igaruana #6

Download Igaruana #6

Post on 22-Jul-2016

222 views

Category:

Documents

8 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Expedições em canoa canadense e aventuras na natureza [nesta edição: Astronomia indígena, Expedição ITACOATIARA, Paçoca de peixe, Diário de bordo]

TRANSCRIPT

  • N

    062015

  • 06/2015N

    nesta edio

    Dirio de bordo.........................................................pag. 03

    Expedio ITACOATIARA......................................pag. 04

    Receita: Paoca de peixe......................................pag. 18

    Astronomia indgena: o Setestrelo...................pag. 20

    Todos os textos e as imagens, salvo quando especificado

    diferentemente, so de autoria de Jack dEmilia.

    foto da capa: Tito Rosemberg

  • - 15 -- 3 -

    Dirio de bordo

    Dirio de bordo ( em ingls Log Book) um

    instrumento utilizado na navegao para

    registro dos acontecimentos mais importantes.

    Geralmente um caderno redigido pelo

    comandante, relatando a viagem que realiza e

    acabando com qualquer dvida.

    Todos os que participaram de uma expedio

    IGARUANA devem lembrar-se de quando,

    noite no acampamento, depois ter jantado e j

    prontos para dormir, me vem deitar na rede,

    com a lanterna de cabea ligada e meus

    caderninho e lpis nas mos, para anotar os

    acontecimentos do dia.

    Sim, eu fao um dirio de bordo de cada

    expedio: s vezes um relato lacnico, outras

    cheio de detalhes.

    Eu fico anotando tudo o que aconteceu de

    interessante ao longo do dia, alm das

    informaes gerais: clima, ventos, horrios de

    sada e chegada nos locais de parada

    intermdia e pernoite, distancia aproximada

    percorrida et cetera.

    Encontros com pescadores e/ou agricultores

    da regio, em geral, merecem ser anotados,

    pois sempre trazem alguma informao indita,

    alm da boa conversa.

    Quando estou cansado e no tenho a fora de

    escrever, durmo na rede com o caderno no

    peito para no esquecer de redigir meu relato

    logo que acordar, no amanhecer do dia

    seguinte... despertado pelos passarinhos que

    vem dar-me o bom-dia.

    Ter todas estas informaes disposio, nos

    permite, analisando os dados posteriormente,

    de obter teis estatsticas sobre as expedies,

    assim como estudar os eventuais imprevistos,

    problemas e incidentes ocorridos, para planejar

    como evit-los em futuro.

  • - 4 -

  • Expedio

    ITACOATIARAParte 2

  • - 6 -

    4 dia de expedio - Dia da Trilha Itacoatiara

    No quebrar da barra, todos os passarinhos do

    pedao vieram dar-me o bom-dia. Me levantei da

    rede e soltei duas amarras do meu abrigo para

    pode-lo deitar no cho e aproveitar da vista dos

    bichinhos, alm do canto deles.

    Voltei para a rede e fiquei uma meia hora

    pensando nas coisas da vida, ao deleitoso som

    da paz natural. Enfim, depois de espreguiar-me

    todo, passei pra ao.

    Numa relva pouco distante, catei um monto de

    gravetos secos. Lenha, eu tinha arrumado

    bastante na tarde anterior, e guardada aos

    pedaos num saco grande, pendurado num

    galho para no ficar mida, se fosse chover de

    madrugada. Acendi o fogo e logo pus em cima

    das chamas a cafeteira e uma panelinha com

    gua e quatro batatas-doces a cozer.

    Guardei a roupa de dormir na sacola vermelha e

    esta no saco estanque amarelo. Um lugar para

    cada coisa e cada coisa em seu lugar.

    Vesti uma cala jeans folgada e uma camisa de

    mangas compridas. Por ser uma trilha sem

    muitas dificuldades, escolhi calar um tnis

    comum, invs das botas de couro.

    No bolso anterior do bornal grande, coloquei o

    aparelho GPS e a cmera fotogrfica compacta,

    cada um envolto numa bandana, e tambm meu

    caderninho preto, um lpis, um apito, e um

    isqueiro, entre outros cacarecos.

    No bolso traseiro, coloquei o chinelo, uma boa

    faca em sua bainha e a proviso de alimentos

    para um dia de caminhada: quatro mas, uma

    poro de queijo de coalho, dois pacotes de

    bolacha salgada e um bom pedao de rapadura,

    energia pura e saudvel.

    Decidi me arriscar e no levar a jaqueta

    impermevel, o que no fez falta.

    Tomei meu caf da manh com calma e arrumei

    direitinho o acampamento antes de sair para a

    caminhada. Estiquei de novo a lona azul acima

    da rede e pendurei a comida num galho bem

    alto, longe do alcance de alguma cabra, ou outro

    animal curioso, que fosse aparecer durante

    minha ausncia. Apaguei o fogo e ainda joguei a

    gua de cozimento das batatas nas cinzas para

    maior cuidado.

    Com o bornal a tiracolo, um cantil atravessado

    de um lado e um segundo do outro, o chapu de

    palha na cabea e a bengala de bambu na mo,

    dei bom-dia ao mundo e comecei a caminhar em

    direo vila por uma estreita vereda.

    Cu azul, com apenas as nuvens brancas de um

    tpico dia de sol; faltavam dez minutos para as

    sete da manh.

    Cheguei casa de Josemar pelos fundos,

    passando por dois currais de gado e um amplo

    quintal com cara de pomar, pela variedade de

    ps de fruta diferentes.

    "Oi, de casa?!", chamei, mas ningum me

    respondeu. O rdio estava ligado, mas

    aparentemente ningum estava l.

    "Oi, de casa?!", repeti, j abrindo a porteira que

    d na rua, e segui andando. A casa de Josemar

    uma das ltimas na rua principal do Stio

    Mutamba, assim atravessei toda a vila,

    cumprimentando ora um ora outro morador.

    Bom-dia, bom-dia, bom-dia.

    Marcelo, um dos "Dois Irmos", donos do barco

    homnimo, em p no alto do madeiramento de

    um telhado em reforma, parou de trabalhar

    para perguntar-me: "Est indo l na pedra?".

    "Estou sim. S vou voltar mais tarde", respondi.

    "Cuidado com as mutucas!", ento ele acre-

    scentou logo.

    "Voc j me disse isso ontem, obrigado. Estou

    levando o repelente comigo" lhe disse, sem

    parar de andar.

    Isso um meu pequeno segredo: em caso como

    este, eu no me demoro muito para conversar;

    ralento um pouco o passo, quando for o caso,

    para permitir um breve dialogo, mas

    geralmente sigo caminhando. Se eu fosse parar

    por dois minutos apenas, acabaria ficando, de

    repente, por uma meia hora naquela prosa boa

    de quem no tem nenhuma pressa e nada a

    fazer.

    Ainda escutei eles comentarem entre si.

    "Aonde mesmo que ele vai? Que pedra essa

    que ele disse?", perguntou um.

    "Num sei no", lhe respondeu Marcelo.

    "Nunca fui acol eu. Quem indicou o caminho

    pro italiano foi o finado Zezinho; quem foi l pela

    primeira vez com ele foi Tetu, isso j faz anos".

    "Vixe, Zezinho... descanse em paz", foram as

    derradeiras palavras que capturei no ar.

    Na rua da escola, virei esquerda e segui

    caminhando pela estrada de barro at deixar

    para trs as ltimas casas da vila.

    Depois de uma curva, avistei um ancio senhor,

    vindo pro meu lado com passos curtos e

    incertos, mesmo assim sem bengala.

    "Bom-dia", falei, quando ficamos a uma distancia

    de dez a doze metros. Ele resmungou alguma

    coisa baixinho, parou e ficou me fitando.

  • - 8 -

    "Bom-dia", repeti, "Tudo bem?".

    "Hum, hum... bom-dia. Por que o senhor me

    cumprimentou de to longe?", ele indagou,

    desconfiado.

    Eu abri um sorriso para ele e disse-lhe: "Pro

    senhor, que no me conhece, saber de longe

    que eu sou do bem... ou pelo menos educado".

    "Hum... t certo", ele concordou e continuou:

    "E o senhor? Est perdido por este mundo?".

    "T nada.", respondi, "Estou indo at uma pedra,

    lgua e meia daqui, perto de um riacho no p da

    Serra do Cip. A pedra est cheia de pinturas

    antigas. Coisas de ndio, diz-lhe o povo do serto.

    Eu chamo-a de itacoatiara, que em tupi quer

    dizer, justamente, pedra pintada, riscada".

    "Hum... no sei nada dessa pedra", ele disse.

    "Poucos sabem da existncia dela", expliquei.

    "Essa pedra est dentro de uma propriedade

    particular acol, pela qual pouqussimas

    pessoas andam, s os moradores mesmo.

    Quem me ensinou o caminho foi um caador da

    regio. Tem que passar por umas tantas

    porteiras, antes de chegar no local".

    "Entendi", falou o velho sertanejo, trocando a

    expresso desconfiada no rosto para aquela

    cara que o povo faz quando deduz que voc um

    maluco, mas no dos perigosos.

    "E o senhor est indo pra rua? Mora na vila?",

    perguntei.

    "Moro.", ele disse, "Seu Carlos, o dout, mandou

    eu caminhar todo dia, de manh, at o trevo e

    voltar" Explicou-se: "E assim eu fao. Todo dia vou

    at o trevo ali. Olho de um lado, olho do outro e

    volto para casa; tudo isso bem devagarzinho,

    que j ando pela casa dos oitenta".

    Despedimo-nos e seguimos cada um por seu

    caminho. Pouco depois, cheguei ao Check Point

    Alfa, o tal trevo, e segui para direita. Duzentos

    metros depois, aos ps de uma ngreme ladeira,

    encontrei a primeira porteira. Fechada. A lei no

    est escrita, mas bem clara, todo mundo sabe:

    deixe aberta a porteira que achou aberta e

    feche de volta a porteira que encontrou fechada.

    A estrada de terra dura da caatinga, amarelo-

    alaranjado, serpenteia sinuosa no sop do

    grupo montanhoso da Serra das Pinturas, cujos

    picos sobressalientes tem nome prprio, como

    a Serra do Bonito, a do Meio e a do Cip, entre

    outros. A serra das Pinturas se estende nos

    territrios municipais de Assu, Triunfo Potiguar

    e Jucurutu, delimitando, pelo lado esquerdo,

    uma grande poro do vale.

    O serto todo verde, aps poucos dias de chuva

    uma viso que regozija os olhos. Mas o c