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  • 7/31/2019 Interpretaao da Biblia na Igreja

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    PONTIFCIA COMISSO BBLICA

    A INTERPRETAO DA BBLIA NA IGREJA

    NDICE

    INTRODUO

    I. MTODOS E ABORDAGENS PARA A INTERPRETAO

    II. QUESTES DE HERMENUTICA

    III. DIMENSES CARACTERSTICAS DA INTERPRETAO CATLICA

    IV. INTERPRETAO DA BBLIA NA VIDA DA IGREJA

    CONCLUSO

    INTRODUO

    A interpretao dos textos bblicos continua a suscitar em nossos dias um vivo interesse eprovoca importantes discusses. Elas adquiriram dimenses novas nestes ltimos anos. Dado importncia fundamental da Bblia para a f crist, para a vida da Igreja e para as relaes doscristos com os fiis das outras religies, a Pontifcia Comisso Bblica foi solicitada a sepronunciar a esse respeito.

    A. Problemtica atual

    O problema da interpretao da Bblia no uma inveno moderna como algumas vezes sequer fazer crer. A Bblia mesma atesta que sua interpretao apresenta dificuldades. Ao ladode textos lmpidos, ela comporta passagens obscuras. Lendo certos orculos de Jeremias,Daniel se interrogava longamente sobre o sentido deles (Dn 9,2). Segundo os Atos dosApstolos, um etope do primeiro sculo encontrava-se na mesma situao a propsito deuma passagem do livro de Isaas (Is 53,7-8) e reconhecia ter necessidade de um intrprete (At8,30-35). A segunda carta de Pedro declara que nenhuma profecia da Escritura resulta deuma interpretao particular (2 Pd 1,20) e ela observa, de outro lado, que as cartas doapstolo Paulo contm alguns pontos difceis de entender, que os ignorantes e vacilantestorcem, como fazem com as demais Escrituras, para sua prpria perdio (2 Pd 3,16).

    O problema , portanto, antigo mas ele se acentuou com o desenrolar do tempo: doravante,para encontrar os fatos e palavras de que fala a Bblia, os leitores devem voltar a quase vinteou trinta sculos atrs, o que no deixa de levantar dificuldades. De outro lado, as questes deinterpretao tornaram-se mais complexas nos tempos modernos devido aos progressos feitospelas cincias humanas. Mtodos cientficos foram aperfeioados no estudo do texto daantiguidade. Em que proporo esses mtodos podem ser considerados apropriados interpretao da Sagrada Escritura? A esta questo a prudncia pastoral da Igreja durante

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    muita tempo respondeu de maneira muito reticente, pois muitas vezes o mtodo, apesar deseus elementos positivos, encontrava-se ligados a opes opostas f crist. Mas umaevoluo positiva se produziu, marcada por uma srie de documentos pontifcios, desdeencclica Providentissimus Deus de Leo XIII (18 novembro 1893 at a encclica Divino afflanteSpiritu de Pio XII (30 setembro 1943), e ela foi confirmada pela declarao Sancta Mater

    Ecclesie (21 abril 1964) da Pontifcia Comisso Bblica e sobretudo pele Constituio DogmticaDei Verbum do Concilio Vaticano II (18 novembro 1965).

    A fecundidade desta atitude construtiva manifestou-se de uma maneira inegvel. Os estudosbblicos tiveram um progresso notvel na Igreja catlica e o valor cientfico deles foi cada vezmais reconhecido no mundo dos estudiosos e entre os fiis. O dilogo ecumnico foiconsideravelmente facilitado. A influncia da Bblia sobre a teologia se aprofundou econtribuiu renovao teolgica. O interesse pela Bblia aumentou entre os catlicos efavoreceu o progresso da vida crist. Todos aqueles que adquiriram uma formao sria nessecampo estimam doravante impossvel retornar a um estado de interpretao pr-crtica, pois o

    julgam, com razo, claramente insuficiente.

    Mas, ao mesmo tempo em que o mtodo cientfico mais divulgado o mtodo histrico-crtico praticado correntemente em exegese, inclusive na exegese catlica, ele mesmoencontra-se em discusso: de um lado, no prprio mundo cientfico, pela apario de outrosmtodos e abordagens, e, de outro lado, pelas crticas de numerosos cristos que o julgamdeficiente do ponto de vista da f. Particularmente atento, como seu nome o indica, evoluo histrica dos textos ou das tradies atravs do tempo ou diacronia o mtodohistrico-crtico encontra-se atualmente em concorrncia, em alguns ambientes, com mtodosque insistem na compreenso sincrnica dos textos, tratando-se da lngua, da composio, datrama narrativa ou do esforo de persuaso deles. Alm disso, o cuidado que os mtodosdiacrnicos tm em reconstituir o passado, para muitos substitudo pela tendncia deinterrogar os textos colocando-os em perspectivas do tempo presente, seja de ordemfilosfica, psicanaltica, sociolgica, poltica, etc. Esse pluralismo de mtodos e abordagens apreciado por alguns como um indcio de riqueza, mas a outros ele d a impresso de umagrande confuso.

    Real ou aparente, essa confuso traz novos argumentos aos adversrios da exegese cientfica.O conflito das interpretaes manifesta, segundo eles, que no se ganha nada submetendo ostextos bblicos s exigncias dos mtodos cientficos, mas, ao contrrio, perde-se bastante.Eles sublinham que a exegese cientfica obtm como resultado o provocar perplexidade edvida sobre inumerveis pontos que, at ento, eram admitidos pacificamente; que ele foraalguns exegetas a tomar posies contrrias f da Igreja sobre questes de grandeimportncia, como a concepo virginal de Jesus e seus milagres, e at mesmo suaressurreio e sua divindade.

    Mesmo quando no finaliza em tais negaes, a exegese cientfica se caracteriza, segundoeles, pela sua esterilidade no que concerne o progresso da vida crist. Ao invs de permitir umacesso mais fcil e mais seguro s fontes vivas da Palavra de Deus, ela faz da Bblia um livrofechado, cuja interpretao sempre problemtica exige tcnicas refinadas fazendo dela umdomnio reservado a alguns especialistas. A estes, alguns aplicam a frase do Evangelho: Tomastes a chave da cincia! Vs mesmos no entrastes e impedistes os que queriam entrar! (Lc 11,52; cf Mt 23,13).

    Em consequncia, ao paciente labor do exegeta cientfico estima-se necessrio substituirabordagens mais simples, como uma ou outra prtica de leitura sincrnica que se consideracomo suficiente, ou mesmo, renunciando a todo estudo, preconiza-se uma leitura da Bblia

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    dita espiritual , entendendo-se pela expresso uma leitura unicamente guiada pelainspirao pessoal subjetiva e destinada a alimentar esta inspirao. Alguns procuram na Bbliasobretudo o Cristo da viso pessoal deles e a satisfao da religiosidade espontnea que tm.Outros pretendem encontrar nela respostas diretas a toda sorte de questes, pessoais oucoletivas. Numerosas so as seitas que propem como nica verdadeira uma interpretao da

    qual elas afirmam terem tido a revelao.

    B. O objetivo deste documento

    H de se considerar seriamente, portanto, os diversos aspectos da situao atual em matriade interpretao bblica, de estar atento s crticas, s queixas e s aspiraes que seexprimem a esse respeito, de apreciar as possibilidades abertas pelos novos mtodos eabordagens e de procurar, enfim, precisar a orientao que melhor corresponde misso doexegeta na Igreja catlica.

    Esta a finalidade deste documento. A Pontifcia Comisso Bblica deseja indicar os caminhos

    que convm tomar para chegar a uma interpretao da Bblia que seja to fiel quanto possvela seu carter ao mesmo tempo humano e divino. Ela no pretende tomar aqui posio sobretodas as questes que so feitas a respeito da Bblia, como por exemplo, a teologia dainspirao. O que ela quer examinar os mtodos suscetveis de contriburem com eficcia avalorizar todas as riquezas contidas nos textos bblicos, a fim de que a Palavra de Deus possatornar-se sempre mais o alimento espiritual dos membros de seu povo, a fonte para eles deuma vida de f, de esperana e de amor, assim como uma luz para toda a humanidade (cf DeiVerbum, 21).

    Para alcanar este fim, o presente documento:

    1. Far uma breve descrio dos diversos mtodos e abordagens, (1) indicando suaspossibilidades e seus limites;

    2. Examinar algumas questes de hermenutica;

    3. Propor uma reflexo sobre as dimenses caractersticas da interpretao catlica da Bbliae sobre suas relaes com as outras disciplinas teolgicas;

    4. Considerar, enfim, o lugar que ocupa a interpretao da Bblia na vida da Igreja.

    I. MTODOS E ABORDAGENS PARA A INTERPRETAO

    A. Mtodo histrico-crtico

    O mtodo histrico-crtico o mtodo indispensvel para o estudo cientfico do sentido dostextos antigos. Como a Santa Escritura, enquanto Palavra de Deus em linguagem humana ,foi composta por autores humanos em todas as suas partes e todas as suas fontes, sua justacompreenso no s admite como legtimo, mas pede a utilizao deste mtodo.

    1. Histria do mtodo

    Para apreciar corretamente este mtodo em seu estado atual, convm dar uma olhada em suahistria. Certos elementos deste mtodo de interpretao so muito antigos. Eles foram

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    utilizados na antiguidade por comentadores gregos da literatura clssica e, mais tarde, duranteo perodo patrstico, por autores como Orgenes, Jernimo e Agostinho. O mtodo era, ento,menos elaborado. Suas formas modernas so o resultado de aperfeioamentos, trazidossobretudo desde os humanistas da Renascena e o recursus ad fontes deles. Enquanto que acrtica textual do Novo Testamento s pde se desenvolver como disciplina cientfica a partir

    de 1800, depois que se desligou do Textus receptus, os primrdios da crtica literriaremontam ao sculo XVII, com a obra de Richard Simon, que chamou a ateno sobre asrepeties, as divergncias no contedo e as diferenas de estilo observveis no Pentateuco,constataes dificilmente conciliveis com a atribuio de todo o texto a um autor nico,Moiss. No sculo XVIII, Jean Astruc contentou-se ainda em dar como explicao que Moisstinha se servido de vrias fontes (sobretudo de duas fontes principais) para compor o Livro doGnesis, mas, em seguida, a crtica contesta cada vez mais resolutamente a atribuio dacomposio do Pentateuco a Moiss