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    Identidade, poltica e rios do Alto-Amazonas: o pano de boca de Chrispim do

    Amaral no Teatro Amazonas

    SVIO LUIS STOCO

    O objetivo desta apresentao abordar a constituio do discurso sobre um marco

    natural que fica prximo a Manaus e passou a ser relacionado a esta capital de maneira

    rente, a partir da circulao de representaes por meio de uma srie de obras, sobretudo

    visuais, desde meados do sculo XIX - sedimentando-se principalmente no final deste

    sculo mencionado. Este marco natural o encontro dos rios Negro e Solimes, lugar

    que posteriormente, passou a ser inserido no imaginrio turstico, ativo at hoje,

    motivando a produo de outras tantas imagens, prticas diversas, mobilizando um

    pblico amplo aspecto este que no iremos nos deter.

    Minha reflexo inicia-se com a pesquisa sobre uma imagem pictrica que tematiza

    este marco natural e que considero central no fortalecimento deste discurso, por conta

    do local privilegiado em que foi instalada. Refiro-me a um dos dois panos de boca1 do

    Teatro Amazonas (1896), aquele que prope uma representao para o encontro das

    guas dos dois rios, colocando-os em lugar de destaque na sala de espetculos deste

    monumento manauense que fez as vezes de palcio da cidade, centro da vida social e

    poltica da capital (DAOU, 2007:65). Isto por conta da importncia de encontros

    cvicos, saraus e banquetes, alm das noites de espetculos lricos que esta casa abrigou

    nos ltimos anos do XIX e primeira dcada do XX2.

    Doutorando pelo programa de ps-graduao Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP, bolsista da Fundao de Amparo Pesquisa do Amazonas - FAPEAM. 1 O outro se trata da representao de um planejamento (rideaux) aos moldes dos produzidos pelo

    cengrafo francs Eugne Carpezat (1836-1912), ao qual se atribui a produo dos panos de boca do

    Teatro Amazonas (ou pelo menos um deles). Portanto, aparentemente no esboaria relaes com a

    iconografia amaznica, meu objetivo no presente texto. 2 Mrio Ypiranga Monteiro (1966) que pesquisou sobre o Teatro Amazonas e sua programao considera

    que o apogeu desta casa vai at 1908. De 1909 a 1937 ele fala em decadncia.

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    O fato de raramente esta imagem - que a maior e aparentemente mais elaborada

    pintura de temtica amaznica no TA - ter sido abordada pela historiografia3

    instigante. Talvez uma razo para esta omisso seja a falta de documentao

    diretamente relacionada a sua feitura. No restaram esboos e to pouco o contrato

    efetuado pelo governo com o seu produtor. O que haveria sido explicitado pelo

    financiador, quando lembramos que o contrato do salo nobre desta casa de espetculos

    (inaugurado em 1901) solicitou motivos regionais4 para as pinturas parietais? A falta

    documental certamente obscurece questes sobre o pano de boca, mas nem ela em si

    responderia a todas as questes satisfatoriamente, conforme acontece com o caso deste

    mesmo salo mencionado sobre os quais restaram os esboos, o contrato chegou a ser

    publicado em dirio oficial, mas necessrio outro tipo de esforo e

    interdisciplinariedade para que se levantem hipteses e passemos a compreender estas

    imagens5. E tambm esta falta no impediria outras metodologias de abordagem, mais

    investigativas e inquietas, conforme noes atuais de uma Histria Visual e da Cultura

    Visual6, como a que iremos trabalhar aqui. Almejo ento uma anlise esttica e histrica

    ampliada, atento constituio de discursos visuais na histria da arte com foco nas

    razes operantes na sociedade que a engendrou.

    Paisagem e mitologia

    O pano de boca atribudo a Chrispim do Amaral (1858-1911) uma alegoria

    geograficamente demarcada, de cerca de 10,5m x 6,4m. E este artista, atuou como

    msico, cengrafo, caricaturista e decorador; nascido no Recife, onde estudou com

    Leon Chapelin, em sua juventude radica-se em Belm, passando posteriormente por

    3 Ana Maria Daou (2007), por exemplo, faz importantes anlises das pinturas parietais do salo nobre do

    Teatro Amazonas, mas menciona apenas em nota que o pano de boca tambm tematiza a natureza,

    razo para aprofundar a srie de pinturas daquele outro ambiente do prdio. Um dos maiores avanos na

    pesquisa sobre o pano de boca est no TCC (2015) e no relatrio de IC (2014) de Ral Gustavo Brasil

    Falcn, orientado por Luciane Pscoa na Universidade Estado do Amazonas. Eles trabalharam com a

    hiptese desta pintura se referir pera Jara (estreia, 1895), do paraense Jos Cndido da Gama Malcher

    (1853-1921), cujo libreto baseado na lenda indgena transcrita pelo etnlogo e fotgrafo Ermanno

    Stradelli (1852-1926). 4 MONTEIRO (1966), DERENJI (1996: 69) e VALLADARES (1974). 5 Uma anlise histrica e social destas pinturas pode ser encontrada em DAOU (2007). 6 Ver MENEZES (2003).

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    Roma, onde esteve ligado Academia de San Luca, Paris, onde consta ter trabalhado na

    Comedie Franaise e nos primeiros anos do sculo XX estabelece-se no Rio de Janeiro

    (DERENJI, 1996: 64).

    A imagem enquadra o ponto de encontro dos dois rios em Y (Figura 1). A ilha

    que os separa est ocupada por uma alta vegetao luxuriante que ocupa a quase

    completude da metade superior do espao, sem mostrar cu algum. Alis, o espao

    celeste parece ser a prpria mata que domina todo o alto da imagem e o fundo no qual

    um ser alado voa segurando o braso da repblica, uma trombeta e uma coroa de louros,

    aparentemente. Lembremos com isso que o Teatro Amazonas foi inaugurado, sem ter

    sido completamente terminado, no dia 31 de dezembro de 1896 possibilitando que o

    governador republicano Eduardo Ribeiro, participasse da cerimnia; nome este pintado

    no arco do palco do teatro.

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    Figura 1. Pano de boca do Teatro Amazonas, atribudo a Chrispim do Amaral. O nome de Eduardo

    Ribeiro est no retngulo azulado, no arco do palco. Crdito fotogrfico: SEC/Roumen Koynov.

    Ainda vemos duas ovais ornamentadas, com inscries de nomes dos dois cursos

    dgua dispostas lateralmente sobre uma moldura dourada e bastante elaborada, tendo

    animais e plantas repousados; moldura onde tambm lemos em sua parte inferior, em

    destaque, o nome Amazonas pintada como que em uma placa dourada

    destacadamente. Pela conveno geogrfica este rio inicia-se naquele ponto indo at a

    foz no oceano Atlntico e o encontro destes dois cursos dgua foi determinante para

    fundao ali prximo do ncleo que viria a ser a cidade de Manaus7. Desta maneira falar

    7 Ver o captulo O fazer da cidade: da cidade da conquista cidade conquistada em DAOU (2014).

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    deste marco natural falar da capital onde se situa o teatro, cidade do outro lado da

    fronteira8 do rio Amazonas com relao a Belm.

    Ainda na pintura, habitando a metade inferior, dedicada s guas (estas que no

    esto representadas realisticamente pelo negro e pela cor barrenta que as caracterizam),

    na frente da ilha, esto trs figuras emergindo. So dois homens na gua e uma niade

    repousando em uma concha.

    Inclinado e descriptivo

    Investigando os discursos amaznicos relacionados histria do estado do

    Amazonas, destaca-se o Diccionario topogrfico, histrico, descriptivo da comarca do

    Alto-Amazonas (1852) do escritor e capito-tenente da Armada Nacional9 Loureno da

    Silva Arajo e Amazonas (1803-1864), nascido na Bahia. Um livro que se notabiliza ao

    longo dos anos e no final do sculo XIX constituindo-se como uma das obras mais

    referenciadas pela intelectualidade do estado em questo. Em parte, talvez, pela

    proeminncia do autor, que em 1857 aceito pelo IGHB10 na categoria scio

    correspondente11, aps lanar seu segundo livro: um romance indigenista que se passa

    no rio Negro12.

    Mas poderamos considerar tambm a proeminncia do Diccionario e seu autor

    por serem contemporneos ao perodo de emancipao do Amazonas, aps separar-se

    administrativamente do Par fato cujo anncio pelo Imprio se d em 1850, com o fim

    da Cabanagem, efetivando-se com a lei de criao da provncia publicada em 1852, mas

    um processo que iniciou dcadas antes, com uma revolta em 1832. Portanto, uma

    independncia no-repentina, anunciada. Friso isso, pois estou considerando a produo

    8 Para esta noo de fronteira, ver A Fronteira na Histria da Arte, de CASTELNUOVO (2006). Neste, o

    autor considera um rio como uma fronteira no caso de duas cidades ligadas e que mantm relaes por

    meio deste. 9 Armada Nacional era o nome da Marinha de Guerra do Brasil no perodo monrquico. 10 O IHGB foi uma instituio criadora e polarizadora do discurso historiogrfico no Imprio do Brasil,

    segundo KODAMA (2010). 11 De acordo publicao no Correio Mercantil (1857). 12 Sim: romance histrico do Alto-Amazonas, publicado em 1857. Ver sobre a obra o trabalho de Neide

    Gondin (1996), Sim, Beirado e Galvez, imperador do Acre (fico e histria).

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    do livro a contar a dcada de 1840, quando h registros de que o autor comea a

    frequentar a regio por conta de seu trabalho na Armada Nacional. Ou seja, ele esteve

    presente e envolto naquele momento, culminando e praticamente coincidindo a

    publicao do seu primeiro livro com a separao em 1852, como mencionado.

    No somente a coincidncia com este ano de criao da provncia, mas pela

    meno direta a