Indústria Farmacêutica No Brasil

Download Indústria Farmacêutica No Brasil

Post on 17-Nov-2015

11 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Industria Farmacutica/ importante na disciplina de tecnologia farmacutica.

TRANSCRIPT

<ul><li><p>INOVAO FARMACUTICA:PADRO SETORIAL EPERSPECTIVAS PARA O CASOBRASILEIROValria Delgado Bastos*</p><p>* Economista do Defarma/rea Industrial do BNDES.A autora agradece os comentrios de Pedro Palmeira e Luciano Velasco,respectivamente chefe do Defarma e gerente setorial. Erros e omisseseventualmente remanescentes so de responsabilidade da autora. FA</p><p>RMAC</p><p>UTICA</p></li><li><p>O artigo discute os conceitos de inovao tec-nolgica e as perspectivas de apoio inovao na inds-tria farmacutica brasileira, luz do padro de competi-o do setor e a partir da estratgia que vem sendo deli-neada para atuao do BNDES, como instrumento daexecuo da Poltica Industrial, Tecnolgica e de Comr-cio Exterior (PITCE) do governo federal, que incluiu a in-dstria de frmacos e medicamentos entre suas opesestratgicas.</p><p>Inovao Farmacutica: Padro Setorial e Perspectivas para o Caso Brasileiro</p><p>Resumo</p><p>272</p></li><li><p>A farmacutica uma indstria intensiva em pesquisa eque ao longo de sua histria apresentou ritmo acelerado de inova-es implementadas por empresas em estreita relao com outrasinstituies. O lanamento de produtos novos ou melhorados cons-titui elemento central no padro de competio da indstria, pos-sibilitado pela inovao tecnolgica, exigindo elevados investimentosem pesquisa e desenvolvimento (doravante P&amp;D) e que conta, ainda,com amplo respaldo do sistema internacional de propriedade intelec-tual e expressivos gastos em marketing e propaganda.</p><p>Ainda que as inovaes e a P&amp;D subjacente sejam a baseda competio em muitos setores econmicos, na farmacuticaassumem carter estratgico pela situao de oligoplio diferencia-do, pela natureza particular da demanda e do mercado de medica-mentos e pelas suas elevadas externalidades e impactos sociais,ensejando forte apoio governamental.</p><p>O acirramento da competio no setor e os novos desafiosimpostos pelos avanos na rea de biotecnologia e engenharia genticatm resultado em aumento dos gastos em P&amp;D. Estes vm sendoenfrentados por meio de movimentos de reestruturao patrimonial eredefinio de estratgias da indstria farmacutica mundial via fusese aquisies [Magalhes et alii (2003)].</p><p>A indstria farmacutica brasileira apresenta traos parti-culares. A estrutura tpica de oligoplio diferenciado, com presenade um nmero no desprezvel de empresas, mas a parcela relevan-te do mercado est nas mos de poucas firmas, que so subsidiriasdas multinacionais formadoras do grupo das grandes farmacuticasmundiais (big pharmas). Desde o seu nascimento, o faturamento dosetor esteve concentrado em poucas empresas e em forte interna-cionalizao, apesar dos esforos governamentais na dcada de 1980para a construo de um parque nacional fabricante de insumosfarmacuticos.</p><p>Este artigo objetiva apresentar as perspectivas de apoio inovao na indstria farmacutica brasileira, luz do padro seto-rial, com base na estratgia que vem sendo delineada para atuaodo BNDES como instrumento da execuo da Poltica Industrial,Tecnolgica e de Comrcio Exterior (PITCE) do governo federal, queincluiu a indstria de frmacos e medicamentos entre suas opesestratgicas.</p><p>BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 22, p. 271-296, set. 2005</p><p>Introduo</p><p>273</p></li><li><p>Nesse sentido, so comentadas na prxima seo as ca-ractersticas gerais da indstria farmacutica e seu padro de com-petio. Na terceira seo so apresentados os conceitos de inven-o, inovao e P&amp;D, detalhando sua especificidade no caso daindstria farmacutica. Na quarta seo so comentadas a situaogeral da indstria farmacutica brasileira e as perspectivas parainovao, analisando alguns resultados da Pesquisa sobre InovaoTecnolgica (Pintec) realizada pelo IBGE, bem como das aesdesenhadas pelo BNDES para apoio indstria. Na ltima seo soapresentadas as consideraes finais do trabalho.</p><p>A indstria farmacutica desenvolveu-se junto aoprogresso da medicina e ao avano da pesquisa mdica, qumica,biolgica e farmacolgica, a partir do sculo XIX. A fabricao indus-trial de medicamentos envolve atividades de extrao, purificao,sntese qumica, procedimentos de fermentao e o processamentofarmacutico propriamente dito, contando com distintas fontes dematrias-primas. Embora os farmoqumicos (matria-prima origin-ria da sntese qumica de materiais orgnicos) sejam a principal,outras matrias-primas tambm so contempladas, obtidas a partirdo isolamento de substncia medicamentosa encontrada em mate-rial botnico integral ou em seu extrato (fitoterpicos),1 bem como oemprego crescente de matrias-primas de origem biotecnolgica(obtidas a partir de processos que utilizem a biologia molecular).</p><p>A pesquisa orientada para o lanamento de medicamentoscorresponde ao principal exemplo de mudanas pelas quais passoua indstria ao longo de sua histria. Na fase inicial, a maioria dosprodutos era de origem natural e seu desenvolvimento decorria daaplicao por cientistas de prticas teraputicas primitivas, cujas</p><p>Inovao Farmacutica: Padro Setorial e Perspectivas para o Caso Brasileiro</p><p>BreveCaracterizao</p><p>da IndstriaFarmacutica</p><p>CaracterizaoGeral</p><p>274</p><p>1Os f itoterpicos repre-sentam um mercado novo,cujo crescimento s teriasido iniciado na dcada de1960 e cuja importncia emtermos quantitativos aindapequena. As vendas dosmedicamentos fitoterpicosna Europa e nos EstadosUnidos foram de, respecti-vamente, US$ 8,5 bilhes eUS$ 6,3 bilhes em 2000[Pinto (2004)].</p><p>China e ndia5%</p><p>Amrica Latina4%</p><p>Outros3%</p><p>Amrica do Norte47%</p><p>Europa30%</p><p>Japo11%</p><p>Grfico 1</p><p>Mercado Global de Medicamentos, por Regio 2004(Em %)</p><p>Fonte: IMS Health [The Economist (2005)].</p></li><li><p>principais atividades eram a separao e purificao de produtosextrados de plantas ou animais. Posteriormente, essas drogas foramsuplantadas por produtos qumicos sintticos (alguns idnticos sdrogas naturais, mas na maioria modificados e melhorados), passan-do a exigir crescente base cientfica e vultosos gastos na pesquisapara desenvolvimento dos materiais sintticos, melhoria das drogasnaturais e descoberta de drogas com propriedades farmacolgicasaperfeioadas.</p><p>Atualmente, a indstria altamente internacionalizada e mo-vimenta um mercado mundial de cerca de US$ 500 bilhes/ano, con-centrado regionalmente nas naes desenvolvidas2 (Grfico 1) e, ape-sar do grande nmero de fabricantes, dominado por umas poucasmultinacionais, cujas 10 maiores respondem por mais de metade dasvendas do setor3 embora nenhuma detenha, individualmente, participa-o significativa na indstria como um todo (Tabela 1). O mercadotambm concentrado em termos de produtos. Os 10 medicamentosmais vendidos no mundo totalizaram vendas superiores a US$ 50bilhes em 2004 (Tabela 2), com dois redutores de colesterol (o Lipitor,da Pfizer, e o Zocor, da Merck) h anos liderando a lista. Esses sucessosde venda da indstria so denominados blockbusters (ou seja, aquelescom vendas anuais superiores a US$ 1 bilho).4 O setor tambmaltamente lucrativo segundo os padres da indstria e a margemoperacional das grandes farmacuticas de 25% (diante dos 15% parabens de consumo em geral). Envolve diversos atores, entre grandesfabricantes de medicamentos de marca, fabricantes de genricos,5</p><p>laboratrios pblicos, firmas de biotecnologia, organizaes de pes-quisa, universidades, distribuidores e varejistas.</p><p>2Estados Unidos, Unio Eu-ropia e Japo respondempor 85% desse mercado. Oprincipal mercado o norte-americano, com 40% do to-tal, conforme The Econo-mist (2005), alavancado porelevados gastos governa-mentais em sade, da or-dem de US$ 1,8 trilho em2004, dos quais US$ 200 mi-lhes em medicamentos ti-cos (ou seja, que exigemprescrio mdica). Os pa-ses pobres e em desenvolvi-mento detm 80% da popu-lao mundial, embora res-pondam por menos de 20%das vendas farmacuticas[Marques (2002)].</p><p>3Segundo a IntercontinentalMedical Statistics (IMS), hcerca de 10 mil fabricantesde produtos farmacuticos,embora 100 deles sejamresponsveis por cerca de90% de todos os produtosdestinados ao consumo hu-mano.</p><p>4A representatividade dosblockbusters no total dasvendas do setor farmacuti-co aumentou de 18% em1997 para 45% em 2001. Nocaso dos 5 maiores, dadosdo IMS Health indicam queos blockbusters respon-deram por algo entre 48% e80% das vendas totais demedicamentos ticos.</p><p>5Medicamentos genricosso aqueles que contm omesmo frmaco (princpioativo), dosagem, adminis-trao, forma e indicao te-raputica e segurana domedicamento de refernciaou marca (que so aquelesefetivamente inovadores).Os genricos custam inter-nacionalmente de 30% a60% menos que seus equi-valentes de marca, e por is-so seu uso tem sido es-timulado por seguradorespblicos e privados que cus-teiam assistncia farmacu-tica. A participao, em vo-lume, dos genricos nos Es-tados Unidos hoje de 56%e na Alemanha de 40%, aopasso que no Brasil deapenas 9% (Deutshce Bank,2005).</p><p>BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 22, p. 271-296, set. 2005 275</p><p>Tabela 1</p><p>Maiores Empresas da Indstria Farmacutica Mundial, porVendas 2004(Em US$ Bilhes)</p><p>EMPRESA VALOR</p><p>Pfizer 51,1GlaxoSmithKline 32,8Sanofi-Aventis 27,4Johnson&amp;Johnson 24,7Merck 23,9Novartis 22,9AstraZeneca 21,7Roche 17,8Bristol-Myers Squibb 15,6Wyeth 14,3Abbott Laboratories 14,3Eli Lilly 12,7Schering-Plough 6,9Bayer 6,4Fonte: IMS Health, Thomson Datastream [The Economist (2005)].</p></li><li><p>A indstria farmacutica, no caso de medicamentos ti-cos,6 possui caractersticas que diferenciam seus mercados dos de-mais. Tende a apresentar baixa elasticidade-preo da demanda pormedicamentos, em face da essencialidade do produto, e grande as-simetria de informaes entre vendedores e compradores (em virtu-de do desconhecimento acerca de bens substitutos pelo pacien-te/consumidor ou pela capacidade para avaliar a eficcia e os riscosde um medicamento antes, ou mesmo depois, do seu consumo),criando efetivo poder de mercado de vendedores e potencial paragrandes lucros.</p><p>Freqentemente, quem paga pelo medicamento no quemo consome, mas um terceiro (third party payer), representado pelo go-verno ou pelo seguro-sade privado, de modo que o clssico meca-nismo de deciso de consumo (baseada em preos) no funciona eintroduz um elemento poltico na determinao da demanda.</p><p>Cabe destacar, tambm, a natureza fragmentada dos mer-cados relevantes na indstria farmacutica. Do ponto de vista do con-sumidor, no h substitutibilidade entre produtos de distintas classesteraputicas:7 por exemplo, um paciente que necessita de um medi-camento redutor de colesterol no pode substitu-lo por um antibiticoe, assim, a competio ocorre no nvel de cada classe teraputica.Alm disso, a capacitao tecnolgica e a inovao em um mercado(classe teraputica) no asseguram maior probabilidade de sucessoem outros.</p><p>A indstria farmacutica constitui um caso de oligopliodiferenciado, mas em que a competio e a diferenciao de produto</p><p>Inovao Farmacutica: Padro Setorial e Perspectivas para o Caso Brasileiro</p><p>Estrutura ePadro de</p><p>Concorrncia</p><p>276</p><p>6Medicamentos que neces-sitam de receita mdica, de-nominados ticos, respon-dem por cerca de 70% dofaturamento do setor. Nocaso deles, a deciso deconsumir no est nas mosdos consumidores propria-mente ditos, mas dos mdi-cos, ao contrrio do queocorre com os medicamen-tos no-ticos, de venda li-vre, tambm chamados deover the counter (OTC). NoBrasil, a participao dosmedicamentos ticos dequase 90% do mercado (da-dos dos ltimos 12 meses,IMS Health, junho/2005)</p><p>7Classe teraputica corres-ponde ao conjunto de medi-camentos (produtos farma-cuticos para uso humano)que atendem mesma fina-lidade ou funo teraputi-ca. As vendas da indstriaesto concentradas princi-palmente em medicamentoscardiovasculares (25% dototal, com destaque para osredutores de colesterol) e dosistema nervoso central(tambm 25%)</p><p>Tabela 2</p><p>Principais Produtos de Marca Vendidos (Blockbusters):Vendas Globais 2004(Em US$ Bilhes)</p><p>PRODUTO/CLASSE TERAPUTICA PRINCPIO ATIVO VALOR</p><p>Lipitor (redutor de colesterol) Atorvastatina 12,0Zocor (redutor de colesterol) Sinvastatina 5,9Plavix (antitrombtico) Clopidrogel 5,0Nexium (antiulceroso) Esomeprazol 4,8Zyprexa (antipsictico) Olanzapina 4,8Norvasc (anti-hipertensivo) Anlodipina 4,8Seretide/Advair (antiasma) Salmeterol + Fluticasona 4,7Erypo (hematopoiticos) Alfa Eritropoetina 4,0Prevacid (antiulceroso) Lansoprazol 3,8Effexor (antidepressivo) Venlafaxina 3,7Fonte: IMS Health [The Economist (2005)].</p></li><li><p>no se do ao nvel da indstria como um todo, mas de classesteraputicas. Indstrias oligopolistas caracterizam-se pela existnciade significativas barreiras entrada, no existindo competio viapreos, pois as firmas reconhecem a interdependncia de seuscomportamentos e aderem a alguma frmula de fixao de preos.A competio se d, basicamente por meio da introduo de inova-es de processo redutoras de custos e que refletem economias deescala, no caso do oligoplio homogneo, ou pela introduo deprodutos, no caso do oligoplio diferenciado (e tambm diversifica-o de atividades possibilitada pelo domnio de tecnologias aplic-veis em outras indstrias)8 [Guimares (1982)].</p><p>A diferenciao de produto corresponde introduo deuma mercadoria que substituta prxima de alguma outra previa-mente produzida, abrindo a possibilidade de alguma forma de com-petio no interior da indstria, e ocorre pela mudana real ouaparente nas caractersticas do produto (especificao modificadaou melhoria de sua qualidade, real ou em funo do esforo devendas via propaganda).</p><p>A diferenciao de produtos como padro de competioimplica a necessidade da busca contnua de inovao de produtopela firma para manter ou mesmo ampliar sua participao nomercado, requerendo o engajamento sistemtico em atividades deP&amp;D9 que assegurem um fluxo permanente de inovaes a seremlanadas no mercado ou mantidas em estoque para eventuais ata-ques de competidores. O lanamento de produtos no mercado de-pender da capacidade de inovao da firma, principalmente emsetores baseados na cincia, em que a transferncia e o licencia-mento de tecnologia no so usuais.</p><p>No por outro motivo que poucas indstrias destinamtantos recursos para P&amp;D quanto a farmacutica (algo em torno de14% das vendas), superando setores como software (11%), compu-tadores (10%) e eletrnica (7%) [IFPMA (2004)]. Gastos totais emP&amp;D das firmas farmacuticas e de biotecnologia10 alcanaramquase US$ 50 bilhes em 2002 s nos Estados Unidos a indstriagastou mais em pesquisa do que o governo atravs dos NationalInstitutes of Health (NIHs), cujo oramento total foi de US$ 27 bilhes.</p><p>A introduo de produtos novos ou melhorados e a inova-o dependero, portanto, de uma deciso da firma, pressupondo aexistncia de mercados e apoiada em agressivas campanhas demarketing altamente especializado e esforo de venda como ocorrena indstria farmacutica. Isso explica os baixos investimentos paradesenvolvimento de medicamentos destinados a doenas denomi-nadas pela organizao internacional Mdicos Sem Fronteiras comonegligenciadas (doenas tropicais e tuberculose), apesar da grandeincidncia em pases de baixa renda e/ou reduzido nvel de desen-</p><p>BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 22, p. 271-296, set. 2005 277</p><p>8Na indstria farmacutica,cabe destacar a diversifica-o das empresas, a partirdas dcadas de 1980 e1990, passando a produzirgenricos (cpia fiel de ummedicamento de marca cujodireito exclusivo/monopliode fabricao deixou deexistir com o fim do prazo devigncia da patent...</p></li></ul>