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Impactos das transformaes institucionais e do progresso tcnico sobre os fornecedores de cana do Estado do Paran: uma abordagem preliminar1

Pery Francisco Assis Shikida

Sebastio Neto Ribeiro Guedes Eliana Tadeu Terci

Maria Thereza Miguel Peres Alice de Paula Peres

Rafaela Brustolin

Resumo: Este trabalho faz parte de uma proposta maior articulada numa parceria multi-institucional (envolvendo um grupo de pesquisadores) e tem como objetivo identificar, diagnosticar e analisar as modificaes recentes nas relaes econmicas entre usinas e fornecedores de cana dos estados de So Paulo e Paran no contexto das modificaes organizacionais, tecnolgicas e do ambiente institucional da agroindstria canavieira brasileira, via aplicao de questionrios e entrevista. Neste texto, analisam-se os impactos das transformaes institucionais e do progresso tcnico sobre os fornecedores de cana-de-acar do Paran. Como corolrio, pode-se inferir - no geral - que esse fornecedor comumente possui extenses de terras numa faixa mdia de 235,9 hectares, seu domiclio no campo pode ser considerado bom, e so poucos aqueles que no tem outras fontes de renda fora da ocupao de fornecedor de cana. A produtividade obtida est no patamar acima da mdia paranaense, mormente em funo da ateno dada para questes de melhoria tecnolgica. O plantio feito mediante uso de mo-de-obra assalariada (safristas e diaristas) e/ou familiar, contratada pela usina ou fornecedor. Dois tipos de contratos norteiam a colheita da cana: cana em p (a cargo da usina) e a cana na esteira (a cargo do fornecedor). Houve manifestao quanto queda dos preos da cana e piora na sistemtica de pagamento (por ATR). Para sobreviver no ambiente institucional e de mercado ps-desregulamentao, coube ao fornecedor a congregao na CANAPAR, como forma de defesa dos direitos e interesses da categoria, pari passu ao desenvolvimento tcnico e econmico da lavoura canavieira. Palavras-chaves: agroindstria canavieira, fornecedor, desregulamentao, Paran

1. Introduo

A agroindstria canavieira brasileira uma das atividades mais antigas do Pas, estando ligada a muitos eventos histricos da economia nacional, a ponto de tornar-se importante fonte de renda e de ter dado origem ao ciclo do acar. Na safra 2002/2003 foram produzidas cerca de 317.229.333 toneladas de cana-de-acar, 22.425.014 toneladas de acar e 12.451.750 m3 de lcool, o suficiente para caracterizar o Pas como o maior produtor mundial de cana-de-acar, acar e lcool e o maior exportador mundial de acar (em 2002 foram exportadas 13.354.331 toneladas de acar, que significaram divisas da ordem de US$ 2.093.643.745 - cumpre salientar que o custo de produo da cana-de-acar brasileira est no patamar de US$ 130/tonelada contra US$ 334/tonelada dos principais exportadores). Segundo estimativas, a agroindstria canavieira movimenta anualmente cerca de US$ 12 bilhes, sendo US$ 2,8 bilhes em impostos (ALCOPAR, 2004c e 2004d; WAACK & NEVES, 1998). Atualmente vem ocorrendo um processo de desregulamentao da agroindstria canavieira nacional, desencadeado inicialmente no incio dos anos 90. O papel do Estado mudou, ele agora mais de coordenador do que interventor (VIAN, 2003, p.11). Diante disso, as mudanas institucionais que ocorreram no setor tm influenciado as decises dos

1 Os autores so gratos s pessoas do Sr. Paulo Jos Buso Jnior, Carlos A. da Silva, Vagner Roni Archangelo, Ademar Moises T. Vilas Boas, Clvis Domingos, Elisangela Cristina Pereira e Poliana Viana de Oliveira, todos da CANAPAR, pela disponibilidade e presteza com que auxiliaram todo o processo de pesquisa de campo.

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agentes econmicos, seja ele usineiro, fornecedor, indstria automobilstica, exportador, etc. A modernizao agrcola e industrial tornou-se condio sine qua non para sobrevivncia nesse mercado, em que a adoo de diferentes estratgias competitivas deixa evidente a diversidade de interesses (VIAN, 2003). Por exemplo, novas articulaes de capitais no complexo canavieiro esto ocorrendo, como as fuses, aquisies e formao de alianas estratgicas entre empresas e grupos econmicos (ALVES, 2002a). Diante desse cenrio competitivo, muitas unidades produtivas, mal acostumadas com o paradigma subvencionista que reinou na agroindstria canavieira at o incio dos anos 90, sucumbiram. Destarte, predomina na agroindstria canavieira a lgica de acumulao intensiva, seja com progresso tcnico, reduo do emprego, e/ou aumento da produo diferenciada (acar lquido, invertido, orgnico, etc.). E, por trs dessa lgica, existe um contingente expressivo de fornecedores de cana que esto deixando de produzir.

Em relao aos fornecedores de cana do Paran (o ranking brasileiro estabelece a liderana ao Estado de So Paulo, em rea, produo e derivados de cana-de-acar. O Paran o 3 colocado, sendo Alagoas o ocupante da 2a posio. A vantagem comparativa do Paran, cabendo-lhe a liderana nacional, reside na sua produtividade mdia - ZAMPIERI, 2000) esse panorama setorial no diferente da realidade nacional. Como resultado das mudanas que vm acontecendo nessa agroindstria, pode-se observar, no seio desta categoria, duas tendncias: a reduo do nmero de fornecedores e o crescimento de prticas de novas parcerias, arrendamento ou compra de terras pertencentes aos fornecedores pelas usinas. Este aspecto de suma relevncia: parece bvio supor que o progresso tcnico tem eliminado progressivamente a categoria dos proprietrios fornecedores, no entanto esta categoria pode estar ressurgindo numa outra condio, no mais como proprietrio, mas numa das outras formas subordinadas s usinas.

Isto posto, este trabalho tem como escopo analisar, em carter exploratrio, os impactos das transformaes institucionais e do progresso tcnico sobre os fornecedores de cana do Estado do Paran, mediante busca de dados primrios, via aplicao de questionrios junto aos fornecedores de cana e entrevista com a diretoria da Associao dos Plantadores de Cana do Paran (CANAPAR). Com este propsito, busca-se recuperar o fornecedor de cana do Paran como objeto de estudo, uma vez que esse grupo social est praticamente circunscrito ao fornecimento de cana em somente duas usinas, qual seja, Jacarezinho e Dacalda. No se verificam mais fornecedores nas outras unidades paranaenses, quer dizer, a cana-de-acar ou oriunda de cana prpria, acionistas ou associados.

Este estudo contm cinco partes, incluindo esta introduo. feita na segunda parte uma concisa reviso de literatura, no qual destacam-se aspectos da evoluo da agroindstria canavieira no Brasil e Paran. Na terceira e quarta parte expem-se, respectivamente, o material e mtodos que balizam este estudo e os resultados e discusses derivados da aplicao de questionrios e entrevista. Por ltimo, expem-se as consideraes finais.

2. Reviso de literatura 2.1 Notas sobre a evoluo da agroindstria canavieira no Brasil e Paran

Em carter sinttico, pode-se dizer que a cana-de-acar foi trazida para o Brasil ainda no perodo colonial, tendo se expandido em faixas litorneas, ocupando terras das capitanias de Pernambuco (durante o ciclo do acar 1530 a 1650 Pernambuco viria a tornar o maior produtor do mundo), Bahia de Todos os Santos, So Tom (Rio de Janeiro) e So Vicente (So Paulo). Com o passar dos sculos o Centro-Sul foi a regio que melhor se consolidou em termos de economia canavieira, pelo fato da mesma apresentar maiores vantagens locacionais (tais como proximidade dos grandes centros consumidores nacionais, condies edafo-climticas favorveis e elevada concentrao tcnica-econmica em torno dessa atividade) (SZMRECSNYI, 1979; RICCI et al., 1994).

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O Paran colonial apresentava uma economia baseada fundamentalmente no setor de subsistncia, e nenhuma influncia no setor aucareiro, espao que aps longo tempo veio a conquistar. O Paran teve a minerao, o tropeirismo, a explorao da erva-mate, da madeira e, mais recentemente, o caf como produtos/atividades principais durante dcadas. Com efeito, a falta de capital e terras necessrias, dentre outros fatores, contribuiu para a no tradio do estado na produo de cana-de-acar (SHIKIDA, 2001).

No obstante esta falta de tradio do Paran na cultura canavieira nacional, e de acordo com dados do ANURIO AUCAREIRO (1935 e 1940), este estado possua at 1935 316 engenhos, o que representava cerca de 1,3% do total de engenhos do Pas para o processamento do acar e derivados como lcool, aguardente e rapadura, localizados em sua maioria no norte paranaense.

Um relativo avano da cana-de-acar no Paran ocorreu aps a crise de 1965-67, que afetou seriamente o setor cafeicultor. Porm, o Governo Federal, que era o maior agente financiador na construo de usinas, no dispensou devida ateno s necessidades deste estado, por considerar que a falta de experincia neste ramo traria muitos riscos (SHIKIDA, 2001). Ademais, segundo BELIK (1992), outros estados (principalmente So Paulo) orquestraram bem seus interesses de modo a concentrar em sua esfera produtiva (da cana-de-acar) no s grande aporte tecnolgico como de recursos.

O recrudescimento da cultura canavieira no Paran ocorreu, de fato, a partir da criao do Programa Nacional do lcool (Prolcool), em 1975, que consistia em substituir a gasolina pelo lcool combustvel, procurando, dentre outros escopos, reequilibrar as contas externas do Brasil - oneradas devido ao preo do petrleo ter quadruplicado (nessa poca, o Pas dependia em 80% do petrleo advindo do exterior). Este Programa impulsionou o crescimento das unidades produtivas, com grande apoio governamental.2 Enquanto isso, o Paran dava importantes passos para conquistar seu espao neste setor: se em 1937 detinha 0,1% da quantidade produzida de cana do Brasil, em 1977 este nmero j representava 2,5% (ANURIO ESTATSTICO DO BRASIL, 1930/40 e 1980).

(...) a agroindstria canavieira do Paran entrou com maior fora no Prolcool so

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