ideologias: inventrio cr­tico dum conceito (i):

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  • Anlise Social vol. XII (45), 1976-1., 127-152

    Jose Madureira Pinto

    Ideologias: inventrio crticodum conceito (i):

    localizao do objecto ideologias no quadro

    das principais problemticas sociolgicas

    1. QUESTES EPISTEMOLGICAS PRVIAS

    Um texto como este, cuja vocao consiste muito simplesmente emdelimitar/inventariar espaos conceptuais referidos a um dado objecto,e no propriamente em construir uma teoria desse objecto, em suma, umtexto meta-terico, organiza-se sempre sob o comando e nos limites deuma posio epistemolgica determinada, ela prpria princpio orientador,mas tambm resultado dum trabalho de reflexo sobre conjuntos de opera-es e produtos/discursos cientficos. Essa a razo por que no queremosdeixar de registar, justamente neste primeiro nmero, aqueles elementosque, ao definirem uma tomada de posio perante o trabalho cientficoem geral e certos aspectos das conjunturas tericas das cincias sociais emparticular, regulam afinal o modo de exposio (ex-posio) deste texto.

    Falar de espaos conceptuais, por um lado, e de conjuntos de operaese de produtos, por outro ou seja, falar no plural acerca de ambos ,no inocente.

    Pretende significar, desde logo, que neste trabalho se vai transgredirdeliberadamente a compartimentao de conhecimentos que no continentedas cincias sociais vem reservando a um nmero muito definido e restritode disciplinas cientficas, como a sociologia e a cincia poltica (maisrigorosamente, a uma ou a outra delas), o exclusivo da capacidade deapropriao do objecto ideologias. Transgredir a referida compartimenta-o equivaler assim, no nosso caso, a ir procurar elementos para umadefinio da especificidade do trabalho ideolgico, no s em disciplinasacademicamente autonomizadas, como a lingustica e a semiologia, mastambm em regies do conhecimento como a teoria dos discursos, cujaidentidade, pelo menos aparentemente, no foi ainda institucionalizada.Trata-se, sublinhemo-lo, de, num caso e noutro, assinalar elementosdirectamente configuradores do objecto ideologias em terrenos tericos cujavocao explcita e/ou consagrao Institucional recusam, em princpio,essa possibilidade. 127

  • Falar no plural, num contexto como aquele a que nos referimos,pretende significar ainda que, em cincias sociais, se verifica mesmorelativamente a cada formao cientfica de facto autonomizada umaaguda conflitualidade terica que prolonga a luta ideolgica caractersticadas sociedades de classes e necessariamente se articula com a pluralidadehierarquizada de contradies duma formao social. Embora essa con-flitualidade se possa constatar atravs da natureza diversa das noes/con-ceitos que nos discursos concretos das cincias se reportam a um mesmoobjecto real, ao nvel das problemticas onde a descoincidncia entredimenses fundamentais bem ntida que ela pode, em rigor, seraferida1. Delimitar espaos conceptuais no domnio das cincias sociais(sobretudo em sociologia, que aqui especialmente nos interessar) equivalea seleccionar noes/conceitos e relaes entre eles eventualmente situadosem problemticas distintas porque estruturalmente diferenciveis: equivale,ao fim e ao cabo, a definir, no interior duma mesma formao cientfica,espaos que no se cruzam. justamente esta a tese que accionaremosa seguir, quando tentarmos demonstrar que s no mbito duma das pro-blemticas coexistentes de forma conflitual em sociologia uma problem-tica materialista sobre as sociedades possvel delimitar um espaoconceptual internamente estruturvel como teoria explicativa das ideologias.

    A inteno que nos leva a traar as fronteiras de tais espaos nodeve fazer-nos pressupor que necessariamente tenhamos de os vir a encon-trar totalmente compactificados: se uma teoria surge e se situa sempre nombito duma problemtica, nem por isso ela esgota inevitavelmente osgraus de liberdade que nesta se contm. A progresso do conhecimentotraduz-se, assim, com frequncia, no preenchimento de vazios conceptuaisdesignados pelas problemticas, at ao esgotamento ou mutao estruturaldestas. E, quando de uma disciplina cientfica se enunciam as questesque em dado momento do seu desenvolvimento histrico ela se properesolver, est de facto a apontar-se a necessidade de compactificar aszonas inexploradas de certas dimenses das problemticas. Delimitarespaos conceptuais que estejam referenciados ao objecto ideologias nocorresponde, portanto, a inventariar apenas aquisies, mas tambm lacunasda teoria: disso mesmo dar conta, por certo, o presente texto.

    Uma questo mais, antes de ficar encerrado este nmero inicial.Cremos que no restam dvidas sobre a importncia de que se reveste

    uma inventariao de aquisies e lacunas do conhecimento para a defini-o duma estratgia que, relativamente ao objecto ideologias e aos diversosobjectivos disciplinares em causa, seja a estratgia terica justa.

    Mas a inventariao a que se alude tem tambm uma grande impor-tncia pelo facto de preceder logicamente a construo duma teoria dasideologias e esta equivaler, pelo menos na proposta de vrios autores, prpria possibilidade de instituir, e portanto delimitar, o objecto tericoda sociologia. Assim, e reportando-nos apenas a uma das problemticas

    1 a heterogeneidade conflitual entre as problemticas existentes numa mesmaformao cientfica que, pela via das teorias, mtodos e tcnicas de investigaocompatveis com as suas dimenses fundamentais, directamente impe a irredutveloposio entre resultados obtidos; sendo, porm, as condies sociais que globalmentedeterminam as condies tericas da produo cientfica (ao definirem os limites daautonomia relativa desta), a elas cabe explicar, em ltima instncia, a conflitualidade

    128 interna das cincias sociais.

  • existentes no domnio do saber institucionalmente designado por sociologia a problemtica marxista , vale a pena reter a proposta de J-P. Terraile G. Albergoni2 segundo a qual a sociologia se deve finalmente reconhecer,dotando-se dos meios de o ser cientificamente, como aquilo que semprefoi: um discurso sobre as superstruturas, devidamente articulado numateoria da totalidade social (o materialismo histrico). No mesmo sentidocaber interpretar a afirmao de P. Bourdieu e J-C. Passeron3 segundo aqual, se quisssemos a todo o custo atribuir uma certa especificidade sociologia relativamente s outras cincias, diramos que, como as outrascincias, ela tem por tarefa captar as regularidades objectivas a que obede-cem as condutas humanas, mas que tem tambm uma tarefa suplementar:a de descrever as relaes, mais ou menos ideolgicas, que os sujeitossociais estabelecem [entretiennent] com essas regularidades. Ora, se podej considerar-se como pacfico o postulado espistemolgico segundo oqual uma disciplina cientfica s est propriamente constituda como talquando as meios de trabalho de que se foi dotando tiverem permitidoconstruir o seu prprio objecto terico ou seja, lhe hajam estipuladoum lugar autnomo no conjunto das cincias , ganhar fora, por certo,a tese que acima ficou formulada.

    A construo duma teoria das ideologias e, portanto, o trabalhoprvio de inventariao que neste texto pretendemos ver efectuado justifi-cam-se ainda por outro motivo: uma teoria das ideologias um instrumentoimprescindvel em qualquer processo de interveno epistemolgica queefectivamente actue nas conjunturas tericas das cincias sociais comorectificador do erro. Evitando insistir em toda a argumentao que,a este propsito, procurmos desenvolver em anteriores trabalhos4, limita-remos aqui os nossos comentrios ao tipo de operaes de vigilnciaepistemolgica exigidas por uma utilizao controlada das tcnicas depesquisa emprica em cincias sociais. Como se sabe, uma grande partedas tcnicas de recolha de informao (tcnicas documentais, entrevistas,inqurito por questionrio, observao participante, etc.) recorrem aodepoimento dos agentes sociais acerca das suas reais condies de existncia,ou seja, como diz P. Bourdieu e J.-C. Chamboredon5, s representaesque eles tm das relaes objectivas que definem a verdade objectiva (doque so). Acontece que, a coberto da reputao de neutralidade e serie-dade que, em certos contextos, indiscriminadamente atribuda a taistcnicas, os trabalhos de investigao que a elas recorrem acabam por difun-dir e reforar os sistemas de significao que, nos depoimentos registados,restituem os aspectos fundamentais da sociologia espontnea de que todosos agentes sociais so portadores. S numa perspectiva antiempirista possvel esboar um quadro de controlos que evite as consequncias dumautilizao desprevenida de tais tcnicas e permita, localizadamente, enunciare denunciar os obstculos impostos progresso do conhecimento pelas

    1 Le discours sociologique et son objet, in Denis Hollier (org.), Panoramades Sciences humaines, Paris, Gallimard, 1973.

    3 Introduction la Sociologie, texto elaborado com base em depoimento radio-fnico conjunto.

    4 Joo Ferreira de Almeida e Jos Madureira Pinto, Significao conotativanos discursos das cincias sociais e Teoria e investigao emprica nas cinciassociais, in, respectivamente, Anlise Social, n.08 35/36 e 42/43, Lisboa, G. I. S.

    5 Texto citado na nota 3. 129

  • evidncias do senso comum. Tem-se acentuado, nessa perspectiva, a neces-sidade etc produzir, a partir das interrogaes caractersticas duma teoriaconstrutora do objecto de anlise, um conjunto de operadores capazes deregularem a transcodificao dos elementos categorizadores inscritos nasinformaes recolhidas, em discursos tendencialmente aptos a promoveremum conhecimento cientfico do objecto.

    A tese que aqui propomos, embora se localize ainda no mbito dumaposio antiempirista, pretende ir um pouco mais longe: parte do pressu-posto de que a lgica dos depoimentos recolhidos se reporta sempre a umconjunto de operaes de atribuio de sentido constitutivas das formasmais ou menos compartilhadas de inteligibilidade social e que, portanto, impossvel efectivar a transcodificao a que acima se aludiu sem recorrera uma teoria sobre as ideologias. Tra