ideologias: inventrio cr­tico dum conceito (ii)

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  • Anlise Social, vol. XIII (49), 1977-1., 97-144

    Jose Madurara Pinto

    Ideologias: inventrio crticodum conceito (ii)

    PARTE II

    SOBRE O TRABALHO IDEOLGICONA MATRIA SIGNIFICANTE DA LNGUA

    Conclumos da parte i deste trabalho1 que a problemtica do materia-lismo histrico, apesar de se opor estruturalmente da aco humana,que, por idealista, no chega a constituir as ideologias em problema socio-lgico, no ter produzido ainda uma rede conceptual adequada a umconhecimento cientfico da dimenso significativa das sociedades.

    Ter em conta a especificidade de funcionamento do ideolgico, quealis associvamos ao domnio da produo social de sentido, dissemo--lo tambm uma das condies necessrias construo duma teoria dasideologias.

    Se, atravs do conceito de prtica ideolgica, pudemos assinalar jalguns importantes elementos para uma anlise do referido domnio,tentaremos restituir nesta parte n propostas tericas vrias que, remetendodirectamente para a questo do modo de existncia do ideolgico namatria significante da lngua, nos permitam precis-la e especific-la.Situar-nos-emos para isso no contexto disciplinar das chamadas cinciasda linguagem, tentando circunscrever, de forma adequada ao objectivodeste trabalho, os espaos conceptuais que, a propsito do problema dasignificao, a se tm vindo a desenhar.

    L AS TCNICAS NO LINGUISTICAS E A LINGUSTICA ESTRU-TURAL NA ANLISE DAS SIGNIFICAES

    Convm no esquecer, entretanto, que a preocupao de analisar enun-ciados lingusticos de modo relativamente sistemtico frequentemente,alis, com o objectivo de estudar as ideologias coube, e cabe aindahoje, a disciplinas do continente das cincias sociais, como a sociologia,a psicologia, a cincia poltica, a histria, etc, terica e institucionalmentedivorciadas das cincias da linguagem.

    Mesmo sem pensar nos procedimentos classificados pelos manuais demetodologia das cincias sociais como tcnicas clssicas de anlise docu-

    1 Vd. Ideologias: inventrio critico dum conceito (I), in Anlise Social, xii,n. 45, 1976, pp. 127-152. 97

  • mental2 os quais, quando muito, permitem esboar de forma impressio-nista o presumvel sentido dos textos (o que o autor quis dizer),parece-nos conveniente deixar caracterizadas aqui, ainda que superficial-mente, as tcnicas que, no mbito das disciplinas acima referidas, soaccionadas com o objectivo de dar conta da significao dos enunciadoslingusticos implicados na anlise.

    Vale a pena assinalar um atributo que lhes comum: trata-se, emqualquer dos casos, de procedimentos de anlise alheados ou notoriamentedesfasados em relao s aquisies, hoje incontestadas, da teoria lingustica(referimo-nos, evidentemente, lingustica post-saussuriana).

    O registo sistemtico da ocorrncia de certos signos lingusticos, aanlise cruzada das respectivas frequncias relativas, com vista detecode lacunas ou regularidades estatsticas que, do ponto de vista da investi-gao em causa, se considerem pertinentes tais so os objectivos dachamada semntica quantitativa, um dos instrumentos analticos que osmanuais j referidos incluem no grupo das tcnicas documentais modernas(ou de base quantitativa). Se verdade que, enquanto procedimento emi-nentemente descritivo e exploratrio, o seu accionamento susceptvel deproduzir resultados teis na investigao sobre as ideologias, pode, comigual segurana, afirmar-se que, nesse domnio, qualquer trabalho quese apoie exclusiva ou privilegiadamente na semntica quantitativa se arris-car a acumular desconhecimentos sobre o objecto de anlise.

    Desde logo porque, nestas condies, ela transporta quase inevitavel-mente um pressuposto terico-ideolgico que a lingustica h muito seencarregou de designar como obstculo sua progresso, pondo-o deli-beradamente em causa: o pressuposto de que existe uma relao biunvocaentre significante e significado, ou seja, o de que a ocorrncia de umsigno lingustico est necessariamente associada presena de determi-nado contedo de pensamento e vice-versa. Bastar que se aceite como,alis, parece inevitvel, dado o actual estado de desenvolvimento dalingustica o carcter polissmico dos vocbulos, para claramente seapontar o vcio de tal pressuposto e as consequentes limitaes da tcnicaque o veicula.

    Tentar restituir, atravs de mtodos estatsticos adequados, as principaisredes de relaes entre os elementos recenseados, com vista delimitaodos respectivos contextos verbais e, portanto, deteco das formas ele-mentares de organizao dos enunciados lingusticos, ser ento o prolonga-mento mnimo que tcnicas como a semntica quantitativa tero deassegurar para poderem tornar-se instrumentos teis na delimitao dosefeitos de sentido desses enunciados, e no apenas no registo de vocbulosque neles sejam quantitativamente mais salientes.

    Na sequncia das investigaes de Charles Muller3, j nesse sentidoque hoje se orientam os estudos de estatstica lexical (ou lexicometri).Apesar de se debater ainda com problemas to decisivos como o dadefinio no ambgua da prpria unidade ou norma lexicolgica (palavra,vocbulo, lexia?)4, a lexicometri tem obtido progressos assinalveis na

    2 Cf., por exemplo, R. Pinto e M. Grawitz, Mthodes des sciences sociales, Paris,Dalloz, 1967 (2.a ed.).

    3 Veja-se, deste autor, Initiation la statistique linguistique, Paris, Larousse, 1968.4 Cf. J. Dubois, L. Guespin e outros, Dictionnaire de la linguistique, Paris,

    98 Larousse, 1973, p. 450.

  • anlise estatstica dos contextos verbais, atravs da construo e utilizaode diversos ndices de co-ocorrncias. O ndice de co-frequncia, que medea frequncia de apario de um termo na vizinhana de um outro, o ndicede proximidade, que assinala a amplitude dessa vizinhana, e o ndice dedesvio, que d conta da diferena entre a ocorrncia esperada do termoe a sua ocorrncia observada, so exemplos de medidas estatsticas accio-nadas pela lexicometria5.

    A utilizao da semntica quantitativa sob o comando de hiptesestericas formuladas no mbito de disciplinas como a sociologia, a histria,a cincia poltica, etc, frequentemente solidria, entretanto, de um outropressuposto: o de que existe um pleno isomorfismo entre posies naestrutura social e lxicos, por forma a cada grupo social poder ser rigo-rosamente identificado pelo emprego que faa de certos conjuntos espec-ficos de palavras.

    Para alm de, por seu intermdio, se reduzir o problema da significaodos enunciados ao da delimitao do stock lexical que actualizam o que,por razes j invocadas, insustentvel na perspectiva das teorias lingus-ticas disponveis , tal pressuposto envolve ainda outros obstculos epis-temolgicos.

    Um deles corresponde a encarar a linguagem como instrumento aoservio de um grupo social na satisfao das suas necessidades especficas:trata-se, como diz Vern, de uma concepo instrumental-funcional delinguagem6, incapaz de abrir espao para a elaborao de uma teoria dasrelaes entre conjuntos de enunciados lingusticos e respectivos geradoressociais. O outro obstculo decorrente em parte, pelo menos, do pri-meiro consiste em elidir a especificidade de funcionamento do ideolgiconas prticas discursivas: porque, segundo o pressuposto que vimos comen-tando, directa, no mediatizada, a correspondncia que se estabeleceentre lxicos e grupos sociais seus portadores, torna-se grande o risco dequalquer pesquisa sobre o ideolgico que se apoie na semntica quantitativadesembocar numa ingnua identificao das ideologias com conjuntos noorganizados de elementos lexicais; o conceito de prtica ideolgica quedesde a parte i deste trabalho vimos assumindo permite-nos rejeitar, semhesitaes, tal identificao.

    A anlise de contedo outra das tcnicas de base quantitativa queas cincias sociais no especializadas na produo de conhecimentos sobrea linguagem utilizam com frequncia na recolha de informao contidaem enunciados lingusticos.

    Se possvel delimitar o espectro de possibilidades que esta tcnicaoferece, atravs de uma frmula to simples como a que Lasswell nosprope a anlise de contedo, diz-nos ele, permite compreender quemdiz o qu a quem e como7 , nem por isso tem sido fcil resolveros problemas metodolgicos que a sua utilizao necessariamente envolve.

    Tentemos isolar alguns deles.O ponto de partida no accionamento da anlise de contedo consiste na

    traduo das hipteses tericas enformadoras da pesquisa, em categorias

    5 Cf. Rgine Robin, Histoire et linguistique, Paris, Armand Colin, 1973, p. 133.6 Cf. Eliseo Vern, Condiciones de producin, modelos generativos y manifes-

    iacin ideolgica, Buenos Aires, 1970 (policopiado).T Citado por Violette Morin, L`criture de presse, Paris, Mouton, 1969, p. 19. 99

  • temticas ajustadas classificao dos elementos lingusticos em causa.Alm dos problemas metodolgicos que, em cincias sociais, habitualmentese pem, na fase de construo de variveis da investigao emprica8,outro h que, por fora das prprias caractersticas da tcnica, aqui terde se enfrentar. Como dissemos, a anlise de contedo normalmenteaccionada no mbito de disciplinas alheadas dos contributos tericos dascincias da linguagem. Poder-se- ento prever que a grelha de anliseresultante do referido processo de elaborao de variveis s permitadeterminar o (um) sentido dos enunciados, pondo entre parnteses a res-pectiva estrutura lingustica. Dir-se-, por isso, que, na anlise de contedo,so, afinal, as hipteses no lingusticas da pesquisa que comandam o tra-tamento do material lingustico visado o que, se no obstculo insolvela uma legtima utilizao da tcnica, implica, pelo menos, limitaes sriasao seu aproveitamento como meio de trabalho adequado restituio dofuncionamento ideolgico na matria significante da lngua. Esta dificul-dade repercute-se, evidentemente, em fases posteriores do processo deaccionamento da anlise de contedo. Desde logo, no momento seguinte.Trata-se, neste caso, de optar pelo tipo de unidade de anlise (palavra, frase,pargrafo, etc.) a reter, com vista distribuio dos elementos contidos nomaterial lin