immanuel kant - .a explicação essencial da falta de credibilidade da metafísica tem a ver com

Download Immanuel Kant - .A explicação essencial da falta de credibilidade da metafísica tem a ver com

Post on 24-Jan-2019

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Immanuel Kant

    Introduo ao Pensamento de Kant: A resposta questo O que o homem?

    PRLOGO

    Kant um filsofo cujo pensamento foi por diversas vezes interpretado como o mais qualificado

    "certificado de bito" que se passou metafsica. Esta reputao est, contudo, longe da verdade.

    Como veremos. Kant ir suprimir um determinado tipo de metafsica mas no a metafsica.

    O que a metafsica? uma disciplina cujos objectos de estudo so realidades que transcendem o

    campo da nossa experincia. Para Kant os problemas metafsicos so, fundamentalmente, trs: Deus.

    Imortalidade da alma e liberdade. Ao longo da sua histria a metafsica tem sido a tentativa de

    responder cientificamente a estas trs questes essenciais da razo humana.

    Qual a situao da metafsica no tempo de Kant? O quadro no famoso: ela um campo de

    disputas constantes e interminveis, nenhuma tese obtm unanimidade, reina a discrdia. Esta

    ausncia de consenso no , contudo, um dado recente mas sim uma constante da prpria histria da

    metafsica. A aventura metafsica, desde os seus primrdios, tem sido a sucesso de "guerras

    internas" que bloquearam o seu desenvolvimento e arruinaram o seu crdito junto da comunidade

    dos sbios e dos intelectuais. Contudo, nota imediatamente Kant, o descrdito e o desprezo de que

    so alvo os metafsicos no deve conduzir-nos ao desprezo e indiferena perante os problemas de

    que trata a metafsica: Deus, liberdade e imortalidade da alma. A metafsica apesar do descrdito em

    que caiu um "destino singular da razo humana", corresponde a uma vocao natural, que no pode

    ser recusada. prprio do homem procurar resposta para os grandes problemas metafsicos. A

    metafsica uma necessidade humana que nunca desaparecer.

    Ao longo da sua histria a metafsica tem tido uma pretenso fundamental: constituir-se como

    conhecimento cientfico de realidades que esto para l da experincia. O que tem acontecido at

    agora? A metafsica, ao contrrio da Fsica e da Matemtica, no conseguiu encontrar o caminho do

    conhecimento seguro e digno de crdito. Ento temos razes para duvidar da possibilidade de um

    conhecimento cientfico de realidades metafsicas. At agora a metafsica no conseguiu constituir-

    se como cincia. Ser que esse insucesso se deve incapacidade dos pensadores que abordaram os

    problemas metafsicos ou ser que isso se deve ao facto de a metafsica no poder ser mesmo uma

    cincia? A resposta de Kant muito simples: a razo humana no pode evitar as questes metafsicas

    so o seu destino mas no capaz de lhes dar uma resposta cientfica. Ao colocar a questo da

    cientificidade da metafsica Kant no esconde que a resposta est dada: a metafsica no uma

    cincia. Tatar simplesmente de mostrar por que razo ela no o pode ser. Assim iremos ver Kant

    perguntar em que condies possvel o conhecimento cientfico, ou seja, como conhecemos e o que

    podemos conhecer cientificamente. Definidas e explicitadas as condies gerais do conhecimento

    cientfico demonstra-se ao mesmo tempo que no podemos conhecer realidades metafsicas.

    A explicao essencial da falta de credibilidade da metafsica tem a ver com o facto de que os

    filsofos, que a pretenderam transformar numa cincia, usaram de uma forma dogmtica uma

    faculdade chamada razo. Confiaram cegamente nas capacidades desta e no investigaram se estava

    no poder da razo responder cientificamente s questes metafsicas. Se o tivessem feito

    descobririam que a soluo cientfica desses problemas ultrapassa o poder da razo.

    Para evitar que cada qual fabrique uma metafsica a seu modo (para evitar, no fundo, que a filosofia

    seja um interminvel campo de batalhas, em que todos se reconhecem vencedores e em que nada de

    positivo se produz) Kant vai criticar (analisar, determinar capacidades e limites) no este ou aquele

  • filsofo mas sim a prpria Razo. Da a obra que descreve este "julgamento", a Crtica da Razo

    Pura, merecer o nome de "Autocrtica da Razo".

    A anlise dos poderes e limites da prpria Razo vai determinar que ela incapaz de resolver as

    questes metafsicas de forma cientfica e que s pode justificar a sua crena nas realidades

    metafsicas. Assim, julgava Kant, j no se poder escrever metafsica ao gosto de cada filsofo mas

    sim de acordo com as capacidades da razo enquanto tal.

    A atitude de Kant acerca da metafsica corresponde a um projecto de reabilitao. No podemos ver

    em Kant o "coveiro" da metafsica: a negao da metafsica enquanto cincia no implica a negao

    da metafsica. Bem pelo contrrio, s negando metafsica um estatuto que ela no pode nem nunca

    poder ter o estatuto de cincia que poderemos constituir uma metafsica adequada s

    capacidades da razo humana e, portanto, legtima, digna de crdito. A filosofia kantiana tem uma

    inteno vincadamente metafsica: o seu objectivo o de reformar essa disciplina, dar-lhe

    credibilidade. Ao longo desta unidade veremos que Kant demonstra o que a metafsica no pode ser

    (uma cincia) 11 para mostrar o que ela pode ser (uma crena ou f racional). Deus, liberdade e

    imortalidade s podem ser objectos de uma f ou crena para a qual encontraremos, como mais tarde

    se ver, razes ou justificaes de ordem moral.

    a esse longo percurso que nos conduzir do momento negativo a negao de que a metafsica

    possa ser uma cincia ao momento positivo a afirmao da metafsica como f racional que

    iremos dar incio.

    Galileu, retraio de Justus Sustermans.

    ' Apesar de os textos introdutrios da Crtica da Razo Pura darem a impresso de o problema da

    cientificidade da metafsica ser uma questo em aberto Kant cria aparentemente um certo

    "suspense" a verdade que a sorte da metafsica j est traada antes de o tribunal da razo iniciar

    o seu processo. Kant, sem o dar explicitamente a entender empreende a investigao transcendental

    do conhecimento a anlise das condies que nos permitem conhecer para justificar aquilo que

    na sua mente um dado adquirido: a metafsica no uma cincia.

    a partir do sucesso de cincias Matemtica, Fsica e Lgica cuja validade considera

    indubitvel, que Kant justifica o fracasso da metafsica na sua tentativa de se constituir como cincia

    ou conhecimento puramente racional do supra-sensvel.

    Kant parte de um facto (Faktum): Matemtica e Fsica (essencialmente esta) so cincias

    constitudas. A metafsica no. Sobre ela no podemos dizer: "Aqui a tendes, podeis estud-la."

    Acerca da Matemtica e da Fsica no faz sentido perguntar se so possveis como cincias uma vez

    que de facto esto constitudas como tais. A nica coisa que devemos perguntar : "Como possvel

    o conhecimento cientfico?" para justificarmos esse facto que a cincia. Quanto metafsica Kant

    perguntar se ela possvel como cincia (e no como possvel pois ela no uma cincia

    constituda) para justificar um facto: a metafsica no uma cincia.

    PRIMEIRA PARTE

    A resposta questo O que posso conhecer?

    1.A "REVOLUO COPERNICIANA": UM NOVO MODO DE ENTENDER O

    CONHECIMENTO

    Com a designao "Revoluo Coperniciana" Kant refere a deciso de Coprnico, inauguradora de

    uma nova cosmologia: a passagem do modelo geocntrico ao modelo heliocntrico. Por que razo

    esta deciso to importante para Kant? Por que razo se lhe refere simbolicamente para expressar a

    atitude da sua filosofia face ao conhecimento?

  • Na base da substituio referida est a exigncia da Razo(1) de no se subordinar ordem sensvel,

    experincia, mas, ao contrrio, subordinar a experincia, os dados empricos, a princpios e formas

    impostos pela prpria Razo, i. e., pela nossa faculdade de conhecimento em geral. Coprnico

    considerava o modelo geocntrico (que a princpio defendeu) como "monstruoso", demasiado

    complexo, exagera-damente complicado. Parecia-lhe antinatural que um sistema to complicado

    fosse o espelho da Natureza. Ento a recusa do geocentrismo uma exigncia da Razo, uma

    deciso de autonomia da parte desta. Esta rebelio no a defesa de um sistema j estabelecido e

    considerado melhor que o ptolomaico ou geocntrico. Nessa revolta contra a complexidade a que a

    dependncia da Razo face experincia nos condenava, a Razo tira de si mesma o princpio a que

    deve obedecer o conhecimento da Natureza. Tal princpio, tambm conhecido por princpio de

    economia, diz: "A Natureza age pelas vias mais simples." Este princpio no foi tirado da

    experincia (esta d-nos uma multiplicidade complexa de fenmenos). Foi a Razo que o ps como

    fundamento da investigao da Natureza. Foi esta simplicidade defendida por Coprnico que levou

    Galileu e sobretudo Kepler e Newton a conclurem a nova astronomia e cosmologia.

    Em suma, segundo o prprio Coprnico, o seu abandono do sistema geocntrico (que retirava os

    seus princpios mais gerais da observao imediata ou emprica, ie., subordinava a Razo

    experincia) deveu-se sobretudo ao facto de ele chocar o princpio de economia, princpio racional

    por excelncia. O que motiva a revoluo a vontade de autonomia da Razo face experincia,

    embora isso no implique virar as costas ao plano emprico. A revoluo metodolgica consiste em

    rejeitar que a experincia possa fornecer Razo os princpios do seu conhecimento. Nesta mudana

    de mtodo est o fundamento de toda a cincia. So os fenmenos que se devem regular pela Razo

    e no esta pelos fenmenos.

    S na Razo, faculdade de conhecimento em geral, esto as estruturas a priori que permitem a

    constituio do conhecimento objectivo, universal ou necessrio e possibilitam um outro

    conhecimento