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IDENTIDADE QUILOMBOLA E NOVO MOVIMENTO SOCIAL: UMA ANLISE DA COMUNIDADE SACOP

FALBO, RICARDO. FALCO, MONIQUE

Foz do Iguau PR: UNIOESTE, 8 a 11 de dezembro

de 2015, ISSN 2316-266X, n.4

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IDENTIDADE QUILOMBOLA E NOVO MOVIMENTO SOCIAL: UMA

ANLISE DA COMUNIDADE SACOP

FALBO, Ricardo Nery

PhdUniversit Paris, Professor Adjunto de Sociologia Jurdica UERJ

nery.falbo@gmail.com

FALCO, Monique

Mestre em Direito UERJ; Professora assistente e pesquisadora USU

mqfalcao@gmail.com

RESUMO: A pesquisa jurdica tradicional procura reconstruir o quadro histrico e social dos quilombolas no

Brasil com base em distintas esferas do reconhecimento abordadas de acordo com o empirismo

abstrato. A perspectivao terica da realidade histrica quilombola ser inscrita na chave do

paradoxo que define a identidade como relao resultante dos processos histricos e sociais de

diferenciao e universalizao, que se caracterizam pela identificao do outro e pela

identificao pelo outro. Esta perspectiva permitir criticar a categoria reconhecimento e afirmar o

papel do conceito movimento social nas pesquisas sobre quilombolas.

Palavras-chave: Quilombola; Reconhecimento; Identidade; Movimento Social

RESUME: La recherche juridique traditionnelle se livre la reconstitution du contexte historique et social des

Quimbolas au Brsil faisant lobjet de diverses sphres de la reconnaissance en tant qu'expression de

l'empirisme abstrait. La mise en perspective thorique de la ralit historique"Quilombola" sera

inscrite dans le contexte du paradoxe qui dfinit lidentit comme une relation rsultant des

processus historiques et sociaux de la diffrenciation et de luniversalisation, qui sont caractriss

par l'identification de l'autre" et par "l'identification par l'autre ". Cette perspective permettra de faire

lanalyse critique de la catgorie reconnaissance et daffirmer le rle de la catgorie mouvement

social dans les recherches portant sur les quilombolas .

Mots-cls: Quilombola; Reconnaissance; Identit; Mouvement Social

INTRODUO

O reconhecimento constitucional do direito propriedade definitiva para

remanescentes de comunidades de quilombos no Brasil supe como condio de efetivao a

definio do sujeito deste direito segundo critrios normativos que definem o reconhecimento

da identidade quilombola com base em dimenses antropolgicas associadas ideia de

cultura especfica. O carter formal desse duplo reconhecimento define o tema deste trabalho

como expresso da relao que articula de modo concreto os quilombolas como sujeitos de

direito e a propriedade definitiva da terra em que eles vivem como direito dos sujeitos. As

categorias concretas sujeito e direito sero investigadas de acordo com as prprias

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dimenses normativas que constituem as etapas formais do processo de reconhecimento dos

quilombolas: tcnico-administrativa, antropolgico-acadmica, scio-cultural. Interpretadas

como dimenses fenomenolgicas capazes de descrever a realidade quilombola segundo

configurao histrica e social determinada, as etapas do reconhecimento formal constituem

tambm as etapas da pesquisa emprica: anlise normativa, investigao documental e

pesquisa de campo. Estas subdivises da pesquisa emprica esto referidas comunidade de

descendentes de quilombolas (Comunidade Sacop) situada na Lagoa Rodrigo de Freitas (

bairro de classe alta do Rio de Janeiro).

A dimenso emprica que caracteriza a definio do tema, a construo do mtodo e a

estruturao da pesquisa encontra sua justificativa no cumprimento das tarefas fundamentais

quanto formulao terica de carter crtico no sentido da tradio da Teoria Crtica desde

sua fundao, em 1930, por Marx Horkheimer: que toda teoria esteja ancorada na realidade

como parte dela e que toda teoria seja capaz de apontar os elementos no realizados da

realidade como condio de sua superao. Por outro lado, do ponto de vista epistemolgico,

a pesquisa se justifica pela necessidade de questionamento do raciocnio de base universalista

e normativista que subtrai do processo de reconhecimento e das demandas de direito dos

quilombolas as subjetividades ou processos de subjetivao dos quilombolas. Da a

importncia da observao emprica e da conversao com Luiz Sacop de modo a inferir as

referncias de temas bsicos da sua experincia de vida (SADER, 1988: 63).

Com base nas tarefas a serem cumpridas por toda teoria crtica, a fundamentao

terica da pesquisa definida segundo perspectivao realizada com base na prpria realidade

emprica e nos resultados resultantes de sua investigao. A investigao da permanncia dos

quilombolas no espao fsico da Comunidade Sacop - territrio que eles afirmam ser

historicamente ocupado desde antes da CR/88 - revelou atos de defesa em aes judiciais de

reintegrao de posse, mediante ajuizamento de aes de usucapio, e tambm a realizao de

atividades culturais especficas de seus antepassados perante a vizinhana. Depois da CR/88,

a permanncia dos referidos quilombolas tem includo o atendimento aos procedimentos de

reconhecimento jurdico da comunidade quilombola. A atuao dos quilombolas quanto sua

permanncia em espao fsico onde possam exercer sua cultura e viver mediante titulao de

propriedade foi interpretada como luta do sujeito coletivo pelo direito propriedade, cujo

acesso ao exerccio foi positivado pelo Estado brasileiro mediante critrio econmico de

titulao de propriedade. Por outro lado, a luta pela efetivao do reconhecimento oficial do

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direito propriedade revelou tambm a luta pelo reconhecimento da identidade scio-cultural

quilombola.

Neste sentido, a perspectivao terica encontra amparo na teoria dos novos

movimentos sociais (TOURAINE, 1997), que possuem como objeto de reivindicao o

reconhecimento sociocultural mediante incluso sociocultural e econmica (GOHN, 2010).

Tais demandas se apresentam como portadoras de contedo jurdico-social estranho ao

preconizado nas instituies sociais tradicionais e procuram ver reconhecidas suas diferenas

pelas instituies sociais, o que significa dizer que pretendem, simultnea e dialeticamente, se

globalizar, mas mantendo o cuidado de no internalizarem a cultura homogeneizada difundida

pela e com a globalizao (TOURAINE, 2002).

Como o reconhecimento formal do direito do sujeito (propriedade) depende da

definio da identidade do sujeito (quilombola), a perspectivao terica se inscreve de modo

fundamental no campo da investigao da categoria identidade, e no no do

reconhecimento (HONNETH, 2003). A identidade humana criada dialeticamente como

resultado dos dilogos estabelecidos entre uns e outros, de forma que o reconhecimento

pblico da identidade quilombola requeira poltica que permita deliberar publicamente sobre

os aspectos da identidade que elas compartilham com outros cidados (TAYLOR, 1997).

Trata-se de um modelo de sociedade operatria, cujo objetivo - o de capacitar os diferentes

indivduos realizao de seus objetivos particulares - a impediria de se recusar a ouvir e

responder s demandas de seus cidados. Taylor relaciona, assim, o conceito de identidade ao

de cidado na medida em que, numa sociedade democrtica deliberativa, os cidados so os

indivduos que tm sua identidade individual partilhada e construda, dialeticamente, com os

demais cidados. O grupo do qual aqueles indivduos fazem parte se caracteriza, ento, como

novo movimento social, na medida em que ele reivindica e usa os instrumentos jurdico-

normativos postos sua disposio para exercer direitos positivados.

A construo da problemtica deste trabalho resulta da articulao entre o emprico e o

terico quanto formulao das seguintes perguntas: O processo administrativo e as normas

jurdicas definem de forma absoluta o reconhecimento e a identidade quilombolas? O

reconhecimento e a identidade quilombolas so explicados pelas condies formais do

processo administrativo e das normas positivadas? Estas condies integram as condies de

efetivao dos direitos dos quilombolas? O enfrentamento destas questes possvel atravs

da formulao da hiptese segundo a qual o direito e a identidade dos quilombolas no so

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produtos normativos deduzidos de forma mecnica e passiva de leis, cdigos e constituies

formalmente reconhecidos pelo Estado. Esta hiptese se sustenta na ideia de acordo com a

qual o direito e a identidade quilombolas resultam de processos sociais de luta por

reconhecimento, identidade e direito. Afinal, o reconhecimento do direito do sujeito

depende da luta pelo

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