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REVISTA LUMEN ET VIRTUS

V O L . V I I I N 1 9 A G O S T O / 2 0 1 7

I S S N 2 1 7 7 - 2 7 8 9

Jack Brando & Slvio Queiroz Guariniello

Pg. 171

IMMANUEL KANT E PAULO FREIRE: A ESCOLA, OS EDUCANDOS

E A QUESTO DA AUTONOMIA

Prof. Dr. Jack Brando1

http://lattes.cnpq.br/0770952659162153

Prof. Slvio Queiroz Guariniello2

http://lattes.cnpq.br/6333411212808891

RESUMO Este artigo pretende analisar o conceito iluminista de autonomia na

educao por meio do pensamento pedaggico de Kant, cujo princpio tem por base a

utilizao da razo universal para identificao e superao da condio de minoridade

do indivduo. Em Freire, temos uma adaptao do pensamento filosfico e

pedaggico do filsofo alemo, cujo foco abordagem da autonomia no sentido

social, poltico e pedaggico. Assim, enfocaremos a concepo de educao e

autonomia em Kant, enfatizando o imperativo categrico da vontade, da sensibilidade

e do entendimento; para, em seguida, analisarmos o conceito pedaggico de

autonomia a partir das reflexes de Freire, a fim de buscarmos uma melhor aplicao

autonomia em nossas escolas.

PALAVRAS-CHAVE Educao, autonomia, razo, libertao, conscientizao.

ABSTRACT This article intends to analyze the Enlightenment concept of

autonomy in education through the pedagogical thought of Kant, whose principle is

based on the use of the universal reason for identification and overcoming the

condition of minority of the individual. In Freire, we have an adaptation of the

philosophical and pedagogical thought of the German philosopher, whose focus is

the approach of autonomy in the social, political and pedagogical sense. Thus, we will

1

Jack Brando Mestre e Doutor em Literatura pela Universidade de So Paulo (USP), Professor

Titular do Mestrado Interdisciplinar em Cincias Humanas da Universidade de Santo Amaro

(UNISA/SP) e coordenador do Grupo de Pesquisa CONDESIM-FOTS/DGP-CAPES, e-mail:

jackbran@gmail.com.

2

Slvio Queiroz Guariniello Mestrando em Cincias Humanas pela Universidade de Santo Amaro

(UNISA/SP), especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar/SP e membro do Grupo de Pesquisa

CONDESIM-FOTS DGP/CAPES.

http://lattes.cnpq.br/0770952659162153http://lattes.cnpq.br/6333411212808891mailto:jackbran@gmail.com

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focus on the conception of education and autonomy in Kant, emphasizing the

categorical imperative of will, sensitivity and understanding to analyze the

pedagogical concept of autonomy from Freire's reflections in order to seek a better

autonomy application in our schools.

KEYWORDS Education, autonomy, reason, freedom, awareness.

O homem pode ser ou treinado, disciplinado,

instrudo, mecanicamente, ou ser em verdade

ilustrado. Entretanto, no suficiente treinar as

crianas, urge que aprendam a pensar.

(Immanuel Kant)

Introduo

A educao, em nossos dias, mais que meramente disciplinar deve ser capaz de

trazer contribuies interdisciplinares, a fim de que os educandos possam, por meio

de uma reflexo filosfica, enxergar o mundo que os cerca de maneira crtica,

posicionando-se de forma coerente, estruturada e lgica a respeito de assuntos de seu

cotidiano e do mundo que os cerca.

No entanto, para que isso seja possvel, tal reflexo deve se fazer presente em

um modelo educacional voltado para o desenvolvimento da autonomia dos

educandos, bem como de sua formao humanstica. Dessa maneira, e visando a tais

objetivos, empregaremos, ao longo deste texto, conceitos desenvolvidos por Kant e

por Freire, para que possamos atingir uma escola pblica de qualidade.

Como no modelo de Paulo Freire no pode haver nenhum tipo de excluso

sejam por limitao fsica ou intelectual, por se pertencer a uma minoria tnica ou

religiosa, por cerceamento de alguns em relao quilo que se pode ou no aprender ,

todos, independentemente de suas limitaes, escolhas ou opes, tm o direito de

participar da formao social, poltica e educacional que compe tal rede de ensino.

Isso porque a educao de qualidade deve ser vista como mecanismo de incluso

social, de superao das desigualdades e de realizao da cidadania.

Mas, para que isso ocorra, necessrio enfrentar e superar desafios explcitos e

implcitos do mundo moderno no que se refere a tentativas de manipulao ou de

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opresso impostas por uma elite dominadora. Esta, acreditando ser proprietria da

verdade (FREIRE, 2005), impe suas prprias imagens do mundo, no em sua

totalidade, mas esfacelada, de forma velada, empregando, para isso os mass media.

O conhecimento, porm, deve-se destinar a todos, independentemente da

classe social, e apenas alcanado pelo uso da ratio e de sua aplicao prtica no

cotidiano. Mas, para que isso acontea, a transformao deve partir de dentro para

fora, quando nos tornamos responsveis pelo nosso prprio destino: criando,

construindo, admirando o que somos capazes de fazer, bem como nos aventurando

em buscar novas habilidades. Nunca se nos mantivermos presos na caverna, aceitando

meras sombras como se fossem objetos a realidade.

Assim, diante das transformaes pelas quais a sociedade atual passa, os

profissionais de ensino precisaro saber como lidar com conflitos e desencontros.

necessrio ter competncia para buscar novas alternativas que atendam aos interesses

da comunidade escolar, bem como compreender que sua qualidade depender da

participao ativa de todos, respeitando a individualidade de cada um e buscando, nos

conhecimentos individuais, novas fontes para enriquecer o trabalho coletivo.

A formao tica deve ser o ponto essencial da escola do presente e o da escola

do futuro. Perante um mundo que prega o individualismo, o consumismo exagerado,

a banalizao da violncia e do sexo, entre outras vicissitudes, primordial formar

valores e atitudes comportamentais, no por imposio, mas por uma disposio de

dilogo consensual, cuja base se apoie na racionalidade das normas jurdicas que

modelaro o perfil de um bom cidado.

Concepo de educao

e autonomia kantiana

A partir do conceito de educao e de autonomia de Kant, aventamos a

seguinte questo: a educao possibilita ao ser humano desenvolver a capacidade e a

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coragem de sair do estado de menoridade e alcanar, progressivamente, a maioridade,

rumo maturidade? Segundo o filsofo alemo, o

Iluminismo [Aufklrung] a sada do homem de sua menoridade, da qual ele

prprio culpado. A menoridade a incapacidade de fazer uso de seu

entendimento sem a direo de outro indivduo. O homem o prprio

culpado dessa menoridade se a causa dela no se encontra na falta de

entendimento, mas na falta de deciso e coragem de servir-se de si mesmo sem

a direo de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu prprio

entendimento, tal o lema do esclarecimento. (KANT, 2005, p. 63)

Ao basear-se em trs vertentes: natureza, razo e progresso (REALE,1990), o

movimento iluminista surge como portador de uma viso unitria do mundo e do

homem, cujo princpio fundamental era a completa confiana na razo humana, em

sua inteligncia, sua independncia e sua liberdade de pensamento. A natureza

representa tudo aquilo que bom e est organizado de forma ordenada; a razo, por

sua vez, o instrumento que possibilita sua aplicao; j o progresso resume os ideais

do perodo.

Desde o surgimento da filosofia moderna ocorrida no sculo XVII, os

pensamentos filosficos se voltaram para o foco de uma mudana da abordagem do

que sabemos para como sabemos. Essa virada epistemolgica teve incio com

Descartes, cujo foco era duvidar de tudo o que no conhecido com toda certeza.

(LAW, 2011) Assim, a contribuio do pensamento racionalista de Descartes ao

movimento iluminista foi o fato de que as pessoas nasceram com as ferramentas e as

habilidades para questionar e buscar respostas para seu questionamento, sendo

considerado um dos pilares do desenvolvimento progressista. (REALE, 1990)

Na concepo iluminista, o ser humano quer saber como tudo funciona; a

dvida, ou o ato de duvidar, a base elementar e

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