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Caderno cultural da Apesp de nº4

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  • JCB CulturaPg 4 - Janeiro 2004 Ano II - N 4

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    GE

    NTA

    AM

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    Ano II - N 4 Janeiro 2004Suplemento Cultural do Jornal Correio Brigadiano

    A terra bravianunca teve limites.

    Nem oceanos, nem montanhasImpediram a busca de encontrar

    o ponto da unio entre cu e terra.Cada passo dado

    mostrava sempre um lugar novoabrindo interrogaes...

    Instigando descobertas...

    O arame inveno dos homens

    trouxe limites.Prendeu a liberdade

    dos potros,do gado e dos gaudriosque fizeram estradas e querncias,

    quando a sombra,as aguadas e o pasto eram atrativos

    forte lao, aquerenciador.

    O arameno era um simples fio demetal atirado ao campo.

    Tinha cincia, o alambrado!O alambrador plantou,

    a olho e rgua,cernes para moires

    e mestres de porteiras.As tramas,

    trastos, para o semitonado talareio das canes do vento

    no brao longo da sesmaria-viola,que talhava campos

    no limite incerto de poder e glria.O mestre alambrador

    embriagado pela melodia...feliz pelo feitio daquele instrumento,

    orgulhoso ria.. por uma divisa...que havia feito sem saber porque.

    O arame

    instrumento da mais-valia instituiu donos terra e aos animais,

    permitiu que o homemimpedisse a escolha natural,

    apartando harnspara touros e baguais.

    O arame

    limitou estncias e invernadasque mermaram no tempo.

    Hoje, eletrificado,limita potreiros

    e, para proteger,em terrenos urbanos

    guiza de liberdade mantm os prprios donos

    embretados na propriedade.

    O arames no segura o ideal,

    que por roceiro, no tem pescoo ou corpo...

    s cabea!No se lhe assenta cangalha,

    no apegado terra,anda no ar...

    Propaga-se no ar...

    Existem prises e limites sem aramado...Mas, ideais...

    No tm limites,nem arame que os prenda!

    Um brigadiano aquele que luta pela sua estrela pessoale por isso ele to grande e admirado...Dotado de uma espada de ouro que reluz

    aos olhos daqueles que enxergam com a alma...Este guerreiro eterno defende seu corao

    e luta por suas causas sem fim.E ainda que as causas estejam perdidas,este um soldado eternamente valente.

    Ento, a sociedade tem a chance de admirarum soldado de ferro que nunca se rende,

    pois sempre surge uma fora anmicaque vinga de seu corao alado.

    Ele vai brandindo sua espada de puro ouroe entrincheirado com a fora de sua alma

    se faz heri das estrelas...Todo brigadiano um guerreiro...

    Um justiceiro eterno...Um homem que abdicou de suas imensas asaspara trilhar um caminho de luz, proteo, justia

    e honra a qualquer custo! to magnfico o coro que as galxias cantam

    quando nasce um brigadiano.E quando ele impe a sua espada,anjos se tornam homens imortais!

    por isso que a Brigada Militar to amada e nica em todo o universo!

    ------------------------------------------------------------------------(1) Extrado da dedicatria feita pela autora, ao Jornal Correio Brigadiano, quando do lanamento de seu livro Universo em Voc,

    Editora Imprensa Livre, Porto Alegre, 2003.

    (2) Publicitria e escritora, natural de Porto Alegre, onde reside. E-mail: vaw@via-rs.net.

    O ArameUbirajara AnchietaUbirajara AnchietaUbirajara AnchietaUbirajara AnchietaUbirajara Anchieta

    ------------------------------------------------------------------------(1) Poema premiado na Carreteada da Poesia de Santa Maria (RS).

    (2) Poeta e escritor, Coronel da Reserva da BM, Presidente da Casa do Poeta de Santa Maria.

    O Corao da BrigadaVivian A. WeyrichVivian A. WeyrichVivian A. WeyrichVivian A. WeyrichVivian A. Weyrich

    -----------------------------------------------------------------------(1) Poeta e escritor, Major da BM servindo no Departamento Administrativo em Porto Alegre, colunista

    do Jornal Correio Brigadiano e presidente da Apesp

    Noites de SetembroPrcio Brasil lvaresPrcio Brasil lvaresPrcio Brasil lvaresPrcio Brasil lvaresPrcio Brasil lvares

    No princpio era,A Lua,Uma foice de prataCeifando o ventre da escurido.Depois tornou-se um queijo partido,Devorado por metade,Entre clices de vinho:Obra de vorazes bbados notvagos.Aps, virou uma medalha cunhada em relevo,Em contraste, ao fundo, com um cu de chumbo.Espalhava brilho s formas na penumbra,Deixando ver, dissimulada, uma silhueta de cigana.Por fim, tornou-se um cncavo,Prosaicamente pendurado ao firmamentoEntre nuvens de flocos de cinzasCompletando a melancolia dessas noites vazias...

    Alceu WamosyAlferes brigadiano e poeta chimango

    tu, que vens de longe... Oh, tu que vens cansada,Entra, sob este teto encontrars abrigo.Eu nunca fui amado, e vivo to sozinhoVives sozinha sempre, e nunca foste amada!

    A neve anda a branquar lividamente a estrada.E a minha alcova tem a tepidez de um ninho.Entra. Ao menos at que as curvas do caminhose banhem no esplendor nascente da alvorada...

    E amanh, quando a luz do sol dourar, radiosa,essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,podes partir de novo, nmade formosa.

    J no serei to s; nem sers to sozinha!H de ficar comigo uma saudade tua...Hs de levar contigo uma saudade minha!...

    Cludio Medeiros BayerleCludio Medeiros BayerleCludio Medeiros BayerleCludio Medeiros BayerleCludio Medeiros Bayerle

    Alceu de Freitas Wamosy, bisneto de imi-grantes hngaros, nasceu em 14 de fevereirode 1895, em Uruguaiana, falecendo em 13 desetembro de 1923, em SantAna do Livramen-to. Filho de Jos Affonso Wamosy, (ex-telegra-fista, jornalista, advogado e promotor de Justi-a) e de Maria de Freitas Wamosy.

    Desde tenra idade Wamosy j se dedica-va leitura, sobretudo poesia, sendo que aos12 anos j declamava o poema De Sol a Sol,de sua autoria. Aos 16 anos, mope, asmtico,franzino e muito plido assumiu a direo dojornal A Cidade, fundado por seu pai, no Ale-grete, quando, ento, comeou a publicar suaspoesias. Em 1913, aos 18 anos, ele lanou seuprimeiro volume de poesias, Flmulas. J em1914, publicou seu trabalho seguinte Na TerraVirgem, granjeando louvores da crtica brasi-leira. Foi assim que, em 1915, conquistou no-toriedade nacional, com o soneto Duas Almas,muito embora tenha sido em Coroa de Sonho(1923), que Wamosy consolidou seu destaquena literatura brasileiras. No obstante, escre-via para diversos peridicos, tais como: A Not-

    cia, A Federao, O Dirio, alm da revista AMscara. Simbolista, ele era filiado correntedecadentista dos poetas franceses cujo princi-pal representante foi Jules Laforgue. Tambmrecebeu influncia direta da poesia de Cruz eSousa, alm de Redenbach, Samain, Rimbaude at mesmo de Mallarm.

    Mas Wamosy tambm foi um prosadornato, vez que teve vrios contos dispersos porjornais e revistas da poca, muito embora, comoera seu desejo, no os tenha reunido em livro, oqual seria intitulado 0 Jardim das Esttuas Tris-tes, ttulo de um belssimo conto que ainda hojecativa os leitores.

    Por ser chimango, combateu severamenteos maragatos, resultando que, em fevereiro de1923, deixou a tribuna para pegar em armascontra os inimigos no campo de batalha, na con-dio de alferes-secretrio da Coluna Oeste do1 Corpo Provisrio da Brigada Militar.

    E mesmo que no precisasse se expor aosriscos da batalha na linha de frente da ao mi-litar; esta no era a posio em que ele preferialutar, tendo desempenhado com valentia e des-treza a sua misso, apesar de sua compleiofsica.

    Com efeito, aquele rapaz franzino que ou-trora havia demonstrado ser um atirador med-ocre em um curso de tiro ao alvo e, doutra feita,insurgira-se contra a brutalidade de uma toura-da, era, por ora, um combatente valoroso emmeio ao fumo das batalhas e odiosa prticadas degolas de prisioneiros.

    Ferido logo de incio, pela violenta cargada cavalaria de Honrio Lemes, o legendrioLeo do Caver, na escaramua fratricida co-nhecida como o combate de Poncho Verde, queensangentou os campos de Dom Pedrito, Wa-mosy foi poupado da degola por seus inimigose recolhido ao hospital da Cruz Vermelha, insta-

    lado em Livramento, morrendo dez dias depoisdo confronto, em conseqncia dos ferimentos,aps um violento colapso cardaco. H regis-tros de que o prprio Honrio Lemos determi-nou que fosse prestado socorro ao ferido, o querevela a grande estima de que desfrutava Wa-mosy como poeta e homem de letras, o queestava acima das paixes polticas daquele con-fronto fratricida.

    Antes, porm, no dia 8 de abril, pressen-tindo o fim prximo, casou-se in extremis com ajovem Maria Bellaguarda no prprio hospitalonde estava baixado.

    O ato ltimo da Revoluo de 1923 foi aassinatura do Pacto de Pedras Altas, em 15 dedezembro, pacificando o Rio Grande. O gover-no do Estado concedeu a Maria BellaguardaWamosy uma penso vitalcia pelo marido "mor-to em defesa da ordem e das leis".

    Destarte, Alceu Wamosy passou a viver nalembrana dos familiares e amigos, bem comono corao de uma fiel legio de leitores apai-xonados pela melancolia dos seus versos. Talqual asseverou Rodrigues Till, (pesquisador eautor de vrios livros sobre Wamosy), ele "so-nhou como poeta, viveu como homem e mor-reu como heri". Ao ensejo do 80 aniversrioda morte de Alceu Wamosy, transcorrido em2003, prestamos esta justa homenagem aopatrono dos poetas brigadianos, publicando al-guns de seus mais belos poemas em nossaSuplemento Cultural.

    ------------------------------------------------------(1) Sargento PM, Ativista Cultural, tesoureiro

    da Apesp e scio-fundador da Casa do Poeta, doEscritor e do Artista Brigadiano

    Principais Atividades e Obras:1909/1915 - Colaborador do jornal A Cidade;1913 - Publicao de Flmulas, primeiro livro de poesia1915/1917 - Colaborador dos jornais A Notcia, A Federao, O Dirio e da revista A Mscara1917/1923 Torna-se proprietrio do jornal O Republicano, apoiando o Partido Republicano1923 - Engajamento na Revoluo Maragata, como Alferes do