insetos como bioindicadores

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Insetos Como Bioindicadores

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  • Insetos como Indicadores deConservao da Paisagem

    Andr Victor Lucci Freitas, Inara Roberta Leal, MarcioUehara-Prado & Luciana Iannuzzi

    Biologia da conservao

    A biologia da conservao nasceu como uma resposta da comunidadecientfica s mudanas ambientais macias, provocadas pelo ser humano, quevm ocorrendo h dcadas em todo o planeta. Seus principais objetivos sofornecer ferramentas tcnicas e intelectuais que permitam sociedade antecipar,prevenir e reduzir danos ecolgicos, alm de gerar informaes cientficas a partirdas quais polticas efetivas de conservao possam ser planejadas eimplementadas (Soul & Orians, 2001). Assim, se parte da prtica da biologiada conservao lida com a deteco e a proteo de grupos taxonmicos,comunidades e habitats ameaados, outra parte lida tambm, preventivamente,para impedir que se atinjam estados crticos nos quais a conservao no maisvivel, procurando antever os efeitos das atividades antrpicas, regulando econtrolando-as de modo a impedir perdas adicionais da biota (New, 1995).

    Diversas medidas tm sido sugeridas para minimizar os efeitos da pertur-bao antrpica nos sistemas naturais tropicais, porm, sua implementao temsido muito demorada. Assim, entre as aes crticas para a conservao depaisagens neotropicais, importante a identificao das conseqncias dediferentes intervenes humanas, atravs do estudo de comunidades que sejamsensveis aos efeitos dessas perturbaes (Kremen, 1992).

    Indicadores ambientais

    Afirmar que uma espcie est adaptada ao seu ambiente um clich auto-evidente, segundo Mayr (1977). De modo geral, qualquer espcie indica aexistncia de um conjunto particular de condies ambientais s quais seadaptou ao longo do processo evolutivo e que, a priori, seriam prximas s ideaisem seu habitat original. As perturbaes antrpicas que so impostas aossistemas naturais levam desestruturao do conjunto das condies ideais para

    CAPTULO 15

  • 2 Ttulo do Livro

    muitos organismos, que podem responder de diversas maneiras, desde com indi-ferena at eliminao total, ou mesmo (Brown, 1991; Meffe & Carrol, 1997).

    Abordagens prticas de questes relativas sade da biota, ou integridadeecolgica da paisagem, requerem a seleo de espcies ou grupos de espcies quefuncionem como representantes dos outros membros do sistema (sejam elesentidades taxonmicas ou ecolgicas) e dos processos ecolgicos que os envolvem(Feinsinger, 2001). Esses representantes so denominados indicadores biolgicosou bioindicadores (McGeoch, 1998), e as respostas que podem ser obtidas destegrupo, idealmente, seriam extrapolaes para o resto do sistema, mais difcil deser avaliado. A bioindicao basicamente uma subdisciplina da biologia daconservao, cujo objetivo principal a aplicao do conhecimento cientficopara o manejo de relaes ecolgicas, ou seja, a manuteno das relaesparticulares entre as espcies, suas distribuies e abundncias (Caughley &Gunn, 1996; McGeoch, 1998).

    Na sua reviso sobre o assunto, McGeoch (1998) define indicador biolgicocomo uma espcie, ou grupo de espcies, que apresenta alguma das seguintescaractersticas: a) indica o estado bitico ou abitico de um ambiente (indicadorambiental); b) representa o impacto da mudana ambiental em um habitat,comunidade ou ecossistema (indicador ecolgico), c) indica a diversidade de umsubconjunto taxonmico, ou de toda a diversidade, dentro de uma rea(indicador de biodiversidade).

    O desenvolvimento da bioindicao inicialmente se deu em ambientesaquticos, e a sua aplicao a ecossistemas terrestres ganhou fora apenas a partirda dcada de 1980 (veja McGeoch, 1998). Desde ento, diversos critrios forampropostos para a escolha de indicadores biolgicos adequados aos sistemasterrestres (Brown, 1991, 1997; Pearson, 1994; Dale & Beyeler, 2001). Algunsdesses critrios so:

    1. Taxonomia relativamente bem resolvida grupos com problemastaxonmicos fornecem informao de baixa qualidade, em razo da difi-culdade ou impossibilidade de definio dos limites entre as espcies.

    2. Conhecimento a respeito da histria natural, gentica, qumica e outrosaspectos da biologia ajudam a definir as preferncias e associaes dehabitat e recursos das espcies.

    3. Diversidade conveniente um nmero de espcies muito alto podeinviabilizar o processo de triagem e anlise, e um nmero muito baixo(por exemplo, menos de cinco) pode comprometer a qualidade dos dadose dificultar as previses.

    4. Ciclo de vida curto em teoria, quanto menor o tempo de gerao, maisrapidamente os efeitos da alterao ambiental so percebidos.

    Gustavoou mesmo

  • Insetos como Indicadores de Conservao da Paisagem 3

    5. Diversidade ecolgica um grupo que tenha espcies com diferentesassociaes ecolgicas fornece informaes sobre diferentes compar-timentos do habitat.

    6. Fidelidade de habitat espcies com pouca fidelidade de habitat nofornecem informao especfica.

    7. Associao estreita a recursos ou outras espcies no essencial, masespcies estreitamente relacionadas a outras so mais informativas(representam outro grupo taxonmico ou recurso).

    8. Sedentarismo relativo num extremo, espcies migratrias ou muitodispersivas podem estar presentes em um ambiente sem relao nenhumacom as condies ambientais do mesmo.

    9. Facilidade na amostragem, triagem e identificao (inclusive por leigos).

    10. Pouco uso humano grupos cujas espcies tm valor econmico alto (porexemplo, caadas para consumo e/ou ornamentao) podem desaparecerdo sistema independente temente seu estado de conservao.

    De acordo com esses critrios, vrios grupos tidos como carismticos,como primatas e aves, por exemplo, so indicadores pouco confiveis, geralmentepouco diversos em comparao com muitos grupos de invertebrados e sujeitosa influncias adicionais externas qualidade do sistema, isto , a ausncia decertas espcies sensveis alterao ambiental pode estar mais relacionada eliminao por caa do que falta de condies mnimas para a manuteno depopulaes viveis das mesmas, e devem ser utilizados as extremo cuidado, emsituaes particulares (Landres et al., 1988; Brown, 1997).

    Em pases de clima temperado, diversos invertebrados, particularmenteinsetos, vm sendo usados com sucesso em estudos de bioindicao emambientes terrestres. Nos trpicos, onde a diversidade desses grupos muito altae a taxonomia da maioria deles, incipiente, o desenvolvimento da bioindicaoainda embrionrio para muitos grupos. Dentre alguns taxa que tm sido usadoscom sucesso podem ser destacados muitos insetos, entre eles liblulas, bor-boletas, formigas, abelhas e algumas famlias de besouros (Brown, 1991; Brown& Freitas, 2000a, b, 2003; Pearson & Cassola, 1992; Clarke & Samways, 1996;Agosti et al., 2000; Freitas et al., 2003).

    Conservao de invertebrados insetos comoindicadores ambientais

    Segundo New (1995), a indicao dos nveis de perturbao ou mudanade um sistema o papel principal dos invertebrados na avaliao da conservao

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    biolgica. Essa indicao pode se dar pelo declnio da diversidade de espciesespecialistas, aumento da abundncia dos outros taxa ou, de forma mais genrica,alguma mudana na composio faunstica a partir de um estado no perturbado(Brown, 1991; New, 1995).

    A medida mais importante e efetiva para a conservao de invertebrados, sem dvida, a proteo de seus habitats (Brown & Brown, 1992; New, 1995).De fato, em razo da ausncia de informaes detalhadas sobre as necessidadesecolgicas da grande maioria dos taxa de invertebrados (situao para a qual nose vislumbra soluo num futuro prximo), a nica opo prtica para aconservao de sua diversidade a proteo do maior nmero possvel de tiposde ambientes, na expectativa de que muitos dos seus habitantes sejam assimprotegidos (New, 1995, 1997). Na prtica, questionamentos quanto necessidade de conservao de invertebrados ainda so comuns em muitossetores da sociedade no mbito do senso comum, apesar da extrema importnciade boa parte deste grupo tm para a manuteno do equilbrio dos sistemasnaturais (Wilson, 1987). A despeito desses questionamentos, vrios autores tmressaltado a riqueza de espcies, a abundnci e a importncia cientfica,econmica e ecolgica dos invertebrados em geral (Wilson, 1987, 1997; May,1988; New, 1995) e dos insetos em particular (Samways, 1995; Erwin, 1997;New, 1997), e a importncia de sua preservao (Wilson, 1987; Brown, 1991;New, 1995, 1997; Samways, 1995; Erwin, 1997).

    A variedade de processos que ameaam os insetos imensa, e praticamentequalquer nuance de alterao do habitat ou das comunidades possui potencialde afetar alguma espcie sensvel ou especializada (New, 1995; Brown, 1997).No entanto, muitas escalas esto envolvidas na determinao dos habitatsadequados a cada espcie de inseto. Em uma grande rea, uma dada espcie podeocorrer somente em um mosaico de pequenas manchas com topografia,microclima e associaes biticas particulares (Brown & Brown, 1992). Assim,elementos particulares de uma paisagem podem constituir necessidades crticasde habitat de algumas espcies (New, 1995; Samways, 1995). Para que osesforos de conservao biolgica tenham xito necessrio o entendimento dospadres e processos das mudanas dessas paisagens, bem como as respostas queos organismos apresentam a essas modificaes de grande escala (Collinge,2001). Como insetos respondem a praticamente qualquer tipo e intensidade dealterao ambiental, so os melhores indicadores de sua prpria condio deconservao e, algumas vezes, da condio de outros grupos, podendo conse-qentemente ser bons indicadores do sistema como um todo.

    Borboletas

    Borboletas compreendem cinco famlias dentro da ordem Lepidoptera(Papilionidae, Pieridae, Nymphalidae, Lycaenidae e Hesperiidae). A maior parte

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    das borboletas estritamente diurna, mas algumas espcies no crepusculares,voando nas primeiras horas da manh ou no final da tarde. A sistemtica dasborboletas relat