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    Gonalves de Magalhes e Martins Pena.

    Tragdia e Comdia Teatral: duas faces da mesma moeda, Melancolia oitocentista

    e formao da identidade nacional brasileira.

    ANDRA SANNAZZARO RIBEIRO1

    Introduo:

    Tragdia e Comdia so sentenciadas em A Potica de Aristteles: a

    primeira, obedecendo as regras da mimeses, se ocupam com os homens bons, imitam

    homens melhores do que realmente so, a comdia reflete o mediano, o grosseiro, o banal

    e o ordinrio. Trgico e cmico, portanto, tem na Grcia Antiga suas diferenas muito

    bem delineadas. O Cmico o oposto do trgico, e vice versa. A tragdia, eleva o homem

    grego, ao coloc-lo de frente com a aceitao de sua condio humana, passa assim a ser

    capaz de conviver com as condies impostas pela natureza, mesmo a dor e a derrota.

    Para Nietzsche em O Nascimento da Tragdia com ajuda de Apolo (o Deus forma que

    ilumina a arte) Tragdia seria a domesticao artstica do horrvel enquanto a comdia

    seria uma descarga da nusea do absurdo (NIETZSCHE, 1992:56) tal caracterstica

    se d pois o filosofo v uma tendncia dos gregos de transportarem com naturalidade para

    forma artsticas as tragdias e absurdos criando para ambos os gneros uma espcie de

    fim catrtico. Para os Modernos porm, a tragdia deve motivar o Homem, deve ele

    buscar determinao sobre a condio imposta pela natureza. J questionando a separao

    dos gneros, no sculo XVIII Denis Diderot (2005), em seu Discurso da Poesia

    Dramtica, obra em que reivindica ao teatro uma dupla funo: a de domar as paixes

    em seu estado bruto, rompe com a separao entre trgico e cmico, propondo um teatro

    que em nome de uma necessidade de aproximao e de um teatro que reaproxime o

    pblico e que no apenas revele os vcios da sociedade, como a comdia de costumes,

    mas que modele as paixes humanas. Por este modo, Diderot prope uma difuso dos

    gneros da tragdia e da comdia, de modo a cativar o pblico para o teatro com essa

    funo.

    1 Bolsista da Universidade Federal de Ouro preto no Programa de Ps- Graduao em Artes Cnicas. Este trabalho, elaborado para apresentao no XXVIII Simpsio Nacional de Histria da ANPUH/2015 st: Histria e Teatro, contou com apoio da instituio e do programa para sua execuo.

  • 2

    Embora na modernidade, os modelos artsticos tenham se reconfigurado da

    proposta de Aristteles em A Potica, a sentena prevalece em forma de tradio para

    uma classificao dos gneros. Silvio Romero(2002) sobre as comdias de Martins Pena

    aponta que os personagens por ele criado eram de um repertrio medocre. Eis porm que

    Dcio de Almeida Prado replica: a mediocridade caberia ao Brasil e no ao escritor2.

    No se tem assim uma formulao de contedo condicionado ao momento histrico?

    Caracterstica essa ligada aquilo que o mesmo autor, define como sendo um iderio

    romntico3, o de condicionar em suas peas a um contedo nacional. Ao mesmo tempo,

    tais comdias se ocupam com a questo, inerente ao prprio momento histrico, relevante

    no ps independncia. Quem era o Brasileiro? Oque era o Brasileiro? Por caminho

    inverso no gnero, eis que Goncalves de Magalhes formula sua Tragdia com o Poeta e

    a Inquisio, construindo seu heri, em torno de Antnio Jos, dramaturgo judeu, vtima

    de seu destino trgico pelas mos da inquisio.

    A distino clara: Gonalves de Magalhes traz aos palcos o poeta-heri Antnio

    Jose e Martins Pena O Juiz de Paz, com caractersticas corruptas e posicionamentos

    desonestos. O ano era de 1838 e riso e trgico, o efeito que ambas obras ambicionam,

    sero tratadas aqui como fruto de um clima histrico4permeado por um sentimento de

    medo e cautela. A hiptese a ser desenvolvida a de quem ambos tem suas construes

    artsticas influenciadas pela crise de um tempo histrico movido pelo distanciamento na

    referncia que o passado nos dava capaz de orientar os homens o esvaziamento de

    sentindo da Historia Magistrae Vitae, causada por acontecimentos como a revoluo

    francesa e a mudana de ordem que esta criou, onde por este modo no era mais possvel

    confiar em um prognostico do passado, ou seja os exemplos das experincias do passado

    no mais eram vlidos para se orientar neste novo presente. No teatro ambos o

    intensificaram dentro de uma oscilao de otimismos e esperana versus desorientao e

    2 Citao presente no prefcio da obra de Vilma Aras In: ARAS, Vilma SantAnna. Na Tapera de Santa Cruz: uma leitura de Martins Pena. So Paulo: Editora Martins Fontes, 1987. 3 O autor Dcio de Almeida Prado aponta que embora Martins Pena em sua forma teatral no se encaixa na forma romntica, traz em seu iderio caractersticas do movimento: personagens tpicos, compromisso com a cor local, etc. in: PRADO, Dcio de Almeida. Histria Concisa do teatro Brasileiro. So Paulo: EDUSP, 2008. 4 Trataremos aqui do conceito de clima- histrico como algo que emerge como substrato da experincia histrica. Ver mais in: GUMBRECHT, Hans Ulrich, 1948-Atmosfera, ambincia, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura; traduo Ana Isabel Soares- 1ed.- Rio de Janeiro: Contraponto: Ediotra Puc Rio, 2014

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    ceticismo. Estes ltimos que podem ser identificados na ironia e na stira presente na obra

    de Martins Pena. Tem-se uma radicalizao desse tempo histrico da modernidade, no

    perodo definido por Reinhart Kosseleck (2006) como Sattelzeit mais especificamente

    entre os sculos XVIII e XIX, entre 1750 -1850, onde h uma profunda acelerao do

    tempo com acontecimentos inditos que os sentidos no conseguem dar conta, o presente

    no duraria tempo suficiente para ser tematizado e organizado atravs das experincias

    do passado. A melancolia portanto marca esse clima histrico devido a distncia no

    espao de experincia criado at ento, e o horizonte de expectativa que devia ser

    construdo sobre a perspectiva do novo tempo, se afastando portanto das antigas

    experincias.

    No Brasil esse tempo histrico era repercutido no Imprio do Brasil, mais

    especificamente com a mudana de ordem causada pela Independncia em relao a

    Portugal. Ambos autores viveram momentos de grandes mudanas, j em 1822 a

    independncia, logo no campo da ordem poltica a mudana de constituio no mesmo, o

    ato adicional em 1834 e o Perodo Regencial de 1831 a 1840. Agitao que transparecem

    tambm de movimentos populares, no Maranho a Balaiada (1838 -1841), no Par a

    Cabanagem (1835 -1840), Sabinada(1837-1838) e Revolta dos Mals (1838) na Bahia,

    Cabanada (1832-1835) em Pernambuco, e a mais duradoura A Guerra dos Farrapos

    (1835-18450) no Rio Grande do Sul. Est que servira de pano de fundo para O Juiz de

    Paz na Roa.

    Ambos autores se utilizam de gneros extremos para projetos similares

    respondendo a essas agitaes e mudanas. Usando- as para construo de um teatro

    nacional, com plena conscincia deste como uma conveno de importante hbito

    cultural, conduta importante para um pas que deseja se civilizar aos moldes europeus. O

    primeiro, Gonalves de Magalhes preocupado em construir um passado nacional e

    Martins Pena empenhado com um teatro, extremamente voltado para cena, construdo

    especificamente para ser representado com temas nacionais usando para isso de artifcios

    como cor local, entre outras preocupaes ligados a construo de cenrio etc. Bem

    como uma radical crtica aos males, do que se afeta a formao da moral, e as instituies,

    como por exemplo a escravido.

    Martins Pena por esse modo ter aqui maior ateno, por ter se dedicado com

    fora maior ao teatro, ao todo, segundo consta na biografia publicada na revista do IHGB

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    em 1877 so 25 peas sendo 19 encenadas. Podendo ele ser tratado como sujeito

    empenhado na construo de um teatro nacional, o que se nota tambm em seus artigos

    nos Folhetins, onde demonstra crticas ao movimento teatral da poca, bem como sua

    acida opinio sobre os movimentos que nela decorrem, por vezes foi apoiador de greves

    e reivindicaes no Teatro So Joo. J Gonalves de Magalhes, embora pelo gnero

    escolhido para estreia no teatro, seja tratado pela historiografia do teatro nacional com

    maior privilgio, tem uma produo menor na esfera teatral, tendo portanto absorvido

    parte desse clima histrico em projetos como a criao da revista Niteri, e de sua poesia

    romntica, questes que no trataremos aqui, por termos como foco o teatro.

    Gonalves de Magalhes tragdia nacional e a busca de uma educao esttica:

    Desejando encetar minha carreira Dramtica por um objeto nacional, nenhum

    me parece mais capaz de despertar as simpatias e as paixes trgicas: as

    desgraas de um homem de letras, de um poeta (Magalhes,1839:15)

    Como bem aponta o autor em seu prefcio, Antnio Jos ou O Poeta e A

    Inquisio (1838), a primeira pea de assunto nacional, ou seja que tratava de

    personagens Brasileiros. Embora, essa seja uma questo um tanto quanto pertinente para

    o momento em que fora escrita. No perodo anterior a independncia, eram todos

    considerados Portugueses do Brasil, a nacionalidade no era portanto definida por

    territrio. Logo, no caso de Antnio Jos que nasceu no Rio de Janeiro, e passou a maior

    parte de sua vida em Portugal, este era um Portugus do Brasil. Contudo aps a

    independncia essa discusso fora revigorada sendo preciso definir quem era o brasileiro

    para de fato e desvincular a identidade nacional Brasileira da Portuguesa. Tema portanto

    que com afinco os rom