incio karitiana

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  • i

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA

    DEPARTAMENTO DE EDUCAO INTERCULTURAL

    LICENCIATURA EM EDUCAO BSICA INTERCULTURAL

    ACADMICO: INCIO KARITIANA

    ORIENTADOR: JOO CARLOS GOMES

    PROCESSOS PRPRIOS DE EDUCAO DO POVO KARITIANA

    JI-PARAN - RO

    2015

  • ii

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA

    DEPARTAMENTO DE EDUCAO INTERCULTURAL

    LICENCIATURA EM EDUCAO BSICA INTERCULTURAL

    PROCESSOS PRPRIOS DE EDUCAO DO POVO KARITIANA

    Trabalho de Concluso do Curso apresentada

    Fundao Universidade Federal de Rondnia

    UNIR, Campus de Ji-Paran/RO,

    Departamento de Educao Intercultural, como

    requisito de concluso da Licenciatura em

    Educao Bsica Intercultural na Habilitao

    em Educao Intercultural no Ensino

    Fundamental e Gesto, sob a orientao do

    Professor Doutor Joo Carlos Gomes.

    JI-PARAN - 2015

  • iii

  • iv

    AGRADECIMENTOS

    A Deus por Ele ter me cuidado nos momentos que passei longe da minha famlia;

    minha esposa Sara Karitiana pela pacincia e compreenso nos momentos que passei longe

    dela em busca da minha formao no Ensino Mdio (projeto Aa) e no ensino superior

    (Licenciatura em Educao Bsica Intercultural);

    minha comunidade nas aldeias Central e Rio Candeias (Byyjyty Osop Aky) pelo apoio,

    especialmente aos meus alunos e alunas que resistiram s minhas ausncias para que pudesse

    estudar;

    s lideranas da minha comunidade por terem me apoiado e contribudo para a minha pesquisa;

    s instituies SEDUC, APK, CIMI e FUNAI que sempre colaboraram com a minha formao,

    colocando-se disposio quando precisei, dando apoio no meu deslocamento da aldeia para a

    cidade e da cidade para a aldeia, no transporte terrestre;

    Universidade Federal de Rondnia (UNIR) campus de Ji-Paran pelo investimento e

    oportunidade que proporcionou na minha formao do ensino superior;

    Ao Departamento de Educao Intercultural que investiu na minha formao na Licenciatura

    em Educao Bsica intercultural, Habilitao de Formao de Professores para Sries Iniciais

    e Gesto da Escola Indgena;

    Aos professores e professoras: Joo Carlos Gomes, Edinia Aparecida Isidoro, Genivaldo Frois

    Scaramuzza, Jos Joaci Barboza, Kcio Gonalves Leite, Maria Lcia Cereda Cmide, Luciana

    Castro de Paula, Reginaldo de Oliveira Nunes e Cristvo Teixeira Abrantes, que colaboraram

    e tiveram pacincia quando eu no interpretava os assuntos corretamente durante o meu curso

    e a minha formao.

  • v

    UMA FRASE

    A Educao pode existir livre e, entre todos, pode ser uma

    das maneiras que as pessoas criam para tornar comum, como saber,

    como ideia, como crena, aquilo que comunitrio como bem, como

    trabalho ou como vida.

    Brando, 2010.

  • vi

    RESUMO

    O presente estudo tem o objetivo de apresentar reflexes sobre os processos prprios de

    educao do Povo Karitiana. Diante da dificuldade instalada na instituio escolar para

    compreender a infncia e a adolescncia, de fundamental importncia saber como os povos

    indgenas as compreendem. Neste sentido, este estudo mostra como o Povo Karitiana organiza

    a educao da criana e do jovem. Com este estudo possvel reconhecer como ocorrem os

    processos prprios de educao do Povo Karitiana nos diferentes espaos de ensino-

    aprendizagem da comunidade. O estudo mostra que os saberes indgenas no ocorrem por meio

    de normas e regras de comportamento, mas atravs da observao, revela ainda que esses

    processos de ensino-aprendizagem tm a funo de levar a criana e o jovem compreenso e

    promoo dos seus espaos na comunidade. Dessa forma, a educao indgena est cheia de

    aes pedaggicas diferenciadas que estabelecem uma viso integrada do desenvolvimento da

    criana com base na identidade cultural do Povo Karitiana. Portanto, este estudo mostra que os

    diversos espaos da comunidade proporcionam a construo de processos prprios de ensino-

    aprendizagem. Com este estudo possvel identificar os espaos de natureza e cultura para a

    organizao dos processos pedaggicos de ensino-aprendizagem da educao escolar indgena.

  • vii

    SUMRIO

    RESUMO ................................................................................................................................................ vi

    APRESENTAO ...................................................................................................................................... 1

    CAPTULO I .............................................................................................................................................. 5

    A HISTRIA DA MINHA FORMAO NA EDUCAO ESCOLAR INDGENA ........................................... 5

    1.1. As minhas primeiras letras ..................................................................................................... 6

    1.2. As primeiras experincias na educao escolar indgena ..................................................... 6

    1.3. A primeira experincia como educador ................................................................................. 8

    1.4. A conquista da Licenciatura em Educao Bsica Intercultural .......................................... 10

    1.5. O projeto de alfabetizao na lngua Karitiana ........................................................................ 13

    CAPTULO II ........................................................................................................................................... 14

    O ETNOCONHECIMENTO DO POVO KARITIANA .................................................................................. 14

    2.1. A origem cosmolgica do Povo Karitiana ................................................................................. 15

    2.2. Histria do contato: das brigas de grupo aos seringueiros e o SPI ............................................. 16

    2.3. Um relato do contato com os seringueiros ................................................................................. 18

    2.4. As relaes entre indgenas e no indgenas .............................................................................. 19

    CAPTULO III .......................................................................................................................................... 22

    RESULTADOS DA PESQUISA ................................................................................................................. 22

    3.1. A importncia da escolha do tema ........................................................................................... 23

    3.2. Aprendizagem do Povo Karitiana antes do contato ................................................................... 25

    3.3. O que significa educar e aprender .............................................................................................. 27

    3.4. Como se concebe o conhecimento e sua transmisso ................................................................ 28

    3.5. Quais as modalidades de educao e lugares de ensino-aprendizagem? ................................... 29

    3.6. Como inserida a criana nesses espaos? ................................................................................ 30

    3.7. Qual a concepo de criana que se tem na comunidade, na escola e na famlia? .................. 31

    3. CONSIDERAES FINAIS ............................................................................................................ 32

    5. REFERNCIAS ................................................................................................................................ 35

  • 1

    APRESENTAO

    A partir da Constituio Federal de 1988 se inicia um novo marco histrico na

    organizao da educao escolar indgena com maior reconhecimento dos direitos

    diferenciados desses povos. Com a transferncia das competncias das polticas pblicas dessa

    educao escolar da Fundao Nacional do ndio (FUNAI) para o Ministrio da Educao

    (MEC), houve vrias regulamentaes e suas aes foram institudas reconhecendo o carter

    de aculturao e de destruio de tais povos nos processos de escolarizao ofertados. Na

    atualidade esses processos se constituem em espaos de reconhecimento tnico e de construo

    coletiva de conhecimentos que refletem as expectativas e os interesses de cada grupo tnico,

    fundamentados nas organizaes sociais, costumes, lnguas, crenas e tradies dos povos

    indgenas, bem como nos seus processos prprios de transmisso do saber e do poder

    (OLIVEIRA e NASCIMENTO, 2012, p. 775).

    Neste cenrio, o reconhecimento dos direitos diferenciados dos povos indgenas teve

    como marco a Constituio Federal de 1988 e sua regulamentao pela Lei de Diretrizes e Bases

    da Educao Nacional (LDB 9394/1996), em consonncia com o disposto na Conveno 169

    sobre Povos Indgenas e Tribais em Pases Independentes, da Organizao Internacional do

    Trabalho (OIT) de 1989, promulgada no Brasil em 2004. Esses documentos formam uma base

    positivista da legislao1 e tm afastado os ideais de proteo e integrao das populaes ndias

    e outras populaes tribais e semitribais, presentes na Conveno 107, de 1957, do mesmo

    organismo internacional. A Conveno 169 assegura avanos significativos para o

    reconhecimento dos direitos diferenciados dos povos ndios.

    Por outro lado, a Conveno do OIT de 1989 no assegura mais o termo populaes,

    que antes possui um sentido semntico considerado historicamente associado ideia de

    transitoriedade ao proclamar o direito autoidentificao,