IMAGEM, SOM E MOVIMENTO: APREENSO DA ? IMAGEM, MOVIMENTO E SOM: APREENSO E INSTANTANEIDADE NA

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IMAGEM, MOVIMENTO E SOM: APREENSO E INSTANTANEIDADE NA MDIA. Isaac Antonio Camargo Universidade Estadual de Londrina /PR Introduo Nesse trabalho procuramos analisar as relaes entre trs entidades sensrias necessrias apreenso dos textos que ocorrem contemporaneamente nos meios de comunicao de massa, considerando o uso de sistemas de vdeo como na televiso e, atualmente, os sistemas digitais que usam imagem em movimento e som na construo das significaes que deles decorrem. Como sabemos, foi a partir do advento da fotografia que iniciamos a captao automtica de imagens. Com ela no era mais necessrio o domnio de habilidades motoras e visuais para construir imagens, elas surgiam, como que por encanto, mediante um clique no disparador de uma cmera fotogrfica. Embora simplificado esse, at hoje, o procedimento utilizado na fotografia para tomar imagens. O cinema, realizado por meio de imagens fotografadas e depois projetadas em seqncia cria, virtualmente, a iluso do movimento. Este foi um passo decisivo em busca de uma maior aproximao da imagem com o mundo natural, assim, o efeito de sentido de movimento passa, com o cinema, a povoar o mundo das imagens artificiais. O som foi o ltimo efeito de aproximao com o mundo natural que a tecnologia trouxe para a construo de simulacros. Com a gravao em fita magntica dos sons ambientais ou de estdio acoplados posteriormente s imagens do cinema, foi possvel aumentar a aproximao sensvel com aquilo que sabamos sobre o mundo e, desse modo, melhorar substancialmente sua apreenso tcnica, chegvamos ento a era do audiovisual em que as imagens passam a ser apresentadas, simultaneamente, com efeitos sonoros naturais ou incidentais, produzindo maior veracidade na relao com esses produtos tcnicos. A apreenso sensvel A apreenso do mundo natural depende, de um lado, de nossa capacidade sensria e, de outro, de nossa capacidade cognitiva. Nosso corpo aparelhado com rgos preparados para interpretar os eventos do mundo natural. Imagens, sons, odores, sabores, variaes de temperatura ou de presso so facilmente detectadas por ns. Tudo que nos atinge ou chega a ns interpretado segundo o repertrio de informaes que acumulamos ao longo de nossas vidas. Para interpretar essas informaes dependemos do estabelecimento de relaes entre elas, aqui que entra a nossa capacidade de raciocnio. Portanto, para entender o mundo, trabalhamos os dados acumulados mediante a apreenso sensvel que fazemos dele por meio de operaes mentais de ordem cognitiva, assim que o entendemos. A base fenomenolgica do mundo um dos elementos componentes dessa apreenso, mas a compreenso se d por meio da cognio, logo, no h uma separao ntida entre o domnio do sensvel e do cognitivo, mas sim uma superposio dos dois, fazendo com que operem simultaneamente sobre uma configurao sensvel, formando um todo de sentido em que a manifestao que a ns se apresenta tida como unidade e no como partes fragmentadas. Para que uma manifestao audiovisual seja considerada um texto, h a necessidade de entende-la como a resultante da fuso de diferentes ordens discursivas operadas, simultnea e concomitantemente, para a produo de um s efeito de sentido, o caso dos filmes cinematogrficos, dos vdeos e dos meios digitais que assim atuam. De modo geral, as imagens falam pelas qualidades que as constituem enquanto substncias expressivas. As qualidades sensveis do mundo como luz, espao e movimento, no contexto das imagens so tidas como qualidades visuais. De um lado esto as qualidades luminosas como sombra, luz, cor e textura, de outro as qualidades espaciais como altura, largura e profundidade que vo ser manipuladas de diferentes modos ao longo do tempo, pelas vrias civilizaes e culturas na construo das imagens que realizam. O uso efetivo do movimento, por sua vez, s surge virtualmente e em sua plena forma em 1895 por obra dos irmos Lumire, na Frana, com a inveno do cinematgrafo. At ento o efeito de movimento era sugerido pelo rebatimento de linhas, sucesso, alternncia ou seqncia de tamanhos e figuras nas imagens que crivamos. Os modos como a humanidade usa as imagens para recriar ou interpretar ou mesmo representar o mundo visvel ou se distanciar dele tem a ver com a cultura vigente e no necessariamente com uma suposta necessidade atvica de reproduzir aquilo que vemos e da maneira como vemos, embora reproduzir o visvel possa nos dar um prazer ou uma sensao de domnio sem igual sobre o mundo. Entendendo imagens Partimos do pressuposto de que uma imagem uma criao humana, portanto, fruto da cultura. As ocorrncias visuais no mundo natural, no podem, a priori, serem consideradas como imagens, dada a inexistncia do recorte, da seleo ou de qualquer atitude interpretativa por parte do ser humano. O mundo natural simplesmente ocorre, independente de existirmos ou no. As imagens foram e so criadas, para atenderem a interesses especficos em tempos e lugares diferentes na histria da humanidade. Em alguns momentos so mticas, em outros so pragmticas, se quisermos apontar apenas duas categorias. Podemos dizer que imagens mticas so aquelas que do conta das necessidades simblicas da humanidade e as pragmticas que do conta de suas necessidades prticas. Portanto, so mticas as imagens religiosas e pragmticas as imagens produzidas com fins documentais como uma fotografia, por exemplo. Nem sempre as imagens so naturalistas ou realsticas, mas so tambm arbitrrias ou abstratas, dependendo sempre da funo que so destinadas a cumprir. No nos parece coerente querermos que uma tribo indgena use os mesmos modos de construir imagens e tenha as mesmas finalidades que um artista na cultura da renascena italiana. A tribo, por sua ndole, pode ter intenes rituais e o artista renascentista, ter intenes de recriar o mundo oticamente. So modos diferentes de perceber e interpretar o mundo dentro de cada uma das condicionantes culturais. Para entendermos as imagens precisamos tambm saber com que fim foram geradas. H momentos em que a imagem ornamental, outros em que didtica e instrucional, em outros ainda, expressiva. De um modo geral no podemos associar as imagens apenas arte, mas tambm didtica, documentao e informao, que o presente caso. Pensar a imagem na mdia pensar tambm a funo que nela cumpre. Originariamente, podemos dizer que elas tinham por finalidade documentar eventos. As primeiras fotografias feitas com finalidades jornalsticas foram as produzidas por Roger Fenton, na guerra da Crimia, por contrato com o jornal ingls The Ilustrated London News, entre 1854 e 1855. Tais fotos davam conta de registros do campo de batalha, do arsenal, dos acampamentos, das campanas e dos prprios soldados em diversas circunstncias, at mesmo, em ao. Como podemos entender at hoje, a funo da imagem jornalstica levar o espectador ao local do evento, como ocorre tambm na fotografia forense. um alongamento do olho do leitor ou do jri, para o local do evento, do acontecimento. No momento em que essas imagens so tomadas, cumprem a funo de levar o leitor ou o jri a um lugar qualquer em que o evento ocorreu, no entanto, no apenas na intermediao entre duas instncias distintas que a imagem se resume ou significa, h fatores intervenientes que corroboram para estender sua funo. Nesse caso, por exemplo, as imagens tomadas com fim de simples registro, podem ter, ao longo do tempo funo documental e atender a interesses histricos especficos e no apenas circunstanciais. Nesse sentido, a fotografia, tem sido um documento histrico, antropolgico e social de grande importncia para os estudiosos, independente de terem sido feitas com fim de registro ou de expresso. As imagens podem ser lidas de modos completamente diferentes daqueles que as motivaram em outras pocas e lugares. Dados como a arquitetura, a indumentria, os tipos tnicos, as paisagens naturais ou urbanas, so elementos de significao to importantes quanto o evento que sustentou a realizao das imagens. As fotos familiares como as de casamentos, batizados, aniversrios e outras ocorrncias sociais, servem aos estudiosos da antropologia como o cultivo de organismos servem aos bilogos nos seus estudos especficos, o mesmo podemos dizer dos demais tipos de imagem, quer tenham ou no movimento. O advento do cinema associou o movimento fotografia, deu imagem uma dinmica outra que a trouxe para mais perto das sensaes do mundo natural. A tomada de uma seqncia de fotogramas diferentes mas projetados uns em seguida dos outros possibilitou a reconstruo do movimento, mesmo que virtualmente. Assim, tornou-se possvel criar a iluso de que uma imagem projetada tambm se movia, como se moviam as coisas no mundo. Assim o efeito de verdade mais completo e o simulacro fica mais perto do original. O encantamento da imagem cinematogrfica fez com que surgissem, no apenas a curiosidade sobre os aspectos cinticos do movimento, explorados por Muybridge e Marey, na dcada de 80 do sculo XIX, por exemplo, mas tambm possibilitou o envolvimento, com argumentos mais fortes, dos espectadores dessas imagens, convencendo-os mais eficientemente de sua veracidade. O cinema, antes tomado apenas pela possibilidade do espetculo ou da expresso, passa a ocupar tambm o status de documento. A possibilidade de produzir registros em movimento de fatos e eventos, trouxe este campo um novo e grande potencial. Aquilo que antes era vislumbrado apenas como um fragmento temporal, recortado numa superfcie fixa, pode ser apreciado na continuidade, na duratividade e na extensividade do movimento fazendo surgir uma nova categoria de registros, os documentrios cinematogrficos. Ao cinema associou-se o som, da em diante surgiu o audiovisual, ou seja, um sistema que acoplava simultaneamente imagem, movimento e som. O som tambm um fenmeno natural e os meios de capt-lo, reproduzi-lo e transport-lo decorreram de avanos tecnolgico exemplo do que aconteceu com as imagens. Os sistemas de radio transmisso conseguiam projetar a informao para lugares distantes, em diferentes partes do mundo, a tele difuso, ou seja a distribuio de dados distncia estava inaugurada. O som, assim como o movimento, opera na extensividade, na duratividade e, portanto, no tempo, isso que eles tm em comum. No muito tempo depois, surge a televiso, um meio de transmisso de imagens em movimento que possibilitava a sua ocorrncia em tempo real j que, ao invs da seqencialidade produzida pelos fotogramas do cinema, a imagem televisiva de fluxo contnuo, muito parecido com o processo humano de viso. Com o passar do tempo, a televiso transforma tambm o modo de informar dando-lhe a simultaneidade na construo imagtica o que antes s era possvel obter no contexto sonoro pelas transmisses radiofnicas. Decorrente da televiso, surge o vdeo, sistema eletrnico que possibilita o registro de imagens em movimento e no mais em suporte fsico como o dos filmes, mas em meios magnticos, revolucionando os modos de produo e distribuio de imagens. Com a televiso e o vdeo, chegamos ao pice do que podemos chamar de cultura audiovisual, onde os modos de captao e distribuio de imagem e som, passam a ser obtidos e operados, simultaneamente, no mesmo aparelho. Esta revoluo s ofuscada pelo desenvolvimento da tecnologia digital que, ao mesmo tempo que minimaliza os equipamentos, facilita o desenvolvimento dos computadores pessoais e agiliza a transmisso de dados em tempo real nas redes que os interligam. Lendo a mdia audiovisual televisiva O sistema audiovisual , por excelncia, qualquer sistema hbrido em que imagem, movimento e som tenham a possibilidade de serem operados simultaneamente, neste sentido, a televiso que ir assumir a responsabilidade da liderana como mdia de difuso de informao. O cinema, embora seja audiovisual, no cumpre a finalidade de comunicao social j que depende, para seu acesso dos ambientes restritos das salas de projeo. Mesmo que a televiso cubra tambm o lado do entretenimento, por ser um veculo que proporciona, na sua grade de programao, filmes, novelas, documentrios e outros programas de diferentes ordens de interesse e finalidades, o que nos importa, no momento, apenas o seu carter informativo. Neste recorte cabem ento os canais abertos cuja programao diversificada ou os canais fechados mas exclusivamente noticiosos. Um tubo vtreo que projeta imagens em movimento na sua superfcie, acompanhada por sons incidentais ou naturais o modo que nos parece mais simples para descrever o aparelho receptor de sinais de tev. O aparelho receptor uma ponta do sistema, a outra, o emissor, est necessariamente distncia do receptor. A idia de transmisso em redes, cujos receptores podem ser ligados aos canais de transmisso pelos aparelhos decodificadores de sinais, semelhante ao sistema de rdio difuso. A televiso no seguiu, como o rdio, o fim pragmtico para o qual surgiu como transmitir informaes em tempo de guerra ou para segurana nacional ou ainda para comunicao entre unidades distantes de um mesmo territrio. A televiso surge para atender ao entretenimento, as demais finalidades que ela foi acumulando ao longo de sua existncia, como as educativas, informativas ou culturais, no foram necessariamente previstas como prioridades na poca de seu surgimento. Portando, antes de pensarmos a televiso em si, devemos pensar sob quais aspectos ela se configurou enquanto invento. Se tomarmos por base um texto cinematogrfico, por exemplo, temos, ao mesmo tempo, as imagens com todas suas qualidades luminosas; o movimento com sua dinmica de ao percorrendo e determinando a especialidade da tela, temos os sons (da natureza, da fala, os sons incidentais ou musicais) reforando a imagem e seu movimento ou sua qualidade plstica ou ainda incorporando msicas, peas ou fragmentos, que podem advir de outros discursos, que operam na simultaneidade para a para a produo de sentido desse discurso. Portanto, uma das chaves da apreenso sensvel, nesse tipo de texto, a simultaneidade, pois a manifestao decorre das relaes construdas entre os diferentes modos de expresso cuja ocorrncia se d durante um certo transcurso temporal que tambm um elemento significante. Voltando questo da televiso, vamos tom-la como um veculo capaz de transmitir imagem e som simultaneamente, mas convm refletir que sua potencialidade ou eficincia no reside apenas no veculo (ou na mdia) e sim no modo como o discurso construdo nessa ou em qualquer mdia, pois a mdia em si no tudo, mas apenas parte da questo. A questo da mdia importante na medida em que estabelecemos as caractersticas do discurso e os pontos necessrios para a sua anlise. O exemplo que tomamos acima, do cinema, leva em considerao o entretenimento como o conhecemos na sociedade e no o seu aspecto documental, que lida com um outro modo de construir o texto. Assim, se tomarmos como referncia a televiso, temos que estabelecer o que dela nos interessa, pois isso que nos dar a dimenso do texto. Se tomarmos, por exemplo, a telenovela, vamos perceber que este tipo de texto possui uma densidade potica que se parece muito com o cinema quanto aos efeitos de sentido que cria para envolver os seus espectadores, no entanto, se tomarmos o telejornal veremos que no s a densidade da informao outra, como tambm a estrutura e funcionamento do texto em si. Para aprofundarmos esta anlise, podemos comparar a televiso ao nosso prprio falar. A fala, enquanto manifestao discursiva, um todo de sentido orgnico e articulado. O ato de falar associa os elementos da oralidade que so os constrangimentos do som aos dotes do aparelho fontico dos indivduos, lngua natural e ao idioma em que opera, logo na fala confluem elementos de diferentes ordens cognitivas que operam na simultaneidade do dizer, simultaneamente associados. Alm disso, no ato da fala em si, possvel associar um outro elemento significante que a gestualidade corporal daquele que fala e a esta gestualidade podem ser acoplados outros elementos de ordem cultural e tnicos que atuam em conjunto no dizer. Embora o que dizemos no contenha novidades absolutas, importante ressaltar que os processos de comunicao no so ocorrncias fragmentadas ou isoladas de outras ocorrncias, mas que operam sincrnica e sincreticamente com diferentes sistemas de significao. Podemos dizer que os textos audiovisuais possuem uma natureza mltipla e que h diferentes nveis expressivos envolvidos (sejam visuais, sonoros, verbais, gestuais etc.), que seguiriam um mesmo percurso para atingir um s fim, ou seja, promover a alteridade dos dados informados. Neste caso, para o estudo em pauta, devemos destacar um objeto tipo que sirva de exemplo e atenda s anlises que pretendemos, para tanto vamos destacar a categoria do telejornal. Modos de operar o sensvel na mdia televisiva: o telejornal O telejornal um recorte dentro da mdia televisiva que contm, em menor escala, todos os demais elementos da mdia em si. Podemos dizer que o telejornal um programa informativo que lida com os eventos e ocorrncias num dado limite geogrfico e, depois de reopera-los, reporta-os novamente ao campo geogrfico ou cultural ao qual pertence. O modelo mais tradicional de telejornal reduz-se a um cenrio que mostra, quase sempre e ao fundo, a marca da empresa televisiva que produz o jornal. Neste cenrio, alm do plano de fundo, h geralmente uma bancada ou mesa onde, por trs dela, os apresentadores se posicionam frontalmente para a locuo do jornal. Normalmente esta apresentao oral amparada pelas reportagens, entrevistas, filmes e imagens que ilustram ou complementam o que o apresentador fala. Um dos efeitos de sentido que se tem no telejornal a de intersubjetividade contempornea, pois ele se desenvolve na simultaneidade temporal envolvendo emissor e espectador. Esta uma das caractersticas mais importantes no contexto das mdias informativas e que provoca tambm o efeito de presena ou de estar presente ao prprio ato de ocorrncia da manifestao televisiva, isso contribui tambm para dar credibilidade ao telejornal, j que a atualidade um valor inerente a esse produto. Quando citamos o exemplo do cinema fizemos meno ao uso de msicas como meio de aditar informao ou sentido ao texto cinematogrfico como tal e chamamos a ateno para o aspecto interdiscursivo, pois o uso de diferentes discursos atuando simultaneamente com o fim de produzir um s efeito de sentido, nesse caso a manifestao, como um todo, assume um carter sincrtico. Mas o importante, nesse sincretismo, no interdiscursividade em si. Embora o sincretismo possa conter elementos de ordens discursivas diferentes, no se trata de discursos diferentes que se agrupam para atuarem num dado suporte ou numa dada mdia, mas sim, aspectos particulares de diferentes discursos integrando um s modo de dizer nisso que reside a multiplicidade de substncias operadas pela televiso. Um filme mostrado na televiso no o caracteriza como um produto televisivo, mas apenas o usa do sistema televisivo para ser distribudo. Por ser um produto sincrtico, o todo do discurso plural por natureza, os elementos que o integram so de ordens diferentes mas no so partes adotadas de outros discursos. O exemplo do uso da msica no cinema tpico, embora um filme possa conter diversos elementos sonoros como componentes legtimos de sua estrutura narrativa, como os sons incidentais que figurativizam coisas do mundo natural como, por exemplo, os troves que ressoam na tempestade, um galho que quebra no pisar da mata, a conversa das pessoas num bar ou a investida de uma adaga no ar, esses sons compem o todo proposto para cumprir o sentido nos textos aos quais esto integrados. Entretanto, um texto musical ao ser acoplado ao discurso sincrtico de um filme traz, alm de sua presena enquanto substncia sonora, uma outra estrutura que lhe prpria e faz parte de seu discurso enquanto msica, como resultado do que podemos chamar de pensamento ou potica musical e, desta feita, detentora de repertrio e de sentido prprio, que no necessariamente o mesmo do enredo do filme do qual faz parte. Esta insero remete e recupera a sinfonia, a cano ou simplesmente a melodia, tomando-a enquanto um outro discurso, mas que integrado ao novo discurso para apor e expandir o sentido que este se prope a construir. Falando ainda em msica, podemos trazer baila a vinheta sonora de abertura de um telejornal, embora a vinheta em si possa ter uma configurao musical especfica, sua funo, neste caso, nos convocar para entrar em conjuno com o jornal, avisando-nos que ele ter incio. A vinheta estabelece um recorte temporal, marca o antes e o depois da programao, criando uma delimitao no tempo televisivo em que estaremos em presena de um tipo especfico de produto. Isso o destaca dos demais programas e da publicidade que ocupa os outros momentos inscritos no mesmo canal. A saudao do apresentador a marca que nos convoca para estar em relao com ele e instaura um processo de atualizao do discurso sobre os acontecimentos, fatos e eventos selecionados para compor o informativo destinado a nos qualificar enquanto sujeitos de um saber que se construir no perodo delimitado pelo prprio jornal. A posio frontal e quase esttica do apresentador, a voz pausada, dosada, o jogo de olhares construdo nas trocas de cmeras mantm-nos presos, magnetizados de tal modo que dificilmente nos distrairemos durante o perodo em que o jornal decorre. As falas dos apresentadores so entrecortadas por imagens tomadas em reportagens, que levam o olhar dos espectadores a diferentes lugares do mundo. Temos as imagens e os sons do ambiente em que a reportagem feita, tudo nos leva a crer que aquilo ocorreu de fato. Ns nos estendemos para o distante, para o longnquo, como se o espao do l pudesse se superpor ao lugar do aqui. Por outro lado, no corremos o risco que o soldado ou o reprter correm na guerra, no estamos presentes numa tragdia ou num acidente nuclear, nem estivemos no maremoto da sia, mas tomamos de cada um destes eventos aquilo que nos integra ao comum ao todo como se os tivssemos visto e, quem sabe, vivenciado sob a eloqncia do enunciador com suas falas e suas imagens, as experincias humanas mais duras e mais intensas. Este alongamento do olhar permite o efeito de onipresena do qual decorre tambm um efeito de oniscincia, ou seja estamos em todos lugares e de tudo sabemos. Estes so dois valores transacionados nesse contrato de interatividade, que a mdia prope e nos qualifica tanto quanto ns a qualificamos enquanto operadora da informao que dela obtemos quase que por osmose. A mdia no instrui, mas faz saber pela imerso nas notcias que constri. Ao nos mostras as notcias que seleciona e elabora nos d tambm as chaves ideolgicas para que as entendamos, segundo os pontos de vista que ela tambm constri. Esta assuno dos fatos e eventos pelo poder dos sentidos que estamos tratando por apreenso instantnea da mdia. O uso simultneo de imagem, movimento e som que produz o efeito de instantaneidade e este efeito que promove a imerso temporal do qual decorre a atualizao do discurso televisivo. Tudo se d no aqui e no agora do telejornal. Fatos do passado remoto ou recente, informaes j explanadas no jornal impresso, no rdio ou na prpria tev so recuperadas no ato discursivo do jornal em curso. Tudo se atualiza embora tudo possa ser reordenado, reatualizado e recuperado por novos discursos dia aps dia. Referncias bibliogrficas LANDOWSKI, Eric. Modos de presena do visvel, in OLIVEIRA, Ana Cludia de. Semitica Plstica, So Paulo, Hacker/CPS, 2004, pgs. 97-112. LANDOWSKI, Eric. A Sociedade Refletida. So Paulo, Educ/Pontes, 1992.