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Iluminismo

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  • Rouanet, Sergio Paulo, Iluminismo ou barbrie , in Mal estar na modernidade, S. Paulo, Cia das Letras,1993, pp 9-45.

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    ILUMINISMO OU BARBRIE

    A CRISE DA CIVILIZAO MODERNA

    Todos dizem que a modernidade est em crise. um lugar-comum, mas como outros lugares-comuns este pode ser at verdadeiro, desde que se entenda bem o alcance do diagnstico. O que existe atrs da crise da modernidade. uma crise de civilizao. O que est em crise o projeto moderno de civilizao, elaborado pela Ilustrao europia a partir de motivos da cultura judeo-clssica-crist e aprofundado nos dois sculos subseqentes por movimentos como o liberal-capitalismo e o socialismo.

    O projeto civilizatrio da modernidade tem como ingredientes principais os conceitos de universalidade, individualidade e autonomia. A universalidade significa que ele visa todos os seres humanos, independentemente de barreiras nacionais, tnicas ou culturais. A individualidade significa que esses seres humanos so considerados como pessoas concretas e no como integrantes de uma coletividade e que se atribui valor tico positivo sua crescente individualizao. A autonomia significa que esses seres humanos individualizados so aptos a pensarem por si mesmos, sem a tutela da religio ou da ideologia, a agirem no espao pblico e a adquirirem pelo seu trabalho os bens e servios necessrios sobrevivncia material.

    Ora, esse projeto civilizatrio est fazendo gua por todas as juntas. O universalismo est sendo sabotado por uma proliferao de particularismos - nacionais,

    culturais, raciais, religiosos. Os nacionalismos mais virulentos despedaam antigos imprios e inspiram atrocidades de dar inveja a Gngis Khan. O racismo e a xenofobia saem do esgoto e ganham eleies.

    A individualidade submerge cada vez mais no anonimato do conformismo e da sociedade de consumo: no se trata tanto de pensar os pensamentos que todos pensam, mas de comprar os videocassetes que todos compram, nos avies charter em que todos voam para Miami.

    9 A autonomia intelectual, baseada na viso secular do mundo, est sendo explodida pelo

    reencantamento do mundo, que repe os duendes em circulao, organiza congressos de bruxas, associa-se ao guia Michelin para facilitar peregrinaes esotricas a Santiago de Compostella e fornece horscopos eletrnicos a texanos domiciliados no Tibet. A autonomia poltica negada por ditaduras ou transformada numa coreografia eleitoral encenada de quatro em quatro anos. A autonomia econmica uma mentira sdica para os trs teros do gnero humano que vivem em condies de pobreza absoluta.

    Marx disse que a Alemanha tinha vivido todas as contra-revolues da Europa e nenhuma de suas revolues. Podemos adaptar essa frase ao Brasil: estamos vivendo a revolta antimoderna que hoje grassa no mundo sem jamais termos vivido a modernidade.

    O universalismo, entre ns, sistematicamente repudiado por um nacionalismo cultural que parece ter sete flegos. Mal uma de suas variantes desaparece, outra toma o seu lugar. Foi assim que o nativismo setecentista foi substitudo pelo indigenismo romntico, este pelo naturalismo de Silvio Romero, este pelo jacobinismo florianista, este pelo movimento modernista, este pelo nacional-autoritarismo do Estado Novo, este pelo ISEB, este pelo CPC da UNE, este pelo chauvinismo do regime militar e este pela broa de milho. Se existe tema consensual no Brasil certamente o de que temos que desenvolver nossa prpria cultura e rejeitar modelos culturais estrangeiros. A bem da verdade, uma certa esquerda intelectual j est mudando de discurso, talvez por se dar conta da origem conservadora e do funcionamento fascistizante do topos da autenticidade nacional. Este, no entanto, continua vivssimo como atitude social, e h muito j invadiu o pas, entrando nas assemblias de estudantes, nos sindicatos de dentistas, nas academias de musculao, e como verdadeiro arrasto ideolgico, nas praias da Zona Sul carioca.

    A individualidade tambm no desperta entusiasmo. Em vez disso, h por lado um hiperindividualismo exasperado, mistura de lei de Gerson e de consumismo de Zona Franca. E, por outro lado, uma busca reverente de razes, uma confusa tentativa de recriar identidades afro-baianas, uma angstia diante da individualizao e uma necessidade de remergulhar em totalidades mais ou menos tribais. Nos dois casos, h uma nostalgia da condio paradisaca, estado adamtico em que o homem aderia ao todo. Onde fica esse paraso? Para os hebreus, o den ficava em algum lugar entre o Sinai e o Eufrates. A geografia do antipersonalismo brasileiro menos prestigiosa. Para o brasileiro em busca de agasalho comunitrio, o paraso fica entre Salvador e Porto Seguro. J para o intrpido comprador de hardware eletrnico, ele se localiza no estado da Flrida, em algum ponto entre Miami e Orlando.

  • Rouanet, Sergio Paulo, Iluminismo ou barbrie , in Mal estar na modernidade, S. Paulo, Cia das Letras,1993, pp 9-45.

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    A razo secular da Ilustrao outro valor em baixa. Mais que em outros pases, est em marcha entre ns um grande projeto de re-sacralizao do mundo. o que se nota no culto das pirmides de cristal, na seriedade com que se consultam astrlogos e videntes, e na mitologizao da psicanlise, que oscila entre os arqutipos de Jung e a reencarnao. Essas atitudes so compatveis com posies polticas de esquerda, o que uma homenagem nossa flexibilidade intelectual. Conheci um antigo guerrilheiro que descobriu, numa sesso de anlise, ser a reencarnao de Ramss, o Grande. Um amigo petista consultou o I Ching para saber se Suplicy ia ganhar em So Paulo, e pensou seriamente em fundar dentro do Partido uma nova faco, denominada Travessia Esotrica. Os sincretismos no so raros na histria das idias. No incio do sculo, por exemplo, alguns intelectuais vienenses tentaram fundir Marx com Kant. Era o austromarxismo. No Brasil, antevejo uma fuso de Marx com a astrologia: o astromarxismo.

    A experincia recente de mais de vinte anos de ditadura militar tem impedido at agora uma desiluso com as instituies democrticas. Mas a politizao no o forte das geraes mais jovens. H um certo risco de carnavalizao da poltica: uma festa em que alguns adolescentes saem periodicamente s ruas num simpaticssimo protesto contra a corrupo e as altas mensalidades escolares, e, no intervalo, a letargia. preciso convir que essa atitude aptica se justifica pela forma de funcionamento entre ns da rotina democrtica. No h como vibrar com entusiasmo cvico quando se vem as disputas parlamentares por verbas e cargos pblicos. Quando a controvrsia entre o parlamentarismo e o presidencialismo con-duzida como se fosse a competio entre dois detergentes, prefervel escolher um produto menos nocivo ao meio ambiente - por exemplo, a cerveja, tomando partido, com um chope, na guerra entre a Brahma e a Antarctica.

    Enfim, h uma grande descrena com relao ao sistema econmico. O capitalismo vivido como gerador de desemprego e de explorao, o socialismo fracassou em suas promessas de eliminar a injustia social e de promover a abundncia, e ambos se revelaram ecologicamente predatrios.

    Em suma, no Brasil e no mundo, o projeto civilizatrio da modernidade entrou em colapso. No se trata de uma transgresso na prtica de princpios aceitos em teoria, pois nesse caso no haveria crise de civilizao. Trata-se de uma rejeio dos prprios princpios, de uma recusa dos valores civilizatrios propostos pela modernidade. Como a civilizao que tnhamos perdeu sua vigncia e como nenhum outro projeto de civilizao aponta no horizonte, estamos vivendo, literalmente, num vcuo civilizatrio. H um nome para isso: barbrie. Pois o brbaro, sem nenhum ju~

    11 zo de valor, no sentido mais neutro e mais rigoroso, aquele que vive fora da civilizao.

    Diante disso, h trs reaes possveis. Podemos deixar em paz os brbaros, sem infermizar-lhes a existncia com valores civilizados. Podemos partir para um modelo civilizatrio antimoderno, que represente em tudo a anttese do projeto da modernidade. E podemos repensar a modernidade, em busca de uma alternativa neomoderna.

    No faltaro partidrios da primeira soluo. Hoje em dia a barbrie no assusta mais. Talvez ainda existam alguns nonagenrios dispostos a morrer em defesa da "deusa serena, serena forma", contra os vndalos e visigodos do verso livre. Implicncias de velho parnasiano. No excluo sequer que no fundo de alguma biblioteca semi-roda pelas traas algum professor de portugus continue babujando insultos contra os barbarismos lingsticos. Coisas de gramtico. Salvo essas hostilidades extravagantes, os brbaros em geral tm boa imagem.

    Verdade que hoje em dia os que se vem e so vistos como brbaros no vestem mais peles de urso e em vez de brandirem lanas manejam o violo, fazendo amor em vez de guerra. Alm disso, h diferenas menores - os hbitos alimentares, por exemplo. Os brbaros de hoje so vegetarianos e gostam mais da cozinha macrobitica que de javalis. No importa. O que conta a atitude contracultural. Obelix no respeitava as normas de boas maneiras de Petrnio e normalmente os brbaros brasileiros no circulam de black tie nas colunas sociais. Comum aos brbaros antigos e modernos uma ignorncia robusta, saudvel, e quase diria metdica. Nossos brbaros so to incapazes de citar o ttulo de um romance de Stendhal como um frgio do tempo de Augusto de declamar uma ode de Catulo.

    No, a barbrie no amedronta mais. Com isso, o ttulo deste ensaio (aluso ao grupo Socialismo ou Barbrie, reunido nos ps-guerra em torno de intelectuais como Castoriadis e Claude Lefort) perde grande parte do seu poder de fogo. Sem o Iluminismo at possvel que tenhamos mesmo a barbrie - e da? Na pior das hipteses, iremos todos para Porto Seguro e dormiremos na praia depois de uma bebedeira de cauim.

    Mas espero que o ttulo venha a exercer algum impacto mobilizador se refletirmos sobre a natureza da barbrie que efetivamente nos ameaa. Ela no amvel. Os verda