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Análise sobre o positivismo.

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Michael LwyIdeologiase Cincia Social: Elementos para lima anlise marxistaAs trs principais proposies terico-metodolgicas sobre o relacionamento entre ideologias, utopias, vises sociais de mundo, valores, posies de classe, posies polticas, por um lado, e o processo do conhecimento cientfico, por outro, so o positivismo, o historicismo e o marxismo. Existem tambm os possveis cruzamentos entre os trs: encontramos autores que so parcialmente positivistas e parcialmente historicistas, outros que so parcialmente marxistas e parcialmente positivistas, etc. Isto quer dizer que encontramos vrios cruzamentos, vrias fertilizaes recprocas entre essas trs correntes, que no so correntes hermeticamente fechadas, mas concepes fundamentais para enfrentar o problema da relao entre os valores e a cincia, as ideologias e a cincia, as utopias sociais e a cincia, o conhecimento e a luta de classes. Essa problemtica toda tratada atravs daquelas trs colocaes. Hoje, vamos tratar do positivismo.Primeiramente, eu vou fazer algumas observaes gerais sobre o que o positivismo ou, pelo menos, desenvolver uma proposta de anlise histrica do positivismo, aplicando o mtodo dialtico, o mtodo historicista: analisar o positivismo de maneira histrico-social, em sua evoluo. Depois, pretendo analisar uma proposio particular dentro do campo do positivismo, pelo menos parcialmente situada dentro desse campo, que a proposio de Max Weber. Esta , provavelmente, mais profunda, mais interessante e mais produtiva da doutrina da cincia livre de juzo de valor. Merece, portanto, mais discusso.Se se tentasse formular o que seria o tipo ideal do positivismo, uma sntese fundamental das ideias do positivismo poderiam ser selecionadas trs ideias principais:A sua hiptese fundamental de que a sociedade humana regulada por leis naturais, ou por leis que tm todas as caractersticas das leis naturais, invariveis, independentes da vontade e da ao humana, tal como a lei da gravidade ou do movimento da terra em torno do sol: pode-se procurar criar uma situao que bloquei a lei da gravidade, mas isso se faz partindo de que essa lei completamente objetiva, independente da vontade e da ao humana. Desse modo a pressuposio fundamental do positivismo de que essas leis que regulam o funcionamento da vida social, econmica e poltica, so do mesmo tipo que as leis naturais e, portanto, o que reina na sociedade uma harmonia semelhante da natureza, uma espcie de harmonia natural.Dessa primeira hiptese decorre uma concluso epistemolgica, de que os mtodos e procedimentos para conhecer a sociedade so exatamente os mesmos que so utilizados para conhecer a natureza, portanto, a metodologia das cincias sociais tem que ser idntica metodologia das cincias naturais, posto que o funcionamento da sociedade regido por leis do mesmo tipo das da natureza. Essa segunda concluso epistemolgica, que eu chamaria de naturalismo positivista, decorre de maneira totalmente lgica da primeira: se a sociedade regida por leis de tipo natural, a cincia que estuda essas leis naturais da sociedade do mesmo tipo que a cincia que estuda as leis da astronomia, da biologia, etc.A terceira concluso, que talvez a mais importante para a nossa discusso, que da mesma maneira que as cincias da natureza so cincias objetivas, neutras, livres de juzos de valor, de ideologias polticas, sociais ou outras, as cincias sociais devem funcionar exatamente segundo esse modelo de objetividade cientfica. Isto , o cientista social deve estudar a sociedade com o mesmo esprito objetivo, neutro, livre de juzo de valor, livre de quaisquer ideologias ou vises de mundo, exatamente da mesma maneira que o fsico, o qumico, o astrnomo, etc. Esta talvez a concluso mais importante para o nosso debate sobre a relao entre ideologia-utopia e conhecimento social. Significa que a concepo positivista aquela que afirma a necessidade e a possibilidade de uma cincia social completamente desligada de qualquer vnculo com as classes sociais, com as posies polticas, os valores morais, as ideologias, as utopias, as vises de mundo. I odo esse conjunto de elementos ideolgicos, em seu sentido amplo, deve ser eliminado da cincia social. O positivismo geralmente designa esse conjunto de valores ou de opes ideolgicas como prejuzos, preconceitos ou prenoes. A ideia fundamental do mtodo positivista de que a cincia s pode ser objetiva e verdadeira na medida em que eliminar totalmente qualquer interferncia desses preconceitos ou prenoes.Considero que importante ver a origem do positivismo e como ele se desenvolve historicamente, como ele vai se transforrnando historicamente. Pode-se dizer que a ideia de uma cincia da sociedade, elaborada segundo o modelo cientfico-natural, aparece particularmente no sculo XVIII. Pode-se encontrar em perodos anteriores alguns elementos dessa formulao, mas esta realizada mais explicitamente no sculo XVIII, no momento em que se desenvolve a filosofia das luzes o enciclopedismo e a sua luta contra a ideologia dominante na poca, a ideologia clerical, feudal, absolutista. Pode-se dizer que o positivismo moderno lilho legtimo da filosofia das luzes e, da mesma maneira que esta filosofia, ele tem em um primeiro perodo um carter utpico, quer dizer, uma viso social do mundo de dintenso utpica, crtica e, at certo ponto, revolucionria.Talvez o primeiro autor que se pode relacionar como pai do positivismo seja Condorcet filsofo ligado Enciclopdia , que foi talvez o primeiro a lormular de maneira mais precisa a ideia de que a cincia da sociedade, nas suas vrias formas, deve tomar o carter de uma matemtica social, ser objeto de estudo matemtico, numrico, preciso, rigoroso. graas a essa matemtica social que poder existir uma cincia dos latos sociais verdadeiramente objetiva. At aquele instante, ele considerava que havia existido uma teoria da sociedade submetida aos preconceitos e aos interesses das classes poderosas isso uma citao de Condorcet. Por esta colocao j se percebe o carter utpico e, mesmo, revolucionrio dessa primeira formulao do positivismo. Ele contra o controle do conhecimento social pelas classes dominantes da poca, isto , pela Igreja, pelo poder feudal, pelo Estado monrquico, que se arrogavam o controle de todas as formas do conhecimento cientfico. Trata-se ento de romper com esse controle do conhecimento e observar nas cincias sociais um desenvolvimento to cientfico, objetivo e seguro, quanto o das cincias naturais (esta , tambm, uma colocao de Condorcet). Condorcet considera que, como na marcha das cincias fsicas os interesses e as paixes no perturbam, o mesmo deve acontecer nas cincias da sociedade; e, at o momento, esses interesses e paixes entravam, como elementos de perturbao, no conhecimento. Como esses interesses e paixes so, sobretudo, das classes dominantes feudais, para Condorcet se trata de eliminar do conhecimento social as doutrinas teolgicas, os argumentos de autoridade papal, a autoridade de So Toms de Aquino, enfim, todos os dogmas fossilizados que se arrogavam o monoplio do conhecimento social. o prprio Condorcet que reconhece que o progresso do conhecimento era difcil, lento, porque "os objetos submetidos ao conhecimento social tocavam nos interesses religiosos ou. polticos. Na medida em que essas questes do estudo da sociedade atingiam aqueles interesses, havia uma interferncia que obstaculizava o progresso da cincia. Condorcet o primeiro pensador que avana essa ideia de uma cincia natural da sociedade, objetiva e livre de preconceitos.Livre de preconceitos, essas so as palavras-chave que atravessam toda a filosofia das luzes, inclusive na Enciclopdia existe um verbete chamado Preconceito, em que toda a filosofia das luzes desenvolvida: tudo que dogma irracional, dogma poltico ou religioso preconceito, do qual se trata de se libertar o pensamento e o conhecimento social.Depois de Condorcet, temos Saint-Simon, discpulo direto de Condorcet, que se reclamava de suas ideias, considerando-se discpulo e continuador de Condorcet e que vai ser o primeiro a utilizar o termo positivo aplicado cincia: cincia positiva.Saint-Simon pretendeu formular uma cincia da sociedade segundo o modelo biolgico. Para ele, a cincia social tem por modelo a fisiologia. Ele chama nova cincia da sociedade de fisiologia social. Mas, tambm no caso dele, ainda mais que em Condorcet, essa reflexo tem uma dimenso crtico-utpica. Saint-Simon era um socialista utpico, sua anlise, em sua fisiologia social, tem como finalidade demonstrar que, por exemplo, certas classes sociais so parasitas do organismo social, referindo-se a aristocracia e ao clero. Neste caso, a fisiologia social tem uma fora crtica de oposio ordem estabelecida. A ideia de uma cincia fisiolgica da sociedade tambm uma ideia que se situa no contexto do combate s doutrinas das classes dominantes da poca.Podemos dizer que, at os princpios do sculo XIX, o positivismo aparece como uma viso social do mundo, como uma concepo da cincia social que tem um aspecto utpico-crtico muito importante. A transformao, a mudana de direo, s se d depois de Saint-Simon, atravs de seu discpulo direto Augusto Comte.Augusto Comte tambm se considerava continuador de Condorcet, de Saint-Simon, mas com uma diferena fundamental, ele os considerava demasiadamente crticos, negativos. Para ele, o pensamento tem que ser inteiramente positivo, dever-se-ia acabar com Ioda a crtica e negatividade, isto , com a dimenso revolucionria desse pensamento. Comte se refere a Condorcet como esse meu eminente precursor", mas considera que o mesmo nunca chegou a descobrir as leis da sociologia devido a seus "preconceitos revolucionrios".Pode-se perceber, ento, que a palavra preconceito muda de funo: para o positivismo em sua fase utpica, o termo preconceito serve a uma funo revolucionria e crtica sempre o preconceito das classes dominantes, preconceito clerical, absolutista, obscurantista, fantico, intolerante, dogmtico; com Comte, esse sentido muda, o preconceito ievolucionrio de Condorcet, que apoi