros na zona denominada Mato Grosso de Gois, nas imediaes daquela cidade goiana. Nessa re-gio eram fartas as colheitas de arroz, de feijo e de caf, sem se contar o seu rebanho bovino, dos maiores do Planalto Central.

    Em face da proximidade de Anpolis - 120 quilmetros - , nunca se fizera sentir em Braslia, mesmo no perodo tumultuado do in-cio das obras, qualquer escassez de vveres. Depois da abertura da Ro-dovia Anpolis-Braslia, a situao, no que dizia respeito ao abasteci-mento, melhorara sensivelmente para os habitantes da nova capital. Verdadeiras frotas de caminhes trafegavam ao longo desta estrada, transportando o que se fazia necessrio para o abastecimento do comr-cio da Cidade Livre.

    Esse abastecimento, porm, conquanto mais ou menos regu-lar, estava sujeito s deficincias naturais de uma agricultura ronceira. Existiam os chamados perodos de entressafra, quando decaa substan-cialmente o fluxo dos gneros alimentcios. Nessas ocasies, retraa-se consequentemente o comrcio da Cidade Livre.

    Uma capital moderna e revolucionria, como Braslia, no po-deria ficar sujeita a tais oscilaes. Seu abastecimento teria de ser racio-nalmente programado, de forma a evitar-se a ocorrncia de desnveis no fluxo dos gneros alimentcios. Da minha deciso de ordenar Novacap que solucionasse, antes da inaugurao da cidade, esse impor-tante problema.

    O Departamento de Terras e Agricultura ps-se logo em ati-vidade. Seus trabalhos tiveram por base os estudos tcnicos realizados pela firma norte-americana Donald J. Belcher and Associates. Para a instalao dos agricultores que chegavam a Braslia, em grande nmero, o departamento destinou, inicialmente, no programa do seu primeiro ano de trabalho, uma rea de 30.000 hectares. Essa rea, dividida em re-gies agrcolas, foi retalhada em lotes destinados a arrendamento.

    A primeira regio loteada foi denominada Vargem da Bno, onde, em 1959, j se encontravam 42 granjas particulares. A assistncia

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    aos agricultores era promovida pela Diviso de Crdito, Assistncia Ru-ral e Abastecimento do DAA, atravs dos convnios denominados ETA-34, ETA-44, Florestal, firmados com o Escritrio Tcnico da Agricultura (brasileiro-norte-americano) e o Ministrio da Agricultura, incumbidos de fomentar, respectivamente, a produo animal e floresta-mento e reflorestamento do novo Distrito Federal.

    Cada regio agrcola disporia de um mercado, denominado Mercado do Produtor. A localizao desses mercados decorreu de um estudo detalhado de cada regio, para situ-los em timas condies de acesso aos produtores que deles se serviriam.

  • A Universidade de Braslia

    _ _ ^ L _ ^ ^ n q u a n t o as obras em Braslia obedeciam rigorosamente ao cronograma prefixado, batendo sucessivos recordes de velocidade, os tcnicos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econmico, cum-prindo determinaes minhas, dedicavam-se ao estudo e ao equaciona-mento do problema do Nordeste.

    Tudo fora tecnicamente planejado, tendo em vista evitar-se que ocorressem, no novo Distrito Federal, os velhos problemas que afligem os grandes centros urbanos. O Plano de Abastecimento foi elaborado por tcnicos de grande experincia, como Benjamin Cabello, Joaquim Tavares e L. Albuquerque, sob a superviso do diretor da Novacap, ris Meinberg. O plano, que ficara estruturado em fins de 1958, comportava trs elementos principais: a) a unidade socioeconmi-ca rural; b) o centro de abastecimento; e c) os supermercados.

    Era meu representante junto ao grupo de trabalho o chefe da minha Casa Civil, o diplomata Jos Sette Cmara. Concludos os estudos, convoquei uma reunio dos governadores dos Estados nordestinos, a fim de dar-lhes conhecimento das providncias tomadas. Esse encontro teve lugar no dia 16 de fevereiro de 1959, no Palcio do Catete.

    Durante a reunio fiz um retrospecto do que o governo havia levado a efeito na regio e expus o programa elaborado e que depen-dia de aprovao legislativa para solucionar, de forma definitiva, os

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    problemas da conjuntura nordestina. A ideia, que merecera minha apro-vao, fora a criao de uma entidade flexvel e eficiente, que pudesse impulsionar a ao administrativa em curso, dando-lhe perspectiva e continuidade, alm de executar projetos especficos, enquadrados nos esquemas oficiais ou particulares de financiamento. Nesse sentido, anunciei o envio ao Congresso de uma mensagem, com o respectivo projeto de lei, que criava a Superintendncia do Desenvolvimento do Nordeste - e que ficaria conhecida pela sigla Sudene - , dotada de recur-sos prprios, representados por fundo rotativo de um bilho de cruzei-ros, a ser utilizado em projetos constantes de um plano-diretor, e que estaria diretamente sob a superviso e a fiscalizao do Presidente da Repblica.

    Encerrei minha exposio declarando que a colaborao do governo federal com as administraes estaduais no se encerrava com a elaborao daquele projeto. Prosseguiria at o ltimo dia do meu quin-qunio e, como o problema tratado estava intimamente ligado ao futuro do Brasil, deveramos obedecer a todas as inspiraes da realidade. Assim, o plano permaneceria aberto a quaisquer sugestes e colabora-o da experincia dos que estavam familiarizados com a conjuntura nordestina.

    Os Estados que seriam beneficiados pela Sudene eram Per-nambuco, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraba, Rio Grande do Norte, Cear e Piau. O Maranho, pertencendo chamada zona mida, inicialmente no fora includo no plano. O Governador Matos Carvalho procura-ra-me e solicitara que inclusse, tambm, o seu Estado, cujas dificulda-des eram notrias, e atendi ao pedido.

    Como se v, eu no cuidava apenas de construir Braslia. Ao lado dessa tarefa - que j era assustadora tomei as providncias neces-srias, e com a indispensvel antecedncia, para faz-la funcionar logo aps a inaugurao. Da os planos especficos, j referidos: o Educacio-nal, o Mdico-Hospitalar e o do Abastecimento

    No que diz respeito ao Plano Educacional, h uma explicao que cumpre ser dada. Dele, no constava qualquer referncia ao curso universitrio. A razo: a criao da Universidade de Braslia deveria ser tratada parte, j que ela deveria constituir, como fora pensamento do

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    urbanista Lcio Costa, um dos fatores que converteriam Braslia em um "foco de cultura dos mais lcidos e sensveis do pas".

    A universidade, ou melhor, a Cidade Universitria j que no seria apenas uma instituio, mas um conjunto de unidades culturais - , teve sua localizao apropriada na ordenao dos diferentes setores ur-banos, devendo ser inserida no meio de um parque, para melhor ambi-entao da biblioteca, dos museus, do planetrio outros elementos constitutivos do que foi denominado, no Plano Piloto, Setor Cultural.

    Sendo assim, a Universidade de Braslia no poderia ser con-cebida antes que a cidade atingisse certo estgio da construo o do seu acabamento. De qualquer forma, j que se tratava de uma obra da maior importncia para o futuro da cidade, no deixei de tomar, ainda em 1959, algumas providncias, tendentes a, pelo menos, corporificar em uma ideia o que ela deveria ser. Troquei impresses com o ministro da Educao e Cultura, Clvis Salgado, e a concluso a que chegamos foi a de que os tcnicos, recrutados para essa tarefa, deveriam ter a maior liberdade de ao possvel, de forma a evitar-se que, sob a presso da tradio e da burocracia, a obra a ser concebida no se enquadrasse no esprito revolucionrio, que era a caracterstica de tudo quanto vinha sendo realizado em Braslia.

    Do meu entendimento com o Ministro Clvis Salgado resul-tara a escolha do tcnico que se incumbiria da tarefa: o Professor An-sio Teixeira. Tratava-se de um idealista, profundo conhecedor das me-lhores tcnicas educacionais, e de um intelectual, dotado de viso uni-versalista do papel que competia juventude desempenhar, em face dos desafios do mundo moderno. S essas qualidades assegurariam, de ante-mo, a realizao dos dois objetivos prioritrios da universidade a ser criada: renovao de mtodos e concepo de um ensino voltado para o futuro.

    PRIMRDIOS DA CAMPANHA SUCESSRIA

    Em meados de 1959, o ambiente nacional j se apresentava mais ou menos tranquilo, aps a agitao provocada pela execuo do Plano de Estabilizao Monetria, exigido pelo FMI. A efetivao de Se-

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    bastio Pais de Almeida na Pasta da Fazenda, em substituio a Lucas Lopes, que se demitira por motivo de sade, depois de me ter prestado relevantes servios, ajustou-se igualmente ao esprito do governo. Merc de algumas medidas sugeridas pela conjuntura, disciplinou-se, em um ritmo regular e satisfatrio, o custo de vida. A produo industrial vol-tou aos seus antigos nveis. E o comrcio, sentindo-se desafogado, lan-ou planos de vendas acessveis, o que estimulou o consumo.

    Apesar dessa melhoria na rea das finanas, logo surgiram al-guns problemas no cenrio poltico. A reforma ministerial, que eu em-preendera na oportunidade, no fora bem recebida em alguns setores da atividade partidria. Esperava-se que eu organizasse um Ministrio ten-do em vista a sucesso presidencial. Em vez disso, o que fiz foi compor uma equipe administrativa de minha absoluta confiana, de forma a as-segurar a execuo do Programa de Metas, mesmo por meio das inevit-veis agitaes de uma campanha sucessria.

    Na rea situacionista, o candidato que, desde muito, se impu-nha era o General Teixeira Lott, ministro da Guerra. Tinha o apoio do PSD, do PTB, do PR e do agrupamento poltico denominado Frente Parlamentar Nacionalista. Como candidato da Oposio, insinuava-se Jnio Quadros, ex-governador de So Paulo, que vinha realizando uma poltica de contedo exclusivamente pessoal, desvinculada de qualquer compromisso partidrio. Falava-se, tambm, em Ademar de Barros, en-to prefeito da capital de So Paulo e veterano de pleitos presidenciais.

    Conforme eu havia dito aos integrantes das bancadas do PSD, por ocasio da manifestao que me fizeram durante o ms de abril, minha atitude, em face do pleito, seria de absoluta neutralidade. Mas acrescentei, em uma advertncia direo dos partidos que me apoiavam, que seria ocultar a verdade dizer que qualquer candidatura me era indiferente. J que os pessedistas ainda no se haviam fixado em um nome, insistia em dizer-lhes que o candidato deveria ser um homem animado do propsito de continuar a batalha pelo desenvolvimento, pois s uma continuidade nessa orientao poderia levar o Brasil sua redeno econmica.

    O General Teixeira Lott no era pessedista, ou melhor, no era poltico. Defendia teses que haviam sido formuladas pela Frente Parlamentar Nacionalista. Da o. lanamento de sua candidatura pela

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    Frente, homologada depois pelo PSD. Contudo, para se chegar a esse resultado, um longo caminho teve de ser percorrido. No incio, dizia-se que o General Lott seria indicado pelo PSD, mas que a Frente Parla-mentar Nacionalista, cujos integrantes pertenciam a diferentes partidos, iria reivindicar para si essa iniciativa. Nessa ocasio, Bias Fortes, gover-nador de Minas Gerais, veio ao Rio, a fim de trocar ideias comigo sobre o problema.

    Nesse encontro, expus meu pensamento com a maior sinceri-dade. Julgava excelente a candidatura do General Teixeira Lott, mas, no sendo ele poltico, e afeito disciplina militar, no acusava a malea-bilidade exigida pelos vaivns do jogo eleitoral. De qualquer forma, po-rm, como chefe do Governo, no me competia escolher e lanar no-mes. Iria presidir ao pleito como magistrado, de forma a dar um exem-plo ao povo e opinio pblica internacional de que, no Brasil, se prati-cava a verdadeira Democracia.

    Bias Fortes revelou o contedo dessa conversa a alguns jor-nalistas e, em consequncia, precipitou-se a discusso do problema su-cessrio. Enquanto se agitavam os crculos polticos, eu cuidava da re-forma ministerial. Aquela altura, dado o fortalecimento da minha posi-o poltica, j no tinha necessidade de enquadrar a administrao em um esquema partidrio, recrutando ministros no seio das foras que, at ento, vinham-me apoiando. Fiz as escolhas livremente, atento, to-somente, s necessidades do pas.

    Essa minha atitude havia sido ditada pela convico de que uma nova era se iniciava para o pas. Desde que assumira o governo, tive em mente realizar um programa desenvolvimentista, em um regime de plenas franquias constitucionais. Da a razo por que, no mesmo dia da minha posse, suspendi a censura imprensa e s rdios e televises e encaminhei ao Congresso uma mensagem abolindo o estado de stio, decretado pelo meu antecessor, Nereu Ramos.

    Esse gesto de concrdia desorientou os adversrios, que haviam apregoado que meu governo seria revanchista. Por ocasio do episdio de Jacareacanga, ocorrido ainda no incio de 1956 - quando alguns aviadores se rebelaram , em vez de punir os sediciosos, concedi-lhes anistia. Alm dessas medidas, que expressavam um sincero desejo de pacificar o pas, traumatizado pelos acontecimentos que se seguiram ao

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    suicdio do Presidente Getlio Vargas, aceitei a demisso de dois chefes de Polcia - os Generais Magessi e Amaury Kruel - , meus amigos pes-soais, s porque em determinadas emergncias teriam agido ao arrepio da lei de imprensa. Ao lado desse comportamento, que era nitidamente democrtico, nunca deixei de pregar, com uma insistncia que surpreen-dia os prprios adversrios, meu propsito de acatar os direitos de livre crtica da Oposio, quer apurando as denncias que ela fizesse, quer fa-cilitando-lhe a tarefa de investigar o que julgasse necessrio.

    Essa atitude, com o passar do tempo, deu resultados positi-vos. Verificou-se um geral desarmamento dos espritos e, com a rea poltica assim saneada de ressentimento, o Programa de Metas ia sendo executado a rigor, com muitas delas j ultrapassadas. Contudo, ao se es-boar o problema sucessrio, ampliei a preocupao pacifista, procuran-do emprestar-lhe dimenso extrapartidria. At ento, agira tendo em vista o meu prprio governo. Procurara estabelecer um clima de paz in-terna, para poder administrar. Naquela oportunidade, porm - meados de 1959 - , passei a pensar no futuro poltico do pas, j que as sucessi-vas agitaes polticas, e que vinham desde o suicdio de Getlio Vargas, certamente iriam impedir - se se renovassem - a colheita dos frutos do programa desenvolvimentista que vinha realizando.

    Preocupado com o futuro do pas, concebi, ento, um plano, que era indito na nossa vida poltica. Minha ideia era a de proporcionar UDN uma oportunidade de exercer o governo, no por meio das suas habituais preocupaes de golpe, mas democraticamente, tendo sua vit-ria sancionada pelo voto popular. Nesse sentido, realizei diversas con-versaes com Juraci Magalhes, ento presidente da UDN e governa-dor da Bahia.

    J que no iria interferir no pleito, sugeri-lhe que se candida-tasse minha sucesso, pois as eleies seriam disputadas em um clima de integral liberdade. O PTB j tinha dado um presidente - Getlio Vargas - , o PSD estava representado por mim no poder e, levando em conta que esses dois grandes partidos j tinham governado o pas, nada mais justo, portanto, que a UDN tambm fosse levada chefia do go-verno, com apoio do PSD e do PTB, com cujos lderes eu conversaria.

    Prometi a Juraci Magalhes auxili-lo nessa tarefa, esforan-do-me por dissipar as inevitveis resistncias dentro dos Partidos, mas,

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    para isso, seria necessrio que ele tambm cooperasse, elegendo um amigo para a presidncia da UDN, uma vez que o seu mandato ia fin-dar. Juraci concordou com a sugesto. Magalhes Pinto, o novo presi-dente, era mineiro e homem aberto ao dilogo, com quem se poderia conversar. Trocamos ideias sobre a tese e Magalhes Pinto, embora concordando comigo, manifestou seu receio de que Carlos Lacerda im-pedisse a concretizao do plano.

    Enquanto prosseguiam nossos entendimentos, percebi que o novo presidente da UDN, embora de acordo, em princpio, com a mi-nha sugesto, no conseguiu se livrar do receio que tinha de Carlos La-cerda, que era uma espcie de ditador no seio do partido. E esse receio crescia medida que se aprofundavam nossas conversaes. Lacerda, talvez informado sobre o que se passava, viajou precipitadamente para So Paulo e ofereceu o integral apoio da UDN a Jnio Quadros, caso este se candidatasse minha sucesso. Frustrou-se, assim, o plano que havia concebido para dar ao partido da oposio uma chance de chegar ao poder, fazendo-o, porm, legitimamente, por meio das urnas.

    Constitudo o novo Ministrio, logo surgiram as primeiras re-sistncias a alguns de seus integrantes. A Frente Parlamentar Nacionalis-ta mostrou-se inconformada com as escolhas de Sebastio Pais de Almeida, para o Ministrio da Fazenda, e Horcio Lfer, para a Pasta do Exterior. Acreditavam os frentistas que ambos estavam vinculados no politicamente, mas por interesses comerciais, j que eram industriais em So Paulo - ao futuro poltico de Jnio Quadros. O PTB, do seu lado, no disfarava a frieza com que encarava a candidatura Lott, em face de sua evidente fraqueza eleitoral. Julgavam alguns dos seus prce-res que, adotando aquela candidatura, o partido, que vinha crescendo satisfatoriamente, iria perder as posies at ali conquistadas e proje-tar-se-ia, aos olhos do pblico, como o grande derrotado nas eleies presidenciais.

    Complicava-se, pois, o xadrez poltico. Havia um outro fator de perturbao das boas relaes que deveriam reinar entre petebistas e pessedistas: Leonel Brizola. Eleito governador do Rio Grande do Sul, esposara a tese nacionalista, com sua habitual veemncia, e logo passara a criar desagradveis casos polticos. Quando Lucas Lopes ainda era mi-nistro da Fazenda, escrevera-lhe uma carta, redigida em termos desabri-

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    dos, na qual declarava que "estava falida a poltica financeira" por ele executada.

    Isso foi o comeo. Com a escolha de Sebastio Pais de Almeida, em substituio a Lucas Lopes, Brizola tornara-se ainda mais afoito. No se contentava em divergir do governo federal, mas pretendia fazer imposies, o que sempre ignorei. Chegavam-me informaes de que passara a conspirar contra a ordem estabelecida, tentando articular com o General Osvino Alves, comandante do III Exrcito, um golpe de es-tado. Nessa ocasio, Joo Goulart encoritrava-se na Europa. Embora in-formado sobre o que se tramava, decidi aguardar o regresso do lder pe-tebista para examinarmos, em conjunto, a situao na rea situacionista.

    Enquanto me mantinha nessa atitude de expectativa, tolda-vam-se, a olhos vistos, os horizontes polticos. Dentro do PSD, existiam diversos lderes contra a candidatura Lott e se declararam em dissidncia contra a direo nacional do partido os diretrios regionais de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Par e Santa Catarina. Se o PSD assim se comportava, de um lado, a Frente Parlamentar Nacionalista, do outro lado, assumia uma atitude de franco desafio ao governo ao promover, no Congresso, a abertura de um inqurito sobre a indstria de vidro pla-no, cujo objetivo era atingir o Ministro da Fazenda, Sebastio Pais de Almeida, industrial nesse ramo.

    Nesse cenrio poltico agitado, crescia cada vez mais a candi-datura Jnio Quadros. Diversos fatores se conjugaram para compor uma imagem do ex-governador paulista simptico ao eleitorado. Nin-gum o conhecia bem, e a impresso que seu governo em So Paulo ha-via deixado era a melhor possvel. No entanto, essa impresso fora de-terminada por circunstncias alheias sua atividade administrativa. O programa de industrializao, que eu vinha realizando, tinha beneficiado enormemente o Estado bandeirante. E isso porque seu parque fabril, j desenvolvido, oferecera condies de aparelhamento tcnico e de dispo-nibilidade de mo-de-obra qualificada adequadas a melhor rendimento industrial. E como uma coisa chama outra, no rastro das fbricas que se fundaram, sob o estmulo do governo federal, outras atividades tiveram incio, transformando por completo, em poucos anos, a fisionomia eco-nmica do Estado. Para se ter uma ideia da onda de progresso por que

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    passara So Paulo, na poca, basta dizer que, em trs anos, sua receita duplicara.

    Jnio Quadros foi o beneficirio desse surto desenvolvimen-tista, impulsionado pelo governo federal. Assim, quando se abrira a questo sucessria, ele se projetara como um candidato natural.

    No momento - meados de 1959 - ele realizava uma viagem pelo exterior e seus reflexos no deixavam de impressionar a opinio p-blica. Os jornais publicavam fotografias suas em Moscou, no Cairo, em Tquio, em Capetown, em Istambul, quase sempre usando aquele fa-moso pijnio, copiado do Coronel Nasser, do Egito. Era o mesmo "ho-mem do povo", que odiava as formalidades - o mesmo vereador, de Vila Maria, que havia granjeado enorme popularidade, comparecendo aos comcios sem gravata. E a imagem, caprichosamente elaborada, im-pusera-se, aos poucos, ao Brasil. Formara-se, ento, a crena de que o ex-governador era uma revelao, um iluminado, uma figura carismti-ca, surgida para fazer a redeno do pas.

    A sucesso, antes de se abrir, j me preocupava. Temia que, por suas implicaes imprevistas, ela pudesse solapar todo o esquema de pacificao nacional que, com tanto cuidado, eu vinha realizando. Decidi, pois, enfrentar os problemas, atacando-os simultaneamente em todos os fronts. Chamei os integrantes da ala Moa do PSD e disse-lhes que o que estava ocorrendo era uma indbita interferncia, por parte do Congresso, na rea de competncia privativa do presidente da Repbli-ca. Em fase disso, no aceitava nem tolerava que a Frente Parlamentar Nacionalista pretendesse impor ministros. Como a Frente era integrada por parlamentares de diferentes partidos, nada tinha a dizer em relao aos que no faziam parte do esquema governista. Mas, quanto aos que eram pessedistas e, portanto, meus correligionrios, considerava aquela atitude uma traio aos princpios pelos quais vnhamos lutando e, con-sequentemente, se insistissem em desafiar a minha autoridade, seriam tratados, dali em diante, como adversrios. Quanto aos elementos do PSD, que se mostravam contrrios candidatura Lott, realizei conversa-es e consegui, igualmente, trazer de volta ao aprisco as ovelhas tres-malhadas.

    Consolidou-se, dessa forma, a candidatura Lott, no que dizia respeito rea pessedista e dos demais, associados. Entretanto, prosser

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    guiam a indeciso, o alheamento e a frieza dos petebistas, dando a im-presso de que pretendiam sabotar a candidatura do ministro da Guerra. Essa atitude era tanto mais estranha quando haviam sido eles justamen-te os incentivadores daquela candidatura. Foi o PTB que organizara, em 1956, a manifestao da "entrega da espada de ouro", que tanta preo-cupao trouxera ao governo. Fora o PTB que emprestara contedo poltico chamada Frente de Novembro, que s servira para reacen-der dios e radicalizar posies, obrigando-me a fech-la, justamente com a organizao sua rival, o Clube da Lanterna, quando me empenha-va em uma sincera poltica de pacificao nacional. E, por fim, havia sido o PTB que contribura com maior nmero de deputados para a for-mao da Frente Parlamentar Nacionalista, a principal responsvel pelo lanamento da candidatura do General Teixeira Lott.

    No entanto, quando o nome do ministro da Guerra j havia sido lanado e todos os partidos, que formavam o esquema poltico de sustentao do governo, tinham manifestado sua adeso, os petebistas passaram a se omitir, negavam-se a tornar claro seu apoio, tergiversa-vam, como se tivessem em mente uma manobra oculta.

    O inspirador dessa manobra no era outro seno Leonel Bri-zola, o qual, aproveitando-se de estar ausente do pas o presidente do partido, optara por uma soluo extralegal, a ser desencadeada com a cooperao do chamado Pacto da Unidade Intersindical. A oportunida-de seria a renovao dos contratos coletivos de trabalho, que teria lugar em setembro de 1959.

    Nessa ocasio, seriam feitas exigncias exorbitantes ao gover-no. Mobilizar-se-ia a massa trabalhadora. Numerosas e sucessivas greves seriam deflagradas. E, quando a tenso social chegasse ao auge, algumas tropas, trabalhadas pelo governador rio-grandense, sairiam s ruas, im-pondo-se a alternativa: enquadramento do governo no esquema traba-lhista, com a retirada da candidatura do General Lott, ou apresentao de um candidato "popular e nacionalista", em favor de cuja vitria nas urnas seriam empenhados todos os rgos governamentais. Seria uma eleio pr-articulada, com um candidato imposto ao pas, no cabendo ao povo o direito da livre escolha, pois, se assim no fosse, a "procisso sindical" sairia s ruas, convulsionando o Brasil.

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    Informado sobre o que ocorria, procurei agir com serenidade, mas com energia. Discuti o problema sucessrio com Joo Goulart, mas sem referir-me agitao social, programada pela liderana do PTB. O vice-presidente da Repblica mostrou-se evasivo, reticente, deliberada-mente omisso.

    Fiz realizar, ento, uma reunio no Palcio Laranjeiras, com a presena dos ministros militares, do comandante do I Exrcito, dos ti-tulares das pastas cujas atribuies interferiam com a ordem pblica, social e econmica e dos chefes das Casas Civil e Militar da Presidncia. Aps a reunio, um comunicado foi distribudo imprensa, esclarecen-do o motivo do encontro, que havia sido o de "examinar o movimento organizado e orientado por conhecidos agitadores, no sentido de criar condies que venham a ameaar a ordem e a paz do povo brasileiro, por meio da deflagrao das greves ilegais e, concomitantemente, inspi-rados por entidades marginais, estando nos seus planos at mesmo uma greve geral". A nota esclarecia, por fim, que os ministros militares e os da Justia e do Trabalho haviam ficado incumbidos de coordenar o pla-no de ao imediata de preveno e represso de tais atividades.

    O comunicado denunciava o fato, mas omitia o nome dos conspiradores. Na Cmara dos Deputados, vozes se ergueram, exigindo que o governo fosse explcito. " preciso dar nomes aos bois!" excla-mara um deputado da Oposio, procurando comprometer a direo do PTB. A imprensa, porm, incumbiu-se de identificar os que tramavam contra a ordem pblica citando Joo Goulart e Leonel Brizola.

    O vice-presidente da Repblica procurou-me, imediatamente, para explicar que nada tinha a ver com o que o Pacto de Unidade Inter-sindical estava planejando. Manifestou a adeso do PTB candidatura Lott e soHcitou-me, por fim, que divulgasse outro comunicado, isentan-do-o daquelas acusaes e que, em troca, faria veementes declaraes de respeito legalidade e de preservao das instituies. Joo Goulart cumpriu o que havia prometido.

    O problema sucessrio fora posto, assim, em seus devidos termos. Procurei cumprir o meu dever, aplainando as divergncias que enfraqueciam o bloco situacionista. Dali em diante, conservar-me-ia alheio disputa eleitoral. Que cada um dos candidatos agisse no sentido de promover suas respectivas candidaturas, motivando o eleitorado, de

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    forma que este pudesse ficar convenientemente esclarecido para fazer a sua opo.

    Minha atitude, em face do saneamento espiritual da rea pol-tica, passaria a ser, ento, a de simples magistrado funo esta que exerci com a mais absoluta iseno.

    A INDSTRIA DA CONSTRUO NAVAL

    Havendo serenado a situao interna, voltei a dedicar-me, por inteiro, s exigncias da ao administrativa, pois 1959 chegava ao fim e era exguo o tempo de que eu passava a dispor. Como aquele ano fora o da construo naval, tinha minha teno voltada principalmente para esse setor das atividades nacionais.

    Aps o primeiro contrato para a construo de dois navios de 5.000 toneladas, o Brasil conclura novo acordo com a Polnia, segundo o qual os estaleiros de Gdansk construiriam at 1960, para a nossa frota mercante, outras 10 unidades da mesma tonelagem. Os estaleiros de Szczecin, por sua vez, iriam construir mais quatro navios de propulso a motor, de 6.000 toneladas cada um.

    Assim, a Marinha nacional revigorava-se e aumentava sua to-nelagem. Com as aquisies feitas na Polnia e na Finlndia, cujos navios deslocavam em conjunto quase 100.000 toneladas, e mais as compras realizadas por armadores particulares, as importaes j completavam em 1959 as 200,000 toneladas previstas no Programa de Metas. Isso sig-nificava uma adio de cerca de 30% tonelagem global existente no pas quando assumi o governo e que era da ordem de 700.000 toneladas. Ser conveniente ressaltar, porm, que essas aquisies foram levadas a efeito sem sacrifcios cambiais, j que representaram o resultado de tro-cas comerciais, tendo por base nossos excedentes agrcolas.

    Enquanto era ampliada a Marinha Mercante, preocupava-me em reforar a Frota Nacional de Petroleiros, mediante a aquisio de importantes unidades. J se encontrava no Brasil, e pronto para entrar em servio, o superpetroleiro Presidente Juscelino. Em junho, chegara ao porto de Santos o Presidente Getlio, construdo em estaleiros ho-landeses, e, dentro de pouco tempo, receberamos o Presidente Dutra

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    todos de 33.000 toneladas. Seguir-se-iam o Presidente Venceslau e o Presi-dente Washington Lus, que seriam entregues at dezembro de 1960, data em que, conforme a meta fixada, a Frota Nacional de Petroleiros teria 530.000 toneladas, o que significaria nossa auto-suficincia em matria de transporte de petrleo.

    No que dizia respeito ao setor de construo naval, as pers-pectivas no eram menos alentadoras. Com os quatro projetos j aprova-dos pelo GEICON - Grupo Executivo da Indstria da Construo Na-val - elevava-se a 135 mil toneladas anuais o total da nossa capacidade de construo de navios. Encontrava-se o pas, assim, prximo a atingir a meta governamental de 150.000 toneladas anuais, fixada para 1960.

    Em setembro de 1959, os diretores da Ishikawajima estive-ram, incorporados, no Palcio Laranjeiras, para um ato solene: entre-gar-me o modelo do primeiro navio a ser construdo no Brasil. Recebe-ria o nome de Braslia e teria sua quilha batida em princpios de 1961.

    No posso descrever a emoo de que fui possudo. Compa-ro-a outra, da mesma natureza, que experimentei dois anos antes, quando tive nas mos o modelo do primeiro automvel a ser, tambm, construdo no Brasil. Tratava-se de um Volkswagen. Ambos no passa-vam de engenhosos brinquedos que fariam a felicidade de qualquer cri-ana. E curioso como a realizao de um sonho, longamente acalentado, consegue nos transformar a mente. Assim como acontecera com o au-tomvel, segurei o navio de brinquedo e recordei, em um misto de satis-fao e orgulho, o mundo de sofrimento, de esperanas adiadas e de frustraes em que vivi para que pudesse contemplar, ainda durante o meu governo, aquele modelo. A cerimnia comovera-me profundamen-te por um motivo que, hoje, poder parecer pueril: o naviozinho de fan-tasia era pioneiro em tudo, at no nome: Braslia.

    O primeiro modelo Volkswagen me chegara s mos dois anos antes e, se olhava atravs da janela, via, l fora, milhares de rplicas suas, indo e vindo ao longo das ruas da cidade. O sonho havia sido con-vertido em realidade. Em 1958, a produo de veculos no pas fora de 61.109 unidades e, em 1959, tinha sido dobrada, incluindo-se entre os ti-pos construdos, caminhes, jipes, utilitrios, nibus e carros de passeio.

    Naquela manh clara de setembro, a cena se reproduzia. O salo de honra do palcio estava cheio. Cercavam-me homens cir-

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    cunspectos e fotgrafos batiam chapas. O interesse da reunio, porm, no estava no que pudesse dizer o presidente da Repblica ou no que informassem aqueles austeros japoneses. Concentrava-se no naviozinho de alumnio que se encontrava sobre a mesa. Era perfeito. L estava a chamin. Via-se o passadio. Enfileiravam-se as vigias das cabinas. Pare-cia um navio de verdade. O sonho ainda no deixara o universo das coi-sas irreais. Estava se corporificando, era verdade, mas continuava fanta-sia. Aquela cerimonia, porm, assinalava uma antevspera da realidade. Os estaleiros j existiam em Inhama. Milhares de operrios aguarda-vam apenas que eu desse a ordem, e a construo de navios, idnticos e depois maiores do que o modelo, teria incio. Essa ordem foi dada na-quela hora e naquele dia. E, como resultado dela, surgira a indstria da construo naval no Brasil.

    O DRAMA DA REPRESA DO PARANO

    No se pense que tudo, em Braslia, ocorria sem problemas, e que bastava que uma ordem fosse dada para que logo passasse a ser exe-cutada. Tive de enfrentar muitos complexos problemas, e um deles justamente o de soluo mais difcil - foi a construo da barragem do Parano, com seu respectivo canal de desvio, assentamento das aduto-ras, construo e impermeabilizao dos reservatrios e, por fim, o as-sentamento da usina de tratamento da gua que formara o lago.

    Como j disse, havamos obtido um emprstimo de 10 mi-lhes de dlares do Export-Import Bank, destinado aquisio das es-truturas metlicas dos edifcios ministeriais e construo daquela bar-ragem. A firma norte-americana Raymond Concrete Pile Company ga-nhara as respectivas concorrncias, e os trabalhos logo tiveram incio. No que dizia respeito s estruturas metlicas, nenhuma queixa tivemos contra a empresa empreiteira. O mesmo, porm, no aconteceu em rela-o segunda parte do contrato, isto , a construo da barragem.

    Mquinas e equipamentos logo chegaram dos Estados Uni-dos, e teve incio a grande batalha. Contudo, para se trabalhar no Planalto, era indispensvel que se dispusesse de alguma coisa a mais do que a

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    simples tcnica moderna. A tcnica ajudava muito; mas sem uma alta dose de esprito pioneiro nada ali se conseguiria realizar.

    Foi o que aconteceu com Raymond Concrete Pile. Essa firma s sabia trabalhar segundo os mtodos e os cronogramas nor-te-americanos. Quando uma mquina apresentava um defeito, interrom-pia-se o servio at que a pea sobressalente chegasse dos Estados Uni-dos, o que demandava cerca de trs meses. Em Braslia, predominava o esprito de improvisao. Em face de qualquer dificuldade, criava-se uma soluo de emergncia. Na BelmBraslia, tratores eram reparados em plena selva, tendo os prprios mateiros como mecnicos. O mesmo ocorria nas obras da nova capital. Todos os defeitos mecnicos eram consertados na hora, porque o servio no permitia interrupes.

    Em Parano, os engenheiros norte-americanos antes do incio dos trabalhos preocupavam-se exclusivamente com seu conforto pessoal. Providenciaram a montagem de barracas, dotadas de todos os requisitos de uma residncia urbana. Quando essa etapa fora vencida, passaram a cuidar da barragem. Faziam-no, porm, com a frieza e a indiferena de quem apenas cumpria um contrato: jornada regular de trabalho; duas horas para o almoo; suspenso das atividades s 5 horas da tarde. A noite era consumida em alegres rodadas de usque. Nada de flama, do lan, da preocupao de bater recordes caractersticos do "esprito de Braslia".

    Esses norte-americanos eram os nicos estrangeiros que tra-balhavam na construo da nova capital. Nas demais obras, s existiam brasileiros. Os tcnicos haviam sido recrutados no Rio e nas grandes ci-dades do pas, mas a massa trabalhadora era integrada de candangos gente do interior, que nunca havia visto um trator ou uma motonivela-dora. Essa massa de homens simples e sem qualquer preparo para adap-tar-se, com admirvel facilidade, s exigncias tcnicas do programa de obras. No havia trabalho que esses homens no realizassem, e procura-vam lev-lo a efeito como se se tratasse de um assunto seu.

    Os norte-americanos porm, eram escravos da especializao. Por diversas vezes, chamei a ateno dos diretores da firma para a ne-cessidade de que se adaptassem ao "ritmo de Braslia". Prometiam. Ga-rantiam que o servio seria acelerado. Asseguravam a chegada de novos

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    tcnicos e melhor equipamento. E, assim, os dias iam passando, sem que se observasse qualquer progresso na obra.

    Certa vez, fiz uma inspeo no local, desejando ver se j esta-vam prontos os alicerces. Senti resistncia por parte dos engenheiros, os quais alegavam ser perigosa a minha presena em uma rea onde guin-dastes estavam em funcionamento. Uma caamba poderia virar e, se isso acontecesse, o desastre seria irreparvel. No tomei conhecimento das advertncias, e realizei a inspeo. Com surpresa, verifiquei que nem as estacas preliminares de concreto, que se fincavam antes da constru-o da barragem, haviam sido providenciadas. Na realidade, a obra nem havia tido incio, pois todo o trabalho at ento feito cingira-se exclusi-vamente montagem das indispensveis plataformas de servio.

    Deixando o local, mandei chamar Israel Pinheiro e disse-lhe que se entendesse com a firma norte-americana, no sentido de que o contrato fosse rescindido. Israel observou que uma resciso no era f-cil. A firma poderia entrar em juzo e exigir uma indenizao. Disse-lhe que mobilizasse os consultores jurdicos da Novacap, pois a obra tinha uma data para ser entregue e que no poderia inaugurar Braslia com o lago vazio.

    Enquanto os consultores jurdicos agiam de um lado, eu providenciava, do outro, a maneira mais rpida de construir a barra-gem. Como no havia mais tempo para se abrir outra concorrncia, a prpria Novacap se encarregaria da tarefa. Mobilizaram-se engenhei-ros. Barbosa da Silva os chefiava. Adquiriu-se o indispensvel equipa-mento. Tcnicos foram convocados e discutiu-se, em uma reunio, que no deixou de ser agitada, o processo que seria mais rpido para a construo da represa.

    Ficara combinado, pois, que a inaugurao dar-se-ia no dia 12 de setembro de 1959, data do meu aniversrio natalcio. Os engenheiros assim decidiram em uma homenagem a mim, muito embora eu houves-se tentado dissuadi-los do intento, porque julgava o prazo curto em ex-cesso. Insistiram na data e, em face da insistncia, o dia 12 de setembro fora fixado. Dali em diante, caberia a mim, ento, no permitir que o compromisso assumido pela Novacap deixasse de ser cumprido.

    A equipe nacional arregaou as mangas e disps-se a enfren-tar o desafio. No incio de 1959, completou-se o canal de desvio e, pou-

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    cas semanas mais tarde, ficaram concludas a ensacadeira do desvio, a escavao do vertedouro e a impermeabilizao. Apesar do progresso verificado nos trabalhos, sentia-me preocupado. De fato o tempo, para a execuo da obra, era exguo em demasia. S mesmo por meio de um esforo extra aquele objetivo poderia ser atendido.

    Naquela poca, uma das nossas maiores autoridades em enge-nharia hidrulica era o ex-governador. paulista Lucas Garcez. Telefo-nei-lhe, solicitando que fosse a Braslia. Desejava ouvir sua opinio so-bre o que se fazia em Parano. Lucas Garcez aprovou integralmente o trabalho dos engenheiros da Novacap, mas julgou que seria impossvel concluir-se a obra at o dia 12 de setembro. "A construo de uma bar-ragem, Presidente, pode ser acelerada, mas h um limite alm do qual ser perigoso avanar. Se o senhor deseja um conselho, posso dizer-lhe: adie a inaugurao por uns seis meses."

    A palavra de Lucas Garcez era autorizada. Mas havia uma questo de honra que deveria ser enfrentada. Como inaugurar Braslia sem o lago to amplamente anunciado e que, alm do mais, seria a mol-dura lquida da cidade?

    Reuni os engenheiros e discutimos longamente o assunto. Entre as muitas sugestes apresentadas, uma despertou minha ateno: armazenar-se a gua em consonncia com a elevao da barragem. Des-sa forma, o lago poderia ser formado imediatamente aps a concluso da obra. Havia, contudo, um perigo: se ocorresse algum temporal fora do comum, o nvel da gua ultrapassaria a crista da barragem e, nesse caso, a represa correria o risco de uma ruptura.

    Quem realiza grandes obras v-se obrigado, s vezes, a en-frentar perigos. Naquele momento, estava diante de uma situao que exigia coragem. Ou correria o risco de uma ruptura, mas encheria o lago, para a inaugurao de Braslia; ou adotaria uma atitude de prudn-cia, aguardando que a barragem ficasse pronta, para ento comear a ar-mazenar a gua, que iria dar cidade a sua j to falada moldura lquida.

    No hesitei um momento. Optei pela soluo do risco. Os engenheiros, que no ntimo.desejavam essa opo, exultaram. O "espri-to de Braslia", no seu significado mais expressivo, triunfara sobre o medo e a indeciso. Em antecipao ao fechamento da barragem, algu-mas providncias teriam de ser tomadas, para que no se interrompesse

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    o ritmo da construo. Uma delas, e das mais importantes, era a relacio-nada com as comportas, que regulariam a vazo da gua acumulada.

    Entrei em entendimento com o ministro da Marinha, o Almi-rante Matoso Maia, e ficou combinado que o Arsenal de Marinha do Rio incumbir-se-ia da tarefa. As comportas seriam das mais aperfeioa-das, exigindo-se por isso, para sua construo, um elevado nvel tcnico somente alcanado pelas grandes indstrias do gnero. Eu tinha enorme confiana na capacidade dos que trabalhavam naquele Arsenal, cuja ex-perincia, adquirida em construes navais, habilitava-os a assumir a responsabilidade de fabricao de peas de grande porte, como seriam as projetadas comportas.

    O xito da Operao-Lago valeu o risco corrido. A barragem foi construda e fechada justamente a 12 de setembro e, nesse dia, teve incio o represamento do Parano. Nessa data, realizaram-se em Braslia numerosas inauguraes, das quais participaram milhares de pessoas que haviam ido nova capital, utilizando todos os meios de transporte.

    Inaugurei os trevos urbanos; lancei a pedra fundamental da futura Catedral; presidi cerimnia da entrega ao GTB - Grupo de Transferncia para Braslia - dos novos blocos de apartamentos, cons-trudos pelo IAPB e pelo IAPC; visitei as obras do Hospital Distrital, bastante adiantadas; inaugurei, igualmente, viadutos e dezenas de quil-metros de pavimentao asfltica dos principais eixos rodovirios, inclu-sive o que ia at a ponta da pennsula; e, tarde, fui alvo de tocante ho-menagem da populao, levada a efeito por meio de grande concentra-o popular, realizada na Praa dos Trs Poderes.

    Nas obras de conteno do Parano, eu e Sarah fizemos des-cer a comporta de ferro da barragem, manobrando um trator e, quando se completou o fechamento, a imensa multido, que assistia ao ato, aplaudiu-nos com o maior entusiasmo. O fechamento da barragem, alm de implicar o incio da formao do lago, que era dos mais belos efeitos plsticos no plano urbanstico da nova capital, teria, por outro lado, outra importncia: era que, abaixo da represa, seria instalada uma usina hidreltrica que forneceria energia a Braslia.

    1959 foi um ano agitado politicamente. Em maio, os partidos comearam a se movimentar, tendo em vista as articulaes para a esco-

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    lha dos seus candidatos minha sucesso. Lanadas as candidaturas Tei-xeira Lott e Jnio Quadros, iniciou-se a campanha eleitoral.

    De fato, era bem diferente, na poca, a mentalidade do povo. Os meus quatro anos de um novo estilo de governo haviam levado o Brasil a uma realidade diferente. Em vez de poltica, executavam-se obras, e todas visando consecuo de objetivos predeterminados. O povo, que a princpio no dera maior importncia s Metas, acabara por compreender que elas no constituam mais uma "plataforma de gover-no", mas que expressavam, isto sim, degraus que estavam sendo galga-dos pelo pas, na sua marcha para uma definitiva redeno.

    Pouco depois, as expresses "metas", "desenvolvimento", "industrializao", e outras do mesmo gnero, j faziam parte do voca-bulrio comum do homem da rua, e, mesmo no setor da iniciativa privada, os mtodos do governo passaram a ser imitados, refletindo, de maneira elo-quente, a repercusso daquele novo modelo de administrao em todos os setores da vida nacional. O governo trabalhava e produzia, e a Nao intei-ra procurava imit-lo. Em face dessa nova mentalidade, a opinio pblica reclamava dos candidatos o mesmo lan, no sentido de enfrentar proble-mas, que at ento pareciam insolveis. Exigia programas explcitos.

    A rea militar, conquanto tranquila desde o incio do ano, no deixou de acusar uma crispao ao se aproximar o trmino de 1959. O episdio ocorreu no dia 3 de dezembro. Tratava-se de uma repetio de Jacareacanga. Desta vez, o local escolhido foi a distante localidade de Aragaras, no interior de Gois. Tudo se passou como no episdio an-terior, ocorrido no primeiro ms do meu governo - a fuga de avies mi-litares; a busca de um lugar ermo do territrio nacional; quase os mes-mos personagens; a desesperada espera por adeses que no se positiva-ram; e, por fim, o refgio no exterior, levando-se a aeronave sequestra-da. A nica diferena, em relao de Jacareacanga, foi que o episdio de Aragaras no chegou a impressionar a opinio pblica.

    Na madrugada do dia 3 de dezembro, trs avies da FAB le-vantaram vo da base area do Galeo, sem permisso das autoridades competentes. De Belo Horizonte, levantou vo um avio civil, pilotado por dois aviadores da FAB, que tambm rumou, como os trs outros, para Aragaras. Alm disso, um Constellation, da Panair do Brasil, que viajava do Rio para Belm, foi obrigado a mudar de rumo.

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    Ocorreu, nessa ocasio, um fato curioso. No dia da fuga dos avies, e do sequestro do Constellation, declarei que o episdio se asse-melhava a um ato de pirataria area. Os aviadores tinham recebido asilo da Argentina, para onde se haviam dirigido. As autoridades platinas ima-ginaram que eu no considerava o caso como um episdio e, sim, como um crime comum, no sujeito, portanto, s prerrogativas de asilo polti-co, assinado em Havana. A consequncia seria, portanto, um pedido de extradio por parte do governo brasileiro.

    Como as autoridades de Buenos Aires j haviam concedido o asilo, ficaram apreensivas. Bolitreau Fragoso, embaixador do Brasil na Argentina, veio ao Rio consultar-me sobre o fato. Pedi-lhe que tranquili-zasse o governo argentino e que tudo fizesse para tornar suportvel, na capital argentina, a vida dos aviadores brasileiros. Recomendei, ento, ao meu ministro do Exterior que fizesse chegar aos exilados, em Buenos Aires, um apelo meu no sentido de que "regressassem, pois nada lhes aconteceria no Brasil". E acrescentei: "O pas muito grande, e nele h lugar para todos."

    No dia 31 de dezembro de 1959, dirigi uma mensagem ao povo, afirmando que o ano, que acabava de se findar, no "havia sido perdido para o Brasil". De fato, apesar dos efeitos negativos do Plano de Estabilizao Monetria, das divergncias no terreno poltico e do episdio de Aragaras, grandes progressos haviam sido registrados no campo da administrao. A indstria automobilstica cada vez punha mais carros brasileiros em circulao; a indstria de construo naval preparava-se para lanar ao mar, dentro de poucos meses, os nossos primeiros navios; os 10 mil quilmetros de estradas, que encontrei, j haviam sido aumentados para 30 mil; as usinas siderrgicas tinham dobrado a produo; os 7 bilhes de metros cbicos de gua represados no Brasil, no incio do meu governo, haviam crescido para 80 bilhes; os 6 mil barris dirios de petrleo de 1956 tinham sido elevados para 100.000 e a Sudene havia sido criada.

    Na realidade, os xitos se sucediam em todos os setores da vida nacional. Os candidatos minha sucesso realizavam suas campa-nhas em um clima de perfeita segurana e plena liberdade. No terreno econmico-financeiro, enfrentei dificuldades e as venci. Tornei sem efeito o Plano de Estabilizao Monetria e rompi as negociaes com o

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    Fundo Monetrio Internacional. No campo das nossas relaes interna-cionais, lancei a Operao Pan-Americana, que chamou a ateno do mundo para o Brasil e fez com que se estreitassem os vnculos que liga-vam, uma s outras, todas as naes do hemisfrio.

    O jornalista Assis Chateaubriand, em artigo escrito, aps o meu pronunciamento do dia 31 de dezembro de 1959, definiu, com niti-dez, o que ocorria no Brasil, naquele momento: "A riqueza que o Presi-dente Kubitschek acumulou para o Brasil, em um sem-nmero de novas iniciativas, transforma-o no prodigioso regenerador de uma democracia, a qual ficou sem tempo para conspirar. Seu governo febril, excitador de feixes de energia de todo tamanho, tem sido uma segura mquina revo-lucionria, porque destinada a matar as revolues. O pas est abarrota-do de cereais, o que uma forma de acabar com a carestia de vida. Do dia para a noite, o ocaso do ltimo ano de Juscelino Kubitschek se transforma em uma aurora."

    E citava, para dar fora ao seu pensamento, os seguintes fa-tos: "A sua larga e inacreditvel empresa atinge o fim quase em todas as metas. Muda a capital. D comunicao por terra entre o Amazonas e Braslia. Tem Furnas no meio. Trs Marias no fim. Fez navegvel o rio So Francisco. Pe de p a Usiminas. Cria e desenvolve a indstria auto-mobilstica. Atinge a 100 mil barris dirios de petrleo no Recncavo. Constri navios. Compra outros tantos. Restitui navegao martima o seu prestgio. Vende bem o caf. Libera vrios produtos do confisco cambial. Pe o sisal a 35 cruzeiros e o algodo a 400 cruzeiros a arroba. Negocia com o exterior a exportao de 450 mil toneladas de acar, contra 50 mil que tnhamos autorizadas quando ele assumiu o poder. Enfim, a nica realidade nacional o perfil de Juscelino Kubitschek ata-refado numa obra que ningum pode negar - a de providenciar botas de sete lguas para um gigante caminhar."

  • Conversando com a Nao

    no findo. Pgina virada. Homens e acontecimentos comeam a se esfumar, desfeitos pela nova realidade que iluminava o horizonte nacional. O episdio de Aragaras no teve a menor repercus-so no cenrio poltico. Mas, em relao opinio pblica, no deixou de ser um fato negativo. Lembro-me de que quando dei conhecimento minha famlia do que havia ocorrido a 3 de dezembro minha filha Mr-cia exclamou: "Mas outra vez, papai?" A reao de Mrcia refletiu o sentimento que era geral na Nao. O pas estava em calma. O governo trabalhava. O povo cuidava de seus afazeres. Era justo, pois, que aquele ato de rebeldia fosse geralmente reprovado.

    Passado o incidente, procurei esquec-lo. que, no perodo, estava muito ocupado com um assunto, que era de importncia para o pas. No dia 31 de janeiro de 1960, iria fazer uma exposio pela televi-so, mostrando o grande progresso realizado nos diferentes setores das atividades nacionais.

    Essa iniciativa obteve o maior xito possvel. Os grficos, as fotografias e as fotomontagens tomaram diversos sales do primeiro an-dar do Catete, desceram a escada principal e espalharam-se por outros sales do andar trreo do palcio. Programada para ser realizada no dia 31 de janeiro - data do quarto aniversrio do governo , foi adiada para 5 de fevereiro, e isso por dois motivos: a morte de Osvaldo Aranha e a

    y

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    necessidade de minha presena em Braslia, por ocasio do encontro das duas colunas da Caravana de Integrao Nacional.

    Durante a exposio, ocupei a rede de rdio e televiso pelo espao de trs horas e meia. Foi uma conversa ao vivo com o povo. Expus com clareza, e num tom coloquial, tudo quanto o governo havia feito ou estava fazendo, no sentido de atingir e ultrapassar as 31 Metas, que consubstanciavam o meu programa desenvolvimentista. Segundo os resultados dos ibopes da poca, cerca de 80% dos radiouvintes e dos te-lespectadores ouviram a exposio com o maior interesse e acompanha-ram-me at o fim.

    Nesse programa, procurei traar um retrato amplo do Brasil, comparando o que havia encontrado e mostrando o que vinha sendo feito para melhorar a situao nacional. Reportei-me, no incio, ao que havia significado para o pas a Revoluo de 1930, com a instituio do voto secreto, a princpio mal aplicado, mas melhorando com o aperfei-oamento do sistema democrtico. No bojo do movimento de 30 e, com reflexo das ideias em fermentao na conscincia mundial, proces-sara-se a maior das reformas at ento realizadas no Brasil: a promulga-o da legislao trabalhista, cuja consequncia imediata foi a incorpora-o das massas operrias ao processo poltico nacional.

    Assim, o voto secreto e as leis sociais haviam representado dois passos decisivos, dados pela nacionalidade, no rumo do aprimora-mento das instituies polticas. O terceiro avano a ser conseguido era o do desenvolvimento econmico, que vinha constituindo a principal preocupao do meu governo.

    A ideia no nascera por acaso. Eu a captara no calor dos co-mcios, na agitao da campanha presidencial. Senti que aquele era o mais premente anseio do povo. J em Minas, como governador, pudera sentir a presena desse estado de esprito. Ao lanar, como programa administrativo, consubstanciado no binmio Energia e Transportes, fi-zera-o, indo ao encontro das aspiraes populares.

    Mais tarde, durante a campanha presidencial, pude sentir esse estado de esprito de forma absolutamente imperativa. O povo exigia que se promovesse o desenvolvimento, e da a elaborao do Programa de Metas. Esse plano de governo constituiu, na realidade, iniciativa re-volucionria. Era a primeira providncia, tomada no pas, no sentido de

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    se fazer o levantamento de todos os pontos de estrangulamento da eco-nomia brasileira, e enquadr-los num esquema de solues racionais, ri-gidamente delimitadas no tempo e expressas em cifras que refletiam os alvos a serem atingidos. Aps esse pequeno intrito, referi-me a um fato, que demonstrava estar o governo empenhado, de corpo e alma, na batalha do desenvolvimento, "Hoje tarde, recebi, s portas do Catete, sessenta e tantos veculos nacionais, que atravs de 2.200 quilmetros de selva deram testemunho de que esse progresso patente. Percorre-ram estradas desde Belm do Par, atravs de Braslia, Belo Horizonte, at que, por fim, chegaram ao Rio." Para ilustrar o que disse, mostrei no mapa o itinerrio percorrido pela Caravana da Integrao Nacional.

    Defini, em seguida, o que entendia por desenvolvimento na-cionalista, com a filosofia do meu governo. Tratava-se de um desenvol-vimento que tinha por alvo a prosperidade nacional. Pelo fato de ser na-cionalista, no deveria enderear-se contra ningum. S existiam dois meios de se realizar aquele desenvolvimento: bater de porta em porta, nas naes estrangeiras, para solicitar ajuda financeira; ou lutar com as nossas prprias foras, cortando na carne e exigindo sacrifcios do pas. Lembrei a excurso que fizera pelos Estados Unidos e pela Europa, como presidente eleito, durante a qual chamara a ateno dos homens de governo e das empresas privadas para as possibilidades que o Brasil apresentava. E esclareci: "Esta colaborao foi-nos prestada; tem sido valiosa; mas no foi bastante. Da por que tive de pedir sacrifcios ao povo para levar avante os principais projetos que havia planejado executar na vigncia do meu mandato. Os sacrifcios que pedi ao povo esto sendo hoje amplamente recompensados com as novas indstrias, as estradas, pontes, navios, automveis, usinas eltricas etc, que so o resultado destes quatro anos de governo."

    Abordei, em seguida, a Operao Pan-Americana, que era um processo de combate ao subdesenvolvimento, levado a efeito em ter-mos continentais. "O que se observara na Amrica Latina - desnveis gritantes, vazios demogrficos, reas que pareciam irrecuperveis re-produzia-se, numa escala proporcional, no interior de nossas fronteiras. Na regio Sul, com 35 milhes de habitantes, a renda per capita era de aproximadamente 300 dlares, enquanto na regio Nordeste e Cen-tro-Oeste esta, com cinco milhes de quilmetros quadrados esse

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    ndice era sensivelmente inferior. Na regio Centro-Oeste, a densidade demogrfica era de apenas 1 habitante por quilmetro quadrado, e t-nhamos ali, portanto, o maior deserto do mundo. No podamos deixar aquela imensa zona deserta exposta cobia estrangeira, e foi por isso que procurei transformar o Planalto Central numa trincheira para incre-mentar o desenvolvimento nacional."

    Expliquei que todos os anos, desde que assumira o governo, reunia todos os ministros no dia l 2 de fevereiro. Procedia desse modo no s para expor as realizaes de cada ministro, mas tambm para dar conta ao povo das atividades governamentais.

    Assim, o trabalho prosseguia no Palcio do Catete, que estava destinado a ser o Museu da Repblica, porque fora entre suas paredes que se desenrolaram muitos dos principais acontecimentos da nossa vida repu-blicana. "Aqui foram vividas fases das mais difceis e at mesmo trgicas, instantes verdadeiramente dramticos de nossa histria poltica, inclusive a morte de Getlio Vargas, ocorrida nesta sala, da qual vos falo, que transfor-mei no meu gabinete de trabalho. Como vedes, um lugar que inspira am-pla e constante meditao, principalmente aos homens pblicos do Brasil."

    RESUMO DAS 31 METAS

    Iniciei o meu governo encontrando no pas uma potncia ins-talada de 3.148.500kW, representado o produto do esforo de aproxi-madamente trs quartos de sculo. No ano da proclamao da Repbli-ca, funcionavam pequenas usinas trmicas e hidrulicas com capacidade geradora de 4.618kW. Nos sessenta e seis anos subsequentes, chegare-mos cifra anteriormente mencionada. Mas a quantidade disponvel em 1955 constitua ainda um ponto de partida dbil, comparada s exigncias de um pas disposto a romper as barreiras do subdesenvolvimento para ocupar um lugar altura da sua dimenso continental. Realizamos no perodo do meu mandato macios investimentos com vistas superao do velho estilo, caracterizado pelas pequenas obras e a peridica quebra de ritmo do esforo construtivo. J em 1958, a capacidade de gerao estava elevada a 3.993.100kW, devendo atingir, em 1960, a 4.800.082kW, j que prosseguiam em ritmo acelerado as obras de Furnas (potncia final de 1.200.000kW). Trs Marias (520.000kW) e Paulo Afonso II (potncia final de 600.000kW). No Estado de So Paulo estavam em fase

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    de instalao as unidades da usina de Salto Grande; em fase adiantada as obras de Jurumirim, Euclides da Cunha, Barra Bonita e Flrida Paulista; em incio de construo a usina de Bariri e a Barragem de Graminha. Em Santa Catarina prosseguiam as obras da termeltrica de Capivari e no Rio Grande do Sul marchavam as do Plano de Eletrificao do Estado. Em Minas, a Cemig atacava vrias obras e estendia as redes de transmisso e distribuio por amplas reas do Estado, e o mesmo aconte-cia em todas as Unidades da Federao. Como consequncia direta desse esforo, a capacidade de gerao em 1961 dever ter crescido para 5.205.152kW e, em 1963, para 6.355.068kW. A nova potncia representa-r, portanto, mais do dobro da encontrada em 1955. No cumprimento des-se programa, estavam sendo construdas 18 novas usinas, de grandes pro-pores, e uma vinha sendo ampliada, somando as obras desse gnero, in-cludas as que se realizavam com a participao do governo federal, 30 usi-nas. Entre essas duas se destacavam: a de Trs Marias e a de Furnas.

    Trs Marias constitua um velho sonho dos brasileiros que nunca havia sido realizado em virtude do receio que sua concretizao inspirava. Quinta barragem do mundo em volume de terra, ela teria efei-tos extraordinrios em vastssima rea, tais como: evitaria a repetio das enchentes catastrficas, que tinham posto em frequente perigo as populaes ribeirinhas e destrudo a agricultura da regio; regularizaria o curso do So Francisco, permitindo que a navegao, nesse rio, se fizes-se durante todo o ano, e no apenas durante 4 meses, como vinha acon-tecendo, proporcionaria a irrigao das margens do So Francisco; e ofereceria amplas perspectivas para a soluo dos problemas do Nor-deste. A barragem, com seus 70 metros de altura e 3 quilmetros de ex-tenso, significaria para o pas, praticamente, 1 milho de quilowatts.

    Furnas, cuja capacidade seria de 1 milho e 100 mil quilowatts, era uma das maiores usinas do mundo, somente superada por 2 ou 3 na Rssia e outras tantas nos Estados Unidos. Ensejaria, igualmente, a solu-o de inmeros problemas, numa rea que abrangia as regies industriais do Rio, de Minas, de So Paulo e de parte do Estado de Gois.

    Petrleo Durante a campanha presidencial, interpelado sobre o qual seria minha atitude em relao Petrobrs, respondi que no s "respeitaria essa empresa, como procuraria dar-lhe ainda maior fora e prestgio". A confirmao dessa promessa estava nos resultados

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    espantosos alcanados pela Petrobrs, durante os ltimos quatro anos: em 1956, a produo, por dia, era de 6 mil barris; em 1957, subia a 40 mil; em 1958, a 60 mil; e, em 1959, atingira 72 mil barris. Em 1961, de acordo com as providncias j tomadas, a produo deveria ser de quase 200 mil barris dirios. Quanto s reservas, em 1955 tnhamos 255 milhes de barris, e, em fins de 1959, possuamos 610 milhes.

    No que dizia respeito ao refino do petrleo, o que se verifi-cara era o seguinte; em 1955, nossa capacidade de refinao era de 86 mil barris por dia, em 1959, chegamos aos 160 mil e, em 1960, atingira-mos a 308 mil barris dirios. No setor de petroleiros, foram estes os progressos alcanados: em 1955, dispnhamos de apenas 224 mil tone-ladas de petroleiros; em 1959, contvamos j com 370 mil toneladas, e teramos 510 mil toneladas em fins de 1960, pois naqueles dias o Brasil receberia mais trs petroleiros encomendados ao Japo.

    Rodovias Em 1955, s existiam 23 mil quilmetros de estra-das construdas pelo governo federal, e nem todas em boas condies. Durante os ltimos quatro anos, o meu governo construra 20 mil quil-metros e, entre as novas rodovias, algumas, como a Belm-Braslia, po-deriam ser consideradas uma autntica epopeia do sculo XX. Existia, ainda, a Braslia-Fortaleza, com 1.800 quilmetros que estava sendo aberta; e iria ser iniciada, naqueles dias, a Braslia-Acre, passando por Cuiab e pelo Territrio de Rondnia. Com esse empreendimento, a ser concludo ainda no meu Governo, estaria refletindo sobre o mapa do Brasil o Cruzeiro do Sul. Enquanto o grande eixo rodovirio Be-lm-BrasliaPorto Alegre media 5 mil quilmetros, o que iria de Bras-lia ao Acre se estenderia por 3.500 quilmeros, formando uma gigantes-ca cruz, concretizao, numa imagem fsica e geogrfica, da velha aspira-o dos brasileiros, que era a integrao nacional.

    Exibi, para os telespectadores, excelentes fotografias da Curi-tibaLajes, da Belo HorizonteBraslia, da Belo HorizonteRio e da ponte sobre o rio Guaba com quase 4 quilmetros de extenso, de for-ma que pudessem ter uma ideia do alto padro tcnico com que esta-vam sendo construdas as novas rodovias nacionais.

    Ferrovias - Durante aqueles quatro anos, eu dera maior priori-dade ao problema do reequipamento do que ao de construo de novas ferrovias. Bilhes haviam sido gastos, at ento, na aquisio de loco-

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    motivas diesel para as diversas estradas de ferro brasileiras. O governo comprara, tambm, 12 mil carros-vages, bem como trilhos e demais acessrios. A meta de construo de 1.500 quilmetros j havia sido ul-trapassada, com a abertura de 1.800 quilmetros de novas ferrovias.

    Nordeste - A seca fizera-me conhecer em toda a extenso o drama que periodicamente afligia a populao daquela regio. Tomei to-das as providncias para socorrer os infelizes. Em dois meses, foram empregadas 530 mil pessoas, salvas, assim, do flagelo.

    Antes da guerra, a produo do Nordeste, para o cmputo geral da renda nacional, era de 30%, caindo para 11% - ndice vigorante na po-ca. Quando assumi o governo, o volume de gua, ali disponvel, era de 3 bilhes de metros cbicos; consegui aument-lo para 8 bilhes, com a construo de novos audes e barragens. Naquele ano, deveriam ainda ficar concludos dois imensos audes: o de Banabui e o de Ors, comeado no Imprio por Pedro II. Esse aude, com 4 bilhes de metros cbicos, ia ser concludo ainda no meu governo, tudo feito em apenas um ano.

    Agricultura Apesar de ter sido acusado pela Oposio de dar preferncia industrializao com desprezo da agricultura, a verdade era bem outra. Dando ao pas melhores estradas, aumentando-lhe a capaci-dade de armazenagem, estava favorecendo, de fato, nossa produo b-sica, j que, sem escoamento fcil, sem meios de conserva e racionaliza-o, a lavoura e a pecuria no encontravam condies para prosperar.

    No sendo possvel continuar o pas na fase da agricultura emprica, base da enxada e da explorao irracional do solo, eu formu-lara, dentro do Programa de Metas, planos visando a dotar o Brasil de armazns e silos, com uma capacidade para 400 mil toneladas. Essa meta havia sido largamente ultrapassada, pois, enquanto em 1959 a ca-pacidade armazenadora do pas no ia alm de 85 mil toneladas, em 1960 era superior a 600 mil.

    Por outro lado, a mecanizao havia sido incentivada com todo o vigor, principalmente atravs da produo interna de tratores iniciada, de fato, naquela poca, como desdobramento da indstria au-tomobilstica.

    O ano de 1960 seria decisivo para a fabricao dos tratores nacionais. Dezesseis firmas j haviam encaminhado propostas ao GEIA, interessadas naquela indstria, facilitada ento pela expanso das

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    fbricas de autopeas. At o fim do ano, seriam fabricadas no Brasil 2.500 unidades, e planos estavam elaborados para a elevao da produ-o para 7 mil tratores em 1961. Em julho, ou seja, 5 meses mais tarde, sairia da fbrica o primeiro trator brasileiro das linhas de montagem.

    Siderurgia No quadro de atraso desolador que apresentava a economia brasileira em 1955, o consumo per capita de ao dava-nos tes-temunho custico do baixo nvel do nosso desenvolvimento. Item fun-damental irradiao do progresso, o ao oferecia um prisma pelo qual se poderia simplificar o entendimento dos desnveis econmicos e sociais entre o Brasil e os pases desenvolvidos. No obstante um aprecivel contingente de importaes de chapas, barras, vergalhes, tubos e ou-tros itens, o nosso consumo por habitante era de apenas 31 quilos/ano, em comparao com 438 na Alemanha Ocidental e 620 nos Estados Unidos. No ano que precedeu minha posse, a produo nacional de ao em lingotes era de 1.162.000 toneladas, reduzindo-se a 982.000 a de laminados. Dependia de uma conjugao de esforos dos setores pbli-co e privado a elevao dos nossos ndices a nveis razoveis, pelo me-nos quanto satisfao da demanda interna com o produto das unida-des instaladas no pas. Em 1956, a Companhia Siderrgica Nacional, tendo concludo o plano e expanso de sua capacidade produtiva para 650.000 toneladas, lanara-se execuo do projeto que elevaria essa ca-pacidade a 1.100.000 toneladas. A Companhia Siderrgica Bel-go-Mineira, que desde 1954 vinha empenhada em atingir o objetivo de 300.000 toneladas, passou a dedicar-se ao aumento da sua produo para 500.000 t/ano. Atendendo ao apelo do governo, outras empresas formularam planos de expanso, inclusive a Siderrgica J. L. Aliperti, a Siderrgica de Barra Mansa, a Lanari S.A., a Cia. Brasileira de Usinas Metalrgicas, a Siderrgica Riograndense, a Laminao e Artefatos de Ferro S.A. e outras. Na rea do setor pblico, os projetos da Usiminas, da Cosipa e da Ferro e Ao de Vitria, alm da Acesita, deveriam absor-ver substancial parcela do volume de investimentos que, expressos em moedas estrangeiras, equivaliam a US$322 milhes. Claro que os quatro ltimos projetos citados somente estariam concludos depois do meu perodo de governo. Iniciar grandes obras e confi-las a meus sucessores a sua concluso representava um ato de f no futuro do pas. No h dvida de que o Brasil fora sacudido e despertara para

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    realizaes de vulto em todos os setores. Em 1960, a produo siderr-gica interna dever estar elevada a 1.843.019 toneladas e o salto para 3.600.000, previsto no meu programa, deveria ocorrer at 1964, se fiel-mente executados todos os projetos de iniciativa governamental e do se-tor privado. Em 1962, a quantidade produzida deveria atingir cerca de 2.400.000 toneladas, bastante mais do dobro de 1955 e a caminho rpi-do do triplo. Considero, pois, compensador o esforo que concentra-mos para alcanar a meta do ao.

    Mecanizao da Agricultura - O dado principal desta Meta con-sistia na elevao a 72.000 do nmero de tratores agrcolas que deveriam estar operando no ano de 1960. Em virtude da utilizao de crditos ex-ternos para importaes, e principalmente de saldos em pases de moe-das inconversveis, a presena de 73.900 tratores agrcolas j no primeiro semestre de 1959 determinou que fossem acelerados os trabalhos para a fabricao de tratores no Brasil. Por motivos bvios, foi o Grupo Exe-cutivo da Indstria Automobilstica, GEIA, encarregado de dirigir o programa de instalao da indstria de tratores, fadada a colher os bene-fcios da experincia nacional de fabricao de componentes de elevado teor tecnolgico, tais como eixos, caixas de mudanas, motores, embreagens e outros itens. Em dezembro de 1959 assinei o Decreto n2 47.473, fixando a proporo mnima de 70% de peas e matrias-primas nacionais na fabricao de tratores, a partir do segundo semestre de 1960. No ano seguinte, foram produzidas pelas fbricas instaladas no pas 1.678 unidades, dando-se em 1962 um salto para 7.586.

    Minrios - Assim que cheguei Presidncia, mandei elabo-rar um plano para as exportaes da Companhia Vale do Rio Doce. Em 1956, a exportao era da ordem de 2.500.000 toneladas, deven-do alcanar at o fim do governo a cifra de 6 milhes de toneladas. Providncias idnticas foram tomadas a respeito do mangans do Territrio do Amap.

    Indstrias bsicas Levando em conta a importncia da produ-o de metais no-ferrosos para as necessidades da indstria nacional, no me descuidei desse importante problema, uma vez que a produo de estanho, inicialmente de 3 mil toneladas, elevava-se ento a 6 mil. A produo de nquel tambm fora estimulada, tendo atingido, em 1959, 89 mil toneladas. O cobre e o alumnio deveriam alcanar, em 1960, ci-

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    fras animadoras de produo, que compensariam os esforos despendi-dos pelo Governo. A Companhia Nacional de Alcalis acompanhara, igualmente, o ritmo de trabalho, programado pelo governo, j que a produo de soda-custica atingira, em 1959, 65 mil toneladas. A produ-o de celulose de 300 mil toneladas ultrapassara a meta prevista inicial-mente pelo governo.

    A essa altura de minha exposio, j longa, fiz uma advertn-cia aos telespectadores: "Sei que j falei muito, mas ainda no esgotei o assunto. Esta viagem pelo Brasil demorada, pois o nosso pas conti-nente. Os que estiverem cansados podero desligar seus aparelhos, que compreenderei perfeitamente esse gesto. Aos que estiverem interessa-dos no que estou dizendo, solicito mais um pouco de pacincia. O que estou fazendo desvendar aos olhos do povo o que foi realizado duran-te o meu governo, para acordar este gigante, que estava adormecido h quatro sculos. Sinto que ele j est de p e que se mostra impaciente por tomar nas mos seu prprio destino."

    Segundo foi divulgado, no dia seguinte, o que se apurou, atra-vs de pesquisas de alguns grandes jornais, foi que apenas dez por cento dos ouvintes desligaram suas televises e se recolheram ao leito. Eu es-tava, de fato, cansado. Por ocasio da passagem do ano, havia sido aco-metido de forte gripe - que me impediu, inclusive, de ler minha mensa-gem de Ano Novo ao povo, o que foi feito pelo ministro da Justia. Da a razo por que, vez por outra, tinha de me sentar. Um contnuo do pa-lcio seguia-me a distncia e, quando lhe fazia um sinal, trazia-me a ca-deira que vinha transportando de sala em sala. Mesmo assim, tudo cor-reu maravilhosamente. Ocupei-me, em seguida, das atividades do gover-no no setor das indstrias bsicas, notadamente no campo da indstria mecnica pesada e na de material eltrico.

    Quanto a esta parte das metas, declarei que o meu governo mostrava-se altamente confiante, e, nesse sentido, ressaltei a cooperao de industriais europeus, notadamente o Grupo Schneider, chefiado pelo meu amigo Charles Schneider, o qual tinha construdo uma grande f-brica em Taubat, no Estado de So Paulo, para produo de turbinas, geradores e motores eltricos.

    Marinha Mercante No que dizia respeito ao transporte marti-mo, referi-me instituio do Fundo de Marinha Mercante, aprovado

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    pelo Congresso, que surgira para resolver definitivamente as dificulda-des da nossa frota mercantil. Em virtude dele, j estavam em pleno fun-cionamento numerosos estaleiros que dariam ao Brasil, dentro em bre-ve, navios de cinco, vinte e at quarenta mil toneladas, possibilitando o reequipamento dos nossos transportes martimos.

    A Constituio estabelecia que 10% da arrecadao seriam destinados educao, ndice que meu governo superara em 1960, com a destinao de 16 bilhes para essa finalidade. Ao assumir o governo, encontrara das dotaes destinadas educao 70% para o Ensino Su-perior e 4 a 5% para o Ensino Primrio. Em 1960, o Primrio j absor-via 4 bilhes de cruzeiros, o Ensino Mdio, 4 bilhes e o Superior, 3,5 bilhes de cruzeiros.

    Na rea da Cincia e Tecnologia, o meu governo cumprindo a sua trigsima meta, que tinha por finalidade intensificar a formao de pessoal e orientar a educao para o desenvolvimento, realizou grandes inverses em obras, aparelhagem cientfica e remunerao a professores e tcnicos de alto nvel, pesquisadores, bolsistas e estagirios de tempo integral. Entre outros, o meu Programa deixou instalados os Institutos de Eletrnica e Mecnica em Belo Horizonte; de Minas e Metalurgia, em Ouro Preto; de Matemtica e de Fsica, no Rio Grande do Sul; de Mecnica e de Mecnica Agrcola, em Curitiba; de Gentica, em Piraci-caba; de Economia Rural, no Estado do Rio; de Qumica e de Cincias Sociais, no Rio de Janeiro; de Qumica, em Salvador; de Geologia, em Recife; e de Tecnologia Rural, em Fortaleza. Em matria de pesquisa, importante passo foi dado com a instalao de um reator atmico expe-rimental, com potncia de 5 megawatts, na Cidade Universitria de So Paulo, a ser utilizado por fsicos, qumicos, biologistas e tecnologistas nacionais. A Comisso de Energia Nuclear, por sua vez, recebeu subs-tanciais recursos para a formao de pessoal qualificado, planejamento de centrais eltricas nucleares em determinadas regies do pas, pesqui-sas e administrao do Projeto de Mambucaba, que previa a instalao de uma central nuclear de 150.000 quilowatts na baa da ilha Grande, Estado do Rio de Janeiro.

    Braslia Referi-me, em seguida, a Braslia, exibindo fotografias e grficos, para que os telespectadores tivessem uma ideia das obras ali realizadas. Estvamos a dois meses da transferncia da capital, e alguns

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    elementos da UDN insistiam em dizer que Braslia no existia, que era apenas um amontoado de esqueletos de cimento armado, uma "loucura" em que se empenhava o governo, despendendo enormes somas, apenas para transformar o Planalto numa sucesso de crateras.

    Exibi, pois, as fotografias, de forma que o povo visse o Alvo-rada, o Congresso, o Palcio dos Despachos, o edifcio do Supremo Tri-bunal, os ministrios - tudo concludo. Que admirasse as enormes ave-nidas asfaltadas, a Praa dos Trs Poderes ajardinada, e os trs mil e se-tecentos apartamentos j prontos, e espera dos seus moradores. No me furtei de mostrar as centenas de residncias construdas pela Funda-o da Casa Popular, pela Caixa Econmica, pelo Banco do Brasil.

    Braslia, como se podia ver, no era um amontoado de esque-letos de cimento armado. Era uma cidade pronta, com todos os servios em funcionamento - gua, esgotos, luz, gs, telefone - , dotada de hotis de luxo, com dezenas de casa de diverses, rede escolar, supermercados, um hospital modelar - o Hospital Distrital - e, quase concludo, seu re-volucionrio centro universitrio.

    Declarei que no era s uma cidade nova, que causava admi-rao a numerosos artistas estrangeiros que a tinham visitado, mas que ela representava, igualmente, a cristalizao filosfica do desenvolvi-mento. Assinalava o incio de uma nova era na evoluo da civilizao brasileira.

    Rio de Janeiro Referi-me, depois, ao Rio de Janeiro, ainda sede do governo, e disse que o fazia com profunda emoo, porque a cidade me merecia o maior carinho e toda a gratido. O Rio, desde que Pombal o transformara na capital do Brasil, passara a ser, praticamente, o cenrio de quase toda a Histria nacional. Ali Tiradentes morrera na forca, por seu sonho de liberdade; ali nasceram a Independncia, a Re-gncia e o Imprio; ali se desenrolara o ato da Abolio da Escravatura e se implantara a Repblica. Durante 200 anos, o Rio hospedara o Go-verno da Nao e eu procurava modernizar a cidade ao mximo.

    Concluso Esclareci que o Brasil, no meu governo, tivera a honra de bater alguns recordes mundiais em matria de projetos de obras pblicas. Trs Marias era um deles - a maior barragem que, naquele mo-mento, se construa no mundo. Outro era Furnas - tambm a maior usina de energia eltrica, naquele perodo, em construo em qualquer

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    pas. Mas existiam outras realizaes grandiosas: a ponte Brasil-Para-guai; a indstria automobilstica, montada em apenas dois anos; e o in-cremento das nossas exportaes, sobretudo as de caf, cujos resulta-dos, naquele ano, haviam permitido que o Brasil desse a devida resposta ao Fundo Monetrio Internacional que pretendera condicionar sua aju-da financeira paralisao do processo de desenvolvimento nacional.

    Eu rompera com o Fundo, e todas as agncias internacionais de financiamento haviam se fechado para o Brasil. No entanto, graas poltica financeira executada por Sebastio Pais de Almeida, na pasta da Fazenda, o governo conseguira saldar todos os seus compromissos, e era com satisfao que declarava aos brasileiros, naquele momento, que o Brasil no devia um dlar a nenhum credor em lugar algum do mundo.

    INICIAVA-SE A MUDANA

    Em 1960, os pases da Amrica Latina passavam por um pe-rodo de grandes tenses. Havia agitao por toda parte e intensifica-ra-se, depois do caso de Cuba, a propaganda comunista, dando origem a um ambiente de crescente hostilidade aos Estados Unidos. Nas mi-nhas conversas com o Embaixador Briggs, procurava chamar-lhe a ateno para a deteriorao do prestgio norte-americano junto opi-nio pblica latino-americana. Aconselhava-o, com cautela, mas com a necessria firmeza, a dar conhecimento ao Departamento de Estado do que ocorria no sul do hemisfrio. O Embaixador Briggs, atendendo aos meus apelos, enviara sucessivos relatrios s autoridades de Washington, e a situao, pouco depois, passara a preocupar o prprio Presidente Eisenhower.

    Em janeiro de 1960, o presidente norte-americano solicita-ra-me que lhe enviasse sugestes sobre o que deveria ser feito com o objetivo de se dissipar o ambiente de hostilidade e de se restabelecer a antiga cordialidade entre as duas partes do continente. Sugeri que ele fi-zesse uma visita aos principais pases da Amrica Latina. A ideia fora bem acolhida em Washington e, pouco depois, eu recebia a comunica-o oficial de que Eisenhower chegaria a Braslia no dia 25 de fevereiro e, depois, viria ao Rio e, em seguida, visitaria So Paulo.

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    Braslia ainda no estava concluda. Vivia-se fase febril dos l-timos preparativos para a transferncia da capital. Enquanto novos edi-fcios eram construdos, sucediam-se as frentes de asfaltamento dos lo-gradouros pblicos. Estava concluda a barragem do Parano e o lago havia comeado a tomar forma. Ao longo do lago, estendia-se uma ave-nida de 19 quilmetros de comprimento, j inteiramente asfaltada. A plataforma rodoviria um gigantesco monumento de ferro e cimento, com pistas subterrneas e elevadas, estaes de passageiros e instalaes de todo gnero - recebia os ltimos retoques.

    A cidade se preparava para a mudana. Avies chegavam e despejavam levas sucessivas dos primeiros moradores, e regressavam ao Rio, em busca de novos carregamentos humanos. Entretanto, a mudan-a, apesar da atoarda em contrrio feita pelos oposicionistas, havia sido programada com o maior cuidado, levando-se em conta todos os seus detalhes. Dois meses antes, fora organizado o GTB - Grupo de Trans-ferncia para Braslia - dirigido por Joo Guilherme Arago, diretor do DASP, e tendo o Coronel Greenhalgh Braga como chefe executivo. Ca-beria ao GTB a responsabilidade de fazer a transferncia dos funcionrios, arranjar-lhes acomodaes, providenciar o transporte de seus pertences, enfim, cuidar que tudo fosse levado a efeito em ordem e com a maior rapidez possvel. Antes que tivesse incio a operao-mudana propria-mente dita, o GTB realizara umas quatro ou cinco viagens de experin-cia, de forma a fixar o melhor itinerrio, estabelecer o tempo mnimo necessrio para se cobrir o percurso e selecionar o gnero mais conveni-ente de transporte.

    Lembro-me de que, numa dessas viagens, foram levadas as primeiras 37 linotipos que iriam formar a base da oficina grfica da Imprensa Nacional de Braslia. Com a mudana da sede do governo, o Dirio Oficial deveria acompanh-lo, e sua circulao, ao invs de se fazer no Rio como acontecera desde a fundao da Imprensa Oficial, orde-nada pelo Prncipe D. Joo - , a partir de 21 de abril teria lugar em Bras-lia. Um prdio imponente ali fora construdo e providenciava-se, ento, a transferncia das mquinas que iriam integrar o novo parque grfico. As 37 linotipos eram vanguardeiras. Cinco caminhes Mercedes-Benz, com placa de trs Estados, encarregaram-se do transporte, que foi reali-zado sem o menor contratempo.

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    Na poca - primeira quinzena de fevereiro - eu no estava bem de sade. Havia sofrido uma perturbao circulatria e o meu m-dico, Dr. Alosio Sales, recomendara-me alguns dias de repouso em Pe-trpolis. O clima da serra fez-me um bem extraordinrio. Recuperei-me em poucos dias. Na poca, o cenrio poltico estava agitado, com os candidatos minha sucesso em plena campanha eleitoral. O General Teixeira Lott, indicado pelo PSD, deveria desincompatibilizar-se para concorrer ao pleito. A questo da vice-presidncia na sua chapa ainda permanecia em aberto. Joo Goulart, insuflado por Brizola, prosseguia no seu jogo dplice, apoiando o general, mas se negando a figurar na sua chapa.

    Em janeiro, um apelo fora feito a Osvaldo Aranha. S ele, dado seu prestgio nas hostes petebistas, poderia unir o partido em tor-no da candidatura Lott. O impasse, relativo vice-presidncia, havia se formado na poderosa seo gacha, justamente na qual Brizola pontifica-va. A nica maneira de se contornar a situao, e de se fazer o eleitorado petebista do Rio Grande do Sul cerrar fileiras em torno do ministro da Guerra, era a incluso do nome do ex-chanceler na chapa pessedista.

    Os entendimentos nesse sentido, embora demorados, aca-baram obtendo xito. Osvaldo Aranha concordara em ser vice de Lott, mas pediria que sua resoluo fosse mantida em segredo at a realizao da Conveno Nacional do PTB. No dia 27 de fevereiro, procurado pelo Senador Camilo Nogueira da Gama, Aranha ratificara o compro-misso assumido com Joo Goulart e, exaltando-se, como era do seu temperamento, levantara o sigilo que vinha mantendo em relao sua atitude. Nessa ocasio, Camilo Nogueira da Gama perguntara ao ex-chanceler: "Posso comunicar imprensa que o senhor ser vice, em-baixador?" Osvaldo Aranha, aps ligeira reflexo, respondera: "Pode." O senador mineiro nem tempo tivera para divulgar a notcia. Trs horas mais tarde, ocorria o falecimento sbito do ilustre homem pblico.

    Diante desse inesperado e infausto desfecho, a questo da vi-ce-presidncia na chapa pessedista permanecera sem soluo. Joo Gou-lart voltara ao seu jogo dplice, o que no deixava de ter efeitos negati-vos sobre a candidatura Lott. A Oposio, aproveitando-se da circuns-tncia, passara a explorar o assunto, procurando fazer crer que a dificul-dade de articulao de um nome, para figurar na chapa como vice, cons-

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    titula eloquente atestado da franqueza poltica do candidato indicado pelo PSD. O General Lott observava os acontecimentos com a frieza de quem no estava afeito s lides polticas. Julgava que a indicao do PSD era-lhe suficiente e que seria contrariar sua formao moral tentar atrair, para sua candidatura, o apoio de novas e recalcitrantes foras par-tidrias. O que preocupava era apenas o cumprimento do imperativo constitucional, relativo ao prazo para desincompatibilizao, que termi-naria a 2 de abril.

    Homem ntegro e fiel aos seus compromissos, estava atento, por outro lado, ao problema de segurana do regime que seria criado, caso aguardasse a expirao daquele prazo para se afastar do ministrio. que o seu substituto na pasta, o Marechal Denys, estava pressionado, igualmente, por uma questo de tempo: o perodo de sua convocao para a ativa terminaria no dia 21 de fevereiro, quando, por fora da lei, deveria deixar o comando do Primeiro Exrcito.

    De acordo com os entendimentos que mantive com o Mare-chal Denys, o problema pde ser contornado. Lott anteciparia sua sada do ministrio e Denys seria nomeado para substitu-lo, sem que se veri-ficasse qualquer interregno entre a demisso do comando do Primeiro Exrcito e a posse na pasta da Guerra.

    Assim, o General Lott escreveu-me uma carta solicitando de-misso da pasta e, no dia 11 de fevereiro de 1960 - vinte e quatro horas, portanto, antes da expirao do prazo de convocao do comandante do Primeiro Exrcito para a ativa - , assinei dois decretos que se faziam necessrios: o de exonerao, a pedido, do General Lott do cargo de mi-nistro da Guerra e o de nomeao, para as mesmas funes, do Mare-chal Odlio Denys.

    O PIOR CEGO O QUE NO QUER VER

    A exposio, que fiz por uma cadeia de rdio e televiso, obteve, como disse, a melhor repercusso. Mesmo assim, ainda se erguiam vozes para declarar que as obras, anunciadas pelo governo, no passa-vam de propaganda oficial. A televiso, entretanto, mostrara todas elas. O povo vira, com os prprios olhos, o estgio de andamento em que

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    cada uma se encontrava. Disseram-me que uma fotografia da Be-lm-Braslia, tirada de bordo de um avio, causara verdadeiro impacto na sensibilidade dos telespectadores.

    A realidade da obra administrativa, revelada atravs de ima-gens, j no poderia ser contestada. Mesmo os que no compreendiam o sentido econmico dos empreendimentos governamentais sentiam que uma nova fase se abriria para o Brasil. que, alm das obras, o pas enveredara resolutamente pelo caminho da industrializao.

    Todos esses fatos fizeram a Oposio compreender que sua tcnica de combate ao governo deveria ser reformulada. O negativismo, puro e simples, que caracterizara a ao principalmente da UDN, j no tinha razo de ser. Os udenistas no poderiam permanecer negando o bvio. O Deputado Antnio Carlos Magalhes, em discurso na Cmara, definira, com clareza, a diretriz a ser seguida pelo partido: "Chegou o momento da UDN abraar a tese do desenvolvimento econmico, e no entregar a bandeira aos seus adversrios. Na poltica, o pior dos crimes negar a evidncia."

    Essas palavras refietiam a desorientao que reinava nas hos-tes oposicionistas. O Deputado Adauto Lcio Cardoso, um dos mais ferrenhos inimigos do Governo, curvara-se, pouco depois, evidncia dos fatos: "No possvel continuarmos merc da m-f dos que nos apontam como adversrios do desenvolvimento" declarou, e acres-centou: "Queremos tudo o que est nas Metas e mais ainda do que nelas est. Somos favorveis a Trs Marias, a Furnas, industrializao." O ilustre representante mineiro e, mais tarde, ministro da Suprema Corte de Justia, j se irritava quando o seu partido era apontado como a se opor linha progressista do governo.

    Essa irritao refletia sensvel mudana na orientao poltica da UDN. De fato, no faltava quem acusasse o partido de ser contrrio s Metas e, portanto, inimigo do desenvolvimento nacional. Alguns udenistas, todavia, os integrantes da ala moderada da agremiao, julgaram que apenas uma mudana no modo de pensar no seria suficiente. Era indispensvel que a UDN se definisse com clareza, de forma a no pairar qualquer dvi-da sobre seus propsitos. Surgiu, pois, um movimento no seio da agremia-o, organizado pelos Deputados Ferro Costa, Edilson Tvora e Jos Sar-ney, cujo objetivo seria esquematizar, no que fora denominado uma Carta de Princpios, a atitude da UDN em face do desafio desenvolvimentista.

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    O que eles tinham em vista era o estabelecimento de uma li-nha de ao que representasse um meio-termo entre a necessidade de o partido prosseguir na sua intransigente oposio a mim e a convenincia de no negar apoio a algumas realizaes do Governo. No que dizia res-peito caracterizao da UDN como partido da Oposio, existia o problema de Braslia. A nova capital deveria ser combatida de todas as maneiras, nem que esse combate importasse em graves prejuzos para o pas.

    Para se definir a paixo dos udenistas em relao nova capi-tal, basta citar esta frase de um dos mais ilustres, em entrevista im-prensa, aps a visita que fizera a Braslia - "Falta um edifcio naquela ci-dade: o edifcio para acolher os gnios que a construram, os quais deve-ro ali ficar sob permanente vigilncia de psiquiatras."

    Apesar de toda essa resistncia, as obras prosseguiam. Braslia j se tornara irreversvel, no existindo fora poltica, ou de qualquer ou-tra natureza, capaz de faz-la parar. Essa irreversibilidade no era im-posta to-somente pelo que ali havia sido construdo, mas, igualmente, pelo papel que ela passara a representar, como base do Programa de Integrao Nacional.

    O grande cruzeiro rodovirio, que eu imaginara e vinha cons-truindo, faltava pouco para estar concludo. Uma prova concreta disso era o entusiasmo com que alguns amigos meus, ocupando postos de re-levo no governo, haviam programado fazer por terra, atravs de colunas de veculos, de fabricao nacional, a ligao da regio Norte com a re-gio Sul do pas. Essa iniciativa pioneira foi denominada Caravana da Integrao Nacional e nela tomariam parte governadores de Estado, o prefeito do Distrito Federal, dirigentes de indstrias automobilsticas e autoridades do DNER. A finalidade da Caravana era demonstrar prati-camente que estavam prontas e em condies normais de utilizao as ligaes rodovirias das diferentes regies do pas a Braslia.

    Num trabalho de preparao do terreno, foram organizadas duas colunas de reconhecimento que partiram do Rio no dia 3 de janei-ro de 1960. A primeira delas- deslocou-se para So Paulo, de onde seguiu para Mato, Prata, Goinia, Braslia, retornando da futura capital por Paracatu, Trs Marias, Belo Horizonte, Juiz de Fora e, finalmente, Rio. A segunda, depois de So Paulo, demandou Capo Bonito, Curitiba, La-

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    jes e Porto Alegre. Essas colunas, alm de verificar o estado das rodovias, entraram em entendimento com as autoridades das localidades por onde passaram, tendo em vista o plano e a finalidade da Caravana, data de sua passagem e outras providncias relativas ao empreendimento. Depois de concludo esse trabalho preliminar, teria lugar, ento, o deslocamento das quatro outras, e efetivas, colunas da Caravana de Integrao Naci-onal - uma, partindo de Belm; outra, de Porto Alegre; a terceira, do Rio, e a quarta, do Alto Araguaia - , que se encontrariam em Braslia, no dia l 2 de fevereiro, quando ali seria realizada imponente cerimonia, presidida por mim, na Praa dos Trs Poderes.

    Em janeiro, assisti cerimnia do batimento das quilhas dos dois primeiros navios mercantes, da srie de quatro, a serem construdos no estaleiro Lahmeyer, em Niteri. Tratava-se de um ato que assinalava passo decisivo para fazer o Brasil bastar-se a si mesmo no que dizia res-peito reconstruo de sua marinha mercante.

    A l 2 de fevereiro, presidi, no Palcio do Catete, s 7 horas da manh como o vinha fazendo desde que assumira o governo , a uma reunio do Ministrio. Nesta ocasio, comuniquei aos meus ministros que aquele seria o ltimo encontro daquela natureza realizado no Rio. Aproveitei a oportunidade para chamar a ateno dos meus auxiliares para um grande problema que iramos enfrentar: a complementao da meta poltica. As eleies presidenciais seriam realizadas em outubro e, por isso, o momento era o mais delicado possvel. Repeti na ocasio o que vinha insistentemente afirmando: as eleies, presidenciais ou ou-tras, deveriam ser tratadas como atos normais da democracia. Manifestei a opinio de que, daquela vez, no iria se registrar a menor perturbao da ordem e que os escolhidos pelo eleitorado se empossariam, sem que se discutisse o pronunciamento das urnas e da justia.

    E declarei: "Porei todo o meu empenho nisso, e quero ter sido o ltimo candidato Presidncia da Repblica obrigado a vencer resistncias antidemocrticas e a enfrentar ameaas de um inconformis-mo poltico bem mais atentatrias s nossas tradies de pas civilizado que minha pessoa. Agradecido ficarei a Deus se conseguir concluir o meu quinqunio sem o emprego de medidas de exceo e conservan-do-me sereno e isento."

    Aps a reunio ministerial, tomei o avio e segui para Braslia.

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    SURGE A IDEIA DA BRASLIA-ACRE

    Por ocasio do encontro das quatro colunas da Caravana de Integrao Nacional em Braslia, aproveitando a oportunidade, fiz reali-zar, no Palcio da Alvorada, uma reunio dos governadores dos Estados e dos Territrios da Bacia Amaznica, a fim de estudar, com eles, os problemas surgidos com a abertura da rodovia Belm-Braslia.

    Uma enorme rea fora posta disposio dos desbravadores e j se iniciara, com grande xito, a colonizao das duas margens da es-trada. Entretanto, como sempre acontece nas terras recentemente con-quistadas Natureza, logo surgiram aventureiros de toda sorte, tentan-do espoliar atravs de processos criminosos os pioneiros que ali ha-viam iniciado suas plantaes.

    Estavam presentes os governadores de cinco Estados e dos quatros Territrios que integravam a Amaznia, alm de Waldir Bouhid, superintendente da SPVEA, do arcebispo de Goinia e de diversos as-sessores do governo. O Arcebispo Dom Fernando fez-me um apelo no sentido de se evitar a ocupao desordenada das terras devolutas e ma-tas virgens, situadas ao longo do grande eixo rodovirio. Revelou a luta que o bispo de Porto Nacional, Dom Alano, vinha travando contra os concessionrios de terras devolutas, os quais, de posse de documenta-o falha, tentavam espoliar os posseiros, que haviam sido os desbrava-dores da selva e tinham construdo a estrada.

    Aceitei a sugesto e, ali mesmo, dei instrues para a consti-tuio de um grupo de trabalho - a exemplo do que havia ocorrido com a execuo das tarefas resultantes dos histricos encontros de Campina Grande e de Natal - integrado por representantes dos Governos da re-gio, do Exrcito Nacional, do INIC, da SPVEA, do Servio Social Ru-ral, do Departamento Nacional de Produo Vegetal, da LBA e de ou-tros rgos cuja cooperao viesse a ser considerada necessria para a pronta execuo dos planos traados. Durante a reunio, o Governador Manuel Fontenele de Castro, do Acre, fez-me uma dramtica exposio sobre o isolamento em que vivia o Territrio, sob sua jurisdio. Qual-quer mercadoria, adquirida no Rio ou em So Paulo, levava nove meses no percurso at chegar a Belm; dali, por via fluvial, ao longo do Ama-zonas e do Madeira at Porto Velho; desta cidade pela Estrada de Ferro

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    MadeiraMamor at Guajar-Mirim; e da, por terra atravs de estradas quase intransitveis at Rio Branco. Quase um ano entre o litoral e a ca-pital do Territrio do Acre!

    Um ms antes, o governador do Territrio de Rondnia, o Coronel Paulo Nunes Leal, havia autorizado a realizao da viagem pio-neira de um caminho, carregado com quatro toneladas, da capital pau-. lista a Porto Velho, e essa iniciativa havia sido coroada de pleno xito. O tempo gasto no percurso fora muito menor; houve considervel eco-nomia para os cofres pblicos; a carga chegara em perfeito estado; e fi-cara provada a viabilidade da travessia de veculos entre aqueles extre-mos, levada a efeito atravs do Centro-Oeste do Pas.

    O cruzeiro que eu idealizara, para ligar os pontos cardeais do territrio nacional atravs de Braslia, j era uma realidade. A Be-lmBraslia estava aberta, e o mesmo acontecia em relao ao tron-co-sul. A Caravana de Integrao Nacional provara, de maneira prtica, a concretizao daquele ideal. Contudo, apesar do xito da Caravana, eu no me sentia satisfeito. A grande cruz rodoviria havia sido rasgada, de fato, mas um dos seus braos, justamente o esquerdo, ainda no estava completo. O tronco oeste estendia-se por cerca de 1.500 quilmetros, mas s avanava at Ponte de Pedra, no Rio Verde, um pouco alm de Cuiab. Era necessrio fz-lo aproximar-se ainda mais da fronteira oci-dental, atravessando Rondnia e penetrando no Acre.

    Enquanto o governador do Acre falava, vinha-me mente uma reportagem, publicada numa revista carioca, sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamor. Essa reportagem havia sido divulgada em ou-tubro e iniciava-se com esta carta a mim dirigida: "Doutor Juscelino: Dedico esta reportagem a Vossa Excelncia, a pedido de Raimundo No-nato dos Santos. Este Raimundo um rio-grandense-do-norte, que tem sua barraca no quilmetro 172 da Estrada Madeira-Mamor. Pai de cin-co filhos, esfalfa-se na sua roa de cana e macaxeira, no tempo que lhe sobra das lides de seringueiro. uma gente encantadora, boa e trabalha-deira, Senhor presidente, que nos oferece a sua rede, a sua mesa e o seu corao num segundo. E ele, que, com a famlia, depende da Madei-ra-Mamor, define a ferrovia em poucas palavras: ' uma porcaria.' As mseras safras do pobre Raimundo apodreciam, por falta de transporte. J havia perdido um filho mngua de socorro, e o socorro s poder

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    vir pela Madeira-Mamor. 'Diga pro Presidente JK para olhar um pou-co por ns' - foi o que me pediu. o que tento fazer, Excelncia. Olhe pelos noventa mil Raimundos que vivem beira desta ferrovia, vele por uma estrada que custou dezesseis mil vidas, ajude aquele povo de Ron-dnia a sair da sua infelicidade. No os desaponte, Doutor Juscelino.

    (a) Jorge Ferreira." Esta carta tocou-me profundamente. Li-a diversas vezes e

    procurei, no mapa, uma alternativa que me permitisse solucionar o pro-blema. A Madeira-Mamor surgira como consequncia do Tratado de Petrpolis, assinado entre o Brasil e a Bolvia. Entretanto, as vantagens oferecidas pela ferrovia s eram usufrudas pelos bolivianos. Ao Brasil cabiam, to-somente, as responsabilidades de mant-la em funciona-mento.

    Como a explorao da estrada no interessava ao Brasil, os governos acabaram por abandon-la. Foi apodrecendo em vida. Mor-rendo com os trens em circulao. Os dormentes eram arrancados, para servir de esteio s barracas dos desbravadores. As locomotivas requeriam reparos. Deterioravam-se os carros de carga e passageiros. E o pessoal, observando o descaso com que nossas autoridades encaravam a fer-rovia, passou a negligenciar o trfego. No havia horrio. Os trens partiam, mas ningum podia dizer quando chegavam. Havia um "trem de feira", cognominado "o trem do Diabo".

    No entanto, a construo da Madeira-Mamor constitura uma verdadeira epopeia. Ingleses, irlandeses, barbadianos, espanhis, italianos, gregos e mateiros brasileiros se haviam empenhado, de corpo e alma, no empreendimento. Rasgava-se a selva e, medida que os tri-lhos avanavam, os cadveres iam se acumulando no leito da linha. A obra era de homens, mas quem comandava a batalha era a malria. Cen-tenas de doentes aguardavam nas barracas um socorro mdico, que nunca vinha. E, por fim, num mar de cruzes, estendendo-se ao longo das margens do Madeira, assinalava a vitria do homem sobre o mos-quito aliado selva.

    Todo aquele esforo, desdobrado atravs de diversos gover-nos, acabara por se tornar intil. Os caboclos da regio chamavam-na "o caminho que partia do nada para no chegar a lugar algum". Esta era a Madeira-Mamor, a ferrovia que o Raimundo Nonato dos Santos defi-

  • Por que constru Braslia 307

    nira para o jornalista Jorge Ferreira com esta chocante dramaticidade: " uma porcaria."

    Enquanto o Coronel Paulo Nunes Leal falava, eu me lembra-va de tudo isso. Era uma necessidade a abertura para o Oeste. A Ron-dnia deveria ser conquistada e o mesmo precisaria ser feito em relao ao Acre. Eram terras ubrrimas dominadas pela floresta. A escalada era um desafio. Quando o coronel terminou sua exposio, expus o plano que tinha em vista. A cruz rodoviria teria seu brao esquerdo acrescido. Seria uma nova Belm-Braslia, embora muito mais extensa e bem mais difcil de ser rasgada.

    A ideia da Braslia-Acre havia surgido. Quando deixei a reunio, os jornalistas desejaram saber o que

    resultara daquele encontro com os governadores da Amaznia. Fui seco e positivo: "Uma nova estrada." E acrescentei: "Ser a BrasliaAcre." Senti que minha informao chocara alguns dos rapazes da imprensa. "Mas como, presidente?" - perguntou um deles. "O senhor j est no fim do seu governo, e como pensa em construir uma rodovia que ser uma outra Belm-Braslia?" "Com vontade, meu caro" - respondi. "No s vou construir, mas tambm inaugur-la, antes de deixar o governo."

    No dia seguinte, os jornais divulgaram a notcia e, como sem-pre acontecia, a Oposio logo tomou posio contra a iniciativa. "Um absurdo" exclamava um. "Verdadeira loucura!" verberava outro. Eu estava habituado com aquelas reaes. O que pretendia fazer era, de fato, temerrio. Abrir uma estrada de 3.335 quilmetros, dos quais cerca de 1.090 quilmetros em plena selva, representava, de fato, uma temeri-dade. E pior do que isso: abrir e inaugur-la antes de deixar o governo, isto , em apenas onze meses.

    O Governador Paulo Nunes Leal, que conhecia a regio, dis-se-me, com franqueza: "S acredito na BrasliaAcre porque o senhor prprio ser quem ir comandar a batalha. Se outro presidente me dis-sesse isso, receberia a notcia como uma brincadeira."

    As dificuldades residiam tanto na expanso da rodovia quanto na exiguidade do tempo, que no permitiria milagres. Alm do mais, a regio, onde se iria trabalhar, era praticamente inacessvel. Como as mo-toniveladoras ali chegariam? De que maneira o material necessrio seria

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    levado at o local? Onde encontrar trabalhadores que se mostrassem dispostos a viver na selva, ameaados por numerosos perigos e, princi-palmente, pela malria? "Com vontade" era a resposta que eu dava. Este era o grande fautor das minhas realizaes. Quando o Coronel Paulo Nunes Leal conclura seu pensamento, externando sua crena de que a rodovia seria construda, o Governador Manuel Fontenele de Cas-tro, do Acre, indagou quando os trabalhos teriam incio. -"Amanh mesmo, governador" - respondi. "Quando sairmos daqui, j vou dar as providncias necessrias para o incio imediato da construo."

    Finda a reunio, telefonei ao Engenheiro Rgis Bittencourt, diretor do DNER, convocando-o para uma entrevista no palcio. Fe-chamo-nos no salo da biblioteca e abrimos um mapa sobre a mesa. O traado da rodovia teria de ser resolvido naquela hora, pois qualquer perda de tempo poderia ser irreparvel. Meu pensamento era deixar a estrada pronta. Se assim no fizesse, o Acre continuaria isolado do resto do Brasil. Estava cansado de ver obras iniciadas por um governo, e abandonadas pelo que o sucedia. Apesar dessa precauo, algumas iniciati-vas minhas, de enorme importncia para o desenvolvimento nacional, sofreram a ameaa de serem desfeitas, depois de executadas. Jnio Qua-dros, ao assumir o governo, extinguiu a Rodobrs, tentando fazer desa-parecer a Belm-Braslia. Os prprios desbravadores, que se haviam instalado ao longo da rodovia, tomaram a peito a tarefa de no permitir que a selva se fechasse. Infelizmente, esse desastre aconteceu Bras-liaFortaleza, embora a houvesse deixado aberta e com leito pronto para receber o asfalto.

    Em companhia do Engenheiro Rgis Bittencourt estudei o traado da nova rodovia: obedeceria direo Leste-Oeste, iniciando-se em Braslia, numa altitude de 1.050 metros, para seguir o divisor de guas entre a bacia hidrogrfica do Paran-Paraguai e as do Tocantins e Amazonas. Atingiria Porto Velho numa altitude de 90 metros e dali des-ceria acompanhando o rio Madeira at Abun, de onde avanaria at o marco final em Rio Branco.

    A nova rodovia iria entrosar-se no sistema rodovirio do Bra-sil Central e, nessas condies, alguns dos trechos que iriam integr-la j estavam construdos. Assim, j haviam sido entregues ao trfego o tre-cho Braslia-Goinia e mais 60 quilmetros na direo de Jata. De Jata

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    at Ponte de Pedra, no rio Verde, passando por Cuiab, j existia um trecho completo de 1.205 quilmetros, dos quais 400 construdos pelo Exrcito.

    A parte nova, propriamente dita, teria uma extenso de 1.090 quilmetros, cobertos na sua totalidade por matas virgens, que deveriam ser desbravadas. Uma comparao d bem ideia do vulto da obra: o tre-cho a desmaiar correspondia ao percurso Rio-So Paulo, nos dois senti-dos. A partir de Porto Velho at a capital acriana os trabalhos se desdo-brariam por mais de 550 quilmetros. Essa estrada seria, sem dvida, de enorme importncia econmica. Iria beneficiar mais de um milho e 200 mil quilmetros quadrados do territrio nacional e possibilitaria a li-gao do sistema rodovirio brasileiro Rodovia Pan-Americana fato-res que a recomendavam como via de penetrao de uma das mais vas-tas e promissoras regies do pas e como instrumento de aproximao com as demais naes do Continente.

    No que dizia ao desenvolvimento nacional, a BrasliaAcre estenderia sua influncia por diversos Estados, na seguinte ordem: Gois, 200 mil quilmetros quadrados; Mato Grosso, 400 mil quilmetros qua-drados; Amazonas, 200 mil quilmetros quadrados; Rondnia, 243 mil quilmetros quadrados; e Territrio do Acre, 153 mil quilmetros qua-drados - reas estas fadadas a grande futuro, graas comunicao dire-ta com a nova capital.

    Depois de estudado o traado, combinei com o Engenheiro Rgis Bittencourt a criao, no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, de uma Comisso Especial de Construo da BrasliaAcre, a qual seria uma espcie de Rodobrs, capaz de contornar os entraves bu-rocrticos e de imprimir a maior velocidade possvel aos trabalhos. Igualmente acertei com o diretor do DNER a convocao dos maiores empreiteiros do Brasil, de forma que a abertura da estrada pudesse con-tar, no s com avultado nmero de engenheiros, especializados em tra-balhos rodovirios, mas, tambm, com uma frota de mquinas altura da importncia do empreendimento. Ficou combinado, por fim, que o DNER entraria imediatamente em contato com o Servio de Proteo aos ndios, com o objetivo de se proceder a uma rpida colonizao da nova estrada, atravs do trabalho de integrao das diversas tribos que habitavam a regio, com a promoo simultnea de culturas de seringais,

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    de castanhas e de outras lavouras prprias da rea, criando-se, dessa for-ma, fontes de riqueza necessrias sobrevivncia dos indgenas.

    No desdobramento do plano, o Servio de Proteo aos ndios organizaria equipes de 12 homens, tecnicamente preparados, s quais incumbiria o trabalho de atrair os pacas-novos, os suris, os quars e os mambiqeras - tribos que habitavam aquelas matas - pelo mesmo siste-ma de integrao que havia sido levado a efeito na BR-14. Nesse senti-do, e tendo em vista imprimir maior eficincia atuao do SPI, tcni-cos logo seriam enviados para Cuiab, com a incumbncia de construir e montar ali uma unidade radiotelegrfica, de modo que as equipes, dis-tribudas pela rea, dispusessem de um veculo rpido de comunicao. Terminada a entrevista, Rgis Bittencourt embarcou para o Rio, a fim de tomar as providncias combinadas.

    Um ms mais tarde, as concorrncias haviam sido abertas e os empreiteiros j se preparavam para iniciar os trabalhos. Cerca de 5 mil toneladas de materiais diversificados de construo rodoviria ti-nham seguido para Porto Velho, a bordo do navio Rio Tubaro. Esse carregamento deixara o Rio no dia 22 de maro e deveria levar trinta dias para vencer a distncia at a capital do Territrio de Rondnia, per-correndo, alm do longo trecho costeiro, grande parte dos rios Amazo-nas e Madeira. A chegada a Porto Velho seria numa poca oportuna, quando o nvel mais elevado do rio iria permitir que a navegao e a atracao j fossem bem mais fceis s embarcaes de maior calado, como era o Rio Tubaro.

    Estava lanada, assim, a ltima obra do meu governo. Eu ti-nha apenas nove meses para execut-la, o que, na realidade, era tempo excessivamente exguo. Apesar disso, no hesitei em meter ombros empresa. Tratava-se de uma necessidade do pas e que seria indispens-vel para a complementao do meu plano de realizar, em termos prti-cos, uma verdadeira obra de integrao nacional.

    A VISITA D O P R E S I D E N T E E I S E N H O W E R

    Lanada a Braslia-Acre, voltei-me para os preparativos da re-cepo ao Presidente Eisenhower que, no dia 23 de maro, chegaria ao

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    Brasil. Seria uma viagem curta de apenas 72 horas , mas de grande importncia para a poltica exterior dos Estados Unidos, em face da crescente deteriorao do seu prestgio entre as naes lati-no-americanas.

    Eisenhower era um sincero amigo do Brasil e estava empe-nhado, de corpo e alma, numa tentativa de reaproximao das duas par-tes do hemisfrio. No Brasil, as aclamaes que recebeu foram consa-gradoras. Contudo, tornara-se visvel que elas eram tributadas ao heri de guerra, ao Comandante Supremo das Foras Aliadas, e no ao pre-sidente dos Estados Unidos. O ressentimento contra o governo de Washington - tanto no Brasil, como nas demais naes latino-americanas - era uma evidncia que se havia tornado agressiva e j no poderia ser disfarada.

    Eisenhower iniciou sua visita por Braslia e, depois, esteve no Rio e em So Paulo. Acompanhei-o durante todo o tempo, e pude sen-tir como se mostrava preocupado com o evidente - e, para ele, incom-preensvel - sentimento de hostilidade em relao sua ptria. No Bra-sil, tudo fez para dissipar aquela atmosfera de preveno e desconfiana. Quando aparecia em pblico, ignorava as medidas de segurana e pro-curava aproximar-se do povo.

    Por ocasio da sua chegada a Braslia, ocorreram dois inciden-tes que no deixaram de ser pitorescos: o do tapete vermelho que fora es-tendido ao p da escada do seu avio e do meu atraso ao chegar ao aero-porto. Dado o imprevisto com que tudo aconteceu, esses incidentes con-triburam para que se quebrasse o formalismo oficial da recepo e o nos-so encontro acabasse sendo o mais cordial possvel.

    Como de praxe, um tapete vermelho deve ser estendido ao longo do trajeto a ser feito por qualquer visitante ilustre. O Itamarati to-mara as providncias necessrias para que tudo corresse segundo o pro-tocolo. Como no se poderia prever o local exato em que o Boeing do governo de Washington estacionaria, os encarregados da passarela deci-diram conservar o tapete enrolado e s abri-lo quando o avio de Eise-nhower j estivesse estacionado.

    Quando o imenso quadrimotor pousou e taxiou ao longo da pista, aproximando-se do local onde se daria o desembarque, o tapete foi desenrolado por soldados da Aeronutica, de acordo com as instru-

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    es do Itamarati. Deu-se, ento, o desastre. O avio estacionara prxi-mo demais e, quando o tapete atingira a escada, um grande rolo ainda restava por ser aberto. Estabelecera-se a confuso. Que fazer? Passar o tapete sob a escada ou pedir ao piloto norte-americano que recuasse um pouco o avio?

    O responsvel pelo protocolo, interveio, impedindo que a se-gunda hiptese fosse tentada. Discutiu-se o assunto e, de repente, surgi-ra a ideia salvadora: cortar o tapete. Mas como cort-lo? No se dispu-nha no local de qualquer instrumento cortante. Um candango mais prestimoso, j estava com sua peixeira na mo, quando um G-man se an-tecipou com sua faca, resolvendo o problema.

    Enquanto tudo isso ocorria, muitos se mostravam preocupados porque eu no aparecia. Os ministros, formados em fila indiana para as apresentaes, entreolhavam-se apreensivos. Cinco minutos de es-pera. Eisenhower, cientificado de que no deveria deixar o avio, di-vertia-se, olhando pela vigia de bordo o drama do tapete. Dez minutos haviam passado, e eu no aparecia. De repente, estrugiram palmas entrada do aeroporto. Era o meu carro que chegava. Desci, aflito e preocupado. O atraso no fora culpa minha. O avio de Eisenhower pegara ventos favorveis e chegara com antecipao de meia hora. Mesmo assim no automvel, a caminho do Palcio da Alvorada, apre-sentei minhas desculpas. Eisenhower, com a simplicidade de seu feitio, me respondera: "Ora essa, presidente. No h por que se desculpar." E rimos como dois velhos amigos que se encontram, depois de uma longa ausncia.

    Durante o trajeto, a despeito das ovaes que recebia, Eise-nhower observara a cidade, com visvel curiosidade. Quando chega-mos ao Alvorada, parou, voltou-se e, outra vez, contemplou Braslia demoradamente. Sacudiu a cabea, num gesto de incredulidade: "Como foi possvel fazer tanta coisa em apenas dois anos, presiden-te?" Convidei-o, ento, para a inaugurao da nova capital, que seria dentro de dois meses. "Gostaria de estar aqui no dia 21 de abril" -esclareceu. "Mas a conferncia de cpula, na mesma poca, exige mi-nha presena na Europa."

    Quando subamos a rampa do palcio, tomando-me pelo bra-o, referiu-se mais uma vez a Braslia: "Esta cidade excedeu todas as mi-

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    nhs expectativas. uma inspirao." Senti que no dizia aquelas pala-vras apenas para me ser agradvel. Estava, de fato, surpreendido. Olha-va tudo e fazia perguntas.

    Quando alcanvamos o salo de recepo, o Coronel Ver-non Walters, de sua comitiva, e que servia de intrprete, verificou que havia perdido um boto da farda, durante a confuso no aeroporto, e se desculpou. Eisenhower ouviu-o com ateno e replicou, com admirvel presena de esprito: "No precisa se desculpar, coronel. Devo adver-ti-lo, porm, que o senhor no perdeu apenas um boto mas dois. Est faltando outro na sua ombreira." O Coronel Walters encabulou. No consegui evitar uma gargalhada, que foi seguida por outra do Presidente Eisenhower.

    A estada do presidente norte-americano em Braslia transcor-reu em ambiente de perfeita cordialidade. Aps ligeiro descanso, con-videi-o para um vo de helicptero, de forma que pudesse ter uma ideia em conjunto do que era a nova capital. Admirou-se de tudo. Fi-cou impressionado com a beleza da Praa dos Trs Poderes, que ofe-recia, quela hora, espetculo deslumbrante com o sol se pondo, escoltado por uma legio de nuvens vermelhas. O Palcio do Con-gresso cintilava. Os edifcios dos Ministrios projetavam suas silhue-tas esguias contra o telo do horizonte, amplamente aberto e tinto de sangue. O Palcio do Supremo Tribunal Federal, apoiado sobre estacas, parecia flutuar. Ao lado da audcia da arquitetura, pairava a mansido da atmosfera do Planalto.

    Durante o dia, realizou-se uma grande manifestao popular ao presidente visitante na plataforma do Eixo Monumental. No discur-so que pronunciei na ocasio, disse a Eisenhower que o recebia num "campo de batalha", que era Braslia, e que o meu governo vinha se ba-tendo por uma poltica de desenvolvimento no hemisfrio: a Operao Pan-Americana, que representava um apelo razo e no generosida-de mas que no "ficaria espera dos efeitos benficos dessa ao mul-tilateral". O Brasil, antecipando-se quele movimento continental, j ha-via partido - e Deus sabia com que sacrifcios - para a conquista do seu lugar no mundo. "No queremos apenas ser teoristas do desenvolvi-mento" acrescentei "mas provar, com a nossa tenacidade e exemplo,

  • No dia seguinte ao da inaugurao, passeei sozinho pela Praa dos Trs Poderes. Lem-brei-me da primeira vez em que visitara o Planalto. Uma cidade havia sido construda ali, num ritmo que fora julgado impossvel. O Brasil ganhava uma nova capital e dava ao mundo um exemplo de trabalho e confiana no futuro...

  • Para quem contempla Braslia, as emoes so sempre diversas. Admira-se a grandiosi-dade do plano de Lcio Costa, o gnio de Oscar Niemeyer e a obstinada confiana de um povo em seu destino nacional. S assim tornou-se possvel levantar no Planalto uma cidade que ao mesmo tempo um poema e um compromisso com o futuro.

  • O conjunto arquitetnico do Congresso domina a cidade. Os construtores de Braslia desejaram assim simbolizar a importncia do regime democrtico na vida nacional.

  • O Palcio da Alvorada, com sua elegante linha de colunas e sua singela capelinha, a residncia particular do Presidente da Repblica.

  • O Supremo Tribunal Federal ganhou uma sede compatvel com a grandeza e a impor-tncia de suas altas funes. Braslia foi inaugurada na data prevista c todos os setores do Poder Pblico estavam condignamente instalados.

  • Diversos trevos e pistas foram construdos, dando circulao dos veculos uma solu-o racional.

  • Cidade projetada na prancha de arquitetos e urbanistas, Braslia revolucionria em matria de trfego e trnsito.

  • O Plano Piloto, que fora uma cruz riscada a lpis na planta de Lcio Costa, perdera seu carter irreal de concepo artstica no papel para se projetar concretamente, com vida prpria e j integrado na beleza do Planalto Central.

  • A Catedral de Braslia considerada uma jia parte, dentro da gigan-tesca jia que a cidade inteira. Foi aqui que o gnio de Oscar Niemeyer criou, talvez, as suas formas mais poticas e espirituais.

  • As esculturas de Ceschiati deram ao conjunto uma atmosfera que lembra os monu-mentos religiosos do Brasil-Colnia.

  • A parte comercial e residencial da cidade foi objeto de longos estudos por equipes es-pecializadas em urbanismo. Vinte anos depois de sua inaugurao, Braslia superou to-das as expectativas de progresso, atingindo o seu primeiro milho de habitantes.

  • MBniKSSIlIfl L A <

    * H. ^

    As reas verdes pareciam impossveis no Planalto Central, onde predomina o cerrado que ocupa vasta rea do corao geogrfico do Brasil. Apesar da descrena de alguns, a capital oferece hoje um espetculo de grandiosa beleza, onde jardins e gramados convivem com as formas de concreto e vidro.

  • Era, de fato, uma cidade diferente, e edificada num cenrio que lembrava uma paisagem lunar, digno, portanto, da audcia que presidira a sua arquitetura. No resisti tentao de evocar o encantamento proporcionado por aquela viso: "Nas tardes do Planalto, os crepsculos de fogo se confundem com as tintas da aurora. Tudo se trans-forma em alvorada nesta cidade, que se abre para o amanh..."

  • Por que construi Braslia 327

    que agimos conforme pregamos. Como um princpio e uma doutrina, sustentamos que preciso, para resguardo das liberdades democrticas, criar condies para o trabalho fecundo dos nossos povos. Da nao norte-americana - que tambm forjou o seu grande destino com a por-fia herica dos pioneiros - o que esperamos compreenso; o que dese-jamos que ela acredite que a resoluo do povo brasileiro de industria-lizar-se, de utilizar suas riquezas naturais, de preparar melhores condi-es de vida atendendo ao nosso crescimento demogrfico, de no acei-tar, enfim, um destino mesquinho e incaracterstico, decisiva, definiti-va, irreversvel."

    Depois da manifestao, acompanhei o presidente nor-te-americano at o local onde havia sido erguido um marco comemo-rativo de .sua visita nova capital, e, ali, foi lida a Declarao Conjunta de Braslia, documento que reafirmava a determinao das duas na-es de defender as liberdades democrticas, incentivar a harmonia no mbito da comunidade interamericana, manter os princpios da solidariedade poltica e econmica, contidos na Carta da OEA, e lutar para que pudessem ser concretizados os ideais consubstanciados na Operao Pan-Americana.

    A noite realizou-se no Palcio da Alvorada um coquetel, se-guido de um jantar ntimo, findo o qual pudemos conversar vontade, sem as limitaes e os embaraos das reunies protocolares. Eisenhower mostrou-se expansivo, e passamos em revista a situao internacional que na poca - como acontece hoje - era de tenso entre os dois grandes blocos de naes.

    Durante essa conversa, com perguntas e respostas de lado a lado, pude verificar que Eisenhower no estava suficientemente infor-mado sobre a Operao Pan-Americana que, desde quase um ano, vinha empolgando os povos latino-americanos. Ele havia apoiado decidi-damente o movimento, mas ignorava que o Departamento de Estado, reincidindo nos erros do passado, vinha tentando transformar a questo em simples pretexto para conferncias internacionais, sem que a ideia bsica do movimento fosse examinada com a objetividade e a presteza que se faziam necessrias. Admirou-se do que lhe falei a respeito e, como era tarde e deveramos viajar no dia seguinte, cedo, para o Rio, combinamos que voltaramos ao assunto, assim que pudssemos con-

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    como era tarde e deveramos viajar no dia seguinte, cedo, para o Rio, combinamos que voltaramos ao assunto, assim que pudssemos con-versar de novo, e de maneira informal, como naquela noite. No dia se-guinte, s 8 horas da manh, tomvamos o avio no aeroporto de Bras-lia, com destino ao Rio.

    Durante a viagem conversei longamente com Eisenhower. Ele se sentia feliz com a recepo que tivera em Braslia. No ntimo, eu alimentava certa apreenso sobre o que pudesse ocorrer no Rio. O povo carioca desinibido e incapaz de recalcar sua espontaneidade. Alm do mais, a campanha de sentido nacionalista, desencadeada por elementos exaltados, havia contagiado a opinio pblica. Da a razo da minha apreenso. Entretanto, a recepo que lhe foi tributada pela populao carioca no deixou de ser calorosa.

    Quando passamos em frente sede da Unio Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, vimos uma enorme faixa que cobria a fachada do edifcio. Disse a Eisenhower que se tratava de uma organi-zao estudantil muito atuante no cenrio poltico. Quando nos aproxi-mamos, pudemos ler os dizeres que se encontravam na faixa: We like Fi-del Castro. Eisenhower comentou com bom-humor: "Eu tambm gosto dele. Ele que no gosta de mim."

    Durante o dia, o presidente norte-americano visitou o Con-gresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, nos quais foi recebido em carter solene. A noite, realizou-se no Palcio Itamarati o banquete oficial, com que o homenageei. Entretanto, uma chuva intermitente, que descia sobre a cidade desde que amanhecera, prejudicou o brilho da fes-ta no Itamarati.

    Nos dois discursos que pronunciei nesse dia, procurei acentuar a natureza das relaes que desejvamos manter com os Estados Unidos - cooperao, e no ddiva. Estvamos empenhados numa batalha - a do desenvolvimento e todos os meus esforos se concentravam na ta-refa de construir um mundo melhor para os brasileiros.

    O ponto alto da visita de Eisenhower foi incontestavelmente o seu discurso na sesso conjunta da Cmara dos Deputados e do Sena-do. Nesse pronunciamento, o chefe do governo de Washington teve a felicidade de agradar a todas as tendncias polticas. Falou com franque-za e profundidade, examinando os problemas que desafiavam o mundo

  • Porque construi'Braslia 329

    e sugerindo as solues que se recomendavam. O estadista ali estava, de corpo inteiro, e se mostrava altura das enormes responsabilidades que lhe pesavam no ombro, como presidente da Nao que era a lder do Mundo Ocidental.

    No dia seguinte, realizou-se a visita a So Paulo. Ali, tambm, foram entusisticas as aclamaes ao ilustre cabo-de-guerra. Entretanto, o brilho da recepo acabara por ser empanado pela notcia de um gra-vssimo acidente de avio, ocorrido no Rio, vitimando 67 pessoas. Um aparelho da Aerovias havia se chocado com outro da Marinha nor-te-americana, na altura do Po de Acar, e ambos se precipitaram no mar. Morreram diversos brasileiros e o mesmo aconteceu a todos os in-tegrantes da Banda Naval dos Estados Unidos, que chegava de Buenos Aires, para abrilhantar as festividades da visita do seu ilustre presidente.

    Eisenhower ficou profundamente chocado com a tragdia. Solicitou ao governo paulista que cancelasse as solenidades programadas e convidou-me a regressarmos, juntos e imediatamente, ao Rio. Durante a viagem, aps lamentar mais uma vez o incidente aviatrio, retomou o assunto da Operao Pan-Americana, que no pudera ser concludo em Braslia. Admirou-se de que o Brasil tivesse queixas do governo norte-americano em relao ao assunto, pois ele, pessoalmente, apoiava o movimento e dera instrues, nesse sentido, ao Departamento de Estado.

    Expliquei que minhas recriminaes no tinham por alvo o governo dos Estados Unidos, mas alguns funcionrios categorizados do Departamento de Estado que, no compreendendo a importncia da OPA, vinham submetendo os entendimentos a uma incompreensvel poltica de protelao. Duas reunies continentais j haviam sido reali-zadas - uma em Washington e outra em Buenos Aires - e seus resulta-dos no haviam ultrapassado o perodo da enunciao de princpios. O que os latino-americanos desejavam eram medidas concretas: resolues e no recomendaes. Entretanto, os representantes norte-americanos no tinham apreendido aquele estado de esprito e haviam insistido, nas duas reunies, em apresentar teses econmicas, quando o que. se preten-dia era a discusso de planos para o desenvolvimento conjunto do he-misfrio.

  • 330 Juscelino Kubitschek

    davam conta de que a Operao Pan-Americana vinha se desenvolven-do a contento e que, no devido tempo, surgiriam as solues. Julgou acertada minha advertncia e informou que, to logo regressasse aos Estados Unidos, iria exigir maior ateno do Departamento de Estado.

    Quando chegamos ao Rio, visitamos juntos as vtimas do de-sastre e Eisenhower comunicou-me que, em lugar do banquete progra-mado para aquela noite, ao qual se seguiria uma recepo, decidira, em sinal de pesar pelo falecimento de tantos norte-americanos e brasileiros, oferecer-me apenas um jantar ntimo, que se realizaria, s 9 horas, na Embaixada.

    No dia 26, encerrando sua visita ao Brasil, Eisenhower seguiu cedo para Buenos Aires, no mesmo avio que o trouxera de Washing-ton. O encontro fora dos mais proveitosos. O presidente americano teve a oportunidade de ser calorosamente ovacionado pelo povo e, como consequncia dessa recepo, melhoraram sensivelmente as rela-es entre os dois pases. A Sr2 Eisenhower, do seu lado, ficou encanta-da com o Brasil e, nas conversas que manteve com Sarah e com as mi-nhas filhas, referia-se com o maior entusiasmo ao Brasil e aos brasilei-ros, dando a impresso de que no o fazia por dever protocolar.

    Devo recordar, aqui, um fato que muito me sensibilizou e que reflete, de maneira expressiva, a correo com que agia o saudoso esta-dista norte-americano. Durante sua estada em Braslia, negou-se a assi-nar qualquer papel e a despachar qualquer documento no Palcio da Alvorada, alegando que, se o fizesse, estaria se antecipando numa atitu-de que, por todos os motivos, deveria me caber a inaugurao de Bra-slia como sede do governo. "Assinarei todos os papis no avio" de-clarou. "O primeiro ato oficial a ser assinado, em Braslia, deve s-lo pelo Presidente Kubitschek."

    Lembro-me ainda de que Eisenhower me perguntou, ao fazer referncia ao Fundo Monetrio Internacional, se eu no estava disposto a me reconciliar com aquela importante instituio internacional. Res-pondi que o faria com prazer, desde que seus diretores abrissem mo das exigncias que haviam formulado e que, se atendidas, estiolariam com todo o desenvolvimento do Brasil.

    O presidente norte-americano ouviu-me com ateno e conser-vou-se calado. Um ms depois, o meu embaixador em Washington, Walter

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    Moreira Sales, vinha ao Rio para me dizer que o Fundo Monetrio Interna-cional estava disposto a reatar relaes com o meu governo, dependendo apenas de uma proposta, em carta, por parte da Embaixada do Brasil.

    Discordei de se enviar a carta e disse ao embaixador que fi-zesse entendimentos pessoais apenas, sem deixar nenhum documento escrito. Assim foi feito. Semanas depois, o Brasil j podia lanar mo da quota que lhe competia no FMI.

    UMA QUASE-TRAGDIA EM FURNAS

    Com a aproximao da data fixada para a inaugurao de Braslia, recrudescera a atividade nos crculos polticos. A Oposio e os mudancionistas cerraram fileiras, cada uma das faces defenden-do, com veemncia, seus respectivos pontos de vista. No dia 15 de maro, terminaria o recesso do Congresso e, com a reabertura da ati-vidade parlamentar, a antiga luta - a favor e contra Braslia - seria in-tensificada.

    No entanto, no existia qualquer razo vlida que justificasse a resistncia dos oposicionistas. Tudo se cingia a meras questes pessoais, ou melhor: de personalismo poltico, sem se levar em conta que a mudana da Capital, ao invs de ser um problema meu, j se havia transformado em apaixonante causa nacional.

    A Oposio, porm, nunca revelara qualquer grandeza na sua atitude de combate ao governo. Depois de uma campanha tenaz contra a minha pessoa, com o propsito de criar para mim uma imagem negati-va, que sensibilizasse sobretudo as classes armadas, tentava impedir os tri-unfos de meu governo, como se estes no constitussem legtimas aspira-es nacionais. A UDN temia a transferncia por dois motivos, ambos nada abonadores da sua projeo no seio do eleitorado. Julgava, em pri-meiro lugar, que a sua voz, no Planalto, no teria a mesma repercusso que costumava obter no Rio, onde dispunha dos principais jornais. Em segundo lugar, receava que a transferncia, levada a efeito por mim, iria prestigiar-me politicamente, vinculando meu nome a um dos mais importantes fatos histricos do Brasil. Assim, todos os esforos deveriam ser feitos, se no para impedir a transferncia - o que lhes parecia

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    segundo lugar, receava que a transferncia, levada a efeito por mim, iria prestigiar-me politicamente, vinculando meu nome a um dos mais importantes fatos histricos do Brasil. Assim, todos os esforos deveriam ser feitos, se no para impedir a transferncia - o que lhes parecia impossvel quela altura - ao menos para adi-la, de forma a me arreba-tar a honra de inaugurar Braslia. Para isso, a UDN dispunha de uma grande arma a ser utilizada, quando se reabrisse o Congresso: a organi-zao administrativa e judiciria da nova capital.

    A cidade estava praticamente construda, mas, para que pu-desse desempenhar suas funes de capital, as leis, referentes sua orga-nizao administrativa e judiciria, teriam de ser aprovadas pelo Con-gresso. O tempo disponvel para essas providncias era o mais exguo possvel: cerca de um ms. Segundo os juristas da UDN, a organizao s poderia ser institucionalizada atravs de uma emenda Constituio e, dadas as circunstncias, qualquer obstruo poderia ser de efeito, j que atenderia diretamente aos seus interesses polticos. Os udenistas prepararam-se para a batalha, tendo como lderes da manobra os Depu-tados Carlos Lacerda e Joo Agripino.

    Apesar das ameaas da Oposio, no alterei minha linha de conduta. O que me preocupava era a inaugurao da nova capital, e esta seria feita, impreterivelmente, na data que assinalava o sacrifcio de Tira-dentes. Frotas de caminhes j se encontravam em movimento, trans-portando mveis e arquivos para os ministrios, erguidos nos dois lados do Eixo Monumental. O funcionalismo federal seguia em grupos, de acordo com as necessidades do servio de cada Secretaria de Estado. O Supremo Tribunal Federal, aps avanos e recuos, com misses de ex-plorao enviadas ao Planalto para verificar as condies de habitabili-dade da nova capital, j se transferira com armas e bagagens. Alm dos que teriam de ir em funo dos cargos que exerciam, logo comearam a surgir voluntrios elementos dotados de certa dose de pioneirismo, que se inscreviam para a mudana, levados pelo fascnio exercido por Braslia.

    A transferncia tornava-se, pois, cada dia mais certa, mais positiva. E, medida que se aproximava a data, alguns oposicionistas principalmente os da rea radical - passaram a exercer, com crescente furor, o seu jus sperniandi. A ltima tentativa para retardar a inaugura-

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    o - e, talvez, a mais sria de todas - fora, como j disse, a instaura-o de um inqurito contra a Novacap; mas essa manobra j no era motivo para preocupaes. O requerimento, assinado por Carlos La-cerda, amarrotava no bolso do Deputado Jos Bonifcio, espera de outras assinaturas - que no surgiam - , a fim de que ele obtivesse o m-nimo legal de subscritores para sua apresentao Mesa da Cmara dos Deputados. Contudo, estava de p o compromisso, que eu havia assu-mido, de uma CPI, a ser requerida pelas foras que me apoiavam, no dia 22 de abril, isto , quando estivesse concretizada a transferncia da sede do governo.

    Durante o recesso do Congresso, os oposicionistas no se deixaram ficar inativos. Confabularam. Articularam manobras. Estabele-ceram planos. Contudo, em face da excelente repercusso da minha palestra atravs de uma cadeia de rdios e televises, alguns deles recua-ram do propsito de me combater a qualquer preo e, simultaneamente, surgira um movimento em favor da minha reeleio, sob o pretexto de que a obra administrativa, que eu vinha realizando, no deveria ser inter-rompida.

    A ideia era antiga e fora lanada pelo Deputado Tancredo Neves numa entrevista concedida a um jornal de Belo Horizonte. Mais tarde, ou seja, em maro de 1959, Joo Goulart a esposara, e chegara a trocar ideias comigo a respeito. Nessa poca, ainda no haviam sido lan-adas oficialmente as candidaturas minha sucesso. Segundo tudo fa-zia crer, o General Teixeira Lott seria o candidato das foras situacionis-tas. Em face da fraqueza eleitoral do general que sempre fora militar e nunca se preocupara com a poltica - Joo Goulart julgava que seria ine-vitvel sua derrota nas urnas e, caso isso acontecesse, o pas poderia mergulhar numa nova crise militar, dado o prestgio do ministro da Guerra no seio das Foras Armadas. Para conjurar o mal, o vi-ce-presidente fez-me um apelo, por ocasio de uma visita minha a Pelo-tas onde paraninfei a turma de agrnomos que conclura seu curso na Escola Eliseu Maciel, integrada ao Instituto Agronmico do Sul.

    E, por fim, a ideia, j convertida quase num movimento pol-tico, ressurgira aps o xito da minha exposio de trs horas e meia, atravs de rdios e televises, a 5 de fevereiro. Tratava-se, pois, de uma preocupao recorrente. Minha reeleio, de acordo com os planos dos

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    mostrou to fcil de ser solucionada. A ideia inicial havia-se convertido numa espcie de estado de esprito, manifestado por numerosos polti-cos e por largos setores da opinio pblica.

    A UDN alarmou-se, porque constatou que entre os adeptos da ideia encontravam-se quase vinte integrantes da sua representao no Congresso. E logo procurou reformular sua linha de conduta, aceitando a tese desenvolvimentista e apregoando que no s desejava Furnas, Trs Marias e a Usiminas, mas muito mais do que isso. A nica coisa em relao qual a UDN permanecia intransigente era Braslia. A nova ca-pital constitua um cartaz, grande em excesso, para que ela se confor-masse em v-lo afixado minha imagem.

    Diante do recrudescimento do movimento continusta, jul-guei que deveria dar-lhe um basta, de forma definitiva e cabal, para de-sencorajar seus adeptos. Alm das notas oficiais, expedidas pelo Minis-trio da Justia que no haviam obtido maior xito - , fazia-se necess-rio um pronunciamento meu, pessoal, e que fosse enrgico, positivo, ca-paz de lanar uma p de cal no assunto. A oportunidade surgiu quando fui procurado pelo jornalista Carlos Castelo Branco para uma entrevista. "Pessoas contrrias a Braslia" - declarei nessa entrevista - "tm pro-curado semear a desconfiana sobre os meus objetivos. Querem, com isso, atingir o Presidente da Repblica e dificultar, tornando suspeita, a transferncia da capital. Vou sair daqui com a Constituio virgem. Cumpri todos os seus dispositivos, inclusive os que eram simples letras mortas, como o referente mudana da sede do governo para o Planal-to Central."

    Esta expresso - "Vou sair daqui com a Constituio virgem" teve enorme repercusso. Refletia uma verdade que ningum poderia contestar. Mesmo meus adversrios polticos mais ferrenhos j no se sentiam vontade ao denunciar "as arbitrariedades do governo".

    Apesar da atoarda da Oposio, crescia a projeo de Braslia tanto no cenrio nacional quanto no panorama internacional. Arquite-tos, artistas, homens de cinema, escritores dos mais famosos da poca vinham ao Brasil especialmente para ver a "oitava maravilha do mun-do", como o cineasta Frank Capra denominava a nova capital. E todos, quando se referiam a Braslia, no se esqueciam de dizer que ela fora re-sultado da vontade de um homem: o Presidente da Repblica.

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    Entretanto, enquanto alguns elementos exaltados da UDN se esforavam por criar embaraos inaugurao de Braslia, eu prosseguia na execuo dos itens do Programa de Metas, os quais, quela altura, quase se aproximavam da concluso. Naquele momento, por exemplo, iria presidir cerimnia do desvio das guas do rio Grande, em Furnas, complementando uma das mais importantes etapas da construo da gi-gantesca barragem.

    A cerimnia foi programada para o dia 9 de maro e, no dia anterior, segui de avio para o local, acompanhado de toda a minha fa-mlia. Desejava que Sarah e minhas filhas pudessem ver a grande obra -uma das mais relevantes e arrojadas que j havamos construdo e que, no momento, era, em potencial, a quinta do mundo.

    O trabalho dos tcnicos, sob a superviso do notvel enge-nheiro John Cotrin, desenvolvera-se no "ritmo de Braslia". Podia-se observar, ali, um impressionante quadro de obras realizadas. Dois enor-mes tneis tinham sido abertos na rocha. E aquilo a que iramos assistir era a dinamitao das ensacadeiras, de forma a abrir uma passagem para as guas que, ento, se precipitariam atravs dos dois tneis, deixando li-vre o espao para a construo da gigantesca barragem.

    Naquele dia 9 de maro, o ambiente era de euforia no imenso canteiro de obras. A entrada das guas nos tneis teria lugar depois de vencida a resistncia das ensacadeiras, pelo desgaste imposto s suas pa-redes atravs de contnuo trabalho de exploses a dinamite. Trs seriam as ensacadeiras a serem dinamitadas. Quando se conclusse a tarefa, as guas do rio Grande precipitar-se-iam na direo dos dois tneis, os quais, juntos, somavam 1.600 metros de extenso. Tudo havia sido ma-tematicamente calculado. Toneladas de dinamite haviam sido colocadas em pontos previamente escolhidos e gigantescas mquinas j se acha-vam em posio, prontas para o desbastamento das cristas, deixando de fora apenas o que se calculava fosse necessrio para evitar que o rio transbordasse. Do outro lado do vale, abrira-se uma estrada e improvi-sara-se no ponto de melhor visibilidade um mirante para os convidados. S o mau tempo ameaava prejudicar o brilho da cerimnia. Chovia em Furnas. E as chuvas j se prolongavam por alguns dias, fazendo com que as guas do rio se engrossassem, de modo ameaador. Quando che-guei, ao invs de seguir para a residncia, que fora preparada para me

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    S o mau tempo ameaava prejudicar o brilho da cerimnia. Chovia em Furnas. E as chuvas j se prolongavam por alguns dias, fazendo com que as guas do rio se engrossassem, de modo ameaador. Quando che-guei, ao invs de seguir para a residncia, que fora preparada para me acolher, desejei ver de perto como tudo iria acontecer. Assisti a um dis-paro numa pedreira, e que levantou uma coluna de pedra e terra de mais de 100 metros. Inteirei-me da ordem de sucesso das exploses. Aps o jantar, decidi percorrer um dos tneis de automvel, antes que ambos fossem inundados.

    O Engenheiro John Cotrin tentou dissuadir-me desse intento. A ideia parecia-lhe uma temeridade. O tnel era longo. Suas paredes mi-navam gua. E a superfcie, sobre a qual transitaria, era spera, no ofe-recendo condies de trfego. Alm do mais, com o crescimento das guas do rio, em consequncia das chuvas constantes, havia perigo de que uma das ensacadeiras se rompesse, e a inundao se fizesse antes do tempo. Pedi que me arranjassem uma camioneta. Aboletei-me ao lado do motorista e mandei que fizesse o veculo penetrar no tnel.

    O percurso foi coberto com lentido, dadas as condies pre-crias da pista improvisada. Examinei detidamente a enorme perfurao, cujas paredes se apresentavam eriadas, revelando o sulco das brocas. Havia umidade por toda parte e a atmosfera era pesada, com a deficin-cia da ventilao. Alguns operrios ainda trabalhavam no local, rematan-do as obras. Quando me reconheceram, largaram as ferramentas e cor-reram para me cumprimentar. Fui at o fim e voltei.

    Mal deixara o tnel, o rio comeou a subir vertiginosamente. Um metro, um metro e meio, um metro e setenta centmetros eis a ve-locidade da enchente. A gua, barrenta e grossa de terra, agitava-se, rojan-do-se com fora contra as margens. Pouco depois, acontecia o que previ-ra. De repente, sem se saber por que, a barragem transbordou no local da primeira ensacadeira, que no resistiu e foi arrastada em segundos.

    Os operrios, que se encontravam no tnel, ouvindo o es-trondo, alarmaram-se, e trataram de fugir. Entretanto, alm dos ho-mens, ali se encontravam numerosas viaturas. Como salv-las? Tudo te-ria de ser feito quase sem pensar, o instinto tomando o lugar do cre-bro. Era preciso agir, e agir com pressa. Pouco depois, a gua, havendo rompido a barreira que at ento a contivera, passou a invadir os tneis.

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    Era uma torrente, engrossada por pedras e detritos, que avanava, le-vando tudo de roldo.

    Estabeleceu-se o pnico no local. Os trabalhadores corriam, com a vanguarda da inundao a lamber-lhes os calcanhares. Ouviam-se gritos, pedidos de socorro, mas nada poderia ser feito. A onda caminhava clere, e os operrios, atropelando-se e empurrando as viaturas, corriam em busca da boca dos tneis.

    Felizmente, foram salvos os operrios e recuperou-se grande nmero de viaturas. Pouco depois, os dois tneis desapareciam sob o imenso mar, que se formara jusante da represa. No local, onde desem-bocavam os tneis, a gua redemoinhava e escachoava, sofrendo o em-puxo da compresso ao longo dos dois canis subterrneos.

    Entre a minha visita aos tneis e o rompimento das ensacadeiras transcorreram apenas duas horas. O destino, mais uma vez, me poupara. Cotrin correu at a casa, onde me encontrava, a fim de me dar conheci-mento do que estava acontecendo. Samos todos. Chovia a cntaros. Chapinhando na lama, examinei o rombo, aberto nas ensacadeiras; pude sentir a fora com que a gua penetrava nos tneis; confortei os operrios que haviam escapado da tragdia; e cheguei concluso de que o que ocorrera no passara de uma antecipao da cerimnia que estava pro-gramada para o dia seguinte. Ao invs de esperar pelas exploses de di-namite, o rio, engrossado pelas chuvas, decidira realizar, ele prprio, aquele desvio do curso.

    Passado o susto, e ante a certeza de que no existiam vtimas, retornei ao meu bom-humor. Voltando-me para John Cotrin, disse-lhe: "O rio inaugurou-se a si mesmo." Cotrin no achou graa. Estava preo-cupado pelo que pudesse ter-me acontecido. "Se tudo isso acontecesse duas horas antes, o senhor no estaria vivo, presidente."

    Lembrei-me das numerosas vezes que havia escapado da morte. Olhei em torno, e vi os destroos da impressionante batalha lquida. As ensacadeiras arrombadas. A crista da barragem comida pela gua. A torrente que se precipitava nos tneis, ganindo como um cachorro selvagem. E, estendendo o olhar, divisava, ao longe, o reaparecimento do rio, aps o demorado mergulho sob a terra. O es-petculo era grandioso, digno da era de audcia que o Brasil estava atra-vessando.

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    Cotrin, porm, mostrava-se preocupado. Tomei-o, ento, pelo brao e, caminhando juntos na lama, disse-lhe, tentando dissi-par-lhe a tardia apreenso: "A morte nem sempre a pior coisa da vida, Cotrin. apenas a ltima." Depois de pensar um pouco, Cotrin ponde-rou: "Mas ser bom, presidente, adiar-se, tanto quanto possvel, essa ltima." E demos uma gargalhada juntos, descontrados como dois colegiais.

    UMA ETAPA POR MS

    As Metas estavam sendo vencidas. Cada ms assinalava um progresso, uma etapa alcanada, um objetivo realizado. Contudo, en-quanto muitas delas j haviam ultrapassado os alvos prefixados, iam sur-gindo outras novas. As indstrias automobilsticas, a construo de Trs Marias, a complementao do esquema rodovirio, por exemplo, j eram realidades que ningum podia contestar. Ao lado dessas realiza-es, o governo abria novas frentes de trabalho, lanando as bases de outras, muitas das quais requeriam anos para serem concludas.

    O que me interessava, acima de tudo, era corrigir, de uma vez por todas, algumas graves deficincias nacionais. Furnas para citar apenas um caso - era uma obra que iria se desdobrar no tempo, prolon-gando-se por mais de trs anos, alm do trmino do meu governo. Mas o importante, para mim, era que ela fosse levada a efeito pois tratava-se de uma obra da maior importncia para o futuro do Brasil.

    Quem ouvia falar em Furnas tinha a impresso de que se cui-dava apenas de construir a gigantesca usina. Esta era uma das suas eta-pas. Mas existiam outras, tambm da maior relevncia. No dia 9 de mar-o, por ocasio da cerimonia de dinamitao das ensacadeiras, o Enge-nheiro John Cotrin apresentou-me a minuta de um decreto, que assinei imediatamente. Tratava-se da criao de um grupo de trabalho, destina-do a dar andamento aos estudos sobre a situao econmica do reserva-trio e a propor as medidas necessrias para o desenvolvimento da re-gio. Isto fora feito tendo em vista que a obra, tal como havia sido pro-jetada, iria proporcionar quela rea melhores e mais abundantes meios de transporte, terrestre e fluvial, bem como maior possibilidade de am-

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    pio suprimento de energia eltrica, o que constitua excepcional fator de progresso, a ser racional e oportunamente aproveitado.

    O desvio do Rio Grande representara uma etapa - das mais importantes, era verdade - , mas outras teriam de ser vencidas. Havia ainda que construir, no leito do rio, que dentro em breve estaria seco com o desvio das guas, uma montanha de terra e pedra com 120 me-tros de altura e dez milhes de metros cbicos de volume e, ao p dela, uma usina geradora de tamanho gigantesco. Pelo menos mais trs anos de trabalho ininterrupto seriam ainda necessrios, antes que se pudesse colher os frutos daquele imenso esforo.

    A construo de Furnas apresentava uma caracterstica que deve ser ressaltada. Tratava-se de uma obra que revelava esprito de cooperao. Nela colaboravam o governo federal, os Estados de Minas e de So Paulo e empresas privadas. Coubera a mim a tarefa de realizar a mobilizao, reunindo recursos e tcnicos, de forma a transformar em realidade um antigo projeto, que j me seduzia desde meus tempos de governador de Minas. Ao referir-me a Furnas devo recordar ainda um nome que no pode ser desvinculado do gigantesco empreendimento: o de Lucas Lopes, seu idealizador, ao lado de John Cotrin, seu executor.

    Enquanto Furnas avanava, a Braslia-Acre estava sendo aberta. Fiel ao seu programa, a Oposio atacou-me, alegando que a es-trada seria um desperdcio de dinheiro, j que no me seria possvel conclu-la. Apesar dos preges agoureiros, as obras prosseguiam, baten-do recordes de velocidade.

    Furnas foi tambm combatida, assim como Trs Marias. No entanto, era atravs dessas obras que o Brasil procurava o caminho de sua grandeza. Alis, os empreendimentos que o meu Governo vinha le-vando a efeito, nos mais variados setores, eram dos maiores do mundo, na poca. Furnas e Trs Marias; a Rodovia Belm-Braslia-Porto Alegre - o maior eixo rodovirio ento em construo em qualquer regio da Terra ; a indstria automobilstica, que se formara no perodo de ape-nas dois anos; e a ponte sobre o Iguau, a maior no gnero em todo o mundo, naquele perodo eis as iniciativas que deram uma nova dimen-so soluo dos problemas nacionais.

  • O desafio da telecomunicao

    J L . ^fo incio de 1960, eu poderia dizer que, aps enormes sa-crifcios, me aproximava do cume da montanha. A jornada fora spera, dura, exasperante. Mas os resultados j colhidos compensavam-me de toda aquela luta. Da a razo por que, quando o Congresso se abriu no dia 15 de maro, aps o recesso regimental, eu me sentia perfeitamente tranquilo. A nova legislatura prometia ser tumultuosa, j que um ms mais tarde teria lugar a transferncia da sede do governo. Esta era a grande questo que estava em pauta o ponto nevrlgico, responsvel pelo calor e pela veemncia com que iriam desenvolver-se os debates. Carlos Lacerda assumiria sua cadeira, e a imprensa previa que, coman-dando um grupo de inconformistas, iria usar o melhor do seu talento para dificultar a mudana. Ao lado de Lacerda, e dispostos a apoi-lo em qualquer aventura obstrucionista, formavam-se os tradicionais inimi-gos do governo. Contra a opinio desses negativistas, erguia-se, porm, a maioria esmagadora do Congresso, consubstanciada no grupo dos 230 parlamentares mudancionistas.

    Esta era a brigada de choque, a vanguarda progressista que, havendo compreendido a significao da transferncia, cerrara fileiras em torno do governo para que a inaugurao de Braslia se desse no dia marcado. Assim, as posies estavam definidas, e os contendores ocupavam suas respectivas reas de ao. Um jornalista indagou-me, nessa

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    ocasio, se eu acreditava ou no na inaugurao de Braslia no dia 21 de abril. Respondi, com bom-humor: "Se acredito ou no, outra histria. O certo que, no dia 21 de abril, colocarei minha bagagem num auto-mvel e quem quiser que me acompanhe."

    Em meados de maro, quando se abriu o Congresso, o Depu-tado Jos Bonifcio, impenitente adversrio do Governo, chegou a de-clarar: "Com o Congresso em Braslia, a Democracia no funcionar." J o Deputado Tarcsio Maia, tendo ido a Braslia para inspecionar as condies de habitabilidade da nova capital, fez, ao voltar, violentas de-claraes imprensa, irritado porque "sujara, no barro, seu precioso mo-cassin de fabricao italiana". Eu lia todas essas notcias, e no deixava de sorrir. Puerilidade de uns, insinceridade de outros - e, assim, ia-se com-pondo o enredo da Histria.

    O povo nem sempre tinha conhecimento das batalhas silenci-osas, nas quais eu, por vezes, me empenhava. Eram lutas surdas e cruis, porque o desfecho delas estava vinculado a um prazo fixo. E, j que a oposio a Braslia era grande, o que aconteceria se a UDN tivesse conhe-cimento de algumas dificuldades, quase intransponveis, em que o gover-no se via enredado? Um desses problemas - e que, sem dvida, pa-receu-me durante algum tempo insolvel - foi o da ligao radiotelefni-ca de Braslia com o resto do pas e do mundo. O impasse criou-se no por falta de previso do governo, mas pela adoo de uma poltica prote-latria por parte da Companhia Telefnica Brasileira, ou melhor, da Light.

    Em 1957, discuti com o diretor-comercial da empresa, Renault Castanheira, a necessidade de se fazer a ligao imediata do Rio com Belo Horizonte, numa primeira escalada para atingir Braslia numa se-gunda etapa. A CTB uniu-se com as autoridades governamentais para debater o assunto, do ponto de vista tcnico. Depois de sucessivas reu-nies, que se prolongaram por enorme perodo de tempo, os diretores da empresa me procuraram para aprovao de um plano, que, alm de lesivo aos intsses nacionais, constitua um insulto capacidade realiza-dora do Governo. Desejava a CTB duas providncias da minha parte para a realizao da tarefa: 500 mil contos em moeda nacional e 5 milhes de dlares em crditos no exterior, a ttulo de ajuda, e o prazo para exe-cuo de projeto seria de trs anos... Isto significava simplesmente que o Governo custearia a obra e, feita a ligao, ela pertenceria Light, que passa-

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    ria a explorar, em benefcio prprio, o servio. Rejeitei imediatamente a proposta. Entretanto, os entendimentos com a CTB haviam consumido dois anos inteiros tempo precioso em excesso para ser desperdiado, quando a data da inaugurao de Braslia j estava fixada.

    Em princpios de 1958, o Coronel Bittencourt, diretor do DCT, manifestou o desejo de que o seu Departamento fosse incumbido de realizar aquela ligao. Tratava-se, porm, de uma repartio do Mi-nistrio da Viao e, como tal, sujeita morosidade caracterstica da bu-rocracia oficial. A soluo seria entregar a tarefa Novacap, j provada em sucessivos recordes de construo, e que, por ser um rgo paraes-tatal, dispunha de indispensvel autonomia de ao para engajar numa empresa de tal tipo. Contudo, e aps complexas discusses, optou-se por uma concorrncia internacional.

    Em julho de 1959, foi aberta, ento, a concorrncia, e inscreve-ram-se, pleiteando a execuo do servio, as maiores firmas do mundo, especializadas na tcnica. A RCA ganhou a concorrncia para o fornecimen-to e instalao do equipamento de rdio, em microondas, e a Ericsson, para providenciar a instalao do equipamento Multiplex. Tirando-se a mdia dos prazos exigidos por todas essas firmas, chegava-se concluso de que a liga-o Rio-Braslia, atravs de microondas, no poderia ser efetuada em menos de dois anos. Na poca, estvamos em setembro de 1959, o que queria dizer que dispnhamos apenas de seis meses para importar o equipamento, provi-denciar sua instalao e proceder ao indispensvel ajustamento, o que, se-gundo a opinio dos tcnicos, requeria no mnimo dois anos.

    Estabeleceu-se pois um impasse. O prazo exigido pelos con-correntes para execuo global dos servios era de tal ordem que, se atendido, levaria inaugurao de Braslia sem dispor, durante muitos meses, de um sistema de microondas. Uma soluo deveria ser encon-trada, e encontrada com a maior urgncia possvel.

    Solicitei a Israel Pinheiro que providenciasse a criao de um grupo de trabalho na Novacap, com incumbncia de estudar o problema e sugerir o que deveria ser feito. Surgiu, ento, o DTUI Departamento de Telecomunicaes Urbanas e Interurbanas - , chefiado pelo Engenhei-ro Jos Paulo Viana. Esse tcnico, de grande competncia e dotado de admirvel esprito pblico, entregou-se, de corpo e alma, tarefa, de for-ma a no permitir que o governo fosse derrotado na luta contra o tempo.

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    J que as empresas se haviam confessado incapazes de en-frentar o desafio, o DTUI faria frente, sozinho, ao problema. Seus inte-grantes realizaram diversas reunies, estabelecendo normas de ao, e, quando tudo estava combinado, o Engenheiro Jos Paulo Viana me procurou para trocar ideias. Lembro-me bem dessa entrevista, que se realizou no Catetinho. Como meu hbito, fui logo dizendo que dese-java o servio em funcionamento um dia antes da inaugurao de Bra-slia. Era outra data que fixava, embora no ignorasse que estava exi-gindo o quase impossvel. Surpreendi-me ao verificar que os engenhei-ros no se perturbaram. Ouviram-me com ateno e responderam, com firmeza: "O servio ser inaugurado antes de 21 de abril, presi-dente. Desejamos apenas que o senhor prestigie nossa ao, conce-dendo-nos todas as prioridades necessrias."

    Diversas e importantes providncias foram combinadas nesse encontro. A Sumoc recebeu instrues para facilitar, tanto quanto possvel, a tramitao dos papis necessrios para a importao do equipamento. Designei auxiliares do meu Gabinete para cuidar desse setor, de forma que o material no sofresse o menor atraso. Examinamos, em seguida, o aspec-to mais grave e mais complexo da questo: a prospeco da rota, isto , a elaborao do traado do perfil topogrfico, de modo a se estabelecer, em bases seguras, os locais onde seriam erguidas as torres. Para resolver tal problema, com a urgncia exigida, resolveu-se fazer tal estudo com avies equipados com radar, especialmente contratados nos Estados Unidos.

    O Engenheiro Jos Paulo Viana sugeriu-me tambm que pu-sesse disposio do DTUI um dos helicpteros da Presidncia j que a rota a ser coberta atravessaria regies que no dispunham de estradas e, em alguns pontos, eram de acesso impraticvel, a no ser pelo ar.

    Os dados estavam lanados. Os tcnicos nacionais logo se puseram em atividade. Os engenheiros se distriburam, cada um se res-ponsabilizando por um setor daquela enorme frente de trabalho. O tem-po era exguo em excesso: apenas seis meses. E a rota a ser coberta, via Uberaba desvio este imposto por motivos tcnicos , era de 1.500 quilmetros de extenso. O desafio era, de fato, assustador. Em vez de intimidar-me, dava-me novas foras.

    Apesar do sigilo com que o assunto vinha sendo tratado, a imprensa oposicionista no tardou a denunciar que Braslia seria inaugu-

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    rada sem dispor de comunicaes com o resto do pas. As autoridades da Novacap fizeram divulgar desmentidos. Estes, porm, s serviriam para aguar, ainda mais, a curiosidade dos jornalistas. Falava-se na im-previdncia do governo, atribuindo-se-lhe a culpa por tudo, quando a nica responsvel pelo que estava acontecendo havia sido a Light.

    O Jornalista Gustavo Coro, professor de Eletrnica da Escola Politcnica e intransigente adversrio de Braslia, sentiu-se como se nadasse num mar de rosas. At ento combatera a nova capital, mas baseado em argumentos pueris. Em face do que estava ocorrendo, po-deria doutrinar com conhecimento de causa, porque o que estava em discusso era matria na qual se considerava especialista. Para complicar ainda mais a situao, surgira em campo um diretor da Marconi, da Inglaterra, o qual taxativamente declarara: "Em seis meses, no ser possvel montar-se um servio dessa natureza."

    O governo estava sendo colocado contra a parede. A Marconi falara, e ningum poderia pr em dvida a autoridade da firma inglesa em assuntos daquela natureza. Os jornais que me combatiam divulgaram com o maior destaque a opinio do ilustre visitante. Confesso que, por uns dois dias, me senti aturdido. At ento, estabelecera datas e as cumprira, mas as obras realizadas, embora de propores gigantescas, eram de um gnero que no deixava de ser familiar aos engenheiros nacionais. No que dizia respeito ao sistema de microondas, eu pisava num terreno estranho. Tratava-se de uma novidade no pas e, muito embora tivesse a maior con-fiana na capacidade dos tcnicos da Novacap, temia que estivessem su-bestimando as dificuldades. O nico fator positivo, com que realmente contava, era a minha determinao. Decidira que aquele servio ficaria pronto antes da inaugurao de Braslia, e iria agir nesse sentido.

    Poucos dias mais tarde, tive a oportunidade de conversar com o diretor da Marconi, cuja opinio sob o que vinha realizando a Nova-cap havia sido to impatrioticamente explorada pela Oposio. Troca-mos ideias sob vrios assuntos e, como era natural, abordamos o pro-blema da instalao do sistema de microondas de Braslia. Ele ratificou o que havia dito aos jornalistas. Um servio daquela natureza no pode-ria ser instalado em meses. Se eu conseguisse t-lo em funcionamento em dois anos, poderia considerar-me muito feliz. Sorrindo, fiz-lhe, ento, um desafio: "J que no acredita no que estou dizendo, convido-o, desde j,

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    2L vir assistir inaugurao do servio no dia 20 de abril, um dia antes da transferncia de sede do governo." O diretor da Marconi achou muita graa no que lhe disse e, interpretando o convite como uma brincadeira, prometeu vir. "Estarei aqui, Presidente. Fao questo de ser testemunha desse grande feito."

    Enquanto prosseguiam as obras de Braslia, os engenheiros do DTUI empenhavam-se na herica batalha da instalao, em seis me-ses, do servio de microondas. Avies, utilizando o radar, estabeleciam a localizao das torres. Vinham, depois, as turmas de montagem, abrindo picadas no mato, galgando cumes de montanhas, vadeando rios.

    O trabalho era penoso e ingrato, mas avanava, louvado seja Deus, no "ritmo de Braslia". Todos os meios de transporte eram utili-zados - do carro de bois ao avio. Abria-se, primeiro, um trilho e, por ele, seguiam os tratores, cuja funo era improvisar pistas nos altos dos morros para a aterrissagem dos teco-tecos. O material leve era transpor-tado a bordo desses minsculos e utilssimos aparelhos, e as peas pesa-das eram levadas por caminhes ou carros de bois.

    As torres tinham at 80 metros de altura e 400 metros quadra-dos de base, e eram todas de ao. Subiam os morros desmontadas e, de-pois, deveriam ser armadas nos picos previamente determinados, assenta-das em sapatas de concreto. Os engenheiros trabalhavam sem alarde. Estavam cnscios da responsabilidade que lhes pesava nos ombros. No entanto, apesar do entusiasmo velado por todos eles - ignorando cansei-ras, trabalhando sob o sol e a chuva, muitas vezes passando privaes - , nunca deixei de fiscalizar, amide, o que vinha sendo realizado. Chegava sempre de improviso. Os trabalhadores pressentiam que eu me encontrava a caminho, quando ouviam o ronco do helicptero. "O homem t chegan-do!" diziam, e se esforavam por apresentar maior quota de servio.

    Embicava o aparelho no rumo da frente de trabalho e pousa-va-o mesmo no meio dos operrios. Percebia que minha presena fa-zia-lhes bem. Sentiam-se confortados, recebendo a visita do Presidente da Repblica. E esses encontros eram os mais informais possveis. Sen-tava-me numa pedra e tomava caf ou almoava com eles, chamando-os quase sempre pelo nome.

    Assim, a escalada ia sendo vencida. O trecho de Minas foi o mais difcil por causa do terreno acidentado. Depois de Uberaba, a to-

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    pografia apresentava-se mais uniforme e os trabalhos adquiriam maior velocidade. Quando atingimos a faixa do Planalto Central, a atividade das equipes de campo passou a bater verdadeiros recordes. 26 torres fo-ram erguidas entre o Rio e Braslia e cerca de 80 quilmetros de estradas foram construdos. Muita coisa, porm, ainda teria de ser feita.

    Em janeiro de 1960, um fato novo obrigou a DTUI a um es-foro extra. O Presidente Eisenhower havia comunicado sua prxima viagem ao Brasil, com escalas em Braslia, So Paulo e Rio. A Embai-xada norte-americana, em entendimentos com o Itamarati, para acerto dos detalhes da recepo, solicitara que fossem postos disposio do presidente visitante e de sua comitiva cerca de 20 teletipos, com a ca-pacidade de transmisso de 120 mil palavras por dia. O Itamarati transmitiu-me a solicitao e me entendi, a respeito, com o diretor do DTUI. O Engenheiro Jos Paulo Viana no se assustou. Se a tarefa te-ria de ser feita, ele ali estava para faz-la. Desejava apenas que eu auto-rizasse Embaixada do Brasil na Alemanha a apressar a remessa do equipamento, encomendado Siemens. Mensagens foram trocadas entre o Rio e Bonn, e tudo se arranjou. Poucos dias mais tarde, Eisenhower desembarcava em Braslia e, quando isso aconteceu, os 20 teletipos, solicitados pela Embaixada norte-americana, estavam em pleno funci-onamento e, pela primeira vez na histria do pas, radiofotos foram enviadas da nova Capital e do Rio para os Estados Unidos, aonde che-garam com absoluta nitidez.

    O primeiro round havia sido ganho. A batalha, porm, estava em prosseguimento. Ningum dormia no DTUI. Desdobravam-se os engenheiros, com integral apoio do Presidente da Repblica.

    No dia 2 de abril, o equipamento multiplex chegava, final-mente, ao Brasil. Respirei aliviado. As torres estavam erguidas e o equi-pamento j se encontrava na Alfndega. Tratavam-se de terminais multi-plex, de difcil ajustamento. Quando o fato foi noticiado, Gustavo Cor-o saiu a campo para alegar que estava se confirmando o que, desde muito, vinha anunciando: Braslia seria inaugurada sem dispor de um sistema de comunicaes com o resto do pas. S o multiplex requeria seis meses para ser ajustado, e faltavam apenas dezenove dias para a inaugu-rao da nova capital. A fim de emprestar maior autoridade sua assero,

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    recordava, para os que ignorassem, sua qualidade de professor de Ele-trnica da Escola Politcnica.

    Os engenheiros do DTUI leram o artigo de Coro e no dei-xaram de achar graa. "Impossvel" - escrevera o jornalista. "Faremos a ligao" - responderam-me os tcnicos da Novacap. O que faltava foi sendo instalado com incrvel rapidez, e no dia 17 de abril - quatro dias antes da inaugurao de Braslia e dois antes da data por mim fixada foi estabelecida a ligao telefnica entre a antiga e a nova capital.

    Falei com Israel Pinheiro, presidente da Novacap, e o fiz com a mais viva emoo. No decurso da conversa, comuniquei-lhe que se encontrava ao meu lado, naquele momento, o diretor da Marconi, o qual, atendendo a convite meu, viera especialmente para assistir inau-gurao do servio. Israel sabia da minha troca de impresses com aquele tcnico, realizada alguns meses antes, e no deixou de perguntar: "E que tal a cara dele?"

    A batalha estava ganha. Braslia, antes mesmo de inaugurada, j dispunha de um perfeito e modernssimo servio de microondas que lhe permitia comunicar-se, durante 24 horas do dia, no s com o Rio, mas com as mais importantes cidades do mundo.

    Em face do xito, comprazi-me em requintes compreensveis em se tratando de uma capital, que seria a vitrina do pas: providenciei gravaes, com informaes sob a programao dos cinemas e teatros de Braslia. Isso foi feito em poucos dias. Assim, quando o usurio dis-cava certo nmero, vinha a informao desejada: "Tempo instvel, com alguma nebulosidade, sujeito a chuva e trovoadas. Se voc sair noite, ser prudente levar guarda-chuva." Tudo dito num tom suave, e harmo-nioso, que fazia o usurio discar outra vez o nmero, s para ouvir a in-formao. A voz era da artista Tnia Carrero.

    Essa capacidade realizadora, demonstrada pelo DTUI, teve efeitos benficos e imediatos sob difentes setores do governo. Desper-tou entusiasmo e gerou emulaes. O DCT, por exemplo, logo criou um servio de telex entre Braslia e o Rio, o que constituiu, na poca, uma iniciativa pioneira.

    Imitando a atitude do DCT, o Estado-Maior das Foras Arma-das tambm passou a se intessar pela nova tcnica, a qual, como se sabe, de vital importncia para efetivao de qualquer plano de segurana nacio-

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    nal. Grupos de trabalho foram organizados pelo EMFA e, pouco depois, surgiram os primeiros e relevantes resultados dessa atividade em conjunto. Quase tudo que o Brasil possui hoje, em matria de telecomunicaes, foi praticamente elaborado durante aquele perodo do meu governo.

    Redigiu-se projeto do Cdigo Nacional de Telecomunica-es, que criava a Embratel, concessionria exclusiva dos grandes troncos interurbanos.

    Todavia, os anteprojetos respectivos, embora conclusos e aprovados por mim, no foram submetidos apreciao do Congresso, j que se pensava, na poca, que seria tempo perdido, pois o governo estava no fim e os legisladores no teriam o menor interesse em examin-los.

    Esses anteprojetos, contudo, no se perderam. Mais tarde, fo-ram desentranhados dos arquivos e remetidos ao Congresso, onde, aps longos debates e a insero das inevitveis emendas, acabaram sendo aprovados e convertidos em leis.

    At no Gabinete Militar da Presidncia da Repblica a saga dos engenheiros do DTUI repercutiu favoravelmente. O General Orlando Ramagem, subchefe daquele Gabinete, organizou um grupo de trabalho, com incumbncia de estudar, em bases racionais e exequveis, a fabricao, no pas, de centrais eltricas automticas, o que foi feito com indiscutvel xito.

    RECRUDESCE A CAMPANHA CONTRA BRASLIA

    Uma batalha estava ganha. Infelizmente, no era a nica. Exis-tia outra a ser travada no cenrio poltico. Tratava-se, como j disse, da votao, pelo Congresso, da organizao administrativa e judiciria da nova capital. A UDN tudo iria fazer para obstruir essa votao, numa tentativa final para impedir a inaugurao de Braslia na data prefixada.

    Alis, desde o incio de 1960, recrudescera o movimento de re-sistncia mudana para Braslia. Os udenistas "trabalhavam" o funcio-nalismo do Congresso, no sentido de que se opusesse transferncia. Elementos adversrios do governo agiam nas reparties pblicas, explorando os casos pessoais dos servidores, de forma a predisp-los a uma resistncia ordem de mudana. Problemas de educao dos filhos, a

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    cessao da residncia em apartamento prprio, a perda de emprego ex-tra em qualquer setor privado - tudo isso era lembrado, de forma a irri-tar os servidores e preparar-lhes o nimo para uma ao.

    Essa resistncia era possvel - e o governo no ignorava o que se passava. As listas, que circulavam nas reparties, eram de carter apenas informativo. Perguntava-se ao funcionrio se desejava ou no trabalhar em Braslia e, de acordo com as respostas, os atos de transfe-rncia eram providenciados.

    Aquela altura, Braslia j era muito popular no seio do povo e, por mais que a UDN gritasse e que a imprensa clamasse contra as "precrias condies de habitabilidade" da nova capital, sempre havia muito mais gente querendo ir para o Planalto do que desejando per-manecer no Rio.

    Foi nesse perodo que as empresas de transportes - areo e rodovirio passaram a organizar excurses tursticas nova capital. nibus e avies faziam a viagem superlotados. Depois, tornou-se ele-gante um fim de semana no Planalto. Assim, a cidade ia-se erguendo -amaldioada por uns, abenoada por muitos, mas sempre presente no esprito de todos. O pioneirismo tornou-se moda, e legies de homens audazes e ambiciosos passaram a se intessar pelo interior do Brasil.

    Quem ia a Braslia duas vezes, revelava, com espanto, a diferen-a constatada entre as duas viagens. A "cidade do ali vai ser" passara a ser a "Cidade da Esperana" - segundo a feliz expresso de Andr Malraux.

    No entanto, sucediam-se, no Congresso, as vozes que se er-guiam para condenar a ideia. O Senador Joo Vilasboas, da UDN, assim se manifestava: "No se justifica de forma alguma que se localize uma cidade no Planalto a 1.150 metros de altitude, para onde seramos atra-dos, a fim de gozar a beleza, a beleza ambiente, o panorama circundante da nova capital e, sobretudo, o ar natural, o calor do sol, enfim, a vida quase ao ar livre - e que se confinem os parlamentares em ambientes sem janelas, fechados s comunicaes externas, servidos por luz artifi-cial. Ali onde o sol esplende e a temperatura amena devem ser um est-mulo para a vida, ficamos circunscritos numa catacumba..."

    Em agosto de 1959, o Senador Jefferson Aguiar, do PSD, apresentou um projeto de emenda constitucional, referente mudana da capital, e justificou sua proposio, com as seguintes palavras: "Os

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    constituintes de 1891 deliberaram inscrever na nova Carta Magna o dis-positivo sob a transferncia da capital da Repblica para o Planalto Central, para situ-los em local de fcil defesa contra um ataque es-trangeiro. Com os progressos dos elementos utilizados na guerra, esse motivo deixou de ser de importncia, em face do surgimento de outro: a internao da capital para o desenvolvimento do hinterland brasileiro. Essa razo perdurou e cada dia se acentuou de forma a impressionar o pensamento dos constituintes de 1946. Contudo, o governo atual pre-ocupou-se com a construo material da nova capital da Repblica, descurando justamente da organizao poltico-administrativa e judi-ciria que deveria compor a futura capital brasileira. O territrio do fu-turo municpio federal est fixado em 5.800 quilmetros quadrados. Proponho que seja, apenas, de 1.500 quilmetros quadrados por pare-cer-me aconselhvel no alargar muito a sede da capital do pas, a fim de no se tornar necessrio criarem outras entidades, problema que naturalmente surgiria..."

    J o Senador Othon Mader, da UDN, props, em outubro de 1958, que fosse prorrogada a data fixada para a inaugurao de Braslia, e esclarecia: "Apresentei considerao do Senado o projeto de lei, que tomou o nmero 24, de 1958, e que visa a adiar, por 10 anos, a instala-o da capital da Repblica, procedendo-se sua transferncia em 21 de abril de 1970."

    Num segundo pronunciamento e em outros, o Senador Joo Vilasboas apresentou, em nome da UDN, o Projeto de Retardamento da Construo de Braslia, declarando: "Braslia era um boneca com que Vossa Excelncia (referia-se a mim) se distraa. Isto um fato real, posi-tivado em lei que fixa a data da transferncia da capital, para a realizao da qual a Nao est fazendo grandes sacrifcios. Segundo: no s construir, mas preciso traar normas legislativas, no s para a organi-zao poltico-administrativa e judiciria da nova capital, como tambm do Estado da Guanabara que surgir na data daquela transferncia. preciso corrigir o erro em que incorremos, ao fixarmos a data da trans-ferncia para dia 21 de abril de 1960, no raciocinando na ocasio opor-tuna, sem lembrarmos que, no ano entrante, estamos a braos com uma eleio para a Presidncia e Vice-Presidncia da Repblica. Por isso sou de opinio que a transferncia deva ocorrer em 31 de dezembro do

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    mesmo ano, pois, nesta data, o momento ser mais propcio para se realizar esta mudana sem abalos sociais e polticos."

    E, por fim, vinha a palavra do lder da Oposio, o Deputado Otvio Mangabeira: "S um colapso geral da vontade" declarou "explicaria o que vai pelo Brasil. Ningum - mas ningum mesmo -acredita que Braslia, uma cidade em construo, possa ofecer condies de vida aos funcionrios e de funcionamento aos rgos que para l es-to sendo arrastados. Ns todos, com excees individuais apenas, si-mulamos acreditar no milagre. O historiador de amanh achar nos jor-nais, nos Anais do Congresso e at em livros, depoimentos que do Bra-slia acabada, perfeita, em 1960, e o Senhor Juscelino Kubitschek como homem que transformou a Nao num coro feliz para louvar-lhe a grandeza, a sabedoria e o poder. E contra essa vergonha que estou cla-mando. Vejo Braslia, no momento, apenas como um smbolo do regi-me de subverso - se que isto regime - em que vivemos. Todos fin-gem acreditar que vo viver e funcionar em Braslia. Eu quero viver para ver o Congresso mudar-se a 21 de abril de 1960 e funcionar no deserto goiano - s vendo que acredito."

    Assim falava a Oposio, e as crticas que se faziam ouvir no Congresso no diferiam das que eram vinculadas por muitos rgos da imprensa. O tempo, entretanto, encarrregou-se de dissipar, aos poucos, essa atoarda. A obra, que no existia, ou que s existia na minha imagi-nao, j era uma esplndida realidade. E a mudana, que nunca se faria e que levara o Deputado Otvio Mangabeira a confessar que desejava viver, para ver, estava s vsperas de ser realizada.

    A LTIMA BATALHA CONTRA A MUDANA

    Vencida a batalha da instalao do servio de microondas, que ligou Braslia ao resto do pas e ao mundo, chegara a hora de se promover a indispensvel organizao administrativa e judiciria da nova capital para capacit-la a funcionar como sede do governo do Brasil.

    O problema apresentava duas faces perfeitamente distintas e autnomas. No se poderia organizar administrativamente Braslia sem resolver, em bases realistas e duradouras, a situao do Rio, o qual, com

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    a transferncia da sede do governo, passaria a constituir um novo Esta-do da Federao o Estado da Guanabara. Assim, a votao, pelo Con-gresso, do estatuto da nova unidade federativa, dadas suas implicaes polticas, converteu-se, desde o incio dos entendimentos, numa batalha a ltima das mais renhidas, que tive de travar antes da inaugurao da nova capital.

    No incio, era quase nula a perspectiva de decretar-se o esta-tuto. Todavia, a obstruo, promovida pela UDN, acabara por dar ao governo o que mais ele desejava: a liberdade para agir politicamente no ex-Distrito Federal, enquanto se fazia a mudana da administrao para o Planalto Central.

    Queixavam-se os cariocas - e com razo - da falta de auto-nomia poltica. A administrao, submetida a um regime especial, com o prefeito nomeado e a Cmara dos Vereadores eleita, tinha de resultar no que, de fato, sucedeu: o caos administrativo. Quase todo o oramen-to do Rio era para o pagamento do funcionalismo e, estouradas as ver-bas, os problemas da cidade se agravavam continuamente, fazendo pre-ver, para breve, o colapso dos servios urbanos.

    Essa situao deveria ser sanada, e a oportunidade para a cor-reo surgira com a mudana da sede do governo. A hora requeria pon-derao e bom senso. Os partidos deveriam agir com iseno, a fim de que se conseguisse organizar, de maneira prtica e racional, a estrutura do novo Estado. Ao invs disso, o que ocorria era uma desenfreada dis-puta pelo controle poltico da Guanabara. A UDN, de um lado, e o PTB, do outro, por serem os partidos mais fortes, entraram em choque, cada um julgando-se credenciado a impor as condies que lhe pareciam mais favorveis. O PSD, por sua vez, embora eleitoralmente fraco na rea, esperava contar com o meu apoio j que eu era pessedista para obter o governo do novo Estado.

    Estabeleceu-se a confuso no seio do Congresso. O desen-tendimento geral no deixava de me preocupar. Sem a aprovao daque-las leis, no seria possvel a inaugurao da nova capital no dia 21 de abril de 1960.

    Sucediam-se as obstrues, levadas a efeito pela UDN, cuja bancada se retirava do recinto quando ia ocorrer qualquer votao. Em face da atitude dos udenistas, o governo s dispunha do PSD, do PTB e

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    de outros partidos menores, para obter o quorum necessrio para a tra-mitao das leis. Alm dos naturais choques entre as lideranas partid-rias, tive de fazer frente aos desentendimentos relacionados com a pretenso de cada agremiao em querer assegurar, para si, atravs das leis pretendidas, a hegemonia poltica no novo Estado.

    Contudo, at ali tnhamos de lutar para impedir a obstruo da UDN, nossa tradicional adversria. Quando a lei orgnica e administrativa do futuro Estado da Guanabara chegou ao plenrio, fomos surpreendidos pela estranha atitude do PTB, nosso aliado, que ameaava sair do recinto juntamente com a UDN, o que acarretaria fatalmente a no aprovao do estatuto. O lder da maioria, Abelardo Jurema, e o Deputado Carlos Murilo, do PSD mineiro, procuraram os petebistas, recalcitrantes, a fim de saber o que se estava passando. A discrdia tinha origem apenas numa palavra. A lei referia-se a um "interventor", nomeado pelo Presidente da Repblica, que dirigiria o novo Estado at a posse do governador eleito pelo povo. Os petebistas no concordavam com essa designao, e isso porque alguns jornais haviam veiculado a notcia de que esse "interven-tor" seria o Deputado Armando Falco, do Cear, e que, nesse momento, exercia o cargo de ministro da Justia. O PTB no concordava com essa indicao; da a deciso de obstruir a votao da lei.

    A situao era grave. O Congresso havia sido aberto a 15 de maro e a inaugurao de Braslia seria a 21 de abril, ou seja, dentro de um perodo de um ms e seis dias. Aquela altura, metade do prazo j es-tava esgotado, e, se no chegasse a um acordo, a votao da legislao seria prejudicada.

    Quando Abelardo Jurema e Carlos Murilo tomaram conheci-mento da exigncia do PTB eram, precisamente, 14h30min. O tempo era exguo, j que a lei entraria em votao na tarde do mesmo dia. Cor-reram, ento, para o telefone, a fim de falar comigo. Carlos Murilo ligou para o Catete e para o Laranjeiras e no me encontrou. Eu havia sado para inaugurar uma das muitas obras que conclura, antes de fazer a transferncia do governo.

    Pressionado pelos petebistas, Carlos Murilo faz uma segunda ligao, dez minutos mais tarde, e falou com. o Coronel Jofre Lelis, do Gabinete Militar da Presidncia. Informado de que eu no havia votado ainda, Carlos Murilo, premido pelas circunstncias, fingiu que falava

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    comigo. Explicou o motivo do telefonema e a exigncia dos petebistas e, enquanto representava, constrangido, aquela farsa, percebeu que Abelar-do Jurema e os deputados do PTB se acercavam da cabine telefnica, como se desejassem, igualmente, dizer-me alguma coisa. Temendo que isso acontecesse, Carlos Murilo desligou o telefone, comunicando-lhes que eu havia concordado com a troca da palavra, mas pedia que o lder Abelardo Jurema conversasse com o Deputado San Tiago Dantas, rela-tor da matria, e com os demais integrantes da Comisso de Justia na Cmara dos Deputados.

    Os petebistas mostravam-se satisfeitos e agradeceram a Car-los Murilo a sua interveno. Quando eles j se haviam afastado, este relatou a Abelardo Jurema o artifcio a que fora obrigado a lanar mo, para contornar a crise. Abelardo Jurema tomou as providncias necess-rias junto ao Deputado San Tiago Dantas, e Carlos Murilo, deixando a Cmara dos Deputados, rumou para o palcio, a fim de me pr a par do que havia ocorrido. Telefonei imediatamente para Abelardo Jurema e para San Tiago Dantas, dando as instrues necessrias. Ficou estabele-cido que seria apresentada uma emenda em plenrio e, como o antepro-jeto estava em regime de "urgncia urgentssima", o relator San Tiago Dantas daria seu parecer oralmente.

    No incio, como disse, era quase nula a perspectiva de vo-tar-se, a tempo, o estatuto da Guanabara. Entretanto, a obstruo, pro-movida pela UDN e pelo PTB, acabara por dar ao governo o que ele mais desejava: liberdade para agir politicamente no ex-Distrito Federal, enquanto se fazia a mudana para Braslia.

    Percebendo a tempo o erro em que haviam incorrido, os ude-nistas apressaram-se em favocer a aprovao do projeto de lei do estatu-to, e o Deputado Rondon Pacheco, numa manobra hbil, transferiu a aprovao para o Presidente da Cmara, Ranieri Mazzili. Em conse-quncia, a necessidade de se indicar um governador provisrio, ao invs de um interventor, teve como resultado a desarticulao de vrios es-quemas polticos, laboriosamente armados, tendo como objetivo o con-trole do governo na nova unidade da Federao.

    Duas horas depois, tudo estava solucionado. Isso ocorreu no dia 13 de abril de 1960 - oito dias antes, portanto, da transferncia da sede do governo. Em face da nova situao, movimentaram-se, outra

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    vez, os partidos - desta feita apenas os que integravam o situacionismo - , cada um pretendendo indicar o governador. Ao lado dessa disputa, verifi-cou-se uma corrida dos ento vereadores, os quais tentaram fazer preva-lecer o ponto de vista de que, com a autonomia que passara a gozar a Guanabara, eles estariam praticamente promovidos a deputados. Seriam os constituintes do novo Estado. A Constituio Federal apresentava bices a essa pretenso. Carlos Lacerda era um dos que se batiam, com maior veemncia, por essa tese, e isso lhe valeu profundas incompatibi-lidades dentro da UDN, que o acusava de ter interesses dentro da C-mara dos Vereadores.

    Diante das mltiplas reivindicaes, quer do PSD, quer do PTB e, mesmo , do PR - as organizaes que me apoiavam - , decidi to-mar a atitude que mais convinha aos cariocas: escolher um governador apoltico, inteiramente desvinculado dos interesses em jogo, e pessoa da minha mais absoluta confiana. O escolhido foi o ento Embaixador Jos Sette Cmara, chefe da Casa Civil da Presidncia.

    A escolha no poderia ser mais acertada e, por isso mesmo, teve a virtude de agradar a todas as faces polticas. Sette Cmara, embora di-plomata de carreira, mostrou ser um administrador seguro e esclarecido, concluindo, em pouco tempo, as obras que eu havia prometido aos cario-cas e que, por motivos polticos, vinham tendo seu andamento prejudicado. Alm do mais, o novo governador, no sendo poltico, manteve-se afastado das dissenses e querelas locais, o que muito contribuiu para dissipar o tra-dicional ambiente de tenso do cenrio partidrio estadual.

    Resolvido o problema da estruturao do Estado, solicitei ao Congresso um crdito de at 3 bilhes de cruzeiros para a complemen-tao das obras a cargo da Sursan e, no dia 8 de abril, assinei um decreto, convertendo o Palcio do Catete em Museu da Repblica, vin-culado ao Ministrio da Educao e Cultura. No dia 16 de abril, assinei outro decreto, determinando a incorporao Bandeira Nacional de uma nova estrela, a qual representaria o Estado da Guanabara.

    Assim, todas as providncias haviam sido tomadas para a transferncia da sede do governo. No dia 14 de abril, haviam partido do Rio, de nibus, os primeiros sessenta funcionrios federais que iriam fi-xar residncia em Braslia. Tratava-se da vanguarda da legio de mudan-cistas. No Catete e no Laranjeiras os corredores estavam atulhados de

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    caixotes, contendo os arquivos da Presidncia que, tambm, estavam prestes a ser transferidos. Tudo fora previsto pelo DASP, sob o coman-do do dedicado e competente diretor, Dr. Joo Guilherme Arago. O pessoal e os volumes de processos seguiriam por terra ou via area, con-forme a necessidade de servio, at que se completasse a transferncia do Executivo.

    No dia 19, recolhi-me mais cedo, pois, no dia seguinte, eu e minha famlia seguiramos, j de mudana, para Braslia. Convoquei to-dos os funcionrios do palcio - Casa Civil e Militar e Secretaria da Presidncia - para uma reunio que teria lugar s 9 horas da manh se-guinte, no meu gabinete.

    Aquela seria a minha ltima noite no Laranjeiras, com o Rio funcionando ainda como sede do governo da Repblica.

  • Despedindo-me do Rio

    * - ^ "r n

    9 horas da manh, do dia 20, quando cheguei ao Catete. Viajavam comigo, no carro, Sarah, Mrcia, Maria Estela e minha me, que viera de Minas para seguir conosco, a fim de assistir inaugu-rao de Braslia. Estvamos todos silenciosos, tocados antecipadamen-te pela emoo da prxima partida.

    Naqueles ltimos dias, Sarah e eu havamos sido alvos de co-moventes homenagens. Um grupo de estudantes uruguaios oferecera a Sarah, no Laranjeiras, um busto do poeta Juan Zorrilla de San Martin, patrono do liceu de que eram alunos. No dia seguinte, a Cmara do Rio prestara significativa homenagem a mim e a Sarah, concedendo-nos os ttulos de Grandes Benemritos da Cidade.

    A distino deferida a mim, de acordo com a proposio do Vereador Celso Lisboa, fundamentara-se nos servios que eu havia prestado capital da Repblica, prestigiando o Plano de Obras que esta-va sendo executado, atravs da Sursan; e a homenagem a Sarah fora mo-tivada pela ateno constante que ela tinha dado aos problemas da po-pulao menos favorecida, proporcionando-lhe, atravs das Pioneiras Sociais, educao para as crianas em idade escolar e facilidades s pes-soas enfermas para conseguirem tratamento mdico, principalmente no combate ao cncer, por intermdio da Fundao Lusa Gomes de Le-mos e dos hospitais volantes.

  • 360 Juscelino Ktibitschek.

    No discurso que proferi, agradecendo as homenagens, apro-veitei a oportunidade para me despedir, com "profundo sentimento de gratido, da mui nobre e leal cidade de So Sebastio do Rio de Janei-ro". Agradeci, em nome do pas, a hospedagem que a terra carioca dis-pensara ao governo, durante quase dois sculos. E declarei: "Toda cidade tem sua alma. Muito mais do que as ruas, os monumentos, os edifcios, as paisagens, o que distingue uma cidade o seu modo de vi-ver, de exprimir-se, de manifestar, enfim, a presena de uma ao coleti-va. O Rio, notvel pelos encantos naturais, ainda mais o pela sua alma. Nada mais preciso invocar, em comprovao do que afirmo, que a maneira compreensiva com que os cariocas se portaram diante da cam-panha, hoje vitoriosamente encerrada, da mudana da capital. No hou-ve explorao poltica que vingasse, semente da intriga que germinasse neste povo to consciente de si mesmo e to politizado. Entre os ele-mentos positivos que sustentaram na batalha mudancista avultaram, de-cisivos, o apoio, a compreenso, o desprendimento e o esprito autenti-camente nacional da populao do Distrito Federal." E conclu: "E com extraordinria emoo, senhores membros da Cmara do Distrito Federal, que em nome do Brasil inicio as minhas despedidas. Sinto que o Brasil cresceu, que o Brasil no mais o mesmo. Esta despedida , na realida-de, menos uma despedida que um encontro. o encontro do Brasil de sempre com o Brasil novo, representado por Braslia."

    Retribuindo, ainda, as atenes dos cariocas, no dia 19 de abril dirigi uma mensagem de despedida ao povo do Rio, pela Vo^ do Brasil. Estava, de fato, pesaroso de deixar uma cidade que me recebera to bem e tantas provas de carinho j me dera. Falei, pois, com emoo, ao dizer o meu adeus Cidade Maravilhosa.

    Quando chegamos ao Catete, j havia uma pequena multido estacionada junto s grades do palcio. Os jornais haviam noticiado que, s nove horas, eu iria me despedir dos funcionrios da Presidncia. Embora se tratasse de uma cerimnia de carter quase privado e reali-zada no interior do meu gabinete, numerosos populares acorreram para assistir minha chegada.

    Ao chegar ao primeiro andar do Catete, todos os funcionrios da Presidncia j ali se encontravam. Reuni-os no Salo Nobre e disse-lhes que aquela era a ltima vez em que estaramos juntos sob aquele teto.

  • Por que constru Braslia 361

    O palcio fora convertido em Museu da Repblica e poderamos voltar ali individualmente, numa espcie de peregrinao de saudade, apenas para recordar as horas alegres e de tenso que, nele, havamos vivido. Agradeci a todos a colaborao que tinham me prestado e os convidei frisando que era um convite e no uma ordem a prosseguirem em suas funes, mas dali em diante em Braslia, de forma que a equipe, formada em 1956, no se fragmentasse quando j estava prximo o fim do meu governo. Falou, em seguida, o Jornalista Valdemar Bandeira, deca-no da Sala de Imprensa, agradecendo as atenes com que eu sempre trata-ra os representantes dos jornais cariocas, procurando facilitar-lhes o traba-lho e nunca me irritando, mesmo quando o governo era atacado.

    O ambiente estava pesado, pois a cerimnia, embora ntima, acabara apresentando um carter solene. que todos estavam cnscios de que vivamos, naquela sala, um momento histrico. As fisionomias mostra-vam-se graves. Um silncio significativo prevalecia no ambiente. Eu pr-prio, de natural expansivo e comunicativo, sentia-me tolhido. Em seguida, despedi-me dos presentes, apertando a mo de cada um, e o mesmo fize-ram Sarah e as meninas. Terminada a reunio, desci a escadaria, ladeado pela famlia e acompanhado de todos os presentes. Ao chegar ao saguo, percebi que enorme multido j se encontrava frente do palcio. Os curi-osos, que eu havia visto ao chegar, embora j numerosos, forados por no-vas adeses, tinham se convertido numa concentrao popular.

    Quando cheguei calada, fui alvo de carinhosa homenagem por parte dos alunos da Escola Rodrigues Alves, os quais, agitando os lenos brancos, despediam-se de mim. Nessa ocasio, Sarah, visivelmen-te emocionada, no conseguiu esconder as lgrimas, o mesmo aconte-cendo com minhas duas filhas, Mrcia e Maria Estela. S minha me se manteve serena, resistindo ao impacto da onda emocional.

    Deixando-as porta do palcio, encaminhei-me ao encontro dos estudantes para abra-los, e fui imediatamente cercado pelo povo. Todos faziam questo de me cumprimentar, e os que no o conseguiam, aplaudiam-me. Assim, aquela partida, que eu esperava fosse simples e cordial - apenas uma despedida de amigos - , convertera-se em manifes-tao popular.

    Com muito esforo, consegui voltar at a calada, onde se en-contravam Sarah e as meninas. Havia um ato que ainda desejava prati-

  • 362 Juscelino Kubitschek

    car, antes de tomar o carro que nos levaria ao aeroporto. Era assinalar, com um gesto, o fim de uma era do Brasil. Dirigindo-me para a porta do palcio, peguei os dois portes de ferro da entrada e os puxei lenta-mente, e com solenidade, at que se fechassem. Naquele momento, o Catete deixaria de ser a sede do governo. Estava fechado simbolicamen-te. Dali em diante, a residncia oficial do Presidente da Repblica seria o Palcio da Alvorada, em Braslia.

    Ao fechar aqueles pesados portes, eu o fiz com intensa emo-o. O que fazia no era efetivamente cerrar a entrada de um palcio, mas virar uma pgina da histria do Brasil. Durante dois sculos, o Rio fora a cabea da Repblica, seu rgo pensante - crebro e corao de um grande pas. A civilizao, construda na faixa litornea, realizara seus objetivos, conservando ntegro um territrio com a extenso de um continente. Mas aquele perodo decisivo da nossa evoluo, aps a reali-zao dos objetivos sociais e polticos que lhe cometiam, havia chegado ao fim. Naquele momento, outro se iniciava: a era de interiorizao, da posse integral do territrio, do verdadeiro desenvolvimento nacional.

    Cnscio do papel que representava no momento, sentia-me profundamente comovido. Entrei no automvel e mandei que seguisse para o aeroporto. Quando o carro se ps em movimento, a multido avanou como uma massa compacta, densa, tornada consistente pelo pensamento comum que a inspirava, e prestou-me uma das maiores ma-nifestaes pblicas de que j fui alvo na vida. As aclamaes eram ruido-sas. Sucediam-se os vivas. Lenos brancos, agitavam-se dos dois lados do carro.

    Havendo construdo Braslia, eu impusera ao Rio a perda dos privilgios e das honras de sede do governo da Repblica. Os servios federais, as autarquias, a representao diplomtica que tanto brilho da-vam s noites cariocas tudo isso iria cessar. Seria natural que a popula-o local se irritasse, e que eu o autor de toda aquela transformao fosse vaiado, apupado, quando aparecesse em pblico.

    s 10 horas, segui para Braslia. Naquele mesmo dia, tarde, teria lugar uma cerimnia na Praa dos Trs Poderes, na nova capital, quando Israel Pinheiro, como presidente da Novacap, me entregaria as chaves da cidade. O dia seria, pois, uma sucesso de emoes profun-das. Assim, ao desembarcar em Braslia, refugiei-me no Catetinho. Fora

  • Por que constru Braslia 363

    ali que comandara a grande batalha da construo da nova Capital e ali buscava refgio, no seu ltimo dia. Tudo era quieto na modesta casa de madeira, erguida antes que existisse at mesmo o traado da cidade. Uma brisa, soprando do norte, sacudia as cortinas de algodo, confeccio-nadas no com qualquer preocupao decorativa, mas como um recurso contra a violenta claridade do Planalto.

    Sentei-me em um desvo da varanda. Em torno, estendia-se a cidade que, em um esforo quase sobre-humano, conseguira construir em trs anos e meio. O cu era o mesmo da minha primeira visita ao local, no dia 2 de outubro de 1956 - cu imenso, desdobrado de nuvens colori-das, como se refletisse o esplendor da metrpole que se abria no cho.

    Lcio Costa e Oscar Niemeyer haviam feito o desenho da ci-dade. Centenas de empreiteiros porfiaram, na tarefa de transformar em realidade o que estava nas pranchetas. Depois da obra concluda um avio ou um pssaro de cimento armado, de asas abertas a Natureza, invejosa do esprito criador do Homem, empenhara-se em se transfor-mar, tambm, em arquiteta, constituindo outra Braslia no cu.

    Da a sequncia de palcios, de catedrais e de zimbrios, que surgiam e se desfaziam a cada hora no cncavo do amplo firmamento. No momento, por exemplo, via uma imensa coluna de luz, que se abria no seu topo como uma flor desabrochada. O sol dourava-a, emprestan-do-lhe fosforescncias que nenhum artista seria capaz de fixar. Lem-brei-me da profecia de Dom Bosco.

    Ali estava Braslia, j construda, justamente entre os paralelos 15 e 20, tal como Dom Bosco previra, isto , prximo s lagoas Feia, Formosa e Mestre d'Armas, s cabeceiras do rio Preto. A nova capital, alm de haver sido o sonho de um sbio - Jos Bonifcio - , foi, tam-bm, a viso de um santo.

    Olhando atravs da porta que dava para a varanda, vi minha me serena, altiva, austera como sempre foi conversando com minhas filhas. De vez em quando, ela erguia o olhar e contemplava a cidade que se abria sua frente. Diamantina, a terra que era dela e fora o meu bero, dormitava, quela hora, acalentada pela brisa que soprava do Itamb.

    Comentava-se, ali, a inaugurao de Braslia. Surpreendiam-se de que o destino, entre tantos homens ilustres de Minas e do Brasil,

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    houvesse escolhido justamente a mim, um antigo e modesto telegrafista de Belo Horizonte, para fazer nascer do cho a esplndida metrpole.

    Contemplando minha me, julguei compreender as razes, quase inexplicveis, daquele capricho do destino. Deus, que vira o seu sofrimento, que fora testemunha de sua viuvez em plena mocidade e na pobreza, dera-lhe, como compensao, fortaleza de nimo, que ela sou-bera me transmitir.

    AS FESTAS DA INAUGURAO DE BRASLIA

    Um pouco antes das cinco horas da tarde, deixei o Catetinho, seguindo para a Praa dos Trs Poderes, Braslia j no era mais um imenso canteiro de obras - era uma metrpole. Sucediam-se os edifcios, que compunham as superquadras residenciais. Largas avenidas, inteira-mente asfaltadas, convidavam o visitante para longas excurses. Aqui e ali, viam-se os famosos trevos, que davam dinamismo novo ao trfe-go, com a circulao dos veculos sem sinais luminosos nem cruza-mentos.

    O Eixo Monumental era uma espcie de sistema nervoso da cidade. A Praa dos Trs Poderes, com a sequncia lateral dos edifcios ministeriais e, ao fundo, com as duas conchas uma cncava e outra convexa que compunham o Palcio do Congresso, proporcionariam uma viso surpreendente. A esquerda da praa, erguia-se o Palcio do Planalto todo transparente, refletindo o sol nas suas paredes de vidro; e direita, via-se o edifcio do Supremo Tribunal Federal, uma obra-prima em concepo arquitetnica, solto no ar, como se no tocasse a terra.

    Enquanto o automvel avanava, eu observava o esplendor do que me cercava. Apesar de haver acompanhado o andamento daque-las obras, dos alicerces at o assentamento da cumeeira, tudo me parecia novo. Estava habituado a ver Braslia na sua roupa de trabalho - homens de botas e macaco, com enormes chapus, protegendo-os contra o violento sol do Planalto. O que se me antolhava agora era um espetculo diferente. A metrpole deixara sua indumentria de servio, para acolher centenas de milhares de visitantes. Naquele dia, 50 mil viaturas rodavam

  • Por que constru Braslia 365

    pelas ruas, exibindo placas de todos os Estados da Federao e de muitos pases da Amrica Latina.

    Nos ltimos dias, antes da inaugurao, ningum dormira em Braslia. Empreiteiros, operrios, autoridades da Novacap empenha-vam-se na concluso das obras que lhes competiam, trabalhando vinte horas por dia. E faziam-no, no porque algum os obrigasse, mas por esprito de cooperao. Era a "mstica de Braslia", que atuava no espri-to daqueles milhares de pioneiros.

    Muitas cidades, planejadas, j foram construdas no mundo. A srie monta ao perodo do Antigo Imprio egpcio. Vieram depois: Ale-xandria, So Petersburgo, Washington, Ottawa, Pretria, Ancara e Can-berra, na Austrlia. Akhenaton foi erguida com o suor e o sangue de toda a populao egpcia; e quase o mesmo aconteceu com So Peters-burgo, quando Pedro, o Grande, voluntarioso, desptico, mas realmente estadista, empenhou-se, de corpo e alma, na "abertura de uma janela para a Europa". Todas as cidades, porm, tiveram sua construo des-dobrada atravs dos anos, cobrindo diversas geraes. Entretanto, Bra-slia havia sido a nica que fora edificada em pouco mais de trs anos. E sua concluso no se limitara a um curso de cenografia, montado com a preocupao exclusiva de ser contemplada por forasteiros. No dia 21 de abril de 1960, a cidade estava pronta, definitivamente construda, com todos os seus edifcios, seus palcios, suas avenidas, seus conjuntos resi-denciais e seus servios pblicos urbanos em pleno funcionamento.

    Ao ser inaugurada, Braslia j tinha uma populao fixa de qua-se 100 mil habitantes. Eram autoridades, funcionrios federais e autrqui-cos, comerciantes, representantes das profisses liberais, intelectuais e ar-tistas. Que diferena da mudana da sede do governo norte-americano para Washington, quando todo o funcionanlismo pblico ento transfe-rido no excedeu modesta cifra de 126 pessoas! A bagagem dessa mul-tido viajara de Filadlfia por terra e os arquivos e os bens da Nao se-guiram por via martima. Para acolher os pioneiros, s se encontravam prontos o edifcio do Congresso, o palcio presidencial e o edifcio do Tesouro, o que demonstra aguda psicologia. Quanto aos Departamen-tos de Estado, da Guerra, da Marinha e dos Correios, foram temporaria-mente abrigados em residncias particulares.

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    O secretrio da Guerra, Walcott, assim descreveu a primeira impresso que lhe deixara Washington: "H poucas casas em qualquer lugar, e a maior parte, barraces pequenos e miserveis, cria um contraste horrendo com os edifcios pblicos. A gente pobre e, tanto quanto posso imaginar, os habitantes vivem como peixes, comendo-se uns aos outros... Olhando em qualquer direo, no posso descobrir, em uma rea to vasta quanto a cidade de Nova Iorque, nem cercas, nem tabiques, nem coisa al-guma a no ser fornos de tijolos e cabanas temporrias de operrios."

    A senhora do Presidente queixava-se de ter sido obrigada a transformar em secadouro para a roupa lavada o grande Salo de Au-dincias do palcio, ainda inacabado.

    Assim era Washington, quando foi feita a mudana da sede do governo dos Estados Unidos. O que consegui oferecer ao pas era, evidentemente, bem diferente e bem mais complexo. Existiam 3.800 apartamentos modernos, inteiramente construdos, e cerca de 1.700 em construo. A Fundao da Casa Popular povoara um setor inteiro da cidade, com residncias destinadas aos trabalhadores e aos servidores de categorias mais modestas. As Autarquias, o Banco do Brasil e todos os Ministrios ergueram edifcios, onde seriam alojados seus funcionrios.

    No que dizia respeito aos servios pblicos, j relatei o que foi a saga da instalao de um sistema de microondas, e da iniciativa pioneira que fora o telex. Quanto ao servio de telefones urbanos, funcionava um centro com 60 quilmetros de rede, colocado no tempo recorde de 90 dias; 25 ter-minais para o circuito de rdio para o Rio, inaugurado quatro meses antes da transferncia do governo; uma central telefnica de 5.000 linhas e 8 subesta-es completamente automatizadas; mesa interurbana de 20 posies; rede urbana de cabos telefnicos para 10.000 linhas; 23 mesas PBX para os prin-cipais edifcios pblicos, com 4.120 ramais; 576 terminais para o sistema de microondas entre o Rio, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Arax, Uberaba, Uberlndia e Braslia, tornando possvel converter todo o sistema, no futuro, para o de Discagem Direta a Distncia; e 48 terminais para circuitos telegrfi-cos entre o Rio e a nova capital, atravs, tambm, do sistema da microondas.

    Sessenta mil candangos as abelhas do planalto haviam tor-nado possvel aquele milagre. Engenheiros e arquitetos, sanitaristas e gelogos, urbanistas e pilotos, desenhistas e tcnicos em todas as especi-alizaes, esquecidos do conforto, haviam trabalhado, noite e dia, sob o

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    sol e a chuva, morando em barracas de lona ou em galpes de madeira, para que a inaugurao se fizesse na data marcada.

    No trajeto para a Praa dos Trs Podes, eu no podia deixar de recordar o que havia sido aquela luta. Nos 26 quilmetros, de eixo a eixo da cidade, cerca de mil engenheiros - de 25 a 30 anos de idade responsa-bilizavam-se pelo cumprimento das ordens que emanavam da chefia do go-verno. Recrutava, de preferncia, jovens. E isto por duas razes: Braslia era um campo de experimentao de tcnicas at ento desconhecidas no Bra-sil, o que sempre seduz a juventude; e porque os moos so geralmente do-tados de maior capacidade de idealismo. Na nova capital, tudo era moder-no e a produtividade no trabalho no era impulsionada por qualquer vanta-gem de natureza financeira. Mas pelo sentimento de competio.

    S os Institutos de Previdncia, em 11 meses, haviam constru-do perto de 3 mil apartamentos de luxo, sem falar nos menores, em fase de acabamento. Ao lado da atividade oficial, desenvolvida atravs da No-vacap e que batia recordes dirios em velocidade de construo, forma-ra-se a iniciativa privada, tocada, igualmente, no mesmo lan pioneirista. A TV Braslia fez-se em 90 dias: instalao de 400 operadores, construo dos estdios e montagem de torres transmissoras, no eixo Braslia-Belo Horizonte-Rio-So Paulo. Mais de 4 toneladas de material tcnico, inclu-sive vdeo-tapes, foram remetidos por via rea dos Estados Unidos e, em menos de uma semana, encontravam-se era Braslia.

    A nova capital estava pronta, apesar da grita da Oposio. Compondo a paisagem urbana e emprestando-lhe um aspecto romnti-co, que suavizava a dureza do cenrio do Planalto, rasgava-se um lago artificial com 117 quilmetros de linhas divisrias e 40 quilmetros qua-drados de superfcie.

    A medida que o carro avanava, eu ia tomando conhecimento do que me aguardava no centro de Braslia. As ruas apinhadas. A con-centrao popular tivera incio dois dias antes. O ar que se respirava era um misto de cansao e euforia. Cansao dos candangos, ainda trepados em andaimes, para os ltimos retoques, e euforia de milhares de visitan-tes, uns 300 mil, segundo estimativa da Novacap.

    Ao contrrio do que assoalhavam os derrotistas, Braslia, no dia da inaugurao, apresentava-se em perfeito funcionamento. claro que existiam deficincias. Mas seria desejar o impossvel exigir-se de

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    uma metrpole de trs anos e meio de existncia a perfeio dos servi-os de Nova Iorque.

    Braslia, no dia de sua inaugurao, j possua um ginsio para 1.200 alunos e escolas primrias alm de suas necessidades; colgios de irms dominicanas; clubes de bridge; duas lavanderias; trinta farmcias; trinta e cinco agncias de banco; cinco agncias de automveis; quinze restaurantes; cinquenta sapatarias; dois supermercados; dez piscinas; cinco hotis; seis boates; dezessete times de futebol.

    H um fato curioso, que merece registro. Braslia era a terra dos recordes, de um permanente esprito de competio. Ali trabalha-vam-se 24 horas por dia, e o esforo que se fazia acusava um ritmo indi-to em comparao com qualquer outra cidade do mundo. No entanto, a nova capital, apesar da sua tradio de operosidade, havia perdido um recorde: o de acidentes no trabalho. Somente 944 casos simples, com um fatal, para a maior concentrao obreira do mundo em 1960.

    Nos ltimos trs dias, antes da inaugurao, a cidade passara por uma revista, preparando-se para a sua grande hora. Trs mil operrios empenharam-se em uma maratona de vassouras, que se converteu em um festival de poeira. Mas tudo foi concludo a tempo, para receber os seus 300 mil visitantes.

    Enquanto o automvel corria, eu podia v-los, em grupos, em massa compacta, em legies, atulhando os logradouros pblicos. A atitude que mantinham era uma s: de espanto.

    Os adversrios, que haviam gritado aos quatro ventos que Braslia no existia, mostravam-se acabrunhados em face da realidade que lhes agredia a vista. As obras, concludas, somavam 359.819 metros quadrados de construes; e as quase concludas elevavam-se a 106.451 metros quadrados. Existiam ainda os 36.937 metros quadrados de cons-trues em andamento. Ao todo eram 503.207 metros quadrados de rea construda no curto perodo de fevereiro de 1957 a 21 de abril de 1960. Isso, s no setor de responsabilidade da Novacap. Existiam tam-bm as edificaes levadas a efeito pelos Institutos de Previdncia, pela Caixa Econmica Federal, pelo Banco do Brasil, pela Fundao da Casa Popular e por outras autarquias.

    Trs anos e dois meses para se erguer de um solo, onde nada existia - a no ser siriemas, cascavis e arbustos retorcidos - , a mais

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    revolucionria capital do mundo. Sete chefes de Estado ali haviam estado -os presidentes de Portugal, Paraguai, Itlia, Cuba, Indonsia, Mxico e Estados Unidos - e todos se mostraram empolgados, no disfarando o espanto de que se viam possudos.

    A hora era de emoo, de evocao de um passado to prxi-mo, mas que j parecia to distante. Desde que deixara o Catetinho, via-jei por entre ruidosas aclamaes. O povo, quando identificava o meu carro, avanava, tentando faz-lo parar, para prestar-me uma homena-gem. Sarah estava ao meu lado e no carro encontravam-se, igualmente, Mrcia e Maria Estela. Era visvel a preocupao das trs, temendo que as emoes do dia me afetassem o estado de sade. De fato, eu estava tenso, com os nervos distendidos ao mximo de sua resistncia. Mas era natural que isso acontecesse. Vivia, naquele dia, a hora mais alta de mi-nha carreira de homem pblico.

    Eram 5 horas e 30 minutos quando cheguei junto ao balco, armado na Praa dos Trs Poderes, onde me aguardavam o Vi-ce-Presidente Joo Goulart e Israel Pinheiro. Em frente, um mar de ca-beas. Braos se agitavam, saudando-me entusiasticamente. Naquele momento, iria receber do presidente da Novacap a chave da cidade, confeccionada em ouro.

    Israel Pinheiro falou, iniciando a cerimnia. No meio do discurso, ao fazer a entrega da chave, tamanha foi sua emoo que mal pde tir-la do estojo, no que foi auxiliado por Mrcia, que, percebendo seu embarao, salvou a situao. Em seguida, um popu-lar pediu a palavra, do meio da multido. Era o barbeiro Geraldo Fedulo Queiroz, que falava em nome do povo. F-lo com eloqun-cia e desembarao. Chegara, ento, a minha vez de agradecer a ho-menagem. Ao discursar, dirigi-me de preferncia aos candangos, a massa herica e annima qual devia, acima de tudo, a construo de Braslia.

    "Braslia s pode estar a, como a vemos, e j deixando entender o que ser amanh, porque a f em Deus e no Brasil nos sustentou a todos ns, a esta famlia aqui reunida, a vs todos, candangos, a que me orgulho de pertencer." Declarei, e prossegui: "Viestes, alguns de Minas Gerais, outros de Estados limtrofes, a maioria do Nordeste. Caminhastes de qualquer maneira at aqui, por estradas largas e speras,

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    porque ouvistes, de longe, a mensagem de Braslia; porque vos conta-ram que uma estrela nova iria acrescentar-se s outras vinte e uma da Bandeira da Ptria. Reconheo e proclamo, neste momento, que sois a expresso da fora propulsora do Brasil. Tnheis fome e sede de traba-lho em um pas em que quase tudo estava e est ainda por fazer. Os que duvidaram desta vitria; os que procuraram impedir a nossa ao; os que se desmandaram em palavras contra esta Cidade da Esperana desconheciam que o impulso, o nimo, a f que nos sustentavam eram mais fortes do que os desejos de obstruo que os instigavam, de que a viso estreita que no lhes permitia alcanar alm das ruas provincia-nas em que transitavam. Mas deixemos entregues ao esquecimentos e ao juzo da Histria os que no compreenderam e no amaram esta obra."

    Por estar j muito escuro e no poder ler o resto do dis-curso, terminei-o de improviso. "Ningum vos subtrair a glria de terdes lutado nesta tremenda batalha" prossegui, vivamente emo-cionado. "No vos esqueceria jamais, trabalhadores brasileiros de todas as categorias, a quem me sinto indissoluvelmente ligado. Eis o produto de nossas angstias, de nossos riscos e do suor de nossas lidas, eis a cidade que o extraordinrio Lcio Costa disse j nascer adulta. Com a maior humildade, voltado para a Cruz do Descobri-mento e da Primeira Missa, que Portugal nos confiou para este dia solene, agradeo a Deus o que foi feito. Sem a Sua vontade esta ci-dade no seria construda. Com o pensamento na Cruz em que foi celebrado o Santo Sacrifcio, peo ao Criador que mantenha cada vez mais coesa a unidade nacional, que nos d sempre esta atmosfe-ra de paz, indispensvel ao trabalho fecundo, e conserve em vs, obreiros de Braslia, o mesmo esprito forte com que erguestes a grande cidade."

    Finda a cerimnia, Israel Pinheiro entregou-me o l^ivro de Ouro de Braslia, em que estavam consignados os nomes de todos quantos haviam participado dos trabalhos de construo da cidade. Em seguida, dirigi-me para o aeroporto, em companhia das mais al-tas autoridades da Repblica, a fim de receber o Cardeal Cerejeira, Legado Pontifcio, que viera de Portugal para assistir inaugurao da nova capital.

  • Por que constru Braslia 371

    VENCIDO PELA EMOO

    Braslia preparara-se para o seu grande dia. Tudo fora meti-culosamente planejado. Mas o entusiasmo popular impediu que, em grande parte, o programa oficial fosse cumprido. Eu prprio contribu, diversas vezes, para romper o protocolo.

    Os hotis apresentavam-se repletos, desde a vspera. Nos apartamentos foram colocadas camas extras, para acomodar amigos dos inquilinos. O trnsito era intensssimo, principalmente na Praa dos Trs Podes e nas imediaes do Eixo Monumental. Por toda parte dra-pejavam bandeiras. A atmosfera era de euforia, com todos se abraando nas ruas, em um espetculo de confraternizao coletiva que causava admirao. Nos rdios, nas vitrolas, postos a funcionar no interior dos carros, ouvia-se, com frequncia, o Peixe-Vivo. E a natureza, colaboran-do com a comisso encarregada dos festejos, brindara Braslia com um dia esplndido.

    s 19 horas e 10 minutos, chegou ao aeroporto de Braslia o avio que conduzia o Legado Pontifcio.

    A tarde, Sarah inaugurou as instalaes do Correio Bra^iliense, rgo dos Dirios Associados, e cujo nome era o mesmo do jornal que Hiplito Jos da Costa - um dos defensores da ideia da mudana da ca-pital fundara em junho de 1808, em Londres. Sarah foi acompanhada pelas nossas filhas. Saudou-a o Deputado Jos Maria Alkrnin, diretor do jornal - o primeiro impresso em Braslia.

    A noite, realizou-se um jantar ntimo no Palcio da Alvorada e, sobremesa, discursou Augusto Frederico Schmidt, a quem respondi com brevidade e carinho.

    Em frente ao Palcio da Justia, na Praa dos Trs Poderes, havia sido armado um altar para a celebrao da missa campal, nos pri-meiros minutos do dia 21 de abril. Encimava-o a cruz diante da qual se celebrara, h mais de quatro sculos, a Primeira Missa no Brasil, e que fora trazida da Diocese de Braga, em Portugal, onde venerada como relquia.

    s onze horas e trinta minutos, acompanhado de minha fa-mlia, entrei na praa, sob aplausos de imensa multido, e ocupei a pol-trona que me fora reservada, era frente a um genuflexrio. Olhando em

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    torno, pude observar milhares e milhares de pessoas, de todas as condi-es sociais, aglomeradas em frente da cruz. O ambiente era de contri-o e respeito, embora se pudesse ouvir, vindo da parte mais afastada da praa, o burburinho de novas levas de fiis que vinham chegando.

    A cerimnia religiosa no tardou a comear. Ajoelhados no barro vermelho, homens e mulheres ouviram o discurso que o Legado trouxera j escrito de Lisboa; escutaram quando Dom Hlder Cmara se referiu a Braslia como o "sonho concretizado" e aludiu ao Planalto da F; e assistiram quando o Cardeal Legado abenoou a nova capital com textos especiais, que a Congregao dos Ritos preparara para a cerimnia.

    O ponto alto da solenidade foi aquele em que, seguindo-se consagrao da hstia pelo Legado do Papa, fez-se ouvir o sino que tan-geu pela morte de Tiradentes. O velho bronze ressoou na noite tranqui-la do Planalto, anunciando a inaugurao da nova capital, sonho dos Inconfidentes. Os ponteiros marcavam a meia-noite. Iniciava-se o dia 21 de abril de 1960.

    A enorme multido compungia-se, de joelhos no cho, assis-tindo, com lgrimas nos olhos, ao trmino de uma jornada herica que significava o virar de uma pgina da Histria do Brasil.

    Saudando e abenoando Braslia e os brasileiros, assim falou o Papa Joo XXIII, diretamente do Vaticano, em portugus:

    "Da Bahia de Todos os Santos a Piratininga e ao Rio de Ja-neiro, sob o impulso do exemplo sempre vivo da nobreza de Anchieta, e encorajado pelas proezas hericas das 'Bandeiras do Sul' e das 'Jor-nadas do Norte', pelo arrojo do seu presidente, o Brasil assenta os ali-cerces de sua nova capital, em um planalto central de seu imenso e rico territrio, qual um guardio sob os destinos da Nao. Braslia h de constituir um marco milionrio na Histria j gloriosa das terras de Santa Cruz, abrindo novos horizontes de amor, de esperana e de pro-gresso entre suas gentes que, unidas na mesma f, tornar-se-o aptas aos maiores cometimentos."

    Ao terminar a saudao papal, o coro entoou a Missa da Coroao, de Mozart, e, em seguida, a banda do Corpo de Fuzileiros Na-vais tocou o Hino Nacional. Acenderam-se os holofotes. Iluminaram-se os arranha-cus de vidro. Jatos de luz colorida comearam a varrer o cu de Braslia. O espetculo era deslumbrante e comovedor.

  • Por que constru Braslia 373

    Durante os ltimos trs anos, minhas reservas fsicas haviam sido postas prova at o extremo de sua capacidade de resistncia. Dois mdicos, Drs. Alusio Salles e Carlos Teixeira, no arredavam p de mim. Estavam ali, para o que desse e viesse, j que, dois meses antes, eu havia sido vtima de um distrbio circulatrio. Sarah tomara essa provi-dncia, por saber o que a inaugurao de Braslia ia significar para mim. De fato, sentia-me tenso desde que chegara ao Planalto. Tudo me co-movia: a cidade; a recordao das lutas travadas; a vibrao do povo; en-fim, a contemplao da obra, que ali estava, em todo o esplendor de sua beleza plstica.

    Vivendo aquele tumulto de emoes, no conseguia desfa-zer um aperto que sentia na garganta, e que se refietia at na entonao da minha voz. Quando os ponteiros marcaram 20 minutos do dia 21 de abril, e vi o espetculo de som e cores que armara no cu e, olhan-do em torno, vi a multido contrita e com lgrimas nos olhos, no consegui me conter.

    Cobri o rosto com as mos, e, quando dei f de mim, as lgri-mas corriam dos meus olhos.

  • Primeira reunio ministerial

    missa campal terminara depois de 1 hora da manh. O dia fora de sucessivas e intensas emoes. Quando cheguei ao Palcio da Alvorada, certo de que iria direto para a cama - pois era pesadssimo o programa de solenidades do dia 21 , encontrei o Salo Nobre repleto de amigos. Alm dos visitantes, existiam os hspedes. Alguns dias antes da inaugurao, recebi numerosos pedidos, no sentido de interceder junto s autoridades da Novacap, para a obteno de acomodaes no Braslia Palace Hotel. Atendi a algumas solicitaes, porque no havia, de fato, um s quarto vago, quer nos hotis, quer nos 3.900 apartamen-tos de Braslia.

    A soluo seria alojar os amigos mais ntimos no prprio pa-lcio.

    Voltando da Praa dos Trs Poderes, tive de participar de uma festa improvisada por minhas filhas. Enquanto atendia aos hspe-des, era chamado a cada minuto para uma providncia que se fazia ur-gente. Telegramas chegavam, com mensagens de estadistas estrangeiros. Havia, tambm, a agenda da primeira reunio ministerial a ser realizada na nova capital. Existiam, ainda, os numerosos e exaustivos detalhes do protocolo, sob os quais precisaria ser informado.

    Assim, enquanto crescia o bulcio minha volta, eu agia, cor-rendo de um lado para outro, atento a que tudo obedecesse aos itens do

    ^ri.

  • 376 Juscelino Kubitschek

    programa organizado. Osvaldo Penido, encarregado das festividades da inaugurao, estava radiante, em uma torre de controle na Praa dos Trs Poderes, de onde, de rvalkie-talkie em punho, comandava o bata-lho de subordinados.

    No Alvorada, a azfama havia tomado conta de tudo. Nessa agitao, as horas foram passando e, quando dei f de mim, o dia estava amanhecendo. Deitei um pouco, apenas para relaxar os msculos, e, pouco depois, j estava preparado para novas solenidades.

    Estas comearam s 8 horas da manh, quando fui saudado com o toque de alvorada pela Banda do Batalho de Guardas, seguido do hasteamento da Bandeira Nacional. Discursei, ento: "Esta bandeira, de todas quantas se hasteiam, no importa em que stio do nosso imenso ter-ritrio, ostenta uma estrela a mais. Porque o pas cresceu, animou-se de um esprito criador, e este esprito criador produziu mais uma unidade da Federao. A est a estrela do Estado da Guanabara, que vem se juntar s outras em torno de Braslia, centro das futuras decises polticas. Cida-de da Esperana, torre de comando na batalha pelo aproveitamento do deserto interior. Diante da nova bandeira, com suas 22 estrelas, sado os pioneiros, os que lutaram para que chegssemos ao que somos, e sado, principalmente, os filhos dos nossos filhos, para os quais, sem medir es-foros e sacrifcios, erguemos as bases da nossa grandeza futura."

    Em derredor, milhares de pessoas aplaudiam, insones como eu. Quiseram estar presentes quela alvorada. Talvez em homenagem cidade que surgia para a Histria, o sol, naquela manh, apresentara-se em todo seu esplendor.

    A tropa em continncia foi passada em revista, por mim, na Praa dos Trs Poderes, e, em seguida, a Banda dos Fuzileiros Navais tocou o Hino Nacional. Terminada a cerimnia, encaminhei-me para o Palcio do Planalto, onde receberia os 55 embaixadores que j me aguardavam no Salo Nobre. Encontrava-me cercado de todas as auto-ridades da Repblica, e o desfile dos representantes diplomticos foi re-alizado com imponncia. O embaixador do Uruguai aproveitou a opor-tunidade para apresentar suas credenciais, transformando-se, assim, no primeiro chefe de Misso Diplomtica a faz-lo na nova capital. O em-baixador dos Estados Unidos, aps cumprimentar-me, entregou-me a seguinte carta do Presidente Eisenhower: "Vossa Excelncia certamente se

  • Por que constru Braslia 377

    lembrar de quo impressionado fiquei durante o nosso encontro em Bra-slia, em fevereiro ltimo, com o extraordinrio empreendimento do gover-no e do povo brasileiros, construindo essa inspiradora nova capital. Nesta festiva ocasio da inaugurao de sua grande cidade do futuro, desejo reno-var minhas congratulaes a Vossa Excelncia pela sua viso e esforo e pelo esplndido esprito de povo livre do Brasil, com meus calorosos cumprimentos."

    Recebi, nesse momento, cumprimentos de todos os ofi-ciais-generais, de terra, mar e ar. Solenes nas suas fardas, apertavam-me a mo com efuso e um deles me disse: "Agradeo-lhe, Presidente, a emoo que nos est proporcionando e que eu no esperava fosse pos-svel nem mesmo ao meu neto assistir."

    Seguiu-se a solenidade de instalao do Arcebispado de Bras-lia, a cargo de D. Jos Newton de Almeida Batista, ex-arcebispo da minha querida e distante Diamantina. Coube ao Nncio Apostlico exe-cutar a deciso do Papa e entregar o plio arquiepiscopal, de acordo com os dizeres da bula, lida pelo Monsenhor Pio Gaspari. A cerimnia foi longa, porque tinha de cumprir todo o seu ritual, e s terminou quando assinei, juntamente com o Vice-presidente Joo Goulart e os trs cardeais, a ata da instalao da nova Arquidiocese.

    Realizou-se, em seguida, a primeira reunio ministerial em Braslia, com a qual foi instalado, oficialmente, na nova capital, o Poder Executivo. Dirigindo a palavra aos meus ministros, disse-lhes que no recordaria, naquele momento, o mundo de obstculos que haviam pa-recido insuperveis para que se concretizasse o sonho da mudana da capital. Recusava-me a voltar ao passado, mas concordei em lembrar que, quando ali tinha chegado, havia, na grande extenso deserta, apenas o silncio e o mistrio da natureza inviolada. Acrescentei que s me aba-lanara a construir a cidade quando me convencera de sua exequibilida-de por um povo amadurecido para ocupar e valorizar plenamente o ter-ritrio que a Divina Providncia lhe reservara. "Deste Planalto Central, Braslia estende hoje aos quatro ventos as estradas da definitiva integra-o nacional: Belm, Fortaleza, Porto Alegre e, dentro em breve, o Acre. E, por onde passam as rodovias, vo nascendo os povoados, vo ressuscitando as cidades mortas, vai circulando, vigorosa, a seiva do crescimento nacional."

  • 378 juscelino Kubitschek

    Solicitei, em seguida, que cada brasileiro explicasse a seus fi-lhos o que estava sendo feito naquele momento, pois era, sobretudo, para eles que se erguia "aquela cidade - sntese, prenncio de uma revo-luo fecunda em prosperidade". Eles, sim, e no os que se encon-travam presentes, que haveriam de me julgar no futuro. E conclu: "Neste dia - 21 de abril - consagrado ao Alferes Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes, ao centsimo trigsimo oitavo da Independncia e septuagsimo primeiro da Repblica, declaro, sob a proteo de Deus, inaugurada a cidade de Braslia, capital dos Estados Unidos do Brasil."

    O momento foi de intensa e indescritvel emoo. A maioria dos presentes tinha os olhos midos. Jornalistas de trinta nacionalidades, vindo dos mais distantes pontos da terra, ali estavam documentando a solenidade histrica. Houve um deles, acostumado aos grandes acontecimentos mun-diais, que sentiu baquear todo o seu sistema nervoso: a mquina tremeu-lhe na mo e ele disse que iria guardar a foto tremida como prova da maior emoo sentida em toda a sua vida de reprter internacional.

    Comandada por meu querido amigo Adolpho Bloch, uma equipe de oito fotgrafos da revista Manchete registrava cada minuto da inaugurao da nova capital. Para que se tenha uma ideia de como o as-sunto Braslia empolgava todo o pas, a subsequente edio especial des-sa revista, dedicada quele acontecimento, teve 700 mil exemplares es-gotados em 48 horas.

    CRIAO DA UNIVERSIDADE D E BRASLIA

    Meu discurso estava sendo irradiado para o todo o Brasil. O instante histrico que vivamos no Palcio do Planalto chegava ao co-nhecimento de milhes de brasileiros e provocava idnticas aes de emotividade. Atravs daquele singelo, mas impressionante ritual cvico, cumpriam-se, ao mesmo tempo, as promessas que eu fizera ao povo e o sonho que o Brasil acalentara desde a Independncia.

    Instalado o governo na nova capital assinei na tribuna coloca-da em frente ao Palcio do Planalto o primeiro ato oficial: uma mensa-gem, dirigida ao Congresso Nacional, propondo a criao da Universi-dade de Braslia.

  • Por que constru Braslia 379

    Quando a execuo do Plano Piloto j ia em meio, passara a me preocupar em dotar a cidade de tudo quanto pudesse coloc-la na vanguarda das principais capitais do mundo, no que dizia respeito edu-cao superior. Chamei Ciro dos Anjos, hoje ministro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, ento subchefe do Gabinete Civil da Presi-dncia, e disse-lhe o que tinha em mente. Desejava criar uma universi-dade que fugisse aos padres clssicos dos centros universitrios exis-tentes. Deveria ser um estabelecimento modelar, objetivando no s satisfao imediata da fome de saber da juventude de Braslia, mas, prin-cipalmente, soluo, em termos racionais, do ensino superior, levan-do-se em conta as exigncias da era tecnolgica em que havamos in-gressado.

    Administrativamente, seria uma Fundao instituda pelo po-der pblico, mas com as virtudes da administrao privada. Pedagogica-mente, seria um todo com unidade orgnica e funcional, concebido em dois estgios: o primeiro, de Institutos Gerais, de pesquisa e ensino, de-dicados s cincias fundamentais, s letras e s artes; e o segundo, de Fa-culdades Profissionais.

    A articulao entre as diversas universidades, que deveria ser permanente, far-se-ia dos Institutos para as Faculdades, nas atividades de ensino. Assim, no haveria mais Faculdades estanques, seno um sis-tema solidrio, em que todas as peas trabalhariam para um objetivo co-mum: a criao de um polimorfo e dinmico centro cultural.

    Assinada a mensagem, no Salo de Despachos, posei ao lado dos ministros para os fotgrafos. Depois, os jornalistas me cercaram, desejando entrevistas. Que poderia dizer naquela hora? O momento no era de palavras, mas de contemplao de acontecimentos histricos. Estes estavam ocorrendo a cada instante, vinculados ao desdobramento do programa de inaugurao. Bastava que se olhasse atravs dos vidros do palcio para se verificar que grandes novidades estavam ocorrendo l fora.

  • Instalao do legislativo e do Judicirio

    ^^^mm^^ povo, nas avenidas, via Braslia como um espetculo de cimento armado. J no havia mais terras e esperanas perdidas entre a cidade e a selva. Fizera-se a unidade nacional, e Braslia fora o vnculo que tornara efetiva essa aglutinao. A multido eufrica visitava os edi-fcios. Trocava impresses. Sentia que o pas nascera, mas que aquele nascimento tinha sua origem no interior.

    Era a primeira vez que o governo e o povo do Brasil da-vam-se as mos em praa pblica. O sentimento de orgulho era coletivo estuava sob a casaca das grandes personalidades e palpitava sob a ca-misa suja do candango. claro que existiam as excees, que se situa-vam de preferncia entre deputados e senadores. Tratava-se de um gru-po reduzido antigo, teimoso e intransigente. Mesmo assim, a nova ca-pital ali estava para acolh-los, e os acolhia com o esprito inteiramente desarmado. No distinguia entre amigos e adversrios, para indiscrimi-nadamente homenagear os que a buscavam.

    Mesmo junto do Palcio do Planalto, estava o edifcio do Congresso. Naquele momento onze e trinta da manh - desci a rampa do Planalto e me dirigi para a sede do Legislativo. Os que me olhavam no ocultavam a preocupao pelo cansao que velava na fisionomia. Um candango, ao p da rampa, ostentava um rstico cartaz: "Queremos Juscelino." Bati-lhe no ombro, agradecendo a homenagem, e rumei para

  • 382 Juscelino Kubitschek

    o Congresso. Ao entrar no Plenrio, que lembra em miniatura o recinto da Assemblia-Geral das Naes Unidas, repetiram-se as ovaes, prin-cipalmente vindas das galerias, onde se achavam os convidados e o povo. Acompanhava-me o Professor Trueta, da Universidade de Oxford, mdico de minha filha Mrcia, e que viera ao Brasil a convite especial meu. Percebi o espanto que o empolgou diante da comovente manifestao que os congressistas me tributaram. No recinto, enquanto as bancadas que apoiavam o governo aplaudiam, alguns setores da Opo-sio mantiveram-se em silncio, em uma deliberada deciso de exter-nar, ainda uma vez, sua contrariedade pela mudana.

    Era a primeira vez que eu comparecia a uma reunio conjunta da Cmara e do Senado. O inesperado da minha presena talvez tivesse contribudo para que a reunio conjunta se transformasse em uma das mais impressionantes dos ltimos tempos. Coube ao Vice-Presidente Joo Goulart fazer a declarao solene da instalao do Congresso na nova capital. Alm do Senador Filinto Mller, falou o Deputado Ranieri Mazzili: "Mais ainda do que um milagre da vontade humana, Braslia um milagre de f, uma vitria sob o impossvel, um triunfo sob a ten-dncia brasileira para o adiamento e o amanh. O sonho de muitos ho-mens, o remoto ideal que deveria lentamente passar ao, obstado sempre por algum empecilho momentneo, j que dificilmente haveria poca bastante prspera ou bastante adequada para nos impelir at aqui sem o dnamo da f, encontrou o seu intrprete e o seu foco de irradia-o no Presidente Juscelino Kubitschek."

    O Congresso, que ali estava, dera-me, de fato, tudo, para que eu pudesse realizar, na data marcada, a transferncia da sede do governo. No regateara os recursos financeiros que eu havia solicitado, nem fizera obstru-o s leis de que eu necessitara para a cobertura jurdica da transferncia. Mesmo em face do inconformismo de alguns setores da Oposio, velara a indispensvel habilidade para contornar intransigncias e para dissipar resis-tncias pessoais, de forma a abrir a passagem legal de que eu tinha necessi-dade para tornar realidade o sonho dos Inconfidentes.

    A lista das solenidades do dia era enorme, e elas se sucediam quase sem intervalo. Deixando o edifcio do Congresso, compareci, mi-nutos depois, ao Palcio da Justia, a fim de instalar o Judicirio, com-pletando assim, na praa do mesmo nome, a inaugurao dos Trs Po-

  • Por que constru Braslia 383

    deres. Repetiram-se ali as manifestaes de carinho e entusiasmo, em-bora externadas com o esprito de reserva que caracterstica da nossa mais alta corte de Justia. Falaram, na ocasio, o presidente do Tribunal, Ministro Barros Barreto, o procurador-geral da Repblica, Carlos Medeiros Silva, e, tambm, o Ministro Nelson Hungria.

    A uma hora da tarde, encerrei o programa das solenidades daquela histrica manh, inaugurando o marco que assinalava o nas-cimento de Braslia como capital da Repblica. Tratava-se de um blo-co de concreto, vestido de mrmore, tendo em seu interior um mo-delo da cidade, assim como um repositrio de opinies, emitidas pelas mais diversas personalidades, sobre Braslia. Ao monumento se incorporou, por iniciativa da generosidade de meus amigos, uma escultura, em granito, da minha cabea e, ao lado, foi gravada uma inscrio. Discursou na ocasio o poeta Guilherme de Almeida. F-lo, porm, em versos, lendo a sua Prece Natalcia a Braslia, composta especialmente para o ato.

    Enquanto o poeta lia o seu poema, o povo, rompendo os cor-des de isolamento, tumultuava a festa. O entusiasmo popular era, de fato, incontrolvel. No automvel, de volta ao Alvorada, eu ainda tinha no esprito o eco da evocao do poeta:

    "O Centro da Cruz Tempo-Espao, plantada no teu Quadriltero, com suas quatro hastes que so quatro sculos

    Toque de alvorada.

    Meta das metas: - Vive por ns." O vasto programa parecia no ter fim. No meio das soleni-

    dades, porm, o que me encantava e comovia, fazendo com que fizesse parar o carro para as observar melhor, eram as manifestaes de rua. Muitas geraes haviam-se sucedido no Brasil, e a nova capital nunca tinha deixado de ser um sonho ou uma vaga promessa. De repente, o velho e insatisfeito anseio nacional fora convertido em realidade. Todos quiseram ver, pois, o milagre. E ali estavam, atulhando as ruas, invadindo os edifcios, deslumbrados com a nova metrpole.

  • 384 Juscelino Kubitschek

    O tempo, porm, urgia. Teria de voltar ao Alvorada, para al-moar e preparar-me para a programao da tarde, que seria, igualmen-te, compacta e exaustiva. Enquanto o povo cantava e danava na Praa dos Trs Poderes, retornei ao convvio da famlia, certo de que, no con-tato com os meus, obteria o relaxamento dos nervos de que tanto estava necessitado.

    EMOES... EMOES.. . EMOES.. .

    O descanso, porm, foi rpido. Mal almocei, e teria de sair de novo. s duas e meia da tarde, j me encontrava no Eixo Rodovirio, a assistir parada militar e ao desfile dos candangos. Uma revoada de pombos marcou o incio da parada sob o comando do General Lus Guedes. Surgiu a Bandeira Nacional, e o povo a ovacionou. Avies da Fora Area a Esquadrilha da Fumaa realizaram um show no cu, praticando evolues audaciosas e voos rasantes.

    O espetculo era, realmente, deslumbrante. Rudos, cores, multido em delrio. Mil sons e mil vozes se misturavam, dando impres-sionante realce solenidade. E, sobre aquele formigueiro humano que se agitava - aplaudindo e desfraldando lenos brancos - , uma tarde lu-minosa, como s pode ser vista em Braslia.

    Uma semana antes do dia 21 de abril, um grupo de cem fuzi-leiros navais e vinte marinheiros decidira antecipar as festas da inaugura-o, realizando um reide pedestre do Rio a Braslia. A marcha se prolon-gara por diversos dias, durante a qual eles dormiam na estrada, comiam sanduches que levavam nas mochilas e venciam enormes distncias, to-cando violo e cantando. A prova fora dura, levando-se em conta, prin-cipalmente, que os integrantes do grupo eram homens do mar e, portan-to, no afeitos, como seus colegas do Exrcito, s longas marchas fora-das.

    Poderiam ter ido em um avio-transporte, em caminhes ou de trem. Mas, se o fizessem, no dariam tanto realce participao da Marinha na inaugurao de Braslia. Esse reide a p teve uma expresso de integrao do homem com a terra e viveu, de certo modo, as faa-nhas dos bandeirantes que desbravaram o longnquo e misterioso Oeste.

  • Por que constru Braslia 385

    Quando me encontrava no Eixo Rodovirio, pude ver, de perto, aqueles intrpidos marinheiros. Integravam o contingente das Foras Armadas, que desfilava diante do palanque. A parada militar pro-longara-se por mais de uma hora e fora levada a efeito por cerca de cin-co mil homens, representando o Exrcito, a Marinha e a Aeronutica.

    Enquanto os soldados desfilavam em frente ao Eixo Rodo-virio, a Esquadrilha da Fumaa, com suas acrobacias areas, emociona-va a enorme assistncia. Um dos seus avies fez sustar a respirao dos espectadores. Surgindo das nuvens, desceu verticalmente, em audacioso pique, desapacendo por trs do Palcio do Supremo. A multido, angus-tiada, j o supunha espatifado no solo, quando de novo se elevou, na vertical, provocando suspiros de alvio e exclamaes de entusiasmo.

    A tarde, a cada momento, tornava-se mais majestosa. Nuvens coloridas deslizavam no cu, impelidas por uma suave brisa que soprava dos sem-fins do Planalto. Pouco depois, um arco-ris, de vivas cores, surgiu, cortando a abbada de ponta a ponta. Pedi ao locutor de uma estao de rdio, que se encontrava ao meu lado, que chamasse a aten-o do povo para o Arco da Aliana, como que a simbolizar a associa-o dos elementos naturais ao magnfico espetculo, no augrio de um futuro feliz para Braslia.

    Em seguida, a esquadrilha area desenhou, com fumaa, o Plano Piloto da cidade no cu. Sentia-se a vibrao do ambiente. Respira-va-se entusiasmo e esperana. De vez em quando, interrompia-se o desfile para um ato junto ao palanque oficial. A coluna de fuzileiros navais, que fi-zera a p o reide Rio-Braslia, entregou-me um diploma de homenagem da Marinha. O mesmo fizeram, pouco depois, os representantes do Exrcito e da Aeronutica, os componentes da unidade de pra-quedistas apresentan-do-se em uniformes coloridos, adequados s exigncias de camuflagem.

    O show, comemorativo da inaugurao, ainda no terminara. Findo o desfile militar, iniciar-se-ia um espetculo indito e edificante: a Parada dos Candangos. Mais de cinco quilmetros de caminhes, esca-vadeiras, guindastes, tratores, jipes e at bicicletas, ao longo do Eixo Monumental. Eram os heris annimos da construo de Braslia que ali se encontravam, esperando sua vez de homenagear o Presidente da Repblica.

  • 386 Juscelino Kubitschek

    A um sinal meu, teve incio a parada. No primeiro carro, en-contravam-se os dirigentes da Novacap, com Israel Pinheiro frente, la-deado por Oscar Niemeyer e Lcio Costa, os dois gnios criadores da cidade; a seguir, os estudantes uniformizados; depois, centenas de cami-nhes, carregados de candangos, que empunhavam suas ferramentas de trabalho como autnticas armas. Por fim, desfilava toda a maquinaria empregada em terraplenagem, escavao, moo e construo.

    Foi este um dos momentos de maior vibrao da tarde glorio-sa. O povo, em delrio, aclamava os pioneiros, aqueles bandeirantes do sculo XX que, ignorando o conforto, deixando seus lares e inspirados por uma mstica de grandeza, haviam construdo, em trs anos e meio, aquela esplndida cidade. Ali estavam eles diante de mim sorridentes, na sua indumentria de trabalho, orgulhosos de us-la.

    Terminado o desfile, o povo acorreu ao palanque, cercan-do-me, e eu mal pude retirar-me. Dali, em carro aberto, em p, ao lado de amigos mais ntimos, percorri as principais ruas da cidade e tomei o caminho do Palcio da Alvorada. s dezoito horas, chegou ao Eixo Ro-dovirio o atleta Mrcio Ferreira Cavalcanti, empunhando o facho do Fogo Simblico da Unidade Nacional. O facho acendera-se ao encontro do petrleo de Lobato com a lmpada votiva da igreja da Graa, o mais antigo templo brasileiro, situado na praia da Barra. Era uma tocante ho-menagem da cidade de Salvador, a primeira capital do Brasil, sua irm caula, nascida no Planalto.

    Assim que a noite desceu, comeou uma queima de'fogos de artifcio na plataforma do Eixo Rodovirio. Hora e meia de espetculo ininterrupto que, segundo os tcnicos que o dirigiam, foi o mais sober-bo show pirotcnico j apresentado no Brasil. A beleza do cu iluminado, a variedade dos fogos e a surpresa das alegorias de chamas, que se des-faziam em lgrimas incandescentes, contagiaram o povo, e teve incio, ali mesmo, uma grande festa popular.

    Sobre o Eixo Monumental improvisou-se um baile, e a multi-do, comandada pelos acordes da Banda do Corpo de Fuzileiros Navais, passou a cantar e a danar, enquanto eu e Sarah, do outro lado da cida-de, abramos os sales do Palcio do Planalto para uma recepo de gala, oferecida a mais de trs mil convidados.

  • Por que constru Braslia 387

    Vivi, naquele 21 de abril de 1960, as maiores emoes de mi-nha vida. O caminho, longamente trilhado a servio do meu pas, atingi-ra uma eminncia que me permitia ter uma viso de conjunto do que at ento conseguira realizar. Parei para respirar, pois a jornada fora spera e incruenta. Afinal, naqueles ltimos trs anos, eu vivera, sonhara, co-mera e dormira em funo de uma data: 21 de abril de 1960.

    A construo de Braslia teria sido suficiente para exaurir qualquer administrador. No entanto, o que aconteceu comigo foi jus-tamente o contrrio. Deu-me nimo para prosseguir na jornada. No dia da instalao do Poder Legislativo, quando saa do edifcio do Congresso, um locutor de rdio perguntou-me o que pretendia fazer daquele dia em diante. A resposta que dei foi franca e imediata: "Pros-seguir tudo ao mesmo ritmo." Isto queria dizer que a obra, realizada no Planalto, no estava encerrada. J outra data fixara-se-me na mente: 12 de setembro de 1960. Nesta data, estariam concludas as obras su-plementares de Braslia.

    Durante as solenidades da inaugurao de Braslia, todos se surpreenderam com o fato de que eu estava em toda a parte. E nunca cheguei atrasado a qualquer compromisso oficial. No desdobramento do programa de festividades, resisti aos muitos motivos e ocasies para me descontrolar emocionalmente. Contudo, as lgrimas s me vence-ram mesmo durante a missa campal na Praa dos Trs Poderes.

    Em diversas oportunidades, senti a garganta seca e os olhos midos, mas se um amigo mais ntimo me fazia uma observao, des-culpava-me: " a poeira." Naquele dia, vivi, realmente, quase em xta-se. Eram tantas as demonstraes de carinho que s por bondade de Deus para comigo pude fazer face ao impacto de tanta magnitude. Devo recordar, aqui, uma frase - uma frase de ternura maternal - que, s ela, seria suficiente para derrubar um gigante. O fato foi-me revela-do por Sarah.

    Em um intervalo das festividades, Sarah foi encontrar minha me, debruada em uma das janelas do Alvorada, contemplando Braslia em silncio. Olhava o perfil majestoso da cidade a linha dos arra-nha-cus, o faiscar das paredes de vidro, as imensas avenidas, os enge-nhosos trevos rodovirios, o lago que se abria como uma esmeralda li-

  • 388 juscelino Kubitschek

    quida. E, por fim, virando-se para Sarah, que se encontrava ao seu lado, comentou: "S o Nono mesmo seria capaz de fazer tudo isto."

    A ALEGORIA DAS TRS CAPITAIS

    A recepo no Palcio do Planalto encerrou as festividades do dia. Foram horas de expanso e alegria, vividas por todos, mas a festa, apesar do ambiente de euforia, no fugiu ao padro clssico das recepes oficiais. Trs mil pessoas ali se encontravam, vindas de todo o Brasil e de vrios pases do mundo. Em meio ao baile, o governador da Bahia, Juraci Magalhes, fez-me a entrega de uma gravata, pagamento da aposta que perdera de que a capital do Brasil no se mudaria na data marcada.

    Enquanto casacas e vestidos de baile eram vistos nos sales do Planalto, prosseguia, animada, a festa do povo no Eixo Rodovirio. s 2 horas da manh, quando retornei ao Alvorada, pude ver a enorme multido que, apesar do frio, danava e cantava na gigantesca platafor-ma de concreto armado. No trajeto contemplei o espetculo, nico na nossa histria: o povo se divertindo em praa pblica, festejando uma iniciativa do governo.

    Ao deixar o Palcio do Planalto, no pude deixar de olhar, com um misto de satisfao e patriotismo, a Praa dos Trs Poderes. A iluminao recortava o vulto dos edifcios no fundo do cu de cobalto. Ali estava o Palcio do Congresso. No dia seguinte, o plenrio estaria em funcionamento outra vez, e os antimudancistas radicais deveriam compacer sesso forosamente decepcionados.

    Em um lado da praa, erguia-se o edifcio, que o Museu de Braslia. Suas paredes, cobertas de mrmore branco, cintilavam, refletindo as luzes que inundavam a cidade. Nas suas duas faces, es-tavam gravadas frases minhas e, entrada, a minha cabea, esculpida em granito. O museu destinava-se a guardar todos os documentos referentes epopeia de Braslia. Tudo quanto se escrevera a favor ou contra a nova capital j ali estava depositado, aguardando o julga-mento frio da Histria.

    Naquele momento, as paixes ainda estavam em efervescn-cia. No entanto, eu tinha a conscincia de que havia cumprido o meu

  • Porque constru'Braslia 389

    dever, e isso me bastava. Minha atitude s poderia ser esta: aguardar, com tranquilidade, o que me reservasse o futuro. No dia em que os es-pritos se desarmassem, em que se depositasse a cinza das inteis rivali-dades, em que a cordura retornasse ao corao dos homens, a justia, que me era negada ento por alguns, ser-me-ia feita, e de maneira defini-tiva. Bastaria que respeitassem Braslia para que eu me considerasse co-nhecido aos meus contemporneos, acima de paixes e dissenses, de litgios e incompreenses. Como Pedro II, eu aguardaria tambm a "jus-tia de Deus na voz da Histria".

    As comemoraes da mudana da sede do governo prolonga-ram-se por mais dois dias ainda, com a realizao de numerosas e varia-das festividades. No dia 22, teve lugar a Festa da Criana; instalaram-se o Tribunal Superior Eleitoral e o Tribunal Federal de Recursos; inaugu-rou-se o Centro de Recuperao Joseph Trueta, construdo por Sarah, um dos mais modernos do mundo; o Cinema Braslia deu o seu primei-ro espetculo; e fez-se ouvir um concerto sinfnico-coral, sob a regncia do maestro Eleazar de Carvalho.

    No dia seguinte, 23, disputou-se o Grande Prmio Juscelino Kubitschek, no primeiro circuito automobilstico de Braslia e, noite, teve lugar o Festival de Braslia, organizado pelo acadmico e romancis-ta Josu Montello, com a superviso de Chianca de Garcia e msicas de Villa-Lobos e Heckel Tavares.

    Oito holofotes em cores iluminavam o Palcio do Congresso. Ali iria realizar-se o espetacular show, com que seriam encerradas as co-memoraes da inaugurao. Impossvel encontrar, para espetculo de tal forma gigantesco, palco mais vasto e mais adequado que a imensa plataforma do Palcio do Congresso e sua vasta escadaria, dando para a Praa dos Trs Poderes. No alto da plataforma, tinham sido colocadas armaes de madeira, com degraus, tendo ao centro uma porta monu-mental, que dava passagens aos elementos do show. Jatos de luz colorida - verde, azul, vermelha, amarela eram lanados sobre o conjunto.

    Ao p da escada, eu me encontrava, cercado pela famlia, pe-los meus ministros e pelos convidados especiais do governo. Toda a rampa, em uma extenso de centenas de metros, estava literalmente cheia de gente, assim como as avenidas laterais, cujo trfego fora inter-rompido durante o espetculo. De 150 a 200 mil pessoas aplaudiram ca-

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    lorosamente o mais numeroso elenco artstico j reunido no Brasil; ao todo 1.500 figurantes, includos entre estes os Drages da Independn-cia e elementos de outras unidades.

    A alegoria das trs Capitais, seguindo o roteiro de Josu Mon-tello, comeou com a evocao da fundao da cidade de Salvador, onde se instalou a primeira sede do governo-geral do Brasil. Depois, foi apresentado o episdio da transferncia da capital para o Rio de Janeiro. E apareceu, em seguida, o primeiro mrtir da Independncia, Tiraden-tes, executado pela justia real por ter sonhado com um Brasil livre.

    Este foi um dos momentos de maior vibrao emotiva do show. O intrprete escolhido para o papel do herico alferes era uma figu-ra impressionante, de dois metros de altura, que se agigantava no palco, quer pela prpria estatura, quer pela dignidade do personagem. Veio, por fim, a fundao de Braslia. Cada um desses episdios era contrastado pela oposio de um velho que simbolizava a rotina, em rasgos de pessi-mismo e maledicncia. Era o "vilo" da pea, cortado sob o modelo da-quele velho do Rasteio que, no poema de Cames, se ope partida de Vasco da Gama, e semelhante em tudo a muitos deputados e senadores contra os quais tive de lutar, para fazer a transferncia da capital.

    Mas, quando, por fim, ele manifestava sua averso ideia da fundao de Braslia, apareceu no cu um helicptero, que logo pousou em pleno palco. De seu bojo desceu um homem animado de um novo esprito, em uma evidente aluso aos acontecimentos polticos da poca, e, enquanto a multido aplaudia freneticamente, o velho pessimista foi metido no helicptero, que o levou para bem longe daquele cenrio apotetico.

    Outro grande momento, pelo achado cnico de Chianca de Garcia, foi a passagem de um personagem, que se representava entre duas filas de moas que agitavam enormes lenos verdes. Enquanto ele ia su-bindo a escada, aqueles lenos se abatiam, um a um. A assistncia logo exclamou: " a Belm-Braslia!" " a marcha atravs da floresta!"

    O Hino Nacional foi ouvido ento, e uma cascata de fogos de artifcio encerrou, de maneira emocionante, o mais belo espetculo ao ar livre que j se realizara no Brasil.

    As festividades terminaram. A cidade, surgida do nada, ali es-tava em todo esplendor da sua beleza contundente.

  • Por que constru Braslia 391

    Na noite de 21 de abril, porta do Palcio da Alvorada, um governador - Juraci Magalhes - e um poeta - Augusto Frederico Schmidt - contemplavam, absortos e em silncio, o perfil da cidade es-plendente de luzes que se desenhava ao longe, compondo um horizonte artificial para a planura que se confundia com o cu. De sbito, o gover-nador falou: "Sozinho! Ele fez tudo sozinho!"

    Os dois se entreolharam, e nada mais disseram. Assim era Braslia, por ocasio da sua inaugurao. Um spe-

    ro caminho fora percorrido desde aquele distante 2 de outubro de 1956 - data em que pisei o Planalto Central pela primeira vez. Trs anos e cinco meses entre a primeira visita ao local e a inaugurao da cidade! Para uns, o perodo exguo em excesso. Mas em termos do "ritmo de Braslia", esse espao de tempo pareceu-me uma eternidade.

    Relembro, hoje, com redobrada emoo, os dizeres da frase que escrevi em um Uvro de Ouro, improvisado, por ocasio da minha pri-meira visita ao local, onde seria Braslia: "Deste Planalto Central, desta solido que, em breve, se transformar no crebro das altas decises na-cionais, lano os olhos, mais uma vez, sobre o amanh do meu pas e antevejo esta alvorada com f inquebrantvel e uma confiana sem limi-tes no seu grande destino."

    ...E a verdade que o verbo se fizera realidade!

    A REBELIO DOS 19 SENADORES

    Braslia estava inaugurada. Abria-se uma nova fase na vida do Brasil. Em meados de 1960, todas as metas, anunciadas antes de minha posse, estavam concludas ou em vias de concluso. E, simultaneamen-te, consolidara-se o nosso regime democrtico.

    Em face da nova realidade nacional, compreenderam os ude-nistas que se fazia necessria uma reformulao da sua atitude poltica. No adiantaria negar o bvio. Tornara-se contraproducente alegar que no existia o que todos, com entusiasmo, proclamavam.

    Contudo, se Braslia, por um lado, muito me fortalecera pe-rante a opinio pblica, dera origem, por outro, a uma desconfiana, nos crculos oposicionistas, de que pretendesse me aproveitar da cir-

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    cunstncia para golpear a Constituio. Temiam que pudesse alimentar secretos propsitos de eleio e que me valeria da euforia, provocada pela mudana da sede do governo, para forar a aprovao de uma reforma constitucional, tendo em vista objetivos continustas.

    A inaugurao de uma cidade - aliada simultaneamente transferncia da sede do governo - oferece campo para que nem tudo corra como fora programado. Em Braslia, tinham de ocorrer, inevita-velmente, desentrosamentos de providncias administrativas, principal-mente no que dizia respeito a acomodaes para as autoridades e os parlamentares. Para se ter uma ideia da complexidade dos problemas pes-soais que tiveram de ser resolvidos, basta citar o caso da mudana do Congresso, com seus arquivos, seus numerosos funcionrios e a instala-o condigna dos parlamentares nos apartamentos recm-construdos. A comisso, que superintendeu a mudana, realizou um trabalho consi-derado impossvel por muitos: em um s dia, alojou 240 deputados, atendendo s reclamaes de numerosos deles que, esquecidos do atro-pelo da hora, faziam exigncias difceis. Um desejava morar no mesmo edifcio em que residia o lder da sua bancada; outro inquietava-se por-que, havendo sido instalado na Quadra 115, ficara longe dos seus cole-gas de bancada, que estavam residindo na Quadra 116. Existiam, tam-bm, as reclamaes das senhoras dos congressistas: proximidade dos supermercados; vista para o Eixo Monumental; um quarto a mais para os hspedes ocasionais.

    A comisso desdobrara-se, esforando-se por atender a todos. Entretanto, em face da grandiosidade das festas oficiais e da natural balbr-dia de uma situao de emergncia, muitos casos no puderam ser resolvidos a contento. A Oposio aproveitou-se da situao, ento, para proclamar que Braslia no oferecia "condies mnimas de habitabilidade". Esqueciam-se de que o prprio Palcio da Alvorada estava superlotado e que dormitrios, feio de internatos de colgios, haviam sido improvisados no Salo da Guarda e em uma das dependncias do segundo andar. Contudo, muitos deputados, conquanto descontentes com a Comisso de Transferncia, no deixaram de reconhecer que todos se encontravam em face de uma situa-o de emergncia e que tudo seria normalizado assim que terminassem as festividades. Nessas condies, no iriam transformar um caso de descon-forto pessoal momentneo em uma questo poltica.

  • Porque construi'Braslia 395

    E no somente nos crculos da Cmara dos Deputados a ma-nobra de desmoralizao de Braslia foi tentada. No Senado ocorreu, igualmente, um movimento de arregimentao de descontentes, que no deixou de ser curioso. Esse movimento foi denominado a Revolta dos 19.

    Entre os atropelos da mudana, dezenove senadores, que ha-viam seguido para Braslia, acharam tudo pssimo ali e decidiram voltar para o Rio. At a, no h nada de mais. O importante, segundo velaram alguns jornais, era que aqueles senadores estavam dispostos a "abrir simbolicamente o Senado no Rio, at que Braslia garantisse o funciona-mento real do Congresso". Daquela "rebeldia dos senadores" - pontifi-cava a imprensa oposiocionista - surgia a ameaa de uma "dualidade do Poder Legislativo".

    Entretanto, a ao dos oposicionistas no se limitaria a amea-ar o regime e a mobilizar os descontentes para a constituio de uma CPI contra a Novacap. Aps longas confabulaes, conformaram-se em instalar a UDN na nova capital, em uma atitude de advertncia ao go-verno de que a guerra, travada no Palcio Tiradentes, no Rio, iria repe-tir-se no Planalto.

    Entretanto, ficara evidente, desde logo, que os radicais j no dispunham do antigo prestgio de que haviam gozado no incio do go-verno. A reunio do diretrio nacional da UDN resultara, sensacional-mente, em uma categrica manifestao de apoio mudana da capital. "Onde est o Governo, a deve estar a Oposio" - declarara Magalhes Pinto, presidente da agremiao. O Governador Juraci Magalhes criti-cara, em tom severo, a atitude dos dezenove senadores oposicionistas que insistiam em hostilizar a nova capital. E, por fim, o lder mudancis-ta, Emival Caiado, recebera um voto de louvor.

    A posio da UDN era, na realidade, difcil. Os realistas, como Magalhes Pinto, Juraci Magalhes, Antnio Carlos Magalhes, Euvaldo Diniz e outros, aceitaram a realidade, e a ela se ajustaram. Os radicais, porm, ainda insistiram em manter acesa a chama, que j no resplandecia, mas apenas bruxuleava.

    Carlos Lacerda, apesar de sua grande vivncia poltica, no captara o significado da nova capital como fator de aglutinao do senti-mento de orgulho das populaes que, por ela, seriam beneficiadas. Conservou-se alheio ao que ocorria no Planalto. Permaneceu no Rio.

  • A. meta da legalidade

    * ^^m*m mudana de cenrio prejudicara, de fato, a UDN. Quando Adauto Lcio Cardoso discursou na Cmara, exigindo o cum-primento da promessa, feita pela maioria, de que daria nmero para a constituio da CPI - logo aps a inaugurao de Braslia - contra a Novacap, sentiu que sua eloquncia se perdera no vazio. Onde o tumul-to das memorveis sesses no Palcio Tiradentes? Onde as "crises na-cionais", provocadas pela Oposio, quando a imprensa, contrria ao governo, fazia coro com a Banda de Msica udenista? A tranquilidade da atmosfera do Planalto no era propcia aos arroubos tribuncios. Opo-sio e situacionismo viviam em estreita convivncia, morando nos mesmos edifcios e se visitando com frequncia. Os assuntos polticos nem sempre eram resolvidos no plenrio, atravs de embates de orat-ria, mas em "conversas ao p do ouvido", no interior dos apartamentos.

    Mas havia um fato que no deixava de preocupar os udenistas: o ambiente favorvel ao governo que prevalecia na capital. Minha popu-laridade constitua um espinho encravado na garganta de muitos deles. Surgiu, ento, a questo do continusmo. Todos sabiam que se tratava de uma imputao falsa. Contudo, os radicais a ela se aferraram como nufragos numa tbua encontrada sobre a gua. Como o General Lott no havia comparecido s festas da inaugurao, denunciaram sua ausncia como um sintoma de que eu j alijara o candidato do situacionismo, a

  • 396 Juscelino Kubitschek

    fim de obrig-lo a tirar sua candidatura. Veicularam, pouco depois, que Lott no comparecera porque estava agastado comigo, por no haver recebido um convite especial, como o que fora endereado a Jnio Qua-dros. Tratava-se de outra balela, maquinada com o deliberado propsito de suscetibilizar certas reas militares.

    Nenhum convite especial fora expedido para as festividades da inaugurao. Houve convites, sim, para a recepo, que teria lugar nos sales do Palcio do Planalto, e estes foram enviados, indistinta-mente, a todos os integrantes do mundo poltico, pois a reunio no era privada, mas uma cerimnia oficial. Lott, de fato, no estivera em Bras-lia, mas teve a gentileza de se desculpar pela ausncia, atravs de cari-nhosa mensagem pessoal a mim endereada.

    Desfeita a crise da candidatura Lott, voltaram-se os radicais para a Constituio, exigindo sua vigncia integral. Se havia quem no dispusesse de qualquer autoridade moral para exigir respeito Carta Magna, estes seriam justamente os eternos golpistas, que nunca se con-formaram com as solues legais que lhes fossem desfavorveis e que, para reprimi-los, o pas tivera de passar pela deposio de dois presiden-tes da Repblica.

    Pouco antes da transferncia do governo para Braslia, eu de-sestimulara, como era do conhecimento de todos, diversas tentativas de continusmo, promovidas por congressistas que me apoiavam, quer elas se apresentassem sob a frmula de um mandato-tampo, quer da pror-rogao pura e simples do mandato e, mesmo, quer sob a instituio de um regime especial, tendo como finalidade a concluso de todas as obras de que, naquele momento, o Brasil necessitava.

    Em face de todas as sugestes, meu comportamento fora inva-rivel: absoluta fidelidade ao regime democrtico, com plenas garantias para todos. O sistema poltico que compreendia, e que se afeioava minha formao, era aquele preconizado por Lincoln, na sua famosa defini-o: "um governo eleito pelo povo, funcionando como delegado do povo e em benefcio do mesmo povo". Entretanto, a despeito da minha, nunca discutida, formao democrtica, os radicais, sentindo o terno lhes fugir sob os ps, insistiam, cada vez com maior veemncia, na tecla do continusmo. A transferncia do governo, segundo eles, no passara de uma armadilha, cuja finalidade era o amortecimento da opinio pblica,

  • Por que constru Braslia 397

    de forma a facilitar um golpe continusta. Em face da insistncia, fiz di-vulgar, por intermdio do ministro da Justia, Armando Falco, uma nota oficial que atirou a ltima p de cal nos arrepios legalistas dos tradi-cionais conspiradores.

    "Quase todos os que atualmente acusam o Presidente da Re-pblica de golpista" dizia a nota "em 1955 pregaram o estado de emer-gncia, a Revoluo e o golpe, antes e aps as eleies. Pretenderam, quela poca, no somente subtrair ao ento governador de Minas Gerais o direito de candidatar-se, como tambm, depois de eleito, conspiravam contra o regime e tentaram impedir-lhe a posse. Em duas palavras: a maior parte dos legalistas de hoje constituda pelos golpistas de ontem, que mudam de atitude segundo suas convenincias em cada momento. O que no mu-dou, e nem mudar, a posio do Sr. Juscelino Kubitschek, que agora, como no passado, defende a pureza dos ideais democrticos."

    E desmascarando os falsos legalistas, vinha a profisso de f democrtica: "A grande verdade vem a ser que o Presidente radical-mente contrrio a qualquer alterao da Constituio objetivando subs-tituir por outras as atuais normas da disputa nas urnas. Ningum tem o consentimento e muito menos a autoridade do presidente para, envol-vendo o nome de Sua Excelncia, sugerir, articular, ou combinar medi-das que visem a modificar os dispositivos constitucionais e legais que re-gem o processo eleitoral. Na sua campanha de candidato, quando eram evidentes, ostensivas e ditas as ameaas aos princpios democrticos, o presidente j pregava, desde esse tempo e sem nenhuma hesitao, o ri-goroso respeito Constituio e Lei. No governo, cumpriu todas as metas prometidas. Por que faltaria meta democrtica, a qual sempre considerou e considera fundamental? O Presidente da Repblica no aceita e no aceitar outra soluo que no seja simplesmente esta: no dia 31 de janeiro de 1961, transmitir o cargo ao seu sucessor, livre-mente escolhido pelo voto da maioria do povo."

    A questo fora posta em seus devidos termos. Contudo, en-quanto a Oposio deblaterava, tentando acender a mecha da subverso que, desde 1955, fora a caracterstica de seu comportamento poltico, eu me voltava, outra vez, para os grandes problemas nacionais, procurando resolv-los com a rapidez exigida pela exiguidade do tempo de governo que me restava.

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    Conforme havia dito na minha nota de 29 de abril, vivamos, na poca, um perodo de transio. Braslia fora o marco que assinalara a fronteira que separava dois pases distintos. Em face dessa nova fron-teira, que impunha diferentes mtodos de ao, teria de me desdobrar, j que, alm da complementao das trinta e uma metas administrativas, um novo e importante setor se abrira, exigindo minha permanente aten-o: os problemas relacionados com a consolidao de Braslia, como Capital do pas.

    O Legislativo estava em pleno funcionamento e o mesmo aconte-cia em relao ao Judicirio. Entretanto, os representantes de ambos esses Poderes ainda estavam sujeitos a certo desconforto, dada a escassez de resi-dncias. Atravs de entendimentos que realizei com o presidente do Supre-mo Tribunal e com as mesas diretoras das duas Casas do Congresso, resol-veu-se que os que no dispunham de casas ficariam hospedados no Braslia Palace Hotel, enquanto seus apartamentos no estivessem prontos.

    O Executivo era vtima, igualmente, de restries. Nem todos os funcionrios da Presidncia dispunham de apartamentos condignos. Compreendiam, porm, a situao e aceitavam, com bom humor, aquela espcie de vida de cigano - hoje aqui, amanh ali - tangidos pelos impre-vistos da cidade que se transformava.

    Se a crise habitacional j era sria para as autoridades e para a o funcionalismo, ela se tornara ainda mais grave nos meses que se segui-ram inaugurao, suscitado pela crescente e incontrolvel afluncia de forasteiros. Diariamente, chegavam novas levas de candidatos a cida-dos de Braslia. A Cidade Livre j no era um acampamento, um local de concentrao de trabalhadores, mas uma verdadeira cidade. O co-mrcio era intenso, oferecendo todas as facilidades de qualquer moder-na metrpole. Lojas, supermercados, boates, bilhares, restaurantes, hotis e penses, cabeleireiros para senhoras, manicuras, barbeiros, casas de ba-nho, armarinhos, garagens, oficinas mecnicas, pequenas indstrias, sapa-tarias, alfaiates - enfim, a infra-estrutura de qualquer aglomerao hu-mana fixa ali funcionavam, a maioria sem nunca cerrar as portas, e instalados em casas de madeira.

    Estava nos meus planos mandar demolir aquela excrescncia urbana assim que Braslia fosse inaugurada. No dia 21 de abril, porm, verifiquei a impossibilidade de levar a efeito esse intento. A Cidade Li-

  • Porque construi'Braslia 399

    vre j era uma fora autnoma. Vivia por si, como um subproduto da nova Capital. Alm do mais, eu tinha uma dvida de gratido para com aquela populao. Fora ela que, em primeiro lugar, atendera ao meu apelo de se promover, sem tardana, o povoamento do planalto deserto. Chegara, sem exigir condies. Erguera suas casas de madeira e abrira seus negcios. E, durante os trs anos de construo de Braslia, contri-bura de maneira decisiva para que nada faltasse aos candangos.

    E no era s a Cidade Livre que crescia e se expandia. Do ou-tro lado de Braslia, existia Taguatinga - uma cidade-satlite - , cujo de-senvolvimento era impressionante. Ruas eram abertas. Construam-se dezenas de casas ao mesmo tempo, no de madeira, mas de alvenaria. Instalavam-se agncias de bancos. Inauguravam-se escolas e grupos es-colares. Montavam-se ambulatrios. O comrcio era intensssimo e uma incipiente indstria se alastrava. Na poca da inaugurao de Braslia, Taguatinga j tinha uma populao de cerca de 15 mil almas. Havia, tambm, Sobradinho - outra cidade-satlite , cujo desenvolvimento era espantoso at para mim que, com frequncia, a visitava.

    Todos esses ncleos populacionais queriam permanente aten-o. Representavam os primeiros frutos da poltica de integrao nacio-nal que eu vinha realizando, tendo Braslia como base, ou foco de irradi-ao. E que dizer-se, ento, das centenas de localidades que iam surgin-do margem das grandes rodovias recm-construdas? A medida que o asfalto avanava, as povoaes surgiam do solo como cogumelos. E o fenmeno se repetia, mesmo onde no existia asfalto. A Belm-Braslia, ainda em construo, j era um viveiro de ncleos bandeirantes. Ao lon-go da Braslia-Belo Horizonte, as cidades mortas, como Paracatu, acor-davam do sono secular e abriam os braos ao progresso. Existiam, ain-da, os povoados que surgiam em funo exclusiva da estrada e que re-pontavam por toda parte, atraindo forasteiros, dando braos lavoura desde muito abandonada e criando novas riquezas.

    Isto, para referir-me apenas ao que ocorria na periferia na nova cidade ou ao longo de suas vias interestaduais de comunicao. Mas existiam, tambm, os problemas internos de Braslia. A cidade fora construda em tempo recorde e seria natural, pois, que se verificassem falhas, desajusta-mento, quer tcnicos, quer de construo. Nenhuma obra, por muito simples que o seja, sai da mo do seu criador num jato, e em perfeitas

  • 400 Juscelino Kubitschek

    condies. Que se dizer, ento, de uma cidade que j se inaugurou com uma populao de quase 100 mil habitantes, com todos seus servios em funcionamento, com mais de quatro mil apartamentos de luxo, mi-lhares de casas populares, rede escolar, sistema ultramoderno de comu-nicaes, gua, esgotos, eletricidade, hotis, clubes sociais, piscinas p-blicas, palcios e ministrios, sistema de transportes, estaes de rdio e televiso, cinemas, praas de esportes, avenidas e ruas asfaltadas, super-quadras ajardinadas, hospitais e ambulatrios, telefones urbanos e inte-rurbanos, enfim, toda a complicada e polimorfa estrutura de uma perfei-ta cidade?

    As falhas existiam, e depois do dia 21 de abril dediquei-me no s a corrigi-las, mas igualmente a realizar as obras complementares. Da a razo por que no se interrompeu, ou foi amortecido, o ritmo de trabalho em Braslia. Terminadas as festividades da inaugurao e cessa-do o afluxo de turistas, dobraram-se as atividades em todos os setores da Novacap. Concluam-se apartamentos da noite para o dia. Aperfeio-avam-se as instalaes de luz, gs e esgotos. Distribuam-se novos tele-fones. Pavimentavam-se ruas e avenidas, cuja terraplenagem havia sido concluda. Inauguravam-se escolas. Promovia-se a abertura de restau-rantes e de novos hotis.

    Modificava-se, aos poucos, a vida da nova capital. O antigo canteiro de obras, embora continuasse existindo, j permitia certa convi-vncia humana. As famlias buscavam umas s outras, formando peque-nas comunidades em cada superquadra. Recorria-se vida associativa, para enfrentar a solido do Planalto. Os scios do Rotary Club se uniam semanalmente. O Iate Clube comeava a construo de sua sede. E o Jquei Clube, polarizando a preferncia da populao, tivera suas aes esgotadas no mercado num incrvel perodo de tempo. E at nos crculos polticos o ambiente j era de compreenso e boa vontade. Dissipara-se a inicial irritao de alguns deputados e senadores, os quais passaram a trabalhar cada um no seu setor de atividade e, noite, reuniam-se para saraus tranquilos que se prolongavam at que chegasse o sono.

    Certa vez, depois do jantar, deixei o Alvorada com o Coronel Dilermando Silva e Manoel Frana Campos e samos para fiscalizar as obras. A noite era fria e chovia a cntaros. Estivemos no Eixo Rodovi-rio. Assistimos ao trabalho de assentamento dos alicerces de uma das

  • Por que constru Braslia 401

    pontes que ligariam a Asa Norte. Visitamos as turmas de asfaltamento que trabalhavam em diferentes pontos da cidade. Quando chegamos ao alto do Cruzeiro, deixei o carro e encaminhei-me para um alojamento de operrios, ali existente. Havia uma fogueira acesa sob um toldo e, em torno dela, viam-se dois operrios. Estavam curvados sob o peso de grossas lonas, que lhes serviam de abrigo. Ao aproximar-me, puxei con-versa, como fazia em todos os alojamentos: "Nada como um foguinho, para esta friagem do cerrado..."

    Os candangos voltaram-se e, quando me reconheceram, fize-ram meno de levantar. Obriguei-os a permanecer como estavam. To-mei um caixote e sentei-me, tambm, perto do fogo. Conversamos du-rante algum tempo sobre Braslia, j que ambos eram veteranos do des-bravamento do local. Um deles - muito falante lembrou fatos e inci-dentes da penosa jornada: o incio das obras, as dificuldades vencidas, os primeiros edifcios, a abertura das ruas e avenidas e, por fim, o es-plendor das festas da inaugurao.

    Houve um momento de silncio. Instintivamente, voltamos os olhos e contemplamos Braslia, que se estendia em torno de ns, fais-cante de luzes. O espetculo era deslumbrante. A noite escura, a chuva caindo, e a cidade faiscando nas trevas como um monumental brinque-do de vidro, iluminado por dentro. Pilheriei com o candango: "Ei, meu velho. Levei trs anos preparando esta noiva que, no fim, vai se casar com outro." O candango olhou-me fixamente e respondeu, com bom humor: "O senhor me desculpe, mas no penso do mesmo jeito. No foi toa que o senhor perdeu tanto tempo com ela." E, depois de sacudir a cabea, acrescentou: "Quem vai casar com ela o senhor mesmo, presi-dente." E dobrou numa gargalhada.

    A APROXIMAO DA FRONTEIRA OCIDENTAL

    Naquele momento, no era apenas Braslia que me preocupava. Habituara-me a contemplar o Brasil, sempre numa viso de conjunto. verdade que, era cada perodo, havia uma obra prioritria. Uma obra-alvo-urgente, que polarizava todos os meus esforos. Isso no queria dizer, entretanto, que deixasse num segundo plano as grandes rodovias,

  • 402 Juscelino Kubitschek

    as centrais eltricas, a assistncia populao do Nordeste, a indstria automobilstica, a explorao e o refino do petrleo, a complementao da recm-fundada indstria de construo naval, os problemas de Sade Pblica e as metas educacionais. Ao contrrio, nada era esquecido ou negligenciado. A administrao fazia-se, na realidade, atravs de um pro-cesso integrado.

    Assim que, enquanto se processava a consolidao de Bras-lia, lanava as vistas para outra obra, cujos objetivos eram da maior rele-vncia e se vinculavam posse, pelos'brasileiros, do seu imenso territ-rio. Tratava-se do que denominei de Aproximao da Fronteira Ociden-tal, isto , realizar em pleno sculo XX, rrias em outras condies e sob a inspirao de ideais verdadeiramente nacionais, o que os bandeirantes haviam levado a efeito nos meados do sculo XVII.

    A rota, a seguir, seria a mesma, mas os objetivos eram di-ferentes. Os desbravadores do Brasil-menino haviam andado cata do ouro e, nessa busca, recuaram a linha de Tordesilhas e traaram, com a ponta de suas botas, novas fronteiras para o pas. Os mapas foram mo-dificados. Alterou-se a extenso territorial brasileira. Entretanto, os tri-lhos, abertos pelos bandeirantes, desapareceram quando a floresta se fe-chou.

    Braslia fora criada justamente para servir de base a um largo programa de aglutinao nacional. Ela s, porm, no realizaria, isolada-mente, essa ideia. Da o plano do cruzeiro rodovirio. Trs braos desse cruzeiro estavam concludos, mas faltava um justamente o que ligaria a nova capital fronteira ocidental.

    No dia 5 de maro, falando pela televiso, eu tinha anunciado que, antes de terminar o meu governo, construiria a BR-29. Esta sigla cons-tava do Plano Nacional de Viao, significando a Braslia-Acre, mas dessa rodovia s um trecho havia sido construdo. Trs dias depois - 8 de maro de 1960 os assistentes do engenheiro Pires de S, diretor da Diviso de Construes do DNER, j realizavam os primeiros estudos para a constru-o da rodovia. No dia 10 menos de uma semana aps o meu discurso -o Coronel Lino Teixeira, subchefe da minha Casa Militar, e o prprio Pires de S chegaram a Porto Velho, a fim de estabelecer ali o quartel-general dos servios de engenharia, relacionados com a abertura da estrada.

  • Por que constru Braslia 403

    E teve incio, logo em seguida, a herica empresa - irm g-mea da epopeia que havia sido a construo da Belm-Braslia. No dia 4 de julho de 1960 - cinco meses aps o incio das obras - iria dar-se o encontro das duas turmas de trabalhadores, a que havia partido de Cuia-b e a que viera de Porto Velho, na localidade denominada Vilhena, onde uma gigantesca sapopema fora deixada de p, no leito da estrada, para que eu, utilizando um trator, a derrubasse.

    Esse ato iria assinalar a abertura definitiva da passagem para o longnquo Oeste. Seria a concluso do brao que faltava enorme cruz rodoviria. E constituiria, por fim, a concretizao, em termos de aud-cia realizadora, da aproximao da> fronteira ocidental.

    A Braslia-Acre constitua uma empresa de difcil explicao econmica. A maioria julgava-a mais uma aventura minha.

    Na verdade, eu atendia aos problemas imediatos, como era minha obrigao, j que era o chefe do governo, mas nunca deixei de, simultaneamente, sonhar com as estrelas. Todas as naes - como as criaturas humanas - tm um destino traado. Mas a grandeza no cons-titui uma ddiva da Providncia; uma combinao de visionarismo e audcia. No um bem que se herda, mas uma situao que, a duras pe-nas, se conquista.

    Em 1850, os Estados Unidos haviam varado as imensas pas-tagens do Oeste, em busca de uma ligao do Atlntico com o Pacfico. Ao abrir a BrasliaAcre, eu realizava idntica aventura, e o fazia apenas com um sculo de atraso. O objetivo imediato da rodovia era a integra-o da regio sudoeste da Amaznia.

    Da a dificuldade de explicar aos que no viam alm da proje-o do prprio nariz a significao daquela abertura para o Oeste. Bras-lia sofrera e vinha sofrendo as mais acerbas crticas. Ainda hoje, econo-mistas retrgrados discutem a "rentabilidade", ou no, de Braslia, como se, ao invs de se tratar da construo de uma capital, o que estivesse em pauta fosse a abertura de um armazm de secos e molhados.

    Em relao BrasliaAcre, ento os juzos eram ainda mais severos. Que interesse haveria em se construir uma rodovia de 3.335 quilmetros, dos quais cerca de 1.090 cobertos, em sua quase totalidade, por florestas virgens? Ningum atentava para a circunstncia s sentida pelos que por ela eram afetados de que as comunicaes entre o Acre

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    e Rondnia, dois riqussimos e futurosos territrios nacionais, e o centro industrial do pas eram realizados por via martima, contornando a costa, num percurso que envolvia a utilizao de navios, caminhes, barcaas e at lombo de burro, e cuja cobertura se prolongava por cerca de oito meses. Alm do mais, ali existiam mais de um milho e 200 mil quil-metros quadrados de solo brasileiro s habitados pelos indgenas e por animais ferozes. Rondnia, por exemplo, um dos territrios que seriam beneficiados pela rodovia, era to grande, to frtil como o Paran. No entanto, enquanto o Estado sulino disputava com So Paulo a liderana da cultura cafeeira, o territrio vegetava sombra da floresta virgem, e os nicos visitantes, que conhecia, eram os desbravadores que viviam em busca de aventura.

    Descontados esses aspectos, relacionados com o Plano de Integrao Nacional, que eu vinha executando, e que tinha Braslia como seu centro de irradiao, havia a considerar a circunstncia de que aquela estrada constituiria uma ponta de lana para a ligao - a ser rea-lizada numa segunda etapa do sistema rodovirio brasileiro - Rodovia Pan-Americana, o que a transformaria num instrumento de aproxima-o com as demais naes do continente.

    Construda a Braslia-Acre, e feito o prolongamento de 600 quilmetros at a Pan-Americana, os dois grandes oceanos estariam vin-culados e as correntes de comrcio, procedentes da Europa e do conti-nente africano, fluiriam atravs do hinterland brasileiro, semeando rique-za e civilizao.

    Tudo na construo da BrasliaAcre fora ajustado s exigncias de um ritmo de tempo recorde. Entre a deciso de realizar-se a obra e sua inaugurao, constatou-se uma espantosa sucesso de quebras de tabus. O que at ento era dado como impossvel, transformou-se em rotina, na abertura da grande rodovia. A Belm-Braslia havia constitudo uma prova, um campo de experincia, do que era capaz o esprito empreendedor do brasileiro. E os resultados, ali colhidos, foram aplicados, com absoluto ri-gor, na construo de sua irm gmea, rasgada em sentido latitudinal.

    Em janeiro, fora decidida a construo. Em maro, chegaram a Vilhena os tcnicos do DNER. E j no dia 4 de julho, eu iria presidir inaugurao do encontro das duas turmas, que haviam avanado em sentido contrrio, fazendo a juno das frentes de trabalho. Os 4 mil

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    operrios, trabalhando em 16 frentes de servio, instalados em 1.700 quilmetros de selva, realizaram verdadeiro recorde, j que as atividades de desmatamento e destocamento, iniciadas no dia 4 de maro, foram concludas no dia 29 de junho, ou seja, no perodo mnimo de trs me-ses e duas semanas. Para que esse xito fosse possvel, um enorme es-foro teve de ser realizado. Os 4 mil candangos, convocados para a em-presa, haviam sido levados de avio, de navio e por diversos tipos de transporte terrestre, quer de Braslia, quer do Nordeste, para a floresta, que se estendia da nova capital ao Acre. Ali, distribudos em turmas, de-ram incio gigantesca empresa, trabalhando atravs de pntanos, de im-penetrveis concentraes florestais, de rios caudalosos, e enfrentando perigos de toda natureza.

    Enquanto era processado o transporte dos trabalhadores, provi-denciava-se a remessa do indispensvel equipamento rodovirio tratores, motoscrapers, niveladores, carregadeiras Leaders, escavadeiras e caminhes , o que foi levado a efeito atravs de obstculos quase intransponveis. Os 4 mil candangos iniciais tinham o seu nmero acrescido medida que iam sendo abertas as picadas. E, enquanto a vanguarda avanava, postos de sa-de eram instalados, com turmas volantes encarregadas de zelar pelo bem-estar daqueles heris annimos. Ao sobrevoar o traado o que fazia com a maior frequncia, a fim de acelerar os servios - eu podia ver, quase sufocadas pela floresta, as cruzes vermelhas pintadas nas barracas, assina-lando os locais de funcionamento dos numerosos postos de sade.

    A abertura da estrada obedecia s normas de trabalho que ha-viam dado excelente resultado na construo da BelmBraslia. Enquanto nesta ltima os denominados "cossacos" constituam van-guarda, arrastando-se pelo cho com serrotes aos dentes, na Bras-liaAcre havia uma turma de batedores que liderava a penetrao, levan-do grandes tochas acesas, a fim de espantar as feras, e soltando fogos de artifcio, para amedrontar os indgenas.

    Influenciados por velhas histrias locais, os trabalhadores ti-nham medo dos nhambiquaras e dos pacas-novos, cuja ferocidade era apregoada por toda a regio. Entretanto, no eram ferozes, mas, ao con-trrio, mostraram-se sempre cordiais no seu intercmbio com os desbra-vadores. Muitos deles, vencidos pela fome, concordaram em integrar as turmas de servio trabalhando em troca de comida.

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    Os nhambiquaras viviam numa regio compreendida entre o rio Guapor, a oeste; o Tapajs, a leste; o Jiparan, ao norte; e o Papagaio, ao sul, e que formavam um tringulo de centenas de quilmetros qua-drados. Durante uma das visitas que fiz s frentes de trabalho, tive a oportunidade de conhec-los e de trocar algumas palavras com o caci-que, que conhecia rudimentos do portugus. Em outra ocasio, entrei em contato com os integrantes de outra tribo, que se encontrava em avanado estgio de subnutrio, quase prxima ao extermnio. Esses ndios, que viviam nas cabeceiras de 16 rios e sem qualquer contato com o mundo exterior, nunca haviam experimentado qualquer comida cozi-da e se alimentavam to-somente de razes. Quando se deu o encontro, os trabalhadores, impressionados com o aspecto selvagem que apresen-tavam, mantiveram-se cautelosos, temendo qualquer agresso. Mandei que lhes dessem comida, e eles se mostraram desconfiados, ignorando o que se encontrava nos pratos de folha. Quando provaram o alimento sorriram, demonstrando grande contentamento. Gostaram muito do fei-jo e da carne-seca, que repetiram com visvel sofreguido.

    Era um prazer ver-se aquela febre de trabalho em plena floresta. Eram vinte e quatro horas de atividade diria, nas piores condi-es possveis. Alm dos ndios que no eram ferozes, mas causavam medo, existiam os flagelos que atormentavam os trabalhadores. Em face das dificuldades locais, diversas batalhas eram travadas simultaneamen-te: contra a febre amarela, de um tipo silvestre, perigosssimo; e contra certos animais prprios da regio. Entre os animais locais que exigiam uma permanente vigilncia, encontravam-se os mosquitos, que surgiam em nuvens; as cobras surucucu (bico-de-jaca) e a salamantra - e o ma-caquinho gog-de-sola, que avanava sobre o pescoo dos operrios e cravava mortalmente seus dentes afiados.

    Todos esses empecilhos, naturais nas florestas virgens, reque-riam providncias e medidas preventivas. Nesse sentido, 10 campos de pouso haviam sido abertos ao longo do traado da rodovia e 30 avies tinham sido mobilizados para os servios de socorro. As turmas volan-tes percorriam as frentes de servio, distribuindo remdios e assistindo aos doentes. A vacinao em massa era uma exigncia a que ningum poderia escapar. At os ndios mansos - que frequentavam os acampa-mentos - eram vacinados, tomavam drogas preventivas.

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    Aqueles trs meses e meio foram de luta rdua, perigosa e traioeira. Mas os hericos candangos nunca revelaram qualquer desnimo. Ao contrrio, o que se constava era entusiasmo. Esprito de competio. O caboclo da bacia Amaznica sentia que, ao fazer aquele enorme sacrifcio, estava preparando dias melhores para os filhos. Seria a civilizao que iria penetrar na floresta, para sane-la, levando consigo o progresso, criando fontes de riqueza, proporcionando oportunidades de trabalho'para todos.

    A MORTE DA SAPOPEMA

    No dia marcado para o encontro das duas turmas 4 de julho de 1960 - segui, por via area, para Vilhena. Desembarquei ali ao cair da tarde, juntamente com Sarah, minhas filhas Mrcia e Maria Estela e di-versos convidados, entre outros, o Governador Ponce de Arruda, do Mato Grosso; o Dr. Israel Pinheiro, o Senador Filinto Muller, os Coro-nis Dilermando Silva e Jofre; o Engenheiro Rgis Bittencourt, diretor do DNER; o General Nelson de Melo, chefe do Gabinete Militar da Presidncia; o Governador Paulo Nunes Leal, do Acre; o Deputado Carlos Murilo; o Coronel Lino Teixeira, presidente da Fundao Brasil Central; e o topgrafo Benjamim Rondon, filho do Marechal Cndido Rondon, Joo Lus Sales, Cel. Afonso, Cel. Nlio, Dr. Moacir.

    Vilhena ainda no era uma cidade, nem mesmo uma simples vila. Tratava-se apenas do nome de uma estao telegrfica, construda nos ermos do Oeste brasileiro pelo Marechal Rondon. Estava situada bem na fronteira de Mato Grosso com o Territrio de Rondnia, montante das cabeceiras do rio das Comemoraes. O traado da estra-da passava pela localidade, e isso fez com que ela se transfigurasse. Antes que tal acontecesse, Vilhena era constituda de uma simples casa, a da estao telegrfica, construda em 1913 por Rondon. Em um raio de vrias dezenas de quilmetros, as matas eram habitadas por numero-sas tribos de ndios, pertencentes a dois troncos: o dos tupis e o dos nhambiquaras, ambos subdivididos em vrios outros grupos.

    A nova rodovia havia revolucionado a pacata estao de Vi-lhena. Trs meses antes, ali tinham chegado os tcnicos do DNER e, logo em seguida, os trabalhadores das empresas empreiteiras. Constru-

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    ram-se acampamentos. Surgiram construes improvisadas. Bares, res-taurantes e armarinhos foram sendo abertos. Vieram os mascates, com suas bugigangas, e um intenso comrcio se alastrou pela localidade. Em pouco tempo, a velha estao telegrfica de Rondon j no estava sozi-nha e perdida no corao da floresta. Transformara-se numa cidade, do tipo Ncleo Bandeirante, surgida na infncia de Braslia.

    A primeira providncia que tomei, relacionada com os traba-lhos da rodovia, foi a construo de um grande campo de aviao, de 1.400 metros, aberto em tempo recorde e tambm encascalhado e co-berto de asfalto em poucas semanas. Essa iniciativa fazia-se necessria, para que eu pudesse estar frente dos servios, com o objetivo de fisca-liz-los, alm de estimular, com a minha presena, aqueles milhares de trabalhadores. Dessa forma, uma das regies mais distantes, e at ento quase inacessvel, do pas, ficara em condies de ser visitada a qualquer hora e sob qualquer tempo, por avies de grande porte, inclusive pelo Viscount presidencial.

    A Braslia-Acre foi aberta, rasgando-se 1.050 quilmetros de flo-resta virgem, em apenas trs meses e meio. O que ali ocorreu foi um triunfo da tcnica moderna. Os maiores empreiteiros do pas ali se encontravam, e as mquinas de que dispunham eram o que de mais eficiente existia no campo da engenharia rodoviria. Tratores gigantescos rasgavam o quase in-transponvel tecido conjuntivo da floresta, levando de vencida o que impe-dia a marcha. As motoscrapers prendiam-se a rvores de 50 a 70 metros de al-tura e as arrancavam do solo, com razes e tudo. Atrs, vinham as kaders que carregavam o entulho e os depositavam nos caminhes. E, por fim, surgiam as niveladoras que preparavam o leito da estrada.

    O trabalho era ininterrupto, varando dia e noite, e sucediam-se as turmas que manobravam os monstros de ferro e ao. Assim, os 1.050 quilmetros de selva puderam ser vencidos em trs meses e meio - o re-corde absoluto de velocidade, nunca registrado, at aquela poca, em qualquer pas do mundo.

    No dia 4 de julho, quando desci em Vilhena, o espetculo que presenciei era emocionante. Milhares de operrios, vindo das 16 frentes de trabalho, ali se encontravam, aclamando-me. No apenas operrios, mas igualmente centenas de silvcolas. Os ndios presentes habitavam as mar-gens dos rios Pimenta Bueno e Comemoraes, formadores do Jipara-

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    n, tributrio do Madeira, do rio da Dvida ou Roosevelt (em homena-gem a Theodoro Roosevelt, o presidente norte-americano e explorador que andara por aquelas bandas), igualmente afluente do Madeira, e do Cabichi, que desaguava no Guapor. Muitos deles, ajustados civiliza-o, estavam trabalhando nas obras da estrada. Naquele dia, em home-nagem a mim, fizeram questo de usar .trajes caractersticos, exibindo cocares coloridos e arcos enfeitados de penas, como se comparecessem a uma de suas festas guerreiras.

    Atravessando a multido que me aclamava, encaminhei-me para a borda da mata, onde hasteei o pavilho nacional e inaugurei uma placa com os seguintes dizeres:

    Encontraram-se neste local, em 4 de julho de 1960, estando presente o Presidente Juscelino Kubitschek, as duas turmas de trabalhadores que rasgaram a selva amaznica, efetivando a ligao AcreBraslia. Em seguida, teve lugar a cerimnia da derrubada da ltima r-

    vo, e coube a mim a honra de praticar esse ato. Nesse sentido, uma imensa sapopema, de 70 metros de altura, fora deixada no leito da estra-da, ainda de p, com sua majestosa galharia aberta ao sol.

    Quem observa a floresta amaznica o que, alis, pode ser constatado em qualquer mata virgem - verifica que, sob a aparente tran-quilidade em que vive a comunidade das frondes, trava-se uma silenciosa, mas desesperada luta pela sobvivncia. So numerosas as rvores que as-piram a viver, e o espao, que lhes proporcionado para a germinao e para o desenvolvimento, limitado, comportando apenas algumas espcies. Impe-se, assim, uma renhida competio uma empurrando as outras, e todas julgando-se com direito vida. Nessa disputa, torna-se evidente que os vegetais, assim como os seres humanos e os animais, possuem um ru-dimentar sistema de raciocnio, um instinto, ou talvez um condiciona-mento nervoso, tendo como finalidade a sobrevivncia.

    A luta, na qual se empenham os vegetais no interior da flores-ta amaznica, herica, porque no admite acomodaes. Ou ele viril e forte e, nestas condies, vence os obstculos e sobrevive; ou mos-tra-se fraco, e acaba asfixiado, convertendo-se em adubo para os que lhe crescem em torno. Entretanto, como acontece em qualquer competio, sempre existem os astuciosos,, os viles, que tentam burlar as regras do jogo. E o caso dos cips. No dispem de um caule consistente que os

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    classifique para uma competio justa e limpa. Recorrem, pois, sinuo-sidade prpria de sua natureza rastejante. Abraam-se aos troncos mais fortes, enroscam-se neles, e, atravs dessa associao parasitria, tentam chegar altura, onde possvel a sobrevivncia.

    Alm dos cips, h inmeros outros exemplos de desajustados florestais. O comportamento do mata-pau tpico. Envolve e paralisa o vi-zinho e, quando o tem subjugado, suga-lhe a seiva, assegurando sua sobre-vivncia atravs do sacrifcio alheio. Extinta a fonte de seiva, ele prprio morre, se no encontra por perto outra rvore que lhe sirva de vtima.

    A sapopema, porm, uma rvore de linhagem ilustre. Inte-gra a aristocracia dos seres superiores da floresta. Suas razes intumes-cem; rompem a crosta de hmus, revigoram a base do tronco, forman-do em volta dele divises achatadas. O tronco, por sua vez, lembra o de uma palmeira. Sobe, reto no ar, e desata, mas s numa altitude de mais de 50 metros, sua majestosa e inconfundvel cabeleira verde.

    Ao cair da tarde de 4 de julho de 1960, a sapopema, que me caberia derrubar, erguia-se, isolada, no centro do sulco aberto pelas mo-toscrapers. Olhei-a demoradamente. Repugnou-me sempre derrubar uma rvore, e quanto mais um exemplar daquela estirpe! Seu sacrifcio, po-rm, era indispensvel, para que o progresso penetrasse na floresta. Um trator de lmina ali estava, aguardando que eu o pusesse em movimento.

    Tomei lugar na boleia e acionei as alavancas. O trator investiu contra o tronco, que resistiu. Fiz nova arremetida e a rvore, j meio de-cepada junto s razes, oscilou num suave vaivm, ameaando cair sobre a enorme assistncia. Algum gritou: "Cuidado, presidente!" Mas o gri-to, ao invs de servir de advertncia, repercutiu como um brado de alar-ma. Estabeleceu-se o pnico. Houve corre-corre e ouviram-se exclama-es de terror. Quando olhei para trs, no pude deixar de sorrir, vendo altas personalidades em desabalada carreira.

    Mandei que cortassem o tronco um pouco mais, fendendo-o do lado contrrio ao em que me encontrava. Tudo pronto, recuei o tra-tor, e fiz investida. O enorme tronco oscilou. Ouviu-se, ento, um esta-lar de madeira rachada e o gigante da floresta, perdendo o equilbrio, tombou pesadamente ao longo do leito da estrada.

    A gigantesca sapopema estava no cho e, com sua queda, efe-tivara-se, de maneira concreta, a ligao Acre-Braslia. 1.050 quilme-

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    tros de estrada haviam sido abertos, atravs da floresta amaznica, em apenas 3 meses e meio!

    O SIGNIFICADO DE BANANAL

    Uma etapa estava vencida. Aquela, sem dvida, fora a mais difcil. Dominara-se a selva e fizera-se a ligao das duas turmas que avanavam em sentido convergente. A estrada, numa extenso de 3.315 quilmetros, deveria ficar inteiramente aberta ao trfego antes que eu deixasse o governo. Marquei a data para a inaugurao definitiva: de-zembro de 1960.

    Por ocasio dessa soluo, estvamos no incio de julho. Isso queria dizer que os engenheiros teriam apenas seis meses para completar a gigantesca tarefa. O certo que no percebi uma s manifestao de es-panto, diante da exiguidade do tempo prefixado. que todos os homens que ali se encontravam eram pioneiros msculos de ferro e alma de ao e no seria um marco no calendrio que lhes iria arrefecer o nimo.

    Tombada a sapopema, caminhei ao longo do seu tronco, da base at a ramificao da galharia. Senti-me como se estivesse numa passarela, j que eram estrondosas as aclamaes de que era alvo. Em seguida, durante a realizao de um churrasco, aps ser saudado pelo prefeito de Porto Velho, fiz um discurso, atravs do qual procurei fixar a relevncia daquele acontecimento. Ao referir-me transformao por que passava o Brasil, declarei: "Hoje, com a mentalidade que tenho procurado semear por toda parte, vemos esta Nao levantar-se, pr-se de p, e os homens, mesmo aqueles que eram considerados fracos e in-feriores, se ergueram para enfrentar as mais terrveis dificuldades, os obstculos maiores que se opem marcha do Brasil. A selva amazni-ca, considerada por muitos intransponvel, est sendo devassada em v-rias dires. Hoje estamos aqui, no interior de Mato Grosso e de Ron-dnia, para festejarmos, juntos, mais um evento admirvel da grande jornada que o Brasil est realizando, em busca de sua aut-afirmao. O objetivo um s, que assinalar um marco na histria do pas: o incio da integrao nacional."

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    Insistindo no tema da integrao nacional - a nota prioritria do governo, naquele fim do mandato - procurei fix-lo, com a maior niti-dez possvel: "Braslia foi bem compreendida, porque uma cidadela cujo nico destino este: forar a integrao nacional. Dali, estamos partindo para romper todas estas estradas. Agora esta, a Braslia-Acre. Existem ainda a Manaus-Porto Velho, a BelmBraslia, a Braslia-Fortaleza, que se abrem como um leque para cobrir todas essas imensas regies desertas. Estas estradas constituiro as sementes poderosas que, amanh, daro os admirveis frutos que a Nao espera h quatrocentos anos."

    Terminada a cerimnia, e com a noite j se aproximando, to-mei o avio, em companhia da famlia e da minha comitiva, e regressei a Braslia.

    Em julho de 1960, estava praticamente no fim do meu gover-no. As candidaturas minha sucesso haviam sido lanadas, e o eleitora-do se preparava, com entusiasmo, para o dia 3 de outubro, quando teria de fazer sua decisiva e definitiva escolha. A hora deveria ser, pois, de en-deusamento do futuro presidente e de uma natural e crescente frieza em relao ao que se preparava para deixar a chefia da Nao.

    Entretanto, no era isso o que ocorria. O povo, apesar de mentalmente j haver optado, em sua esmagadora maioria, pela candida-tura Jnio Quadros, reservara uma larga parcela de seu afeto para mim. Podia senti-lo onde quer que aparecesse. Tratava-se de uma natureza es-pecial de afeio. Era um misto de carinho e compreenso, revelando a existncia de um perfeito entendimento entre o povo e o seu presidente, como se um fosse o reflexo do outro. E essa homogeneidade de pontos de vista fora obtida atravs do simples curso de se implantar no pas uma autntica democracia.

    Ao assumir as rdeas do governo, tive em mente, antes de tudo, desarmar os espritos, de forma a poder assegurar um clima de inte-gral liberdade para todos. Mas sempre achei que a liberdade, por si s, no seria capaz de constituir a smula dos ideais humanos. Trata-se de uma inestimvel conquista, para o gozo da qual indispensvel a conjuga-o de numerosos outros valores. Roosevelt, ao estabelecer quatro cate-gorias de liberdade, definiu, com preciso, o carter polimorfo e essencial-mente dependente desse estado do homem livre. Pode-se ser livre e ter-se fome. E comum ter-se liberdade, mas ser-se vtima do desespero.

  • Por que constru Braslia 413

    No exerccio da Presidncia, nunca perdi de vista a extenso dessas implicaes. Da o Programa de Metas. Cada meta representava um ponto a ser atingido, em termos de crescimento econmico. Acontecia, porm, que, no desdobramento da execuo de qualquer delas, proble-mas novos e imprevistos surgiam, querendo solues imediatas, e isso tornava inevitvel, ento, a elaborao de novos esquemas administrati-vos. No setor da Integrao Nacional, Braslia era a meta prioritria, o alvo, o eixo da irradiao da nova poltica de ocupao fsica do territ-rio. Em funo desse eixo, surgiram a BelmBraslia e a Braslia-Acre. Quando essas duas rodovias estavam quase concludas, imps-se uma inesperada ponta de lana: Bananal.

    Meu ponto de vista em relao ilha do Bananal era simples e objetivo. Tratava-se de um impulso a mais, na direo da fronteira oci-dental. Para que esse alvo fosse atingido, seria necessrio transformar a ilha em parque nacional. O parque seria a meta da marcha que eu iria iniciar, no sentido de estabelecer na regio, at ento deserta, ncleos agrcolas pio-neiros para o pleno desenvolvimento das atividades agropecurias. Como a ilha era um paraso de caa e pesca, decidi construir no seu ponto mais fa-vorvel um hotel de turismo, e, levando em conta as primitivas condies de vida na regio, resolvi, simultaneamente, incorporar os ndios que ali habitavam civilizao brasileira, criando, para eles, servios locais de as-sistncia imediata.

    A bacia Amaznica j estava integrada no Brasil, atravs das trs grandes estradas que a rasgaram de ponta a ponta. A poltica de in-tegrao nacional ia ser aplicada ento bacia do Araguaia. Quando anunciei o incio da jornada no rumo do Bananal, a Oposio gritou, os que me apoiaram tentaram convencer-me de que se tratava de uma lou-cura, e a imprensa julgou o projeto irrealizvel. Estvamos em maio de 1960 e, portanto, a nove meses do trmino do meu mandato.

    Tive a ideia da arrancada no rumo do Bananal na primeira se-mana de maio de 1960, e j no dia 12 do mesmo ms anunciava, em en-trevista imprensa, que iria empenhar-me imediatamente naquele novo e arrojado empreendimento.

    A marcha no sentido da ilha.seria feita atravs da Fundao Brasil-Central. Nomeei para diretor daquela fundao o Coronel Nlio Cerqueira. Tratava-se de um antigo colaborador, que j me prestara rel-

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    vantes servios, e de um homem dotado da necessria energia para enfrentar, com desassombro, os inmeros obstculos que, certamente, surgiriam, embaraando a execuo do projeto.

    Durante a entrevista imprensa, na qual anunciei a prxima integrao da ilha do Bananal, um jornalista norte-americano me interpelou: "Porque realiza Vossa Excelncia essa marcha para os sertes desco-nhecidos?" Respondi, sem hesitao: "Estamos fazendo, agora no Bra-sil, o mesmo que seus antepassados realizaram, no sculo do rush para o Oeste." De fato, o que eu pretendia, em relao a Bananal, era plantar um posto avanado da civilizao em plena bacia do Araguaia, capaz de auxiliar o Brasil a contemplar a obra de integrao, iniciada com a cons-truo de Braslia.

    Acertadas as providncias iniciais, j no dia 16 de maio o Co-ronel Nlio Cerqueira, acompanhado de um grupo de auxiliares meus, seguia, por via rea, para o Posto Getlio Vargas, rgo do Servio de Proteo aos ndios, localizado na margem oeste da ilha, banhada pelo brao norte do rio Araguaia. Esse grupo permaneceu dois dias no local, sempre em contato com o cacique Uata, a fim de no s fazer um le-vantamento dos cursos locais, mas examinar igualmente os diferentes problemas para que fossem imediatamente iniciadas as obras programa-das. Faziam parte desse grupo, alm do Coronel Nlio Cerqueira, Geral-do Carneiro, Juc Chaves e o sertanista Acari de Passos Oliveira.

    Ao Engenheiro Juc Chaves, um dos pioneiros da construo de Braslia e que chefiou a equipe que construiria o chamado Catetinho, coube a tarefa da escolha do local para a construo da residncia presidencial, cujo projeto seria da autoria do arquiteto Oscar Niemeyer. Tratava-se, como eu prprio havia declarado, de um Rancho Pioneiro, o qual ficaria si-tuado a curta distncia do aldeamento dos silvcolas de Santa Isabel, em ter-ras de uma fazenda de pastoreio pertencente ao SPI, e distante cerca de 25 quilmetros ao norte do ponto onde o rio das Mortes desagua no Araguaia.

    Nas terras daquela fazenda que seria erguido o Hotel de Tu-rismo com umas dezenas de apartamentos, de quarto e banheiro. Ali se-ria construdo, tambm, um cais para atracao das embarcaes que demandassem a ilha. Simultaneamente, o Brigadeiro Jussaro, diretor das Rotas Areas, estudou a localizao de um novo campo de pouso, que

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    seria dotado de todos os recursos modernos, inclusive radiofarol, para maior segurana dos voos em todo o Brasil-Central.

    Aps essa primeira etapa da grande obra, verdadeiro conheci-mento, do terreno a ser trabalhado, os membros da comitiva entraram em contato com os ndios carajs, tomando conhecimento de seus usos e costumes. Fizeram ainda mais: quando regressaram a Braslia, levaram em sua companhia o prprio cacique Uata, que recebi, numa audincia especial, no Palcio do Planalto.

    Uata compareceu ostentando seus vistosos enfeites de chefe. Falava razoavelmente o portugus e, assim, pudemos conversar durante algum tempo. No fim da audincia, o ndio tirou da cabea seu colorido cocar e o ofereceu a mim, como demonstrao de amizade. Atravs do que me contou o "Capito" Uata, pude conhecer as necessidades dos carajs, e, recorrendo aos prstimos do Coronel Nlio Cerqueira, ordenei que a Fundao Brasil-Central ficasse incumbida de atend-los.

    Assim, j estava em pleno funcionamento a Ope-rao-Bananal. Operrios foram mobilizados. Fez-se a remessa do material necessrio. Niemeyer elaborou os respectivos projetos. E, por fim, as obras tiveram incio.

    Um ms e uma semana mais tarde, ou seja, no dia 27 de ju-nho, segui eu mesmo, por via area, para a ilha do Bananal, fazendo-me acompanhar por Sarah e pelas minhas filhas Maria Estela e Mrcia, as-sim como pelos ministros da Marinha, da Aeronutica e da Sade, a fim de inspecionar as obras que, ali, estavam sendo realizadas. O Coronel Nlio aguardava-me no campo de pouso do aldeamento de Santa Isabel, onde viviam cerca de cinquenta ndios carajs.

    A recepo foi festiva. Estavam presentes os indgenas de Santa Isabel e os de outros aldeamentos situados na ilha, todos exibindo seus mais vistosos enfeites de penas coloridas. Quando deixei o avio, deram incio sua dana cerimonial. Os homens formaram-se num se-micrculo no campo de pouso e, ao fundo, viam-se as mulheres, com bonitos cocares, e tendo os corpos riscados de urucum e carvo. Enquanto danavam, entoavam cantigas guerreiras e, como ali se en-contravam representantes de trs naes diferentes os caiaps, os ca-rajs e os sauis , verificava-se uma verdadeira confuso de dialetos.

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    Os carajs, a mais numerosa das trs tribos, eram governados por um triunvirato. O cacique Uata, um dos trinviros, era o chefe de cerimnia - espcie de public relations da comunidade. Os outros dois eram: Curiala, que se achava cego e exercia as funes de chefe espiritual, sendo o paj da nao, e Munuirala, o homem forte daquele tronco ind-gena - o Senhor da Guerra.

    Olhando em torno, admirei a paisagem da ilha que, vista do alto, j me havia encantado. Touceiras de bananeiras sucediam-se na imensa planura - e da o seu nome Korumbar, no idioma indgena -emprestando um toque marcial ao cenrio. As folhas largas e pretas, como espadas verdes, faziam lembrar um exrcito vegetal. Na poca, j existia uma incipiente pecuria em Bananal. Quarenta mil cabeas de gado viviam nas pastagens, que se desdobravam at a beira do rio. Isto queria dizer que, graas ao trabalho do SPI, o ndio, desde muito habituado a uma dieta de peixe e beiju, evolua aos poucos para o bife.

    Bananal, quase um pas, tem 300 quilmetros de extenso e cerca de 50 quilmetros de largura, sendo maior, portanto, do que a Holanda, a Blgica ou a Sua. O horizonte baixo acentua a beleza da planura, que parece infinita. Entretanto, o verdadeiro astro daquela pai-sagem o velho e caudaloso Araguaia, rolando serenamente suas guas, com as margens cobertas de areia faiscante.

    Depois da recepo no campo de pouso, inaugurei a estao de rdio da Fora Area Brasileira e aproveitei a ocasio para insistir no tema da integrao nacional: "As conquistas da tcnica" - declarei - "trouxe-ram aos brasileiros instrumentos novos e recursos poderosos que nos permitem ir muito alm do que foram os nossos maiores. A nao aguar-dava, unicamente, que de novo se empunhasse a bandeira de Ferno Dias e de Borba Gato ou de Bartolomeu Bueno. A construo de Braslia, o esforo pico, faanha que surpreendeu o mundo, deu a medida de nossa enrgica deciso de conquistar os milhes de quilmetros quadrados so-bre os quais os mapas traziam aquela clssica legenda 'Regio Inexplora-da'. Erguida a nova capital, cumpria continuar a penetrao no interior. A nao no podia deter ali a sua arrancada para o Oeste, e, neste sentido, pode-se dizer que Braslia, conquanto feita para desafiar os sculos, ape-nas uma base para uma expedio maior e bem mais profunda."

  • Por que constru Braslia 417

    Aps a inaugurao da estao da FAB, falei, pelo rdio, com o Embaixador Sette Cmara, governador do Estado, da Guanabara, e com alguns jornalistas que se encontravam no seu gabinete. Durante essa conversa, ocorreu um fato curioso. Um radioamador, ou melhor, um "coruja", segundo a terminologia dos que se dedicam a esse tipo de co-municaes, entrou no circuito e ps-se a ouvir o que falvamos. Numa pausa da palestra, aproveitou a chance e solicitou-me que lhe arranjasse a concesso de uma linha de lotaes em Braslia. Pedi-lhe o nome, e ele se identificou. Disse-lhe, ento, que me procurasse no Alvorada, quando discutiramos pessoalmente o assunto.

    Deixando a estao de rdio da FAB, e aps fazer o percurso de lancha pelo Araguaia, inaugurei o Rancho Pioneiro, construdo numa das barrancas do rio e que meus amigos denominaram Alvoradinha. Tratava-se de uma casa pitoresca e muito confortvel, erguida pelo Engenheiro Juc Chaves, de acordo com um projeto de Oscar Niemeyer, e situada cerca de 20 quilmetros do rio das Mortes. Nela fora fixada uma placa, com os se-guintes dizes: "Aqui onde eram, ss, o abandono e a selva - sendo os vinte e sete dias do ms de julho de 1960, comeou a integrao desta ilha do Bananal na comunidade ptria pela vontade do Presidente Juscelino Kubitschek, ajudado de Deus e de alguns homens, por amor ao Brasil."

    Aps haver pernoitado no Alvoradinha, que j oferecia algum conforto, fiz uma excurso, na manh seguinte, para conhecer a regio. Tomei um bote, impulsionado a remos, e atravessei o Araguaia, indo vi-sitar, em Mato Grosso, uma cidadezinha pioneira, So Flix, localizada a pequena distncia da embocadura do rio das Mortes.

    Nessa cidade que era um lugarejo, com apenas 500 habitantes estive no posto da Fundao Brasil-Central, dirigido pelo sertanista Leo-nardo Villas Boas, que ali se ocupava na construo de uma estrada em direo do Xingu, em regio onde os irmos Orlando e Cludio Villas Boas .tambm se encontravam em ao. Os trs sertanistas uma linhagem de desbravadores autnticos haviam se unido em Bananal, na ocasio, a fim de participarem da recepo que me seria prestada pela populao local.

    O calor era insuportvel. Eu e os que me acompanhavam per-corremos a cidadezinha toda e, no fim de uma rua, vi, aberto, um bote-quim de duas portas. Entramos. Sentei no balco e pedi uma bebida qual-

  • 418 juscelino Kubitschek

    quer, contanto que fosse gelada. O dono abanou a cabea, com desalento: "Cerveja, temos. Mas gelo coisa que no existe por estas paragens."

    O velho trouxe algumas garrafas sujas e meia dzia de copos. Quando as abriu, elas espocaram como champanha, dada a fermentao da espuma. O velho explicou: "Gelo, como disse, no h por estas ban-das. Mas refresco as bebidas com sal e cinza. A gente pe as garrafas dentro de um caixote e cobre depois com bastante sal e cinza de fogo. Gelar, gelar, no gela, mas sempre refresca as bichinhas."

    Deixando So Flix, voltamos para o aldeamento de Santa Isabel, onde teria de participar de um batizado, no qual eu figuraria como padrinho. O menino era um filho do cacique Uata, que receberia o nome de Urumaru.

    O aldeamento estava em festa, com todos os selvagens presentes. Os trs trinviros dos carajs - Uata, Curiala e Manuirala - puxavam o cortejo, j que antes da cerimnia religiosa haveria uma espcie de para-da militar, com os integrantes da tribo desfilando diante de mim. Aque-les selvagens principalmente os guerreiros - apresentavam um aspecto imponente. Eram altos e fortes, revelando-se bem diferentes dos silv-colas que habitavam a regio cortada pela rodovia Braslia-Acre.

    Quando estivera em Vilhena, eu guardara uma penosa impresso daqueles ndios. Lbios dilatados, orelhas furadas, narinas atravessadas por pauzinhos polidos, esquelticos davam a impresso de uma legio de famintos. Explicaram-me que, de fato, eles se alimen-tavam apenas de razes. Os carajs da ilha do Bananal, porm, eram es-plndidos exemplares humanos, alimentados a peixe, que era abundante na regio, e se comportavam com perfeita discrio, imitando os serta-nistas do SPI, com os quais conviviam.

    Aproximando-se a hora do batizado, postei-me no centro do aldeamento, ladeado por Sarah e por Mrcia e Maria Estela. De repente, surgiu no meio do terreiro um ndio suri completamente nu. Houve um corre-corre entre os membros da minha comitiva. O selvagem no poderia desfilar em traje de Ado diante do presidente e de sua famlia. Levaram o ndio para uma barraca e providenciaram, para ele, um calo. O suri resistiu. Queria permanecer nu, como sempre andara. Depois, concordou em usar calo, mas no sabia como vesti-lo. Dois funciona-

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    rios do SPI o auxiMaram. Quando se viu vestido, negou-se a participar do desfile. Sentiu-se envergonhado.

    Enquanto esperava pela realizao da cerimnia, discuti com o Coronel Nlio Cerqueira a construo do aeroporto, com pista para a aterrissagem de avies de grande porte, que constava do projeto de de-senvolvimento da ilha do Bananal. A dificuldade estava em fazer-se che-gar ao local os 1.200 tambores de asfalto que se faziam necessrios para a pavimentao da pista. O Brigadeiro Corra de Melo, Ministro da Ae-ronutica, que se encontrava ao lado, interveio na conversa. "Isto no problema, presidente. Os 1.200 tambores de asfalto podero ser atirados de avies, em pra-quedas" - sugeriu. A ideia foi aceita, e o brigadeiro ficou incumbido, na mesma hora, de tomar aquela providncia.

    Em seguida, ao ar livre, realizou-se o batizado. Fez-se um cr-culo de ndios e de autoridades em torno do menino Urumaru, que cho-rava sem cessar. Quando tudo terminou, percebi que o cacique Uata estava comovido e, procurando dissipar-lhe a emoo, estendi-lhe o brao num gesto largo, dizendo-lhe com sincera afeio: "Venha de l um abrao, meu compadre!"

    Abraamo-nos, e Uata, no se contendo, chorou.

  • O ltimo aniversrio

    M J L . ^fo dia 12 de setembro, meu aniversrio natalcio, e por ser o ltimo que iria festejar como Presidente da Repblica, os habitan-tes de Braslia decidiram comemorar a data.

    s 9 horas, o arcebispo de Braslia, D. Jos Newton de Almeida, celebrou uma missa gratulatria na capela do Palcio da Alvorada. Assisti ao ato acompanhado de toda a famlia, dos ministros de Estado, dos integrantes da Casa Civil e Militar e do funcionalismo do palcio. Aps essa cerimnia, um corpo coral do Jardim da Infncia Nossa Se-nhora do Rosrio, dirigido pelas Irms Dominicanas, apresentou-me uma saudao.

    Seguiu-se a homenagem de que fui alvo na Cidade Livre, pro-movida pelos candangos. Em frente do Ginsio Braslia havia sido er-guido um palanque e, em torno dele, acotovelava-se imensa multido. Eram os verdadeiros construtores de Braslia os pioneiros que, arros-tando sacrifcios sem conta, haviam plantado ali suas casas de madeira e emprestado seus braos para o desbravamento do Planalto.

    Conhecia-os, um por um. Sabia-lhes os nomes. Inmeras ve-zes, visitara-os nas suas humildes casas. Mas todos eram homens de fi-bra e tinham participado, desde o primeiro dia, da epopeia de Braslia. Para eles, o relgio havia se convertido num mito, pois o esforo pros-seguia sem interrupo at que lhes faltassem as foras. Surpreendi-os,

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    muitas vezes, trabalhando noite adentro e cantando para espantar o sono.

    Naquele momento, Braslia j tinha sido inaugurada e, a des-peito de se haver tornado manchete em todos os grandes jornais do mundo, continuava sendo o alvo principal das aleivosias da Oposio, que se queixava a propsito de tudo e mesmo sem qualquer propsito. A poeira, por exemplo, tornara-se o leit-motiv das suas reclamaes. J que seus integrantes no podiam mais dizer que a transferncia no se faria, agarraram-se ao p vermelho do Planalto e o transformaram numa das bases para a sua campanha contra a cidade.

    De fato, havia poeira, pois ainda existiam inmeras constru-es em andamento, e os redemoinhos, caractersticos da vastido da-quele cenrio aberto, contribuam para torn-la ainda mais incmoda. Mas o p, que se respirava em Braslia, era o mesmo que se levantava no Paran, assinalando o progresso do Estado. No deixava de ser idn-tico, tambm, ao de qualquer concentrao humana, onde se realizas-sem obras pioneiras. Entretanto, enquanto a Oposio esbravejava, mostrando aos amigos no Rio as lapelas sujas, vidrinhos da poeira de Braslia eram vendidos nos aeroportos e disputados pelos turistas. Cons-tituam o smbolo de uma nova era do Brasil e, at hoje, h quem os guarde, com o maior carinho, como relquia histrica.

    Com a chegada da estao das guas, a Novacap surpreendera, porm, a populao da capital, iniciando o ajardinamento das superquadras. Milhes de metros quadrados de gramado, que haviam sido cultivados no Horto Florestal, passaram a ser estendidos sob a famosa terra vermelha do Planalto. Vinham rolos, como tapetes vegetais. E eram abertos sobre o ter-reno, antecipadamente preparado, fazendo com que, de um dia para outro, surgissem jardins como por ao de um passe de mgica.

    Braslia, que era vermelha, tornava-se, aos poucos, verde. Os edifcios j no brotavam da terra como estranhos cogumelos de cimen-to armado, emprestando paisagem urbana feio rida e dura. O ajar-dinamento tinha lugar em toda a extenso da rea do Plano-Piloto e, com a gradual extino da poeira, a cidade ia-se tornando cada vez mais agradvel e acolhedora.

    Mas no foram apenas os gramados que alteraram a fisiono-mia de Braslia. O ar era seco, de uma secura de empenar portas e Jane-

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    las. E essa circunstncia exigiu que providncias de outro tipo fossem tomadas.

    Surgiram, ento, as superfcies lquidas, artificialmente criadas de acordo com uma programao rigorosamente tcnica. Existia o lago - uma imensa massa de gua, distribuda, em contornos caprichosos, ao longo de todo o centro urbano. Assemelhava-se a um semicrculo e, se-gundo estudos feitos, os ventos fortes - mas raros - observados em Braslia, e que eram de 25 ns, poderiam levantar vagas de um metro de altura em alguns locais, em face da conformao do fundo do lago e da sua superfcie exposta s variaes climticas, sem montanhas que a protegessem.

    A Diretoria de Hidrografia e Navegao incumbiu-se de solu-cionar o problema. Elaborou duas cartas hidrogrficas e estabeleu o ba-lizamento de 6 faroletes luminosos, que marcariam os pontos de bifur-cao. Dessa forma, facilitar-se-ia a navegao local. O lago, em si, da-das as suas dimenses, seria um fator poderoso de correo do clima. Mas, ao lado dele, providenciaram-se as lminas lquidas, criadas no in-terior das superquadras, de forma a se proporcionar atmosfera a indis-pensvel dose de. umidade, que lhe corrigiria a desagradvel secura. E plantaram-se, por fim, milhares de rvores.

    De fato, tudo havia sido cuidadosamente planejado em Bras-lia - trnsito, sem cruzamentos; a diferenciao dos setores, para evitar a promiscuidade; a criao de granjas-modelos, como fontes de abasteci-mento da incipiente agricultura da regio; at mesmo o sistema de ilumi-nao, no s da cidade, mas do interior das superquadras residenciais. H" uma carta do urbanista Lcio Costa dirigida ao Engenheiro Afrnio Barbosa da Silva, encarregado dos servios de iluminao da cidade, que um exemplo de tcnica urbanstica aliada preocupao de assegurar cidade todas as gamas de conforto comunitrio. Ouamos o que escre-veu Lcio Costa: "A iluminao da cidade no deve ser de intensidade uniforme, e sim dosada conforme a importncia e o carter peculiar do logradouro. A intensidade: igual de mau gosto e vulgar." Em relao pista central do Eixo Rodovirio-residencial, recomendava: "No ser arborizado e ter iluminao contnua, alternada de ambos os lados, para que se defina como parte essencial que do arcabouo urbano." No referente ao eixo de acesso s entrequadas, determinava que os

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    "postes devem ser menores e a iluminao menos intensa, uma vez que ser complementada pela iluminao das vitrines das prprias lojas e respectivos letreiros luminosos". E agora, a meticulosidade que define, de maneira admiravelmente humana, a formao intelectual do grande urbanista: "No interior das superquadras, o critrio garantir atmosfera colhida e ntima; a iluminao deve ser discreta, com postes baixos e lu-minrias cegas do lado dos edifcios a fim de no ofusc-los, e dever ser desigual, com reas de iluminao amortecida, prprias ao colquio e ao namoro caseiro."

    Naquele 12 de setembro, no deixei de me comover com a homenagem simples, espontnea e calorosa dos candangos. Estavam na Cidade Livre, residindo nas suas casas de madeira espera de outra voz de comando. Alguns j haviam ouvido aquela voz, e se achavam na Bra-slia-Acre rasgando a floresta. No entanto, os que ainda ali se encontra-vam eram milhares, e todos agitavam flmulas e bandeirolas. Deram-me os ttulos de Amigo e Benfeitor da Cidade e de Candango n2 1, fazen-do-se ouvir, na ocasio, diversos oradores.

    De volta a Braslia, e aps visitar as obras finais da represa do Parano, dirigi-me ponte em construo sobre o grande lago, e, na parte relativa Asa Norte, percorri os 186 metros de sua plataforma. Durante todo o trajeto, fui alvo de calorosas manifestaes populares.

    Em seguida, segui pela avenida Dom Bosco, j inteiramente asfaltada, at plataforma central, no Eixo Rodovirio, a fim de presidir ao ato de sua inaugurao. Sempre acompanhado de grande multido, desci as modernas escadas rolantes e atingi o palanque especial, onde se encontravam as autoridades e grande massa popular.

    A Plataforma Rodoviria, que tem a forma de uma grande letra "H", est situada no cruzamento do Eixo Rodovirio com o Eixo Monu-mental. A este a Prefeitura deu o nome de Central Presidente Kubitschek.

    A Plataforma obra que figura como uma das mais importan-tes do mundo, principalmente entre as realizadas em concreto armado. O projeto do gigantesco empreendimento foi de autoria de Lcio Costa.

    Falaram na ocasio, saudando-me, o Senador Auro de Moura Andrade, Lder da Cmara Alta, o Deputado Abelardo Jurema, Lder do Congresso, e o meu velho amigo Adelchi Ziller. Agradeci, grandemente emocionado, as palavras que me foram dirigidas. Depois de rememorar o

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    que havia sido a luta pela construo da nova capital e as dificuldades que tiveram de ser vencidas para se fazer a transferncia da sede do novo Governo, fiz uma expressiva referncia s eleies, que, dentro de menos de um ms, realizar-se-iam no Pas: "Estamos, felizmente, a 20 dias da eleio. A Nao est em calma. Aquilo que estvamos habitua-dos a contemplar no cenrio poltico, fruto da fermentao dos dios e das paixes que desaguavam s vsperas de qualquer pleito, para intran-qilizar e perturbar o sossego do brasileiro, desapareceu para sempre. Consolidamos a democracia, respeitamos a lei, a Constituio e a vonta-de popular, no permitindo, sob pretexto algum, modificaes na nossa Carta Magna. Esforamo-nos para que ela se conservasse inviolada at o fim, para que a Nao pudesse conhecer, de fato, eleies tranquilas e eu pudesse entregar as rdeas do poder a meu sucessor, sem que se in-vocasse e pedisse o uso de armas ou de golpes para conjurar a possibilida-de de qualquer crise poltica."

    De p, naquele palanque, eu via Braslia abrir-se ante meus olhos. Era, de fato, uma cidade diferente, e edificada num cenrio que lembrava uma paisagem lunar, digno, portanto, da audcia que presidira sua arquitetura. No resisti tentao de evocar o encantamento pro-porcionado por aquela viso: "Nas tardes do Planalto, os crepsculos de fogo se confundem com as tintas da aurora. Tudo se transforma em al-vorada nesta cidade, que se abre para o amanh. Certamente por isso, amigos, o ltimo setembro que convosco partilho como Presidente da Repblica me inspira, ao invs da melancolia do adeus, o jbilo contagi-ante da metrpole, com seu esprito de juventude, sua alegria pioneira, sua confiana no porvir."

    A noite, alguns amigos, entre os quais Csar Prates, Diler-mando Reis, Juc Chaves, Dilermando Silva, Osvaldo Penido, organiza-ram uma serenata junto aos portes do Palcio da Alvorada. Cantaram msicas do folclore mineiro, valsas que haviam tido voga nos coretos em Diamantina, e fecharam o coral, acompanhado de numerosos violes, com o Peixe-Vivo.

    No dia seguinte, prosseguiram as inauguraes. Eram viadu-tos, trevos rodovirios, conjuntos residenciais, escolas-parques, casas populares, ambulatrios e postos de sade. O lago, que deveria atingir o seu nvel no dia 12, apresentou a nica exceo naquela sucesso de

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    obras concludas. As guas subiam devagar e, medida que se elevavam, ampliava-se a rea inundada e, da, a falha nas previses. Alguns dias mais tarde, porm - ou seja, a 17 de setembro - , o lago se incluiria, igualmente, na longa lista das obras acabadas de Braslia.

    AGITAO NA AMRICA LATINA

    Aproximavam-se as eleies. No cenrio interno, havia entu-siasmo pelo pleito, pois todos sabiam que, pela primeira vez no pas, a vontade do povo iria ser manifestada livremente, e que os eleitos, quer do situacionismo, quer da Oposio, seriam legalmente empossados.

    J no setor externo, situao no apresentava a mesma tran-quilidade. Na poca, a Amrica Latina passava por uma fase aguda de agitao. Nos dezesseis meses que mediaram entre as reunies da Comis-so ds 21, realizadas em Buenos Aires e Bogot, o Caribe fora palco de srios e lamentveis acontecimentos. As duas ditaduras ali instaladas a de Trujillo e a de Fidel Castro comearam a atritar-se com os vizinhos, gerando uma atmosfera de apreenso que afetava o continente inteiro.

    Em face da nova situao criada no continente e interpretan-do o sentimento da comunidade hemisfrica, muito justamente alarma-da com o que vinha ocorrendo em Havana, o governo do Peru solicitou Organizao dos Estados Americanos a convocao urgente de uma Conferncia de Ministros das Relaes Exteriores das Amricas, paira tratar do problema. Concomitantemente chegava mesma entidade ou-tra convocao de chanceleres, encaminhada pelo governo da Venezue-la, a fim de que fosse examinada a participao, que considerava eviden-te, da ditadura de Trujillo no repulsivo atentado contra a vida do Presi-dente Rmulo Bettencourt. Depois de demoradas e difceis negociaes, ficara resolvido que os chanceleres se uniriam, na segunda semana de agosto, em So Jos da Costa Rica, em duas conferncias distintas: a VI e a VII, tratando, na primeira, do caso da Repblica Dominicana, e, na segunda, do problema cubano.

    A VI Reunio logo chegara a uma concluso, decorrente das provas colhidas por uma comisso especial da OEA: condenao da velha ditadura de Trujillo e rompimento de relaes diplomticas e, particularmente,

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    das econmicas com a Repblica de So Domingos at que o pas fosse democratizado. O mesmo no ocorreu na VII, a qual tivera de debater pro-blema bem mais complexo, j que a deteriorao das relaes entre Cuba e os Estados Unidos e entre Cuba e algumas naes hemisfricas havia atin-gido um ponto crtico, do qual j no seria possvel qualquer recuo.

    A poltica, adotada pelo Brasil, fora a de tentar uma concilia-o. Naquele tempo, eu acreditava que Fidel Castro, refletindo o des-contentamento, que era geral na Amrica Latina, ainda seria recupervel para a democracia. O que tinha em vista, ao tentar uma conciliao, era impedir que Cuba se afastasse da comunidade americana - muito embo-ra mantivesse sua atitude hostil aos Estados Unidos, o que era um direi-to que lhe assistia - de forma que pudesse ser preservada a unidade do bloco latino-americano. Nesse sentido, dei instrues ao Chanceler Ho-rcio Lfer, chefe da Delegao do Brasil, e este tudo fez, na fase inicial das conversaes, para que esse objetivo fosse atingido. Infelizmente, Cuba j estava comprometida em excesso com Moscou, e a agressividade de Fidel Castro subia de tom com o correr dos dias, tornando imposs-vel qualquer soluo de compromisso.

    Esgotados os cursos conciliatrios, os chanceleres discutiram e aprovaram uma soluo, incorporada aos anais do Pan-Americanismo sob o ttulo de Declarao de So Jos, pela qual condenaram "energica-mente a interveno ou ameaa de interveno de potncias extraconti-nentais nos assuntos das Repblicas Americanas", declarando que a aceitao de uma interveno desse tipo poria "em perigo a solidarieda-de e a segurana do hemisfrio".

    Este era o ambiente poltico que se respirava na Amrica Lati-na, quando a Comisso dos 21 iniciou seus trabalhos em Bogot, a 5 de setembro de 1960. Ambiente de tenso generalizada, de apreenso e re-volta, e, pior do que tudo, de crescente e recproca desconfiana. Eu tinha o maior interesse nos resultados daquela unio. A ideia da Operao Pan-Americana evolura desde a troca de cartas com o Presidente Eise-nhower e, em cada uma das reunies realizadas, ela se fortalecera, adquiri-ra maior contedo poltico, esperando-se que, no encontro de Bogot, iria cristalizar-se, finalmente, num dinmico programa de ao diplomtica.

    E as esperanas, que alimentava, transformaram-se, de fato, em realidade. O que se tornou patente, logo no incio dos trabalhos, foi a

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    acentuada evoluo do pensamento oficial norte-americano em relao s teses defendidas na Operao Pan-Americana.

    Essa mudana de atitude fora provocada, sem dvida, pelos debates, que tiveram lugar um ms antes da Comisso de Relaes Exteriores do Senado dos Estados Unidos, em torno de um plano inicial, ento aprovado, de 500 milhes de dlares, proposto pelo Presidente Eisenhower, como contribuio para a soluo dos problemas mais pre-mentes da Amrica Latina. Naquela oportunidade, fizeram-se ouvir, em declaraes incisivas que tiveram grande repercusso na imprensa nor-te-americana, os Senadores Copehart, Lausche, Mansfield e Church.

    A quantia votada era irrisria, no havia dvida, e causara pssima impresso opinio pblica continental. Quinhentos milhes de dlares para atender a problemas que afetavam vinte pases lati-no-americanos, com uma populao de quase duzentos milhes de ha-bitantes! Correspondia - e torna-se importante esse confronto, para evi-denciar a estreiteza de vista dos nossos vizinhos do Norte metade do que, durante quase um decnio, os Estados Unidos tinham propor-cionado, por ano, aos quarenta e poucos milhes de franceses.

    Contudo e isto era o que importava aquele crdito repre-sentava o primeiro passo concreto, dado pelos Estados Unidos, no sen-tido de se fazer alguma coisa em benefcio dos latino-americanos. Alis - ser justo conhec-lo - o Presidente Eisenhower nunca deixara de prestigiar a Operao Pan-Americana. Em todas as oportunidades que se lhe apresentavam, comunicava-se comigo, quer atravs do seu embai-xador no Brasil, quer por cartas pessoais, sempre atenciosas e detalha-das. Antes desse crdito inicial haver sido votado pelo Congresso nor-te-americano, o grupo de trabalho da Comisso dos 21, conhecido como Comit dos Nove, havia realizado uma reunio em Washington, durante a qual foram traadas as diretrizes que serviriam de roteiro para as discusses de setembro, em Bogot.

    Encerrados os trabalhos da reunio, Eisenhower escreve-ra-me longa carta, comentando os resultados das discusses entabula-das em Washington e manifestando sua esperana de que poderiam ser bem mais positivos os entendimentos em Bogot. "Estou certo" - escreveu-me o presidente dos Estados Unidos, no dia 8 de julho de 1960 - "de que podemos contar com subsequentes resultados concretos

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    em Bogot, especialmente nos seguintes setores: a) financiamento do desenvolvimento econmico; b) papel da assistncia tcnica para a ob-teno de uma crescente produtividade industrial e agrcola; e c) ulterior considerao dos problemas de produtos de base. Entendo que os estu-dos econmicos, autorizados na reunio de Buenos Aires e j solicitados por 11 pases, esto sendo empreendidos e vo contribuir decisivamente para o conhecimento do que necessitamos para um slido adiantamento econmico e social."

    Referiu-se o presidente, em seguida, aos progressos alcana-dos na estruturao do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujo capital j se encontrava formado, fazendo prever que, at o fim do ano, seriam concedidos os primeiros emprstimos. Recordou, igualmente, os entendimentos pessoais que havamos tido em Braslia, em So Paulo e no Rio, declarando que, no obstante os nossos esfor-os anteriores, chegara concluso de que "todos ns necessitamos despender esforos adicionais em nosso programa conjunto para enfrentar o desafio desta nova dcada, no decorrer da qual nossos po-vos tm a firme determinao de alcanar um novo, elevado e dinmico padro de vida, social, econmico, poltico e espiritual".

    A carta, como se v, espraiava-se em generalidades, sem fixar um rumo, um objetivo, que devesse ser alcanado, o que contrariava mi-nha habitual atitude poltica, que era a de, antes de tudo, estabelecer uma meta e, depois ento, estudar os meios de faz-la exequvel, num determinado espao de tempo. Assim, afirmei, na minha resposta, os motivos que tornavam inadivel a efetivao da Operao Pan-Americana e ressaltei, mais uma vez, o carter participacionista, que deveria ter o movimento, ao declarar: "No se trata de um apelo gene-rosidade, mas razo. A razo est ditando a necessidade de lutarmos da nica maneira eficaz contra a guerra-fria que se insinua e pretende envolver o nosso continente. A luta que todos ns devemos empreender juntos pelos comuns ideais das Amricas s ser vlida se combatermos as causas da inquietao e de descontentamento, sem procurarmos, apenas, corrigir e diminuir seus efeitos e consequncias."

    Ressaltava, com veemncia, o tradicional erro da poltica nor-te-americana, ao atribuir todos os nossos males ao comunismo, o qual, na Amrica Latina, era uma consequncia e no um agente autnomo.

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    O subdesenvolvimento, com seu squito natural - a pobreza, a doena, o analfabetismo, a injustia social, a falta de oportunidade, a escassez de residncias e, sobretudo, a revolta por tudo isto provocada - , represen-tava o elemento da permanente fermentao poltica que se observava na Amrica Latina.

    Minha carta era enrgica e realista; da no ter constitudo surpresa para mim a modificao registrada na atitude dos delegados nor-te-americanos, por ocasio dos debates em Bogot. Ao invs de discursos frios, meramente protocolares, os debates, ali travados, assumiram a feio de propostas objetivas e concretas, muito embora no orientadas ainda no sentido que mais conviesse ao desenvolvimento da Amrica Latina.

    A OPA E A ATA DE BOGOT

    De fato, tudo foi diferente em Bogot. Havia maior cordiali-dade entre os norte-americanos e os latinos-americanos. As discusses, embora acusando grande vivacidade, refletiam o desejo secreto, mas perceptvel a qualquer bom observador, de que pudessem ser atendidas as reivindicaes, que haviam dado origem Operao Pan-Americana.

    O que os norte-americanos levaram para aquela reunio re-presentava, na realidade, um grande avano sobre suas propostas anteriores. Em Bogot, eles apresentaram um anteprojeto de soluo, abrangendo 64 recomendaes. Se havia algum reparo a fazer, este se circunscrevia to-somente a uma questo de precedncia dos assuntos e no importncia das solues sugeridas.

    De fato, os norte-americanos haviam invertido a ordem das prioridades: primeiro, as questes de carter nitidamente social, e, depois, os problemas bsicos, de sentido econmico-financeiro. Entretanto, mesmo essa distoro fora facilmente corrigida. Respeitaram-se os princ-pios apresentados pelos norte-americanos. Mas complementaram-se estes com a apresentao de outras e mais urgentes recomendaes, de forma que pudessem ser atendidas as teses, to veementemente encare-cidas pela totalidade das delegaes latino-americanas, e relativas ao desenvolvimento econmico propriamente dito - o que proporcionou ao documento aprovado a significao desejada por todos.

  • Por que constru Braslia 431

    A leitura da Ata de Bogot dispensava comentrios to claros e precisos eram os seus termos. Entretanto, ser conveniente fazer-se especial meno da vitria alcanada pelos latino-americanos em um dos pontos em que a delegao norte-americana se mostrara rgida. Quero me referir tese, adotada pelo Departamento de Estado, sob a necessidade de ser a "casa posta em ordem", para se estabelecer, en-to, a base da poltica de colaborao econmica. Essa orientao fora substituda pela tese da "simultaneidade de esforos", o que significa que os governos se comprometiam a adotar determinadas providncias indis-pensveis soluo de seus problemas econmicos na proporo em que fossem recebendo assistncia para tal fim. No captulo III da Ata ficara perfeitamente claro este princpio, destinado a ter imensa repercusso no processo de desenvolvimento continental.

    Ao regressar de Bogot, Augusto Frederico Schmidt, chefe da nossa delegao, declarara, em entrevista imprensa, que "conseguimos atingir, praticamente, bem mais do que os objetivos que havamos deli-neado", afirmando todos os postulados bsicos da OPA e obtendo "que a delegao norte-mericana aceitasse, expressamente, os mais essenciais, incrporando-os, com o apoio de todas as delegaes, Ata de Bogo-t". Os objetivos visados eram a aceitao formal dos seguintes pontos: 1E - Quantificao, das metas do desenvolvimento latino-americano; 2E - Compromisso de assistncia externa adequada, determinada luz daquelas quantificaes; 3E Abandono, por parte dos Estados Uni-dos, da tese de que "a casa tem de ser posta em ordem" antes da assis-tncia, comumente conhecida como tese do Fundo Monetrio Interna-cional; 4E - Abandono da tese de que a assistncia externa s deveria cobrir bens importados; 5E - Abandono da tese de que os pases lati-no-americanos no poderiam acelerar seu desenvolvimento por incapa-cidade tecnolgica de absoro rpida de cursos; e 6E Abandono da tese ideolgica do desenvolvimento por capitais privados estrangeiros. E Schmidt conclura: "Pela primeira vez na histria do Pan-Americanismo, os Estados Unidos aceitaram firmar um documento que os comprometesse com uma poltica de desenvolvimento social e econmico da Amrica-Latina."

    A Operao Pan-Americana estava, pois, vitoriosa. A ideia, pela qual eu lutara durante dois anos, sensibilizara a opinio pblica do

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    continente e se convertera numa norma de ao poltica coletiva a ser executada pelos governos das naes que formavam o hemisfrio oci-dental. E essa repercusso positiva no se cingira apenas ao terreno in-ternacional. Fizera-se sentir, igualmente, no cenrio da poltica interna, pois os dois mais fortes candidatos minha sucesso - o General Teixe-ira Lott e o ex-Governador Jnio Quadros - , logo esposaram as ideias contidas no OPA, comprometendo-se, de pblico, a p-las em prtica.

    A ELEIO DE JNIO QUADROS

    A medida que se aproximava o trmino do ano, acelerava-se o ritmo de execuo das obras governamentais. Minha presena nas di-fentes frentes de trabalho no impedia, porm, que estivesse atento evoluo do processo poltico. O ano era de eleies e, embora o pas estivesse em plena calma, eu me mantinha vigilante, a fim de evitar que, contrariando determinaes expressas de algumas das minhas circulares, qualquer detentor de cargo pblico tentasse influenciar o eleitorado.

    No dia 30 de agosto, Jnio Quadros, aps uma excurso pelo interior de Gois, fizera uma visita a Braslia. Era a primeira vez que ia nova capital.

    Mandei que um dos meus assessores fosse ao aeroporto, para me representar, e Jnio, retribuindo a gentileza, visitou-me no Palcio da Alvorada, em companhia do Jornalista Jos Aparecido. O encontro trans-correu num ambiente de perfeita cordialidade. Conversamos sobre diver-sos assuntos e, por fim, perguntei-lhe, por mera curiosidade: "Que achou de Braslia, Governador?" Jnio sorriu e, batendo-me no joelho com afa-bilidade, respondeu: "Para comeo de conversa, est bom, Presidente."

    Alguns dias mais tarde - ou seja a 3 de outubro de 1960 -realizaram-se as eleies no pas. O povo acorrera s urnas, em massa, e manifestara a sua opinio com inteira liberdade. E, como desde muito era esperado, sara vencedor Jnio Quadros, o candidato da Oposio, que obteve 48 por cento dos 11 milhes e 700 mil eleitores que compa-receram s urnas.

    Em face da vitria, Jnio Quadros requintou-se no suspense, que imps aos seus aliados de campanha eleitoral. A UDN, que pensara

  • Por que constru Braslia 433

    capitalizar aquele espetacular triunfo em benefcio prprio, sentira-se, de sbito, aturdida. "Seu candidato" poderia ser tudo, menos udenista. Tra-tava-se de uma esfinge: ouvia tudo, e nada dizia. Deliberadamente, vol-tou as costas s especulaes sob a constituio do Ministrio, e fugiu para a Europa.

    Interpretei a eleio de Jnio Quadros como um evidente si-nal de que, em breve, o Brasil passaria por grandes transformaes. Muitos julgaram o ex-governador de So Paulo um "fenmeno eleito-ral", tornado possvel por sua feio carismtica. Na minha opinio, tra-tava-se do desfecho de um processo de evoluo social bem mais com-plexo. Jnio Quadros fora um instrumento, e no uma causa. E o que ocorreu, ocorria com ele e, mesmo, contra ele.

    Explico-me melhor. Getlio Vargas, ao criar a legislao tra-balhista, despertara a conscincia das massas, e teve incio, ento, o xo-do das populaes das reas rurais para as grandes cidades. Tratava-se do fenmeno sociolgico, que os tcnicos denominam urbanizao. As massas compreenderam que aquela legislao lhes assegurava um certo acervo de direitos, e puseram-se em marcha para usufru-los. Nas cida-des, em face da incipiente industrializao, j existiam oportunidades de trabalho para muitos. Despovoaram-se os campos, surgiram as primei-ras favelas, refletindo uma transformao operada de baixo para cima, isto , do colono para a classe mdia urbana.

    A presena daquela crescente massa de trabalhadores nos centros populosos logo despertara a ambio eleitoreira dos polti-cos. Fundaram-se partidos, cujos objetivos eram de fundo nitida-mente trabalhista. Os sindicatos, criados como rgos de reivindica-es da classe, transformaram-se aos poucos em focos de efervescn-cia partidria. Era o processo de politizao das massas que entrara em franca evoluo.

    A atividade, que desenvolvi como chefe do governo, teve um sentido revolucionrio, mas orientada no rumo de fazer o pas tomar conhecimento de suas prprias foras e utiliz-las para realizar seu de-senvolvimento econmico. A ao, em que me empenhei, teve, pois, uma motivao de carter psicolgico. Foi uma luta titnica contra tabus - o tabu da incapacidade realizadora do brasileiro, o tabu da impossibili-dade de se realizar uma grande indstria, o tabu da inexequibilidade de

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    qualquer plano de integrao nacional, o tabu da irrecuperao das zo-nas flageladas do Nordeste.

    As obras que realizei implicaram uma profunda modificao no status social do pas. Mas fazia-se necessrio que o sistema partidrio tambm se alterasse. A prosperidade, que tomara de assalto os centros urbanos - provocada pela industrializao - , criara um novo tipo de po-ltico, cuja atividade se desenvolvia fora do mbito tradicional, isto , na periferia dos partidos e mesmo em conflitos com eles. Esse novo tipo de poltico fortalecia-se atravs de apelos diretos ao povo e sua pregao obtinha sempre grande receptividade, j que iam muito alm do que, na realidade, poderia ser cumprido.

    Entretanto, as massas j politizadas, mas ainda no educadas para a compreenso da realidade nacional, aceitavam aquela argumenta-o capciosa casa prpria para todos, maior realismo na decretao do salrio mnimo, a reforma agrria, com a distribuio da terra aos que a cultivassem, imposio de restries ao capital estrangeiro, etc. - e, ins-tintivamente, iam-se afastando da esfera de influncia dos partidos tradi-cionais. O pas vivia, ento, a era do populismo, que era um misto de nacionalismo e esquerdismo, e que hbil e inescrupulosamente manipu-lado poderia levar o pas a renunciar ao regime democrtico.

    Durante o meu governo, o populismo fora refreado, pelo menos nas suas manifestaes mais contundentes. Eu me dirigia, com maior fre-quncia, ao povo, e nosso dilogo fazia-se sem quaisquer intermedirios. A grande diferena entre a atitude que assumi, e a que era peculiar aos novos lderes populistas, era que eu s prometia o que poderia cumprir, enquanto os populistas no tinham mos a medir no seu af de seduzir o eleitorado.

    Jnio Quadros interpretou admiravelmente o papel de lder que as massas clamavam. Era teatral. Dispunha da sagacidade necessria para captar as oscilaes do sentimento popular. E, sobretudo, projeta-va-se como uma espcie de vingador, surgido para realizar as aspiraes do povo, sempre contrariadas pelas oligarquias tradicionais.

    Afivelando no rosto essa mscara, ele se tornara como que um intruso no cenrio poltico. A UDN perfilhara a contragosto sua candida-tura. Ao invs de programa, valera-se de um smbolo para impressionar o eleitorado e escolhera um slogan, que era um obra-prima do exoterismo poltico, passvel de todas as interpretaes: "Jnio vem a..."

  • Por que constru Braslia 435

    O governo chegava ao fim. s 30 metas iniciais eu havia acres-centado duas outras novas: Braslia e a da Legalidade. A de BrasEa fora completada no dia 21 de abril de 1960. Quanto da Legalidade, embora j concretizada dado o clima de plena liberdade que se respirava no pas , eu necessitava ainda de um fato concreto para anunci-la, emprestan-do-lhe a feio palpvel, tangvel, capaz de torn-la compreendida pelo povo. Da a razo por que tardei em revelar sua complementao.

    Uma oportunidade surgiu-me em Pernambuco. Foi no dia 18 de setembro de 1960, duas semanas antes das eleies. A ocasio no poderia ser mais propcia: o lanamento da pedra fundamental da Com-panhia Siderrgica do Nordeste, o que significava o incio da industriali-zao de uma das regies mais pobres do pas.

    O povo pernambucano homenageou-me, concedendo-me os ttulos de Cidado de Pernambuco e de Cidado do Recife. Duas cida-danias que muito me sensibilizaram, pois estava prestes a deixar o governo. Falando no recinto da Assembleia Legislativa e no palco do Teatro Santa Isabel, rememorei as grandes lutas dos pernambucanos pela liberdade, das quais a Batalha de Guararapes ficara como um smbolo imorredouro. Ressaltei, em seguida, o contedo liberal das tradies polticas do Estado, que era idntico ao que alicerava os movimentos de rebeldia dos mineiros, e esclareci: "Essa identidade de destinos nos aproxima. Essa encruzilhada de itinerrios nos rene. Marcamos um encontro com a Histria, e estamos construindo uma Ptria, cuja emancipao econmica ningum mais deter e cuja fora democrtica nenhuma fora poder conter."

    Referindo-me diretamente ao tema, que naquele momento me empolgava, ajuntei: "No poderia aspirar a veredicto mais autorizado, mais sereno e honroso, nos derradeiros dias da minha administrao, quando j me apresto para entregar o pas, com ordem e prosperidade, quele que o povo escolher nas urnas de outubro. Mas esse veredicto no cai apenas sobre a obra administrativa. Em plena luta sucessria, a home-nagem que ora recebo, provinda de representantes de todos os partidos, exprime, tambm, que Pernambuco aprova o comportamento do Presi-dente da Repblica em face do pleito que se avizinha. Asseguro-vos que o meu governo continuar a honrar a vossa confiana. Estamos a quin-ze dias das eleies e, na renhida luta que se trava, nenhuma alterao da

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    ordem se verificou at agora, nem se maculou, por qualquer forma, o processo democrtico."

    A verdade ali estava, na mudez de sua eloquncia. Em Per-nambuco, eu anunciara que a nova meta estava em vias de ser comple-mentada. Reafirmei essa expectativa no meu discurso de 30 de setem-bro, em Braslia, atravs de uma cadeia radiofnica, pela Vo\ do Brasil. E as eleies, realizadas no dia 3 de outubro, confirmaram as esperanas que alimentava e ratificaram, de maneira inquestionvel, o que havia proclamado.

  • Um imperador deposto em Braslia

    -.JLm. JL^ea l i zadas as eleies, Jnio Quadros telefonou-me de So Paulo, comunicando que iria Europa, e, ali, aguardaria o resultado das apuraes. Aproveitou o ensejo para felicitar-me pela iseno reve-lada em face do pleito, a qual havia permitido ao povo manifestar livre-mente, e sem temor de represlias, sua opinio atravs das urnas.

    Enquanto o cenrio poltico se agitava, atravs das especula-es sobre os rumos e as intenes que iriam caracterizar o novo gover-no, eu prosseguia no meu rush inauguratrio, acrescentando novas uni-dades ao acervo das realizaes daquele quinqunio administrativo.

    Em outubro, estive em Volta Redonda, a fim de inaugurar, na usina da Companhia Siderrgica Nacional, o oitavo forno de ao, empreen-dimento da Meta Siderrgica. Com o novo forno que, naquele dia, entrava em atividade, a usina atingiria a capacidade instalada de 1.300.000 toneladas de lingotes de ao - mais 200.000 toneladas que o previsto na Meta 19a.

    E, ao atingir a capacidade de 1.300.000 toneladas, Volta Redon-da virtualmente duplicava sua produo durante o meu governo, j que, em 1955, esta era apenas de 665.666 toneladas. A mesma curva de crescimento fora registrada na produo brasileira de ao, a qual era de 1.162.000 tone-ladas em 1955, e, em 1960, j se elevara a 2.300.000 toneladas.

    Essas cifras no deixavam de ser animadoras, mas elas no refletiam, com fidelidade, a Meta Siderrgica, que era bem mais ampla.

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    Duas novas usinas de grande porte a Usiminas e a Cosipa encontra-vam-se tambm em fase bem adiantada de construo e, j em 1962, de-veriam entregar ao mercado brasileiro mais de um milho de toneladas. A esse total seria acrescido pelo menos outro milho, decorrente da ex-panso das usinas existentes, como a Belgo-Mineira, a Mannesmann e a prpria Volta Redonda, que j iniciara, naquela poca, os estudos para uma terceira expanso.

    Ainda no ms de outubro, inaugurei o trecho de 196 quilme-tros da rodovia entre Jata e o canal de So Simo, inclusive uma ponte de 206 metros sobre o rio Paranaba, na divisa entre Minas Gerais e Gois. O trecho entregue ao trfego era parte da grande transversal da BR-31, cujos pontos extremos eram Vitria, no Esprito Santo, e Cuiab, em Mato Grosso, completando-se a chamada So Paulo-Cuiab, a qual ficava, assim, transitvel desde o porto de Santos at a capital mato-grossense, atravessando a denominada regio centro-norte desse grande Estado, depois de cruzar o sul de Gois.

    As inauguraes se sucediam, e no com qualquer propsito promocional, mas por coincidncia, j que as obras iniciadas quase ao mesmo tempo estavam sendo concludas simultaneamente. Quatro dias mais tarde, j me encontrava em Belo Horizonte, para entregar ao trfego a esplndida rodovia, denominada Ferno Dias, completando a ligao de So Paulo com a capital mineira, numa extenso de 576 quilmetros.

    No incio do meu governo, a rodovia Ferno Dias encontra-va-se com a terraplenagem atacada em vrios pontos, mas sem continui-dade, achando-se intocados cerca de 180 quilmetros, exatamente os mais difceis e pesados. Faltavam, tambm, todas as obras de arte e no existia pavimentao. Os servios foram ento atacados vigorosamente, e em outubro de 1960 estavam concludos.

    Entretanto, quanto mais me empenhava em administrar, mais a poltica tentava desviar-me do caminho que levaria ao progresso do pas. Em novembro, presidi a outras inauguraes: a Rodovia Catalo-Uberlndia, integrante do plano de ligao Santos-Braslia; o servio te-lefnico, em microondas, entre Braslia e Uberlndia; entreguei ao trfe-go, no Rio, o primeiro trecho da Avenida Perimetral, a que o governa-dor da Guanabara deu o nome de Juscelino Kubitschek, que iria fazer a ligao entre as Avenidas General Justo e Presidente Vargas, resolvendo,

  • Porque construi'Braslia 439

    em parte, o problema da circulao de veculos no centro da cidade e es-tabelecendo uma ligao, em via elevada direta, entre os extremos norte e sul da zona comercial; a pavimentao da ligao rodoviria Goi-nia-Anpolis, visitando o belo obelisco, erguido em Goinia, para assi-nalar o marco zero da rodovia, trecho da BR-14 - Transbrasiliana - , a grande longitudinal que cortava o Brasil de Norte a Sul, tendo como pontos extremos, Belm do Par e Livramento, no Rio Grande do Sul, aps um desenvolvimento de 4.500 quilmetros, e cujos principais seg-mentos j estavam concludos; e a pavimentao da rodovia Belo Horizon-te-Monlevade, com 113 quilmetros de extenso, e de importncia vital para a indstria siderometalrgica de Minas Gerais.

    Ainda em novembro, entreguei ao trfego novos trechos das Rodovias BR-5 e BR-31, compreendendo dois segmentos entre Vitria e Guaran e entre Linhares e Divisa, na BR-5, e mais dois trechos para o entroncamento dessa estrada com a BR-31 e para o acesso a Guarapa-ri, alm de 27 quilmetros da BR-31, entre Jabaet e Marechal Floriano. E, no ltimo dia do ms, inaugurei, na Rodovia Presidente Dutra, a vari-ante da serra das Araras.

    Uma semana mais tarde, compareci cerimnia, realizada em Braslia, da apresentao do primeiro trator de fabricao nacional, por iniciativa da Ford do Brasil, e de acordo com os planos do Grupo Exe-cutivo da Indstria Automobilstica. Tratava-se de um trator de tipo m-dio, dentro do plano global de 30.000 unidades a serem fabricadas no pas, no perodo de dois anos, impulsionado por um motor da marca Perkins, tambm j produzido no Brasil.

    A indstria automobilstica constitura um dos maiores xitos do meu Programa de Metas. quela altura, decorridos cerca de trs anos de sua instalao, 320 mil veculos, de todos os tipos, j trafegavam nas estradas do pas, e com um ndice superior a noventa por cento de nacionali-zao. A fabricao de tratores representava a ltima etapa daquela saga industrial e, para execut-la, uma operao de larga envergadura tivera de ser levada a efeito pela Ford do Brasil, ao promover a montagem da maquinaria importada, inclusive fazendo transportar por via area quase 35 mil quilos de equipamentos, no valor de 200 mil dlares.

    Entretanto, aquele veculo, produzido pela Ford, constitua apenas um dos dez projetos aprovados pela GEIA para a fabricao de

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    tratores nacionais, e cuja execuo, conjunta e simultnea, iria permitir ao Brasil ingressar no mercado internacional com uma produo de 31 mil unidades, no perodo de dois anos, compreendendo desde mquinas leves e mdias, como aquela, ate s pesadas e de esteira. Diante da gran-de multido que se formara junto s grades do Alvorada, eu pus o trator em movimento e o dirigi durante alguns minutos, por entre palmas de todos os presentes. Estava concluda a meta qual o Ministro Lcio Meira dera extraordinria e patritica colaborao.

    Em dezembro, eu me preparava para receber, em Braslia, um hspede ilustre. A data marcada para essa visita era o dia 13 daquele ms - dia nada propcio, segundo os supersticiosos. E, de fato, nem tudo cor-rera bem por ocasio da estada do imperador da Etipia no Brasil.

    Trs incidentes desagradveis ocorreram no dia de sua chega-da: a) um oficial da Aeronutica teve um atrito com um cinegrafista no aeroporto, e o prendeu quase na presena do imperador; b) um dos membros da comitiva do visitante, quando subia a rampa do Palcio do Planalto, com o peito repleto de medalhas, entrou por um daqueles pe-rigosos e transparentes vidros do edifcio, e deixou cortada nele sua fi-gura; e c) por ocasio da minha condecorao com o Colar da Rainha de Sab, todo de ouro, a corrente inexplicavelmente se partiu e a cerimnia teve de ser suspensa at que se fizesse o respectivo reparo.

    Esses incidentes representaram apenas o comeo. Constitu-ram uma espcie de ensaio da tragdia bem maior que, no dia imediato, iria ter lugar.

    A princpio, ele era um Ras. Depois, foi o Ras dos Ras, isto , o Prncipe dos Prncipes, herdeiro da coroa etope. Em 1928, assumiu o poder como Negus Negusta, o Rei dos Reis. Em 1930, proclamou-se im-perador. Com este ttulo, foi o segundo soberano reinante a visitar o Brasil. Antes dele, s tivemos a visita de um rei: o da Blgica, em 1922.

    Alto, esguio, elegante em seus uniformes de gala, poucos diriam que se aproximava dos 70 anos. De trato suave e extremamente polido, o Negus era uma figura que se impunha desde o primeiro contato.

    Esperei-o no aeroporto e o vi descer a escada de bordo, com seu capacete adornado com uma juba de leo e o peito coberto de con-decoraes. Aps as honras militares e as apresentaes oficiais, segui-mos para o Palcio da Alvorada, onde ele ficaria hospedado.

  • Por que constru Braslia 441

    No automvel, durante o percurso pela cidade, conversamos animadamente em francs. Falou-me da Etipia e fez-me perguntas so-bre o Brasil. Admirou-se de que Braslia estivesse localizada num planal-too que acontecia com o seu pas e disse-me que, assim como eu vi-nha procurando fazer, ele tambm estava empenhado na tarefa de mo-dernizar a Etipia, de forma a promover-lhe o desenvolvimento econ-mico. Reinava sobre 22 milhes de sditos, numa rea de 510 mil mi-lhas quadradas.

    A meta prioritria do seu reinado era a educao. Esforava-se por educar o seu povo, abrindo escolas e universidades e tornando o en-sino acessvel a todos. Nesse sentido, acumulava as funes de imperador com as de ministro da Educao. "Sou ministro de mim mesmo" - decla-rou-me. "Desta Pasta no h quem me faa abrir mo." Naquele momen-to promovia, igualmente, a transformao do regime: passando de absolu-tismo para uma monarquia constitucional, do tipo parlamentarista.

    Entretanto, as reformas polticas, empreendidas com certo ra-dicalismo, no vinham sendo bem recebidas pela aristocracia local, ape-gada a privilgios que remontavam h mais de 3 mil anos. O Negus, po-rm, era determinado na realizao dos seus propsitos reformistas. Ignorava a oposio que, com essa atitude, se tornava cada vez mais po-pular no seio do povo.

    O Programa a ser cumprido, durante aquele dia 13, inclua vi-sitas s duas Casas do Congresso e ao Supremo Tribunal Federal. Dei-xei-o no Alvorada, a fim de que repousasse um pouco, aps a longa via-gem, e, tarde, ele me visitou no Palcio do Planalto, quando se reali-zou a cerimnia da entrega a mim da mais alta condecorao de seu pas, o Colar da Rainha de Sab.

    O ato foi solene, j que era rigoroso o protocolo observado pela comitiva imperial, apenas prejudicado pelo rompimento da corren-te que prendia a condecorao. Enquanto aguardvamos que fosse rei-niciada a cerimnia, um general da corte aproximou-se do imperador e cochichou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O general tinha a fisionomia visivelmente transtornada.

    Hail Slassi ouviu tudo com a maior ateno, e no se alterou. Cumpriu o resto da cerimnia com a absoluta tranquilidade,

    e, por fim, quando estvamos a ss, pediu-me licena para revelar um

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    fato que, embora ocorrido no seu pas, deveria ser do meu conhecimen-to, j que, naquele momento, ele era hspede oficial do governo brasileiro. E, ento, informou-me: "Notcias, chegadas agora de Adis-Abeba, do conta de que ocorreu um golpe militar na capital e que foi declarado fin-do meu reinado."

    Olheio-o surpreendido. Fizera-me aquela comunicao com absoluta serenidade, sem a mnima alterao na voz, acrescentando, tal-vez com o propsito de me tranquilizar: "Estou aguardando confirma-o da notcia e, assim que a receber, comunicarei a Vossa Excelncia."

    Pus disposio do imperador todos os meios de comunica-o de que o Brasil dispunha, mas a situao em Adis-Abeba era to confusa que nenhuma das mensagens enviadas, quer por ele prprio, quer por intermdio do Itamarati, obteve resposta. Perguntei-lhe se de-sejava cancelar as demais visitas, programadas para aquele dia, e ele poli-damente recusou, declarando que no desejava prejudicar o brilho da re-cepo.

    A noite, realizou-se, como se nada tivesse havido, o banquete oficial no Planalto. A champanha, trocamos os discursos de praxe, e, aps o banquete, depois de permanecer algum tempo no salo, o impe-rador aproximou-se de mim e solicitou que lhe concedesse um pouco de tempo, pois tinha necessidade de falar-me. Seguimos para a bibliote-ca, onde no seramos interrompidos.

    Sua tez moreno-escura contrastava com a alvura do uniforme de gala. Disse-me que, segundo os ltimos informes recebidos, no ha-via dvida de que estava vitorioso o golpe militar, ocorrido em Adis-Abeba. Informou-me que seu filho, o Prncipe Asfa Wassen, havia feito uma proclamao ao povo, pedindo apoio para o novo regime. Nessa hora, fez uma pausa, como se reconstitusse um mundo de recor-daes, e comentou: "No acredito, Senhor Presidente. Conheo bem o meu filho. No seria capaz dessa traio." Disse a frase sem ressenti-mento, mas com amargura. Era visvel o que se ocultava sob aquele co-mentrio. O filho havia sido vtima da presso dos que assaltaram o po-der. Certamente, ele fora aprisionado e obrigado a fazer a proclamao, numa tentativa, muito comum em todos os golpes, de dissipar a natural reao da opinio pblica. O que, sobretudo, o preocupava era a falta de comunicaes. O pouco que conseguira saber fora-lhe transmitido por

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    intermdio do Departamento de Estado norte-americano, que se comu-nicara com a Embaixada dos Estados Unidos na Etipia. O movimento subversivo estava circunscrito rea da capital, j que o resto do pas permanecera fiel ao trono. Havia tempo, portanto, para uma tomada de atitude.

    Em face disso, era imperioso que regressasse com urgncia. Existia, porm, um problema que teria de ser resolvido e de cuja solu-o dependeria o xito de seu plano. Tinha em seu poder um cheque de 60 mil dlares, emitido como imperador da Etipia; em face das cir-cunstncias, nenhum banco concordaria em descont-lo. E concluiu: "Desejava sua interferncia, Senhor Presidente, no sentido de que al-gum banco daqui concordasse em fazer o respectivo desconto."

    O pedido no deixou de me inquietar. Se, pessoalmente, eu dispusesse daquela quantia, no teria a menor dvida em emprest-la ao imperador. Infelizmente, no a tinha. Por outro lado, no poderia autori-zar o Itamarati a endossar o cheque, pois se tratava de assunto particular de um soberano deposto. Senti-me angustiado, sem saber o que fazer, embora estivesse sinceramente empenhado em auxiliar o ilustre visitante naquele momento de desgraa.

    Pensei um pouco e, erguendo-me, solicitei ao imperador que me permitisse ausentar-me por alguns minutos, pois desejava conversar com alguns amigos. Na realidade, j tinha uma ideia sobre como resol-ver aquele caso. Ao deixar a biblioteca, chamei o Ministro Horcio L-fer, titular da Pasta do Exterior e homem reconhecidamente rico, e ex-pus-lhe o problema. Lfer mostrou-se surpreendido. " um favor que lhe peo, Lfer. No poderei deixar de socorrer o imperador nesta emergncia. Como no ser lcito ao governo endossar esse cheque, ro-go-lhe que o faa em carter pessoal, e, assim, resolveremos o caso."

    Percebi que a sugesto fora recebida com reserva. Lfer con-servou-se em silncio durante alguns instantes e, em seguida, indagou: "E se o imperador no cobrir o cheque depois?" "Neste caso", respon-di, "voc ter feito um sacrifcio em favor de uma Casa Imperial de trs mil anos." Lfer sorriu desconcertado, mas prontificou-se a endossar o cheque.

    Comuniquei o fato ao imperador, que agradeceu, com absolu-ta dignidade. Estava programada para o dia seguinte uma visita a So

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    Paulo. Perguntei a Hail Slassi se desejava cancel-la. Respondeu-me que no. Teria de providenciar o seu regresso, e isto levaria um dia, e, nestas condies, seria melhor cumprir o programa at o fim, mesmo porque sempre se interessara em conhecer So Paulo.

    No dia seguinte, cedo, tomou o avio, rumo capital paulista. Acompanhei-o at o aeroporto. Estava sereno e amvel como sempre, embora, segundo fora informado, houvesse passado a noite quase em claro, conferenciando com os integrantes da comitiva. Vestia seu unifor-me de gala e usava o tradicional capacete, ornado com uma juba de leo.

    Agradeceu-me a acolhida que lhe dera e a amizade com que o tratara, apesar de tudo o que havia ocorrido. Apertou-me a mo com ca-lor, visivelmente comovido, mas controlou-se em seguida. Ao chegar ao alto da escada do avio, voltou-se e desceu dois degraus, dando a enten-der que desejava falar-me. Apressei-me em ir ao seu encontro, subindo, por minha vez, alguns degraus. Disse-me, ento, o imperador, quase num sussurro: "Esta cidade vale vinte anos de reinado." Subiu a escada de novo e, em seguida, voltou-se, para contemplar o cenrio de Braslia. Levou a mo ao capacete, numa continncia de despedida. Retribu o gesto, emocionado.

    Em So Paulo, Hail Slassi, segundo me informou pelo te-lefone, recebera informaes detalhadas sobre o que estava ocorrendo na Etipia. De fato, seu filho Asfa Wassen, de 44 anos, estava prisionei-ro, e os Generais Dibom e Wendafrash eram os lderes da revoluo, que se dizia "progressista e destinada a extinguir o feudalismo radicado na Etipia". Embora a capital estivesse em poder dos rebeldes, o resto do pas e o Estado federado da Eritreia permaneciam fiis ao trono.

    No dia seguinte, meia-noite, o imperador seguiu para o Norte da frica num avio comercial fretado. Tomou-o em Monrovia e desceu na Eritreia. Ali, conseguiu entrar em contato com o General Menguegha, seu leal sdito, que imediatamente se ps frente da con-tra-revoluo. Duas mil pessoas morreram nas ruas de Adis-Abeba, du-rante os combates travados entre revolucionrios e con-tra-revolucionrios.

    O rebeldes, quando perceberam que a situao estava perdi-da, fuzilaram 16 altos funcionrios da Coroa e 3 ministros do impera-dor. Poucos dias mais tarde, Hail Slassi entrava triunfalmente em

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    Adis-Abeba, assentando-se, de novo, no trono que fora da rainha de Sab. Um dos seus primeiros atos foi ordenar o fuzilamento, em praa pblica, dos Generais Dibom e Wendafrash, os lderes da revoluo.

    Eu j havia deixado o governo do Brasil e encontrava-me na Europa, quando recebi uma carta, com o timbre da Casa Imperial da Etipia, e endereada para o meu hotel em Paris. Abri-a, com curiosida-de. Era do imperador.

    Hail Slassi agradecia tudo o que eu havia feito por ele, na-queles dias angustiosos no Brasil, e aproveitava a oportunidade para in-formar-me que o cheque de 60 mil dlares, endossado por Horcio L-fer, havia sido resgatado...

    O FIM DA JORNADA

    A jornada chegava ao fim. Aproximava-se o 31 de janeiro de 1961, quando passaria a faixa presidencial ao Presidente Jnio Quadros.

    O quinqunio fora de lutas sucessivas e rduas, mas, igual-mente, de grandes vitrias. Ao abeirar-me do trmino do mandato, o sentimento que me assaltava era um misto de nostalgia e orgulho. Nos-talgia, por saber que, dentro de poucos dias, dispersar-se-ia o grande exrcito de trabalhadores que havia comandado, com f e determinao, atravs de todo o territrio nacional, para tirar o pas da estagnao e fa-z-lo caminhar. E orgulho, por perceber que o imenso esforo feito no se perdera. No fora vo. Ao contrrio, criara razes, frutificara e enri-quecera a Nao.

    Bastava que contemplasse o mapa, que tinha afixado na pare-de do meu gabinete, para constatar que se tornara realidade o meu slogan eleitoral, de 1955, de fazer o Brasil caminhar "cinquenta anos em cin-co". Quem quisesse poderia aferir a validade dessa assero. L estavam as hidreltricas, as estradas, as siderrgicas, as refinarias, os estaleiros na-vais, os audes, as grandes e diversificadas indstrias - automobilstica, de construo naval, de material pesado, de autopeas, etc. - falando de uma nova era para o Brasil.

    E o progresso no fora apenas material, adstrito produo de bens durveis e de consumo, mas, tambm, espiritual, vinculado a

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    uma violenta mudana de mentalidade. O brasileiro, antes desanimado, descrente da sua capacidade empreendedora, tornara-se dinmico, orgu-lhoso das virtudes de que dotado, animado do esprito pioneiro que o levaria como acontece at hoje a disputar com agressividade, no ce-nrio internacional, seu lugar entre as grandes naes do mundo.

    Quando elaborei meu Programa de Metas, em 1955, distribu ento 30 itens em quatro grandes setores: energia, transportes, alimenta-o e indstria de base.

    Esse era o Programa de Metas na sua verso primitiva, isto , antes da minha eleio para a chefia do governo. As cifras, ou melhor, os alvos prefixados podero parecer hoje reduzidos, dado o violento avano tecnolgico que subverteu os padres pelos quais se mede atual-mente a evoluo dos povos em qualquer estgio de sua evoluo. Se hoje o Brasil um pas em pleno desenvolvimento, naquela poca era, como as demais naes da Amrica Latina, um exemplo do que Ser-van-Schreiber denominou uma "economia coagulada". Os diferentes ci-clos da sua economia a cana-de-acar, o pau-brasil, o fumo estive-ram submetidos durante sculos a mtodos de explorao predatria; sendo antes objetos de troca do que propriamente de um comrcio re-gular.

    O fim do sculo XVIII, que assistiu decadncia da lavoura de cana, testemunhou, por outro lado, o advento da era do ouro, que se prolongou por um sculo e meio, seguida, imediatamente, pela do dia-mante, fechando-se a saga da explorao do solo com a abertura das la-vouras de algodo. Durante os trezentos anos de colonizao portugue-sa, a mo-de-obra utilizada era a do escravo e continuou a s-lo depois da criao dos cafezais, o que foi a principal riqueza do Brasil desde o abandono das minas at 1955, quando me candidatei Presidncia da Repblica. A nica diferena observada no trato dessa lavoura fora a troca do trabalho escravo pelo trabalho de colonos livres, muito embo-ra, no que dizia respeito qualificao profissional, ambos se equivales-sem.

    Quando governador de Minas, entrei em contato direto com a realidade brasileira e fiquei alarmado. No era possvel que uma nao, rica e poderosa em recursos naturais como o Brasil, houvesse ignorado a Revoluo Industrial do sculo XIX e permanecesse curvada sobre a

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    terra, recorrendo aos mesmos tacanhos processos agrcolas que haviam caracterizado a era colonial. Alguma coisa tinha de ser feita, para que o Brasil se auto-afirmasse. Concebi, ento, o Binmio Energia e Trans-portes.

    Ao candidatar-me Presidncia da Repblica, elaborei o Pro-grama de Metas. No se tratava de um diagrama rgido, mas de um pla-no de ao flexvel, o qual, aps a criao do Conselho do Desenvolvi-mento Econmico, no primeiro dia do meu governo, passou a ser revis-to quase mensalmente, com a ampliao das cifras-alvos e a abertura de novas fronteiras, visando preparao do Brasil para o grande "salto desenvolvimentista", que o desvincularia da estagnao dos quatrocen-tos anos do seu passado. O que pretendi com as 30 metas iniciais e mais a "Meta-Sntese" a construo de Braslia - foi dar um arranco no pas, para que ele acordasse, pusesse em ao suas energias latentes, compreendesse, enfim, que era uma Nao e, como tal, deveria disputar seu lugar no cenrio internacional. Essa ao, que no deixava de ser violenta, desdobrou-se em dois planos perfeitamente distintos, mas inter-ligados: a) no terreno psicolgico, atravs de uma incessante pregao desenvolvimentista; b) no mbito prtico, realizando, em tempo recor-de, todas as obras de infra-estrutura de que o pas necessitava. E os nmeros, melhor do que as palavras, revelam que obtive xito nessa norma de procedimento.

    Quando assumi o governo, o pas no tinha produzido um s motor, um s trator, um s carro, um s jipe, um s navio. Os transpor-tes martimos e ferrovirios estavam estagnados. Para que se tenha uma ideia de como era a situao brasileira no incio de 1956, por meio de al-gumas estatsticas comparativas, basta dizer que, no ano anterior, o Bra-sil produziu 1.000.000 de toneladas de ao, enquanto os Estados Unidos produziram 120.000.000; o Brasil tinha uma produo de 3.000.000kW de energia em comparao com os 150.000.000 dos Estados Unidos; o Brasil possua 800km de vias pavimentadas e os Estados Unidos 7.000.000 de km; o Brasil ainda no produzia nenhum carro e os Esta-dos Unidos estavam produzindo 7.000.000. O nosso produto nacional bruto era de 10.000 milhes de dlares e o dos americanos era de 500.000 milhes de dlares. A nossa renda per capita era de 200 dlares por ano, e a dos americanos era de 3.000 dlares.

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    Esta foi a situ