infecções sexualmente transmissíveis na adolescência .sífi lis terciária (após 3 a 12 anos)

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1

Introduo

A adolescncia, perodo compreendido en-tre 10 e 19 anos de idade (OMS), caracterizada por profundas transformaes fsicas e psicos-sociais, pelo despertar da sexualidade e sepa-rao simblica dos pais, com grande infl uncia das particularidades de vida em cada indivduo.

Sentimentos de invulnerabilidade, pensa-mento mgico e atitudes contestadoras so algumas das caractersticas que difi cultam a utilizao efetiva de mtodos anticonceptivos, especialmente dos preservativos, fato que se contrape s recomendaes sobre as prticas sexuais protegidas. Acrescente-se o efeito do

lcool e de outras drogas, frequentemente utili-zadas, causando prejuzos de forma direta sa-de, aumentando os comportamentos de risco e a vulnerabilidade desse grupo1.

A literatura especializada aponta uma lacuna entre o conhecimento sobre os riscos das pr-ticas sexuais desprotegidas e o comportamento dos jovens que, mesmo sabendo das possveis consequncias, continuam a se expor2.

A terceira edio da Pesquisa Nacional de Sade do Escolar - PeNSE, realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatsti-ca, IBGE, em parceria com o Ministrio da Sade e apoio do Ministrio da Educao, revela os se-guintes dados expressivos em relao Sade sexual e reprodutiva3:

Infeces Sexualmente Transmissveis na Adolescncia

Departamento Cientfi co de AdolescnciaPresidente: Alda Elizabeth Boehler Iglesias AzevedoSecretria: Evelyn EisensteinConselho Cientfi co: Beatriz Elizabeth Bagatin Veleda Bermudez, Elizabeth Cordeiro Fernandes,

Halley Ferraro Oliveira, Lilian Day Hagel, Patrcia Regina Guimares, Tamara Beres Lederer Goldberg

Departamento Cientfi co de InfectologiaPresidente: Marco Aurelio Palazzi SfadiSecretria: Analiria Moraes PimentelConselho Cientfi co: Aroldo Prohmann de Carvalho, Jaqueline Dario Capobiango,

Leda Lucia Moraes Ferreira, Maria Angela Wanderley Rocha, Robrio Dias Leite, Silvia Regina Marques

Colaboradores: Andra Lucchesi de Carvalho, Cristiane de Freitas Cunha, Tatiane Miranda

Guia Prtico de AtualizaoD e p a r t a m e n t o s C i e n t f i c o s d e

A d o l e s c n c i a e I n f e c t o l o g i a

N 6, Agosto de 2018

Infeces Sexualmente Transmissveis na Adolescncia

2

1) Iniciao sexual: 27,5% dos escolares brasileiros do 9 ano do ensino funda-mental j tiveram relao sexual alguma vez. Dentre esses, 36,0% eram do gnero masculino, enquanto no gnero feminino esse percentual foi de 19,5%.

2) Uso de preservativo: dentre os 27,5% de escolares que tiveram relao sexual al-guma vez na vida, 61,2% afirmaram ter usado preservativo no primeiro intercur-so. Nos escolares do sexo masculino, esse percentual foi de 56,8% e entre os do sexo feminino, 68,7%. Quanto ltima relao sexual, 66,2% dos escolares se-xualmente ativos responderam ter feito uso de preservativo.

3) Acesso a informaes sobre sexualidade na escola: 87,3% dos escolares do 9 ano do ensino fundamental receberam conhe-cimentos sobre infeces sexualmente transmissveis (IST) e AIDS, sendo pouco mais frequente entre as meninas (88,4%) que entre meninos (86,2%).

Esses aspectos devem instigar o pediatra a ter mais ateno na abordagem das IST de for-ma contextualizada vida dos adolescentes, ou eles no se apropriam do contedo transmitido, e consequentemente no ocorrem mudanas de atitude2.

Epidemiologia

As IST so causadas por vrus, bactrias ou outros microrganismos, transmitidos principal-mente por contato sexual (vaginal, anal e/ou oral) sem o uso de preservativo masculino ou fe-minino, com uma pessoa que esteja infectada. A transmisso pode ainda acontecer de me para fi lho durante a gestao, o parto ou a amamen-tao (transmisso vertical), e pela utilizao de seringas, agulhas ou outro material prfuro cor-tante partilhado4.

A terminologia Infeces Sexualmente Transmissveis (IST) passou a ser adotada em

substituio expresso Doenas Sexualmente Transmissveis (DST), para destacar a possibili-dade de uma pessoa ter e transmitir uma infec-o, mesmo sem sinais e sintomas.

As IST so consideradas como um dos pro-blemas de sade pblica mais comuns em todo o mundo. Os infectados so mais vulnerveis associao de mais de uma IST e existe relao com o aumento da mortalidade materna e in-fantil4.

A Organizao Mundial da Sade (OMS) es-tima em mais de 1 milho de casos novos de IST por dia no mundo. Ao ano, ocorrem cerca de 357 milhes de novas infeces, entre clamdia, gonorreia, sfilis e tricomonase. A presena de uma IST, como sfilis ou gonorreia, aumenta con-sideravelmente o risco de se adquirir ou trans-mitir a infeco por Vrus da Imunodeficincia Humana (HIV). Em especial, a sfilis na gestao leva a mais de 300 mil mortes fetais e neona-tais por ano no mundo, e coloca um adicional de 215 mil crianas com maior risco de morte prematura5.

Na Figura 1 observa-se a comparao entre as taxas de deteco dos agravos notifi cados de sfi lis e a elevao da taxa de incidncia de sfi -lis congnita e das taxas de deteco de sfi lis em gestante e adquirida no perodo de 2010 a 2015.

Abordagem sindrmica das IST

As IST podem ser reconhecidas por meio de sinais e sintomas em comum, que constituem os diagnsticos sindrmicos. Isso permite a instituio de tratamento para as principais doenas por grupo, com terapia combinada, re-duzindo o nmero de pacientes e parceiros no tratados.

Dessa forma, as principais IST so agrupadas em lcera genital, corrimento vaginal e uretral, desconforto ou dor plvica e leses verruco-sas4,6, como especificados nos Quadros 1 a 3.

Departamentos Cientfi cos de Adolescncia e Infectologia Sociedade Brasileira de Pediatria

3

Figura 1. Taxas de deteco de sfi lis adquirida, sfi lis em gestantes e taxa de incidncia de sfi lis congnita, segundo o

ano de diagnstico. Brasil, 2010-2015.

Fonte: Sinan (atualizado em 30/06/2016)

Quadro 1. Principais IST do grupo sindrmico das lceras Genitais conforme patologia, agente etiolgico e alteraes

clnicas

45,0

40,0

35,0

30,0

25,0

20,0

15,0

10,0

5,0

0,0

Taxa

de

dete

co

0,8

17,9

25,2

32,2

42,7

11,8

376,0

7,59,3

11,2

5,0

2010

Adquirida

por 100.000 habitantes por 1.000 nascidos vivos

Gestantes Congnita

2011 2012Ano 2013 2014 2015

2,4 3,3 4,04,8 5,4

6,5

continua...

LCERAS GENITAIS

PatologiaAgente etiolgico

Alteraes clnicas

Sfi lis Treponema pallidum

Sfi lis primria (cancro duro) - 10 a 90 dias aps contato sexual surge lcera nica, indolor, base endurecida, fundo limpo (em pnis, vulva, vagina, colo uterino, nus ou boca). A leso desaparece em duas a seis semanas. Linfoadenopatia indolor;Sfi lis latente precoce (< 1 ano) e tardia (> 1 ano): no h sinais e sintomas, diagnstico por testes sorolgicos;Sfi lis secundria (seis semanas a seis meses aps a infeco) - exantema macular (rosola) ou maculopapular em tronco; leses eritmato-escamosas palmo-plantares; placas eritematosas branco-acinzentadas nas mucosas; leses ppulo-hipertrfi cas nas mucosas ou pregas cutneas; alopcia em clareira, perda de clios e pelos de sobrancelhas (madarose), hepatite, meningite e uvete. Os sinais e sintomas desaparecem em semanas;Sfi lis terciria (aps 3 a 12 anos) - leses cutneo-mucosas (gomas), tabes dorsalis, demncia, aneurisma artico, periostite, ostete gomosa ou esclerosante, artrites, sinovites, ndulos justa-articulares e/ou artropatia de Charcot

Infeces Sexualmente Transmissveis na Adolescncia

4

Fonte: Os autores, compilado a partir das referncias Brasil (2015)4, CDC (2015)6, WHO, Brasil (2014)7.

Quadro 2. Principais IST do grupo sindrmico Corrimento Vaginal ou Uretral conforme patologia, agente etiolgico e

alteraes clnicas

Fonte: Os autores, compilado a partir das referncias Brasil (2015)4, CDC (2015)6, WHO, Brasil (2014)7.

... continuao

LCERAS GENITAIS

PatologiaAgente etiolgico

Alteraes clnicas

Herpes simples Vrus HSV-1 e HSV-2

Na primoinfeco h febre, mal-estar, mialgia, disria e linfadenomegalia inguinal dolorosa bilateral (50% dos casos).Leses: eritemato-papulosas de um a trs milmetros de dimetro, que evoluem para vesculas sobre base eritematosa, muito dolorosas, com contedo citrino (raramente turvo), que se rompem formando pequenas lceras

Cancroide (cancro mole)Haemophilus ducreyi

Mltiplas leses dolorosas, bordas irregulares, contornos eritmato-edematosos e fundo recoberto por exsudato necrtico, amarelado, odor ftido; quando removido surge tecido granuloso de fcil sangramento; Linfadenomegalias dolorosas nguino-crurais (bubo) em 30 a 50% dos casos (unilateral em 2/3 dos casos). Em 50% dos casos evolui para liquefao e fi stulizao (orifcio nico)

Linfogranuloma Venreo Chlamydia trachomatis

Evoluo em trs fases: 1) inoculao: presena de ppula, pstula ou exulcerao indolor; 2) disseminao linftica regional com linfadenopatia inguinal, unilateral em 70% dos casos; 3) sequelas: por supurao e fi stulizao com mltiplos orifcios dos gnglios. Pode ocorrer obstruo linftica crnica com elefantase genital; fstulas retais, vaginais, vesicais e proctite com estenose retal

Donovanose ou granuloma inguinal Klebsiella granulomatis

lceras de bordas planas ou hipertrfi cas, com fundo granuloso, vermelho vivo, de sangramento fcil, com evoluo lenta, podem se tornar vegetantes ou lcero-vegetantes. As leses podem ser mltiplas, bilaterais, em espelho, em bordas cutneas e/ou mucosas. No ocorre adenite, embora possam se formar pseudobubes (granulaes subcutneas) na regio inguinal

CORRIMENT

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