Invalidade e Anulação do Ato Administrativo *celc.com.br/pdf/comentarios/c2005/c124.pdf · 2015-06-30 ·…

Download Invalidade e Anulação do Ato Administrativo *celc.com.br/pdf/comentarios/c2005/c124.pdf · 2015-06-30 ·…

Post on 18-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

<ul><li><p>C-124 01.10.05) </p><p>Invalidade e Anulao do Ato Administrativo * </p><p>Antnio Carlos Cintra do Amaral </p><p>O agente administrativo, diante de um texto legal, busca interpret-lo, para efeito de </p><p>aplicao da norma ao caso concreto. Interpretado o texto, o agente administrativo </p><p>escolhe uma das solues de aplicao possveis, contidas na moldura legal. Se h </p><p>mais de uma soluo possvel, somente uma pode ser por ele adotada. Em tese, adota a </p><p>que lhe parece ser a mais razovel. </p><p>A partir do momento em que o texto do ato administrativo publicado - e, em certos </p><p>casos, notificado ao interessado - a norma jurdica nele formulada (o ato </p><p>administrativo) vale. No se pode falar em ato administrativo perfeito, porque se o </p><p>processo de produo do ato administrativo se interrompe e o ato, como diz a maioria </p><p>da doutrina administrativista, no se aperfeioa, no chega a existir ato </p><p>administrativo (norma jurdica de terceiro escalo). Ato administrativo inexistente </p><p>uma contradio em termos. Ato administrativo existente pleonasmo. </p><p>A questo no semntica. Se o ato administrativo norma como entendo que seja </p><p>a noo de perfeio diz respeito ao processo de produo da norma, e no ao </p><p>produto (a norma). </p><p>Tome-se um exemplo. O art. 38 da Lei 8.666/93 dispe que o procedimento da licitao </p><p>ser iniciado com a abertura de processo administrativo, ao qual sero juntados </p><p>oportunamente o edital ou convite e respectivos anexos. Com base nesse dispositivo, a </p><p>doutrina distingue a fase interna e a fase externa da licitao. Mas a licitao </p><p>somente se inicia com a publicao do edital resumido (na concorrncia, tomada de </p><p>preo e prego) ou a entrega da carta-convite, momento em que se constitui uma </p><p>relao jurdica entre a Administrao e os eventuais interessados. Tanto que se a </p><p>Administrao decidir, na chamada fase interna da licitao, desistir da contratao, </p><p>pura e simplesmente determina o arquivamento do processo interno j iniciado. Na </p><p>chamada fase externa, se a Administrao desiste da contratao deve revogar a </p><p>licitao, ou anul-la se constatar ilegalidade. Isso porque s existe procedimento </p><p>licitatrio na chamada fase externa da licitao. </p></li><li><p>2 </p><p>Por outro lado, dizer-se que, no momento do incio do procedimento licitatrio </p><p>(publicao do edital resumido ou entrega da carta-convite), temos um ato </p><p>administrativo perfeito, o mesmo que se dizer que nesse momento passa a existir </p><p>um ato administrativo que inicia o procedimento licitatrio. Perfeio e existncia so </p><p>a mesma coisa. Um ato administrativo imperfeito um ato administrativo inexistente. </p><p>E um ato administrativo inexistente no um ato administrativo. </p><p>Seguindo KELSEN, posso dizer que pleonstica a expresso ato administrativo </p><p>(norma jurdica) vlido. O ato administrativo existe ou no existe: ou h ato </p><p>administrativo, ou no h ato administrativo. Ato administrativo que no se </p><p>aperfeioa, ou seja, cujo processo de produo no se completou, no existe. Logo, </p><p>no se pode falar em ato administrativo imperfeito, assim como no se pode falar em </p><p>ato administrativo inexistente. Ao existir, o ato administrativo vale. S deixa de valer </p><p>quando tem sua validade desconstituda, quer por outro ato administrativo, quer por </p><p>uma deciso judicial. A desconstituio de sua validade por outro ato administrativo </p><p>distingue-se da desconstituio de sua validade por uma deciso judicial porque o ato </p><p>administrativo que desconstitui a validade de um outro ato administrativo pode, por </p><p>sua vez, ser anulado por uma deciso judicial. </p><p>No existe, no direito administrativo, a figura da nulidade de pleno direito. Dizer que </p><p>um ato nulo de pleno direito no expressa a realidade jurdica. Enquanto o ato no </p><p>anulado, por um rgo especialmente qualificado para tal, ele vale. A distino, </p><p>efetuada pela doutrina administrativista, entre atos nulos e anulveis, tomada de </p><p>emprstimo ao direito privado, no tem sentido em direito administrativo. </p><p>Submetido o ato administrativo a controle jurisdicional, o juiz segue o mesmo processo </p><p>do agente administrativo. Interpreta a norma, a partir do texto normativo, identifica as </p><p>solues de aplicao possveis e aprecia o caso concreto luz da moldura legal. No </p><p>lhe cabe, porm, determinar qual a soluo mais razovel, a ser aplicada ao caso. </p><p>Decide, apenas, se a escolha do agente administrativo foi razovel ou no. Se razovel, o </p><p>ato administrativo legal. Se desarrazoada, ilegal. </p><p>Se a deciso judicial submetida aos tribunais, no cabe a estes apreciar sua </p><p>razoabilidade (da deciso judicial). O que continua a ser objeto de julgamento a </p><p>razoabilidade do ato administrativo, ou seja, sua legalidade. Se o tribunal decide que o </p><p>ato administrativo se conteve nos limites da razoabilidade, e, portanto, da legalidade, a </p><p>deciso judicial que determinou a anulao revista. Em nenhum momento se pe a </p><p>questo da razoabilidade da deciso judicial. </p><p>A este passo, pode-se ver, com clareza, pelo menos em meu entender, a distino entre </p><p>discricionariedade administrativa e discricionariedade judicial. A discricionariedade </p><p>administrativa reside na escolha, pelo agente administrativo, de uma soluo de </p><p>aplicao possvel, dentre as contidas na moldura legal, que parea, ao rgo </p><p>produtor do Direito, a mais razovel diante do caso concreto. A discricionariedade </p><p>judicial consiste em poder o juiz ou tribunal considerar desarrazoada a escolha </p><p>efetuada pelo agente administrativo e, em conseqncia, decidir pela ilegalidade do ato </p></li><li><p>3 </p><p>praticado. Se o juiz ou tribunal tivesse o poder de considerar a escolha do agente </p><p>administrativo menos razovel que outra, estaria invadindo a esfera de atribuio </p><p>conferida pelo ordenamento jurdico Administrao. Vale dizer: na atividade de </p><p>controle, estaria exercendo funo administrativa, e no jurisdicional. </p><p>Acentue-se: um ato administrativo que, na minha opinio e na de muitos outros, seja </p><p>flagrantemente desarrazoado e, portanto, ilegal, vale enquanto no seja anulado, ou </p><p>seja, enquanto no tenha sua validade desconstituda por um rgo especialmente </p><p>qualificado pelo ordenamento jurdico. Por sua vez, um ato administrativo que, na </p><p>minha opinio e na de muitos outros, seja razovel e, portanto, legal, deixa de valer e, </p><p>portanto, de existir, a partir do momento em que tenha sua validade desconstituda por </p><p>um rgo especialmente qualificado pelo ordenamento jurdico. nesse sentido, sem </p><p>dvida, que KELSEN diz que norma jurdica vlida pleonasmo, como tambm </p><p>pleonstica a expresso norma jurdica existente. E que a interpretao autntica </p><p>a efetuada pelo rgo judicial, que diz, em ltima instncia, o que razovel ou no. </p><p>____________________________________________________________ * Para maior aprofundamento do assunto, ver meu Comentando as Licitaes Pblicas (Rio de Janeiro, Temas &amp; Idias Editora, 2002, pp. 17/34). </p><p> (Comentrio CELC n 124 01.10.2005, divulgado no site www.celc.com.br) </p><p>Esta pgina renovada quinzenalmente, nos dias 1 e 15 de cada ms. </p></li></ul>