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    36 Encontro Anual da Anpocs

    GT 16 Grupos Dirigentes e Estruturas de Poder

    Industrializao e burocracia econmica no Brasil (1930-1964):

    notas para uma futura comparao com o caso argentino

    Renato Perissinotto

  • 2

    Prebisch observaba: Vargas supo formar cuadros, dio structura

    moderna al Estado brasileo. Vea a Pern: dispers con un gesto

    un equipo que me cost diez ao formar. Decir eso deba dolerle.

    El equipo al que se refera haba dado a la Argentina un avance

    quilomtrico en la investigacin econmica en Amrica Latina, y

    haba hecho del Banco Central una institucin admirada

    internacionalmente (Celso Furtado, apud Donghi, 2004, p. 141,

    nota 5).

    Apresentao1

    O que poderia explicar a impressionante diferena de desempenho entre Brasil e

    Argentina, no que diz respeito exclusivamente ao processo de industrializao? Por que a

    Argentina, potncia econmica mundial no final dos sculos XIX e incio do sculo XX

    (Waisman, 1987, p. 5-9; Di Tella e Dornbusch, 1983, p. XX), foi ultrapassada nesse

    quesito por um pas economicamente muito inferior? Diferentemente de Nova Zelndia,

    Austrlia e Canad, pases com os quais o desempenho argentino normalmente

    comparado, o Brasil se encontrava muito aqum do seu vizinho nos primeiros quarenta

    anos do sculo XX. Embora haja poucos estudos comparativos sobre o processo de

    industrializao no Brasil e na Argentina aps os anos 1930, uma anlise sistemtica dos

    dados produzidos por historiadores econmicos de ambos os pases aponta para uma

    concluso inevitvel: entre os anos 1930 e os anos 1960, o processo de industrializao

    brasileiro foi mais vigoroso, mais sistemtico e mais diversificado. Ao longo desse

    perodo, o crescimento industrial brasileiro foi tornando-se maior em termos de volume

    de produo e de aprofundamento do processo de substituio de importaes. Como

    resultado, constata-se que a Argentina, que se encontrava claramente na dianteira de toda

    a Amrica Latina nos anos 1950, j nos anos 1960 comea a perder terreno para Brasil e

    Mxico, sendo finalmente ultrapassada por ambos nos anos 19702.

    1 Este trabalho fruto de minha pesquisa de ps-doutorado, realizada entre 2011-2012, No Latin American

    Centre, University Of Oxford, sob superviso do professor Diego Sanchez-Ancochea. A pesquisa foi

    financiada pelo CNPq.

    2 Dados comparativos a respeito do processo de desenvolvimento industrial de Brasil e Argentina podem

    ser encontrado em Thorp, 1998; Ffrench-Davis et al., 1998; Sikkink, 1991; Fanjzylber, 1983; Dorfman,

    1983; Baer, 1965; Daz Alejandro, 1970; Corts Conde, 1009, p. 6-8.

  • 3

    Pensamos que a anlise histrica comparativa dos dois pases, a partir da

    literatura especializada, permite eliminar trs tipos de fatores e explicaes para essa

    diferena de desempenho. Na falta de termos mais adequados, chamamos essas

    explicaes de economicista, incidental e politicista. Apresentamos a seguir, muito

    resumidamente, suas caractersticas.

    No primeiro caso (explicao economicista), tende-se a explicar o desempenho

    industrial de Brasil e Argentina como uma resposta natural aos constrangimentos

    impostos aos dois pases (ambos baseados em economias agro-exportadoras) pela crise

    do mercado mundial iniciada em 1929. Resumindo grosseiramente o argumento, afirma-

    se que a reduo do volume e do valor das exportaes, conjugada com o aumento da

    demanda interna por produtos manufaturados, imps a ambos uma estratgia substitutiva

    de importao, o que explicaria a industrializao do ps-19303. Evidentemente, a crise

    na balana de pagamentos gerada pelo crash de 1929 um fato de inegvel importncia

    para os caminhos econmicos trilhados por Brasil e Argentina a partir daquele momento.

    No entanto, esse tipo de explicao tem trs problemas: a) primeiro, a industrializao

    pesada algo que vai muito alm das medidas reativas tomadas logo aps a crise de 1929

    com vistas a proteger a balana de pagamentos; b), por essa razo, a busca da

    industrializao como uma alternativa, sobretudo em pases tardios, algo que deve ser

    percebido e desejado ideologicamente pelos decison-makers4 e no pode ser visto como

    uma resposta natural aos constrangimentos impostos pela crise de 1929; c), por fim, os

    3 Ver, por exemplo, Tavares, 1982; Hamilton, 1981; Baer, 1965, p. 44; Skidmore, 1992, p. 20; Love, 1988,

    p. 7.

    4 Vrios autores insistem nesse aspecto volitivo do processo de industrializao em pases tardios. O

    texto clssico a propsito desse tema o livro de Alexander Gershenkron (1976). Ver tambm

    Hirschman, 1974; Kiely, 1998; Leftwich, 1995; Fanjzylber, 1983; Sikkink, 1991. Essa dimenso volitiva

    de processos sociais complexos reconhecida como fundamental mesmo por analistas que constroem

    modelos explicativos pretensamente estruturalistas. o caso da conhecida anlise de Ellen Kay

    Trimberger (1978) sobre as revolues pelo alto na Turquia, no Japo, no Egito e no Peru. Trimberger

    afirma, logo no incio do livro (p.1), que seu modelo explicativo pretende enfatizar variveis

    macroestruturais e transnacionais. No entanto, ao longo de todo o texto, a autora afirma reiteradas vezes

    que uma das condies necessrias (embora no suficientes) para a irrupo de uma revoluo pelo alto

    no Terceiro Mundo a presena de movimentos nacionalistas e de uma alta burocracia militar politizada

    e portadora de uma ideologia de construo nacional. De fato, uma explicao que levasse em conta

    apenas as condies estruturais desse processo seria francamente insuficiente. Tais condies, por

    definio, podem apenas criar um contexto favorvel ocorrncia de uma revoluo, mas s a presena

    de atores dispostos a realiz-la pode tornar factvel aquilo que apenas estruturalmente possvel.

    Explicar o surgimento desses atores , portanto, parte importante do entendimento do processo de

    produo das revolues. O mesmo argumento vale para o caso dos processos de industrializao que

    pretendemos analisar.

  • 4

    constrangimentos objetivos impostos pelo mercado internacional aos dois pases eram

    muito similares, a resposta dada, porm, foi bastante diferente.

    No segundo caso (explicao incidental), afirma-se que o aprofundamento da

    industrializao no perodo posterior crise de 1929 foi um efeito inesperado, e at

    mesmo indesejado, das medidas de proteo balana de pagamentos tomadas no incio

    dos anos 1930 e que no houve qualquer plano nesse sentido5. So dois os problemas

    desse tipo de explicao: a) primeiro, normalmente ela se baseia numa definio

    extremamente rgida e exigente do que seja um plano, de modo que difcil encontrar

    planejamento mesmo onde ele esteja operando em alguma medida; b) segundo, essa

    abordagem no capaz de explicar as evidentes regularidades do ponto de vista da

    poltica econmica encontrada em ambos os pases. No caso brasileiro, uma persistente

    estratgia de interveno do Estado na economia, por meio de uma sistemtica

    construo de agncias econmicas estatais e de um ambiente ideolgico francamente

    favorvel ao desenvolvimentismo. No caso argentino, o contrrio parece ocorrer.

    Por fim, a explicao politicista tende a avaliar a industrializao de Argentina

    e Brasil como precria e a explicar o seu mau desempenho em funo de uma crnica

    instabilidade poltica. Especialmente quando se trata do caso argentino, argumenta-se que

    a instabilidade poltica teria contaminado a economia, impedido seu desempenho

    sustentvel ao longo do tempo e, por conseguinte, produzido o padro stop-and-go ali

    predominante6. A meu ver, essa abordagem tem fundamentalmente o seguinte problema:

    a instabilidade poltica um atributo presente nos dois casos. Brasil e Argentina passam

    pelo mesmo nmero de golpes de Estado durante o perodo em questo e a rotatividade

    dos ministros da rea econmica extremamente alta em ambos os pases. Portanto, essa

    semelhana no poderia explicar a diferena no desempenho industrial entre ambos os

    pases.

    Novamente, pensamos que a anlise histrica comparativa dos dois pases sugere

    que outros trs tipos de variveis e explicaes devem ser utilizados para fornecer uma

    5 Por exemplo, ver Baer, 1965, ch. 4; Baer et al., 1973; Daland, 1967.

    6 Ver, para o caso argentino, por exemplo, Waisman, 1987, p. 117 ff; Albertini and Castiglioni, 1985, p. 7;

    Dorfman, 1983, p. 572; Pablo, 1989; Pablo, 1980, pp. 31-41. Neste ultimo autor, ver especialmente as

    entrevistas com Rogelio Frigerio, Robert Alemann, Felix Elizalde e Aldo Ferrer. Para o caso brasileiro

    ver, por exemplo, Weffort, 1989; Benevides, 1979; Skidmore, 1992; Loureiro, 1997; p. 150-56; Pablo,

    1980, p. 31-41.

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    resposta adequada quela questo. Tambm por falta de termos melhores, chamamos

    essas explicaes de institucionalista, ideolgica e elitista.

    Do ponto de vista institucional, a literatura indica que preciso analisar trs

    dimenses importantes: a) a dimenso da construo institucional de agncias estatais

    efetivamente voltadas para a formulao e implementao de medidas favorveis

    industrializao; b) a produo de agentes estatais portadores de uma ideologia

    desenvolvimentista que, por sua vez, dedicar-se-o construo de novas instituies

    promotoras da industrializao e c) a construo de u